teologia para leigos

11 de janeiro de 2013

«ORAÇÃO DE PETIÇÃO» [QUEIRUGA]

Orar ao Deus de Jesus

Taizé_Igreja da Reconciliação


Insistir na importância da oração em contexto de Vida Religiosa é como chover no molhado. Muito menos é necessário sublinhar a íntima dialéctica entre lex orandi e a lex credendi: «diz-me como rezas, dir-te-ei como é o teu Deus; diz-me como é o teu Deus, dir-te-ei como é a tua oração». E, no entanto, não deixa de ser muito urgente rever, profundamente, o modo de orar para que a oração se molde à nova imagem de Deus que os tempos de agora exigem.

Claro que não se trata de «acomodar-se à figura do mundo», antes pelo contrário: trata-se de aproveitar os apelos dos «sinais dos tempos» como se fossem uma profecia que nos chega do melhor da evolução cultural e recolher a sua repercussão na teologia a fim de conseguir uma autêntica conversão. Caso tal se consiga verdadeiramente, fácil será adivinhar que tal novidade nos devolverá, de facto, o mais original e o mais genuíno que a experiência evangélica tem.

Quando os discípulos começaram a perceber a nova imagem que Jesus trazia de Deus, compreenderam a necessidade de mudar o seu modo de rezar: «Senhor, ensina-nos a orar como João ensinou aos seus discípulos» (Lc 11:1). E Jesus ensinou-lhes a dizer: Abbá (Pai; em rigor, papá, já que se trata da própria onomatopeia infantil). Porém, tal ensino, aparentemente muito simples, é tão elevado e tão delicado que constantemente corremos o perigo de o obscurecer, sobrecarregando-o com os nossos medos e deformando-o com os nossos fantasmas: remete-se Deus para as alturas do Céu, e, nós, acabamos por o ver distante, dominador e justiceiro.

Portanto, necessitamos de redescobrir constantemente esse rosto que Jesus procurou revelar-nos. Nesse sentido, a mudança cultural, quer pelo contributo dos estudos bíblicos, quer pela dura purificação negativa a que a crítica da religião nos obrigou, é uma excelente oportunidade. Pelo contrário, a resistência à mudança, sob o pretexto da fidelidade à letra (mesmo com a melhor das boas vontades), corre o risco de converter-se numa terrível sementeira de ateísmo.

Estas são afirmações muito fortes, as quais não é possível fundamentar pormenorizadamente agora. Pode-se, contudo, adiantar algumas singelas indicações que apontam para a verdade que elas contêm.[1] O fio condutor é o seguinte:

Se «Deus é amor» (1 Jo 4:8.16), isto é, se todo o Seu ser consiste em amar, é óbvio que nos criou para que nos realizássemos e fossemos felizes – criou-nos e continua a criar-nos e a amparar-nos, já que a criação é um acto contínuo. Portanto, criou-nos, não «para O servir» nem «para Sua glória» (no sentido comum que as pessoas dão a esta expressão). Como criador, a Sua glória é a nossa vida (S. Ireneu); como pai/mãe, a sua alegria é ver a nossa alegria e satisfazer-se com os nossos êxitos e realizações. Por isso, na história da salvação – apesar de tantos erros horrorosos da nossa parte – fomos aprendendo que toda a Sua acção na humanidade é única e exclusivamente para ajudar e salvar. Em Jesus, por fim, compreendemos que Ele nem sequer aguarda pela nossa iniciativa, mas que o Seu amor sempre nos precede: «ninguém pode vir a mim se o Pai não o atrair» (Jo 6:44). E, precede-nos, sem condições: «sobre bons e sobre maus», «sobre justos e pecadores» (Mt 5:45). Donde resulta o convite de Jesus à confiança total, pois «até os cabelos da nossa cabeça os tem contados» (Lc 12:7).

É claro que a um Deus assim não necessitamos de pedir o que quer que seja, pois Ele está sempre a dar-nos tudo. Precisamos, justamente, do contrário: de nos deixarmos convencer, de nos deixarmos ajudar e salvar. Precisamos de confiar, apesar de todas as aparências. Ele está sempre connosco, fazendo o possível e o impossível para o nosso bem e para a nossa felicidade. Se alguma coisa falha, a Ele nunca se poderá assacar a mais pequena responsabilidade, porque tudo aquilo que se opõe ao nosso bem opõe-se identicamente ao seu amor por nós (ou mais ainda a Ele se opõe: não é verdade que os pais humanos vivem com muito mais intensidade os males dos filhos do que até os próprios filhos?)

A realidade falhará, já que, como finita que é, terá inevitáveis falhas, e falharemos nós, porque não compreendemos, porque resistimos ou porque nos negamos a.[2] Em última instância, quando ocorre algo que pode ter solução e não a tem, então, é porque não colaboramos com Deus. Só então faz sentido falar de petição, mas, petição de Deus a nós: para que nos deixemos salvar, para que acolhamos o Seu chamamento e a Sua ajuda a fim de conseguirmos fazer o bem aos irmãos necessitados. Não será este o sentido mais genuíno e, no fundo, o específico do «mandamento» do amor?






Examinemos, agora, as nossas orações de petição. Para isso, prescindamos das intenções subjectivas, examinando o que elas dizem em si mesmas e por si mesmas. Partamos de um exemplo entre milhões, que em qualquer domingo nos arriscamos a ouvir nas nossas igrejas:

Pe/ − Para que as criancinhas de África não morram de fome, roguemos ao Senhor.

Re/ − Senhor, escuta e tem piedade.


O que é que objectivamente estamos comprometendo nesta prece e, portanto, estamos individualmente a inculcar no nosso inconsciente e a espalhar no imaginário colectivo?

Procedendo com muita objectividade e falando cruamente (sempre com a ressalva de que não nos estamos a referir a intenções subjectivas e conscientes), é impossível negar que este tipo de prece – Oração de Petição − tem implicações gravíssimas.

Por um lado, o conteúdo destas petições tem como consequência que:

1/ nos apercebemos da existência duma necessidade e que decidimos agir: somos boas pessoas e tratamos de convencer Deus que também o seja;

2/ no entanto, Deus está passivo ou, pelo menos, não suficientemente activo e generoso até àquele momento em que O convençamos, caso sejamos capazes de tal;

Por outro lado, e isto é ainda mais grave, que:

3/ se no domingo seguinte as crianças africanas continuam a morrer de fome, a conclusão lógica é que Deus «não escutou nem teve piedade».

Por fim, e pior ainda, que:

4/ Deus, se quisesse, podia resolver o problema da fome, e, por conseguinte, o das doenças, o dos acidentes, o problema dos assassinatos e o das guerras, e por aí fora. Porém, vá-se lá saber porquê, não resolve.


Será que nos damos conta do que tudo isto significa?

É claro que, inconscientemente, isso não acontece, mas, de modo objectivo, através daquilo que dizemos projectamos uma monstruosa imagem de Deus. Não só ferimos a ternura infinita de um amor que só pensa em ajudar-nos e salvar-nos, como acabamos por dizer, implicitamente, algo que nem sequer do maior canalha dos seres humanos nos atreveríamos a dizer. Como é possível imaginar que, alguém que possuísse tal poder, não eliminaria de um momento para o outro tanto mal e tanto horror da face do mundo? Será Deus um ser tão singular assim capaz de tão grande monstruosidade?

Estou plenamente convicto que ninguém nunca pretendeu afirmar tal coisa e de que na mente de todos não faltam explicações atenuantes e se multipliquem os distinguos e as atenuantes. Mas, a objectividade das frases é inegável, cravando a golpes de martelo nos espíritos a imagem de um «deus» a quem devemos suplicar e convencer, para quem, inclusivamente, se elaboram recomendações e a quem se procura motivar com presentes ou sacrifícios e, ainda por cima, quem não faz caso e, quando o faz, é lá de longe a longe e favorecendo apenas uns quantos… Podem, as subtilezas teológicas, tratar de as justificar, mas basta ver a prática da piedade popular e examinar com cuidado crítico a maior parte das orações – olho, entre os meus papéis, uma pagela com uma «novena irresistível» − para constatarmos a paupérrima imagem de Deus que estamos a transmitir e que estranho comércio se procura estabelecer com Deus.





Felizmente, as boas intenções suprem muitas coisas e a linguagem tem outras dimensões para além da lógica e da objectividade, de tal sorte que nem tudo depende dela. Porém, é conveniente que se não chegue à contradição entre tão distintas dimensões (é certo que até uma blasfémia pode chegar a ser uma «oração», mas não creio que tal modo de orar seja recomendável…). Muito menos se pode jogar com questões tão delicadas: aquilo que, num ambiente mais sacral, pode ser aceitável, numa cultura secular pode tornar-se deletério.

Até porque existe um outro factor importante: estas ideias, pronunciadas «a partir de dentro» e levadas a sério constituem uma ajuda inestimável para purificar a nossa imagem de Deus. Porém, estas ideias, hoje em dia, podem ser manuseadas por qualquer televisão ou jornal para um ataque à fé. Será um ataque formidável, de eficácia devastadora, já que está carregado de razões objectivas. E, nessa altura, de nada valerão as prudências pastorais ou os distinguos teológicos.

Para cada de um de nós, tudo isto é muito claro. Estamos de tal forma mergulhados na oração de petição que nem sequer damos conta de nada, mas, quando escutada pela primeira vez, faz saltar espontâneas resistências. Resistências que, além do mais, parecem ter apoios e garantias muito sérias nas Escrituras. Não só as petições abundam nas Escrituras, como o próprio Jesus parece recomendá-las encarecidamente: «pedi e ser-vos-á dado» (Mt 7:7; Lc 11:9).

Tal facto, é inegável, mas também ele exige interpretação. Antes de mais nada, basta ver que, tomado à letra, converter-se-ia numa enorme falsidade: mesmo garantidas quanto ao conteúdo e pela liturgia, quantas petições são outorgadas? E, por outro lado, quando tudo é examinado com minúcia, ressalta a extrema cautela de Jesus – apesar daquele tempo e daquela cultura – em falar do tema:

«Nas vossas orações, não sejais como os gentios, que usam de vãs repetições, porque pensam que, por muito falarem, serão atendidos. Não façais como eles, porque o vosso Pai celeste sabe do que necessitais antes de vós lho pedirdes.» (Mt 6:7-8)

Marcos, por seu lado, cita uma frase significativa e muito estranha, que até nos própios manuscritos causou problemas:

«Por isso, vos digo: tudo quanto pedirdes na oração crede que já o recebestes e haveis de obtê-lo.» (Mc 11:24)

Finalmente, a exegese mostra que, na exortação a pedir, a verdadeira ênfase não está em pedir muito, mas em confiar muito. A famosa parábola do «amigo inoportuno» pertence às parábolas «de contraste» que insistem no «quanto mais» da bondade e do amor de Deus, bondade que supera o pensável e o imaginável: se é inconcebível que um amigo falte com a hospitalidade, «quanto mais Deus!». Impossível que Ele nos falte: a segurança é absoluta! (Para ver a força de tudo isto, leia-se Lc 11:5-13; 7:7-11; e também a parábola do juiz iníquo: Lc 18:1-8)[3]

A aplicação é óbvia: se alguma coisa pode resumir tudo o que até agora dissemos é precisamente esta confiança sem limites, de tal modo que a aparente infidelidade à letra acaba por revelar-se como  a mais profunda fidelidade ao espírito.

Note-se que desta maneira não renunciamos a nenhum modo nem a nenhuma dimensão da oração: tudo aquilo que vivemos e experienciamos ante Deus, tudo quanto necessitamos e desejamos, podemos expressá-lo sem recorrer à petição, com a vantagem de que o expomos com a máxima verdade, já que não ferimos o infinito respeito que Deus nos merece pelo seu amor e iniciativa absolutos. Além do mais, educamos o nosso interior e catequizamos o ambiente que nos rodeia. Continuando com o nosso exemplo, imaginemos quão distinto seria o clima eclesial se a prece fosse mais ou menos assim:

Pe/ − Senhor, na nossa preocupação para com a fome das crianças em África, reconhecemos a petição do teu amor compadecido, o qual nos chama a que, superando o nosso egoísmo, colaboremos contigo ajudando-os generosamente.

Re/ − Senhor, queremos escutar-te a Ti e ter piedade dos nossos irmãos.

Podíamos formulá-la num texto mais feliz, mas serve este apenas para evidenciar a direcção que se lhe quer dar. (…)

O esforço por criar novas fórmulas reveste, hoje em dia, uma urgência muito especial (…). Na inevitável travessia pelo deserto que isso implica, as pessoas com criatividade neste campo poderiam oferecer-nos a todos nós um inestimável serviço. Seria, sem dúvida, uma bela oferta da Vida Religiosa à Igreja e ao mundo, nesta hora em que tão necessário é descobrir de novo o rosto autêntico de Deus, tal como outrora brilhou na palavra e na vida de Jesus de Nazaré.

Andrés Torres Queiruga

«Por el Dios del mundo en el mundo de Dios – Sobre la esencia de la Vida Religiosa»
Ed. Sal Terræ, Santander, 2000, col. Servidores y Testigos, nº 72, pp.97-108.

[a pedido da Assembleia dos Superiores Provinciais da CONFER espanhola; previamente editado na Confer. Revista de Vida Religiosa]




[1] Para uma fundamentação mais detalhada remeto para o último capítulo do meu livro Recuperar la creación. Por una religión humanizadora. Sal Terræ, Santander 19982, pp. 247-294 (uma visão prévia pode encontrar-se em: «Mas allá de la oración de petición»: Iglesia Viva 152 (1991), 157-193.
[2] Está à vista que aludo, aqui, ao problema do Mal. Também, quanto a isto, é preciso quebrar ideias feitas: o Mal é o inevitável, já que, dada a finitude da criatura, pensar que ela possa ser perfeita equivale a pensar um «círculo-quadrado» (dito assim literalmente, ainda que, a complexidade do real não é assim tão clara como o é a simplicidade desta figura geométrica: ser círculo implica inevitavelmente não poder ser quadrado). Deus é omnipotente, mas o ser finito «deu o que tinha a dar». Por isso, Deus não nos «envia» nem «quer», e, propriamente dito, nem sequer «consente» no Mal. O Mal é produzido inevitavelmente pelas contradições das criaturas, mas Ele, Deus, luta ao nosso lado contra o Mal, sempre a nosso favor. Procurei desenvolver mais amplamente estas ideias em outras obras, cf. Recuperar la salvación, Sal Terræ, Santander, 19952, c. 2, pp. 87-155; Creo en Dios Padre, Sal Terræ, Santander, 19985, pp. 109-149; «El mal inevitable: Replanteamiento de la Teodicea»: Iglesia Viva 175/176 (1995), 37-69; «Replanteamiento actual de la teodicea: Secularización del mal, “Ponerología”, “Pisteodicea”, em (M. Fraijó – J. Massiá [eds.]) Cristianismo e Illustración, UPCO, Madrid 1995, pp. 241-292.
[3] Joachim Jeremias, As parábolas de Jesus, Edições Paulinas, S. Paulo, 1976, p. 148s. J. Jeremias chama, de facto, a atenção para o «contraste» entre o começo (da missão) e o resultado final, mas também para o «ocultamento»: no mínimo já está (contido) o máximo! Cf. a parábola do grão de mostarda, da colheita que cresce por si própria, etc. «É uma peça central da pregação de Jesus esta confiança inabalável: a hora de Deus vem (p. 155); mesmo que ocultamente, − estejamos certos − já vem a caminho! [Nota do Tradutor]



9 de janeiro de 2013

ORAÇÃO E LIBERTAÇÃO [BOFF]

Mística e Política:
Contemplativo na Libertação




(…) Creio que nos últimos anos houve uma irrupção vulcânica de Deus no nosso continente latino-americano: Deus privilegiou os pobres como o seu sacramento de auto-comunicação. Nos pobres fez ouvir as suas exigências de solidariedade, de identificação, de justiça e dignidade. E as Igrejas souberam ser obedientes (ob-audire: ser ouvinte) ao apelo de Deus. (…) Esta actuação possui uma nítida dimensão de libertação que nasce como «historificação da fé» que deseja ser adesão ao Senhor presente nos pobres. Lutar com os pobres, fazer corpo com os seus anseios é comungar com o Cristo pobre e viver o seu seguimento.

Esta perspectiva implica ser contemplativo na libertação: contemplativus in liberatione e pressupõe uma nova forma de procurar a santidade e a união mística com Deus. O choque espiritual com a nova manifestação de Deus produziu traços próprios na espiritualidade, tal como ela é vivida e praticada por muitos cristãos comprometidos com a libertação integral dos seus irmãos. (…)

O grande problema que urge esclarecer é como ser contemplativo na libertação; como, nas práticas pastorais e no contacto com o povo pobre, viver um encontro vivo com Deus. (…)


Características principais e desafios desta espiritualidade

Como identificar os traços mais significativos desta contemplação vivida em contexto de libertação?


a)  Oração materializada de [feita da matéria da] acção

A oração libertadora recolhe todo o material da vida comprometida:

as lutas, os esforços colectivos, os erros e as vitórias conquistadas; dão-se acções de graças pelos passos dados;

pede-se, não tanto individualistamente, mas em função de todo um caminhar, pelos que sofrem e pelos que os fazem sofrer;

─ na oração ressoa especialmente a conflitualidade do processo de libertação;

a confissão dos pecados é espontaneamente comunitária; ninguém se esconde por trás de palavras etéreas, mas todos abrem o coração, até pelas razões mais íntimas; é uma oração que reflecte a libertação do coração; sinalizam-se especialmente as incoerências entre o que se professa e o que se vive, a falta de solidariedade e de compromisso.


b)  Oração, expressão da comunidade libertadora

A oração privada tem o seu valor permanente e seguro, mas, nos grupos comprometidos, a oração é essencialmente um partilhar de experiências e práticas iluminadas e criticadas à luz da fé e do Evangelho. A experiência não se limita a uma esplêndida privacidade da alma com o seu Deus, mas ela abre-se ao outro quando esse outro é escutado e quando se comunica com ele. Este conforta aquele, um comenta os problemas do outro, ajudam-se mutuamente nos problemas revelados, não existe «vergonha» sagrada que esconda as visitas e as iluminações divinas. A grande maioria tem alma de livro aberto. Isso já revela o processo de libertação no seio da própria comunidade.


c)   Liturgia como celebração da vida

A liturgia canónica conserva o seu carácter vinculativo e exprime a catolicidade da expressão da nossa fé. Mas, na medida em que as comunidades unem fé e vida, mística e política, inserem cada vez mais na liturgia a celebração da vida partilhada por todos. Neste campo, aflora uma rica criatividade que possui dignidade e sacralidade garantidas pelo sentido apurado que o povo tem do sagrado e do nobre. Aproveitam-se os símbolos significativos do grupo reunido, fazem-se coreografias e, muitas vezes, verdadeiros autos espirituais com expressões corporais próprias do povo.


d)  Oração heterocrítica

A oração libertadora serve muitas vezes de exame crítico das práticas e atitudes dos participantes da comunidade. Sabem criticar-se mutuamente sem melindres e susceptibilidades pessoais. O que importa são os critérios objectivos:[1] o Reino, a libertação, o respeito pelo caminhar do povo. A partir de tais realidades, confrontam-se as práticas dos agentes da pastoral. Há verdadeiras conversões e auxílios que vêm desta sinceridade e lealdade.


e)  Santidade política

A tradição cristã conhece o santo ascético, mestre das suas paixões e fiel observante das leis de Deus e da Igreja. Quase não se conhecem santos políticos e santos militantes. No processo de libertação, criaram-se as condições para um outro tipo de santidade: além de lutar contra as suas próprias paixões (tarefa permanente), luta-se contra os mecanismos da exploração e da destruição da comunidade. Aí emergem virtudes difíceis, mas reais:

solidariedade com os da sua classe,
participação nas decisões comunitárias,
lealdade para com as soluções definidas,
superação do ódio contra as pessoas que são agentes de mecanismos de empobrecimento,
capacidade de ver além dos imediatismos e capacidade de trabalhar por uma sociedade futura que ainda não se vê e da qual talvez não se virá nunca a gozar.


Este novo tipo de ascese possui exigências e renúncias próprias, a fim de manter o coração puro e orientado pelo espírito das bem-aventuranças.


f)    Coragem profética e paciência histórica

Muitos cristãos comprometidos têm a coragem, haurida da fé e da oração, de enfrentar os poderes deste mundo lutando a favor das causas do povo e da sua dignidade pisoteada. Nisso mostram a parrhesia (coragem) apostólica de se arriscarem a sofrer perseguições, prisões, demissões do emprego, torturas e até a eliminação física. Apesar dessa coragem evangélica, têm paciência histórica para com a caminhada lenta do povo, sensibilidade para os seus ritmos, acostumados que estão a sofrer repressões. Têm confiança no povo, no seu valor, na sua capacidade de luta, apesar das suas limitações, equívocos e atraso intelectual. Crêem vivamente na força do Espírito que age nos humildes e sofredores e acreditam na vitória da sua causa e no direito da sua luta. Essa atitude nasce de uma visão contemplativa da história, da qual somente Deus é Senhor.


g)  Atitude pascal

A libertação tem um preço que sempre se paga: a morte e a ressurreição devem ser assumidas com jovialidade e serenidade evangélicas. Sacrifícios, ameaças e situações de martírio real: nada a temer. Tudo isto é assumido como parte do seguimento de Jesus. Existe um forte sentido da Cruz como passo necessário para a vitória. A Ressurreição é vivida como o momento em que a justiça triunfa, em que o povo vence a luta e faz ser vivida mais dignamente a vida. É a Ressurreição de Jesus em marcha como imenso processo de libertação que ganha corpo na história. Isto é celebrado e vivido como força da presença do Espírito no seio da história. (…)

Cada vez mais se criam novas possibilidades objectivas para a emergência dum novo tipo de cristão, cristão profundamente comprometido com a cidade terrestre e, ao mesmo tempo, com a cidade celeste, convicto de que esta depende da forma como nos tivermos engajado na criação daquela.

O céu não é inimigo da terra: começa já na terra. Ambos vivem sob o arco-íris da Graça e do gesto libertador de Deus em Jesus Cristo.

Isto não é mera teologia. É vida e mística de muitos cristãos.

Frei Leonardo Boff, ofm
«Vida segundo o Espírito»
Ed. Vozes, Petrópolis 21983, pp. 172-174.176-182





[1] «Correção fraterna», Act 5:3-4: «Não foi aos homens que tu mentiste, mas a Deus.»

8 de janeiro de 2013

BIBLIA E PASTORAL [C. MESTERS]

O objetivo do uso da Bíblia na Pastoral:
revelar a presença de Deus na vida





O objectivo do uso que Jesus fazia da Bíblia não era ajudar os outros a entender a Bíblia, mas sim o de ajudá-los a interpretar a vida com a ajuda da Bíblia. Pois, a Bíblia, o Segundo Livro de Deus foi escrito, não para ocupar o lugar da vida, mas para ajudar o povo a entender a vida e descobrir dentro da vida os sinais dos apelos e da presença da Deus.

1º LIVRO: a criação, a natureza, a vida, o mundo, os fatos, a história
O processo da encarnação e do anúncio da Palavra se desdobra em duas grandes etapas. A primeira etapa começou na criação do universo. Ou seja, a Voz da Palavra ressoa em primeiro lugar, na natureza, no universo, na vida, nos fatos, como diz o salmo: “O céu manifesta a glória de Deus, e o firmamento proclama a obra de suas mãos. O dia passa a mensagem para outro dia, a noite a sussurra para a outra noite. Sem fala e sem palavras, sem que a sua voz seja ouvida, a toda a terra chega o seu eco, aos confins do mundo a sua linguagem” (Sl 19,2-5). O primeiro livro de Deus não é a Bíblia, mas sim a natureza, a criação, o mundo, a vida, a história, os acontecimentos. É através deste Livro da Natureza ou da Vida que Deus quer falar connosco.

De que maneira a natureza é o Livro de Deus? Deus criou as coisas falando. Ele disse: “Luz!” E a luz começou a existir (Gn 1,3). Tudo que existe é a expressão de uma palavra divina. Cada ser humano é uma palavra ambulante de Deus (Gn 1,27). As crianças são palavra de Deus para os pais; os pais são palavra de Deus para as crianças. Mas nós já não nos damos conta de que estamos vivendo no meio do livro de Deus e que cada um de nós é uma página viva deste livro divino.

Há algo que nos impede de reconhecer a presença da Palavra na vida, algo que “sufoca a verdade” (Rom 1,18). O que nos impede? Santo Agostinho diz que foi o pecado, esta nossa mania de querer dominar tudo, de tratar a natureza como mercadoria e de achar que somos donos de tudo. Por isso, as letras do Primeiro Livro de Deus atrapalharam-se e a humanidade já não consegue descobrir a fala de Deus no Livro da Vida. Perdemos o olhar da contemplação, nossa capacidade de admirar (cf. Eclo 42,17.22-25; 43,11.27-28). Por isso, surgiu a segunda etapa da encarnação e do anúncio da Palavra de Deus. Nasceu a Bíblia, o Segundo Livro de Deus.

2º LIVRO: a Bíblia
A Bíblia foi escrita, não para substituir o Livro da Vida, mas sim para ajudar-nos a entendê-lo melhor e a descobrir nele os sinais da presença de Deus. O estudo e a leitura orante da Bíblia nos devolvem o olhar da contemplação e nos ajudam a decifrar e a interpretar o mundo, os acontecimentos, a natureza. Fazem com que o Universo se torne novamente uma revelação de Deus, e volte a ser o que deve ser “O Primeiro Livro de Deus” para nós.

Como é que Deus faz isso? Como é que a Bíblia foi escrita? O texto da Bíblia não caiu pronto do céu. Nasceu ao longo dos séculos, fruto da acção do Espírito de Deus e de um demorado processo de busca. Impelido pelo desejo de encontrar Deus, o povo foi descobrindo os sinais da sua presença escondida na vida, na história, na natureza e, dentro dos critérios da sua cultura, transmitia-os para as gerações seguintes. Assim foi nascendo a Tradição Viva do Povo de Deus, transmitida oralmente de geração em geração. No fim, registaram todas as suas descobertas num livro (cf. Ex 17,14). Este livro é a Bíblia.

A Bíblia traz o resultado da leitura que o povo hebreu fez da vida e da natureza para descobrir nelas a fala e os apelos de Deus. Este Segundo Livro de Deus (a Bíblia), assim dizia Santo Agostinho, ajudou o povo a re-descobrir e a entender melhor o Primeiro Livro de Deus (a Vida, a Natureza). A Bíblia é o resultado da Pastoral que se fazia naquela época para ajudar as pessoas a descobrir Deus na vida.






Aqui está o objectivo mais importante de toda a Pastoral que pode ser resumido da seguinte maneira: com a ajuda e a orientação da Bíblia devemos também nós “escrever a nossa Bíblia”, isto é, devemos imitar o povo de Deus e, como eles, devemos também nós tentar ler a nossa realidade, descobrir nela os apelos de Deus e expressá-los e proclamá-los dentro dos critérios da nossa cultura.


Mística: só trabalha com a Palavra
quem se deixa trabalhar pela Palavra

No fim, sobra uma pergunta: Qual foi a mística que sustentava a Jesus na encarnação e no anúncio da palavra e o mantinha na fidelidade, a vida inteira, até a morte, e morte de cruz? O segredo escondido da vida de Jesus era o Pai. Jesus vivia unido a Ele através da oração. É na oração que ele assimilava e encarnava a Palavra em sua vida. A palavra que Jesus anunciava era a experiência que ele mesmo tinha da palavra. Ele dizia: “Eu te louvo, Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e inteligentes, e as revelaste aos pequeninos. Sim, Pai, porque assim foi do teu agrado!” (Mt 11,25-26). Jesus experimentava a presença de Deus nesta sua inserção no meio do povo.
 Os primeiros cristãos conservaram uma imagem de Jesus orante que vivia em contacto permanente com o Pai. (Jo 4,34). Em vários momentos ele aparece rezando, sobretudo nos momentos decisivos de sua vida. Eis alguns destes momentos. Você pode completar a lista:

* Aos doze anos de idade, lá no Templo, na Casa do Pai (Lc 2,46-50).
* Na hora de ser baptizado e de assumir a missão, ele reza (Lc 3,21).
* Na hora de iniciar a missão, passa 40 dias no deserto (Lc 4,1-2).
* Na hora da tentação, enfrenta o diabo com a Escritura (Lc 4,3-12).
* Na hora de escolher os Doze, passa a noite em oração (Lc 6,12).
* Na hora de começar a falar da sua paixão (Lc 9,18).
* Na alegria diante dos pequenos: “Pai eu te agradeço!” (Lc 10,21).
* Na cura do surdo-mudo, olhou para o céu e gemeu (Mc 7,34).
* Na hora de ressuscitar Lázaro (Jo 11,41-42)
* Participa das romarias ao Templo nas grandes festas (Jo 5,1).
* Participa das celebrações nas sinagogas aos sábados (Lc 4,16)
* Reza antes das refeições (Lc 9,16; 24,30).
* Procura a solidão do deserto para rezar (Mc 1,35; Lc 5,16; 9,18).
* Rezando, desperta vontade de rezar nos discípulos (Lc 11,1).
* Rezou por Pedro para ele não desfalecer na fé (Lc 22,32).
* A pedido das mães dá a bênção às crianças (Mc 10,16).
* Na crise sobe o Monte para rezar e é transfigurado (Lc 9,28).
* Celebra a Ceia Pascal com seus discípulos (Lc 22,7-14).
* Na hora da despedida reza a oração sacerdotal (Jo 17,1-26).
* Indo para o Horto reza salmos com os discípulos (Mt 26,30).
* Na agonia ele reza: "Triste é minha alma" (Mc 14,34; cf Sl 42,5.6).
* Na angústia pede aos três amigos para rezar com ele (Mt 26,38).
* Ao ser pregado na cruz, pede perdão pelo seu carrasco (Lc 23,34).
* Na cruz: "Meu Deus! Por que me abandonaste?" (Mc 15,34; Sl 22,2).
* Na morte: "Em tuas mãos entrego meu espírito!" (Lc 23,46; Sl 31,6).
* Jesus morre soltando o grito do pobre (Mc 15,37).


Oração é luta ('agónica')

Esta lista mostra como Jesus rezava nos momentos importantes da sua vida: na crise e na tentação, na escolha dos apóstolos e na decisão de ir para Jerusalém, na agonia do Horto e na hora de morrer na cruz, na alegria e na tristeza. Sua vida era uma oração permanente: "Eu a cada momento faço o que Pai me mostra para fazer!" (Jo 5,19.30). A ele se aplica o que diz o Salmo: "Eu (sou) oração!" (Sl 109,4).

Carlos Mesters e Francisco Orofino

I CONGRESSO BRASILEIRO DE ANIMAÇÃO BÍBLICA DA PASTORAL
Goiânia, 8 a 11 de Outubro de 2011
Francisco Orofino, Carlos Mesters