teologia para leigos

29 de dezembro de 2012

NATAL_7 - O DEUS CRISTÃO

O Deus cristão

um Deus da pobreza ou um Deus-com-os-Pobres [Emanu-El]?



Para nós, o problema de Deus não é tanto o ateísmo, mas a idolatria.[1]

A questão que mais fundamente nos é colocada não é tanto se somos crentes ou ateus, mas de que Deus somos crentes e de que Deus somos ateus.

O nosso problema não é se existe ou não existe Deus, mas qual é o verdadeiro Deus. O nosso problema é discernir entre o Deus verdadeiro e a multidão de ídolos. […]

O nome de Jesus é pronunciado entre opressores e oprimidos e com sentidos inteiramente contraditórios.[2] É evidente que os ídolos do Poder e do Dinheiro estão activos e cobram muitas vítimas, ainda que disfarçados sob roupagens cristãs.[3]

É neste contexto de luta entre deuses que o Espírito nos outorga um instintivo sentido espiritual de reivindicação do autêntico Deus cristão, uma busca apaixonada pelo «Deus de Jesus», um constante desejo de discernimento acerca da qualidade cristã do nosso Deus e um esforço por desmascarar os ídolos.

Ao longo deste discernimento do Deus verdadeiro face aos ídolos, a nossa espiritualidade deixa-se guiar pelo mesmo critério que nos orienta, seja lá onde for: Jesus de Nazaré! Queremos buscar o Deus «cristão», isto é, o Deus de Cristo, aquele que Jesus revelou. Trata-se dum regresso ao Jesus histórico. Ao redescobrir Jesus na Igreja (…) damo-nos conta que entram em crise não poucos aspectos referentes à imagem de Deus, que já não correspondem ao Deus de Jesus. Ficamos diante duma crise radical, na medida em que afecta a raiz mais fundamental. Crise purificadora, sobretudo se for capaz de superar a resistência à conversão ao Deus de Jesus.

Presumimos que, indiferentemente da ideia que tenhamos já de Deus no fundo das nossas mentes, podemos partir à descoberta de Jesus e, depois, pela Fé, comprovar que já conhecíamos esse Deus em Jesus (inspirados, quiçá, por Aristóteles, por tradições religiosas culturais ou através do nosso simples senso comum). Foi assim que muitas vezes funcionou a nossa afirmação da divindade de Jesus: ao afirmar que Jesus é Deus não mudámos a nossa ideia prévia de Deus, apenas corrigimos a compreensão que tínhamos de Jesus em função da nossa ideia prévia de Deus. Não nos deixámos evangelizar por Jesus, apenas ajustámos a evangelização de Jesus aos nossos esquemas mentais prévios, que, no entanto, eram alheios a Jesus.

Assim, muitos cristãos, que se auto-proclamam como tal, adoram outros deuses, outros ídolos, confundindo-os com o Deus cristão.

Mas não deve ser assim. O Deus cristão não tem a ver com a ideia que previamente temos de Deus antes de conhecer Jesus. «A Deus jamais alguém o viu. O Filho Unigénito (…) foi Ele quem o deu a conhecer.» [Jo 1:18] Para conhecer o verdadeiro Deus «cristão» há que renunciar às nossas ideias prévias acerca de Deus e aprender que, quem e como é Deus a partir de Jesus.

«O Novo Testamento diz-nos muito menos que Jesus é Deus e muito mais que Deus é Jesus». [clicar aqui JAMES D G DUNN]

Sejamos muito claros: tudo o que possamos vir a saber de Deus terá que ser aprendido em Jesus. Não podemos manipular a revelação que Deus nos faz em Jesus corrigindo-a – consciente ou inconscientemente – a partir do que já pensávamos ou cuidávamos saber previamente de Deus, mas, pelo contrário, devemos corrigir a nossa ideia de Deus em função daquilo que Jesus nos revela acerca de Deus.

Crer em Jesus é crer no Seu Deus-Pai, no Deus bíblico.

A pergunta pelo Deus cristão é a pergunta mais radical que se pode fazer à própria Igreja.
Trata-se de saber se o Deus que adoramos é realmente o de Jesus ou um ídolo mascarado. E esta pergunta abarca também a análise acerca da função que a fé cristã desempenha na sociedade e na história. Porque, podendo parecer um Deus cristão quando nos atemos às referências bíblicas e ao universo pessoal, pode, sem dúvida, acontecer que Ele está ao serviço (legitimando práticas e estruturas) inteiramente contrárias ao plano de Deus, ao Reino pregado por Jesus. Portanto, a pergunta vai para lá das boas intenções do indivíduo, da comunidade ou da Igreja (esta como instituição).[4]

Como é este Deus que se revelou a nós em Jesus? Como é o Deus cristão em quem acreditamos? A «espiritualidade da libertação» [VIGIL, JM et al] dá conta de modo claro e testemunhalmente apaixonado do seu Deus em todos e cada um dos seus capítulos. Por ora, queremos apenas reunir sinteticamente umas quantas pinceladas mais importantes.



.Cremos no Deus de Jesus, Aquele que ele [Jesus] nos revela na sua carne, nas suas obras e também na sua palavra e na sua história viva.

.Cremos no Deus do Reino, o Deus de Jesus, que nos revelou o seu projecto sobre a história e nos encomendou a tarefa de o acolher e o construir: o Reino!

.Cremos no Deus encarnado (universal, porém concreto) na Kenosis, que se fez carne, cultura, sexo, dialecto, regionalismo…

.Cremos no Deus da História, que se manifesta na história, se faz história e faz caminho com a história [dos homens] e nos devolve a história como responsabilidade nossa.

.Cremos no Deus da Vida, que cria a vida e se gloria da vida[5], que quer que todos os homens se salvem, que tenham a vida e a tenham em abundância (Jo 10:10).

.Cremos no Deus dos pobres, que com poder se manifesta libertando o povo, levantando do pó os humildes e destronando os poderosos.

.Cremos no Deus de todos os nomes, que actua e está presente em todos os povos e religiões, que escuta a todos os que o invocam com sinceridade, mesmo que sob outros nomes, que não exige a ninguém que abandone a sua cultura específica para sentir-se reconhecido por Ele.

.Cremos no Deus Pai e Mãe, que criou o homem e a mulher, iguais em dignidade, complementares quanto à realização de cada um.

.Cremos no Deus Trindade, comunhão original, comunidade finalizante.

.Cremos num Deus que luta contra os ídolos, que se enfrenta com os principados e potestades deste século, um Deus contra os deuses da morte.


in Servícios Koinonía




JESUS E DEUS

por Juan Antonio Estrada, sj

«Por isso, é necessário rever as cristologias, distinguir entre os elementos culturais e contextuais das suas afirmações e o núcleo destas, e vê-las como derivações e actualizações da vida, da morte e da ressurreição de Cristo, em vez de se centrar nestas duas últimas, como tem acontecido.

É preciso reposicionar o discurso dogmático, já que muitas vezes acaba por tornar-se incompreensível, dada a mudança cultural e religiosa que se deu no nosso tempo.

Não se trata de negar as cristologias de raízes testamentárias, mas sim de revê-las e procurar novas sínteses que respondam à nossa situação actual.

Velhas formulações, como as trinitárias, são não só incompreensíveis para uma parte dos nossos concidadãos como também equívocas, porque levam ao triteísmo em vez de levar ao Deus trinitário, e levam a cristologias que desvalorizam a vida de Jesus, para pôr a ênfase nas interpretações sobre a sua morte e ressurreição. (…)

O cristão não crê em Deus sem mais, em abstracto, mas no Deus de Jesus.»

Juan Antonio Estrada, “Jesus e Deus”, in «QUEM FOI, QUEM É JESUS CRISTO?», Coord. Anselmo Borges, Gradiva, 22012, pp.147-148. [Actas do Colóquio de Valadares, 2010]






OUTROS LINKS:


[1] R. Muñoz, Dios de los cristianos, Paulinas, Santiago do Chile, 1988.
[2] Até entre os poderosos membros dos governos neoliberais (português e espanhol) – vitalmente comprometidos com os interesses-sanguessuga da banca especulativa – falam dos ‘pobres’ e dos ‘desprotegidos’ com ar compungido… Até os representantes oficiais dos católicos portugueses (vide Cardeal Patriarca de Lisboa e Presidente da Conferência Episcopal Portuguesa) falam dos ‘pobres’ e acrescentam que “é claro que temos que pagar a dívida” … (ao Capital especulativo e à custa dos pobres trabalhadores, acrescento eu).
[4] «Não temos que dar de barato que o nosso Deus é o Deus da Vida que, em Jesus, se manifesta. É possível dizer Missa todos os dias, estar diante do Santíssimo Sacramento em Adoração Perpétua ou desenvencilhar-se como pároco, provincial ou bispo e, sem dúvida, usar a imagem de um Deus que não é o Pai de Jesus. Pode tratar-se de um Deus de uma instituição, de uma cultura ou a projecção de desejos infantis. Temos que discernir constantemente a fim de que o nosso Deus não seja o Deus das realidades humanas sacralizadas», Pedro TRIGO, Vida consagrada al Dios de la Vida, «Enfoque» (La Paz, Confer Boliviana), Janeiro 1992, p. 25.
[5] «Gloria Dei homo vivens», S. Ireneu. J. Sobrino, La aparición del Dios de la vida en Jesús de Nazaret, in Jesús en América Latina, Sal Terræ, Santander 1982, 157-206.



28 de dezembro de 2012

NATAL_6 - DEUS E O DINHEIRO

«Aconteça o que acontecer, estamos aqui»
[Mateus 2:1-2.11]

«Tendo Jesus nascido em Belém da Judeia, no tempo do rei Herodes, chegaram a Jerusalém uns magos vindos do Oriente. E perguntaram: «Onde está o rei dos judeus que acaba de nascer? Vimos a sua estrela no Oriente (…) e, entrando na casa, viram o menino com Maria, sua mãe. Prostrando-se, adoraram-no; e, abrindo os cofres, ofereceram-lhe presentes: ouro, incenso e mirra.»


Basílica de S. Pedro_Roma



Os «magos» não são Reis: são pagãos orientais (mal vistos pelos judeus; não crentes em Yahvé), sensíveis naturalmente a uma certa espiritualidade. Buscam – são itinerantes (anti-Templo)[1]. Não são “sábios, nem poderosos” [Powell], recusam apoderarem-se de Deus, recusam-se a comprar Deus (Nm 22:7.37). Vivem duma certa sabedoria de vida (o fantástico, o conhecimento a partir das estrelas - a astrologia -, a predição). Confira Números 22:24, em que o rei moabita Balac chama o adivinho (‘mago’) Balaão para amaldiçoar os israelitas. No fim duma luta agónica, o mago Balaão contraria o desejo do rei e acaba por predizer a derrota de Moab: ou seja, para o mago, a bênção de Deus recai, não sobre os moabitas (guerreiros, ancestralmente, inimigos dos israelitas), mas sobre os israelitas, transumantes. Os ‘magos’, regra geral (há excepções na literatura romana antiga), a partir da sua ‘sabedoria natural’ e da sua leveza itinerante, anunciam a derrota de reis iníquos latifundiários. [W. Carter]

Os magos fazem uma dupla experiência:

1.   vão para lá da crença (persa) nas “estrelas” (vão para lá dum certo “budismo epicurista”[2], duma certa ‘religião naturalista’),
2.   e intuem uma certa revelação intra-histórica de Deus;

Não se assustam diante das formas instituídas (tidas como opressoras) de poder político e de poder religioso (cf. Roma e Jerusalém: Herodes vs. sumo-sacerdote e escribas). A reacção negativa que se ouve em Jerusalém aquando da inquirição dos magos (Mt 2:3 - «Ao ouvir tal notícia, o rei Herodes perturbou-se e toda a Jerusalém com ele.»;) antecipa um fim trágico, uma morte violenta (instigada também por ambos os poderes, político e religioso; confronte Mt 2 com Mt 27:20.25; “ouro”, sinal da realeza deste Menino; “incenso”, sinal da divindade do Menino; “mirra”: premonição de fim violento, trágico; perfume para embalsamar o seu cadáver…).

Os Magos, que dalguma forma são já anti-ídolos/anti-deuses, professam a sua fé numa figura que é anti-rei: sem exército e sem fetiches.

Conjuntamente com o poder político, a religião oficial Jerusalém e a sua corte de “funcionários do sagrado”apodrecida por dentro, começa a tremer!

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«A alegre máquina das oferendas»



Peguemos, apenas, no óbolo de S. Pedro, isto é, o conjunto das oferendas endereçadas ao Papa por fiéis das igrejas particulares, institutos de vida consagrada, sociedades de vida apostólica, fundações e privados: em 2010, totalizava «apenas» 67 milhões de dólares, com uma redução de 20% relativamente aos 82,5 milhões de 2009, afastando-se, assim, mais ainda, do recorde dos 100 milhões obtidos em 2006. (…)

Certamente que o andamento das finanças é uma das maiores preocupações no Vaticano. A alegre máquina das oferendas já não fabrica as receitas numa única vez, [por oposição ao tempo em que] durante todo o ano se podia apostar na generosidade dos fiéis. E sem dinheiro não se pode senão renunciar ao próprio domínio. Hoje só se esquecem estas obsessões na vigília das festividades consagradas quando, como se dum presépio vivo se tratasse, chegam à Praça de S. Pedro óbolos e verbas em dinheiro, bem como generosas gratificações de todo o mundo.

No Natal e na Páscoa é uma autêntica procissão. Frades franciscanos com pastas e envelopes de cartas a transbordar de notas, managers que trazem candelabros de prata ou gratificações consideráveis, lobistas, empreendedores, abastados aristocratas e jornalistas. Em torno do Papa, anima-se a humanidade matizada das oferendas, que vê na pessoa do pontífice a referência principal, a figura catalisadora. […]

O próprio pontífice não se poupa a esforços de modo a garantir um fluxo contínuo de dinheiro nas caixas. Seja com campanhas que envolvam todo o mundo católico, como a recolha no Ano Santo, o óbolo de São Pedro ou a destinação de uma parte simbólica dos impostos, que em Itália é de 8 por mil. Seja com iniciativas pessoais e momentos privados.

Todos aqueles que chegam às audiências, os poucos privilegiados que conseguem possuir o chamado «bilhete beija-mão», deixam o óbolo em troca de beijar o anel e da foto de família. No bilhete está indicado o número de pessoas que podem entrar e a data da audiência que ocorre às quartas-feiras na Sala Paulo VI, na Praça de S. Pedro, ou então no segundo andar do Palácio Apostólico. Tudo reservado aos escassos generosos eleitos que podem gozar de um encontro privado com o Papa. Aliás, - como se diz? - «ao Vosso gentil coração».


Funcionários do sagrado_Basílica de S. Pedro



É difícil calcular as médias estatísticas, porque se trata de dados que não são tornados públicos, tal como grande parte dos orçamentos das entidades que contribuem para as finanças da Igreja. Mas, num só dia, das indiscrições recolhidas e dos documentos à disposição, pode-se determinar que com as audiências consegue-se recolher quantias desde os 40 000 aos 150 000 euros.

Os colaboradores de Bento XVI ocupam-se das contas. As listas são compiladas, em grande parte, no computador com anotações ainda escritas à mão. A estes documentos contabilísticos anexam-se os maços de notas e cheques. Prontos a ser lavados para o IOR [Instituto das Obras da Religião], o cofre dos cardeais, onde o Papa possui vários depósitos a ele vinculados a títulos diferentes, com poder de delegação para monsenhor Georg[3] para transferências e créditos. Trata-se daquilo que, geralmente, é denominado como «depósito do Papa», um fundo pessoal e secreto sobre o qual convergem diversas quantias, dos lucros do IOR ao óbolo de S. Pedro, o qual o pontífice destina à beneficência.

Estamos em condições de ver o prospecto contabilístico do dia 1 de Abril de 2006:

50 000 euros recebidos, 41 689 em dinheiro, 6625 em cheques, o resto em divisas estrangeiras.

Se formos depois examinar a contagem das oferendas entre audiências públicas, privadas e doações, percebe-se como são os próprios sacerdotes e as dioceses a trazer o maior número de óbolos numa corrente de generosidade que vai da periferia até ao coração de São Pedro. Naqueles dias, entre os benfeitores, encontramos os frades menores da província seráfica da Úmbria, a Obra diocesana dos peregrinos de Lugano, o mosteiro alemão Kloster Mallersdorf, o santuário Madonna della Fontana e alguns indivíduos como Javier Echevarría, que é o prelado da Opus Dei, e o então presidente do IOR (Instituto das Obras da Religião) Ângelo Caloia com 5000 euros em dinheiro.

Cada óbolo esconde uma história, uma personagem que deve ser descrita. Graças às cartas que chegaram até nós, podemos por exemplo reconstruir as doações de Caloia, gerente da alta finança milanesa, que passou em 1989 do banco Mediocredito Central à direcção do IOR, a instituição que Marcinkus deixou, sob a ameaça de prisão, pela derrocada financeira do Banco Ambrosiano. Caloia será o último dos mais fiéis laicos escolhido por Wojtyla a deixar o Vaticano, três anos depois da «revolução gentil» lançada pelo Papa alemão. Nos primeiros meses do novo pontificado, Caloia espera talvez ainda uma confirmação, depois de vinte anos passados no topo da instituição de crédito. Procura, assim, valorizar a própria actividade bancária. Divulga, na Secretaria de Estado e nos sagrados palácios, os resultados obtidos pelo IOR, capaz de recolher 5 mil milhões de euros entre os próprios clientes. E mostra também particular generosidade. Passam alguns dias, e, a 23 de Abril de 2006, manda uma posterior oferta choruda. Desta feita é de 50 000 euros, de acordo com o que se lê na afectuosa carta que endereça ao Papa: «all.50.000,00R/24-abril/2006». O estilo escolhido é particularmente obsequioso. Caloia define a quantia como um «modesto sinal». De 50 000 euros. (…)


Bento XVI_Sede Apostólica



Voltando aos «esmoladores» e ao prospecto de 1 de Abril, existe também quem mereça o prémio da invencibilidade por tenacidade. De facto, 30% das oferendas registadas nesse dia foram entregues por uma freira de rara influência entre os religiosos: a poderosíssima abadessa das Brigidinas, Tekla Famiglietti que, vinda de Sturno, uma aldeia da Campània, tornou-se embaixadora dos papas e superiora das freiras presentes em todo o mundo.

São quatro os depósitos distintos sem indicações sobre quem terá transferido para a irmã aquela quantia. Nem há necessidade de sabê-lo. A discrição é uma marca característica desta madre superiora, estimadíssima por Wojtyla e pelo seu secretário pessoal, dom Stanislaw Dziwisz, pelas iniciativas das Brigidinas em Cuba, na Polónia e em países na altura comunistas. Sobre elas se contam verdades e lendas: «Diz-se que um dos quatro números», revela hoje o núncio Pupi d’Angeri, excêntrico diplomata amigo de [Fidel] Castro e Arafat, embaixador do Belize em Itália, «na memória do telefone da escrivaninha de João Paulo II era precisamente o da irmã Tekla».

É também ela que Andreotti aponta como um «general do corpo armado», tão importante que, nos anos oitenta, lhe fará transferir quantias de dinheiro da conta «fundação cardeal Francis Spellman» que o sete vezes presidente do Conselho abrira no IOR. E a abadessa é da casa no banco do Papa, onde Pietro Orlandi trabalhou durante dezoito anos, depois de a sua irmã Emanuela ter desaparecido em 1983, um caso que permanece ainda por resolver: «Quando madre Tekla vinha ao guiché», recorda Orlandi durante um encontro nosso, «trazia enormes quantias de dinheiro e dava gorjetas consistentes sem olhar nos olhos».

Gianluigi Nuzzi, «SUA SANTIDADE – as cartas secretas de Bento XVI. Como o Vaticano vendeu a alma.» Bertrand Editora_2012, pp. 92-97.








«Aconteça o que acontecer, estamos aqui», e seremos monges da miséria
[Mateus 2:1-2.11]





Nem a clausura monástica isola: «A clausura delimita um espaço de acolhimento, parece-se com um coração aberto, ferido pelo sofrimento deste mundo» (‘Aime’, p. 72).

Sabemos que lugar o compromisso com os pobres ocupou na vida de Christophe depois do seu encontro com Emaús e o Abbé Pierre. Para ele, essa relação com os pobres permanece verdadeira mesmo no interior do mosteiro: «Creio profundamente numa proximidade misteriosa entre o monge e o delinquente, o prisioneiro, os nossos amigos da Arche, os torturados. Penso que tenho de receber dos mais pobres a permissão de ser monge, monge da miséria» (ibid.)

“Christophe Lebreton – monge mártir em Tibéhirine e mestre espiritual para os nossos dias”, por Dom Henri Teissier, arcebispo emérito de Argel. Consolata Editora (Fátima), Tradução de Aventino Oliveira. ISBN 978-972-8265-45-8.

[cf. o filme Des hommes et des Dieux de Xavier Beauvois]




OUTROS LINKS:

VATICANO, DINHEIRO E NEGÓCIOS OBSCUROS

ESCÂNDALO E IMPOTÊNCIA NO VATICANO

BENTO XVI AMIGO DE NEOCATECUMENAIS, ARAUTOS ET AL

JOÃO PAULO II – UM PAPA DO OPUS DEI

VATICANO, OPUS DEI E MÁFIA - LAVAGEM DE DINHEIRO

CATOLICISMO TETRAPLÉGICO

BENTO XVI – TEOLOGIA LATINA, ANTIGA E MEDIEVAL 1

BENTO XVI – TEOLOGIA LATINA, ANTIGA E MEDIEVAL 2

«LEGIONÁRIOS DE CRISTO» - O LIXO DA IGREJA ESPECTÁCULO

JORNADAS M. JUVENTUDE – OS BENFEITORES DA CORRUPÇÃO ECLESIAL

BEATIFICAÇÃO DE JOÃO PAULO II – VIOLAÇÃO DO CÓDIGO DO DIREITO CANÓNICO




[2] Duma certa forma de religião filosófica ataráxica, duma procura duma certa paz à custa do afastamento das tensões e das lutas sociais e históricas (por oposição à «religião histórica» de Israel), privilegiando o contacto com a natureza romântica, consoladora, retemperadora, idílica (cf. os hodiernos ‘resorts’… e as propostas turísticas actuais).
[3] Georg Gänswein, presbítero e teólogo alemão, um dos dois secretários particulares do Papa Bento XVI, prior da catedral de Friburgo antes de se mudar para Roma (para a cátedra de Direito Canónico na Pontifícia Universidade da Santa Cruz). Antes de ser escolhido por Bento XVI para seu secretário particular, servira, na Congregação para a Doutrina da Fé, o cardeal Joseph Ratzinger.

25 de dezembro de 2012

NATAL_5 - DEUS E O DINHEIRO

«Creio que o cristianismo ocidental desenvolveu em si mesmo toda uma tradição, a que eu chamaria uma espécie de ateísmo, “um ateísmo suspenso”, no sentido em que o cristianismo chega a manter a fé em suspenso (estou a pensar no «Geläut der Stille», o «carrilhão do silêncio», de Martin Heidegger), em que o cristianismo chega a estabelecer uma distanciação face a Deus e face a qualquer tipo de comportamento que o pudesse levar muito a sério. Esta tradição sugere um ateísmo latente no cristianismo (salvo no Oriente cristão). Como se o cristianismo, concretamente, fosse incapaz de suportar uma presença ou sequer uma afirmação excessiva de Deus ou, mais ainda, como se tivesse necessidade de uma certa dose de ateísmo para poder suportar-se a si mesmo enquanto fé em Deus. Como se o ateísmo lhe fosse mais que necessário para expressar correctamente a sua fé em Deus, alertando contra o seu excesso. Como se «Etsi Deus non daretur» fosse a coisa mais natural. Pensemos, antes de mais, na passagem bíblica: “(Quando estiveres doente) ora ao Senhor, oferece incenso e oferendas generosas à medida das tuas posses. Depois, chama o médico, pois te será útil.” [Sir 38:9.11-12] Ou seja, muito pragmaticamente, encomenda-te ao teu anjo da guarda, mas não te esqueças de ir ao médico, tá?! E o autor sagrado, como que para não escandalizar o eventual leitor devoto, acrescenta: “Porque ele também [o médico] foi criado pelo Senhor”...».

Adolphe Gesché
Etsi Deus non daretur»: como se Deus não existisse)





«AI DE VÓS…!»
Distopias evangélicas


As utopias apontam para um futuro idílico universalmente desejável. Nos seus antípodas, o neologismo distopia anuncia um horizonte apocalíptico do qual apetece fugir.



1.   INTRODUÇÃO


Utopia e distopia são conceitos relativos – diante da mesma expectativa social, indicam perspectivas divergentes.

A luta utópica de algumas ONG’s, a fim de conseguir medicamentos livres de patentes para países em vias de desenvolvimento, desenha um cenário distópico para as empresas farmacêuticas que reivindicam os direitos de propriedade intelectual para amortizar os seus investimentos em investigação. No século passado, a utopia da conservação da selva tropical amazónica defendida por Chico Mendes constituiu uma clara distopia para os interesses depredadores dos fazendeiros brasileiros que o assassinaram.

Tradicionalmente, a mensagem evangélica alheou-se acriticamente da utopia. A Boa Notícia, apresentada sob as roupagens edulcorantes duma sociedade paradisíaca, foi comummente recebida e aceite como ideologia apetecível por todos. No entanto, basta ter em atenção o destino trágico de Jesus e dos mártires cristãos de todos os tempos para concluir, sem ambiguidades, que o horizonte do reino de Deus é essencialmente distópico. Ao longo da história, os guardiões do status quo sempre viram com maus olhos qualquer tentativa de construir uma sociedade mais justa, mais fraterna e igualitária.


Jesus, profeta distópico

Jesus foi condenado e executado por ser distópico: as suas palavras e acções foram, pelos seus contemporâneos, entendidas como uma ameaça real para o sistema social, político e religioso dominante. O anúncio de um Reino de Deus, em que publicanos e prostitutas precederiam os sacerdotes e os anciãos do povo (cf. Mt 21:23-32); um Reino em que pobres, aleijados e coxos ocupariam os lugares de honra desvalorizados pelos convidados da primeira hora o povo judeu (cf. Lc 14:15-24); um Reino em que a adoração em espírito e em verdade suplantaria o culto do Templo de Jerusalém (cf. Jo 4:19-24) punha em perigo os pilares sagrados da nação judaica.

Jesus não foi um activista político possuidor dum plano revolucionário de reformas sociais. A sua mensagem e a sua acção estavam em continuidade com a tradição profética israelita. Na sua experiência religiosa foi-se revelando o rosto de um Deus distópico intimamente preocupado com a sorte dos ‘mais pequenos’. Uma relação privilegiada com o Abba do povo, o que o levou a proclamar o advento dum reino no qual a santidade de Deus surgia vinculada ao destino dos empobrecidos:

«Jesus faz a experiência de um Deus diferente. É o Abba do povo. Interessa-lhe a vida do pobre (Mt 6:9-13): nela, joga-se a realidade da sua paternidade histórica. Decidira reinar , mudando a situação dos marginalizados.»[1]


A decisão de Caifás

Ainda que tragicamente expedito a tomar decisões, o sumo-sacerdote Caifás foi muito lúcido na análise das possíveis consequências da mensagem de Jesus: «Não percebeis que é preferível que morra um só homem pelo povo do que a nação [judaica] ser destruída?» (Jo 11:50)

A afirmação da primazia da pessoa sobre a Lei divina, a solidariedade contaminante com «os impuros», a crítica da religiosidade farisaica ou a inclusão dos pagãos nas promessas da Aliança, fizeram do galileu um profeta subversivo. A sua própria utopia sócio-religiosa questionava pela raiz a ordem judaica baseada na exclusividade da Promessa e na exclusão de todos aqueles e aquelas que pudessem manchar a pretensa santidade do Povo Eleito.


Ais’ distópicos

O evangelista Lucas estava muito consciente do conflito latente na proclamação da boa nova do Reino de Deus. Por isso, não hesitou em acrescentar uma «mal-aventurança» a cada «bem-aventurança do Sermão da Planície:

«Ditosos os pobres / Ai de vós, os ricos!»
«Ditosos os que têm fome / Ai de vós, os que estais saciados!»
«Ditosos os que chorais / Ai de vós, os que agora riem!» [Lc 6:20-26]

As mesmas distopias que acrescentam tensão ao «bucólico» Magnificat mariano (Lc 1:46-55). A utopia de um Deus misericordioso que enaltece os humildes e enche de bens os famintos rapidamente fica ameaçada pelas nuvens distópicas que anunciam tempestade para os poderosos e ricos: «derrubou dos seus tronos os poderosos […] e, aos ricos, despediu-os de mãos vazias».

Porquê esta estreita ligação entre promessa aos desfavorecidos e ameaça aos privilegiados?
A situação dos pobres e dos famintos é incompatível com a manutenção da situação dos de melhor estatuto social e económico?
Não estará porventura, o Evangelho, a estabelecer uma relação de causa-efeito conflituosa e gratuita?


2.   MATRIZ DISTÓPICA: OS ÚLTIMOS SERÃO OS PRIMEIROS

«Os últimos serão os primeiros e os primeiros serão os últimos» (cf. Mt 20:16) – esta estranha profecia é a matriz nutritiva que alimenta o carácter distópico da Boa Notícia evangélica.


O anúncio do reino de Deus é bi-direccional. Por um lado, promete uma melhoria de vida para os pobres e sofredores e, por outro, «ameaça» a situação de privilégio dos satisfeitos. Uma dupla direcção que não persegue uma mera mudança de lugares: os pobres passam a ocupar o cadeirão dos ricos e os ricos sentam-se no chão dos pobres. Não.

Muito menos se reduz a um acto de caridade, de modo a que os que mais têm se vêm convidados a ajudar os mais necessitados.

Pobres e ricos estão convocados a caminhar rumo a um lugar inédito no qual a sorte de ambos será alterada.

A distopia evangélica não procura restabelecer um ponto de equilíbrio dum sistema desequilibrado. Não se trata de pôr mais riqueza no prato dos pobres a fim de equilibrar uma balança que sempre pendeu mais para o lado dos que mais têm. Não defende que os menos favorecidos venham a gozar dos privilégios do mundo rico, identificando, assim, Reino de Deus com sociedade de bem-estar.

O que a antítese primeiros-últimos propõe é deslocar o fiel da balança, manejar para que a medida resultante seja favorável aos últimos. Propõe uma viragem coperniciana que desloque o centro de gravidade do sistema social, arrastando, consigo, os seus planetas associados: económicos, relacionais, políticos, culturais, etc., de modo que toda a constelação orbite em torno das necessidades e prioridades dos mais desfavorecidos.

Que os últimos sejam os primeiros e que os primeiros sejam os últimos significa assumir que os empobrecidos marquem o ritmo do nosso progresso. Implica que aceitemos que os primeiros terão que ir atrás de coxos, estropiados e cegos. Obriga a abrandar a nossa marcha, renunciando ao sprint para o qual nos treinamos nesta sociedade de êxito, de modo a que todos e todas cheguemos juntos à meta.

Obriga a pôr de quarentena os sucessos convertidos em dogmas inquestionáveis do nosso modelo de desenvolvimento. Reclama, por último, estarmos dispostos a renunciar a não poucas doses de riqueza que, com unhas e dentes, defendemos como se direitos inquestionáveis.

O Reino de Deus não se reduz a pequenos ajustes reformadores: vai mais além. Pretende refundar a ordem social. Propõe, nas palavras de Ignacio Ellacuría, «inverter a história»:

«O que falta fazer é imenso. Só utópica (distópica, diríamos nós) e esperançosamente se pode acreditar que é possível, com todos os pobres e oprimidos do mundo, ter coragem para reverter a história, subverter a história e lançá-la noutra direcção.»[2]





Para lá da moral. Injustiça estrutural

As utopias / distopias evangélicas situam-se para lá do âmbito moral, não procuram premiar os pobres virtuosos e castigar os ricos invejosos. Denunciam uma situação que é prévia a qualquer acção: a mera existência de riqueza num contexto de pobreza generalizada é uma situação escandalosa que exige ser alterada. Como dirá Jon Sobrino:

«Mesmo que por hipótese a coexistência de ricos e pobres não fosse devida à injustiça, tal facto exprime um monumental descalabro e um fracasso fundamental da família humana.»[3]

Segundo os dados do último relatório para o Desenvolvimento Humano da ONU, uma criança que nasça na Noruega tem uma esperança de vida de 81,1 anos. Se nasce na República Democrática do Congo, a sua expectativa reduz-se para 48,4 anos.[4] Trata-se do pecado “original-originante” que deve ser redimido.

Os exegetas neo-testamentários coincidem ao afirmar que os termos hebraicos e gregos utilizados, nas bem-aventuranças de Lucas ou de Mateus, para falar de pobres, famintos e infelizes referem-se a situações estruturais e não a desgraças pontuais. Os pobres (ptojoi) são aqueles que têm que mendigar para sobreviver: suas vidas dependem de outros. “Famélicos” seria a melhor tradução do termo grego (peinontes) que se refere a famintos – trata-se de uma fome profunda e prolongada. E pranto não se identifica com uma pena passageira, mas com sofrimento profundo fruto duma marginalização permanente.

Diante destas situações de indigência estrutural, os ricos, os satisfeitos e os felizes são aqueles que possuem grandes quantidades de bens materiais, são os que estão fartos e plenamente satisfeitos, são os privilegiados que ignoram o sofrimento alheio.[5] As situações estruturais pobreza e riqueza, fome e saciedade, sofrimento e auto-satisfacção são chamadas a reverter-se (utópica ou distopicamente, segundo os destinatários).


Para lá do direito

As distopias evangélicas também rebentam com o horizonte ético-jurídico dos Direitos Humanos. Ao enraizarem-se nas condições materiais que negam a possibilidade real dos mais débeis do planeta a ter direitos básicos, as distopias evangélicas anulam a retórica idealista que, a partir do norte satisfeito, começa já a reivindicar direitos fundamentais de “quinta geração”, enquanto que três quartas partes da população mundial nem sequer acedeu a direitos civis e sociais de primeira geração.

Como investir energias a exigir que o acesso à internet seja considerado um direito humano, quando 25.000 crianças morrem diariamente, porque ninguém respeita o seu direito básico a alimentarem-se. As prioridades dos mais desfavorecidos obriga a estabelecer hierarquias e, assim, exigem que se renuncie voluntária e temporariamente a direitos inquestionáveis, do ponto de vista formal.

Quando o rei David ordena a Urias, o hitita, que descanse em casa após a batalha, este fica-se a dormir às portas do palácio e justifica a sua acção nestes termos:

«A Arca de Deus habita numa tenda, assim como Israel e Judá. Joab, meu chefe, e seus servos dormem ao relento, e eu teria coragem de entrar na minha casa para comer e beber e dormir com a minha mulher? Pela tua vida, pela tua própria vida, não farei tal coisa!» [2 Sm 11:8-11]

Urias tem todo o direito do mundo em ir descansar a casa, mas renuncia a isso: banquetear-se, enquanto os oficiais dormem ao relento?

Nos seus últimos dias de vida, Madre Teresa de Calcutá pediu para ser atendida com os mesmos meios que eram postos à disposição dos pobres a quem ela se dedicou a vida toda:

«Se os pobres não podem aceder ao luxo dos tratamentos, não há razão para que eu disponha deles. Deixem-me morrer como aqueles a quem sirvo, pobres no meio de pobres.»

Madre Teresa tinha possibilidades e direito a ser atendida pelos melhores cardiologistas da Índia, mas… «banquetear-se enquanto os oficiais dormem ao relento?»


Universalidade a partir dos últimos

As distopias evangélicas não negam a universalidade da mensagem evangélica. Jesus anuncia a boa notícia a pobres e estropiados, bem como ao publicano Zaqueu (Lc 19:1-10). A sua preferência pelos últimos não é excludente, tal como demonstra a sua relação de proximidade com os poderosos: come com fariseus notáveis (Lc 14:1) e com pecadores (Mc 2:15ss; Lc 15:2). Não há dúvida que, tal como refere Rafael Aguirre Monasterio, ainda que o Reino de Deus seja para todos, apenas para os pobres é que ele é boa notícia (Lc 4:18; 6:20; 7:22); os ricos vão recebê-lo como má notícia (Lc 6:24-26; Mc 10:17-27).

«Diante de Jesus e o Reino, certamente que todos estamos necessitados de conversão, mas nem todos os interesses e nem todas as situações são afectadas da mesma maneira.

«Às vezes, isto é difícil de ser entendido e não poucas vezes se procuram interpretações moldáveis. Mas, já o próprio Jesus estava bem consciente do carácter escandaloso do anúncio que fazia do reino: «… a boa notícia é anunciada aos pobres; e feliz aquele que não se escandaliza comigo.»[6] (Lc 7:22s; Mt 11:9s)

José Laguna
Teólogo e músico
in Cuadernos Cristianisme i Justicia, nº 181, Novembro de 2012.


[1] Carlos Bravo, «Jesus de Nazareth» em I. Ellacuría y J. Sobrino, Mysterium Liberationis. Conceptos fundamentales de la teologia de la liberación I, Madrid, Trotta, 1994.
[2] Ignacio Ellacuría, «El desafio de las mayorías pobres», Estudios Centroamericanos, 493-494 (1989), p. 1078.
[3] Jon Sobrino, «Jesus y la justicia. Reflexiones para Occidente», en AA.VV., El seguimiento de Jesus, Fundación Santa Maria, Madrid, 2004, p. 206.
[4] Dados do IDH  (http://hdr.undp.org/es/)
[5] Cf. Gustavo Gutiérrez, «Pobres y opción fundamental», en Ellacuría y Sobrino, Mysterium Liberationis…, o.c., p. 311-312.
[6] Rafael Aguirre Monasterio, Reino, Parusia y Decepción, Madrid, Fundación Santa Maria, 1984, p. 19.