teologia para leigos

9 de janeiro de 2013

ORAÇÃO E LIBERTAÇÃO [BOFF]

Mística e Política:
Contemplativo na Libertação




(…) Creio que nos últimos anos houve uma irrupção vulcânica de Deus no nosso continente latino-americano: Deus privilegiou os pobres como o seu sacramento de auto-comunicação. Nos pobres fez ouvir as suas exigências de solidariedade, de identificação, de justiça e dignidade. E as Igrejas souberam ser obedientes (ob-audire: ser ouvinte) ao apelo de Deus. (…) Esta actuação possui uma nítida dimensão de libertação que nasce como «historificação da fé» que deseja ser adesão ao Senhor presente nos pobres. Lutar com os pobres, fazer corpo com os seus anseios é comungar com o Cristo pobre e viver o seu seguimento.

Esta perspectiva implica ser contemplativo na libertação: contemplativus in liberatione e pressupõe uma nova forma de procurar a santidade e a união mística com Deus. O choque espiritual com a nova manifestação de Deus produziu traços próprios na espiritualidade, tal como ela é vivida e praticada por muitos cristãos comprometidos com a libertação integral dos seus irmãos. (…)

O grande problema que urge esclarecer é como ser contemplativo na libertação; como, nas práticas pastorais e no contacto com o povo pobre, viver um encontro vivo com Deus. (…)


Características principais e desafios desta espiritualidade

Como identificar os traços mais significativos desta contemplação vivida em contexto de libertação?


a)  Oração materializada de [feita da matéria da] acção

A oração libertadora recolhe todo o material da vida comprometida:

as lutas, os esforços colectivos, os erros e as vitórias conquistadas; dão-se acções de graças pelos passos dados;

pede-se, não tanto individualistamente, mas em função de todo um caminhar, pelos que sofrem e pelos que os fazem sofrer;

─ na oração ressoa especialmente a conflitualidade do processo de libertação;

a confissão dos pecados é espontaneamente comunitária; ninguém se esconde por trás de palavras etéreas, mas todos abrem o coração, até pelas razões mais íntimas; é uma oração que reflecte a libertação do coração; sinalizam-se especialmente as incoerências entre o que se professa e o que se vive, a falta de solidariedade e de compromisso.


b)  Oração, expressão da comunidade libertadora

A oração privada tem o seu valor permanente e seguro, mas, nos grupos comprometidos, a oração é essencialmente um partilhar de experiências e práticas iluminadas e criticadas à luz da fé e do Evangelho. A experiência não se limita a uma esplêndida privacidade da alma com o seu Deus, mas ela abre-se ao outro quando esse outro é escutado e quando se comunica com ele. Este conforta aquele, um comenta os problemas do outro, ajudam-se mutuamente nos problemas revelados, não existe «vergonha» sagrada que esconda as visitas e as iluminações divinas. A grande maioria tem alma de livro aberto. Isso já revela o processo de libertação no seio da própria comunidade.


c)   Liturgia como celebração da vida

A liturgia canónica conserva o seu carácter vinculativo e exprime a catolicidade da expressão da nossa fé. Mas, na medida em que as comunidades unem fé e vida, mística e política, inserem cada vez mais na liturgia a celebração da vida partilhada por todos. Neste campo, aflora uma rica criatividade que possui dignidade e sacralidade garantidas pelo sentido apurado que o povo tem do sagrado e do nobre. Aproveitam-se os símbolos significativos do grupo reunido, fazem-se coreografias e, muitas vezes, verdadeiros autos espirituais com expressões corporais próprias do povo.


d)  Oração heterocrítica

A oração libertadora serve muitas vezes de exame crítico das práticas e atitudes dos participantes da comunidade. Sabem criticar-se mutuamente sem melindres e susceptibilidades pessoais. O que importa são os critérios objectivos:[1] o Reino, a libertação, o respeito pelo caminhar do povo. A partir de tais realidades, confrontam-se as práticas dos agentes da pastoral. Há verdadeiras conversões e auxílios que vêm desta sinceridade e lealdade.


e)  Santidade política

A tradição cristã conhece o santo ascético, mestre das suas paixões e fiel observante das leis de Deus e da Igreja. Quase não se conhecem santos políticos e santos militantes. No processo de libertação, criaram-se as condições para um outro tipo de santidade: além de lutar contra as suas próprias paixões (tarefa permanente), luta-se contra os mecanismos da exploração e da destruição da comunidade. Aí emergem virtudes difíceis, mas reais:

solidariedade com os da sua classe,
participação nas decisões comunitárias,
lealdade para com as soluções definidas,
superação do ódio contra as pessoas que são agentes de mecanismos de empobrecimento,
capacidade de ver além dos imediatismos e capacidade de trabalhar por uma sociedade futura que ainda não se vê e da qual talvez não se virá nunca a gozar.


Este novo tipo de ascese possui exigências e renúncias próprias, a fim de manter o coração puro e orientado pelo espírito das bem-aventuranças.


f)    Coragem profética e paciência histórica

Muitos cristãos comprometidos têm a coragem, haurida da fé e da oração, de enfrentar os poderes deste mundo lutando a favor das causas do povo e da sua dignidade pisoteada. Nisso mostram a parrhesia (coragem) apostólica de se arriscarem a sofrer perseguições, prisões, demissões do emprego, torturas e até a eliminação física. Apesar dessa coragem evangélica, têm paciência histórica para com a caminhada lenta do povo, sensibilidade para os seus ritmos, acostumados que estão a sofrer repressões. Têm confiança no povo, no seu valor, na sua capacidade de luta, apesar das suas limitações, equívocos e atraso intelectual. Crêem vivamente na força do Espírito que age nos humildes e sofredores e acreditam na vitória da sua causa e no direito da sua luta. Essa atitude nasce de uma visão contemplativa da história, da qual somente Deus é Senhor.


g)  Atitude pascal

A libertação tem um preço que sempre se paga: a morte e a ressurreição devem ser assumidas com jovialidade e serenidade evangélicas. Sacrifícios, ameaças e situações de martírio real: nada a temer. Tudo isto é assumido como parte do seguimento de Jesus. Existe um forte sentido da Cruz como passo necessário para a vitória. A Ressurreição é vivida como o momento em que a justiça triunfa, em que o povo vence a luta e faz ser vivida mais dignamente a vida. É a Ressurreição de Jesus em marcha como imenso processo de libertação que ganha corpo na história. Isto é celebrado e vivido como força da presença do Espírito no seio da história. (…)

Cada vez mais se criam novas possibilidades objectivas para a emergência dum novo tipo de cristão, cristão profundamente comprometido com a cidade terrestre e, ao mesmo tempo, com a cidade celeste, convicto de que esta depende da forma como nos tivermos engajado na criação daquela.

O céu não é inimigo da terra: começa já na terra. Ambos vivem sob o arco-íris da Graça e do gesto libertador de Deus em Jesus Cristo.

Isto não é mera teologia. É vida e mística de muitos cristãos.

Frei Leonardo Boff, ofm
«Vida segundo o Espírito»
Ed. Vozes, Petrópolis 21983, pp. 172-174.176-182





[1] «Correção fraterna», Act 5:3-4: «Não foi aos homens que tu mentiste, mas a Deus.»

8 de janeiro de 2013

BIBLIA E PASTORAL [C. MESTERS]

O objetivo do uso da Bíblia na Pastoral:
revelar a presença de Deus na vida





O objectivo do uso que Jesus fazia da Bíblia não era ajudar os outros a entender a Bíblia, mas sim o de ajudá-los a interpretar a vida com a ajuda da Bíblia. Pois, a Bíblia, o Segundo Livro de Deus foi escrito, não para ocupar o lugar da vida, mas para ajudar o povo a entender a vida e descobrir dentro da vida os sinais dos apelos e da presença da Deus.

1º LIVRO: a criação, a natureza, a vida, o mundo, os fatos, a história
O processo da encarnação e do anúncio da Palavra se desdobra em duas grandes etapas. A primeira etapa começou na criação do universo. Ou seja, a Voz da Palavra ressoa em primeiro lugar, na natureza, no universo, na vida, nos fatos, como diz o salmo: “O céu manifesta a glória de Deus, e o firmamento proclama a obra de suas mãos. O dia passa a mensagem para outro dia, a noite a sussurra para a outra noite. Sem fala e sem palavras, sem que a sua voz seja ouvida, a toda a terra chega o seu eco, aos confins do mundo a sua linguagem” (Sl 19,2-5). O primeiro livro de Deus não é a Bíblia, mas sim a natureza, a criação, o mundo, a vida, a história, os acontecimentos. É através deste Livro da Natureza ou da Vida que Deus quer falar connosco.

De que maneira a natureza é o Livro de Deus? Deus criou as coisas falando. Ele disse: “Luz!” E a luz começou a existir (Gn 1,3). Tudo que existe é a expressão de uma palavra divina. Cada ser humano é uma palavra ambulante de Deus (Gn 1,27). As crianças são palavra de Deus para os pais; os pais são palavra de Deus para as crianças. Mas nós já não nos damos conta de que estamos vivendo no meio do livro de Deus e que cada um de nós é uma página viva deste livro divino.

Há algo que nos impede de reconhecer a presença da Palavra na vida, algo que “sufoca a verdade” (Rom 1,18). O que nos impede? Santo Agostinho diz que foi o pecado, esta nossa mania de querer dominar tudo, de tratar a natureza como mercadoria e de achar que somos donos de tudo. Por isso, as letras do Primeiro Livro de Deus atrapalharam-se e a humanidade já não consegue descobrir a fala de Deus no Livro da Vida. Perdemos o olhar da contemplação, nossa capacidade de admirar (cf. Eclo 42,17.22-25; 43,11.27-28). Por isso, surgiu a segunda etapa da encarnação e do anúncio da Palavra de Deus. Nasceu a Bíblia, o Segundo Livro de Deus.

2º LIVRO: a Bíblia
A Bíblia foi escrita, não para substituir o Livro da Vida, mas sim para ajudar-nos a entendê-lo melhor e a descobrir nele os sinais da presença de Deus. O estudo e a leitura orante da Bíblia nos devolvem o olhar da contemplação e nos ajudam a decifrar e a interpretar o mundo, os acontecimentos, a natureza. Fazem com que o Universo se torne novamente uma revelação de Deus, e volte a ser o que deve ser “O Primeiro Livro de Deus” para nós.

Como é que Deus faz isso? Como é que a Bíblia foi escrita? O texto da Bíblia não caiu pronto do céu. Nasceu ao longo dos séculos, fruto da acção do Espírito de Deus e de um demorado processo de busca. Impelido pelo desejo de encontrar Deus, o povo foi descobrindo os sinais da sua presença escondida na vida, na história, na natureza e, dentro dos critérios da sua cultura, transmitia-os para as gerações seguintes. Assim foi nascendo a Tradição Viva do Povo de Deus, transmitida oralmente de geração em geração. No fim, registaram todas as suas descobertas num livro (cf. Ex 17,14). Este livro é a Bíblia.

A Bíblia traz o resultado da leitura que o povo hebreu fez da vida e da natureza para descobrir nelas a fala e os apelos de Deus. Este Segundo Livro de Deus (a Bíblia), assim dizia Santo Agostinho, ajudou o povo a re-descobrir e a entender melhor o Primeiro Livro de Deus (a Vida, a Natureza). A Bíblia é o resultado da Pastoral que se fazia naquela época para ajudar as pessoas a descobrir Deus na vida.






Aqui está o objectivo mais importante de toda a Pastoral que pode ser resumido da seguinte maneira: com a ajuda e a orientação da Bíblia devemos também nós “escrever a nossa Bíblia”, isto é, devemos imitar o povo de Deus e, como eles, devemos também nós tentar ler a nossa realidade, descobrir nela os apelos de Deus e expressá-los e proclamá-los dentro dos critérios da nossa cultura.


Mística: só trabalha com a Palavra
quem se deixa trabalhar pela Palavra

No fim, sobra uma pergunta: Qual foi a mística que sustentava a Jesus na encarnação e no anúncio da palavra e o mantinha na fidelidade, a vida inteira, até a morte, e morte de cruz? O segredo escondido da vida de Jesus era o Pai. Jesus vivia unido a Ele através da oração. É na oração que ele assimilava e encarnava a Palavra em sua vida. A palavra que Jesus anunciava era a experiência que ele mesmo tinha da palavra. Ele dizia: “Eu te louvo, Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e inteligentes, e as revelaste aos pequeninos. Sim, Pai, porque assim foi do teu agrado!” (Mt 11,25-26). Jesus experimentava a presença de Deus nesta sua inserção no meio do povo.
 Os primeiros cristãos conservaram uma imagem de Jesus orante que vivia em contacto permanente com o Pai. (Jo 4,34). Em vários momentos ele aparece rezando, sobretudo nos momentos decisivos de sua vida. Eis alguns destes momentos. Você pode completar a lista:

* Aos doze anos de idade, lá no Templo, na Casa do Pai (Lc 2,46-50).
* Na hora de ser baptizado e de assumir a missão, ele reza (Lc 3,21).
* Na hora de iniciar a missão, passa 40 dias no deserto (Lc 4,1-2).
* Na hora da tentação, enfrenta o diabo com a Escritura (Lc 4,3-12).
* Na hora de escolher os Doze, passa a noite em oração (Lc 6,12).
* Na hora de começar a falar da sua paixão (Lc 9,18).
* Na alegria diante dos pequenos: “Pai eu te agradeço!” (Lc 10,21).
* Na cura do surdo-mudo, olhou para o céu e gemeu (Mc 7,34).
* Na hora de ressuscitar Lázaro (Jo 11,41-42)
* Participa das romarias ao Templo nas grandes festas (Jo 5,1).
* Participa das celebrações nas sinagogas aos sábados (Lc 4,16)
* Reza antes das refeições (Lc 9,16; 24,30).
* Procura a solidão do deserto para rezar (Mc 1,35; Lc 5,16; 9,18).
* Rezando, desperta vontade de rezar nos discípulos (Lc 11,1).
* Rezou por Pedro para ele não desfalecer na fé (Lc 22,32).
* A pedido das mães dá a bênção às crianças (Mc 10,16).
* Na crise sobe o Monte para rezar e é transfigurado (Lc 9,28).
* Celebra a Ceia Pascal com seus discípulos (Lc 22,7-14).
* Na hora da despedida reza a oração sacerdotal (Jo 17,1-26).
* Indo para o Horto reza salmos com os discípulos (Mt 26,30).
* Na agonia ele reza: "Triste é minha alma" (Mc 14,34; cf Sl 42,5.6).
* Na angústia pede aos três amigos para rezar com ele (Mt 26,38).
* Ao ser pregado na cruz, pede perdão pelo seu carrasco (Lc 23,34).
* Na cruz: "Meu Deus! Por que me abandonaste?" (Mc 15,34; Sl 22,2).
* Na morte: "Em tuas mãos entrego meu espírito!" (Lc 23,46; Sl 31,6).
* Jesus morre soltando o grito do pobre (Mc 15,37).


Oração é luta ('agónica')

Esta lista mostra como Jesus rezava nos momentos importantes da sua vida: na crise e na tentação, na escolha dos apóstolos e na decisão de ir para Jerusalém, na agonia do Horto e na hora de morrer na cruz, na alegria e na tristeza. Sua vida era uma oração permanente: "Eu a cada momento faço o que Pai me mostra para fazer!" (Jo 5,19.30). A ele se aplica o que diz o Salmo: "Eu (sou) oração!" (Sl 109,4).

Carlos Mesters e Francisco Orofino

I CONGRESSO BRASILEIRO DE ANIMAÇÃO BÍBLICA DA PASTORAL
Goiânia, 8 a 11 de Outubro de 2011
Francisco Orofino, Carlos Mesters

2 de janeiro de 2013

ORAÇÃO E ALIENAÇÃO [G FAUS]

“Senhor, necessito de um aumento de graça, para chegar ao estado em que nenhum homem, nem criatura alguma, me possa ser de impedimento. Porque, enquanto houver alguma coisa que me prenda, não poderei voar livremente para vós.

“Desejava voar livremente aquele que dizia: Quem me dera ter asas como a pomba, para poder voar e descansar!’ […]

“E enquanto não nos desprendermos de todas as coisas criadas, não poderemos entregar-nos livremente às coisas divinas. Se hoje há poucos contemplativos, é porque são raros os que sabem desprender-se, por completo, das criaturas e dos bens transitórios.” [Imitação de Cristo, Livro III, Cap. XXXI]



ORAÇÃO - «Chega de ilusão...» [clicar]



BUSCAR DEUS NO CÉU
ou o Deus com um espírito falso



Descrição da prática e idolatria latente

Esta conduta (e a imagem de Deus que ela implica) talvez seja a mais conhecida e a que menos necessita de explicações. É a atitude de todos os que, diante da decepção da realidade (qualquer que seja a explicitação de tal decepção), buscam Deus fora dessa realidade e, sobretudo, fora dos aspectos “materiais” dessa realidade.

A alteridade de Deus é imaginada, então, como distância [de Deus] em relação à realidade, e a relação com Deus, ou a relação com a salvação que Deus dá, é vista como evasão dessa mesma realidade. Na prática, esta conduta encarna tudo aquilo que costumamos chamar ‘espiritualismos’, e cujo denominador comum é o empenho em apoiar-se em Deus a fim de ignorar a realidade.

Estas atitudes costumam ter uma linguagem insistentemente religiosa e “espiritual”, costumam dar suporte e importância às Igrejas e, por isso, costumam significar uma tentação para as Igrejas, porque esta aceitação que as Igrejas recebem de todos os espiritualismos costuma ser comprada à custa duma falsificação do Deus cristão, porque, embora, seja certo que o Deus cristão marca a sua diferença infinita face à realidade [finita], não o faz mediante a distância ou a fuga dela, mas mediante a transformação da realidade e de tudo quanto tem a ver com esta transformação: o empenho, a utopia, a paciência, o fracasso, o progresso, os pequenos sinais de novidade a que dom Romero chamava “remendos”… Esta transformação é vivida por nós como impossível, mas na qual não vacilamos, porque aceitamos o que se disse a Maria: “A Deus nada é impossível” (Lc 1:37), ou porque aceitamos o que Jesus dizia: “Não te peço que os tires do mundo, mas que os livres do Mal” (Jo 17:15).

Em termos mais teológicos: o Espírito de Deus não se afirma na negação da carne, mas na transformação da mesma. São os que desejam afirmar o Espírito negando a carne que costumam acusar os cristãos de redutores do espiritual ou de materialistas, quando na realidade são eles os verdadeiros redutores.

No fundo desta postura que criticamos está latente um platonismo barato que julga indigna de Deus esta criação, e que não quer que Deus suje as mãos nela. A sua imagem de Deus só conhece a distância, mas não o amor. Só se interessa pelo ‘eros’ do homem para com o divino e não do ‘ágape’ de Deus para com o humano. E, por isso, o risco desta postura consiste em que, ao buscar Deus fora do mundo ou evadindo-se da realidade, não encontra o Deus vivo, mas o seu próprio sonho ou a subtil projecção de si mesmo.

Pode ser alvo da crítica de Feuerbach (Deus como mera projecção do melhor do homem para um mundo irreal) ou da crítica de Nietzsche, quando denomina o cristianismo “platonismo para o povo”.





E se estes são os seus perigos teóricos, são ainda maiores os seus perigos práticos, os quais já foram denunciados por S. João, quando escrevia: «Se alguém diz ‘Amo a Deus’ e detesta o seu irmão, está a mentir» (1Jo 4:20). Nesta frase encerra-se algo fundamental sobre a revelação do Deus da vida: precisamente, porque de Deus não há imagens proporcionadas («não se vê»), João só o declara cognoscível e acessível mediante uma conduta. Com isto, além de confirmar o enfoque dado a esta palestra, esta frase ensina-nos que o homem, ao dizer que ama a Deus, a quem não vê, pode converter-se num embusteiro prático, isto é, num inconsequente. A inconsequência prática é, com efeito, o maior risco desta postura, como de seguida veremos.[1]


Aplicações e exemplos

Há quase vinte anos, em momentos em que a polícia franquista irrompia nas palestras de Ruiz Jiménez,[2] prendendo sem mandato judicial os participantes e, às vezes, maltratando-os, os bispos, a quem se pedia uma intervenção para ajudar as vítimas e denunciar tais atropelos (por acontecerem em locais eclesiásticos), tais bispos lamentavam-se, respondendo, que, «com estas encrencas», nem disposição tinham para preparar novenas à Virgem, um dos objectivos dos seus projectos pastorais.

Soubemos também que há pouco tempo[3] grande parte do episcopado argentino, apelando ao carácter espiritual da sua missão, coonestou uma das situações mais criminosas e mais estremecedoras da história humana, escrevendo uma das páginas mais tristes da história da Igreja. Quero sublinhar que o pecado consistiu em justificar o seu silêncio apelando “àquilo que diz respeito a Deus” e ao “espiritual” da fé. Se dissessem que tiveram medo, imediatamente lhes abriríamos os braços, pois era assim que também fazia a Igreja primitiva aos “lapsos”, porque muitos de nós também teríamos tido medo e teríamos sucumbido ao pânico (pelo menos, eu), e até porque os factos mostram como foi assassinado na Argentina o primeiro bispo que tentou enfrentar a situação: com muito mais discrição do que dom Romero, para que não ficasse nem sequer a sua recordação de mártir.[4] Mas o que não se pode tolerar é a apelação a Deus e à missão da Igreja para justificar essa covardia.

A resposta a esta falsificação foi dada há muitos séculos por um dos movimentos mais fundamentais do caminho da revelação do Deus bíblico: o movimento dos profetas de Israel. Não vou entrar por aí, porque já se escreveu muito e muito bem sobre o tema. Mas quero sublinhar o seguinte: os Profetas não são ética nem moral. Os Profetas são experiência de Deus e teologia mística. São certamente a única mística que existe na Bíblia. Todas as mais ternas, mais sublimes e mais clássicas expressões do amor de Deus que se conhecem (a do esposo enganado e fiel, a da mãe que não esquece o filho, a da noiva que não se esquece do seu traje de núpcias, a da Misericórdia, a das entranhas comovidas de Deus…), são expressões daqueles homens, homens de palavra dura e pungente para a sociedade do seu tempo. Possivelmente, em nenhum outro lugar do Antigo Testamento se fale tanto e tão profundamente de Deus como nos profetas. Não são, pois, um tratado de moral, mas uma revelação do modo de proceder de Deus, que José Luís SICRE formula mais ou menos assim, comentando a parábola da vinha de Isaías [Is 5:1-7]: quando o Deus bíblico ama o homem ou ama o seu povo, não pede em troca que o homem o ame a Ele (na realidade, que amor podemos nós dar-Lhe?), mas que ame o seu irmão. Por isso, no cristianismo, o amor ao próximo não é um simples mandamento moral, mas uma realidade teológica.






E a Igreja soube de tudo isto noutros tempos, e talvez melhor do que agora. Porque hoje, quando a oração não está na moda e se diz que ninguém ou quase ninguém reza, abrimos os braços entusiasmados quando alguém nos fala de oração ou a ela se refere. E surpreender-nos-íamos se pudéssemos ver as enormes suspeitas que suscitava a linguagem da oração em outras épocas, ou as que suscitaram os primeiros místicos, ou o temor dos “iluminados”, que fez tanta gente sofrer. É claro que houve exageros concretos e lamentáveis nestas suspeitas, mas, em princípio, havia nelas algo válido: a Igreja sabia que a oração (que pode ser uma coisa maravilhosa) pode também (e costuma) transmutar-se facilmente em alguma forma de “auto-erotismo espiritual”. E sabia que o discernimento entre ambas não é simples, porque, na oração, ao não ter um interlocutor visível e tangível, o homem pode converter-se em interlocutor de si mesmo. E então a confrontação bíblica entre a “Carne” e o “Espírito” far-se-á no sentido grego e material destas palavras, e não no sentido bíblico, e que é: a inclinação sobre si mesmo versus a inclinação sobre os outros.[5]

Por isso, meu pai Santo Inácio sorria calmamente quando lhe louvavam alguém como pessoa de muita oração, e respondia: “Será de muita oração se for de muita mortificação”. Hoje, pelo contrário, conhecemos pessoas que, como pretendem ser de muita oração, mortificam muito os outros…

Em resumo: é certo que a afirmação pode traduzir-se numa simples experiência de liberdade frente à escravidão do material, que é uma das maiores escravaturas do nosso mundo materializado. Não pretendemos negar isso, mas, pelo contrário, afirmamos que quando tal afirmação é feita por aqueles que têm mais que satisfeitas as suas necessidades materiais (e, neste mundo, isso deve-se necessariamente à custa dos outros), então, isso converte-se numa falsa defesa e numa falsa justificação desse nível material, bem como numa desculpa para a falta de amor: a realidade material não compete a Deus, “a carne e o sangue” (como diziam os antigos gnósticos e os antigos docetas) não podem herdar o reino de Deus.

Os espiritualistas desconhecem as respostas dos Santos Padres a esta forma de argumentar: “Caro propter quam fecit Deus omnem dispositionem”,[6] replica-lhes Ireneu. Ou a “caro cardo salutis”,[7] de Tertuliano.

Por isso, eles não sofrem pelos desempregados, não sofrem pelos famintos da Etiópia, não se inquietam pelos torturados nas prisões nem pelos desaparecidos das famílias chilenas ou argentinas… Todas estas realidades, terrenas e materiais, não os obrigam a mudar de vida, porque eles têm um Deus que não é atingido por estas realidades. E se com este pequeno preço “material” se compram os “valores espirituais do Ocidente”, bom negócio será.

Em todo o caso, eles sofrem – e irritam-se! – quando alguém (ainda que seja o próprio Deus) os chama a descer da sua nuvem celestial para se ocuparem destas realidades tão pouco “divinas”.

E talvez o mais importante deste capítulo seja ponderar que em certos momentos históricos, como o actual, em que todas as possibilidades de transformação do real aparecem quase hermeticamente fechadas, nos quais se sente a experiência da cruz e do fracasso que comporta o esforço por fazer nascer o Espírito do Pai e do Filho neste mundo do Maligno, em tais momentos a tentação espiritualista dispara com uma força invencível, e seus representantes mais perigosos se convertem em mestres.

O mesmo aconteceu na Igreja primitiva, onde o gnóstico Valentim gozou de tanta autoridade que esteve a ponto de se tornar Papa. E se Nietzsche teve a sua parcela de razão, quando qualificou esta imagem de Deus como “platonismo para o povo”, sem dúvida que se esqueceu que há muitos momentos em que é o próprio povo nós mesmos que pede esse platonismo.

E que tanto o platonismo como o gnosticismo ou o docetismo, enquanto heresias cristãs, não foram mais do que esforços para fugir da realidade escandalosa da cruz e, consequentemente, da realidade da conversão, que é absolutamente central na experiência de Deus e que não consiste na fuga desta carne, às vezes tão espessa, mas na conversão desta carne pelo Espírito, na abertura desta carne ao Espírito, na transparência desta carne em Espírito.

Esse é o verdadeiro lugar da experiência de Deus.

[Nota da edição: Não são os discursos sublimes e troantes que nos salvam (mesmo que denunciem e coloquem os dedos todos na ferida...). Jesus foi 'sinalizado', perseguido e julgado, mais tarde abjectamente assassinado, não pelo que disse, mas pelo que fez... Por isso, é tão urgente que, quem (como eu) fala e diz e discursa, faça «acontecer a Palavra»; Mt 25. A autoridade de alguém advém-lhe do que faz acontecer e não do dizer (mesmo que no tempo oportuno). Enquanto isso tarda, Deus pode estar latente, mas não é patente! E o Reino 'marca-passo']

José I. González Faus
Creer sólo se puede en Dios. En Dios sólo se puede creer.
Editorial Sal Terræ, Santander, Espanha, 1985.




[1] Esta inconsequência prática está muito bem expressa em algumas palavras do cardeal De Lubac, que foram citadas inúmeras vezes: “Se me faltar o amor e a justiça, separo-me indefectivelmente de Ti, Deus meu, e a minha adoração não será outra coisa senão idolatria. Para crer em Ti devo crer no amor e na justiça, e crer nestas coisas vale mil vezes mais do que pronunciar o Teu Nome”.
[3] Esta palestra foi proferida antes de 1985.
[4] Creio que o seu nome era Enrique Angelelli, mas não estou absolutamente certo. (Nota do tradutor: O nome completo deste bispo é Enrique Angel Angelelli; foi bispo de La Rioja de 1968 a 1976, assassinado pela ditadura argentina).
[5] “Fechar-se sobre si próprio” versus “fechar-se sobre os outros”…
[6] “Pela carne Deus fez tudo quanto fez”.
[7] “Carne, gozo da salvação”.