teologia para leigos

28 de dezembro de 2012

NATAL_6 - DEUS E O DINHEIRO

«Aconteça o que acontecer, estamos aqui»
[Mateus 2:1-2.11]

«Tendo Jesus nascido em Belém da Judeia, no tempo do rei Herodes, chegaram a Jerusalém uns magos vindos do Oriente. E perguntaram: «Onde está o rei dos judeus que acaba de nascer? Vimos a sua estrela no Oriente (…) e, entrando na casa, viram o menino com Maria, sua mãe. Prostrando-se, adoraram-no; e, abrindo os cofres, ofereceram-lhe presentes: ouro, incenso e mirra.»


Basílica de S. Pedro_Roma



Os «magos» não são Reis: são pagãos orientais (mal vistos pelos judeus; não crentes em Yahvé), sensíveis naturalmente a uma certa espiritualidade. Buscam – são itinerantes (anti-Templo)[1]. Não são “sábios, nem poderosos” [Powell], recusam apoderarem-se de Deus, recusam-se a comprar Deus (Nm 22:7.37). Vivem duma certa sabedoria de vida (o fantástico, o conhecimento a partir das estrelas - a astrologia -, a predição). Confira Números 22:24, em que o rei moabita Balac chama o adivinho (‘mago’) Balaão para amaldiçoar os israelitas. No fim duma luta agónica, o mago Balaão contraria o desejo do rei e acaba por predizer a derrota de Moab: ou seja, para o mago, a bênção de Deus recai, não sobre os moabitas (guerreiros, ancestralmente, inimigos dos israelitas), mas sobre os israelitas, transumantes. Os ‘magos’, regra geral (há excepções na literatura romana antiga), a partir da sua ‘sabedoria natural’ e da sua leveza itinerante, anunciam a derrota de reis iníquos latifundiários. [W. Carter]

Os magos fazem uma dupla experiência:

1.   vão para lá da crença (persa) nas “estrelas” (vão para lá dum certo “budismo epicurista”[2], duma certa ‘religião naturalista’),
2.   e intuem uma certa revelação intra-histórica de Deus;

Não se assustam diante das formas instituídas (tidas como opressoras) de poder político e de poder religioso (cf. Roma e Jerusalém: Herodes vs. sumo-sacerdote e escribas). A reacção negativa que se ouve em Jerusalém aquando da inquirição dos magos (Mt 2:3 - «Ao ouvir tal notícia, o rei Herodes perturbou-se e toda a Jerusalém com ele.»;) antecipa um fim trágico, uma morte violenta (instigada também por ambos os poderes, político e religioso; confronte Mt 2 com Mt 27:20.25; “ouro”, sinal da realeza deste Menino; “incenso”, sinal da divindade do Menino; “mirra”: premonição de fim violento, trágico; perfume para embalsamar o seu cadáver…).

Os Magos, que dalguma forma são já anti-ídolos/anti-deuses, professam a sua fé numa figura que é anti-rei: sem exército e sem fetiches.

Conjuntamente com o poder político, a religião oficial Jerusalém e a sua corte de “funcionários do sagrado”apodrecida por dentro, começa a tremer!

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«A alegre máquina das oferendas»



Peguemos, apenas, no óbolo de S. Pedro, isto é, o conjunto das oferendas endereçadas ao Papa por fiéis das igrejas particulares, institutos de vida consagrada, sociedades de vida apostólica, fundações e privados: em 2010, totalizava «apenas» 67 milhões de dólares, com uma redução de 20% relativamente aos 82,5 milhões de 2009, afastando-se, assim, mais ainda, do recorde dos 100 milhões obtidos em 2006. (…)

Certamente que o andamento das finanças é uma das maiores preocupações no Vaticano. A alegre máquina das oferendas já não fabrica as receitas numa única vez, [por oposição ao tempo em que] durante todo o ano se podia apostar na generosidade dos fiéis. E sem dinheiro não se pode senão renunciar ao próprio domínio. Hoje só se esquecem estas obsessões na vigília das festividades consagradas quando, como se dum presépio vivo se tratasse, chegam à Praça de S. Pedro óbolos e verbas em dinheiro, bem como generosas gratificações de todo o mundo.

No Natal e na Páscoa é uma autêntica procissão. Frades franciscanos com pastas e envelopes de cartas a transbordar de notas, managers que trazem candelabros de prata ou gratificações consideráveis, lobistas, empreendedores, abastados aristocratas e jornalistas. Em torno do Papa, anima-se a humanidade matizada das oferendas, que vê na pessoa do pontífice a referência principal, a figura catalisadora. […]

O próprio pontífice não se poupa a esforços de modo a garantir um fluxo contínuo de dinheiro nas caixas. Seja com campanhas que envolvam todo o mundo católico, como a recolha no Ano Santo, o óbolo de São Pedro ou a destinação de uma parte simbólica dos impostos, que em Itália é de 8 por mil. Seja com iniciativas pessoais e momentos privados.

Todos aqueles que chegam às audiências, os poucos privilegiados que conseguem possuir o chamado «bilhete beija-mão», deixam o óbolo em troca de beijar o anel e da foto de família. No bilhete está indicado o número de pessoas que podem entrar e a data da audiência que ocorre às quartas-feiras na Sala Paulo VI, na Praça de S. Pedro, ou então no segundo andar do Palácio Apostólico. Tudo reservado aos escassos generosos eleitos que podem gozar de um encontro privado com o Papa. Aliás, - como se diz? - «ao Vosso gentil coração».


Funcionários do sagrado_Basílica de S. Pedro



É difícil calcular as médias estatísticas, porque se trata de dados que não são tornados públicos, tal como grande parte dos orçamentos das entidades que contribuem para as finanças da Igreja. Mas, num só dia, das indiscrições recolhidas e dos documentos à disposição, pode-se determinar que com as audiências consegue-se recolher quantias desde os 40 000 aos 150 000 euros.

Os colaboradores de Bento XVI ocupam-se das contas. As listas são compiladas, em grande parte, no computador com anotações ainda escritas à mão. A estes documentos contabilísticos anexam-se os maços de notas e cheques. Prontos a ser lavados para o IOR [Instituto das Obras da Religião], o cofre dos cardeais, onde o Papa possui vários depósitos a ele vinculados a títulos diferentes, com poder de delegação para monsenhor Georg[3] para transferências e créditos. Trata-se daquilo que, geralmente, é denominado como «depósito do Papa», um fundo pessoal e secreto sobre o qual convergem diversas quantias, dos lucros do IOR ao óbolo de S. Pedro, o qual o pontífice destina à beneficência.

Estamos em condições de ver o prospecto contabilístico do dia 1 de Abril de 2006:

50 000 euros recebidos, 41 689 em dinheiro, 6625 em cheques, o resto em divisas estrangeiras.

Se formos depois examinar a contagem das oferendas entre audiências públicas, privadas e doações, percebe-se como são os próprios sacerdotes e as dioceses a trazer o maior número de óbolos numa corrente de generosidade que vai da periferia até ao coração de São Pedro. Naqueles dias, entre os benfeitores, encontramos os frades menores da província seráfica da Úmbria, a Obra diocesana dos peregrinos de Lugano, o mosteiro alemão Kloster Mallersdorf, o santuário Madonna della Fontana e alguns indivíduos como Javier Echevarría, que é o prelado da Opus Dei, e o então presidente do IOR (Instituto das Obras da Religião) Ângelo Caloia com 5000 euros em dinheiro.

Cada óbolo esconde uma história, uma personagem que deve ser descrita. Graças às cartas que chegaram até nós, podemos por exemplo reconstruir as doações de Caloia, gerente da alta finança milanesa, que passou em 1989 do banco Mediocredito Central à direcção do IOR, a instituição que Marcinkus deixou, sob a ameaça de prisão, pela derrocada financeira do Banco Ambrosiano. Caloia será o último dos mais fiéis laicos escolhido por Wojtyla a deixar o Vaticano, três anos depois da «revolução gentil» lançada pelo Papa alemão. Nos primeiros meses do novo pontificado, Caloia espera talvez ainda uma confirmação, depois de vinte anos passados no topo da instituição de crédito. Procura, assim, valorizar a própria actividade bancária. Divulga, na Secretaria de Estado e nos sagrados palácios, os resultados obtidos pelo IOR, capaz de recolher 5 mil milhões de euros entre os próprios clientes. E mostra também particular generosidade. Passam alguns dias, e, a 23 de Abril de 2006, manda uma posterior oferta choruda. Desta feita é de 50 000 euros, de acordo com o que se lê na afectuosa carta que endereça ao Papa: «all.50.000,00R/24-abril/2006». O estilo escolhido é particularmente obsequioso. Caloia define a quantia como um «modesto sinal». De 50 000 euros. (…)


Bento XVI_Sede Apostólica



Voltando aos «esmoladores» e ao prospecto de 1 de Abril, existe também quem mereça o prémio da invencibilidade por tenacidade. De facto, 30% das oferendas registadas nesse dia foram entregues por uma freira de rara influência entre os religiosos: a poderosíssima abadessa das Brigidinas, Tekla Famiglietti que, vinda de Sturno, uma aldeia da Campània, tornou-se embaixadora dos papas e superiora das freiras presentes em todo o mundo.

São quatro os depósitos distintos sem indicações sobre quem terá transferido para a irmã aquela quantia. Nem há necessidade de sabê-lo. A discrição é uma marca característica desta madre superiora, estimadíssima por Wojtyla e pelo seu secretário pessoal, dom Stanislaw Dziwisz, pelas iniciativas das Brigidinas em Cuba, na Polónia e em países na altura comunistas. Sobre elas se contam verdades e lendas: «Diz-se que um dos quatro números», revela hoje o núncio Pupi d’Angeri, excêntrico diplomata amigo de [Fidel] Castro e Arafat, embaixador do Belize em Itália, «na memória do telefone da escrivaninha de João Paulo II era precisamente o da irmã Tekla».

É também ela que Andreotti aponta como um «general do corpo armado», tão importante que, nos anos oitenta, lhe fará transferir quantias de dinheiro da conta «fundação cardeal Francis Spellman» que o sete vezes presidente do Conselho abrira no IOR. E a abadessa é da casa no banco do Papa, onde Pietro Orlandi trabalhou durante dezoito anos, depois de a sua irmã Emanuela ter desaparecido em 1983, um caso que permanece ainda por resolver: «Quando madre Tekla vinha ao guiché», recorda Orlandi durante um encontro nosso, «trazia enormes quantias de dinheiro e dava gorjetas consistentes sem olhar nos olhos».

Gianluigi Nuzzi, «SUA SANTIDADE – as cartas secretas de Bento XVI. Como o Vaticano vendeu a alma.» Bertrand Editora_2012, pp. 92-97.








«Aconteça o que acontecer, estamos aqui», e seremos monges da miséria
[Mateus 2:1-2.11]





Nem a clausura monástica isola: «A clausura delimita um espaço de acolhimento, parece-se com um coração aberto, ferido pelo sofrimento deste mundo» (‘Aime’, p. 72).

Sabemos que lugar o compromisso com os pobres ocupou na vida de Christophe depois do seu encontro com Emaús e o Abbé Pierre. Para ele, essa relação com os pobres permanece verdadeira mesmo no interior do mosteiro: «Creio profundamente numa proximidade misteriosa entre o monge e o delinquente, o prisioneiro, os nossos amigos da Arche, os torturados. Penso que tenho de receber dos mais pobres a permissão de ser monge, monge da miséria» (ibid.)

“Christophe Lebreton – monge mártir em Tibéhirine e mestre espiritual para os nossos dias”, por Dom Henri Teissier, arcebispo emérito de Argel. Consolata Editora (Fátima), Tradução de Aventino Oliveira. ISBN 978-972-8265-45-8.

[cf. o filme Des hommes et des Dieux de Xavier Beauvois]




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[2] Duma certa forma de religião filosófica ataráxica, duma procura duma certa paz à custa do afastamento das tensões e das lutas sociais e históricas (por oposição à «religião histórica» de Israel), privilegiando o contacto com a natureza romântica, consoladora, retemperadora, idílica (cf. os hodiernos ‘resorts’… e as propostas turísticas actuais).
[3] Georg Gänswein, presbítero e teólogo alemão, um dos dois secretários particulares do Papa Bento XVI, prior da catedral de Friburgo antes de se mudar para Roma (para a cátedra de Direito Canónico na Pontifícia Universidade da Santa Cruz). Antes de ser escolhido por Bento XVI para seu secretário particular, servira, na Congregação para a Doutrina da Fé, o cardeal Joseph Ratzinger.

25 de dezembro de 2012

NATAL_5 - DEUS E O DINHEIRO

«Creio que o cristianismo ocidental desenvolveu em si mesmo toda uma tradição, a que eu chamaria uma espécie de ateísmo, “um ateísmo suspenso”, no sentido em que o cristianismo chega a manter a fé em suspenso (estou a pensar no «Geläut der Stille», o «carrilhão do silêncio», de Martin Heidegger), em que o cristianismo chega a estabelecer uma distanciação face a Deus e face a qualquer tipo de comportamento que o pudesse levar muito a sério. Esta tradição sugere um ateísmo latente no cristianismo (salvo no Oriente cristão). Como se o cristianismo, concretamente, fosse incapaz de suportar uma presença ou sequer uma afirmação excessiva de Deus ou, mais ainda, como se tivesse necessidade de uma certa dose de ateísmo para poder suportar-se a si mesmo enquanto fé em Deus. Como se o ateísmo lhe fosse mais que necessário para expressar correctamente a sua fé em Deus, alertando contra o seu excesso. Como se «Etsi Deus non daretur» fosse a coisa mais natural. Pensemos, antes de mais, na passagem bíblica: “(Quando estiveres doente) ora ao Senhor, oferece incenso e oferendas generosas à medida das tuas posses. Depois, chama o médico, pois te será útil.” [Sir 38:9.11-12] Ou seja, muito pragmaticamente, encomenda-te ao teu anjo da guarda, mas não te esqueças de ir ao médico, tá?! E o autor sagrado, como que para não escandalizar o eventual leitor devoto, acrescenta: “Porque ele também [o médico] foi criado pelo Senhor”...».

Adolphe Gesché
Etsi Deus non daretur»: como se Deus não existisse)





«AI DE VÓS…!»
Distopias evangélicas


As utopias apontam para um futuro idílico universalmente desejável. Nos seus antípodas, o neologismo distopia anuncia um horizonte apocalíptico do qual apetece fugir.



1.   INTRODUÇÃO


Utopia e distopia são conceitos relativos – diante da mesma expectativa social, indicam perspectivas divergentes.

A luta utópica de algumas ONG’s, a fim de conseguir medicamentos livres de patentes para países em vias de desenvolvimento, desenha um cenário distópico para as empresas farmacêuticas que reivindicam os direitos de propriedade intelectual para amortizar os seus investimentos em investigação. No século passado, a utopia da conservação da selva tropical amazónica defendida por Chico Mendes constituiu uma clara distopia para os interesses depredadores dos fazendeiros brasileiros que o assassinaram.

Tradicionalmente, a mensagem evangélica alheou-se acriticamente da utopia. A Boa Notícia, apresentada sob as roupagens edulcorantes duma sociedade paradisíaca, foi comummente recebida e aceite como ideologia apetecível por todos. No entanto, basta ter em atenção o destino trágico de Jesus e dos mártires cristãos de todos os tempos para concluir, sem ambiguidades, que o horizonte do reino de Deus é essencialmente distópico. Ao longo da história, os guardiões do status quo sempre viram com maus olhos qualquer tentativa de construir uma sociedade mais justa, mais fraterna e igualitária.


Jesus, profeta distópico

Jesus foi condenado e executado por ser distópico: as suas palavras e acções foram, pelos seus contemporâneos, entendidas como uma ameaça real para o sistema social, político e religioso dominante. O anúncio de um Reino de Deus, em que publicanos e prostitutas precederiam os sacerdotes e os anciãos do povo (cf. Mt 21:23-32); um Reino em que pobres, aleijados e coxos ocupariam os lugares de honra desvalorizados pelos convidados da primeira hora o povo judeu (cf. Lc 14:15-24); um Reino em que a adoração em espírito e em verdade suplantaria o culto do Templo de Jerusalém (cf. Jo 4:19-24) punha em perigo os pilares sagrados da nação judaica.

Jesus não foi um activista político possuidor dum plano revolucionário de reformas sociais. A sua mensagem e a sua acção estavam em continuidade com a tradição profética israelita. Na sua experiência religiosa foi-se revelando o rosto de um Deus distópico intimamente preocupado com a sorte dos ‘mais pequenos’. Uma relação privilegiada com o Abba do povo, o que o levou a proclamar o advento dum reino no qual a santidade de Deus surgia vinculada ao destino dos empobrecidos:

«Jesus faz a experiência de um Deus diferente. É o Abba do povo. Interessa-lhe a vida do pobre (Mt 6:9-13): nela, joga-se a realidade da sua paternidade histórica. Decidira reinar , mudando a situação dos marginalizados.»[1]


A decisão de Caifás

Ainda que tragicamente expedito a tomar decisões, o sumo-sacerdote Caifás foi muito lúcido na análise das possíveis consequências da mensagem de Jesus: «Não percebeis que é preferível que morra um só homem pelo povo do que a nação [judaica] ser destruída?» (Jo 11:50)

A afirmação da primazia da pessoa sobre a Lei divina, a solidariedade contaminante com «os impuros», a crítica da religiosidade farisaica ou a inclusão dos pagãos nas promessas da Aliança, fizeram do galileu um profeta subversivo. A sua própria utopia sócio-religiosa questionava pela raiz a ordem judaica baseada na exclusividade da Promessa e na exclusão de todos aqueles e aquelas que pudessem manchar a pretensa santidade do Povo Eleito.


Ais’ distópicos

O evangelista Lucas estava muito consciente do conflito latente na proclamação da boa nova do Reino de Deus. Por isso, não hesitou em acrescentar uma «mal-aventurança» a cada «bem-aventurança do Sermão da Planície:

«Ditosos os pobres / Ai de vós, os ricos!»
«Ditosos os que têm fome / Ai de vós, os que estais saciados!»
«Ditosos os que chorais / Ai de vós, os que agora riem!» [Lc 6:20-26]

As mesmas distopias que acrescentam tensão ao «bucólico» Magnificat mariano (Lc 1:46-55). A utopia de um Deus misericordioso que enaltece os humildes e enche de bens os famintos rapidamente fica ameaçada pelas nuvens distópicas que anunciam tempestade para os poderosos e ricos: «derrubou dos seus tronos os poderosos […] e, aos ricos, despediu-os de mãos vazias».

Porquê esta estreita ligação entre promessa aos desfavorecidos e ameaça aos privilegiados?
A situação dos pobres e dos famintos é incompatível com a manutenção da situação dos de melhor estatuto social e económico?
Não estará porventura, o Evangelho, a estabelecer uma relação de causa-efeito conflituosa e gratuita?


2.   MATRIZ DISTÓPICA: OS ÚLTIMOS SERÃO OS PRIMEIROS

«Os últimos serão os primeiros e os primeiros serão os últimos» (cf. Mt 20:16) – esta estranha profecia é a matriz nutritiva que alimenta o carácter distópico da Boa Notícia evangélica.


O anúncio do reino de Deus é bi-direccional. Por um lado, promete uma melhoria de vida para os pobres e sofredores e, por outro, «ameaça» a situação de privilégio dos satisfeitos. Uma dupla direcção que não persegue uma mera mudança de lugares: os pobres passam a ocupar o cadeirão dos ricos e os ricos sentam-se no chão dos pobres. Não.

Muito menos se reduz a um acto de caridade, de modo a que os que mais têm se vêm convidados a ajudar os mais necessitados.

Pobres e ricos estão convocados a caminhar rumo a um lugar inédito no qual a sorte de ambos será alterada.

A distopia evangélica não procura restabelecer um ponto de equilíbrio dum sistema desequilibrado. Não se trata de pôr mais riqueza no prato dos pobres a fim de equilibrar uma balança que sempre pendeu mais para o lado dos que mais têm. Não defende que os menos favorecidos venham a gozar dos privilégios do mundo rico, identificando, assim, Reino de Deus com sociedade de bem-estar.

O que a antítese primeiros-últimos propõe é deslocar o fiel da balança, manejar para que a medida resultante seja favorável aos últimos. Propõe uma viragem coperniciana que desloque o centro de gravidade do sistema social, arrastando, consigo, os seus planetas associados: económicos, relacionais, políticos, culturais, etc., de modo que toda a constelação orbite em torno das necessidades e prioridades dos mais desfavorecidos.

Que os últimos sejam os primeiros e que os primeiros sejam os últimos significa assumir que os empobrecidos marquem o ritmo do nosso progresso. Implica que aceitemos que os primeiros terão que ir atrás de coxos, estropiados e cegos. Obriga a abrandar a nossa marcha, renunciando ao sprint para o qual nos treinamos nesta sociedade de êxito, de modo a que todos e todas cheguemos juntos à meta.

Obriga a pôr de quarentena os sucessos convertidos em dogmas inquestionáveis do nosso modelo de desenvolvimento. Reclama, por último, estarmos dispostos a renunciar a não poucas doses de riqueza que, com unhas e dentes, defendemos como se direitos inquestionáveis.

O Reino de Deus não se reduz a pequenos ajustes reformadores: vai mais além. Pretende refundar a ordem social. Propõe, nas palavras de Ignacio Ellacuría, «inverter a história»:

«O que falta fazer é imenso. Só utópica (distópica, diríamos nós) e esperançosamente se pode acreditar que é possível, com todos os pobres e oprimidos do mundo, ter coragem para reverter a história, subverter a história e lançá-la noutra direcção.»[2]





Para lá da moral. Injustiça estrutural

As utopias / distopias evangélicas situam-se para lá do âmbito moral, não procuram premiar os pobres virtuosos e castigar os ricos invejosos. Denunciam uma situação que é prévia a qualquer acção: a mera existência de riqueza num contexto de pobreza generalizada é uma situação escandalosa que exige ser alterada. Como dirá Jon Sobrino:

«Mesmo que por hipótese a coexistência de ricos e pobres não fosse devida à injustiça, tal facto exprime um monumental descalabro e um fracasso fundamental da família humana.»[3]

Segundo os dados do último relatório para o Desenvolvimento Humano da ONU, uma criança que nasça na Noruega tem uma esperança de vida de 81,1 anos. Se nasce na República Democrática do Congo, a sua expectativa reduz-se para 48,4 anos.[4] Trata-se do pecado “original-originante” que deve ser redimido.

Os exegetas neo-testamentários coincidem ao afirmar que os termos hebraicos e gregos utilizados, nas bem-aventuranças de Lucas ou de Mateus, para falar de pobres, famintos e infelizes referem-se a situações estruturais e não a desgraças pontuais. Os pobres (ptojoi) são aqueles que têm que mendigar para sobreviver: suas vidas dependem de outros. “Famélicos” seria a melhor tradução do termo grego (peinontes) que se refere a famintos – trata-se de uma fome profunda e prolongada. E pranto não se identifica com uma pena passageira, mas com sofrimento profundo fruto duma marginalização permanente.

Diante destas situações de indigência estrutural, os ricos, os satisfeitos e os felizes são aqueles que possuem grandes quantidades de bens materiais, são os que estão fartos e plenamente satisfeitos, são os privilegiados que ignoram o sofrimento alheio.[5] As situações estruturais pobreza e riqueza, fome e saciedade, sofrimento e auto-satisfacção são chamadas a reverter-se (utópica ou distopicamente, segundo os destinatários).


Para lá do direito

As distopias evangélicas também rebentam com o horizonte ético-jurídico dos Direitos Humanos. Ao enraizarem-se nas condições materiais que negam a possibilidade real dos mais débeis do planeta a ter direitos básicos, as distopias evangélicas anulam a retórica idealista que, a partir do norte satisfeito, começa já a reivindicar direitos fundamentais de “quinta geração”, enquanto que três quartas partes da população mundial nem sequer acedeu a direitos civis e sociais de primeira geração.

Como investir energias a exigir que o acesso à internet seja considerado um direito humano, quando 25.000 crianças morrem diariamente, porque ninguém respeita o seu direito básico a alimentarem-se. As prioridades dos mais desfavorecidos obriga a estabelecer hierarquias e, assim, exigem que se renuncie voluntária e temporariamente a direitos inquestionáveis, do ponto de vista formal.

Quando o rei David ordena a Urias, o hitita, que descanse em casa após a batalha, este fica-se a dormir às portas do palácio e justifica a sua acção nestes termos:

«A Arca de Deus habita numa tenda, assim como Israel e Judá. Joab, meu chefe, e seus servos dormem ao relento, e eu teria coragem de entrar na minha casa para comer e beber e dormir com a minha mulher? Pela tua vida, pela tua própria vida, não farei tal coisa!» [2 Sm 11:8-11]

Urias tem todo o direito do mundo em ir descansar a casa, mas renuncia a isso: banquetear-se, enquanto os oficiais dormem ao relento?

Nos seus últimos dias de vida, Madre Teresa de Calcutá pediu para ser atendida com os mesmos meios que eram postos à disposição dos pobres a quem ela se dedicou a vida toda:

«Se os pobres não podem aceder ao luxo dos tratamentos, não há razão para que eu disponha deles. Deixem-me morrer como aqueles a quem sirvo, pobres no meio de pobres.»

Madre Teresa tinha possibilidades e direito a ser atendida pelos melhores cardiologistas da Índia, mas… «banquetear-se enquanto os oficiais dormem ao relento?»


Universalidade a partir dos últimos

As distopias evangélicas não negam a universalidade da mensagem evangélica. Jesus anuncia a boa notícia a pobres e estropiados, bem como ao publicano Zaqueu (Lc 19:1-10). A sua preferência pelos últimos não é excludente, tal como demonstra a sua relação de proximidade com os poderosos: come com fariseus notáveis (Lc 14:1) e com pecadores (Mc 2:15ss; Lc 15:2). Não há dúvida que, tal como refere Rafael Aguirre Monasterio, ainda que o Reino de Deus seja para todos, apenas para os pobres é que ele é boa notícia (Lc 4:18; 6:20; 7:22); os ricos vão recebê-lo como má notícia (Lc 6:24-26; Mc 10:17-27).

«Diante de Jesus e o Reino, certamente que todos estamos necessitados de conversão, mas nem todos os interesses e nem todas as situações são afectadas da mesma maneira.

«Às vezes, isto é difícil de ser entendido e não poucas vezes se procuram interpretações moldáveis. Mas, já o próprio Jesus estava bem consciente do carácter escandaloso do anúncio que fazia do reino: «… a boa notícia é anunciada aos pobres; e feliz aquele que não se escandaliza comigo.»[6] (Lc 7:22s; Mt 11:9s)

José Laguna
Teólogo e músico
in Cuadernos Cristianisme i Justicia, nº 181, Novembro de 2012.


[1] Carlos Bravo, «Jesus de Nazareth» em I. Ellacuría y J. Sobrino, Mysterium Liberationis. Conceptos fundamentales de la teologia de la liberación I, Madrid, Trotta, 1994.
[2] Ignacio Ellacuría, «El desafio de las mayorías pobres», Estudios Centroamericanos, 493-494 (1989), p. 1078.
[3] Jon Sobrino, «Jesus y la justicia. Reflexiones para Occidente», en AA.VV., El seguimiento de Jesus, Fundación Santa Maria, Madrid, 2004, p. 206.
[4] Dados do IDH  (http://hdr.undp.org/es/)
[5] Cf. Gustavo Gutiérrez, «Pobres y opción fundamental», en Ellacuría y Sobrino, Mysterium Liberationis…, o.c., p. 311-312.
[6] Rafael Aguirre Monasterio, Reino, Parusia y Decepción, Madrid, Fundación Santa Maria, 1984, p. 19.

24 de dezembro de 2012

NATAL_4 - DEUS E O DINHEIRO

Consta que Stanley Ho[1] [1921-] propôs-se obter um Doutoramento Honoris Causa, a troco de uma boa oferta de dinheiro … à Universidade Católica em Lisboa.



Os fundos-abutres investem em países quase em falência e não aceitam perdoar as dívidas

«[…] Basta ver quem são os clientes dos hotéis no centro financeiro de Madrid: são os representantes de empresas de capital de risco como a Oak Hill e a Corsair Capital. Aguardam para atacar: segundo o jornal Expansion, estes especuladores só querem comprar hipotecas com mais de 70% de desconto. E, diz um banqueiro espanhol à Reuters, estão nos hotéis por uma razão: “Querem ter a certeza de que são os primeiros a quem vamos ligar quando os bens dos bancos [com problemas] forem vendidos.” Para já ainda não fizeram grandes negócios – os preços não baixaram tanto como desejavam.» (revista Sábado, 21-27 Junho 2012, p. 62)





«Não preciso do teu dinheiro generoso… Muito obrigado!», disse Jesus





Mamon, palavra de origem aramaica, que provavelmente significa “aquilo em que se pode confiar” e que se aplica especialmente ao dinheiro/Capital. Ao contrapor-se a Deus, em Lc 16:13 e Mt 6:24, essa palavra adquire um carácter quase pessoal, de maneira que pode ser interpretada como o anti-deus ou o ídolo supremo: “Ninguém pode servir a dois senhores, pois ou odiará um deles e amará o outro ou estimará um deles e menosprezará o outro. Ninguém pode servir a Deus e a Mamon.”

A partir daqui e tendo em conta a totalidade da mensagem da Jesus (…), podemos estabelecer alguns princípios teológicos fundamentais.

1 - O contrário de Deus não é um desejo subjectivo, mas uma estrutura objectiva, construída e absolutizada pelos homens: Mamon (o Capital, na sua forma opressora). O mal não é o mundo em si nem as coisas da criação finita, como poderia supor algum dualismo gnóstico, que condena a matéria, o sexo. (…) [o mal é] uma realidade trans-subjectiva fabricada pelos homens como estrutura objectivada em forma de sistema de dominação económica: Mamon. O mal brota da má vontade (da inveja, do juízo e do desejo de domínio), e objectiva-se e concretiza-se de modo que pode vir a incorporar, e já incorporou!, uma realidade idolátrica, externa: é Mamon. O mal é algo que o homem constrói para de imediato ficar escravizado por ele (idolatria). O mal não é uma criação positiva de Deus, mas também não é algo vazio, abstracto: é algo que os próprios homens constroem com a intenção de o dominar, mas de tal modo que acabam por ser dominados por ele. […]

3 – Mamon é um ídolo enganador que consegue camuflar-se, oculto sob roupagens de piedade e de liberdade. O Evangelho sabe que o próprio Templo de Jerusalém foi «feito por mãos humanas» (kheiropoiêton: Mc 14:58) e, portanto, vinculado ao dinheiro (cf. Mc 11:15-19), pois «onde estiver o teu tesouro, aí estará também o teu coração» (cf. Mt 6:21). […] A descoberta do carácter anti-divino de Mamon tem características de revelação: não se alcança com discursos conceptuais ou teorias cósmicas plasmadas na linguagem de «talião», mas apenas onde o verdadeiro Deus se haja revelado como poder de gratuitidade e princípio de amor que confira fundamento amoroso à existência humana. Foi assim que Jesus o vislumbrou identificando o Diabo (activo nas Tentações: cf, Mt 4 e Lc 4) com Mamon.







4 – Mamon é um deus forte, que permite construir muitas coisas (como a Torre de Babel). As palavras de Jesus, ditas no seu tempo, tornam-se hoje em dia muito claras, já que o capitalismo no Ocidente racionalizou a economia convertendo-a em princípio e motor das relações sociais, e dessa forma criou a indústria, produziu muitos bens e, de alguma forma, conquistou todo o mundo. Ora, este Mamon do grande capitalismo, que está estreitamente relacionado com o império militar e que domina sobre a totalidade dos seres humanos, no fundo é o anti-deus, tal como o entende o Apocalipse quando o interpreta como a Grande Prostituta e deusa deste mundo (Ap 17-18). Deus e Mamon assemelham-se e assemelhando-se opõem-se. Deus é criador, é Vida que se dá a si mesma; Mamon, por outro lado, foi criado pelos homens (aproveita-se deles, devora-os como faz o Dragão do Ap. 12). Deus é princípio de liberdade. Mamon, por outro lado, possui-nos (tal como o Diabo) e converte-nos em escravos ao forçar-nos a entrar esquemas de mérito e lucro, de ganância e julgamento, nos quais vale mais quem mais tem, ainda que, ao cabo e ao resto, todos acabem escravos do sistema.» [X. Pikaza]

Mc 10:17-22 - O homem rico (Mt 19,16-22; Lc 10,25-28; 18,18-23) - Quando se punha a caminho [de Jerusalém], alguém correu para Ele e ajoelhou-se, perguntando: «Bom Mestre, que devo fazer para alcançar a vida eterna?» Jesus disse: «Porque me chamas bom? Ninguém é bom senão um só: Deus. Sabes os mandamentos: Não mates, não cometas adultério, não roubes, não levantes falso testemunho, não defraudes, honra teu pai e tua mãe.» Ele respondeu: «Mestre, tenho cumprido tudo isso desde a minha juventude.» Jesus, fitando nele o olhar, sentiu afeição por ele e disse: «Falta-te apenas uma coisa: vai, vende tudo o que tens, dá o dinheiro aos pobres e terás um tesouro no Céu; depois, vem e segue-me.» Mas, ao ouvir tais palavras, ficou de semblante anuviado e retirou-se pesaroso, pois tinha muitos bens.

Esta passagem permite-nos ver melhor as relações de Jesus com a riqueza. Jesus vai a caminho de Jerusalém (a caminho da morte) e sai-lhe ao caminho um homem: «era muito rico». (…) Era um bom judeu, um homem da Lei, mas alguém que queria mais e por isso buscou Jesus. Não sofre de angústia pessoais, nem tinha dificuldades familiares. Sente-se feliz, mas quer atingir a vida eterna. Jesus responde-lhe dizendo-lhe que seja um bom judeu e que viva segundo os mandamentos que conduzem à vida eterna (cf. Ex 20:12-16). O homem responde-lhe que os cumpre já, de maneira que podemos concluir que ele é um irrepreensível cumpridor da Lei, tal como Paulo dizia de si próprio (Fl 3:6).

Porém, o Evangelho ergue-se acima da Lei quando acrescenta: «Jesus, fitando nele o olhar, sentiu afeição por ele e disse…» (Mc 10:21). A partir daqui, toda a cena se constrói como um cruzamento de olhares. O que Jesus vai dizer (vende tudo e segue-me) só se pode exigir a partir do amor. Para lá das leis que toda a vida até agora cumpriu, Jesus oferece ao homem rico o olhar amante que o tornará capaz de situar-se ao nível da gratuitidade do Reino.

Jesus não lhe exige que cumpra leis novas, nem o acusa de nada. Simplesmente, ama-o, segundo um gesto que é emblemático de todo o Evangelho, convidando-o com o seu olhar a deixar tudo e a segui-lo. Entre Jesus e o homem estabelece-se uma comunicação prenhe de promessas. Tudo indica que eles se vão entender, na medida que existe um princípio de cordialidade entre ambos. Só assim se entende que Jesus possa ter acrescentado: «Apenas te falta uma coisa: vai e vende o que tens…».

No coração da perfeição moral, Jesus detecta uma carência que se expressa como falta de gratuitidade. Por isso, insiste: «Vende o que tens». E assim surge o tema central do relato: este homem «tem» coisas, este homem tem-nas para si, este homem está a correr o risco de que elas o tenham e o possuam. Por isso, Jesus pede-lhe que as venda, não simplesmente para as vender, mas que sejam dadas aos pobres, em gesto de amor generoso.


Os bens dos pobres. Para lá duma economia comunitária.

Podemos vender bens a fim de negociar com eles e fazer lucro. Jesus não pede isso, Jesus não quer um comerciante ao serviço do Reino.[2] Podem vender-se bens para serem ofertados a uma comunidade religiosa ou social, isto é, à Igreja ou a uma organização, tal como o pede a regra essénica de Qümran (cf. 1QS 1,11-13) e também como supõem muitas regras cristãs de vida religiosa. Nem isso quer Jesus: não quer que os seus discípulos passem da posse individual (ou posse de família pequena) à posse grupal. Nem quer que esses bens sirvam para enriquecer uma Igreja com donativos que podem ser utilizados para manter as suas obras religiosas, já que, dessa forma, os seus discípulos continuariam perseguindo o cheiro do dinheiro e do poder do grupo.

Jesus, pelo contrário, quer que o homem dê os seus bens aos pobres, isto é, aos de fora do seu grupo, sem esperar compensações, por puro amor gratuito. «E terás um tesouro nos céus…», isto é, onde ninguém é possuidor de nada, onde tudo é oferecido e tudo é partilhado, segundo o plano dum Deus que tudo tem e nada possui. Esta é a demonstração de Deus: a gratuitidade completa. […]

Certamente, este homem pensa que Jesus lhe irá pedir os seus bens (ou parte deles) para o serviço da sua obra do Reino, mas Jesus responde-lhe que não quer nada, nem para ele, nem para a sua Igreja: Jesus não necessita dos bens deste rico para edificar a sua comunidade; não quer construir a sua Igreja sobre os donativos dos poderosos. 


Donativos para o templo de Jerusalém - «Alguns chefes de família fizeram donativos para os trabalhos. O governador doou ao tesouro mil dracmas de ouro, cinquenta taças e quinhentas e trinta túnicas sacerdotais. E vários chefes de família doaram ao tesouro para os trabalhos vinte mil dracmas de ouro e duas mil e duzentas minas de prata. O resto do povo doou vinte mil dáricos de ouro, duas mil minas de prata e sessenta e sete túnicas sacerdotais. Os sacerdotes, os levitas, os cantores, os porteiros, as pessoas do povo, os natineus e todos os filhos de Israel estabeleceram-se nas suas respectivas cidades.» [Ne 7:69-72]


Por isso diz que «dê aos pobres». Só depois pode acrescentar «vem e segue-me». Não lhe pede coisas de dinheiro nem lhe oferece ideias ou planos de oração nem o convida a realizar sacrifícios ou gestos religiosos, não lhe promete nenhum tipo de bens materiais, mas algo infinitamente superior: Segue-me! O rico pode até ter oferecido a Jesus algum dinheiro, mas Jesus não precisa de dinheiro: quere-lo a ele e diz-lhe “Segue-me”. É como se acrescentasse: ‘Não quero os teus bens, quero-te a ti! Não me fazem falta as tuas riquezas! Preciso de ti como pessoa! «Mas ele, entristecido com estas palavras, suspirando fundo, foi-se embora. Era muito rico…». Jesus fracassou, não conseguiu «converter» o homem rico. Olhou com amor, mas o amor não foi suficiente para que superasse o seu desejo de segurança económica.

«Vista deste ponto, esta cena (Mc 10:17-22) é uma espécie de romance exemplar que nos ancora no tempo de Jesus e que lança luz sobre o caminho de certas igrejas, as quais, muitas vezes ao contrário de Jesus, pedem dinheiro às pessoas que, longe de ser para os pobres (cristãos ou não), é para as suas instituições de tipo social ou sacral.»


Xabier Pikaza