teologia para leigos

22 de dezembro de 2012

NATAL_3 - DEUS E O DINHEIRO

«Bem unidos façamos, nesta luta final, uma terra sem amos…»





Das seis secções do Evangelho de Mateus, a quarta [16:21-20:34] revela como, para Jesus, era importante começar a esculpir com as próprias mãos o diamante. Caminhava para Jerusalém, tudo poderia vir a correr mal (nada estava garantido) e, sendo assim, convinha lançar-se na construção da sua proposta: uma esperança possível, palpável, uma casa diferente, contra-cultural, que fosse ao arrepio da ideologia dominante. Jesus não parava de ser provocado, pelos seus discípulos, a abrir o jogo, a “concretizar” o seu plano, a pôr tudo em pratos limpos.

Sabemos bem que todo projecto de construção começa pela necessidade de enfrentar as dificuldades da obra projectada (na cabeça). Dentro desta quarta secção de Mateus, fixemo-nos apenas em duas narrativas: O jovem rico (19:16-26) e Os trabalhadores da vinha (20:1-16). Que se passa aqui? “Processo de acumulação de capital, entesouramento, força de trabalho, capitalismo-empregador e virtudes morais, produção de mais-valias …” – até parece que, traiçoeiramente, o Evangelho nos empurrara para dentro dalgum volume de Karl Marx: Contribuição para a Crítica da Economia Política? O Capital? Que se passa aqui, nestas narrativas?!






Proémio

A Internacional ficou como um hino famoso, comum a muitos espíritos internacionalistas, comunistas, socialistas, sociais-democratas, anarquistas, etc., sobretudo depois que foi adoptado (entre 1917 e 1941) como Hino Nacional da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS).


De pé, ó vitimas da fome
De pé, famélicos da terra
Da ideia a chama já consome
A crosta bruta que a soterra

Cortai o mal bem pelo fundo
De pé, de pé, não mais senhores
Se nada somos em tal mundo
Sejamos tudo, ó produtores

Bem unidos façamos
Nesta luta final
Uma terra sem amos
A Internacional (…)

O crime de rico, a lei o cobre
O Estado esmaga o oprimido
Não há direitos para o pobre
Ao rico tudo é permitido

À opressão não mais sujeitos
Somos iguais todos os seres
Não mais deveres sem direitos
Não mais direitos sem deveres (…)

Abomináveis na grandeza
Os reis da mina e da fornalha
Edificaram a riqueza
Sobre o suor de quem trabalha

Bem unidos façamos
Nesta luta final
Uma terra sem amos
A Internacional



Este hino, a Internacional, fala de situações eternas! E de Esperança, também.

A exploração do homem pelo homem será sem sombra de dúvida «a profissão mais velha do mundo». A crítica dos Profetas de Israel à acumulação avara de riqueza, fruto da opressão e exploração dos pobres (Is 5:8-10; 10:1-3; Ex 22:6-31; 27; Am 2:6-7; 5:10-12; 8:4-8; Mt 6:19-34) e a crítica de Horácio (poeta da Roma Antiga, 65 aC-8 aC) contra os que perseguem avaramente a riqueza (Sát 1.1; 2.3.82-280) são boa demonstração disso mesmo.

Filóstrato[1], filósofo sofista grego, [c. 170-250 dC] (Apolonio 1.15) narra um incidente ocorrido em Aspendo (Panfília, Ásia Menor; Act 2:10) durante o reinado de Tibério (14-37 dC). À sua chegada a essa cidade, Apolónio encontra uma situação terrível: amotinação, fome e revoltas, porque «os ricos enceleiraram todo o trigo e retiveram-no para exportação». Vendendo-o para fora, obtinham lucros incalculáveis. Numa sociedade imperial que vivia da produção agrícola, o entesouramento, se é certo que constitui uma reserva em situações de quebra da produção, ele por si só também acarreta instabilidade económica. O entesouramento, de costas voltado para o investimento (compra de mercadoria), vive da especulação, a qual consiste “em prever a psicologia do mercado”. [Keynes] Ora, previsões são previsões…

No “tempo” de Jesus, são conhecidas revoltas violentas em Jerusalém (66 dC) e em Antioquia (70 dC), durante as quais as multidões de pobres e esfomeados assaltaram os arquivos lançando-lhes fogo a fim de destruir os registos dos seus bens patrimoniais e também os registos das suas dívidas fiscais, como forma de protesto contra os meios abusivos de que se serviam os ricos para “espremer” ainda mais os pobres.

Numa sociedade agrária, a fonte de rendimentos é a terra e mão-de-obra abundante e disponível (‘ociosa’, Mt 20:3); o destino desses mesmos rendimentos é o exército (para controlar a posse e o trabalho), os cargos políticos imperiais, as elites e o luxo (demonstração de posse, status). Nela não se coloca a questão da negociação salarial, nem a questão da Teoria da Abstinência (o latifundiário prescindir de parte dos lucros para realizar a reposição de capital e de maquinaria). O desemprego[2] (que à era de Jesus era massivo) assegurava a exploração e o lucro. O salário não era problema: cumpria apenas a função de manter vivo, e com alguma força, o trabalhador / marginal para que produzisse. A precariedade era a norma (rendas e impostos sobre os rendeiros subindo em flecha de modo arbitrário, e, em tempos de carestia, com a consequente obrigação da devolução / hipoteca das terras; como resultado, apropriação das terras por parte dos amos; ou seja, «dinheiro faz dinheiro»).

 

O sistema estava montado. Assim se enriquecia. Muito. Já naquele tempo era assim: tudo como hoje, desde a Era Industrial.

 

Como explicamos, hoje, este processo?

 

É (…) «realista supor que não são os capitalistas que concedem crédito aos trabalhadores (que lhes pagam antecipadamente), pois são os trabalhadores que concedem crédito aos capitalistas, sendo remunerados pelo trabalho já efectuado. (…)

 

«O equivalente do carácter bipolar das duas categorias ‘capital’ e ‘trabalho assalariado’ é, por um lado o lucro e, por outro, o salário. Naturalmente, a origem do lucro só pode ser a venda vantajosa se se considerarem casos particulares; se, em contrapartida, se considerar o processo na sua totalidade, isto é, se a questão diz respeito à origem da existência dos “grupos sociais que não trabalham”, então deve procurar-se uma explicação para o lucro no ‘processo de produção’.

 

«O lucro é uma forma transfigurada da mais-valia. O significado desta explicação é, na sua forma mais simples e concisa, o seguinte: o facto de que os meios de produção são propriedade de pouquíssimos indivíduos, e de que os trabalhadores se encontram privados deles, obriga estes últimos a venderem a sua capacidade de trabalho, isto é, a sua força de trabalho, por uma soma de dinheiro mais ou menos equivalente ao valor dos produtos suficientes para a reprodução da força de trabalho. O trabalhador, no entanto, trabalha por um período de tempo mais longo do que é necessário à reprodução da força de trabalho. O valor das mercadorias produzido durante este tempo adicional de trabalho representa a mais-valia

 

«Ao mesmo tempo, o Capital é um conceito bipolar: admite a existência de trabalho utilizado livremente e, ao mesmo tempo, implica domínio sobre esse trabalho e, por conseguinte, também sobre as condições de produção. (…) é claro que o dinheiro em si não é Capital. Só se transforma em Capital quando é utilizado para multiplicar valor, quando se transforma num meio para produzir mais-valia, isto é (falando em termos muito genéricos), num excedente que ultrapassa os meios de subsistência dos trabalhadores. É também Capital quando se transforma num direito de participar na distribuição do «excedente». Por outras palavras, o dinheiro não é Capital se for apenas um intermediário na troca das mercadorias. Isto exprime-se pela fórmula M – D – M (mercadoria – dinheiro – mercadoria). Se, no entanto, o objecto da troca é a multiplicação do valor de troca, o dinheiro transforma-se em Capital, e isto exprime-se pela fórmula: D – M – D’, onde D’ é maior que D. Esta fórmula mostra o significado da definição de Capital como valor que serve para multiplicar valor, isto é, valor que se auto-multiplica.»[3]

 

Para terminar este atalho, citemos, por fim, Karl Marx: «Um negro é um negro. Só em determinadas condições se transforma em escravo. Uma máquina de fiar algodão é uma máquina de fiar algodão. Só em determinadas condições se transforma em Capital. Subtraída a essas condições, ela não é Capital, do mesmo modo que o ouro em si e só por si não é dinheiro, e o açúcar não é o preço do açúcar».[4]

 

 

Adentrando

 

Diz X. Pikaza:

 

«El pueblo de Israel ha conocido el dinero desde los tiempos más antiguos, pero su uso ha sido limitado, pues gran parte de la población ha vivido hasta el tiempo de Jesús al nivel de una economía de subsistencia, produciendo lo necesario para vivir o adquiriendo por trueque los productos faltantes, como ha sucedido en muchas sociedades agrarias hasta tiempos muy recientes.

 

«En vez de moneda acuñada (de oro, plata o bronce) se empleaban más bien como dinero animales (ganado mayor y menor: pecunia) y medidas de alimento (de trigo, vino o aceite). Por eso resulta peligroso comparar rápidamente aquella sociedad no monetaria con la nuestra de occidente, casi totalmente monetarizada.

 

«De todas formas, la centralidad del templo de Jerusalén (cuyo culto sostienen todos los judíos con dinero) y del imperio romano (que exige a sus súbditos tributo monetario) han hecho que el tema del dinero ocupe un lugar importante en la sociedad judía del tiempo de Jesús.

 

«Es posible que los primeros cristianos usaran poco dinero, pues vivían (en el ámbito rural) al nivel de economía de trueque. Por eso resulta sorprendente la cantidad de alusiones no sólo económica, sino también monetarias que hallamos en los evangelios.»[5]

 

Na verdade, numa das duas narrativas sugeridas (O jovem rico, 19:16-26) o que está em causa é a condição de latifundiário capitalista daquele jovem: «era muito rico». Ninguém tem dúvidas que se tratava de uma pessoa boa e religiosa, até talvez espiritualmente interessante: queria mais (pois já cumpria a Lei a preceito; v.20). Há gente assim: apesar da vida lhe correr bem, sente ânsia de mais, procura e, pelos conhecidos, é julgada como pessoa ‘preocupada com os outros’, sempre a correr, a oferecer-se para tudo, muito generosa. Porém, esquece-se do mais importante: fazer a ponte entre a carência que sente e as circunstâncias que lhe permitem ser carente – seus “cabedais” (como se dizia na casa da minha avó), seus rendimentos, suas propriedades, seus ‘pé-de-meia’. Há gente assim, muito da Igreja, que anseia por estar rodeada de gente a quem ajudar.[6]

 

A casa é um lugar de honra e de status: sempre foi e é. Atesta a reputação: é o lugar da salutatio matinal (na minha aldeia é-o forte e claramente!). A casa, para os latifundiários, poderá, eventualmente servir para acolher pobres algumas vezes por ano (ceia de Natal para pobres, p. ex.), para dar festas de beneficência, promover tômbolas de caridade, reunir empresários para angariar fundos, etc.. Pedir a um empresário / terrateniente que «venda a casa, as suas quintas e as distribua pelos pobres», para ele é estúpido… Na melhor das hipóteses, poderá pôr à venda uma quinta, uma casa abandonada e entregar o dinheiro à Igreja ou outra instituição de fiar. E, dar aos pobres?!!! Não será deitar pérolas a porcos…?

 

A narrativa coloca-nos diante dum Jovem que era um gestor com PhD por Harvard… um Executive Coaching!, um caso de sucesso. Jesus enfrenta, não a consciência deste jovem generoso e bom − e podia tê-lo feito −, mas o sistema em que ele (e o seu coração) está metido e onde foi formatado / atado. Jesus coloca em confronto «o império do Céu» (v.21) e o «império do Capital»: não enfrenta o ter-se um pedaço de dinheiro; enfrenta o império do Dinheiro, Mamon (v.22; Mt 6:24). A conclusão final desta narrativa – v. 23: «dificilmente um rico entrará no Reino do Céu» − é um Tratado de Filosofia Política, pois não se trata de uma condenação moral, mas de uma constatação social. E de que constatação se trata? De que há estruturas (independentes da vontade) que são poderosíssimas. O jovem rico representa uma riqueza conseguida à custa duma complexa montagem que envolvia a legislação romana com sua rede dos cobradores de impostos, o beneplácito sacerdotal, o benefício do Templo Santo (ou seja, a Identidade do Povo Eleito) e a submissão ao sistema fiscal estrangeiro de Roma.

É preciso ter vivido algumas décadas para que alguém se dê conta do sistema em que está metido… Não é fácil logo à primeira perceber tudo: sistema é sistema, não tem uma identidade pessoal imediata, nem sempre é evidente ou fácil. Sistema, regra geral, é rede, dissimulação.

 

Há gente desta (apanhada nas malhas do sistema), muito interessante, impecável até, sempre atenta (ninguém tem o direito de julgar ninguém!, só Deus), mas com um faro apuradíssimo para o perigo: sabem bem que cartas podem deixar cair e que fios nunca poderão deixar que cortem. Jesus poderia ter jogado com a ‘generosidade’ do rico, poderia daí ter-lhe vindo algum… para a sua campanha! Porém, Jesus queria um «mundo outro», Jesus queria uma «revolução», um mundo novo, e sabia bem que, para se construir um mundo novo, são precisos homens novos (mais do que dinheiro… vivo) e estruturas novas.

 

É igualmente isso que acontece com a proposta de «solidariedade igualitária», (“esquerdista”?), de Jesus − Mt 20:12; «deste-lhes a mesma paga que a nós». O que está em causa não é apenas o Homem Novo para construir uma alternativa ao sistema opressor. O que está em causa é o próprio sistema, que fabrica intencionalmente mão-de-obra barata e coloca nas mãos dos latifundiários “a faca e o queijo” (que sempre possuiram, aliás), mas também a massa humana com que sabem fabricar queijo…

 

O jovem rico percebeu rapidamente em que corda lhe tocavam e saiu de cena. Faro… instinto de sobrevivência! Capitalista sempre foi tudo menos sonso. Mateus 20:1-16 (os trabalhadores da vinha) é a narrativa que sai em defesa do Estado Social a sério.

 

 

A proposta social de Jesus

 

Jesus ao concluir «Não seja assim entre vós» (v.26) está a fazer trabalho de sapa, revolucionário e clandestino. Está a revolucionar o sistema! Num mundo onde a exploração económica assenta na escravatura, dizer «quem no meio de vós quiser ser o primeiro, seja vosso escravo» (v.27) é proclamar a revolução, a inversão de lugar social. Tem o impacto da Internacional! Espalha pânico!

 

Vale a pena reproduzir um poema de Georg Weerth, editado na «Nouvelle Gazette Rhénane»[7], jornal revolucionário alemão do qual Karl Marx foi chefe de redação (só tenho a versão em francês):

 

Ce matin je me rendis à Dusseldorf,

En très honnête compagnie:

Un conseiller gouvernemental déblaterait

Contre la «Nouvelle Gazette Rhénane».

 

«Les rédateurs de cette feuille

Sont tous dés Satans», dit-il;

«Ils ne craignent pas le bon Dieu

Ni meme le procureur-géneral Zweiffel.

 

A tous les misères d’ici-bas,

Ils ne voient qu’un seul remède,

La republique rouge comme les roses

Et le partage de tous les biens.

 

(…)

 

Ils réclament aussi le partage des femmes,

Et désirent abolir le mariage:

A l’avenir, on pourra ad libitum

Aller au lit tous ensemble.

 

Oui, tout le monde sera changé

Par cette direction moderne –

Mais les plus belles femmes seront reservés

Aux rédacteurs de la Gazette Rhénane.»

 

(…)

 

 

De Jesus também disseram de tudo: do bom e do melhor! Comilão e beberrão, amigo de pecadores, possuído por Satanás (Mc 3:22), enlouquecido, blá blá blá… A própria família de Jesus ajudou à festa (Mc 3:21). Revolucionário mete medo mesmo! (só ao Capital... a Mamon)

 

Comparando com a atitude do jovem rico, surpreende a iniciativa deste latifundiário, «proprietário que saiu ao romper da manhã, a fim de contratar trabalhadores para a sua vinha».

 

  Curiosamente, o proprietário rico não aceita que haja desemprego estrutural: por quatro vezes, varre a praça a empregar gente! Não se serve da “produtividade” de cada operário para os diferenciar entre si e, portanto, virar uns contra os outros e semear ‘individualismo’ ou competitividade à boa maneira do espírito neo-liberal anti-social (na verdade, eles haviam cumprido horários de trabalho diferentes).

 

Não procurou dividir para reinar (como frequentemente fazem os governos e os políticos aos sindicatos). Não deu a entender que faz o que faz movido por qualquer espiritualidade: faz porque é justo. Contratos assinados são para se cumprir, custe o custar a quem custar. «Não foi um denário que nós ajustámos? Leva, então, o que te é devido e segue o teu caminho, pois eu quero dar a este último tanto como a ti. Ou não me será permitido dispor dos meus bens como eu entender? Será que tens inveja por eu ser bom?’»

 

O proprietário rico vem propôr um mundo estruturalmente diferente, com regalias sociais: um mundo solidário. Os exegetas não encontram razões para dizer que esse amo/chefe de família represente, analogicamente, a figura de Deus Pai (eis os argumentos: grande acumulação de bens e conduta incoerente; igual para Mt 18:23-35).

 

Este homem rico propõe uma sociedade «menos hierárquica e mais igualitária» (W. Carter). É um chefe de família, rico, − não é um profeta moralista, nem persegue uma espiritualidade caritativa: quer, apenas, demonstrar que é possível organizar a economia em outros moldes. De tal maneira está convencido que o é, que nem teme ficar falido. Na verdade, não faliu. Talvez tenha até aumentado a sua produtividade: quem passa de uma situação de marginalidade de fim de linha (sem esperança) e retoma um contrato de trabalho promissor, redobra o seu empenho, trabalha com mais alegria.

 

Em resumo: a narrativa diz-nos que é possível um mundo outro! Economicamente, mais solidário. A Igreja católica terá entendido?

 

É possível um mundo sem precários, sem pessoas sujeitas a longos intervalos do ano sem trabalho (uma vinha só dá trabalho pelo tempo das vindimas). Um denário, à época, equivale ao montante do RSI actual: rendimento mínimo. Não se pode dizer que o proprietário tenha sido muito generoso. O seu valor está em ter posto em causa, com o seu gesto, um sistema que assenta no desemprego massivo e na falta de solidariedade social (hoje diríamos, na falta de Estado Social assente na contribuição/distribuição solidária, por oposição a uma (in)Segurança Social assente na Capitalização). Em contrapartida, a vida dum precário é a pobreza miserável, a desnutrição de toda a família, as doenças e a mendicidade. Naquele tempo, era bem preferível ser «escravo», pois isso significava ter alguém (um amo) que despensa ocupação, comida e cuidados sociais.

 

A vida de Jesus Cristo é agónica: Ele leva(ou) por diante uma luta contra «uma economia sem coração». Quase que podemos dizer que desde tempos imemoriais houve motivos para se cantar A Internacional!

 

Cantemos, então, pelo Natal, esta Mesa Fraterna à moda de Jesus, em que os últimos serão os primeiros a servir e os camelos passarão sempre folgadamente pelo fundo duma agulha.





Jesus surge, o Capital especulativo (jovem rico, Mamon) recua e o empresário empregador avança, destemido, acreditando no Estado Social segundo um «esquema público de repartição» assente numa «lógica de solidariedade baseada no trabalho». [Clara Murteira[8]]


Mais uma vez, Deus recusa-se a pôr a mesa aos banqueiros. Deus não está do lado do Capital, mas dos Direitos do Trabalho solidário.

 

 

pb\

 

 



[2] No tempo de Jesus estava em marcha uma revolução social e económica da Palestina de que não havia memória, com a passagem duma sociedade exclusivamente agrária a uma civilização fortemente imperial e urbana, tendo nas obras públicas (construção de grandes cidades, como Séforis, Tiberíades, Cafarnaúm, Antioquia. etc.) e no comércio internacional uma força profundamente desestruturadora das relações de vizinhança. Flávio Josefo identifica sempre, como aliados de Roma neste empreendimento civilizacional, os chefes dos sacerdotes e os «fariseus mais notáveis» (GJ 2.197, 320, 411, 414). Roma coopera com as elites locais e utiliza-as para exercer o controlo da Judeia (Goodman, Ruling classes of Judea, 29-36, citado por Warren Carter).
[3] Enciclopédia EINAUDI, «Capital», Volume nº 40, INCM 2001, pp. 23s.
[4] Citado por EINAUDI, ibidem, p. 108, Lohnarbeit und Kapital, in «Neue Rheinische Zeitung», 1849, nn. 264-67, e 269 (trad. it. Editori Riuniti, Einaudi, Roma 1960).
[6] Nunca como este ano, a moda do «ajude a ajudar»…
[7] Karl Marx, Une Biographie, Verlag Zeit im Bild, Dresde 1968, p. 143-144. (Ed. do Instituto de marxismo leninismo do Comité Central do Partido Socialista Unificado da Alemanha, 1967)
[8] Le Monde Diplomatique – edição portuguesa, Dezembro de 2012, pp. 4-5.

21 de dezembro de 2012

NATAL_2 - DEUS E O DINHEIRO

«O homem que diz não ser ninguém já é o homem mais rico da Europa. O património de Amancio Ortega Gaona [dono da Zara], proprietário da gigantesca têxtil galega Inditex, chegou, na semana passada, aos 39.500 milhões de dólares (mais de 31 mil milhões de euros) e superou o dos donos da IKEA e da Louis Vuitton, segundo a agência Bloomberg. “Desde criança que fui educado na fé e sei que tenho alguém muito importante a quem dirigir (…). Custa-me pedir coisas a Deus. Não consigo pedir-Lhe mais nada, porque sei o muito que já me deu. Mas tenho-me nas suas mãos e Ele escuta-me», confessou na sua última entrevista. Fez várias vezes o Caminho de Santiago de Compostela, em agradecimento por ter saído bem de uma intervenção cirúrgica nos Estados Unidos. Porém, o milagre de Ortega está nas suas [5.618] lojas espalhadas pelo mundo inteiro…»

por Anxo Lugilde
VISÃO, 21-27 Junho 2012









RELIGIÃO, PODER E DINHEIRO

DÓLAR - «IN GOD WE TRUST»


Rejeitando o fatalismo e indo contra a corrente das grandes religiões antigas (Assíria, Egipto), a experiência hebraica ergue-se para construir uma relação existencial diferente a partir duma escolha: elege a História humana[**].  Coloca no centro da História da Salvação a própria História da Humanidade. (Gn 2:18.23; Dt 26:5-10)

O elemento particular dessa relação é a importância que a injustiça (toda ela: pessoal e histórica, estrutural) vai passar a desempenhar: nas relações inter-humanas e na relação com Deus. A luta contra a injustiça passa a residir no coração da Salvação. Deus é a Arca onde se guarda todo o tipo de Justiça: justiça judicial (Caim e Abel) e a justiça do amor gratuito de Deus («justificados gratuitamente pela graça», Rm 3:21-23). Deus é o guardião da Salvação; e a Salvação pré-supõe a reparação de todas as injustiças (cf. Ex 3: a “nega” de Deus, a Moisés, no ‘sagrado da sarça ardente’ [v.3] e a “revelação” de Deus na História Libertadora [v.7]).

Deus é o que vem ao Homem, à História, Deus é aquele que se abeira da Humanidade para inquirir acerca da reparação da injustiça (Gn 4:9-11; Ex 3:7-9). Não porque queira, invejosamente, reivindicar o exclusivo dos actos de justiça só para si (numa perspectiva sacerdotal, litúrgico-reparadora), mas porque ama tanto a Humanidade e a sua História como a filhos (Gn 4:7b: «Cuidado, … deves dominá-lo.», numa perspectiva comovedora, paternal/maternal; mas também medicinal, humana - Lc 10:34 -  «Aproximou-se, ligou-lhe as feridas»). Esta é a “primeira parte” da tremenda aventura do Povo Hebreu: a descentração de Deus, das Alturas da sua realeza («Filho de David tem compaixão de mim»), do Transcendente inacessível («Pai Nosso que estais no Céu») para o coração das tensões históricas (desemprego massivo, fome e miséria; cf. Mt 20:3)!

Para Jesus, a ‘idolatria’, a adoração a-histórica a Deus como entidade espiritualmente transcendente e mística associa-se à confiança em Mamon (na força magnética, sagrada – íman! - que o Capital financeiro tem). (Mt 6:24; Lc 16:13) Esta é uma associação (de ideias) arrojada, extrema, original, própria de Jesus: não lhe conheço paralelos. Ela é a “segunda parte” da tremenda aventura espiritual do Povo Judeu!

A experiência hebraica - porque assenta numa relação com um Deus que intervém na História através dum amor que ampara (sustem) essa história - assume a História totalmente, como realidade plena de dignidade, porque (finalmente) liberta dum deus enigmático, distante, “ávido de reverência e de liturgias”. Com a experiência hebraica, a História da Humanidade adquire carta de alforria, e sua divindade sui generis, podendo passar a ser encarada como realidade autónoma, regida por leis próprias não consagradas a deus algum (não submetidas ao destino, ao fatum): a única Lei a que a História Humana com h grande está sujeita é a Lei do Amor de Deus que a «criou» por amor e que, através dum amor desinteressado, a «sustém». «Ao invés das religiões místicas ou de interioridade, que descobrem Deus no mistério interior da alma, a Bíblia descobre Deus no desenrolar da história que, para os cristãos, está centrada em Cristo». (X. Pikaza) Não conheço experiência histórica mais fascinante que esta!

[cf. «CARACTER HISTORICO DE LA REVELACION», por Luis Alonso Schökel, in Comentarios a la constitución Dei Verbum, BAC, 2012, pp. 139-165, ISBN 978-84-220-1577-2]


Assim se operam, ao mesmo tempo, duas libertações radicais (duas ‘salvações’). A primeira, a libertação do medo e da insegurança: o medo deixa de ser central e é expulso da religião. O medo requer a liturgia pela liturgia, requer o exercício do sagrado pelo sacerdote (mediador), requer a reciclagem/transubstanciação do ‘medo’ através da “consagração” e do “santo sacrifício” litúrgico. A religião sem medo deixa de ser religião/religo/religação (entre o Homem e Deus). O homem vive em Deus. (Act 17:28)

A segunda é a libertação da política: os sistemas soció-político-económicos deixam de constituir uma fatalidade; podem ser destruídos para dar lugar a outros mais justos - a César o que é de César (desautorização do Absolutismo Régio, desacralização das ditaduras, crítica aos Imperialismos). No centro disto tudo, a Voz da Justiça, qual pai que respeita, cuida, se sobressalta e sofre.

Ao longo dessa longa retorta por que o povo hebreu passou, só uma coisa se destilou: decisivo, mesmo, é a justiça inter-humana esplâncnica (Jo 11:33; Lc 15:20), ou seja, a superação da «justiça dos fariseus» (Mt 5:20). Curiosamente, o que fica não é uma nova Religião com expectativas de supremacia sobre as outras com Novos Mandamentos, melhorados.

O que fica é o fim das religiões, como refere a Carta aos Hebreus («Suprime, assim, o primeiro culto», 10:9). Deus deixou de ser ‘a questão’, (montou a sua tenda entre nós: Jo 1:14) para passar a ser processo; «humanizou-se» (José Maria Castillo); faz caminho com os homens – Shekinahbeduinamente acontecendo, como na extraordinária resposta dada a Moisés (Ex 3:14 - «Eu sou sendolado-a-lado convosco, o Emmanuel»).

O que fica é o princípio duma humanidade construída segundo «os planos» de Deus-Pai Libertador, a que Jesus chamou o Banquete ou o REINO. (Mt 2:12: os Magos desautorizam o imperialismo romano – viram-lhe as costas; Mt 4:1-13; Lc 4:1-13: Jesus faz o mesmo - rejeita os planos ‘baixos’ dos humanos espertalhuços virando as costas ao uso do poder económico das minorias sobre as maiorias e do poder religioso ao serviço da consagração do poder político; para Deus, só o Povo é consagrado – Dt 26:18-19).

O que começa é uma crítica radical à lógica da acumulação capitalista cf. Caim (urbanismo, sedentarismo, posse da terra e violência) e Abel (sociedades agro-pastoris recolectoras, transumância, uso sem posse notarial exclusivista) e o que se prolonga é uma crítica utópica/distópica à lógica da exclusão! (cf. 1Rs 17:12; «a pobre viúva de Sarepta»; Mc 7:24-30: «A mulher síro-fenícia»; o pão é bem universal, independente de se ser do 1º, do 2º ou do 3º mundo, independentemente do modo-de-produção).

Em suma, o resultado desta evolução espiritual hebraica pode ser sintetizado na célebre frase de Karl Barth sobre o antropocentrismo cristão:

«O Homem é a medida de todas as coisas desde que Deus se fez Homem».[1]

Com a morte de Jesus, morrem as esperanças reformistas, - Mc 15:29 -  dos zombadores, daqueles que julgavam que “as coisas não vão bem, mas podem ser melhoradas” com medidas cosméticas… para que tudo fique na mesma. «Destruirei este templo e em três dias eu o levantarei» (Jo 2:19). Jesus referia-se ao «templo do seu corpo» (v. 21), que haveria de se «erguer» (ressuscitar, elevar, erguer ao alto).

Com a morte de Jesus, o Templo é ferido de morte, a religião abre-se ao meio, tudo o que é sagrado, mistério, religião dualista “rasga-se de alto a baixo” (Mc 15:38). Na verdade, a religião é eterna (o homem é um ser religioso, medroso) e nem com a morte de Jesus ela acabou. Nem sequer com a destruição de Jerusalém dos anos 66-70 dC, nem sequer com a destruição definitiva dos anos 131-135 dC: apenas se espalhou ainda mais pelo mundo. Porém, um punhado de cristãos, progressivamente mais libertos do sistema religioso judaico, começara a anunciar a “ressurreição do Senhor” (anti-imperialista) na clandestinidade do Império.

«Com o advento dos primeiros judeo-cristãos, aconteceu uma superação do Templo em favor da comunidade [de primeiros cristãos]. Cristo e a sua Igreja passaram a ser o novo lugar da presença divina no mundo. Deus estava presente no novo templo comunitário (Mt 18:20; 28:20; 1 Cor 3:16-17) segundo uma linha já apontada pelas comunidades de Qümran (1QS 8,7; Act 2:13; 2 Cor 6:16-17), reforçada, ao mesmo tempo, pelas críticas dos samaritanos contra o templo de Jerusalém (Jo 4:21-26).

«Desta forma radicalizava-se a crítica profética e dava-se uma nova ênfase à transcendência divina, fazendo da cruz o centro da revelação. A comunidade [dos primeiros cristãos] via-se como o lugar da presença de Deus (Mt 18:18-20; 24:1-2.30-31; 28:20). Os cristãos colaram as críticas proféticas ao templo às críticas do próprio Jesus e fizeram da comunidade a alternativa ao templo destruído. Combinavam assim crítica e apologética para sustentar que o cristianismo era o herdeiro da história sagrada judaica.»[2]

«Dentro do cristianismo havia diversas tradições a respeito de Israel. Seja como for, a destruição do templo foi lida como o fim duma época salvífica (Mt 27:51-54; Act 7:41-50). A partir daí iniciava-se uma nova época em que o corpo ressuscitado de Jesus substituía o templo e em que a sua vida marcava um novo modelo de culto e de sacerdócio (Jo 4:21-24; 6:62-63). A morte de Jesus era o novo sacrifício que anulava os restantes, sendo Jesus o novo sacerdote, que com a sua vida inaugurava uma nova forma de relação com Deus.» [Juan Antonio Estrada, sj]

«Não só se criticou o culto e o sacerdócio, tal como o fizeram os profetas anteriores, como se alterou a ideia acerca do sacerdócio. Colocou-se a ênfase no culto das pessoas que faziam do seguimento e da solidariedade com os outros a base da sua relação com Deus (Rm 12:1-2; 15:16; Flp 2:17; 4:18; Heb 12:3-4). Isto foi visto como um novo culto, em espírito e em verdade (Jo 2:19-22; 4:21-24; 1Pe 2:5) centrado no baptismo e na eucaristia (Jo 3:5; 6:51-55; 19:34-55), os quais remetiam para o significado martirial da vida de Jesus (Ap 5:8-14; 21:22-27). Neste contexto, adquiriu uma grande importância a liturgia da palavra, que recolhia textos do Antigo Testamento, da vida de Jesus e os comentários dos grandes apóstolos e de personalidades cristãs.

«[…] A isto acrescentou-se a importância do novo sacerdócio, o qual já não era entendido como uma consagração ritual à maneira tradicional judaica que produzia uma casta sacerdotal e a separava do povo, mas segundo uma forma de vida solidária e comum com os demais igualmente assim foi interpretado o sacerdócio de Jesus.» [J A Estrada, sj]

Ferida de morte a “religião” (que se alimenta de consagrações e de sagrado), de morte ficava ferido o poder associado ao rendimento fiscal religioso ligado ao culto: desaparecia o Templo, desaparecia a Arca do Tesouro (o cofre das esmolas; cf. Mc 12_41-42: «Estando [Jesus] sentado em frente do tesouro, observava como a multidão deitava moedas. Muitos ricos deitavam muitas. Mas veio uma viúva pobre e deitou duas moedinhas, uns tostões.»). Religião, Poder e Dinheiro andam sempre juntos.


Religião, Poder e Dinheiro

Digamos que há uma velha história de incompatibilidade entre Deus e o dinheiro: «não podeis servir a Deus e ao dinheiro-Mamon/ao Capital» (Mt 6:24; Lc 16:13); «crucificai a ganância que é uma idolatria» (Col 3;5). Digamos que há uma velha história de incompatibilidade entre Deus e a propriedade privada blindada (cf. o valor dos anos sabático e jubilar: Dt 15:1-18; Lv 25:13).

«Nesta perspectiva, a Bíblia conclui que, por trás do assassinato de Jesus, está uma questão de dinheiro» - cf. Mt 27:3-10. [Xabier Pikaza]. Por trás do assassinato de Jesus, está, simultaneamente, uma questão de religião, a adoração a um deus que domina e subjuga a humanidade: chama-se «Mamon»!

Dinheiro e Deus sempre andaram associados: ainda hoje! Deus e Dinheiro fabricam Poder: estes são os três pilares das religiões (verdadeiramente falando). As religiões a-históricas (clássicas, antigas), desde a sua origem sacral, implicam consagração (dos espaços - Templos) e sacralização (do Mundo, da Criação, do Cosmos), implicam um Tempo Sagrado e seus Mitos, implicam Vida Sacralizada e Vida Con-sagrada, implicam «o Sagrado e o Profano» (Mircea Eliade). Essas religiões (a-críticas e a-históricas) nunca foram capazes de não se constituírem em suporte do Poder político (ainda hoje, na Grécia actual, é o Patriarca ortodoxo quem dá posse ao Governo político da nação – não é um Juiz supremo ou um Presidente que transmite o poder; em muitos países ainda se jura cumprir a Constituição com a mão sobre a Bíblia ou evocando Deus/Alá). [Cf. 1Rs 18:19 - 450 profetas de Baal e 400 profetas de Achera, que oficiavam na Corte do rei Acab.]

Já nos primórdios do Israel antigo se questionaram os campos (cf. 1Rs 18 e 19; o profeta Elias nunca viveu no palácio do Rei, passou a manter distância face ao poder monárquico, separou as águas). Convém não esquecer que foi em nome de Deus que se perseguiram e mataram todos os profetas de Israel. «Quando o rei Acab viu Elias disse-lhe: És tu a ruína de Israel?» Os profetas (verdadeiros e fiéis a Yahvé) eram críticos do sistema e da religião do sistema (Je 38:4; «Este homem deve ser morto, porque desanima os homens de guerra que ficaram na cidade e todo o povo, proferindo semelhantes palavras. Este homem não busca o bem-estar do povo, mas a sua desgraça.»). «Amacias, sacerdote de Betel, mandou dizer a Jeroboão, rei de Israel: «Amós conspira contra ti, no meio da casa de Israel. A terra não pode suportar mais os seus oráculos. Pois Amós disse o seguinte: ‘Jeroboão morrerá pela espada e Israel será deportado para longe da sua terra.’» Amacias disse, então, a Amós: «Sai daqui, vidente, foge para a terra de Judá e come lá o teu pão, profetizando. Mas não continues a profetizar em Betel, porque aqui é o santuário do rei e o templo do reino.» (Amós 7:10-13) [é um sacerdote que sai em defesa do seu «tacho»]

 Amós defende os pobres contra o Rei e contra os sacerdotes do Rei. A religião está ao serviço do sistema dominador, o santuário já não é de Yahvé mas «do rei», os sacerdotes não podem colocar em causa o poder porque colocam o seu próprio poder em causa, também. O poder precisa da religião para obnubilar o povo e o convencer que tudo (sobretudo,  a injustiça) é obra de Deus e que não há alternativa: o sofrimento é sacrificial, aplaca os deuses. Quando os profetas abrem  a boca e elaboram um discurso em que “misturam” Deus com a política, ou seja, em que sobrepõem as fronteiras entre ‘sagrado’ e ‘profano’ são considerados homens não-de-Deus, mas do Diabo (cf. Mt 12:22-28).

Então, a postura do crente (judeu ou cristão) será a de simultaneamente operar a crítica ao poder económico e ao poder religioso e não separar esse domínios, na medida em que eles andam sempre juntos: porque rende.

«Tumulto contra Paulo - Por esse tempo, levantou-se não pequeno tumulto a respeito da «Via.» Um certo Demétrio, ourives que fazia santuários de Ártemis, de prata, e proporcionava aos artífices um negócio lucrativo, convocou-os, assim como a outros que trabalhavam em obras semelhantes e, disse: «Sabeis, amigos, que a esta indústria devemos a nossa prosperidade. Ora, como vedes e ouvis dizer, não só em Éfeso, mas também em toda a Ásia, esse Paulo convenceu e desviou imensa gente, afirmando que não são deuses os que são feitos pelas mãos do homem. Isto não só faz correr o risco de cair em descrédito a nossa indústria, mas também de se desconsiderar o templo da grande deusa Ártemis, e de vir a perder o prestígio aquela que a Ásia inteira e todo o mundo veneram.» Quando isto ouviram, enfureceram-se e começaram a dizer em altos brados: «Grande é a Ártemis dos efésios!» A desordem espalhou-se pela cidade inteira…» (Act 19:29)

A religião é lucrativa: mantém a ordem (é o «ópio do povo», K. Marx) e mantém o mercado (os negócios). Mantém o “sistema” (Jo 11:49-50).

Quando os crentes (os profetas) se convencem que Deus tem ouvidos e é sensível ao clamor dos pobres e dos injustiçados (Gn 4:10: «Que fizeste? A voz do sangue do teu irmão clama da terra até mim.»), quando Deus se faz provedor dos esquecidos pelo poder e quando os sacerdotes despem as roupagens do poder sagrado, o Poder do Sistema reage com violência (assassina D. Óscar Romero[3], assassina a irmã Dorothy na Amazónia[4], assassina os padres jesuítas[5] em El Salvador, persegue D. Pedro Casaldáliga, etc etc etc). O ministro P. Aguiar-Branco, diante das declarações críticas do bispo D. Januário Torgal Ferreira, respondeu: «O Sr. Bispo terá que opotar entre ser bispo e ser comentador político».[6]

Religião (ídolos, ideologia, fascínio pelo maravilhoso), Poder (pobreza, precariedade, medo) e Dinheiro (Mamon, dominação pela atracção, ‘fetiche’): o tripé de qualquer poder, que Jesus denunciou nas tentações do deserto.

«A teologia tem a tarefa de discernir entre o ‘fetiche’ e o Espírito.»[7] A teologia tem como tarefa «discernir entre o espírito do ídolo que impulsiona o mundo com o seu amor para a morte e para a exclusão dos pobres, e o Espírito da Vida.» (Yung Mo Sung)

O Espírito de Deus antecede e precede (Sab 7:26-28; Mt 28:7; Mc 16:7). Cabe-nos prescrutar e adivinhar para onde o Espírito está soprando aqui na nossa história, na vida da humanidade.

Não é para o céu que devemos olhar quando procuramos Deus (Act 1:11). A Fé em Deus enraiza na História da Humanidade.

«Mas a Palavra não é só Palavra sobre Deus e sobre o homem, mas é verbo feito homem. Se o ser humano é iluminado pela Palavra, é-o, precisamente, porque ela chega a nós através da história humana. É indiscutível – diz von Rad – que “a história é o lugar onde Deus revela o mistério da sua pessoa”.[8] A história humana deverá ser, então, também, o espaço do nosso encontro com ele, o Cristo.[9] Evocar a evolução da revelação da presença de Deus junto do seu povo ajudar-nos-à a clarificar a forma de que se reveste esse encontro na história. Presença e encontro que empurra o futuro da humanidade para a frente, mas que celebramos no presente enquanto alegria escatológica.»[10]

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[**] A «História da Humanidade» é o pano de fundo da Aliança entre Deus e o Povo. Para aceder aos planos de amor e liberdade de Deus, o Povo Israelita só podia servir-se da História e suas tensões: virar as costas às “tensões históricas” (nas quais se decide da felicidade e da infelicidade humanas) é sinónimo de idolatria, de falta de Fé em Deus. É na História do Mundo que se sela o Pacto do Sinai, a Aliança entre Deus e o Povo. Pacto sempre livre [Js 24:15], sempre passível de entrar em crise [v.19], sempre passível de ser rasgado, sempre passível de ser renovado [Josué 24:16-28], mas nunca renovado ou rejeitado fora da história humana [v.17.23]. A Aliança implica uma troca de palavras-dadas, uma troca de promessas sob a forma da Palavra-dada: Deus oferece-se, sugere, não se impõe; o Povo decide se quer estabelecer uma Aliança, um Pacto, um Tratado de convívio confiante [Ex 19:3-8]. Existem condições: a primeira é a liberdade de poder romper o Tratado, a Aliança: «escolhei hoje» [Js 24:15]. Mas as palavras não bastam: é preciso «fazer». A Fé em Deus como que coloca Deus em segunda fila: é na praxis histórica que tudo se verificará ou se atraiçoará - «Todo o povo, unânime, respondeu, dizendo: «Tudo o que o Senhor disse, nós o faremos E Moisés transmitiu ao Senhor as palavras do povo.» [Ex 19:8].

[1] Christengemeinde und Bürgergemeinde. Zurique 1946, 36.
«El 16 de noviembre de 1989 fue asesinado por un pelotón del batallón Atlácatl de la Fuerza Armada de El Salvador, bajo las órdenes del coronel René Emilio Ponce, en la residencia de la Universidad, junto con los jesuitas Ignacio Martín Baró, Segundo Montes, Amando López, Juan Ramón Moreno Pardo, Joaquín López y López. Fueron también asesinadas Elba Julia Ramos, persona al servicio de la Residencia, y la hija de ésta, Celina, de 15 años.»
[7] Gilberto Gorgulho, «Hermenêutica Bíblica», in I. Ellacuria e J Sobrino, Mysterium Liberationis: conceptos fundamentales de la teologia de la liberación, Vol. I, Madrid, Ed. Trotta, 1990, p. 181.
[8] Gerhard von Rad, Teologia del Antiguo Testamento-II, Sígueme 31976, p. 436, l. 9-10. «A revelação do próprio Deus, segundo os testemunhos bíblicos, não se fez directamente como teofanias, mas indirectamente através de actos históricos de Deus»: W. Pannenberg, Offenbarung als Geschichte 1961, 91.
[9] A. Dumas escreve, inspirando-se em Bonhoeffer: «O espaço de Deus é o mundo, o segredo do mundo é a presença escondida de Deus. Jesus Cristo é a estruturação desse espaço e o nome desse segredo»: Une théologie de la réalité, Genebra 1968, 182.
[10] Gustavo Gutiérrez, Teologia de la liberación – perspectivas, Sígueme, 1974, 243-244.