teologia para leigos

21 de dezembro de 2012

NATAL_2 - DEUS E O DINHEIRO

«O homem que diz não ser ninguém já é o homem mais rico da Europa. O património de Amancio Ortega Gaona [dono da Zara], proprietário da gigantesca têxtil galega Inditex, chegou, na semana passada, aos 39.500 milhões de dólares (mais de 31 mil milhões de euros) e superou o dos donos da IKEA e da Louis Vuitton, segundo a agência Bloomberg. “Desde criança que fui educado na fé e sei que tenho alguém muito importante a quem dirigir (…). Custa-me pedir coisas a Deus. Não consigo pedir-Lhe mais nada, porque sei o muito que já me deu. Mas tenho-me nas suas mãos e Ele escuta-me», confessou na sua última entrevista. Fez várias vezes o Caminho de Santiago de Compostela, em agradecimento por ter saído bem de uma intervenção cirúrgica nos Estados Unidos. Porém, o milagre de Ortega está nas suas [5.618] lojas espalhadas pelo mundo inteiro…»

por Anxo Lugilde
VISÃO, 21-27 Junho 2012









RELIGIÃO, PODER E DINHEIRO

DÓLAR - «IN GOD WE TRUST»


Rejeitando o fatalismo e indo contra a corrente das grandes religiões antigas (Assíria, Egipto), a experiência hebraica ergue-se para construir uma relação existencial diferente a partir duma escolha: elege a História humana[**].  Coloca no centro da História da Salvação a própria História da Humanidade. (Gn 2:18.23; Dt 26:5-10)

O elemento particular dessa relação é a importância que a injustiça (toda ela: pessoal e histórica, estrutural) vai passar a desempenhar: nas relações inter-humanas e na relação com Deus. A luta contra a injustiça passa a residir no coração da Salvação. Deus é a Arca onde se guarda todo o tipo de Justiça: justiça judicial (Caim e Abel) e a justiça do amor gratuito de Deus («justificados gratuitamente pela graça», Rm 3:21-23). Deus é o guardião da Salvação; e a Salvação pré-supõe a reparação de todas as injustiças (cf. Ex 3: a “nega” de Deus, a Moisés, no ‘sagrado da sarça ardente’ [v.3] e a “revelação” de Deus na História Libertadora [v.7]).

Deus é o que vem ao Homem, à História, Deus é aquele que se abeira da Humanidade para inquirir acerca da reparação da injustiça (Gn 4:9-11; Ex 3:7-9). Não porque queira, invejosamente, reivindicar o exclusivo dos actos de justiça só para si (numa perspectiva sacerdotal, litúrgico-reparadora), mas porque ama tanto a Humanidade e a sua História como a filhos (Gn 4:7b: «Cuidado, … deves dominá-lo.», numa perspectiva comovedora, paternal/maternal; mas também medicinal, humana - Lc 10:34 -  «Aproximou-se, ligou-lhe as feridas»). Esta é a “primeira parte” da tremenda aventura do Povo Hebreu: a descentração de Deus, das Alturas da sua realeza («Filho de David tem compaixão de mim»), do Transcendente inacessível («Pai Nosso que estais no Céu») para o coração das tensões históricas (desemprego massivo, fome e miséria; cf. Mt 20:3)!

Para Jesus, a ‘idolatria’, a adoração a-histórica a Deus como entidade espiritualmente transcendente e mística associa-se à confiança em Mamon (na força magnética, sagrada – íman! - que o Capital financeiro tem). (Mt 6:24; Lc 16:13) Esta é uma associação (de ideias) arrojada, extrema, original, própria de Jesus: não lhe conheço paralelos. Ela é a “segunda parte” da tremenda aventura espiritual do Povo Judeu!

A experiência hebraica - porque assenta numa relação com um Deus que intervém na História através dum amor que ampara (sustem) essa história - assume a História totalmente, como realidade plena de dignidade, porque (finalmente) liberta dum deus enigmático, distante, “ávido de reverência e de liturgias”. Com a experiência hebraica, a História da Humanidade adquire carta de alforria, e sua divindade sui generis, podendo passar a ser encarada como realidade autónoma, regida por leis próprias não consagradas a deus algum (não submetidas ao destino, ao fatum): a única Lei a que a História Humana com h grande está sujeita é a Lei do Amor de Deus que a «criou» por amor e que, através dum amor desinteressado, a «sustém». «Ao invés das religiões místicas ou de interioridade, que descobrem Deus no mistério interior da alma, a Bíblia descobre Deus no desenrolar da história que, para os cristãos, está centrada em Cristo». (X. Pikaza) Não conheço experiência histórica mais fascinante que esta!

[cf. «CARACTER HISTORICO DE LA REVELACION», por Luis Alonso Schökel, in Comentarios a la constitución Dei Verbum, BAC, 2012, pp. 139-165, ISBN 978-84-220-1577-2]


Assim se operam, ao mesmo tempo, duas libertações radicais (duas ‘salvações’). A primeira, a libertação do medo e da insegurança: o medo deixa de ser central e é expulso da religião. O medo requer a liturgia pela liturgia, requer o exercício do sagrado pelo sacerdote (mediador), requer a reciclagem/transubstanciação do ‘medo’ através da “consagração” e do “santo sacrifício” litúrgico. A religião sem medo deixa de ser religião/religo/religação (entre o Homem e Deus). O homem vive em Deus. (Act 17:28)

A segunda é a libertação da política: os sistemas soció-político-económicos deixam de constituir uma fatalidade; podem ser destruídos para dar lugar a outros mais justos - a César o que é de César (desautorização do Absolutismo Régio, desacralização das ditaduras, crítica aos Imperialismos). No centro disto tudo, a Voz da Justiça, qual pai que respeita, cuida, se sobressalta e sofre.

Ao longo dessa longa retorta por que o povo hebreu passou, só uma coisa se destilou: decisivo, mesmo, é a justiça inter-humana esplâncnica (Jo 11:33; Lc 15:20), ou seja, a superação da «justiça dos fariseus» (Mt 5:20). Curiosamente, o que fica não é uma nova Religião com expectativas de supremacia sobre as outras com Novos Mandamentos, melhorados.

O que fica é o fim das religiões, como refere a Carta aos Hebreus («Suprime, assim, o primeiro culto», 10:9). Deus deixou de ser ‘a questão’, (montou a sua tenda entre nós: Jo 1:14) para passar a ser processo; «humanizou-se» (José Maria Castillo); faz caminho com os homens – Shekinahbeduinamente acontecendo, como na extraordinária resposta dada a Moisés (Ex 3:14 - «Eu sou sendolado-a-lado convosco, o Emmanuel»).

O que fica é o princípio duma humanidade construída segundo «os planos» de Deus-Pai Libertador, a que Jesus chamou o Banquete ou o REINO. (Mt 2:12: os Magos desautorizam o imperialismo romano – viram-lhe as costas; Mt 4:1-13; Lc 4:1-13: Jesus faz o mesmo - rejeita os planos ‘baixos’ dos humanos espertalhuços virando as costas ao uso do poder económico das minorias sobre as maiorias e do poder religioso ao serviço da consagração do poder político; para Deus, só o Povo é consagrado – Dt 26:18-19).

O que começa é uma crítica radical à lógica da acumulação capitalista cf. Caim (urbanismo, sedentarismo, posse da terra e violência) e Abel (sociedades agro-pastoris recolectoras, transumância, uso sem posse notarial exclusivista) e o que se prolonga é uma crítica utópica/distópica à lógica da exclusão! (cf. 1Rs 17:12; «a pobre viúva de Sarepta»; Mc 7:24-30: «A mulher síro-fenícia»; o pão é bem universal, independente de se ser do 1º, do 2º ou do 3º mundo, independentemente do modo-de-produção).

Em suma, o resultado desta evolução espiritual hebraica pode ser sintetizado na célebre frase de Karl Barth sobre o antropocentrismo cristão:

«O Homem é a medida de todas as coisas desde que Deus se fez Homem».[1]

Com a morte de Jesus, morrem as esperanças reformistas, - Mc 15:29 -  dos zombadores, daqueles que julgavam que “as coisas não vão bem, mas podem ser melhoradas” com medidas cosméticas… para que tudo fique na mesma. «Destruirei este templo e em três dias eu o levantarei» (Jo 2:19). Jesus referia-se ao «templo do seu corpo» (v. 21), que haveria de se «erguer» (ressuscitar, elevar, erguer ao alto).

Com a morte de Jesus, o Templo é ferido de morte, a religião abre-se ao meio, tudo o que é sagrado, mistério, religião dualista “rasga-se de alto a baixo” (Mc 15:38). Na verdade, a religião é eterna (o homem é um ser religioso, medroso) e nem com a morte de Jesus ela acabou. Nem sequer com a destruição de Jerusalém dos anos 66-70 dC, nem sequer com a destruição definitiva dos anos 131-135 dC: apenas se espalhou ainda mais pelo mundo. Porém, um punhado de cristãos, progressivamente mais libertos do sistema religioso judaico, começara a anunciar a “ressurreição do Senhor” (anti-imperialista) na clandestinidade do Império.

«Com o advento dos primeiros judeo-cristãos, aconteceu uma superação do Templo em favor da comunidade [de primeiros cristãos]. Cristo e a sua Igreja passaram a ser o novo lugar da presença divina no mundo. Deus estava presente no novo templo comunitário (Mt 18:20; 28:20; 1 Cor 3:16-17) segundo uma linha já apontada pelas comunidades de Qümran (1QS 8,7; Act 2:13; 2 Cor 6:16-17), reforçada, ao mesmo tempo, pelas críticas dos samaritanos contra o templo de Jerusalém (Jo 4:21-26).

«Desta forma radicalizava-se a crítica profética e dava-se uma nova ênfase à transcendência divina, fazendo da cruz o centro da revelação. A comunidade [dos primeiros cristãos] via-se como o lugar da presença de Deus (Mt 18:18-20; 24:1-2.30-31; 28:20). Os cristãos colaram as críticas proféticas ao templo às críticas do próprio Jesus e fizeram da comunidade a alternativa ao templo destruído. Combinavam assim crítica e apologética para sustentar que o cristianismo era o herdeiro da história sagrada judaica.»[2]

«Dentro do cristianismo havia diversas tradições a respeito de Israel. Seja como for, a destruição do templo foi lida como o fim duma época salvífica (Mt 27:51-54; Act 7:41-50). A partir daí iniciava-se uma nova época em que o corpo ressuscitado de Jesus substituía o templo e em que a sua vida marcava um novo modelo de culto e de sacerdócio (Jo 4:21-24; 6:62-63). A morte de Jesus era o novo sacrifício que anulava os restantes, sendo Jesus o novo sacerdote, que com a sua vida inaugurava uma nova forma de relação com Deus.» [Juan Antonio Estrada, sj]

«Não só se criticou o culto e o sacerdócio, tal como o fizeram os profetas anteriores, como se alterou a ideia acerca do sacerdócio. Colocou-se a ênfase no culto das pessoas que faziam do seguimento e da solidariedade com os outros a base da sua relação com Deus (Rm 12:1-2; 15:16; Flp 2:17; 4:18; Heb 12:3-4). Isto foi visto como um novo culto, em espírito e em verdade (Jo 2:19-22; 4:21-24; 1Pe 2:5) centrado no baptismo e na eucaristia (Jo 3:5; 6:51-55; 19:34-55), os quais remetiam para o significado martirial da vida de Jesus (Ap 5:8-14; 21:22-27). Neste contexto, adquiriu uma grande importância a liturgia da palavra, que recolhia textos do Antigo Testamento, da vida de Jesus e os comentários dos grandes apóstolos e de personalidades cristãs.

«[…] A isto acrescentou-se a importância do novo sacerdócio, o qual já não era entendido como uma consagração ritual à maneira tradicional judaica que produzia uma casta sacerdotal e a separava do povo, mas segundo uma forma de vida solidária e comum com os demais igualmente assim foi interpretado o sacerdócio de Jesus.» [J A Estrada, sj]

Ferida de morte a “religião” (que se alimenta de consagrações e de sagrado), de morte ficava ferido o poder associado ao rendimento fiscal religioso ligado ao culto: desaparecia o Templo, desaparecia a Arca do Tesouro (o cofre das esmolas; cf. Mc 12_41-42: «Estando [Jesus] sentado em frente do tesouro, observava como a multidão deitava moedas. Muitos ricos deitavam muitas. Mas veio uma viúva pobre e deitou duas moedinhas, uns tostões.»). Religião, Poder e Dinheiro andam sempre juntos.


Religião, Poder e Dinheiro

Digamos que há uma velha história de incompatibilidade entre Deus e o dinheiro: «não podeis servir a Deus e ao dinheiro-Mamon/ao Capital» (Mt 6:24; Lc 16:13); «crucificai a ganância que é uma idolatria» (Col 3;5). Digamos que há uma velha história de incompatibilidade entre Deus e a propriedade privada blindada (cf. o valor dos anos sabático e jubilar: Dt 15:1-18; Lv 25:13).

«Nesta perspectiva, a Bíblia conclui que, por trás do assassinato de Jesus, está uma questão de dinheiro» - cf. Mt 27:3-10. [Xabier Pikaza]. Por trás do assassinato de Jesus, está, simultaneamente, uma questão de religião, a adoração a um deus que domina e subjuga a humanidade: chama-se «Mamon»!

Dinheiro e Deus sempre andaram associados: ainda hoje! Deus e Dinheiro fabricam Poder: estes são os três pilares das religiões (verdadeiramente falando). As religiões a-históricas (clássicas, antigas), desde a sua origem sacral, implicam consagração (dos espaços - Templos) e sacralização (do Mundo, da Criação, do Cosmos), implicam um Tempo Sagrado e seus Mitos, implicam Vida Sacralizada e Vida Con-sagrada, implicam «o Sagrado e o Profano» (Mircea Eliade). Essas religiões (a-críticas e a-históricas) nunca foram capazes de não se constituírem em suporte do Poder político (ainda hoje, na Grécia actual, é o Patriarca ortodoxo quem dá posse ao Governo político da nação – não é um Juiz supremo ou um Presidente que transmite o poder; em muitos países ainda se jura cumprir a Constituição com a mão sobre a Bíblia ou evocando Deus/Alá). [Cf. 1Rs 18:19 - 450 profetas de Baal e 400 profetas de Achera, que oficiavam na Corte do rei Acab.]

Já nos primórdios do Israel antigo se questionaram os campos (cf. 1Rs 18 e 19; o profeta Elias nunca viveu no palácio do Rei, passou a manter distância face ao poder monárquico, separou as águas). Convém não esquecer que foi em nome de Deus que se perseguiram e mataram todos os profetas de Israel. «Quando o rei Acab viu Elias disse-lhe: És tu a ruína de Israel?» Os profetas (verdadeiros e fiéis a Yahvé) eram críticos do sistema e da religião do sistema (Je 38:4; «Este homem deve ser morto, porque desanima os homens de guerra que ficaram na cidade e todo o povo, proferindo semelhantes palavras. Este homem não busca o bem-estar do povo, mas a sua desgraça.»). «Amacias, sacerdote de Betel, mandou dizer a Jeroboão, rei de Israel: «Amós conspira contra ti, no meio da casa de Israel. A terra não pode suportar mais os seus oráculos. Pois Amós disse o seguinte: ‘Jeroboão morrerá pela espada e Israel será deportado para longe da sua terra.’» Amacias disse, então, a Amós: «Sai daqui, vidente, foge para a terra de Judá e come lá o teu pão, profetizando. Mas não continues a profetizar em Betel, porque aqui é o santuário do rei e o templo do reino.» (Amós 7:10-13) [é um sacerdote que sai em defesa do seu «tacho»]

 Amós defende os pobres contra o Rei e contra os sacerdotes do Rei. A religião está ao serviço do sistema dominador, o santuário já não é de Yahvé mas «do rei», os sacerdotes não podem colocar em causa o poder porque colocam o seu próprio poder em causa, também. O poder precisa da religião para obnubilar o povo e o convencer que tudo (sobretudo,  a injustiça) é obra de Deus e que não há alternativa: o sofrimento é sacrificial, aplaca os deuses. Quando os profetas abrem  a boca e elaboram um discurso em que “misturam” Deus com a política, ou seja, em que sobrepõem as fronteiras entre ‘sagrado’ e ‘profano’ são considerados homens não-de-Deus, mas do Diabo (cf. Mt 12:22-28).

Então, a postura do crente (judeu ou cristão) será a de simultaneamente operar a crítica ao poder económico e ao poder religioso e não separar esse domínios, na medida em que eles andam sempre juntos: porque rende.

«Tumulto contra Paulo - Por esse tempo, levantou-se não pequeno tumulto a respeito da «Via.» Um certo Demétrio, ourives que fazia santuários de Ártemis, de prata, e proporcionava aos artífices um negócio lucrativo, convocou-os, assim como a outros que trabalhavam em obras semelhantes e, disse: «Sabeis, amigos, que a esta indústria devemos a nossa prosperidade. Ora, como vedes e ouvis dizer, não só em Éfeso, mas também em toda a Ásia, esse Paulo convenceu e desviou imensa gente, afirmando que não são deuses os que são feitos pelas mãos do homem. Isto não só faz correr o risco de cair em descrédito a nossa indústria, mas também de se desconsiderar o templo da grande deusa Ártemis, e de vir a perder o prestígio aquela que a Ásia inteira e todo o mundo veneram.» Quando isto ouviram, enfureceram-se e começaram a dizer em altos brados: «Grande é a Ártemis dos efésios!» A desordem espalhou-se pela cidade inteira…» (Act 19:29)

A religião é lucrativa: mantém a ordem (é o «ópio do povo», K. Marx) e mantém o mercado (os negócios). Mantém o “sistema” (Jo 11:49-50).

Quando os crentes (os profetas) se convencem que Deus tem ouvidos e é sensível ao clamor dos pobres e dos injustiçados (Gn 4:10: «Que fizeste? A voz do sangue do teu irmão clama da terra até mim.»), quando Deus se faz provedor dos esquecidos pelo poder e quando os sacerdotes despem as roupagens do poder sagrado, o Poder do Sistema reage com violência (assassina D. Óscar Romero[3], assassina a irmã Dorothy na Amazónia[4], assassina os padres jesuítas[5] em El Salvador, persegue D. Pedro Casaldáliga, etc etc etc). O ministro P. Aguiar-Branco, diante das declarações críticas do bispo D. Januário Torgal Ferreira, respondeu: «O Sr. Bispo terá que opotar entre ser bispo e ser comentador político».[6]

Religião (ídolos, ideologia, fascínio pelo maravilhoso), Poder (pobreza, precariedade, medo) e Dinheiro (Mamon, dominação pela atracção, ‘fetiche’): o tripé de qualquer poder, que Jesus denunciou nas tentações do deserto.

«A teologia tem a tarefa de discernir entre o ‘fetiche’ e o Espírito.»[7] A teologia tem como tarefa «discernir entre o espírito do ídolo que impulsiona o mundo com o seu amor para a morte e para a exclusão dos pobres, e o Espírito da Vida.» (Yung Mo Sung)

O Espírito de Deus antecede e precede (Sab 7:26-28; Mt 28:7; Mc 16:7). Cabe-nos prescrutar e adivinhar para onde o Espírito está soprando aqui na nossa história, na vida da humanidade.

Não é para o céu que devemos olhar quando procuramos Deus (Act 1:11). A Fé em Deus enraiza na História da Humanidade.

«Mas a Palavra não é só Palavra sobre Deus e sobre o homem, mas é verbo feito homem. Se o ser humano é iluminado pela Palavra, é-o, precisamente, porque ela chega a nós através da história humana. É indiscutível – diz von Rad – que “a história é o lugar onde Deus revela o mistério da sua pessoa”.[8] A história humana deverá ser, então, também, o espaço do nosso encontro com ele, o Cristo.[9] Evocar a evolução da revelação da presença de Deus junto do seu povo ajudar-nos-à a clarificar a forma de que se reveste esse encontro na história. Presença e encontro que empurra o futuro da humanidade para a frente, mas que celebramos no presente enquanto alegria escatológica.»[10]

pb\






[**] A «História da Humanidade» é o pano de fundo da Aliança entre Deus e o Povo. Para aceder aos planos de amor e liberdade de Deus, o Povo Israelita só podia servir-se da História e suas tensões: virar as costas às “tensões históricas” (nas quais se decide da felicidade e da infelicidade humanas) é sinónimo de idolatria, de falta de Fé em Deus. É na História do Mundo que se sela o Pacto do Sinai, a Aliança entre Deus e o Povo. Pacto sempre livre [Js 24:15], sempre passível de entrar em crise [v.19], sempre passível de ser rasgado, sempre passível de ser renovado [Josué 24:16-28], mas nunca renovado ou rejeitado fora da história humana [v.17.23]. A Aliança implica uma troca de palavras-dadas, uma troca de promessas sob a forma da Palavra-dada: Deus oferece-se, sugere, não se impõe; o Povo decide se quer estabelecer uma Aliança, um Pacto, um Tratado de convívio confiante [Ex 19:3-8]. Existem condições: a primeira é a liberdade de poder romper o Tratado, a Aliança: «escolhei hoje» [Js 24:15]. Mas as palavras não bastam: é preciso «fazer». A Fé em Deus como que coloca Deus em segunda fila: é na praxis histórica que tudo se verificará ou se atraiçoará - «Todo o povo, unânime, respondeu, dizendo: «Tudo o que o Senhor disse, nós o faremos E Moisés transmitiu ao Senhor as palavras do povo.» [Ex 19:8].

[1] Christengemeinde und Bürgergemeinde. Zurique 1946, 36.
«El 16 de noviembre de 1989 fue asesinado por un pelotón del batallón Atlácatl de la Fuerza Armada de El Salvador, bajo las órdenes del coronel René Emilio Ponce, en la residencia de la Universidad, junto con los jesuitas Ignacio Martín Baró, Segundo Montes, Amando López, Juan Ramón Moreno Pardo, Joaquín López y López. Fueron también asesinadas Elba Julia Ramos, persona al servicio de la Residencia, y la hija de ésta, Celina, de 15 años.»
[7] Gilberto Gorgulho, «Hermenêutica Bíblica», in I. Ellacuria e J Sobrino, Mysterium Liberationis: conceptos fundamentales de la teologia de la liberación, Vol. I, Madrid, Ed. Trotta, 1990, p. 181.
[8] Gerhard von Rad, Teologia del Antiguo Testamento-II, Sígueme 31976, p. 436, l. 9-10. «A revelação do próprio Deus, segundo os testemunhos bíblicos, não se fez directamente como teofanias, mas indirectamente através de actos históricos de Deus»: W. Pannenberg, Offenbarung als Geschichte 1961, 91.
[9] A. Dumas escreve, inspirando-se em Bonhoeffer: «O espaço de Deus é o mundo, o segredo do mundo é a presença escondida de Deus. Jesus Cristo é a estruturação desse espaço e o nome desse segredo»: Une théologie de la réalité, Genebra 1968, 182.
[10] Gustavo Gutiérrez, Teologia de la liberación – perspectivas, Sígueme, 1974, 243-244.

19 de dezembro de 2012

NATAL_1 - DEUS E O DINHEIRO

O Senhor disse:«Já que são tão orgulhosas as mulheres de Sião: andam com a cabeça emproada, lançam olhares desavergonhados, caminham com passo afectado, fazem soar as argolas dos seus pés»,  o Senhor tornará calvas as suas cabeças, o Senhor desnudá-las-á.  Naquele dia, o Senhor lhes tirará todos os seus adornos: os anéis,  os colares, as lúnulas,  os brincos, as braceletes e os véus, os lenços da cabeça, as argolas dos pés e os cintos, os frascos de perfumes e os  muletos, os anéis dos dedos e argolas do nariz, os vestidos de festa, os mantos, os xailes e as bolsas, os espelhos e as musselinas, os turbantes e as mantilhas.

Então, em lugar de perfume haverá mau cheiro; em vez de cinto, uma corda; em vez de cabelos entrançados, a calvície; em vez de vestidos sumptuosos, um saco; em vez da beleza, a vergonha. Os teus homens cairão mortos à espada, e os teus soldados tombarão no combate, hão-de entristecer-se e gemer as tuas portas; e, desolada, sentar-te-ás por terra. [Isaías 3:16-26]


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Como o luxo resiste à crise em Portugal


O desafio chegou à Amorim & Irmãos no Verão de 2010.
Um mergulhador francês descobrira 168 garrafas de champanhe Juglar e Veuve Clicquot do início do século XIX, nos destroços de um navio naufragado no mar Báltico. Bastou retirar a rolha à primeira para se perceber que a temperatura e a pressão da água tinham mantido todas as propriedades do vinho, incluindo o gás. Para continuar a preservá-las, bastava substituir as rolhas. E nenhum outro fornecedor garantia aos técnicos da Veuve Clicquot (do grupo Louis Vuitton) o mesmo nível de qualidade da Amorim, com quem trabalhavam há vários anos.

Foi preciso criar rolhas de raiz as medidas dos gargalos eram diferentes das actuais. E até a engarrafadora manual saiu do museu da empresa, porque facilitava o encaixe nas garrafas antigas. Todos os passos foram acompanhados de perto: o gestor do produto Ernesto Pereira levou o material para França e assistiu no local à colocação das rolhas para evitar que se danificasse o achado.

“O segmento de luxo deverá representar entre 5 e 7% da produção da corticeira”, diz à SÁBADO Carlos Jesus, director de marketing da holding de Américo Amorim. Além dos vinhos, a empresa fornece componentes à Ferretti, líder em iates de luxo, e à Bentley, fabricante de automóveis; produz revestimentos para jactos privados e protótipos da Mercedez como o F700; e já enviou cortiça para sapatos Christian Louboutin, Stella McCartney e Dior. Em 2010, a Dalmore Trinitas, uma das melhores marcas de whisky do mundo, encomendou três rolhas para selar três garrafas de uma edição limitadíssima de 1964. A empresa acompanhou o processo durante seis meses e, mais uma vez, o gestor deste projecto deslocou-se propositadamente à Escócia para entregar a encomenda.

As garrafas foram postas à venda por 125 mil euros: duas venderam-se em menos de 24 horas. Não adianta querer saber mais: um contrato de sigilo impede a Amorim de divulgar o valor cobrado, bem como todos os detalhas técnicos.

Esta é uma exigência comum das marcas de luxo. O joalheiro José Carlos Santos também assinou um acordo de 16 cápsulas com um dos maiores produtores franceses de jóias. “Obriga-me a silêncio absoluto sobre os nomes das marcas e proíbe-me de reproduzir as peças que faço para eles”, diz à SÁBADO.

Mas a primeira encomenda feita ao empresário de Azurém (um anel de ouro, brilhantes e pérolas) não correu bem. Foi chamado à sede da empresa, em Paris. Lá, com fotografias do anel ampliadas ao microscópio, o gerente, o joalheiro, o polidor, o cravador de pedras e o fundidor mostraram-lhe várias imperfeições e erros invisíveis a olho nu. Todos os métodos de trabalho da José Carlos & Filhas tiveram de ser revistos passaram um ano a fazer testes sem receber um cêntimo mas nunca mais houve reclamações.

A produção constante para as maiores marcas de joalharia obrigou José Carlos Santos a alguns investimentos: comprou microscópios potentes e foi a França contratar uma pessoa só para escolher pedras preciosas e controlar a qualidade do trabalho. “Quando me vêem chegar dizem-me, a brincar, que vem lá a troika”, conta Jaime Emílio, responsável pelo acompanhamento da produção na empresa. A exigência compensa: a José Carlos & Filhas exporta 80% para marcas de topo.

Na Curtumes Fabrícios, em Seia, as preocupações são semelhantes. Quem entra na antiga sala de reuniões nem vê as paredes: o espaço está coberto com amostras das peles produzidas nos últimos dois anos. Todas menos uma a pele de borrego tingida de azul em exclusivo para a marca francesa Lancel, que ninguém pode ver. “Está fechada numa gaveta. Assinámos um contrato a garantir que não a mostrávamos”, diz à SÁBADO o administrador João Pedro Santos.

Desde 2007 já 19 companhias tiveram amostras da Fabrícios em cima da mesa dos seus estilistas: a Tom Ford, Givenchy e a Kenzo nunca as chegaram a usar, ao contrário da Louboutin, a marca conhecida pelos sapatos de sola vermelha[1], que aqui comprou peles para oito modelos de carteiras diferentes. Entre todos os interessados, João Pedro não esquece o caso de uma senhora que pediu informações sobre várias peles e acabou a marcar uma reunião para as 8h 30m da manhã do dia seguinte, na sede da Hermès, em Paris.

Karl Lagerfeld foi um dos primeiros estilistas mundiais a fazer encomendas à Fabrícios prefere cores berrantes, como o rosa-choque. Mas nenhuma marca é tão exigente como a Lancel. “Deu-nos um caderno de encargos com duas páginas para testarmos as peles”, adianta José Pedro Santos. Um dos testes consiste em colocar um peso sobre um pedaço de pele e raspá-lo várias vezes para confirmar que não tinge a peça. Quando as peles ficam prontas, um inspector da Lancel desloca-se à fábrica e passa três ou quatro dias a verificar cada lote antes de a encomenda ser enviada para os países onde se faz o produto final sobretudo Argélia, Tunísia e Turquia.

Só 5% das peles que chegam à Fabrícios têm qualidade suficiente para este segmento. E até o tamanho das cabras é importante: um animal com 1,20 metros tem os poros mais dilatado do que um mais pequeno. Numa das encomendas da Lancel, que pesa 20% da facturação anual, isso foi um problema: as carteiras fizeram tanto sucesso que a marca encomendou sete mil metros quadrados de pele a dimensão dos poros teve que ser reproduzida em laboratório, com produtos químicos.

As peles produzidas para marcas de luxo demoram três vezes mais a estar prontas, mas rendem mais estas empresas pagam 50% acima do mercado. De qualquer forma, uma mala vendida por 700 euros, não terá custado à marca mais de 60 euros. Nem tudo é lucro. “Uma marca que faz o lançamento de um novo perfume pode investir 70 a 100% da facturação prevista desse perfume”, explica Mónica Seabra Mendes, docente do Programa Executivo da Católica na área do Luxo.

Inês Branco, da Empresa Têxtil Nortenha, nem sempre sabe o preço final dos pólos e das T-shirts que fabrica para a Thomas Pink, do grupo Louis Vuitton, e para o criador norte-americano Adam Kimmel. Recentemente, cruzou-se por acaso com um vestido da Jonathan Saunders numa loja on-line custava mais de 500 euros, mas tinha saído de Vila Nova de Famalicão por apenas 65 euros.

Manter satisfeitos os responsáveis pelas compras é um dos truques de Inês. “O nosso contacto na Levi’s mudou-se para a Thomas Pink, em Inglaterra, e pediu-nos para produzirmos para eles, e dali passou para a Reiss, que já vestiu Kate Middleton e Michelle Obama.”

Sempre que um cliente consulta a Têxtil Nortenha, Inês contacta os diferentes fornecedores à procura de malhas adequadas. Um dos parceiros a quem recorre frequentemente é a Luís Azevedo & Filhos, de Guimarães que já colocou malhas em colecções das casas Dior, Balenciaga, Prada e Yves Saint Laurent. A participação na Première Vision, a mais importante feira de têxteis para vestuário, é fundamental para impressionar o mercado.

A administradora Sílvia Azevedo reserva sempre um stand de 20 metros quadrados para expor as novidades três dias custam-lhe 13 mi euros, mas o investimento compensa. Foi numa das feiras que um responsável da Balenciaga a abordou. O representante da marca espanhola perguntou-lhe se era possível alterar a cor e o padrão de um devoré preto malha simples com padrões de transparências conseguidas através de enzimas. A Azevedo produziu a malha em rosa-vermelho.

Portugal não é caso único. Mais de 70% dos produtos de luxo são feitos na Europa; o sector já representa 2,6% do PIB da região e vai continuar a crescer mais de 7% ao ano. É, aliás, um dos poucos que resiste à crise.

A fábrica La Perla em Valadares é a única unidade europeia fora de Itália. Há 22 anos que a marca de lingerie de luxo se instalou perto de Vila Nova de Gaia. E se nos primeiros tempos a casa-mãe não permitia a confecção do artigo completo, agora confia alguns dos trabalhos mais complexos às costureiras portuguesas. As quase 200 máquinas de costura utilizadas não são de última geração. Não é importante: “25 a 50% das peças são feitas à mão”, explica à SÁBADO António Pimentel, director da fábrica. A complexidade dos artigos é tão grande que mesmo os básicos demoram quatro ou cinco vezes mais a produzir do que os equivalentes de gama média. Em Portugal são produzidos todos os anos 250 modelos diferentes, num total de meio milhão de peças a mais cara custa 1.700 euros.

Os materiais escolhidos pela marca (algodões extra-finos, sedas de chantilly e malhas de caxemira) são tão delicados que obrigam a cuidados especiais. Os vidros da fábrica têm protecção contra raios ultra-violetas, as mesas de trabalho são polidas para não haver arestas, e nalguns casos as costureiras retiram todos os anéis e põem creme nas mãos várias vezes por dia para não danificarem as peças. Mais: a fábrica contrata modelos todas as semanas para garantir que os materiais não picam ou provocam comichão e que os aros dos sutiãs não magoam. 

Mas nem sempre trabalhar para marcas de luxo significa um prazo maior. “Queremos as peças mais cedo para terem mais tempo para fazerem a verificação da qualidade”, explica Jorge Frade, director da Unidade de Cunhos e Cortantes da Autoeuropa, responsável por produzir moldes para peças de carros (como pára-choques) para marcas como Bentley, Porsche ou Lamborghini. “Num projecto normal fazemos um molde de cada vez, de forma sequencial. Nestes, temos que fazer dois ou três moldes em simultâneo”, diz.

Estes carros precisam de peças feitas à medida e a única garantia de que ficam exactamente iguais é serem feitas com o mesmo molde. As fugas de informação são outra preocupação. “Na nossa unidade, apenas quatro pessoas têm acesso aos dados desta peça [uma calha de água para a Bentley]”, aponta Jorge Frade. “Se fosse uma peça normal seriam 10 a 15 pessoas. Não está escrito no contrato, mas nós assumimos como importante”. Quando a SÁBADO lhe pede mais detalhes sobre o automóvel, responde: “É um modelo que ainda vai sair e ficamos por aqui.” Nem mais uma palavra.

Revista SÁBADO, 21-27 de Junho de 2012.
Por Rita Garcia e Patrícia Silva Alves


11 de dezembro de 2012

COMUNIDADES DE BASE [ALBERT ROUET]

«A IGREJA CORRE O RISCO DE SE CONVERTER NUMA SUB-CULTURA» [arcebispo Albert Rouet]





Lamentavelmente, na Igreja católica portuguesa, quanto à «actualização» da experiência do movimento iniciado por Jesus de Nazaré, a cultura teológica cristã, sobretudo a metodologia pastoral, são muito deficitárias, quando não divergentes da de Jesus. O dinamismo profético e radical do Evangelho, bem como a sua “pegada existencial” são praticamente ignorados / secundarizados por parte de leigos, padres e bispos.

Podemos resumir a duas, as formas concretas de os leigos serem igreja católica em Portugal:

.uma, massiva e pública, pontual, datada, feita de ajuntamentos de multidões (movimentos laicais, festivais, procissões, santuários), geograficamente não vinculada ao mapa paroquial;

.uma outra, que se centra à volta da simbólica e da liturgia (nos templos), partindo depois para o louvor a Deus segundo uma mística do transcendente a partir do mistério inominável (ligada à paróquia ou a capelanias).

Sem relevância (inexistente?), poderá existir uma terceira (provavelmente, ultra-minoritária: LOC, JOC, outros?), que parte da atenção à revelação de Deus na História através das suas contradições / tensões, procurando ler o acontecer (o revelar) da Salvação de Deus-Pai oferecida ao seu Povo na Face do Servo de Yahvé (4º Cântico do Servo: Is 52:13-15).

Há muito que venho insistindo nisto: em Portugal, predominam as paróquias e, nelas, não há comunidades. Há, sim, «gente que vai à missa» para cantar e para ouvir o Padre. Por «comunidade» entendo uma experiência existencial de «acolhimento integral» de cada um (palavra, incluída), de «partilha de destino» (“carregarmo-nos uns aos outros” – Jon Sobrino, sj) e de «celebração do perdão» (na linha da última Ceia de Jesus com os seus amigos).

A questão prática é: que metodologia para o fazer? No concreto, como o fazer? Acerca deste ponto, vários autores já foram editados nesta página Web, «A SALA DE CIMA» (p. ex., Marcel Legaut - 06:IX:2011; José Comblin, Leonardo Boff, Segundo Galileia - 9:IX:2012; Xabier Pikaza – 7:X:2012, etc.). Segue-se o ex-arcebispo de Poitiers, Albert Rouet.

A questão de fundo é: quais são os “materiais de construção”? por quais começar? como os dispor? que orientações globais? que prioridades?

Aquilo que vemos é que, uns refugiam-se na «liturgia» (um esquema pré-fabricado, onde o rebanho "mergulha a cara" no canto e lê aquilo que lhe foi predestinado ler ou ouvir ler). Outros defendem-se com «conferências» e conferencistas-super star, outros reduzem tudo a «espaços de oração» (monacais) em que todos aceitam dissolver-se num silêncio mudo, sacral e individual, em que o conceito de Povo de Deus é substituído pelo ‘indivíduo/a consciência a sós com Deus’.

Os modelos «comunidade local» (Albert Rouet), «comunidade humanista de base» (11:X:2011, Aloysius Pieris, sj), as «pequenas comunidades» do futuro (06:IX:2011, Marcel Legaut) ou «comunidades eclesiais de base - CEB» (América Latina) são a via, o caminho que a sociedade do nosso tempo nos obriga a adoptar. Esses modelos têm todos, como metodologia, o seguinte (e por esta ordem):

Atenção à realidade histórica - Que está a acontecer? Como interpretar? Qual o sentido histórico disso? Quais as causas pessoais e políticas? Quais as consequências pessoais e sociais? Que questões éticas se levantam? De que lado nos situarmos?
[Um Deus que sela um pacto contra os tiranos! é um desafio à Igreja: «Tomar o controlo dos pobres - assistencialismo - ou unir-se a eles na luta pela emancipação»?] Ex 1-2; Dt 26:5-10; Dt 4:37-39

Atenção ao “próximo - Que está a acontecer na realidade em que me insiro? Que se passa com os mais desfavorecidos, com os mais frágeis, com os excluídos do sistema? Que posso fazer? De quem me faço “próximo”?
[“Próximo” é aquele de quem me abeiro e carrego comigo e não aquele que se abeira de mim e a quem dou a esmola: Lucas 10:33] Mc 7:24-37; 8:1-10

Como o exemplo de Jesus pode ser um modelo de Novidade Radical, uma Boa-Notícia? (“Memória do Ev-angelio de Jesus”; alargar e radicalizar um horizonte de humanidade-salvífica) Jo 4:29.42; Lc 24:33-35

Como abrir o meu coração e confessar? CLICAR AQUI Como pedir perdão, perdoar e ser perdoado para ser salvo? Como reforçar o meu compromisso de profeta do Reino?
(não há Oração individual, nem Confissão Auricular, nem Perdão Individual sem comunidade de comunhão baptismal) Lc 7:36-50

Este desafio construir «comunidades de base» permanece urgente
(com aquela urgência das coisas perdidas: dracma, filho, ovelha…).

Urge regressar a Jesus de Nazaré, ao seu 'evangelho' e Bem-aventuranças, e aos primeiros passos pós-pascais da Igreja nos Actos dos Apóstolos.

[pb]




O arcebispo de Poitiers, Albert Rouet, é uma das figuras mais livres do episcopado francês. O seu livro J’aimerais vous dire (“Gostaria de vos dizer”) é um best-seller neste tipo de livros. Vendeu mais de 30.000 exemplares e recebeu o prémio 2010 dos leitores de «La Procure» (a maior livraria católica em França). Trata-se de um livro de entrevistas através das quais lança um olhar muito crítico sobre a Igreja católica. Em Fevereiro de 2011, ao completar setenta e cinco anos, tal como está previsto, apresentou a sua demissão. Em menos de duas semanas, facto absolutamente inédito, ela foi aceite por Roma.


Le Monde [LM] – A Igreja católica tem vindo a ser, desde há meses, sacudida pela revelação dos escândalos de pedofilia em vários países europeus. Surpreendeu-o?

Albert Rouet [AR] – Antes de mais, uma precisão: para que haja pedofilia não necessárias duas condições: uma perversão profunda e poder. O que quer dizer que todo o sistema que seja fechado, idealizado, sacralizado é um perigo. Na medida em que uma instituição – a Igreja, incluída – se constitua sobre um direito privado e se pense como instituição poderosa, então são possíveis as derivas financeiras ou sexuais. É o que esta crise [a «crise pedófila] revela e isso deve fazer-nos regressar ao Evangelho: a debilidade de Cristo é constitutiva da forma de ser Igreja.
Em França, a Igreja já não tem esse tipo de poder e por isso estamos frente a faltas individuais, graves e condenáveis, mas não diante de uma questão sistémica [estruturante].

Le Monde – Estas revelações acontecem depois de várias crises que puseram à prova o pontificado de Bento XVI. O que é que aflige assim tanto a Igreja?

Albert Rouet – Desde há já algum tempo que a Igreja está sob tempestades internas e externas. Temos um Papa que é mais um ‘teórico’ que um historiador. Como professor que foi, continua a pensar, que, quando um problema está bem equacionado, está meio resolvido. Mas, na vida, nada é assim: na vida temos que enfrentar a complexidade, a resistência do real. Nas nossas dioceses, isso é muito claro: fazemos o que podemos. A Igreja tem dificuldade em situar-se num mundo agitado como o de hoje. E esse é o núcleo do problema.

Duas coisas me preocupam na actual situação da Igreja. Nela existe uma espécie de congelamento da palavra. Portanto, qualquer tipo de questionamento da exegese ou da moral são condenados como blasfemos. Colocar questões é algo que, lamentavelmente, já não acontece e isso é uma pena. Por outro lado, reina na Igreja uma atmosfera de desconfiança doentia. A instituição tem pela frente o centralismo romano que assenta sobretudo numa rede de denúncias. Certas correntes passam a vida a denunciar as tomadas de posição de certo bispo, elaborando relatórios, denunciando este e aquele, tomando notas contra outros. E, com a internet, este fenómeno ainda se amplifica mais.

Por outro lado, há na Igreja uma evolução paralela à da sociedade. A sociedade reforça-se com mais segurança e mais leis; a Igreja, com mais identidade, mais decretos, mais regulamentos. Protegemo-nos, enclausuramo-nos! Somos o exemplo de um mundo fechado, o que é desastroso!

Em geral, a Igreja é um bom exemplo da sociedade, mas, no seu interior, são especialmente fortes as pressões relativas à identidade. Há toda uma corrente que não reflexiona, mas que assume uma identidade de tipo reivindicativo. A seguir à publicação, na imprensa, das caricaturas sobre a pedofilia na Igreja, recebi reacções dignas dos integristas islâmicos aquando das caricaturas de Maomé. Ao ofendermos, perdemos autoridade.

Le MondeO presidente da Conferência Episcopal, monsenhor André Vingt-Trois, repetiu em Lurdes, a 26 de Março: a Igreja francesa está marcada pela crise de vocações, pelo decréscimo da transmissão da fé, pela dissolução da presença cristã na sociedade. Como vive, o sr. Arcebispo, esta situação?

Albert Rouet – Procuro ter bem em conta que estamos no fim duma era. Passámos de um cristianismo de costumes a um cristianismo de convicções. O cristianismo sobreviveu graças ao facto de se ter  convencido de possuir o monopólio da gestão do sagrado e das celebrações. Com a chegada de novas religiões e com a secularização das pessoas, já ninguém recorre a essa ideia de sagrado.

Mas, será possível continuarmos a dizer que a borboleta é «mais» ou «menos» parecida à crisálida? Não, não é. É por isso que eu não raciocino em termos de ‘degenerescência’ ou ‘abandono’: estamos num processo de mutação. Precisamos de calcular a amplitude de tal mutação. Repare: na minha diocese, há setenta anos, tínhamos 800 padres. Hoje, temos 200, mas contamos com 45 diáconos e 10.000 pessoas envolvidas nas 320 comunidades locais que, há 15 anos, começamos a criar. E isto é o que importa. Temos que acabar com a pastoral do tipo ‘rede ferroviária nacional’… Temos que encerrar algumas linhas e abrir outras. Sempre que nos aproximamos das pessoas, da sua maneira de viver, dos seus horários, a participação eclesial aumenta e aumenta também a formação catequética. A Igreja tem essa capacidade de adaptação.

Le MondeMas de que forma?

Albert Rouet – Já não podemos dispor de gente suficiente para uma rede territorial de 36.000 paróquias. Então, das duas uma: ou consideramos isto uma desgraça da qual nos teremos de livrar custe o que custar e re-sacralizamos o ‘padre’, ou inventamos um modelo outro.
A pobreza [de meios] da Igreja é uma provocação para que abramos novas portas. A Igreja deve apoiar-se nos seus clérigos ou nos seus baptizados? Eu penso que a Igreja deveria confiar nos seus leigos e deixar de funcionar na base da divisão territorial medieval. Esta é uma mudança vital. Um desafio.

Le Monde E esse desafio pressupõe a abertura da ordenação sacerdotal aos homens casados?

Albert Rouet Sim e não! Não, na medida em que eu até poderia amanhã ordenar dez homens casados que bem os conheço , mas isso não é o que mais falta faz. Por exemplo, eu não lhes poderia pagar o salário. Ou seja, tinham de ter os seus empregos e só estariam disponíveis aos fins-de-semana para os sacramentos. Eis como se regressaria à velha imagem do padre vinculado apenas ao culto. Seria uma falsa modernidade.

Mas, se alterarmos a maneira de exercer o ministério e se a sua função na comunidade for outra, então sim, podemos considerar a ordenação de homens casados. O padre não deve continuar a ser o ‘patrão’ da paróquia. Deve apoiar os baptizados para que se convertam em ‘baptizados adultos na fé’, deve formá-los e evitar que se dobrem sobre si próprios.

Seria o padre quem deveria lembrar-lhes que eles são cristãos para os outros e não para si mesmos. Então, o padre presidiria à eucaristia como um gesto de fraternidade. Se os leigos permanecem infantis na fé (na menoridade), credibilidade alguma terá a Igreja. A Igreja tem de falar de adulto para adulto.

Le Monde O senhor considera que a palavra da Igreja já não se adapta ao mundo. Porquê?

Albert Rouet Com a secularização formou-se uma espécie de «bolha espiritual» dentro da qual as palavras flutuam, começando pela palavra «espiritual», que praticamente embrulha qualquer tipo de produto ou mercadoria… Portanto, é importante fornecer aos cristãos os meios indispensáveis para que eles saibam identificar e expressar os elementos da fé. Não se trata de repetir uma doutrina oficial, mas de permitir-lhes expressarem livremente a sua própria adesão à fé.

Às vezes, é a nossa maneira de falar que não funciona. Impõe-se descer da montanha e vir até à planície e fazê-lo com humildade. Para isso, requer-se um grande trabalho de formação, na medida em que a fé se converteu em algo de que nunca se fala entre os cristãos.


Le Monde Qual é a sua maior preocupação para com a Igreja?

Albert Rouet O perigo é real. A Igreja corre o risco de se converter numa sub-cultura. A minha geração estava muito agarrada à ideia da inculturação, de imersão na sociedade. Hoje em dia, o risco é que os cristãos simplesmente se fechem e se endureçam, porque têm a impressão de estarem frente a um mundo de incompreensão. Mas não é acusando a sociedade como causadora de todos os males que iluminamos as pessoas. Pelo contrário, faz falta uma imensa misericórdia diante deste mundo, onde milhões de pessoas morrem de fome. Não nos compete suavizar este mundo. Compete-nos tornarmo-nos mais amáveis.

Le Monde, 3 de Abril de 2010 [ENTREVISTA]
Por Stéphanie Le Bars


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SOCIEDADE DE BEM-ESTAR E FÉ – J A PAGOLA

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