teologia para leigos

25 de dezembro de 2012

NATAL_5 - DEUS E O DINHEIRO

«Creio que o cristianismo ocidental desenvolveu em si mesmo toda uma tradição, a que eu chamaria uma espécie de ateísmo, “um ateísmo suspenso”, no sentido em que o cristianismo chega a manter a fé em suspenso (estou a pensar no «Geläut der Stille», o «carrilhão do silêncio», de Martin Heidegger), em que o cristianismo chega a estabelecer uma distanciação face a Deus e face a qualquer tipo de comportamento que o pudesse levar muito a sério. Esta tradição sugere um ateísmo latente no cristianismo (salvo no Oriente cristão). Como se o cristianismo, concretamente, fosse incapaz de suportar uma presença ou sequer uma afirmação excessiva de Deus ou, mais ainda, como se tivesse necessidade de uma certa dose de ateísmo para poder suportar-se a si mesmo enquanto fé em Deus. Como se o ateísmo lhe fosse mais que necessário para expressar correctamente a sua fé em Deus, alertando contra o seu excesso. Como se «Etsi Deus non daretur» fosse a coisa mais natural. Pensemos, antes de mais, na passagem bíblica: “(Quando estiveres doente) ora ao Senhor, oferece incenso e oferendas generosas à medida das tuas posses. Depois, chama o médico, pois te será útil.” [Sir 38:9.11-12] Ou seja, muito pragmaticamente, encomenda-te ao teu anjo da guarda, mas não te esqueças de ir ao médico, tá?! E o autor sagrado, como que para não escandalizar o eventual leitor devoto, acrescenta: “Porque ele também [o médico] foi criado pelo Senhor”...».

Adolphe Gesché
Etsi Deus non daretur»: como se Deus não existisse)





«AI DE VÓS…!»
Distopias evangélicas


As utopias apontam para um futuro idílico universalmente desejável. Nos seus antípodas, o neologismo distopia anuncia um horizonte apocalíptico do qual apetece fugir.



1.   INTRODUÇÃO


Utopia e distopia são conceitos relativos – diante da mesma expectativa social, indicam perspectivas divergentes.

A luta utópica de algumas ONG’s, a fim de conseguir medicamentos livres de patentes para países em vias de desenvolvimento, desenha um cenário distópico para as empresas farmacêuticas que reivindicam os direitos de propriedade intelectual para amortizar os seus investimentos em investigação. No século passado, a utopia da conservação da selva tropical amazónica defendida por Chico Mendes constituiu uma clara distopia para os interesses depredadores dos fazendeiros brasileiros que o assassinaram.

Tradicionalmente, a mensagem evangélica alheou-se acriticamente da utopia. A Boa Notícia, apresentada sob as roupagens edulcorantes duma sociedade paradisíaca, foi comummente recebida e aceite como ideologia apetecível por todos. No entanto, basta ter em atenção o destino trágico de Jesus e dos mártires cristãos de todos os tempos para concluir, sem ambiguidades, que o horizonte do reino de Deus é essencialmente distópico. Ao longo da história, os guardiões do status quo sempre viram com maus olhos qualquer tentativa de construir uma sociedade mais justa, mais fraterna e igualitária.


Jesus, profeta distópico

Jesus foi condenado e executado por ser distópico: as suas palavras e acções foram, pelos seus contemporâneos, entendidas como uma ameaça real para o sistema social, político e religioso dominante. O anúncio de um Reino de Deus, em que publicanos e prostitutas precederiam os sacerdotes e os anciãos do povo (cf. Mt 21:23-32); um Reino em que pobres, aleijados e coxos ocupariam os lugares de honra desvalorizados pelos convidados da primeira hora o povo judeu (cf. Lc 14:15-24); um Reino em que a adoração em espírito e em verdade suplantaria o culto do Templo de Jerusalém (cf. Jo 4:19-24) punha em perigo os pilares sagrados da nação judaica.

Jesus não foi um activista político possuidor dum plano revolucionário de reformas sociais. A sua mensagem e a sua acção estavam em continuidade com a tradição profética israelita. Na sua experiência religiosa foi-se revelando o rosto de um Deus distópico intimamente preocupado com a sorte dos ‘mais pequenos’. Uma relação privilegiada com o Abba do povo, o que o levou a proclamar o advento dum reino no qual a santidade de Deus surgia vinculada ao destino dos empobrecidos:

«Jesus faz a experiência de um Deus diferente. É o Abba do povo. Interessa-lhe a vida do pobre (Mt 6:9-13): nela, joga-se a realidade da sua paternidade histórica. Decidira reinar , mudando a situação dos marginalizados.»[1]


A decisão de Caifás

Ainda que tragicamente expedito a tomar decisões, o sumo-sacerdote Caifás foi muito lúcido na análise das possíveis consequências da mensagem de Jesus: «Não percebeis que é preferível que morra um só homem pelo povo do que a nação [judaica] ser destruída?» (Jo 11:50)

A afirmação da primazia da pessoa sobre a Lei divina, a solidariedade contaminante com «os impuros», a crítica da religiosidade farisaica ou a inclusão dos pagãos nas promessas da Aliança, fizeram do galileu um profeta subversivo. A sua própria utopia sócio-religiosa questionava pela raiz a ordem judaica baseada na exclusividade da Promessa e na exclusão de todos aqueles e aquelas que pudessem manchar a pretensa santidade do Povo Eleito.


Ais’ distópicos

O evangelista Lucas estava muito consciente do conflito latente na proclamação da boa nova do Reino de Deus. Por isso, não hesitou em acrescentar uma «mal-aventurança» a cada «bem-aventurança do Sermão da Planície:

«Ditosos os pobres / Ai de vós, os ricos!»
«Ditosos os que têm fome / Ai de vós, os que estais saciados!»
«Ditosos os que chorais / Ai de vós, os que agora riem!» [Lc 6:20-26]

As mesmas distopias que acrescentam tensão ao «bucólico» Magnificat mariano (Lc 1:46-55). A utopia de um Deus misericordioso que enaltece os humildes e enche de bens os famintos rapidamente fica ameaçada pelas nuvens distópicas que anunciam tempestade para os poderosos e ricos: «derrubou dos seus tronos os poderosos […] e, aos ricos, despediu-os de mãos vazias».

Porquê esta estreita ligação entre promessa aos desfavorecidos e ameaça aos privilegiados?
A situação dos pobres e dos famintos é incompatível com a manutenção da situação dos de melhor estatuto social e económico?
Não estará porventura, o Evangelho, a estabelecer uma relação de causa-efeito conflituosa e gratuita?


2.   MATRIZ DISTÓPICA: OS ÚLTIMOS SERÃO OS PRIMEIROS

«Os últimos serão os primeiros e os primeiros serão os últimos» (cf. Mt 20:16) – esta estranha profecia é a matriz nutritiva que alimenta o carácter distópico da Boa Notícia evangélica.


O anúncio do reino de Deus é bi-direccional. Por um lado, promete uma melhoria de vida para os pobres e sofredores e, por outro, «ameaça» a situação de privilégio dos satisfeitos. Uma dupla direcção que não persegue uma mera mudança de lugares: os pobres passam a ocupar o cadeirão dos ricos e os ricos sentam-se no chão dos pobres. Não.

Muito menos se reduz a um acto de caridade, de modo a que os que mais têm se vêm convidados a ajudar os mais necessitados.

Pobres e ricos estão convocados a caminhar rumo a um lugar inédito no qual a sorte de ambos será alterada.

A distopia evangélica não procura restabelecer um ponto de equilíbrio dum sistema desequilibrado. Não se trata de pôr mais riqueza no prato dos pobres a fim de equilibrar uma balança que sempre pendeu mais para o lado dos que mais têm. Não defende que os menos favorecidos venham a gozar dos privilégios do mundo rico, identificando, assim, Reino de Deus com sociedade de bem-estar.

O que a antítese primeiros-últimos propõe é deslocar o fiel da balança, manejar para que a medida resultante seja favorável aos últimos. Propõe uma viragem coperniciana que desloque o centro de gravidade do sistema social, arrastando, consigo, os seus planetas associados: económicos, relacionais, políticos, culturais, etc., de modo que toda a constelação orbite em torno das necessidades e prioridades dos mais desfavorecidos.

Que os últimos sejam os primeiros e que os primeiros sejam os últimos significa assumir que os empobrecidos marquem o ritmo do nosso progresso. Implica que aceitemos que os primeiros terão que ir atrás de coxos, estropiados e cegos. Obriga a abrandar a nossa marcha, renunciando ao sprint para o qual nos treinamos nesta sociedade de êxito, de modo a que todos e todas cheguemos juntos à meta.

Obriga a pôr de quarentena os sucessos convertidos em dogmas inquestionáveis do nosso modelo de desenvolvimento. Reclama, por último, estarmos dispostos a renunciar a não poucas doses de riqueza que, com unhas e dentes, defendemos como se direitos inquestionáveis.

O Reino de Deus não se reduz a pequenos ajustes reformadores: vai mais além. Pretende refundar a ordem social. Propõe, nas palavras de Ignacio Ellacuría, «inverter a história»:

«O que falta fazer é imenso. Só utópica (distópica, diríamos nós) e esperançosamente se pode acreditar que é possível, com todos os pobres e oprimidos do mundo, ter coragem para reverter a história, subverter a história e lançá-la noutra direcção.»[2]





Para lá da moral. Injustiça estrutural

As utopias / distopias evangélicas situam-se para lá do âmbito moral, não procuram premiar os pobres virtuosos e castigar os ricos invejosos. Denunciam uma situação que é prévia a qualquer acção: a mera existência de riqueza num contexto de pobreza generalizada é uma situação escandalosa que exige ser alterada. Como dirá Jon Sobrino:

«Mesmo que por hipótese a coexistência de ricos e pobres não fosse devida à injustiça, tal facto exprime um monumental descalabro e um fracasso fundamental da família humana.»[3]

Segundo os dados do último relatório para o Desenvolvimento Humano da ONU, uma criança que nasça na Noruega tem uma esperança de vida de 81,1 anos. Se nasce na República Democrática do Congo, a sua expectativa reduz-se para 48,4 anos.[4] Trata-se do pecado “original-originante” que deve ser redimido.

Os exegetas neo-testamentários coincidem ao afirmar que os termos hebraicos e gregos utilizados, nas bem-aventuranças de Lucas ou de Mateus, para falar de pobres, famintos e infelizes referem-se a situações estruturais e não a desgraças pontuais. Os pobres (ptojoi) são aqueles que têm que mendigar para sobreviver: suas vidas dependem de outros. “Famélicos” seria a melhor tradução do termo grego (peinontes) que se refere a famintos – trata-se de uma fome profunda e prolongada. E pranto não se identifica com uma pena passageira, mas com sofrimento profundo fruto duma marginalização permanente.

Diante destas situações de indigência estrutural, os ricos, os satisfeitos e os felizes são aqueles que possuem grandes quantidades de bens materiais, são os que estão fartos e plenamente satisfeitos, são os privilegiados que ignoram o sofrimento alheio.[5] As situações estruturais pobreza e riqueza, fome e saciedade, sofrimento e auto-satisfacção são chamadas a reverter-se (utópica ou distopicamente, segundo os destinatários).


Para lá do direito

As distopias evangélicas também rebentam com o horizonte ético-jurídico dos Direitos Humanos. Ao enraizarem-se nas condições materiais que negam a possibilidade real dos mais débeis do planeta a ter direitos básicos, as distopias evangélicas anulam a retórica idealista que, a partir do norte satisfeito, começa já a reivindicar direitos fundamentais de “quinta geração”, enquanto que três quartas partes da população mundial nem sequer acedeu a direitos civis e sociais de primeira geração.

Como investir energias a exigir que o acesso à internet seja considerado um direito humano, quando 25.000 crianças morrem diariamente, porque ninguém respeita o seu direito básico a alimentarem-se. As prioridades dos mais desfavorecidos obriga a estabelecer hierarquias e, assim, exigem que se renuncie voluntária e temporariamente a direitos inquestionáveis, do ponto de vista formal.

Quando o rei David ordena a Urias, o hitita, que descanse em casa após a batalha, este fica-se a dormir às portas do palácio e justifica a sua acção nestes termos:

«A Arca de Deus habita numa tenda, assim como Israel e Judá. Joab, meu chefe, e seus servos dormem ao relento, e eu teria coragem de entrar na minha casa para comer e beber e dormir com a minha mulher? Pela tua vida, pela tua própria vida, não farei tal coisa!» [2 Sm 11:8-11]

Urias tem todo o direito do mundo em ir descansar a casa, mas renuncia a isso: banquetear-se, enquanto os oficiais dormem ao relento?

Nos seus últimos dias de vida, Madre Teresa de Calcutá pediu para ser atendida com os mesmos meios que eram postos à disposição dos pobres a quem ela se dedicou a vida toda:

«Se os pobres não podem aceder ao luxo dos tratamentos, não há razão para que eu disponha deles. Deixem-me morrer como aqueles a quem sirvo, pobres no meio de pobres.»

Madre Teresa tinha possibilidades e direito a ser atendida pelos melhores cardiologistas da Índia, mas… «banquetear-se enquanto os oficiais dormem ao relento?»


Universalidade a partir dos últimos

As distopias evangélicas não negam a universalidade da mensagem evangélica. Jesus anuncia a boa notícia a pobres e estropiados, bem como ao publicano Zaqueu (Lc 19:1-10). A sua preferência pelos últimos não é excludente, tal como demonstra a sua relação de proximidade com os poderosos: come com fariseus notáveis (Lc 14:1) e com pecadores (Mc 2:15ss; Lc 15:2). Não há dúvida que, tal como refere Rafael Aguirre Monasterio, ainda que o Reino de Deus seja para todos, apenas para os pobres é que ele é boa notícia (Lc 4:18; 6:20; 7:22); os ricos vão recebê-lo como má notícia (Lc 6:24-26; Mc 10:17-27).

«Diante de Jesus e o Reino, certamente que todos estamos necessitados de conversão, mas nem todos os interesses e nem todas as situações são afectadas da mesma maneira.

«Às vezes, isto é difícil de ser entendido e não poucas vezes se procuram interpretações moldáveis. Mas, já o próprio Jesus estava bem consciente do carácter escandaloso do anúncio que fazia do reino: «… a boa notícia é anunciada aos pobres; e feliz aquele que não se escandaliza comigo.»[6] (Lc 7:22s; Mt 11:9s)

José Laguna
Teólogo e músico
in Cuadernos Cristianisme i Justicia, nº 181, Novembro de 2012.


[1] Carlos Bravo, «Jesus de Nazareth» em I. Ellacuría y J. Sobrino, Mysterium Liberationis. Conceptos fundamentales de la teologia de la liberación I, Madrid, Trotta, 1994.
[2] Ignacio Ellacuría, «El desafio de las mayorías pobres», Estudios Centroamericanos, 493-494 (1989), p. 1078.
[3] Jon Sobrino, «Jesus y la justicia. Reflexiones para Occidente», en AA.VV., El seguimiento de Jesus, Fundación Santa Maria, Madrid, 2004, p. 206.
[4] Dados do IDH  (http://hdr.undp.org/es/)
[5] Cf. Gustavo Gutiérrez, «Pobres y opción fundamental», en Ellacuría y Sobrino, Mysterium Liberationis…, o.c., p. 311-312.
[6] Rafael Aguirre Monasterio, Reino, Parusia y Decepción, Madrid, Fundación Santa Maria, 1984, p. 19.

24 de dezembro de 2012

NATAL_4 - DEUS E O DINHEIRO

Consta que Stanley Ho[1] [1921-] propôs-se obter um Doutoramento Honoris Causa, a troco de uma boa oferta de dinheiro … à Universidade Católica em Lisboa.



Os fundos-abutres investem em países quase em falência e não aceitam perdoar as dívidas

«[…] Basta ver quem são os clientes dos hotéis no centro financeiro de Madrid: são os representantes de empresas de capital de risco como a Oak Hill e a Corsair Capital. Aguardam para atacar: segundo o jornal Expansion, estes especuladores só querem comprar hipotecas com mais de 70% de desconto. E, diz um banqueiro espanhol à Reuters, estão nos hotéis por uma razão: “Querem ter a certeza de que são os primeiros a quem vamos ligar quando os bens dos bancos [com problemas] forem vendidos.” Para já ainda não fizeram grandes negócios – os preços não baixaram tanto como desejavam.» (revista Sábado, 21-27 Junho 2012, p. 62)





«Não preciso do teu dinheiro generoso… Muito obrigado!», disse Jesus





Mamon, palavra de origem aramaica, que provavelmente significa “aquilo em que se pode confiar” e que se aplica especialmente ao dinheiro/Capital. Ao contrapor-se a Deus, em Lc 16:13 e Mt 6:24, essa palavra adquire um carácter quase pessoal, de maneira que pode ser interpretada como o anti-deus ou o ídolo supremo: “Ninguém pode servir a dois senhores, pois ou odiará um deles e amará o outro ou estimará um deles e menosprezará o outro. Ninguém pode servir a Deus e a Mamon.”

A partir daqui e tendo em conta a totalidade da mensagem da Jesus (…), podemos estabelecer alguns princípios teológicos fundamentais.

1 - O contrário de Deus não é um desejo subjectivo, mas uma estrutura objectiva, construída e absolutizada pelos homens: Mamon (o Capital, na sua forma opressora). O mal não é o mundo em si nem as coisas da criação finita, como poderia supor algum dualismo gnóstico, que condena a matéria, o sexo. (…) [o mal é] uma realidade trans-subjectiva fabricada pelos homens como estrutura objectivada em forma de sistema de dominação económica: Mamon. O mal brota da má vontade (da inveja, do juízo e do desejo de domínio), e objectiva-se e concretiza-se de modo que pode vir a incorporar, e já incorporou!, uma realidade idolátrica, externa: é Mamon. O mal é algo que o homem constrói para de imediato ficar escravizado por ele (idolatria). O mal não é uma criação positiva de Deus, mas também não é algo vazio, abstracto: é algo que os próprios homens constroem com a intenção de o dominar, mas de tal modo que acabam por ser dominados por ele. […]

3 – Mamon é um ídolo enganador que consegue camuflar-se, oculto sob roupagens de piedade e de liberdade. O Evangelho sabe que o próprio Templo de Jerusalém foi «feito por mãos humanas» (kheiropoiêton: Mc 14:58) e, portanto, vinculado ao dinheiro (cf. Mc 11:15-19), pois «onde estiver o teu tesouro, aí estará também o teu coração» (cf. Mt 6:21). […] A descoberta do carácter anti-divino de Mamon tem características de revelação: não se alcança com discursos conceptuais ou teorias cósmicas plasmadas na linguagem de «talião», mas apenas onde o verdadeiro Deus se haja revelado como poder de gratuitidade e princípio de amor que confira fundamento amoroso à existência humana. Foi assim que Jesus o vislumbrou identificando o Diabo (activo nas Tentações: cf, Mt 4 e Lc 4) com Mamon.







4 – Mamon é um deus forte, que permite construir muitas coisas (como a Torre de Babel). As palavras de Jesus, ditas no seu tempo, tornam-se hoje em dia muito claras, já que o capitalismo no Ocidente racionalizou a economia convertendo-a em princípio e motor das relações sociais, e dessa forma criou a indústria, produziu muitos bens e, de alguma forma, conquistou todo o mundo. Ora, este Mamon do grande capitalismo, que está estreitamente relacionado com o império militar e que domina sobre a totalidade dos seres humanos, no fundo é o anti-deus, tal como o entende o Apocalipse quando o interpreta como a Grande Prostituta e deusa deste mundo (Ap 17-18). Deus e Mamon assemelham-se e assemelhando-se opõem-se. Deus é criador, é Vida que se dá a si mesma; Mamon, por outro lado, foi criado pelos homens (aproveita-se deles, devora-os como faz o Dragão do Ap. 12). Deus é princípio de liberdade. Mamon, por outro lado, possui-nos (tal como o Diabo) e converte-nos em escravos ao forçar-nos a entrar esquemas de mérito e lucro, de ganância e julgamento, nos quais vale mais quem mais tem, ainda que, ao cabo e ao resto, todos acabem escravos do sistema.» [X. Pikaza]

Mc 10:17-22 - O homem rico (Mt 19,16-22; Lc 10,25-28; 18,18-23) - Quando se punha a caminho [de Jerusalém], alguém correu para Ele e ajoelhou-se, perguntando: «Bom Mestre, que devo fazer para alcançar a vida eterna?» Jesus disse: «Porque me chamas bom? Ninguém é bom senão um só: Deus. Sabes os mandamentos: Não mates, não cometas adultério, não roubes, não levantes falso testemunho, não defraudes, honra teu pai e tua mãe.» Ele respondeu: «Mestre, tenho cumprido tudo isso desde a minha juventude.» Jesus, fitando nele o olhar, sentiu afeição por ele e disse: «Falta-te apenas uma coisa: vai, vende tudo o que tens, dá o dinheiro aos pobres e terás um tesouro no Céu; depois, vem e segue-me.» Mas, ao ouvir tais palavras, ficou de semblante anuviado e retirou-se pesaroso, pois tinha muitos bens.

Esta passagem permite-nos ver melhor as relações de Jesus com a riqueza. Jesus vai a caminho de Jerusalém (a caminho da morte) e sai-lhe ao caminho um homem: «era muito rico». (…) Era um bom judeu, um homem da Lei, mas alguém que queria mais e por isso buscou Jesus. Não sofre de angústia pessoais, nem tinha dificuldades familiares. Sente-se feliz, mas quer atingir a vida eterna. Jesus responde-lhe dizendo-lhe que seja um bom judeu e que viva segundo os mandamentos que conduzem à vida eterna (cf. Ex 20:12-16). O homem responde-lhe que os cumpre já, de maneira que podemos concluir que ele é um irrepreensível cumpridor da Lei, tal como Paulo dizia de si próprio (Fl 3:6).

Porém, o Evangelho ergue-se acima da Lei quando acrescenta: «Jesus, fitando nele o olhar, sentiu afeição por ele e disse…» (Mc 10:21). A partir daqui, toda a cena se constrói como um cruzamento de olhares. O que Jesus vai dizer (vende tudo e segue-me) só se pode exigir a partir do amor. Para lá das leis que toda a vida até agora cumpriu, Jesus oferece ao homem rico o olhar amante que o tornará capaz de situar-se ao nível da gratuitidade do Reino.

Jesus não lhe exige que cumpra leis novas, nem o acusa de nada. Simplesmente, ama-o, segundo um gesto que é emblemático de todo o Evangelho, convidando-o com o seu olhar a deixar tudo e a segui-lo. Entre Jesus e o homem estabelece-se uma comunicação prenhe de promessas. Tudo indica que eles se vão entender, na medida que existe um princípio de cordialidade entre ambos. Só assim se entende que Jesus possa ter acrescentado: «Apenas te falta uma coisa: vai e vende o que tens…».

No coração da perfeição moral, Jesus detecta uma carência que se expressa como falta de gratuitidade. Por isso, insiste: «Vende o que tens». E assim surge o tema central do relato: este homem «tem» coisas, este homem tem-nas para si, este homem está a correr o risco de que elas o tenham e o possuam. Por isso, Jesus pede-lhe que as venda, não simplesmente para as vender, mas que sejam dadas aos pobres, em gesto de amor generoso.


Os bens dos pobres. Para lá duma economia comunitária.

Podemos vender bens a fim de negociar com eles e fazer lucro. Jesus não pede isso, Jesus não quer um comerciante ao serviço do Reino.[2] Podem vender-se bens para serem ofertados a uma comunidade religiosa ou social, isto é, à Igreja ou a uma organização, tal como o pede a regra essénica de Qümran (cf. 1QS 1,11-13) e também como supõem muitas regras cristãs de vida religiosa. Nem isso quer Jesus: não quer que os seus discípulos passem da posse individual (ou posse de família pequena) à posse grupal. Nem quer que esses bens sirvam para enriquecer uma Igreja com donativos que podem ser utilizados para manter as suas obras religiosas, já que, dessa forma, os seus discípulos continuariam perseguindo o cheiro do dinheiro e do poder do grupo.

Jesus, pelo contrário, quer que o homem dê os seus bens aos pobres, isto é, aos de fora do seu grupo, sem esperar compensações, por puro amor gratuito. «E terás um tesouro nos céus…», isto é, onde ninguém é possuidor de nada, onde tudo é oferecido e tudo é partilhado, segundo o plano dum Deus que tudo tem e nada possui. Esta é a demonstração de Deus: a gratuitidade completa. […]

Certamente, este homem pensa que Jesus lhe irá pedir os seus bens (ou parte deles) para o serviço da sua obra do Reino, mas Jesus responde-lhe que não quer nada, nem para ele, nem para a sua Igreja: Jesus não necessita dos bens deste rico para edificar a sua comunidade; não quer construir a sua Igreja sobre os donativos dos poderosos. 


Donativos para o templo de Jerusalém - «Alguns chefes de família fizeram donativos para os trabalhos. O governador doou ao tesouro mil dracmas de ouro, cinquenta taças e quinhentas e trinta túnicas sacerdotais. E vários chefes de família doaram ao tesouro para os trabalhos vinte mil dracmas de ouro e duas mil e duzentas minas de prata. O resto do povo doou vinte mil dáricos de ouro, duas mil minas de prata e sessenta e sete túnicas sacerdotais. Os sacerdotes, os levitas, os cantores, os porteiros, as pessoas do povo, os natineus e todos os filhos de Israel estabeleceram-se nas suas respectivas cidades.» [Ne 7:69-72]


Por isso diz que «dê aos pobres». Só depois pode acrescentar «vem e segue-me». Não lhe pede coisas de dinheiro nem lhe oferece ideias ou planos de oração nem o convida a realizar sacrifícios ou gestos religiosos, não lhe promete nenhum tipo de bens materiais, mas algo infinitamente superior: Segue-me! O rico pode até ter oferecido a Jesus algum dinheiro, mas Jesus não precisa de dinheiro: quere-lo a ele e diz-lhe “Segue-me”. É como se acrescentasse: ‘Não quero os teus bens, quero-te a ti! Não me fazem falta as tuas riquezas! Preciso de ti como pessoa! «Mas ele, entristecido com estas palavras, suspirando fundo, foi-se embora. Era muito rico…». Jesus fracassou, não conseguiu «converter» o homem rico. Olhou com amor, mas o amor não foi suficiente para que superasse o seu desejo de segurança económica.

«Vista deste ponto, esta cena (Mc 10:17-22) é uma espécie de romance exemplar que nos ancora no tempo de Jesus e que lança luz sobre o caminho de certas igrejas, as quais, muitas vezes ao contrário de Jesus, pedem dinheiro às pessoas que, longe de ser para os pobres (cristãos ou não), é para as suas instituições de tipo social ou sacral.»


Xabier Pikaza


22 de dezembro de 2012

NATAL_3 - DEUS E O DINHEIRO

«Bem unidos façamos, nesta luta final, uma terra sem amos…»





Das seis secções do Evangelho de Mateus, a quarta [16:21-20:34] revela como, para Jesus, era importante começar a esculpir com as próprias mãos o diamante. Caminhava para Jerusalém, tudo poderia vir a correr mal (nada estava garantido) e, sendo assim, convinha lançar-se na construção da sua proposta: uma esperança possível, palpável, uma casa diferente, contra-cultural, que fosse ao arrepio da ideologia dominante. Jesus não parava de ser provocado, pelos seus discípulos, a abrir o jogo, a “concretizar” o seu plano, a pôr tudo em pratos limpos.

Sabemos bem que todo projecto de construção começa pela necessidade de enfrentar as dificuldades da obra projectada (na cabeça). Dentro desta quarta secção de Mateus, fixemo-nos apenas em duas narrativas: O jovem rico (19:16-26) e Os trabalhadores da vinha (20:1-16). Que se passa aqui? “Processo de acumulação de capital, entesouramento, força de trabalho, capitalismo-empregador e virtudes morais, produção de mais-valias …” – até parece que, traiçoeiramente, o Evangelho nos empurrara para dentro dalgum volume de Karl Marx: Contribuição para a Crítica da Economia Política? O Capital? Que se passa aqui, nestas narrativas?!






Proémio

A Internacional ficou como um hino famoso, comum a muitos espíritos internacionalistas, comunistas, socialistas, sociais-democratas, anarquistas, etc., sobretudo depois que foi adoptado (entre 1917 e 1941) como Hino Nacional da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS).


De pé, ó vitimas da fome
De pé, famélicos da terra
Da ideia a chama já consome
A crosta bruta que a soterra

Cortai o mal bem pelo fundo
De pé, de pé, não mais senhores
Se nada somos em tal mundo
Sejamos tudo, ó produtores

Bem unidos façamos
Nesta luta final
Uma terra sem amos
A Internacional (…)

O crime de rico, a lei o cobre
O Estado esmaga o oprimido
Não há direitos para o pobre
Ao rico tudo é permitido

À opressão não mais sujeitos
Somos iguais todos os seres
Não mais deveres sem direitos
Não mais direitos sem deveres (…)

Abomináveis na grandeza
Os reis da mina e da fornalha
Edificaram a riqueza
Sobre o suor de quem trabalha

Bem unidos façamos
Nesta luta final
Uma terra sem amos
A Internacional



Este hino, a Internacional, fala de situações eternas! E de Esperança, também.

A exploração do homem pelo homem será sem sombra de dúvida «a profissão mais velha do mundo». A crítica dos Profetas de Israel à acumulação avara de riqueza, fruto da opressão e exploração dos pobres (Is 5:8-10; 10:1-3; Ex 22:6-31; 27; Am 2:6-7; 5:10-12; 8:4-8; Mt 6:19-34) e a crítica de Horácio (poeta da Roma Antiga, 65 aC-8 aC) contra os que perseguem avaramente a riqueza (Sát 1.1; 2.3.82-280) são boa demonstração disso mesmo.

Filóstrato[1], filósofo sofista grego, [c. 170-250 dC] (Apolonio 1.15) narra um incidente ocorrido em Aspendo (Panfília, Ásia Menor; Act 2:10) durante o reinado de Tibério (14-37 dC). À sua chegada a essa cidade, Apolónio encontra uma situação terrível: amotinação, fome e revoltas, porque «os ricos enceleiraram todo o trigo e retiveram-no para exportação». Vendendo-o para fora, obtinham lucros incalculáveis. Numa sociedade imperial que vivia da produção agrícola, o entesouramento, se é certo que constitui uma reserva em situações de quebra da produção, ele por si só também acarreta instabilidade económica. O entesouramento, de costas voltado para o investimento (compra de mercadoria), vive da especulação, a qual consiste “em prever a psicologia do mercado”. [Keynes] Ora, previsões são previsões…

No “tempo” de Jesus, são conhecidas revoltas violentas em Jerusalém (66 dC) e em Antioquia (70 dC), durante as quais as multidões de pobres e esfomeados assaltaram os arquivos lançando-lhes fogo a fim de destruir os registos dos seus bens patrimoniais e também os registos das suas dívidas fiscais, como forma de protesto contra os meios abusivos de que se serviam os ricos para “espremer” ainda mais os pobres.

Numa sociedade agrária, a fonte de rendimentos é a terra e mão-de-obra abundante e disponível (‘ociosa’, Mt 20:3); o destino desses mesmos rendimentos é o exército (para controlar a posse e o trabalho), os cargos políticos imperiais, as elites e o luxo (demonstração de posse, status). Nela não se coloca a questão da negociação salarial, nem a questão da Teoria da Abstinência (o latifundiário prescindir de parte dos lucros para realizar a reposição de capital e de maquinaria). O desemprego[2] (que à era de Jesus era massivo) assegurava a exploração e o lucro. O salário não era problema: cumpria apenas a função de manter vivo, e com alguma força, o trabalhador / marginal para que produzisse. A precariedade era a norma (rendas e impostos sobre os rendeiros subindo em flecha de modo arbitrário, e, em tempos de carestia, com a consequente obrigação da devolução / hipoteca das terras; como resultado, apropriação das terras por parte dos amos; ou seja, «dinheiro faz dinheiro»).

 

O sistema estava montado. Assim se enriquecia. Muito. Já naquele tempo era assim: tudo como hoje, desde a Era Industrial.

 

Como explicamos, hoje, este processo?

 

É (…) «realista supor que não são os capitalistas que concedem crédito aos trabalhadores (que lhes pagam antecipadamente), pois são os trabalhadores que concedem crédito aos capitalistas, sendo remunerados pelo trabalho já efectuado. (…)

 

«O equivalente do carácter bipolar das duas categorias ‘capital’ e ‘trabalho assalariado’ é, por um lado o lucro e, por outro, o salário. Naturalmente, a origem do lucro só pode ser a venda vantajosa se se considerarem casos particulares; se, em contrapartida, se considerar o processo na sua totalidade, isto é, se a questão diz respeito à origem da existência dos “grupos sociais que não trabalham”, então deve procurar-se uma explicação para o lucro no ‘processo de produção’.

 

«O lucro é uma forma transfigurada da mais-valia. O significado desta explicação é, na sua forma mais simples e concisa, o seguinte: o facto de que os meios de produção são propriedade de pouquíssimos indivíduos, e de que os trabalhadores se encontram privados deles, obriga estes últimos a venderem a sua capacidade de trabalho, isto é, a sua força de trabalho, por uma soma de dinheiro mais ou menos equivalente ao valor dos produtos suficientes para a reprodução da força de trabalho. O trabalhador, no entanto, trabalha por um período de tempo mais longo do que é necessário à reprodução da força de trabalho. O valor das mercadorias produzido durante este tempo adicional de trabalho representa a mais-valia

 

«Ao mesmo tempo, o Capital é um conceito bipolar: admite a existência de trabalho utilizado livremente e, ao mesmo tempo, implica domínio sobre esse trabalho e, por conseguinte, também sobre as condições de produção. (…) é claro que o dinheiro em si não é Capital. Só se transforma em Capital quando é utilizado para multiplicar valor, quando se transforma num meio para produzir mais-valia, isto é (falando em termos muito genéricos), num excedente que ultrapassa os meios de subsistência dos trabalhadores. É também Capital quando se transforma num direito de participar na distribuição do «excedente». Por outras palavras, o dinheiro não é Capital se for apenas um intermediário na troca das mercadorias. Isto exprime-se pela fórmula M – D – M (mercadoria – dinheiro – mercadoria). Se, no entanto, o objecto da troca é a multiplicação do valor de troca, o dinheiro transforma-se em Capital, e isto exprime-se pela fórmula: D – M – D’, onde D’ é maior que D. Esta fórmula mostra o significado da definição de Capital como valor que serve para multiplicar valor, isto é, valor que se auto-multiplica.»[3]

 

Para terminar este atalho, citemos, por fim, Karl Marx: «Um negro é um negro. Só em determinadas condições se transforma em escravo. Uma máquina de fiar algodão é uma máquina de fiar algodão. Só em determinadas condições se transforma em Capital. Subtraída a essas condições, ela não é Capital, do mesmo modo que o ouro em si e só por si não é dinheiro, e o açúcar não é o preço do açúcar».[4]

 

 

Adentrando

 

Diz X. Pikaza:

 

«El pueblo de Israel ha conocido el dinero desde los tiempos más antiguos, pero su uso ha sido limitado, pues gran parte de la población ha vivido hasta el tiempo de Jesús al nivel de una economía de subsistencia, produciendo lo necesario para vivir o adquiriendo por trueque los productos faltantes, como ha sucedido en muchas sociedades agrarias hasta tiempos muy recientes.

 

«En vez de moneda acuñada (de oro, plata o bronce) se empleaban más bien como dinero animales (ganado mayor y menor: pecunia) y medidas de alimento (de trigo, vino o aceite). Por eso resulta peligroso comparar rápidamente aquella sociedad no monetaria con la nuestra de occidente, casi totalmente monetarizada.

 

«De todas formas, la centralidad del templo de Jerusalén (cuyo culto sostienen todos los judíos con dinero) y del imperio romano (que exige a sus súbditos tributo monetario) han hecho que el tema del dinero ocupe un lugar importante en la sociedad judía del tiempo de Jesús.

 

«Es posible que los primeros cristianos usaran poco dinero, pues vivían (en el ámbito rural) al nivel de economía de trueque. Por eso resulta sorprendente la cantidad de alusiones no sólo económica, sino también monetarias que hallamos en los evangelios.»[5]

 

Na verdade, numa das duas narrativas sugeridas (O jovem rico, 19:16-26) o que está em causa é a condição de latifundiário capitalista daquele jovem: «era muito rico». Ninguém tem dúvidas que se tratava de uma pessoa boa e religiosa, até talvez espiritualmente interessante: queria mais (pois já cumpria a Lei a preceito; v.20). Há gente assim: apesar da vida lhe correr bem, sente ânsia de mais, procura e, pelos conhecidos, é julgada como pessoa ‘preocupada com os outros’, sempre a correr, a oferecer-se para tudo, muito generosa. Porém, esquece-se do mais importante: fazer a ponte entre a carência que sente e as circunstâncias que lhe permitem ser carente – seus “cabedais” (como se dizia na casa da minha avó), seus rendimentos, suas propriedades, seus ‘pé-de-meia’. Há gente assim, muito da Igreja, que anseia por estar rodeada de gente a quem ajudar.[6]

 

A casa é um lugar de honra e de status: sempre foi e é. Atesta a reputação: é o lugar da salutatio matinal (na minha aldeia é-o forte e claramente!). A casa, para os latifundiários, poderá, eventualmente servir para acolher pobres algumas vezes por ano (ceia de Natal para pobres, p. ex.), para dar festas de beneficência, promover tômbolas de caridade, reunir empresários para angariar fundos, etc.. Pedir a um empresário / terrateniente que «venda a casa, as suas quintas e as distribua pelos pobres», para ele é estúpido… Na melhor das hipóteses, poderá pôr à venda uma quinta, uma casa abandonada e entregar o dinheiro à Igreja ou outra instituição de fiar. E, dar aos pobres?!!! Não será deitar pérolas a porcos…?

 

A narrativa coloca-nos diante dum Jovem que era um gestor com PhD por Harvard… um Executive Coaching!, um caso de sucesso. Jesus enfrenta, não a consciência deste jovem generoso e bom − e podia tê-lo feito −, mas o sistema em que ele (e o seu coração) está metido e onde foi formatado / atado. Jesus coloca em confronto «o império do Céu» (v.21) e o «império do Capital»: não enfrenta o ter-se um pedaço de dinheiro; enfrenta o império do Dinheiro, Mamon (v.22; Mt 6:24). A conclusão final desta narrativa – v. 23: «dificilmente um rico entrará no Reino do Céu» − é um Tratado de Filosofia Política, pois não se trata de uma condenação moral, mas de uma constatação social. E de que constatação se trata? De que há estruturas (independentes da vontade) que são poderosíssimas. O jovem rico representa uma riqueza conseguida à custa duma complexa montagem que envolvia a legislação romana com sua rede dos cobradores de impostos, o beneplácito sacerdotal, o benefício do Templo Santo (ou seja, a Identidade do Povo Eleito) e a submissão ao sistema fiscal estrangeiro de Roma.

É preciso ter vivido algumas décadas para que alguém se dê conta do sistema em que está metido… Não é fácil logo à primeira perceber tudo: sistema é sistema, não tem uma identidade pessoal imediata, nem sempre é evidente ou fácil. Sistema, regra geral, é rede, dissimulação.

 

Há gente desta (apanhada nas malhas do sistema), muito interessante, impecável até, sempre atenta (ninguém tem o direito de julgar ninguém!, só Deus), mas com um faro apuradíssimo para o perigo: sabem bem que cartas podem deixar cair e que fios nunca poderão deixar que cortem. Jesus poderia ter jogado com a ‘generosidade’ do rico, poderia daí ter-lhe vindo algum… para a sua campanha! Porém, Jesus queria um «mundo outro», Jesus queria uma «revolução», um mundo novo, e sabia bem que, para se construir um mundo novo, são precisos homens novos (mais do que dinheiro… vivo) e estruturas novas.

 

É igualmente isso que acontece com a proposta de «solidariedade igualitária», (“esquerdista”?), de Jesus − Mt 20:12; «deste-lhes a mesma paga que a nós». O que está em causa não é apenas o Homem Novo para construir uma alternativa ao sistema opressor. O que está em causa é o próprio sistema, que fabrica intencionalmente mão-de-obra barata e coloca nas mãos dos latifundiários “a faca e o queijo” (que sempre possuiram, aliás), mas também a massa humana com que sabem fabricar queijo…

 

O jovem rico percebeu rapidamente em que corda lhe tocavam e saiu de cena. Faro… instinto de sobrevivência! Capitalista sempre foi tudo menos sonso. Mateus 20:1-16 (os trabalhadores da vinha) é a narrativa que sai em defesa do Estado Social a sério.

 

 

A proposta social de Jesus

 

Jesus ao concluir «Não seja assim entre vós» (v.26) está a fazer trabalho de sapa, revolucionário e clandestino. Está a revolucionar o sistema! Num mundo onde a exploração económica assenta na escravatura, dizer «quem no meio de vós quiser ser o primeiro, seja vosso escravo» (v.27) é proclamar a revolução, a inversão de lugar social. Tem o impacto da Internacional! Espalha pânico!

 

Vale a pena reproduzir um poema de Georg Weerth, editado na «Nouvelle Gazette Rhénane»[7], jornal revolucionário alemão do qual Karl Marx foi chefe de redação (só tenho a versão em francês):

 

Ce matin je me rendis à Dusseldorf,

En très honnête compagnie:

Un conseiller gouvernemental déblaterait

Contre la «Nouvelle Gazette Rhénane».

 

«Les rédateurs de cette feuille

Sont tous dés Satans», dit-il;

«Ils ne craignent pas le bon Dieu

Ni meme le procureur-géneral Zweiffel.

 

A tous les misères d’ici-bas,

Ils ne voient qu’un seul remède,

La republique rouge comme les roses

Et le partage de tous les biens.

 

(…)

 

Ils réclament aussi le partage des femmes,

Et désirent abolir le mariage:

A l’avenir, on pourra ad libitum

Aller au lit tous ensemble.

 

Oui, tout le monde sera changé

Par cette direction moderne –

Mais les plus belles femmes seront reservés

Aux rédacteurs de la Gazette Rhénane.»

 

(…)

 

 

De Jesus também disseram de tudo: do bom e do melhor! Comilão e beberrão, amigo de pecadores, possuído por Satanás (Mc 3:22), enlouquecido, blá blá blá… A própria família de Jesus ajudou à festa (Mc 3:21). Revolucionário mete medo mesmo! (só ao Capital... a Mamon)

 

Comparando com a atitude do jovem rico, surpreende a iniciativa deste latifundiário, «proprietário que saiu ao romper da manhã, a fim de contratar trabalhadores para a sua vinha».

 

  Curiosamente, o proprietário rico não aceita que haja desemprego estrutural: por quatro vezes, varre a praça a empregar gente! Não se serve da “produtividade” de cada operário para os diferenciar entre si e, portanto, virar uns contra os outros e semear ‘individualismo’ ou competitividade à boa maneira do espírito neo-liberal anti-social (na verdade, eles haviam cumprido horários de trabalho diferentes).

 

Não procurou dividir para reinar (como frequentemente fazem os governos e os políticos aos sindicatos). Não deu a entender que faz o que faz movido por qualquer espiritualidade: faz porque é justo. Contratos assinados são para se cumprir, custe o custar a quem custar. «Não foi um denário que nós ajustámos? Leva, então, o que te é devido e segue o teu caminho, pois eu quero dar a este último tanto como a ti. Ou não me será permitido dispor dos meus bens como eu entender? Será que tens inveja por eu ser bom?’»

 

O proprietário rico vem propôr um mundo estruturalmente diferente, com regalias sociais: um mundo solidário. Os exegetas não encontram razões para dizer que esse amo/chefe de família represente, analogicamente, a figura de Deus Pai (eis os argumentos: grande acumulação de bens e conduta incoerente; igual para Mt 18:23-35).

 

Este homem rico propõe uma sociedade «menos hierárquica e mais igualitária» (W. Carter). É um chefe de família, rico, − não é um profeta moralista, nem persegue uma espiritualidade caritativa: quer, apenas, demonstrar que é possível organizar a economia em outros moldes. De tal maneira está convencido que o é, que nem teme ficar falido. Na verdade, não faliu. Talvez tenha até aumentado a sua produtividade: quem passa de uma situação de marginalidade de fim de linha (sem esperança) e retoma um contrato de trabalho promissor, redobra o seu empenho, trabalha com mais alegria.

 

Em resumo: a narrativa diz-nos que é possível um mundo outro! Economicamente, mais solidário. A Igreja católica terá entendido?

 

É possível um mundo sem precários, sem pessoas sujeitas a longos intervalos do ano sem trabalho (uma vinha só dá trabalho pelo tempo das vindimas). Um denário, à época, equivale ao montante do RSI actual: rendimento mínimo. Não se pode dizer que o proprietário tenha sido muito generoso. O seu valor está em ter posto em causa, com o seu gesto, um sistema que assenta no desemprego massivo e na falta de solidariedade social (hoje diríamos, na falta de Estado Social assente na contribuição/distribuição solidária, por oposição a uma (in)Segurança Social assente na Capitalização). Em contrapartida, a vida dum precário é a pobreza miserável, a desnutrição de toda a família, as doenças e a mendicidade. Naquele tempo, era bem preferível ser «escravo», pois isso significava ter alguém (um amo) que despensa ocupação, comida e cuidados sociais.

 

A vida de Jesus Cristo é agónica: Ele leva(ou) por diante uma luta contra «uma economia sem coração». Quase que podemos dizer que desde tempos imemoriais houve motivos para se cantar A Internacional!

 

Cantemos, então, pelo Natal, esta Mesa Fraterna à moda de Jesus, em que os últimos serão os primeiros a servir e os camelos passarão sempre folgadamente pelo fundo duma agulha.





Jesus surge, o Capital especulativo (jovem rico, Mamon) recua e o empresário empregador avança, destemido, acreditando no Estado Social segundo um «esquema público de repartição» assente numa «lógica de solidariedade baseada no trabalho». [Clara Murteira[8]]


Mais uma vez, Deus recusa-se a pôr a mesa aos banqueiros. Deus não está do lado do Capital, mas dos Direitos do Trabalho solidário.

 

 

pb\

 

 



[2] No tempo de Jesus estava em marcha uma revolução social e económica da Palestina de que não havia memória, com a passagem duma sociedade exclusivamente agrária a uma civilização fortemente imperial e urbana, tendo nas obras públicas (construção de grandes cidades, como Séforis, Tiberíades, Cafarnaúm, Antioquia. etc.) e no comércio internacional uma força profundamente desestruturadora das relações de vizinhança. Flávio Josefo identifica sempre, como aliados de Roma neste empreendimento civilizacional, os chefes dos sacerdotes e os «fariseus mais notáveis» (GJ 2.197, 320, 411, 414). Roma coopera com as elites locais e utiliza-as para exercer o controlo da Judeia (Goodman, Ruling classes of Judea, 29-36, citado por Warren Carter).
[3] Enciclopédia EINAUDI, «Capital», Volume nº 40, INCM 2001, pp. 23s.
[4] Citado por EINAUDI, ibidem, p. 108, Lohnarbeit und Kapital, in «Neue Rheinische Zeitung», 1849, nn. 264-67, e 269 (trad. it. Editori Riuniti, Einaudi, Roma 1960).
[6] Nunca como este ano, a moda do «ajude a ajudar»…
[7] Karl Marx, Une Biographie, Verlag Zeit im Bild, Dresde 1968, p. 143-144. (Ed. do Instituto de marxismo leninismo do Comité Central do Partido Socialista Unificado da Alemanha, 1967)
[8] Le Monde Diplomatique – edição portuguesa, Dezembro de 2012, pp. 4-5.