teologia para leigos

20 de novembro de 2012

«DIREITO DO TRABALHO» COMO MERCADORIA

«SOCIEDADE DA AUSTERIDADE
E
DIREITO DO TRABALHO DE EXCEÇÃO»

Prof. António Casimiro Ferreira





Lido por Hugo Dias


Esta obra, da autoria de António Casimiro Ferreira, elabora uma análise sociojurídica crítica das transformações ocorridas no actual período «austeritário».
A reflexão parte de uma «incomodidade cidadã» e «uma interpelação ética» perante o «fatalismo de uma perspectiva de sociedade alimentada pela crise e pela austeridade» (p. 15), e divide-se em duas partes: a primeira concentra-se na análise da chamada «sociedade da austeridade», a sua lógica de estruturação da organização social e formas de articulação entre indivíduos, instituições, direitos e poder. Num segundo momento, detém-se na variável jurídica, com particular ênfase nas mutações ocorridas no direito do trabalho.

O autor utiliza a noção de austeridade como elemento mediador entre os problemas sistémicos e a realidade concreta. Para além de incorporar uma lógica de naturalização das desigualdades, trata-se «de um modelo político-económico punitivo em relação aos indivíduos, orientado pela crença de que os excessos do passado devem ser reparados pelo sacrifício presente e futuro, enquanto procede à implementação de um arrojado projecto de erosão dos direitos sociais e de liberalização económica da sociedade» (p. 13).

A ética social da justa repartição dos sacrifícios esbarra no entanto com a dúvida de que «uma sociedade económica e socialmente muito desigual seja vantajosa não para o maior número mas para os mais favorecidos» (p. 46).

Se a Declaração de Filadélfia da Organização Internacional do Trabalho, de 10 de Maio de 1944, constitui um marco da construção do Estado-providência e da relação salarial fordista, a falência de Lehman Brothers, a 14 de Setembro de 2008, marca o início da crise económica e da sociedade de austeridade. A primeira «estabelece um entendimento amplo acerca da importância do social e, muito particularmente, do valor do trabalho e dos seus direitos» (p. 19). Mas, desde então, e sobretudo a partir da década de 70 do século passado, assistimos a uma reversão dessa visão, com o Consenso de Washington e a consolidação da agenda neoliberal.

O «processo de austerização» mantém o legado politico-jurídico neoliberal, mas constrói uma lógica de justificação, ou «narrativa de conversão», na difusão da mensagem da culpa e do medo social. A austeridade constitui uma política de «requisição civil» (p. 12) e «está a moldar um novo habitus, um novo modo de vida que se cria a partir do medo e da insegurança subjectiva (…) a situações de insegurança que são toleradas ou suportadas pelos indivíduos dado não terem alternativa possível» (p. 61).

O Estado assume um papel central neste processo.

A transformação neoliberal tinha já conduzido ao seu desvinculamento em relação ao cidadão, assente no primado da liberdade individual, desequilibrando a sua relação com a promoção da igualdade. O liberalismo, que concebe a sociedade como um aglomerado de indivíduos movidos pelo seu interesse racional, tem como isomorfismo sociojurídico o contratualismo. «A força da dualidade contrato-indivíduo recombina diferentes níveis da realidade social: ao nível estrutural converte o Estado, o direito, as instituições e as organizações em entidades axiologicamente neutras, enquanto, ao nível individual, atribui a responsabilidade das mudanças verificadas às decisões individuais» (pp. 37-38).

Segundo o autor, estamos a assistir «a uma forma de produção do poder e do direito, tendo por fonte a combinação estratégica entre actores governamentais e actores não-governamentais com o objectivo de implementar, ou mesmo institucionalizar, o modelo de austeridade utilitarista» (pp. 66-67). Actores não-governamentais, como os da Troika, produzem uma jurisprudência da austeridade, interpelando o Estado de Direito, ao procurar substituí-lo por normas pretensamente naturais e técnicas, intervindo na produção do direito com base na normatividade do estado de excepção».

A intensificação da experiência do tempo presente é também uma característica actual, «rompendo com o tempo histórico enquanto alteridade em relação ao presente» (p. 80). A temporalidade de excepção relativiza a história e a memória, e o conflito natural entre diferentes temporalidades possíveis. A aceleração do tempo jurídico, com o aumento da velocidade das alterações políticas e legislativas, transforma o princípio da segurança jurídica em insegurança jurídica e ontológica, provocando instabilidade político-social e pressão imediatista para a revisão da Constituição e das Leis.

Exemplo disso é o ocorrido na esfera do direito do trabalho. Os princípios do Espírito de Filadélfia, de uma dada articulação entre trabalho, direito e sociedade, começam a ser transformados, sob o signo do princípio do mercado. As relações de poder são reorganizadas em benefício da parte mais forte, bem como a função económico-instrumental do direito do trabalho de equilíbrio da relação entre statu e contrato.

O neoliberalismo inaugura o que define como «direito do trabalho subversivo», e o «direito do trabalho de excepção» desequilibra determinantemente em benefício do contrato. O direito do trabalho torna-se ele próprio uma mercadoria, factor competitivo na atracção de capital, e as alterações operadas no contexto da crise cristalizar-se-ão institucionalizando «um modelo neoliberal de regulação jurídica das relações laborais» (p. 117).

Num momento final, desenvolve uma reflexão teorico-analítica que possa constituir um guião alternativo à sociedade da austeridade:

1.   a recuperação do conceito de dignidade e de uma sociedade decente assente na liberdade real com segurança socioeconómica;

2.   a democracia laboral, enquanto condição necessária para o aumento da autonomia e controlo dos trabalhadores no local de trabalho;

3.   e a urgência de uma sociologia da vulnerabilidade, que identifique «os limites de um processo de teorização sobre a realidade desconectado dos contextos sociais e das dinâmicas individuais e colectivas do acontecer social,

4.bem como das consequências materiais e subjectivas» (p. 134) dos princípios basilares do neoliberalismo.

in Le Monde diplomatique – edição portuguesa, Setembro de 2012.



BIOGRAFIA

António Casimiro Ferreira é Doutorado em Sociologia do Estado e do Direito pela Universidade de Coimbra, sendo actualmente professor auxiliar da Faculdade de Economia e investigador do Centro de Estudos Sociais da mesma Universidade. Em 2006, foi distinguido com o Prémio Agostinho Roseta. Em paralelo é coordenador do Núcleo de Sociologia da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra e co-coordenador do Programa de Doutoramento Direito, Justiça e Cidadania no séc. XXI. Entre 1999 e 2002 foi assessor do secretário de Estado do Emprego e Formação Profissional e do ministro do Trabalho e Solidariedade Social.



ENTREVISTA AO AUTOR

MANIFESTO – POR UM TRABALHO DIGNO PARA TODOS

TEXTO – «MANIFESTO» [seguido de vídeo c/ 6 Depoimentos]


O LIVRO:

Este livro resulta da reflexão desenvolvida pelo autor sobre temas marcados pelo atual momento de crise em que vivemos.

Identificam-se algumas das consequências sociológicas associadas à implementação das medidas de austeridade, prestando-se especial atenção às alterações introduzidas na esfera laboral. Partindo de uma discussão geral em torno da noção de sociedade da austeridade, o autor desenvolve uma análise crítica centrada nas questões do medo social e do poder.

Estrutura da obra:
- Do espírito de Filadélfia ao modelo da austeridade
- Como é possível a ordem social?
- O sacrifício e a injustiça social
- Medo social e narrativas de conversão
- O poder dos eleitos, o dos não eleitos e o direito de exceção
- Direito do trabalho e aceleração do tempo jurídico
- Revisitando as funções do direito do trabalho de austeridade
- O direito do trabalho como mercadoria
- Do princípio da precaução ao contrato leonino

  • Autor(es): António Casimiro Ferreira
  • ISBN: 978-972-788-502-2
  • Peso: 0.2 Kg
  • Data de Edição: Abril 2012
  • Editor: Grupo Editorial Vida Económica
  • Idioma: Português
  • Medidas: 15x23 cm
  • Nº de páginas: 160

FONTE:




19 de novembro de 2012

«BEM-COMUM» OU SOCIEDADE CIVIL?

NAS ORIGENS DA SOCIEDADE CIVIL

(«ESPAÇO SOCIAL»: PARAÍSO OU ANTAGONISMO?)



O conceito de «sociedade civil», remetido para as profundezas do léxico político ocidental durante o século XX, está a reaparecer no debate sobre a crise da democracia representativa. Esta recuperação de popularidade não deixa de estar ligada, contudo, a um importante deslocamento semântico do sentido «moderno» original do termo, que corresponde à transformação mais geral da vida política contemporânea. (…)

Foi daqui que partiu Karl Marx (e por extensão o marxismo). «A anatomia da sociedade civil deve ser procurada na economia política»[1], escreve ele.

Nas sociedades humanas, com efeito, os indivíduos tecem relações necessárias e independentes da sua vontade (as relações de produção), que correspondem a um determinado nível de desenvolvimento das «forças produtivas materiais», com as quais concordam «formas determinadas da consciência social», bem como relações jurídicas e políticas determinadas.

A sociedade civil, portanto, a esfera da vida económica e social em que todos os homens são desiguais em termos de condição, profissão e educação não se recompõe no Estado; pelo contrário, é ela que lhe dá a sua forma. O que quer dizer também que ela se torna o palco do conflito político, o espaço onde se confrontam as classes sociais e as visões do mundo de que elas são portadoras.


Confrontos políticos

É justamente esta dimensão polémica que parece ter desaparecido na recente renovação do conceito de sociedade civil.

Esta, ter-se-ia tornado outra vez, como nos começos da modernidade, um espaço liso, unitário, sem ser atravessado por qualquer contradição nem diferença, e que pode, por isso, opor-se a uma esfera política institucional distinta e distante.

O mesmo vale para o conceito de «sociedade civil global» de que se apropriaram hoje os grandes organismos internacionais, como o Fundo Monetário Internacional (FMI) ou o Banco Mundial (BM), (…).

Raffaele Laudani
Universidade de Bolonha






[1] Karl Marx, Contribuição para a Crítica da Economia Política, 1859.


17 de novembro de 2012

«BEM COMUM» OU CIDADANIA?

CIDADANIA:
PALAVRA MALTRATADA, ESPERANÇAS INTACTAS





A democracia, extraordinária conquista num século XVIII monárquico, assemelha-se a um monumento inacabado cujo arquitecto tenha desaparecido. A representação política torna-se vazia, a abstenção nas eleições aumenta, a crise social fragiliza o cidadão… Uma revisitação da história e de alguns conceitos fundamentais permite identificar as fendas, na perspectiva de obras de renovação.






Alienada pelo «triângulo de ferro»[1] formado pela aliança dos dirigentes políticos, económicos e mediáticos; dividida por esse «ódio à democracia»[2] que separa os cidadãos que se mantêm no interior do «círculo da razão» liberal daqueles que dela estão excluídos; limitada pelas Constituições mas também pelos «constrangimentos externos» da globalização a soberania popular parece já não ser mais do que uma fonte de legitimidade entre outras. Se este desapossamento democrático foi possível, foi porque as formas instituídas de cidadania esse instrumento de soberania já não estavam suficientemente armadas para se lhe oporem. A delegação de poder constitutivo das democracias só permite que os cidadãos controlem os seus representantes a priori, no programa político, e a posteriori, no balanço. Entre os dois termos do mandato, a delegação de poder é um desapossamento.

Como controlar a acção dos representantes se não há mandato imperativo? Como exprimir a revolta se o voto em branco não é levado em conta e se «a rua não governa»?

O controlo da eleição é, ele próprio, mais do que limitado, de tal forma a liberdade do cidadão parece estar pré-determinada por um conjunto de dispositivos cujo objectivo é orientar a sua escolha. O apelo ao «voto útil», apoiado pelo peso de sondagens que enfeitam manipulações com as roupagens da cientificidade, tende assim a anular a possibilidade de se romper o círculo fechado do campo político. Em democracia, o que o povo faz, o povo pode (…)»

Allan Popelard
Geógrafo no Instituto Francês de Geopolítica da Universidade de Paris VIII.



OUTROS LINKS:


CIDADANIA, SAÚDE DEMOCRÁTICA E BEM-ESTAR

UM POPULISMO AFÁVEL E NÃO XENÓFOBO

QUE FUTURO PARA «OS INDIGNADOS»

«PARTICIPAR, MAS COMO?»

O MUNDO ESTÁ NAS MÃOS DOS BANCOS

NARRATIVA NEO-LIBERAL





[1] Expressão do sociólogo norte-americano Charles Wright Mills (1916-1962).
[2] Jacques Rancière, La Haine de la démocratie, La Fabrique, Paris, 2005.

16 de novembro de 2012

ENDIVIDAR PARA ESTUDAR_3/3

Porque está a generalizar-se
o aumento das propinas

- trabalho de sapa ideológico contra a gratuitidade


[EDUCAÇÃO ESCOLAR – A NOVA MERCADORIA]


O aumento das propinas no ensino superior está a ser promovido por think tanks e organizações internacionais. As mobilizações que se observam em diferentes países testemunham uma recusa em aceitar que o ensino superior seja transformado numa mercadoria e que os estudantes caiam na armadilha da dívida. O símbolo do quadrado vermelho surgido na «Primavera dos estudantes» no Quebeque alerta para que os estudantes se recusam a estar «no vermelho», afogados na dívida, e que lutam por um direito colectivo.


QUÉBEQUE - Le carré rouge...



«Pouco depois de chegar ao Ministério do Ensino Superior e da Investigação, em 2007, Valérie Pécresse lançou a si mesma um desafio: concluir a reforma neo-liberal da universidade. «Até 2012, terei emendado os danos causados pelo Maio de 68», proclamou ela ao Les Échos de 27 de Setembro de 2010. Chegada a hora dos balanços, ela pode gabar-se do seu belo êxito. A lei sobre as liberdades e responsabilidades das universidades (LRU), aprovada no Verão de 2007, será aliás aquela de que o presidente cessante Nicolas Sarkozy «tem mais orgulho», segundo Claude Guéant[1].

A passagem para o regime de responsabilidades e competências alargadas (RCA), que devia libertar as universidades da opressão estatal, colocou oito destes estabelecimentos (em oitenta) numa situação de «autonomia vigiada» sob tutela dos reitores, enquanto as outras estão agora a conhecer as alegrias da procura de financiamentos próprios. Contactar empresas, mendigar doações junto das redes de antigos estudantes, aumentar propinas, isto é, venderem-se: esta é, no essencial, a nova competência adquirida pelas universidades.

Mas, o que têm elas para vender?
Como os saberes emancipadores, considerados como bens comuns, já não fazem sucesso, o que elas agora têm de fazer é transformar a investigação científica em produtos patenteáveis e os docentes em percursos individualizados e «profissionalizantes» que dêem origem a diplomas rentáveis. As formações universitárias, empacotadas, mercantilizadas, calibradas para públicos solventes, certificadas por normas ISO (International Organisation for Standardisation)[2] e classificadas em palmarés, tendem a ser concebidas como mercadorias, ou mesmo «marcas», no caso das instituições mais prestigiadas e já rodadas na recolha de fundos privados.

Os estudantes (e as suas famílias) são assim seduzidos por brochuras, salões, encartes publicitários, guias e classificações comparativas; são incitados a decidir a sua orientação como se estivessem a fazer uma escolha de investimento. Nesta perspectiva, financiar os próprios estudos é investir para constituir um capital negociável no mercado de trabalho. Assim se explica a exortação à «transparência» e à «mobilidade» num espaço europeu ou até mundial do ensino superior, no qual os estudantes, ou os estudantes-clientes, empreendedores de si próprios, são convidados a negociar. (…)»


(CLICAR SOBRE A FOTO)



«(…) esta relação mercantil dos estudantes com a instituição universitária ameaça generalizar uma atitude utilitarista em relação ao saberes ensinados. A partir do momento em que o pagamento dos estudos por endividamento seja associado pelos estudantes a um investimento, submetido a um imperativo de rentabilidade, o conformismo vai sobrepor-se à vontade de aprender.

Os estudantes, obrigados a ser estratégicos e materialistas para poderem pagar os empréstimos contraídos, estarão muito atentos à conversão rápida do seu investimento. Esta tendência é já observável no Reino Unido, onde os professores da famosa London Schools of Economics (LSE) estão a perder a esperança da transmitir um espírito crítico a uma geração obcecada com o poder e o dinheiro[3].

Quando se sabe que só metade de uma geração acede ao ensino superior, podia ser-se tentado a reduzir a dimensão do problema do aumento das propinas à «juventude dourada»: no fim de contas, não será justo que «sejam os ricos a pagar»? Mas isso seria o mesmo que retirar do debate democrático uma questão de sociedade tão fundamental quanto, por exemplo, a das pensões de reforma. Com a alternativa entre uma «educação por capitalização» e uma «educação por redistribuição»[4] prolonga-se o combate a favor de uma solidariedade inter-geracional que garanta a partilha dessa riqueza colectiva que é o saber



Isabelle Bruno

Docente e investigadora em Ciência Política (Universidade Lille II – Ceraps), autora de À vos marques@, prêts… cherchez! La stratégie européenne de Lisbonne, vers un marché de la recherche, Éditions du Croquant, Bellecombe-en-Bauges, 2008 ; e, com Pierre Clément e Christian Laval, de La Grande Mutation. Néoliberalisme et éducation en Europe, Syllepse, Paris, 2010.

LE CARRÉ ROUGE AU QUÉBEC







[1] France Inter, 19 de Janeiro de 2012.
[2] ISO [Organização Internacional para a Estandartização]
[3] Financial Times, Londres, 3 de Dezembro de 2009.
[4] Retomando o título do artigo de David Flacher e Hugo Harari-Kermadec publicado no Le Monde de 6 de Setembro de 2011 como reacção às propostas do grupo Terra Nova.

13 de novembro de 2012

ENDIVIDAR PARA ESTUDAR_2/3 (PORTUGAL)

O DIPLOMA E A DÍVIDA:
- onde pára o Estado?

Em Portugal, o início da crise mundial, em 2007, fica também marcado por uma medida que amarra cada vez mais estudantes ao sistema financeiro: a criação de uma linha de crédito com garantia mútua: hoje haverá cerca de 12 000 estudantes a dever 200 milhões de euros à banca. Poderá este facto ser sustentável?




AS PROPINAS VISTAS A PARTIR DE UMA UNIVERSIDADE (CATÓLICA) PRIVADA:






 (…) «Um estudo relativo ao ano lectivo 2010/2011[1] demonstra que um estudante no ensino superior «custou» em média 5841 euros à sua família, enquanto o «investimento» público nesse aluno foi de 3601 euros. Comparando com os outros países analisados, verifica-se que Portugal, sendo um dos que menos financia os seus alunos, exige um violento esforço privado (ou seja, familiar): cerca de um quinto dos rendimentos familiares são absorvidos em despesas relacionadas com o ensino.

Foi a relação entre o diminuto investimento do Estado na educação, os elevados encargos que a frequência do ensino superior acarretam para as famílias e a precariedade dos apoios públicos aos estudantes que determinou, em 2007, a criação da linha de crédito para estudantes do ensino superior com garantia mútua. Ou seja, o próprio Estado, reconhecendo tacitamente a sua incapacidade de assegurar um ensino público tendencialmente gratuito, tal como é definido pela Constituição, colocou à disposição das famílias uma aparente solução para os seus problemas: o endividamento.

Na sequência disto, a percentagem de alunos que recorreu a créditos bancários passou de 1,6% em 2004/2005 para 4,9% no último ano lectivo. À medida que a crise se foi agravando e que o número de bolsas atribuídas foi diminuindo, cresceu o número de empréstimos bancários: em 2007/2008 foram 3.693, em 2008/2009 já eram 11.1108. Dados recentes da SPGM-Sociedade de Investimentos estimam que, neste momento, cerca de 12 000 estudantes devem 200 milhões de euros à banca. Com pouco mais do que 20 anos, provavelmente com dificuldade em arranjar emprego ou vivendo situações laborais precárias, com perspectivas de futuro muito cinzentas, milhares de estudantes portugueses abandonam as universidades com um canudo na mão e uma dívida num banco.

Concluindo, verifica-se que o estado em que se encontra actualmente o ensino superior português e as dificuldades que os estudantes enfrentam para o frequentar se devem, em grande parte, à desresponsabilização do Estado.

Governar implica tomar decisões, fazer escolhas.

Através do Orçamento de Estado de 2012, o governo escolheu retirar 864 milhões de euros à educação, e já é público que o financiamento das instituições de ensino superior em 2013 sofrerá um corte médio de 2,5%.

Investir na Educação não é a solução para todos os problemas, mas a (…)»


João Mineiro e Diogo Faria

Respectivamente, estudante de Sociologia e membro da direcção da Associação de Estudantes do Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa (AEISCTE, Lisboa); estudante de História e presidente da Associação de Estudantes da Faculdade de Letras da Universidade do Porto (AEFLUP).

[4 pp.]






[1] Estudo CESTES, cf. Luísa Cerdeira, Ibid.






12 de novembro de 2012

ENDIVIDAR PARA ESTUDAR_1/3 (USA)

A BOMBA RELÓGIO DA DÍVIDA ESTUDANTIL

Nos Estados Unidos, uma enorme quantidade de estudantes nunca vai ser capaz de pagar a dívida dos empréstimos contraídos para pagar a sua formação.

É este o caminho em que se lançam as sociedades quando substituem um direito baseado no acesso universal e gratuito por uma concepção do ensino como mercadoria, que olha o estudante como cliente solvente, mesmo que esmagado pelo endividamento. Uma bomba-relógio que pode estender-se a toda a sociedade, como aconteceu com o subprime.





(…) Aumento de propinas, recuo do investimento público

«As propinas estão a aumentar a uma taxa duas a quatro vezes superior à da inflação. Globalmente, o custo do ensino superior duplicou em trinta anos[1]. A crise económica, antes de refrear a tendência, desempenhou um papel acelerador em relação a ela. O sector privado registou um aumento médio de 8,3% em 2011, mas foi no público que a escalada foi mais espectacular, em especial nos estados da zona ocidental, particularmente dependentes da rede universitária pública. Assim, verificaram-se aumentos de 21% na Califórnia, de 17% no Arizona, de 16% no estado de Washington, etc.[2]. Estes aumentos são tanto mais problemáticos quanto são acompanhados de um desinvestimento progressivo da maioria dos cinquenta estados norte-americanos, principais investidores do ensino superior. Em 1990, o estado de Washington pagava cerca de 14 000 dólares por aluno e os estudantes pagavam apenas 3 000 dólares de propinas. Passados vinte anos, a relação praticamente inverteu-se: o subsídio público não ultrapassa os 5 000 dólares e cada inscrito tem de pagar uma factura anual de 11 000 dólares[3]. Todas as universidades aumentaram as suas tabelas de preços e as propinas passaram de 8 800 dólares em 1999-2000 para 14 400 dólares em 2010-2011.»

(…)

« Por outro lado, os jovens americanos frequentam cada vez mais universidades com fins lucrativos, que cobram muito caro por uma instrução medíocre. Estes estabelecimentos, privados mas financiados a 90% por subsídios[4], dedicam três vezes menos dinheiro ao ensino do que as universidades públicas, a troco de propinas duas vezes superiores. O fosso repercute-se na taxa de sucesso: só 20% dos estudantes saem delas diplomados. Pesadamente endividados, só adquirem uma fraca qualificação e dificilmente podem ter a esperança de encontrar um trabalho suficientemente remunerado para pagarem os empréstimos contraídos.»

(…)

«O problema é que existe um obstáculo de monta defronte dos que gostariam de reformar o sistema de ensino superior: o sector bancário. Principal beneficiário deste crescimento exponencial dos créditos estudantis, este sector não tem qualquer interesse na mudança. Com 100 mil milhões de dólares em empréstimos estudantis concedidos em 2011 e 1 bilião de créditos pendentes, está em jogo um maná de 30 mil milhões de dólares em juros bancários anuais[5].




Sistema falha no combate às desigualdades

A situação é, contudo, tão preocupante que, em Janeiro de 2012, o presidente Barak Obama fez dela um dos temas do seu tradicional discurso sobre o estado da União. Nessa ocasião, ameaçou diminuir as subvenções públicas das universidades que aumentassem as propinas demasiado depressa. Ao longo do mandato, Obama também tentou reduzir o papel desempenhado pelos bancos comerciais no programa federal de apoio aos estudantes sem êxito. Mas estas iniciativas não atacam verdadeiramente o problema dos custos dos estudos superiores, que resulta da incapacidade do capitalismo americano de cumprir a sua missão fundamental: permitir que o maior número de pessoas aceda ao modo de vida da classe média.

Este fracasso tem raízes nas políticas de austeridade implantadas desde há trinta anos e que conduziram (…)»


Christopher Newfield
Professor na Universidade da Califórnia em Santa Bárbara. Autor de Unmaking the Public University: The Forty-Year Assault on the Middle Class; Harvard University Press, Cambridge, 2008.






[1] Laura Choi, «Student Debt and Default in the 12th District», Federal Reserve Bank of San Francisco, Dezembro de 2011.
[2] Larry Gordon, «California Leads Nation in Escalation of College Costs», Los Angeles Times, 26 de Outubro de 2011.
[3] Dan Jacoby, «A Better Business Plan for Washington State’s Public Higher Education», The Seattle Times, 25 de Janeiro de 2011.
[4] Goldie Blumenstyk, «For-profit Colleges Show Increasing Dependence on Federal Student Aid», The Chronicle of Higher Education, Washington, 15 de Fevereiro de 2011.
[5] Dennis Cauchon, «Students Loans Outstanding Will Exceed $ 1 Trillion this Year», USA Today, McLean (Virgínia), 25 de Outubro de 2011.