teologia para leigos

1 de outubro de 2012

PHILIA OU ÁGAPE?

Ágape - a caridade cristã





Desde sempre (desde Jesus de Nazaré) que a condição cristã está marcada pelo selo da urgência do ‘amor extremo’ (Jo 13:1), amor que o comportamento de Jesus sugere e concretiza: «Sabeis o que ocorreu em toda a Judeia, a começar pela Galileia, depois do baptismo que João pregou: como Deus ungiu com o Espírito Santo e com o poder a Jesus de Nazaré, o qual andou de lugar em lugar, fazendo o bem e curando todos os que eram oprimidos pelo diabo, porque Deus estava com Ele.» (Act 10:37-38)

A palavra ‘amor’ pode ter vários significados: amizade, simpatia (philia), erotismo (eros), etc. Mas àquele tipo de amor (jesuano), a linguagem grega reservou a expressão “ágape”: amor criador desinteressado, oferta (desinteressada) de si mesmo, algo que o ser humano persegue por sentir como algo muito próximo do máximo amor possível, dum ‘amor divinal’. É a ele que os cristãos referem a palavra CARIDADE. Todos os seres humanos, quando fazem a experiência do amor, perseguem este tipo de amor extremo na linha do slogan «ame-o ou deixe-o»… Todo o tipo de amor tende naturalmente para o extremo. Quando não tende é porque está contaminado e não é espontâneo, natural.

Nos tempos que atravessamos, tempos marcados por uma das maiores crises económicas de sempre, o amor tem para todos uma dimensão social e um lado económico e material muito agudos. Mais ainda tem, quando a Hierarquia católica e algumas figuradas conotadas com a igreja católica vêm a público falar do amor cristão (charitas) na forma de «prática activa da caridade»: a caridade cristã.

Antes de clarificar o que se entende por Caridade cristã, convém recordar que, desde os primórdios do cristianismo, a caridade cristã (‘amor-ágape’) foi encarada como possuindo uma dimensão social, política e económica inalienável. No Cântico de Maria (Lucas 1:48-56), a referência à dimensão económica e política da acção do amor de Deus entre nós é explícita: «manifestou o poder do seu braço e dispersou os soberbos. Derrubou os poderosos de seus tronos e exaltou os humildes. Aos famintos encheu de bens e aos ricos despediu de mãos vazias.» Este é também um aspecto central nas Bem-aventuranças, na forma de proposições antitéticas: «Felizes vós, os pobres (…) Mas ai de vós, os ricos». (Lc 6:20.24)

O próprio João, numa das suas cartas, associa a visibilidade da presença de Deus ao amor entre os homens tornando assim impossível remeter o Amor cristão (a Caridade cristã) para uma esfera exclusivamente platónica – Deus só existe, Deus só se dá a ver sob a forma do amor partilhado aqui, no coração da história humana e não num além qualquer: «A Deus nunca ninguém o viu; se nos amarmos uns aos outros, Deus permanece em nós e o seu amor chegou à perfeição em nós.» (1Jo 4:12)

Jesus de Nazaré fundiu os três tipos de amor possíveis num só. Em Marcos (12:28-34) isso é bem claro: o amor a Deus, o amor ao outro e o amor a mim próprio tornam-se inseparáveis entre si. Mais: o relato evangélico chega ao ponto de dizer que isso é superior aos gestos litúrgicos meramente piedosos! «Amar a Deus com todo o coração, com todo o entendimento, com todas as forças, e amar o próximo como a si mesmo vale mais do que todos os holocaustos e todos os sacrifícios (= rituais religiosos desprovidos de amor ao próximo).» (v.33) O relato termina assim: «Vendo que ele [o escriba] respondera com sabedoria, Jesus disse: «Não estás longe do Reino de Deus.» E ninguém mais ousava interrogá-lo.»

Daqui se conclui que Deus é amor partilhado em todas as suas dimensões: pessoal e existencial, social, económica, política, etc. Em resumo: o amor cristão (a caridade cristã) não pode surgir fruto dum mandamento ou duma lei (divina ou eclesiástica) que a obrigue: a caridade cristã é a antítese do «ter de amar»… A caridade cristã é o mar em que o cristão se banha e mergulha: na caridade cristã não há lugar para compartimentos ou divisórias estanques (no voluntariado sou assim, em minha casa ou de férias sou assado). Ser cristão é ‘dar a vida’ e não, apenas, dar bens, dinheiro ou objectos por mais valiosos que sejam. «Ninguém tem mais amor do que quem dá a vida pelos seus amigos.» (Jo 15:13). Na peugada de S. Agostinho, isto quer dizer que existem muitos ateus que são muito mais cristãos que muitos crentes…

Num dos textos maiores da espiritualidade cristã, Paulo fala do Amor («Cântico do Amor»; 1Cor 13:1-13), das suas falácias (v.1-3) e qualidades (v.4-8).

Deste magnífico texto, existem dois aspectos que quero isolar. O primeiro, é uma crítica explícita a tudo o que seja exibicionismo ou imposição (auto ou alheia ao livre-arbítrio) resultante do exercício da Caridade cristã: «Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos» (…) «Ainda que eu tenha o dom da profecia e conheça todos os mistérios e toda a ciência, ainda que eu tenha tão grande fé que transporte montanhas» (…) «Ainda que eu distribua todos os meus bens e entregue o meu corpo para ser queimado», «se não tiver amor, de nada me aproveita.» (v.1-3)

O segundo, diz respeito a duas qualidades que a caridade cristã deve cumprir para, de facto, ser Ágape. O amor-caridade «não é invejoso, não é arrogante nem orgulhoso» (v.4), e «nada faz de inconveniente, não procura o seu próprio interesse, não se irrita nem guarda ressentimento.» (v.5) A procura da ausência de inveja (de anti-‘zelos’) cria a obrigação de buscar relações que façam com que o outro seja bem sucedido por si próprio sem estar sujeito à «inveja mimética» (R. Girard) que sempre introduz comparações, tensão disjuntiva e, portanto, contenda, donde resultam superiores e inferiores, "diferentes". A busca da não inconveniência (de ‘a-skhêmonein’, ‘skêma’=harmonia) pressupõe o absoluto respeito pela igualdade entre os parceiros, a qual se deveria plasmar neste princípio: antes de ter deveres, o pobre tem direito a ter tudo aquilo que o rico tem! Ou seja, o exercício da caridade cristã deveria começar por um pedido de desculpas: tudo o que é meu é também teu! Portanto, a caridade cristã só pode ser a busca do restabelecimento duma harmonia ferida. A caridade cristã não se pode ficar pela minoração ou mitigação de disparidades (na linha do «nem prata, nem ouro, antes FAZ CAMINHO CONNOSCO na Via de Jesus Cristo Nazareno»; Act 3:6). A «ausência de inveja» (=igualdade absoluta de condições) e a «não inconveniência» (=busca da harmonia ferida) são as condições para que a caridade-ágape inaugure um reino de reparação real e eficaz. O "amor-ágape", a caridade cristã, vai mais além da reivindicação de (apenas) "mais justiça jurídica".

É também isso que quer dizer a expressão «o Amor não procura o seu próprio interesse»: só assim é possível dar o ponta-pé de saída rumo a um amor verdadeiramente dialogante em que quem verdadeiramente «ama» não começa por perguntar “até onde estou disposto a ir”, mas “que me estão a pedir?”.

Lembremos aquele momento em que Jesus interroga Pedro, por três vezes, sobre os seus ‘planos para o futuro’ (Jo 21:15-17) e em que Pedro não consegue ir até onde o Mestre quer que ele vá…

[Jesus fala-lhe em alhos (ágape) e Pedro responde SEMPRE em bugalhos (philia), até que Jesus desiste…; cf. «Depois de terem comido, Jesus perguntou a Simão Pedro: «Simão, filho de João, tu amas-me [ágape] mais do que estes? Pedro respondeu: «Sim, Senhor, Tu sabes que eu sou deveras teu amigo [philia].» Jesus disse-lhe: «Apascenta os meus cordeiros.» (…) «Voltou a perguntar-lhe uma segunda vez: «Simão, filho de João, tu amas-me? Ele respondeu: «Sim, Senhor, Tu sabes que eu sou deveras teu amigo.» Jesus disse- lhe: «Apascenta as minhas ovelhas.» (…) «E perguntou-lhe, pela terceira vez: «Simão, filho de João, tu és deveras meu amigo [philia]? Mas respondeu-lhe: «Senhor, Tu sabes tudo; Tu bem sabes que eu sou deveras teu amigo]

Neste espantoso diálogo cénico, fica claro que viver a Caridade (ágape) cristã é “dar o litro”, é “dar a pele” por alguém, é “calçar os sapatos do outro” (G. Gutiérrez) e não apenas desenvencilhar-se do outro despachando-o com umas ‘sobras’, alguns restos.

É nesta linha que S. Basílio Magno (de Cesareia Mazaca, Capadócia; 329-379 dC; CLICAR AQUI) se situa aquando da Homilia 6ª sobre a frase «Deito abaixo os meus celeiros, construo uns maiores e guardarei lá o meu trigo e todos os meus bens.» (Lc 12:18)

«Homem, inteira-te de quem é aquilo que te calhou em sorte! Lembra-te de ti mesmo: quem eras e que bens agora administras, de quem os recebeste, porquê foste tu o preferido para os administrares? Foste constituído ministro dum Deus liberalíssimo, foste constituído em administrador dos bens dos teus irmãos. Não penses que tudo isso se destina ao teu ventre. Dispõe do que possuis como coisa alheia. As riquezas, uma vez alcançadas, deleitam; ao usarem-se, dissipam-se como fumo: delas terás de prestar contas muito rigorosas.» [2.]

«Diz o avarento: − Porventura injurio eu alguém só por querer para mim o que é meu? – Mas, diz-me: o que é que é teu? Donde trouxeste à existência isso que recebeste? Como se um espectador, por ter ocupado um lugar no teatro, pudesse impedir a entrada dos demais só por pensar ser apenas seu aquilo que foi criado para uso de todos: assim se comportam os ricos. Por fazerem, dos bens comuns de que eles se ocuparam primeiro, bens próprios apenas pela simples razão de terem sido eles os primeiros a tomá-los.» (…) «Porventura, não saíste do ventre da tua mãe nu? E não serás recebido, pela terra, desnudado, no seu seio?» (…) «O pão que arrecadas é propriedade do faminto». [7.]

Verter estes valores (esta espiritualidade) para um comportamento (inter-pessoal ou politico-institucional) acarretaria uma verdadeira revolução política abrangente, incompatível com mera distribuição de excedentes ou com o desdém e a perseguição a que politicamente são votados os estratos mais desfavorecidos da nossa sociedade nos tempos de crise que atravessamos.

Moldar a Igreja católica à luz desta espiritualidade constituiria, verdadeiramente, uma «Nova Evangelização».

O que é que, de novo, temos de propor para que a política seja mais justa e a Igreja católica seja a Casa duma Boa-Notícia?



pb\


30 de setembro de 2012

«CARIDADEZINHA CRISTû

Da Caridade


O debate entre a “caridade” e a “caridadezinha” tem tido, nos últimos tempos, picos de aquecimento na blogosfera e nas redes sociais. Até cantores de esquerda foram acusados de envolvimento em iniciativas pintadas com as cores da caridadezinha, mas a intervenção de Isabel Jonet nessa questão tem sido mais focada. O tema importa, não apenas pela sua relevância política, mas por dizer directamente respeito a pessoas que precisam de não serem deixadas à sua sorte, bem como a pessoas que por isso se interessam. Ora, então, vamos lá por partes.

Ponto 1. Eu não sou contra a caridade. Não sou contra as pessoas que, livremente e para lá de quaisquer direitos ou deveres legais, dão coisas e/ou tempo e/ou dedicação a outras pessoas, gratuitamente. Não sou contra isso, nem na forma individual, nem na forma organizada. Pelo contrário. Por exemplo, acho meritório o trabalho dos Bancos Alimentares contra a Fome. Como instituição e na pessoa dos colaboradores que concretizam a sua acção. Mesmo que eu não partilhe algumas das suas ideias, acho meritório. Há, de facto, seres humanos concretos que obtém, mesmo que momentaneamente, algum tipo de alívio para os seus sofrimentos por causa de acções que costumam designar-se como caridade. Não podemos ser indiferentes a isso.

Ponto 2. No plano de uma comunidade política civilizada, as pessoas têm direitos. Para falar genericamente, direito a uma vida digna. Os direitos não são oferecidos pela boa vontade de alguém, são uma bagagem inalienável de cada pessoa. Os direitos não devem depender de que apareça alguém com disponibilidade para os concretizar, devem ser assumidos por uma comunidade organizada. Uma comunidade onde a caridade é precisa, de forma sistemática, para atender a direitos básicos que deviam estar assegurados, é uma comunidade doente. O "Estado social", tal como o entendo, é necessário para que ninguém precise da caridade. O projecto de tornar a caridade o caminho principal, a via real, relegando para segundo plano a solidariedade organizada e a garantia dos direitos, é um projecto para uma sociedade de pedintes e servos. É que os direitos não podem depender das boas vontades, enquanto a caridade é, por natureza, arbitrária: ninguém pode ser obrigado a ser caridoso, o caridoso é caridoso quando quer, como quer, com quem quer. Esse elemento de discricionaridade, sempre presente na caridade, não é tolerável como elemento central de uma comunidade de cidadãos.
Por isso acho intolerável a ideologia de Isabel Jonet sobre este ponto, quando diz: «Eu sou mais adepta da caridade do que da solidariedade. A caridade é muito mais. A palavra está desvirtuada por ter uma conotação religiosa, mas para mim a caridade é a solidariedade com amor. Com entrega de si mesmo. A grande diferença é que caridade é amor e solidariedade é serviço.» (fonte)
Colocar os direitos, e a solidariedade organizada como meio de os fazer valer, em segundo plano face à caridade, é ideologicamente um regresso ao salazarismo. Que recuso liminarmente.

Ponto 3. Isabel Jonet, presidente do Banco Alimentar Contra a Fome, tem-se colocado sistematicamente, de há algum tempo a esta parte, numa linha claramente ideológica, política no sentido mais parcial do termo, assumindo teses muito antigas e muito claramente posicionadas no tabuleiro da luta político-partidária (CLICAR AQUI - sobretudo a IIª Parte). Quando alerta para os «efeitos perversos» do Estado Social; quando defende que o novo pacote de austeridade de Setembro (incluindo o Robin dos Bosques invertido, mais conhecido por TSU) é um «mal menor»; quando afirma: «As pessoas passaram a achar que têm direito a todas as prestações sociais e dão-no como adquirido. Muitas vezes, preferem ir para o subsídio de desemprego do que ter um emprego, ainda que ele seja menos bem pago, porque sabem que vão ter a prestação social no final do mês.» (fonte). Entretanto, se alguém ataca as declarações da senhora, há logo umas vozes escandalizadas porque a senhora é muito boazinha e não pode ser criticada. Ora, nada disto é caridade: isto é política de uma tendência bem determinada.
Saberá Isabel Jonet, por exemplo, que quase metade dos desempregados em Portugal não recebe nenhuma prestação de desemprego? Misturar toda essa gente, em geral, com os que se encostam e não fazem nada (que também existem, sim) é pura ideologia. E é um velho argumento, que vem sempre do lado dos que culpam os aflitos pela sua aflição. Isabel Jonet tem insistido, nos últimos tempos, em fazer ideologia, em falar demasiado genericamente. Fica-lhe mal e, se o que ela quer mesmo é fazer caridade, está a prejudicar essa mesma caridade com esta insistente agenda ideológica. Infelizmente, até já a caridade serve para fazer currículo que depois se usa no combate político (um Fernando Nobre de saias?). O que é uma pena: há pessoas que admiro apesar das divergências, mas também há pessoas que nos fazem perder o respeito pela sua acção quando confundem os carrinhos todos e se metem em guerras a que se deviam poupar.

Ponto 4. Usar a caridade para promover certas ideias políticas é repugnante. Moralmente repugnante. Mesmo em termos cristãos, é contra o Evangelho, que manda que a mão esquerda não saiba o que faz a mão direita (quer dizer, que não se apregoe, não se faça propaganda da caridade praticada). Não sou contra a caridade como caridade, mas tenho muito contra a intrusão da caridade na luta ideológica, como arma de arremesso política. Infelizmente, a Isabel Jonet que assim entra no combate ideológico, sem luvas nem nada (de uma forma quase partidária, pelo tom da sua vinda a terreiro neste momento), lança desse modo uma sombra sobre um projecto (os bancos alimentares contra a fome) que, apesar das discordâncias com as tintas ideológicas, considerávamos meritório. E continuamos a considerar: meritório e necessário. Infelizmente necessário.

Ponto 5. Uma última palavra sobre a solidariedade que vai para além do “Estado social”. Nem toda a caridade é caridadezinha, mas anda por aí muita caridadezinha disfarçada de caridade cristã. Gostaria de saber se todos os entusiastas de Jonet seriam igualmente entusiastas de associações operárias de socorros mútuos, que certamente não beneficiariam de tanta benevolência de certos meios, nem de tantas bênçãos. E, contudo, têm tradição e fizeram muita obra: mas com uma ideologia muito diferente. Aliás, é pena que a esquerda, em tantos países, tenha perdido essas tradições, tornando-se demasiado estatista: mas essa é outra conversa.

Entretanto, aos que fazem ideologia e política de facção do alto dos seus tronos de caridade, digo, usando ainda outra expressão do Evangelho, que são "túmulos caiados de branco". E que, como tal, não me merecem o respeito que presumem ser-lhes devido.

(Acrescento este link, por conter alguma informação relevante de enquadramento.)


Porfírio Silva

“MACHINA SPECULATRIX”



«ADENDA: ISABEL JONET, O ESTADO E A CARIDADE»





BIOGRAFIA



Maria Isabel Torres Baptista Parreira Jonet nasceu em Lisboa em 1960. É casada e tem cinco filhos. Licenciou-se em Economia na Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica Portuguesa em 1982. Trabalha em regime de voluntariado no Banco Alimentar Contra a Fome desde 1993, sendo presidente da Federação Portuguesa dos Bancos Alimentares Contra a Fome, presidente do Banco Alimentar Contra a Fome de Lisboa e membro do Conselho de Administração da Federação Europeia dos Bancos Alimentares. Nessa qualidade apoiou a criação de 14 Bancos Alimentares portugueses. O Banco Alimentar recebeu, em 2008, o Prémio Fundação Calouste Gulbenkian.

É membro do Conselho Estratégico do jornal Expresso, membro do Conselho de Orientação Estratégica da Faculdade de Ciências Económicas e Empresariais da Universidade Católica Portuguesa.

Entre Junho de 2007 e Dezembro de 2008, foi membro do Conselho Estratégico do Hospital Amadora-Sintra.

Trabalhou no Comité Económico e Social das Comunidades Europeias, em Bruxelas, entre 1987 e Julho de 1993.

Foi também adjunta da Direcção Administrativo-Financeira da Sociedade Portuguesa de Seguros entre Março de 1983 e Dezembro de 1986

e na Direcção Financeira da Assurances Général de France em Bruxelas (1987). (FONTE AQUI)



 (a não perder)
NA CARIDADEZINHA, É UM FARTAR VILANAGEM…





28 de setembro de 2012

OS BISPOS E A CRISE

A hierarquia católica oficial e a «crise»

A relação IGREJA-MUNDO... O Clero e o Governo!



No dia 17 de Setembro de 2012 o porta-voz do Conselho Permanente (CP) da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), padre Manuel Morujão, apresentou à comunicação social as conclusões da reunião do Conselho Permanente da CEP, que se reunira e emitira uma Nota intitulada «Missão da Igreja num país em crise» (CLICAR AQUI). Durante a conversa com a imprensa, o porta-voz da CEP sublinhou que a posição do CP adverte para que «não se quebre um acordo sócio-político, para bem da nação» e se evitem «caminhos de ingovernabilidade».

Precisamente, no presente momento político em que O POVO mais discute (e pede) que se quebre «o acordo sociopolítico» assinado entre as forças sociais e governamentais no início deste ano no Concelho de Concertação Social e se proponha uma outra fórmula governativa, esta afirmação oral do porta-voz dos bispos católicos portugueses é uma tomada de posição social e política. E é-o na medida em que ela coincide com a opinião pública dos «sectores pró-austeridade “custe-o-que-custar”» (cf. Diogo Feio, Luís Bento, Durão Barroso, União Europeia, Ângela Merkel, J.-C. Junker, etc.). Partindo do princípio que a Nota é sobre a «missão da Igreja», quanto a isso, que se constata  quando se lê a Nota do CP da CEP?

No primeiro ponto da Nota, percebe-se que a hierarquia da Igreja católica está preocupada com a crise, «é sensível ao sofrimento de todos» e diz que «a principal resposta da Igreja» (…) «tem sido dada pelas suas instituições de solidariedade social». Esperava-se que se seguisse, como consequência dessa preocupação, a denúncia do sistema político e ideológico responsável pela fabricação de tão grave Crise. Mas tal denúncia, que seria o mínimo esperado, não surge na Nota. Em vez disso surge uma declaração de princípio do Magistério da Igreja Católica que parece propor ou defender uma certa forma de hibridismo político asociológico: «a igreja sempre defendeu (…) a liberdade económica, desde que as suas concretizações se submetam aos objectivos do bem-comum. Os próprios lucros das pessoas, das empresas e dos grupos devem orientar-se para o bem-comum de toda a sociedade».

E quanto aos «mercados» financeiros especulativos, sanguessugas parasitas perfeitamente prescindíveis à vida económica, não são denunciados, nem condenados, mas somente inocuamente advertidos (para que tudo fique na mesma e não se diga que não se disse nada). Diz a Nota: [os mercados] «não podem separar-se do dinamismo económico, transformando-se em fontes autónomas de lucro que não reverte, necessariamente, para o bem-comum das sociedades».

Como sugestão para a superação da crise, o CP da CEP propõe «uma renovação cultural» e «a coragem para aceitar que momentos difíceis podem ser a semente de novas etapas de convivência e de sentido colectivo da vida». Para isso, contam com «a força de Deus e a protecção de Nossa Senhora» (já José Miguel Júdice dissera na rádio, que «rezar à Nossa Senhora também ajuda» a sair da crise; em linha, aliás, com o conceito de oração do Bispo de Beja: clique aqui).

Ora bem. Como todos estamos fartos de saber, «a caridade assistencial» constitui uma almofada que minora desgraças extremas, mantém os pobres na pobreza (torna-os dependentes da 'esmola'), alivia a má consciência dos austeritários e, claro, nunca será uma saída para a crise ("se queres ajudar um pobre, não lhe dês um peixe: dá-lhe condições para que ele, por si, possa pescar"). Aliás, como já foi denunciado publicamente (CLICAR AQUI), o assistencialismo, não só não toca nas causas que estão por trás da exploração e miséria sociais, como é lacrimosamente requerido e exigido pelo poder liberal como o único meio, que esse mesmo poder tem, de lavar a sua imagem (cf. afirmações de Pedro Mota Soares e de Miguel Relvas: «os pobres são a nossa primeira prioridade: por isso estamos a aplicar programas de austeridade que não atingem os mais desfavorecidos; o Governo tem consciência social…»).

Portanto, os hierarcas da Igreja católica têm, agora, um sério concorrente para a sua galinha dos ovos de ouro − o assistencialismo, vulgo ‘caridade cristã’: a caridosa preocupação neo-liberal do governo. A hierarquia católica está entalada, pois sabe bem que as «suas instituições» têm não poucos rabos-de-palha (CLICAR AQUI), realidade, aliás, velha como a Sé de Braga (cf. o veemente pedido do secretário do bispo do Porto ao governo, a fim de libertar dinheiro da diocese preso nas malhas do caso BPP). Como é que poderíamos nós esperar que, algum dia, o episcopado alguma vez anatematizasse os «mercados», se o próprio Banco do Vaticano (IOR) está enterrado nessa teia financeira secreta e mais que suspeita de branqueamento de capitais? (CLICAR AQUI)

Além do já dito, na Nota existem afirmações que merecem ser relevadas.

Como por exemplo: «Esta primazia da busca do bem-comum de toda a sociedade atinge todas as pessoas e todos os corpos sociais»; ela busca «a unidade de objectivos no respeito das diferenças: governo e oposição, partidos políticos, associações de trabalhadores e de empresários, etc.». Ou seja, o CP apela a um «alargado consenso nacional», para que, diante do desemprego, «pessoas e grupos decidam dar as mãos, apesar das suas diferenças». A seguir a tanto primor semântico, lê-se este pedaço de prosa celestial, mel-puro para os ouvidos de Passos Coelho e Vítor Gaspar: «Numa democracia adulta, as “crises políticas” deverão ser sempre exceção. Em momentos críticos podem comprometer soluções e atrasar dinamismos na sua busca».

E, depois, este exemplo de discurso angelical, estratosférico: «O bem da comunidade nacional exige de todos generosidade para não dar prioridade à busca de interesses particulares e a honestidade para renunciar a caminhos pouco dignos de procura desses interesses. Só com generosidade se pode alcançar um bem maior». O governante Carlos Moedas disse isso mesmo: (CLICAR AQUI) «o Estado somos todos nós».

O bispo do Algarve (CLICAR AQUI) apelou também à «união de esforços para superar a crise». Salazar não diria melhor: «tudo pela Nação, nada contra a Nação» (CLICAR AQUI).

Já dois meses antes (10 Julho) o padre Morujão dissera (CLICAR AQUI): «os bispos acompanham a situação “com cuidado”, pedindo atenção aos “mais desfavorecidos, aos que são mais frágeis na sociedade”. “A Igreja não pode estar senão do lado dos mais fracos”, acrescentou. Para este responsável, a troika deve permitir que os portugueses comecem a ver “uma luz ao fundo do túnel.


Comentário final

A Igreja Oficial católica portuguesa, definitivamente, evita produzir uma análise estrutural das realidades social, económica e política – fica-se por uma abordagem asocial, individual, como se as desgraças de alguns fossem fruto da sua infelicidade ou egoísmo pessoal (apesar dos meritórios esforços dos governantes…) e não fruto do 'sistema neo-liberal’ há décadas conscientemente posto em liberdade desregulada pelo poder político. A análise da realidade que a Igreja Oficial faz torna-se ridícula (CLICAR AQUI para confrontar).

Por isso, os representantes dos católicos portugueses não são capazes de explicar porquê tão absurda e galopante taxa de desemprego, pobreza e afundamento da economia após a assinatura do Memorando da troika. Mesmo assim, atrevem-se a sugerir saídas para essa mesma realidade usando uma linguagem ambíguauma renovação cultural»; «Só com generosidade se pode alcançar um bem maior») e expressões ridículas («decidam dar as mãos apesar das suas diferenças») como se a Sociologia não fosse para ser levada a sério (em Sociologia, que homogeneidade tem a “comunidade nacional” e em que consiste “o bem-comum”?) e as tensões não fossem uma realidade inelutável que tudo atravessa, inclusivamente a própria Comunidade Eclesial, lugar histórico e, portanto, nem ela imune às crises ou à disputa pelo poder (cf. Mt 16:23; Act 2:42-47; 4:32-37 vs Act. 5:1-11; Mt 20:20-27; Act 15:2.7.39-40, etc.). É chocante a ignorância episcopal portuguesa e a ridícula análise das realidades sociais e económicas sobre as quais se debruça agora (CLICAR AQUI) (CLICAR AQUI & AQUI & AQUI).

Perfeitamente em sintonia com o espírito do século XXI − espírito de «imobilidade ideológica» [Tony Judt] −, a Igreja Oficial católica procura manter-se num certo «centro» em que o «bom sentimento» e as boas intenções serviram já (há anos) para encobrir a traição em que se constituiu o blairismo, o guterrismo e o socratismo. Mas – tal como alertou Tony Judt em «o renascimento da questão social» (p. 433)−, «Em épocas normais é aí [no centro neutro] que estão os votos com que se ganha em qualquer sistema representativo binário. Mas se os tempos se tornam um tanto menos normais, como parece provável, o centro logo se esvazia em favor de opções mais extremas.» Não é preciso ser-se filósofo para perceber que [o centro] «É uma solução tentadora; mas um equívoco» [Tony Judt].

Mais grave ainda é sabermos que «a missão da Igreja» é (em crise ou fora dela) estar SEMPRE e APENAS do lado dos excluídos do sistema [cf. Lc 4:18]. É com eles e a partir deles que EXCLUSIVAMENTE Cristo está, e para eles, e apenas para eles, Cristo prepara o Banquete do Reinado de Deus [em Lucas 14:15-24, Deus recusa que o Reino seja «para todos» sem mais: é apenas para ‘os pobres, os estropiados, os cegos e os coxos.’].

Através dum abastardamento do espírito do evangelho de Jesus, a Hierarquia Oficial da igreja católica portuguesa (para além da necessária assistência aos pobres, que, em si, ninguém deve questionar) não só não denuncia o sistema neo-liberal iníquo que pretende arrasar completamente o que resta do Estado Providência (cf. a denúncia contida no v.24 da citação supra de Lucas), como tacticamente evita beliscar as suas relações com o poder cumprindo com a sua (‘providencial’…) função (que já vem dos tempos do salazarismo e do marcelismo) de instituição neutralizadora de tensões entre o poder e as vítimas do poder (cf. o v.21 de Lucas citado: “Então, o dono da casa [ou seja, Deus], irritado, disse ao servo:”).


A Igreja Oficial já não se irrita, porque esqueceu que «importa mais obedecer a Deus do que aos homens» (Act 5:29).

A Igreja Oficial diz que os pobres são a sua preocupação, mas, no terreno, não se demarca categoricamente do poder (que também o diz..., mas não o faz!), poder que mantém os pobres na pobreza (pobreza complementada com uma perseguição odienta aos apoios sociais por presumível 'fraude social' ou como 'combate à preguiça dos pobres', em contraposição a um benévolo respeito pelo sigilo bancário dos ricos, nos casos de 'fraude fiscal').

A Igreja Oficial, na sua Nota, esqueceu-se de falar do Deus que está definitivamente e apenas do lado dos sacrificados (CLICAR AQUI). Tenta, assim, salvar as ‘relações institucionais’ entre o Poder iníquo (com seu Programa Austeritário não referendado) e as IPSS’s (sua única e última inter-face com ‘os pobres’). A obsessão pela expressão «todos» e «a bem da nação» (de má memória salazarista...), ou o agitar do papão da 'instabilidade social', da  'ingovernabilidade', não só faz uso dum subterfúgio para evitar o uso de categorias sinalizadas pela ortodoxia vaticana (de presumível proveniência marxista e ateia, tais como «estratos sociais», «classes sociais», «luta de classes»), como constitui  a ponte mais que perfeita para a narrativa do poder político PSD-CDS/PP: «estamos todos no mesmo barco», «temos todos de pagar a crise», «a crise toca a todos» (afirmações mais que falaciosas...), E AINDA, «impõe-se, à oposição, sentido de Estado e manutenção dum consenso alargado», etc. Jesus de Nazaré, com o seu comportamento e/ou ensinamento, nunca procurou agradar a «todos» e nunca procurou o unanimismo: ao longo do seu caminho, cortou sempre a direito  e, por isso, desde o princípio correu  risco de vida. (cf. Lc 4:28-30) A Igreja Oficial portuguesa não tem a coragem do seu fundador; com a estratégica linguagem desta Nota, desvirtua/atraiçoa a mensagem de Jesus Cristo. É sintomático que, quanto à sua «missão», a Hierarquia católica nunca se refira ao espírito do evangelho de Jesus, fonte identitária de toda a vida cristã (Marcos 1:15: «Arrependei-vos: virai do avesso os vossos critérios! O Reino de Deus já está em marcha!»). A Nota diz: «A Igreja é um Povo, uma comunidade estruturada e organizada, que assume como dever a procura do bem-comum de toda a sociedade. Esse é também o fim da comunidade política.»


A Igreja Oficial esqueceu-se que a sua «missão» é anunciar o Reino de Deus (ou seja, 'um mundo outro') e, como consequência, tem de desautorizar este poder, na senda de um Deus que desautorizou definitivamente o poder despótico (Act 2:23-24.36).

Bem pelo contrário, a Igreja oficial católica é a única instituição que está com o Governo na sua sanha deprimente de «empobrecimento nacional» (CLICAR AQUI); em vez de os denunciar, participa nos programas que visam 'desvalorizar o trabalho' e promover uma sociedade frágil de empregados-pedintes agradecidos... (CLICAR AQUI, sobretudo os cristãos que passam a vida a encher a boca com a chamada «Economia Social»). As Instituições Sociais da Igreja Católica, cinicamente, aproveitam-se da situação política como abutres em torno das carcaças das vítimas... Para a Igreja oficial católica não há memória: há apenas um aforismo - «NO APROVEITAR É QUE ESTÁ O GANHO». (Pedro Passos Coelho a 11 Março 2011 - CLICAR AQUI) (A Concordata e o I.M.I. - CLICAR AQUI). A Igreja Oficial Católica, através das suas Instituições Sociais, deixou-se amarrar à estratégia anti-social e neo-liberal do poder político de direita vigente, para o qual a 'caridade' também é mercantilizável... Abdicando da sua primeiríssima missão de anunciar o Reino, decidiu colaborar com a capitalização do poder financeiro bancário (CLICAR AQUI), em contradição com a urgência para com os pobres. A Caridade Cristã foi, assim, trocada pela segurança do humilhante poder financeiro, última tábua de salvação duma imagem historicamente ferida pelo peso histórico da colaboração com o antigo regime ditatorial e colonial de Salazar e Marcelo Caetano.

Com esta Nota, e num momento crucial para o país, esta Hierarquia não representa, com inteira verdade, uma Igreja Cristã que queira estar à altura dos desafios históricos (CLICAR AQUI & AQUI).

«Luz do mundo»? Só se for debaixo do alqueire… (Mt 5:15)
Uma hierarquia assim é de se ter dó.


pb\

LINK: CRISE, FÉ, CAPITALISMO E MARXISMO

22 de setembro de 2012

REVOLUÇÃO SOCIAL E IGREJA [PIKAZA]

«Vivemos um tempo de contrastes, como sempre, aliás. Estende-se o sistema, mas acentuam-se os egoísmos e as desigualdades. Promete-se liberdade, mas a maioria não tem acesso a ela. Melhoram-se as instituições eclesiais, mas muitos abandonam a fé e a práxis da confissão cristã.»

É neste contexto de sistema assanhado, férreo e de crise que X. Pikaza quer escrever sobre a liberdade cristã. Algumas destas ideias iniciais (do seu tratado de quase quinhentas páginas) podem ser uma Introdução ao tema «LEITURA ESTRUTURAL DA REALIDADE SOCIAL» e também fornecer ferramentas úteis para nos situarmos, como cidadãos e/ou cristãos, diante da situação que vivemos. Como reagir face a eventuais convulsões sociais: rejeitar e sugerir a conciliação ordeira, segundo uma neutralidade paradisíaca? Como se relaciona a paz dada por Cristo com a necessidade da convulsão social? A Igreja institucional, como se relaciona ela com a instabilidade (política)  e a revolta interna (carismática)? Como gerir as tensões no seio da comunidade crente? Que testemunho, socialmente credível, deve dar a Igreja católica diante duma sociedade que até é capaz de pôr em causa as suas próprias instituições tidas, por ela, como democráticas? Que peso tem, na leitura que a Igreja faz, a DIMENSÃO SOCIAL e ESTRUTURAL das realidades? Como lida, a Igreja católica, com a dissensão fracturante de grupos: apagando-a do mapa da memória, estigmatizando-os por «não amarem suficientemente a igreja», por não serem espelho da humildade e da obediência do Cristo? É a Igreja católica, também, capaz de se auto-analisar como parte integrante do 'sistema', como estrutura social onde o poder também se disputa e se gere? Pode a Igreja pretender furtar-se à 'tensão da Fé' no crucificado e 'viver à parte' numa sociedade em tudo 'alternativa' à sociedade? Que relação entre Fé (teo-logia) e prática política (ideo-logia)? Pode a Igreja Oficial continuar a falar como se a Sociologia não existisse e as tensões fracturantes não fossem uma inevitabilidade social e comunitária [Marcos 8:33; Act 15:7.39; cf. Act 2:44 com Act 5:1-11]?



CARISMA E SOCIEDADE:
- divisão das instituições



René Girard supõe que as instituições sociais nascem da inveja mimética e da luta de classes de todos contra todos, a qual atinge o seu cume e a sua resolução com a imposição legal (sacrificial) dos vencedores; nos começos da humanidade não havia carisma criador, apenas engano e fúria destruidora que, paradoxalmente, desembocou numa ordem de opressão social. Ao invés, eu disse que a relação inter-humana não é só enfrentamento, mas mediação dialogal.

No princípio, (no lugar da mimésis) eu coloquei a autoridade engendradora dos pais. Neste contexto, podemos lembrar o modelo de Max Weber, que situa a origem do desabrochar do humano no carisma criador, o qual, depois, arrefece e se torna rotina burocrática. Convergindo com esta tese, Cornelius Castoriadis rompe com esta perspectiva e vincula o aspecto instituinte e instituído da sociedade, interpretando o primeiro como fervor ou magma criativo semelhante às divindades das religiões. As instituições correm o risco de se tornar rotina (Weber) ou expressão de algo morto (Castoriadis). No entanto, são também sinal de um carisma, que surge ao nível pessoal e/ou social (cf. 1Cor 12-14)[1]:

Os indivíduos carismáticos criam (imaginam, instituem) linhas de humanização valiosas: não se impõem a partir da lei, nem triunfam a partir de raciocínios dedutivos ou votações, mas simplesmente a partir da própria força criadora. Antes de mais, eles são força criadora. São a autoridade primeira: não defendem o que existe para melhor o organizar, mas introduzem modelos novos de comunicação. Nem todos actuam no mesmo plano (religioso, político ou artístico), nem todos são construtivos: podem, inclusivamente, ser prejudiciais. Uns promovem a transformação política e social através da guerra (Alexandre Magno e César) ou da revolução (Lenine, Mao Ze Dong). Outros, a transformação religiosa iniciando movimentos «espirituais», relacionados com a política (Maomé; Moisés?), com a superação do desejo (Buda) ou com a renovação messiânica do mundo (Cristo). Actuam, assim, como pais-mães da vida social, portadores de um poder religioso.

Os movimentos carismáticos, vinculados também a indivíduos, expressam-se e expandem-se em grupos (nação, classe social, igreja ou seita). Parece que todas as sociedades tendem para a estabilização suscitando estruturas que respondam às suas necessidades e à expressão dos seus ideais. Contudo, a páginas tantas, tornam-se insuficientes: surgem desajustamentos, nasce ou aumenta a vontade de mudança como se existissem forças que fazem com que a sociedade se mexa. Aquilo que até ali parecia sólido torna-se «magma», energia em ebulição, estado nascente dirigido por forças que rebentam com a antiga segurança e dão origem a um novo nascimento. A própria sociedade volta a gerar-se através de processos grupais, que, ao nível do humano, reproduzem mutações semelhantes àquilo que acontece à evolução das espécies. Neste ponto, pode falar-se de carisma partilhado, criatividade comunitária, imaginação revolucionária ou transformação social do ser humano[2].

O humano não muda ou avança apenas por evolução biológica, mas através da transformação social. Diante da razão ordenadora, que estabiliza e organiza o já existente, surge a razão imaginativa (social, religiosa?), que pró-move o ainda não existente, numa linha de experiência de tipo carismático que voltaremos a encontrar em Jesus. A criatividade supra-racional dos fundadores (ou dos seus movimentos) expressa-se através de instituições (igrejas, comunidades), ainda que elas acabem por se tornar administradoras do já criado. Desta forma carisma e instituição unem-se. Carisma, em si mesmo, não existe (sem instituição), nem existe movimento criador que não se venha a expressar sob a forma de estruturas ou «códigos» de vida (como, mas noutro plano, a própria biologia pressupõe). O processo vital da evolução criadora (H. Bergeson) «acelera-se» em certos momentos, suscitando mutações capazes de se estabilizar e de se expandir sob a forma de códigos genéticos. O processo social exprime-se através de transformações culturais (de tipo religioso ou convivial), que se codificam em instituições capazes de uma certa estabilidade.

Nos seus começos, os movimentos carismáticos tendem a ser maleáveis: quebram a estrutura anterior para suscitar processos que, por sua vez, começam a arrefecer até se cristalizarem em novas estruturas. Quando chegam ao fim, naquele ponto em que esfriam de todo, convertem-se numa rotina de funcionários ou administradores, e o caminho de criação morre, a não ser que surja um novo movimento. É assim que passamos dum estado instituinte a um estado instituído, de criadores a funcionários, que estabilizam e administram o criado[3]. É normal que haja tensões já que os burocratas convertem a inspiração carismática em lei que, depois, impõem pela força. Dessa forma destroem o movimento inicial ou diluem-no em normas de pressão social mais ou menos rebuscadas. É óbvio que os modelos de cariz carismático e as instituições que suscitam estão obrigadas a mudar, mas a tendência para a burocratização é constante, a não ser que o próprio grupo social se mantenha em constante criatividade. Podemos, então, de seguida, resumir o já exposto:

1.          Instituição violenta. Risco para o sistema. Weber afirmava que o sistema global do nosso tempo impõe o seu cofre de ferro sobre os seus seres humanos. Girard acrescenta que todas as instituições sociais nascem da violência e existem para a sacralizar, sustentando e legalizando o domínio de uns sobre os outros[4]. Ao contrário, procurarei mostrar que o sistema pode ser neutral, resolvendo de modo técnico muitos dos problemas economicó-administrativos, mas abrindo espaços de liberdade e de comunhão pessoal para os seres humanos.


2.          Instituições de gratuitidade: amor materno e comunhão pessoal. No princípio do processo humano colocamos o amor do pai-mãe e no fim colocamos a comunicação universal gratuita. Penso que este modelo pode realizar-se não apenas em grupos pequenos, que promovam a liberdade e a felicidade dos seus membros (o matrimónio, as famílias), mas também em instituições globais (=a católica) como a igreja cristã.


As instituições parcelares (religiões, exércitos, estados) perderam muita da importância e hoje tendemos a ser dominados por um sistema global de tipo economico-administrativo. Ora bem, a igreja cristã pode e deve elevar-se frente a esse sistema como instituição de gratuitidade universal. O sistema hoje, no plano das relações economico-administrativas, é necessário. A igreja oferece a sua experiência de liberdade num plano de comunhão pessoal de tipo carismático.

Xabier Pikaza
Sistema, Libertad, Iglesia
Editorial Trotta, 2001, pp. 23-25





[1] O contributo de M. Weber (Economia) permanece válido: a sua análise da dominação tradicional, racional e carismática mantém-se luminosa. Na mesma linha (mais social que pessoal) situa-se C. Castoriadis (A instituição) e F. Alberoni (Movimento). Ao nível do carisma e princípio instituinte é que situei a liberdade e/ou a autoridade, que não acho que seja inveja reactiva, mas que eu encaro como capacidade criadora. Seria interessante comparar, a partir deste perspectiva, as posturas de M. Weber, C. Castoriadis e R. Girard, que vão estar presentes em tudo o que escreverei de seguida. O meu conhecimento de Castoriadis deve-se, especialmente, a uma longa relação de amizade e colaboração intelectual com M. Rodríguez Losada, que prepara uma investigação definitiva sobre o assunto, numa linha de análise institucional, a partir dum ponto de vista psicanalítico e social. Cf. M. Rodríguez Losada, O imaginário radical em Castoriadis, PUC, Rio de Janeiro, 1996; Íd, «La emergencia de lo imaginario en la actual crisis de los paradigmas»: Estudios 196 (1997), 11-132.

[2] Seria interessante reler, a partir de Castoriadis, as teses de P. Berger e Th. Luckmann sobre a construção religiosa da sociedade.

[3] Os funcionários administram e estabilizam o criado pelos carismáticos, como se fossem gestores de uma sociedade perante a qual sentem que devem responder. Cf. F. Alberoni, Génese, Editora Bertrand, Lisboa, ISBN 972-25-0593-9. Sobre os fundadores das religiões, cf. J. Martín Velasco, «Jesús de Nazaret, fundador del cristianismo, y los fundadores de otras religiones», em O. González de Cardedal (ed.), Salvador del Mundo, Sec. Trinitario, Salamanca, 1997, 215-250.

[4] As religiões impõem a sua «lei» expulsando e sacralizando as vítimas (=bodes expiatórios). O marxismo pensou que os estados burgueses oprimiam os proletários e respondeu a isso organizando a sua própria luta de classes.