teologia para leigos

15 de setembro de 2012

DEMOCRACIA PARTICIPATIVA: O QUE É?

Participar,
mas como?



A democracia participativa não é fácil de definir porque este horizonte – à imagem da utopia descrita pelo escritor uruguaio Eduardo Galeano[1]afasta-se à medida que dele nos aproximamos. Em termos gerais, o que está em causa é envolver os habitantes nas decisões públicas, através de práticas e instrumentos diversos que os tornem actores mais amadurecidos e, portanto, mais capazes de cooperarem entre si. Ao fazê-lo, não há que temer os conflitos mas, pelo contrário, proporcionar-lhes espaços em que o confronto os torne fecundos em vez de estéreis.

O politólogo espanhol Pedro Ibarra descreve a democracia participativa como o cruzamento de duas modalidades complementares: primeiro, a «participação por irrupção», ligada aos protestos, ocupações e outras formas de reivindicar que todos tenham o direito de influir nas decisões públicas; depois a «participação por convite», em lugares de discussão e noutros espaços formais concedidos pelas instituições aos cidadãos para que eles se exprimam sobre a gestão do território e sobre os valores que devem inspirar as leis e as políticas[2]. Para avaliar a intensidade da interacção entre habitantes e instituições, a socióloga norte-americana Sherry Arnstein criou, em 1969, uma «escala da participação», ligada à capacidade de produzir empowerment – dito de outro modo, de proporcionar novos conhecimentos e, ao mesmo tempo, dar aos cidadãos o real poder de decidir[3].

Os processos de participação têm como objectivo influir na transformação da realidade e dos imaginários sociais, a partir de acções de pressão, resistência e dissidência. O professor de Ciência Política espanhol Joan Subirats descreve estas últimas como práticas «limite» capazes de criar «novos imaginários sociais» e novas visões do futuro[4]. Contudo, tal como mostram as redes de decrescimento, de economia solidária e de comércio justo, tais experimentações implicam renúncias pessoais que não são de pouca importância, razão pela qual apenas conseguem ser características de uma minoria. À semelhança do que se passa com os «Indignados», estas formas de participação auto-organizada produzem muitas vezes resultados incertos, que visam menos modificar imediatamente as políticas e os projectos do que estimular transformações culturais de longo prazo, embrião de uma nova sociedade.


Objectivos locais

As formas de «participação por convite» também não dão resultados garantidos. No entanto, nascidas de um pacto social, dispõem naturalmente de objectivos e de campos de manobra bem definidos, com base nos quais os cidadãos decidem aderir ao processo. O resultado a que chegam dependerá de uma combinação de factores: a clareza dos objectivos, a vontade política, o apoio de que goza a iniciativa, a qualidade da discussão, a coesão e a maturidade dos tecidos sociais, a arquitectura do «percurso participativo» (incluindo as estruturas de mediação e as técnicas de facilitação) e as reacções suscitadas em cada fase.

É certo que o percurso participativo pode ser prejudicado por ambições excessivas, mas a sua marginalidade em relação às instituições e o perigo de insignificância em termos de resultados concretos também podem desmotivar muitos habitantes. Com efeito, a sua desconfiança em relação às instituições já os leva a desinteressarem-se das formas de participação activa, que lhes parecem desprovidas de influência[5].

A maioria das experiências interessantes de democracia participativa fixa objectivos locais. É o caso do orçamento participativo no Kerala (Índia) e no Rio Grande do Sul (sul do Brasil), ou ainda de experiências em curso no Lácio e na Toscânia (Itália) ou em Poitou-Charantes (França) – todas se prendem com temáticas sectoriais particulares. Na Europa, contudo, esta ideia tarda a enraizar-se, como se o Estado, não crendo na capacidade que os seus habitantes têm de tomar decisões solidárias que sejam vantajosas para as camadas mais fragilizadas, conservasse o «monopólio» da justiça e da distribuição do bem-estar.

Nem por isso deixam de ser múltiplos os factores que estão na origem deste «imperativo deliberativo»: em primeiro lugar, a complexificação e fragmentação da sociedade tornam mais difíceis a intensificação e o recenseamento das necessidades; a seguir, a maior consciência dos direitos aumenta os conflitos; além disso, a crise do neoliberalismo acentua a urgência de uma redistribuição mais justa dos recursos; e, por fim, o desenvolvimento das técnicas que permitem melhorar a qualidade de vida torna mais difícil a escolha entre as mesmas[6].




Segundo Pippa Norris, professor de Política Comparada na Universidade de Harvard, o défice democrático (o fosso entre a realidade da democracia e as aspirações cidadãs) resulta da crise ética da classe política, cujos desbaratos, privilégios e abusos suscitam desencantamento e hostilidade[7]. A modernização social acentua também esta reconquista, na medida em que transformou os cidadãos em críticos mais exigentes. Tudo isso influi na percepção da legitimidade das instituições e converge para uma «construção social da realidade» das nossas democracias.


A experiência islandesa

Numa tal situação, a perspectiva de uma integração dos instrumentos de democracia directa no sistema representativo torna-se indispensável. Uma sentença do Tribunal Constitucional italiano de Julho de 2012 exprimiu bem este espírito do tempo, ao defender o resultado dos referendos ab-rogatórios de 2011 (contra a privatização forçada de certos serviços públicos) quando o governo queria contornar a vontade dos eleitores apresentando-os como «conselhos aos legisladores».

O quadro dos instrumentos, tradicionais, da democracia directa (referendos, plebiscitos, iniciativas legislativas populares, eleições destinadas a revogar mandatos), há outros, menos formais, que estão a ganhar vida: centrados na qualidade do debate esgrimido entre instituições e indivíduos, apoiam-se em jurados cidadãos ou em processos de investigação deliberativos graças aos quais pequenos grupos sociologicamente representativos aprofundam certos temas.

Recorrendo ao método da «porta aberta», outras experiências acolhem quem quiser nelas participar. É o caso, nos Estados Unidos, dos Fóruns Cívicos Agenda 21 ou dos balanços participativos organizados em mais de mil e quinhentas cidades (entre as quais Nova Iorque e Chicago), bem como das reuniões em que os habitantes discutem o sistema de saúde ou a reconstrução após a passagem do furacão Katrina.

Na Islândia, depois da crise de 2008, o movimento popular impôs um amplo espectro de «percursos participativos» de grande escala. O de Reiquiavique foi acompanhado pela reescrita colectiva da Constituição em duas fases: aos debates entre os cidadãos sucedeu uma comissão de vinte e cinco cidadãos eleitos a nível nacional. Apesar de ter acabado por ser bloqueada pelo Parlamento, a experiência reconhece a necessidade de um «percurso constituinte comum» para refundar a confiança nas instituições.

Para aceitar a imperfeição e os limites dos processos participativos, convém evitar julgá-los à luz de ideias abstractas e irrealistas, ou de exemplos mais radicais mas desligados do seu contexto[8] e colocar esta questão: uma experiência deste tipo, mesmo que incompleta, eleva o nível da democracia que existia antes de ela ocorrer? Com efeito, é neste confronto com o «antes» que cada uma destas experiências revela o seu valor acrescentado e confirma que os esforços assim investidos valem a pena.


Giovanni Allegretti

Investigador no Centro de Estudos Sociais (CES) da Universidade de Coimbra (Portugal).

Le Monde diplomatique – edição portuguesa, SUPLEMENTO “Uma democracia a reconstruir”, de Setembro de 2012.





[1] Editorial, «Le temps des utopies», Manière de Voir, nº 112, Agosto-Setembro de 2010.
[2] Ler Igor Ahedo e Pedro Ibarra, Democracia participativa y desarrollo humano, Dykinson, Madrid, 2007.
[3] Sherry R. Arnstein, «A Ladder of Citizen Participation», Journal of the American Planning Association, University of California, Los Angeles, Julho de 1969.
[4] Joan Subirats, «If Participatory Democracy is the Answer, Wath is the Question?», Eurotopia, nº 5, Bandau (Alemanha), Setembro de 2008, www.tni.org/eurotopia.
[5] Leonardo Avritzer e Boaventura de Sousa Santos, «Para ampliar el Canon democrático», www.eurozine.com.
[6] Loïc Blondiaux e Yves Sintomer, «L’impératif déliberatif», Politix, vol. 15, Paris, 2002.
[7] Pippa Norris, Democratic Deficit: Critical Citizens Revisited, Cambridge University Press, 2011.
[8] Graham Smith, Democratic Innovations, Cambridge University Press, 2009.

14 de setembro de 2012

NO «COVIL DO LOBO»






Eles não querem saber e estão-se a borrifar para tudo o mais. Vivem em realidades virtuais de modelos teóricos elaborados em gabinetes, competência tecnocrata, curricula académicos, números, projeções e tabelas de desktop: é este o ambiente técnico.

Vivem alheados e longe da rua, dos centros de emprego, das escolas, do interior desertificado, dos dramas, das angústias e do desespero dos súbditos, sugerindo qu'ils mangent de la brioche a cada pergunta incómoda, interpelação inconveniente ou protesto inesperado: é esta a sensibilidade social.

Vivem numa espécie de síndrome do capataz, aquele que está empenhado em exceder as ordens do patrão, bajulá-lo e mostrar-lhe que é capaz de espremer os negros a golpes de chicote: é esta a postura internacional.

Vivem empenhados em desmantelar o que a democracia construiu em décadas, serviço público, cuidados de saúde gratuitos, ensino universal, igualdade de oportunidades, transporte público acessível, e e entregar tudo isto a interesses e grupos: é este o projeto político.

Eles não sabem nem sonham que os efeitos mais profundos da terra queimada não se medem em taxas e percentagens, recessão hoje, crescimento amanhã, receitas mágicas que transformam depressão em progresso num ápice, panaceias milagrosas que curam clivagens sociais profundas, toques de Midas que criam emprego e bem-estar súbitos,  como se dez milhões de pessoas fossem bonecos num cenário, sem alma, sem vontade e sem expectativas próprias individuais e coletivas: mede-se no sentimento de pertença a um edifício comum, na confiança na democracia, no sentido de justiça e bom senso, na esperança de que é possível um futuro coletivo melhor.

O que se passa neste momento corrói tudo isto, porque o engano conduz à desconfiança, a mentira leva à descrença e ao desânimo, a insensibilidade não faz mais do que promover o salve-se quem puder.

Talvez Portugal retome o regresso aos mercados num ano ou dois, talvez o ambiente internacional melhore, talvez o cenário não seja tão negro quanto se nos afigura hoje, talvez tudo isto não passe de um momento mau, quem sabe. Mas o quadro da confiança nacional, a dignidade de todo um povo, a autoestima individual e coletiva, o Yes, We Can! construído pacientemente ao longo de décadas e que não aparece nos números do PIB e nos índices das bolsas, está arruinado, e as cicatrizes profundas na alma da nação, os sintomas do stress pós-traumático, essas, demorarão gerações a desvanecer-se.

Não, eles não sabem, não querem saber frankly, dear, they don't give a damn.

Paulo Pinto
13 Set 2012
JUGULAR blog







No «Covil do Lobo»

«(Hitler) parecia querer dizer que a Europa passaria a existir como uma fortaleza fortemente armada e auto-suficiente, deixando as restantes potências beligerantes a lutarem entre si noutros teatros de guerra.

«Delineou a sua visão do futuro.
«Era essencial, depois de a guerra ter acabado, que fosse levado a cabo um gigantesco programa social que abrangesse operários e camponeses. O povo germânico era merecedor dessa medida. E proporcionariasempre o raciocínio político por detrás do objectivo de melhoria materiala “base mais segura para o nosso sistema de Estado”.

«O vastíssimo programa de habitação que Hitler tinha em mente tornar-se-ia possível, afirmou ele abertamente, por meio da mão-de-obra barata – através de salários reduzidos. O programa seria levado a cabo pelo trabalho forçado dos povos derrotados. Salientou que os prisioneiros de guerra, naquele momento, tinham pleno emprego na economia de guerra.

«Isto eram como as coisas deveriam ser, afirmou, como haviam sido na Antiguidade, dando origem pela primeira vez ao trabalho escravo. As dívidas de guerra alemãs seriam, sem dúvida, entre 200 a 300 mil milhões de marcos. Estas teriam de ser principalmente cobertas através do trabalho “de pessoas que perderam a guerra”. O trabalho barato permitiria que fossem construídas casas que seriam vendidas com um lucro substancial, que, por sua vez, serviria para pagar as dívidas de guerra dentro de dez a quinze anos.»

HITLER – Uma biografia
Ian Kershaw
Ed. D. Quixote, p. 572


NOTA: “COVIL DO LOBO” era o nome dado por Hitler ao bunker em que ele se instalara, a Leste, e de onde dirigia a invasão da Rússia… Os seus colaboradores mais íntimos relataram refeições, nesse bunker, que terminavam em estados psicológicos e discursos delirantes, megalómanos… meio loucos, por parte de Hitler! Vítor Gaspar, Carlos Moedas, Passos Coelho et al n'O COVIL DO LOBO, também.






MINISTÉRIO DA CONTRA PROPAGANDA
Por Miguel Januário



A INCURÁVEL DEMÊNCIA HITLERIANA ...

TUDO ISTO É PARA NOSSO BEM




Os parceiros europeus já deixaram de ouvir o que se passa em Portugal - mesmo quando o País está perdido está sempre "no bom caminho". Entretanto, o maior partido de oposição parece ainda hesitar em viabilizar esta nova experiência social do ministro das Finanças que será o Orçamento para 2013. São Bento aprendeu bem a lição europeia de medir a credibilidade pelo sofrimento infligido à população.

Noutras paragens ainda há resistência. Aqui não, a austeridade não é passageira e o Governo não é o condutor - somos todos culpados e aceitamos pagar pelos nossos pecados. Mas se o golpe na TSU for avante, ninguém mais duvidará da nossa total determinação.

De fora ninguém nos irá socorrer. Bruxelas entrou decididamente no modo de filme ‘gore' - quanto mais sangue, melhor. Já não é só cumprir o défice. A solução é sempre empobrecer porque qualquer tentativa séria de distribuir o fardo por empresas, mais-valias, rendimentos mais altos e proprietários é sempre visto como um convite para os investidores abandonarem o país.

A tentativa de Vítor Gaspar em repartir o esforço entre classes só podia ser simbólica e, essa sim, seguramente temporária. A reforma estrutural aqui é que, no segundo país com o maior índice de desigualdade da União, o governo decidiu colocar os trabalhadores a devolver um salário à sua empresa. A desonestidade intelectual na justificação das medidas ainda custa mais.

Quando um alto responsável do Eurogrupo em Bruxelas defende que a quebra da receita fiscal é uma "boa notícia", porque demonstra que a economia se está a reconverter mais rapidamente, está tudo dito. O aumento do desemprego e a perda de rendimentos também são boas notícias. É tudo para o nosso bem. O povo não percebe porque não é qualificado.

Se as taxas de juro no mercado secundário descem umas décimas é bom, se sobem é porque os mercados ainda não digeriram as medidas. Ninguém pára o comboio da transformação social. A TSU desce para as empresas para desanuviar a carga fiscal, mas quando aumenta para as pessoas não é um imposto!

Nem os empresários vão na conversa porque sabem que o problema das empresas é o acesso ao crédito, a atrofia do consumo, e a dificuldade em exportar porque o País escolheu o caminho dos baixos salários e da falta de valor acrescentado.

As PME vão ter mais dificuldade em vender a quem não pode comprar e as grandes empresas vão aumentar a sua renda - sem reflectir esta benesse nos preços, tal como não o fizeram quando o IVA baixou.

Esta é outra falácia da economia portuguesa: diz-se aberta quando se trata de atrair capital estrangeiro, mas não é concorrencial, é altamente protectora a interesses instalados das grandes empresas incumbentes.

Além disso, por muito bem acompanhada que seja, esta medida é profundamente desigual: não é universal, nem progressiva. E, como se viu, nem sequer exclui outras medidas de austeridade para penalizar os alvos do costume. Que fizemos nós para merecer isto?


 BCE lançou-se para fora de pé

A forma como o BCE decidiu - finalmente - intervir de forma ilimitada nos juros da dívida soberana é incoerente e empurra-o para fora do seu mandato. O BCE devia intervir no mercado secundário quando a distorção nos instrumentos da política monetária o justificasse. Ao invés, decide agora apenas intervir se o país tiver pedido ajuda ao Eurogrupo. Esse pedido depende de considerações políticas, como orgulho nacional de quem pede e populismos nacionais de quem dá. Definir condicionalidade não faz parte do seu mandato que é a estabilidade financeira. Se o Banco é independente para mexer nas taxas de juro para toda a zona euro, também o deve ser para comprar dívida soberana.


13:IX:2012




Pelo economista Eugénio Rosa (CLICAR PARA AMPLIAR)





VÍDEO:
Intervenção de João Galamba na AR










12 de setembro de 2012

ECONOMIA & POLÍTICA CÍNICAS

O governo que doou o seu povo à ciência



Ouve-se perguntar há décadas que sentido faz ser a Constituição portuguesa tão longa, complexa e miudinha? Os últimos tempos ajudaram-me a perceber porquê. Passo a explicar. Na última sexta-feira ficámos a saber que a contribuição dos trabalhadores para a Segurança Social aumentará no próximo ano 7 pontos percentuais ao mesmo tempo que a das empresas baixará 5,75. Note-se que é pequeno o impacto desta decisão sobre o défice orçamental: estamos a falar de uns 500 milhões de euros quando as metas acordadas exigem no mínimo dos mínimos uma redução de 3 mil milhões.

Significa isso que, depois de ter virado contra si o grosso da opinião pública que ainda confiava nele, o governo ainda não enfrentou sequer o essencial do problema. O que virá a seguir? Decerto, nova revisão dos escalões do IRS, despedimentos na parte mais vulnerável da função pública, reduções drásticas da quantidade e qualidade dos serviços de saúde, educação e transportes, agravamento de taxas diversas (incluindo as do SNS) e o mais que adiante se verá.

Se as medidas anunciadas não reduzem o défice de 2012 e só marginalmente o fazem em 2013, como se explica então o desvario? Dir-se-ia que o défice e o endividamento são hoje o que menos importa. A única coisa que agora conta é a aplicação a todo o custo da receita mágica das reformas estruturais. Mesmo aqui, porém, o foco foi consideravelmente restringido, visto que das reformas da justiça ou do poder autárquico, por exemplo, já ninguém parece querer saber.

As reformas de que o país consensualmente necessita são, pois, no discurso e na prática, substituídas por contra-reformas inspiradas pelo revanchismo social, impondo-se uma modalidade de capitalismo extractivo que, por lei, transfere rendimentos dos trabalhadores para os empresários. A acção governativa orienta-se crescentemente apenas e só pelo intuito de precarizar as relações laborais e contrair os custos salariais, na crença (ou sob o pretexto) de que daí resultará uma economia mais sólida e competitiva.

Este extremismo ideológicoque, obviamente, ninguém sufragou – é o aliado natural da pulsão neurótico-depressiva de que a troika se alimenta. Afigura-se portanto plausível que o governo tenha conseguido a indulgência em relação ao fracasso do défice para 2012 a troco da garantia de redução da TSU para as empresas tão acarinhada por uma das mais retrógradas escolas do pensamento económico.

Sabe-se como a teoria da desvalorização interna é cara ao FMI e aos doutrinários do Banco de Portugal. Sabe-se também que, até hoje, ela só foi experimentada na Letónia, e que os seus resultados foram, numa avaliação caridosa, inconclusivos. Faz-lhes falta, pois, testá-la num país de razoável dimensão e complexidade económica como o nosso.

Com a colaboração do governo português, o FMI, que gosta de fazer experiências com animais vivos, encontrou neste povo o ratinho de laboratório ideal.

Qual a probabilidade de que daqui resultem consequência positivas para o crescimento e o emprego? A crer nos estudos a seu tempo encomendados pelo governo português, quase nenhuma. Além disso, os inquéritos regularmente lançados pelo INE mostram que as razões invocadas pelos empresários para não contratarem mais trabalhadores são a ausência de mercado e a indisponibilidade de crédito, não o nível salarial.

A vingar a orientação anunciada, dentro de um ano o país estará mais pobre e a sua economia terá sido desarticulada. Pior ainda, a amargura e a desconfiança ter-se-ão apoderado dos corações, porque não é impunemente que se passa um rolo compressor sobre as legítimas expectativas das pessoas, suspendendo garantias, coarctando direitos e abolindo vínculos. Uma sociedade civilizada não é um acampamento que a todo o momento pode ser desmontado sem aviso prévio. A legitimidade dos sistemas políticos, económicos e sociais é sustentada pela crença na boa-fé de quem detém o poder aos mais variados níveis.

Não sobrevive por muito tempo a convivência pacífica numa sociedade cujas classes dirigentes alienam a confiança que nelas é depositada comportando-se de forma discricionária, atrabiliária e irresponsável.

Voltemos então à Constituição. Leis e contratos não precisam de ser longos quando se presume a boa-fé das partes. Havendo identificação com a letra da norma dispensa-se excessiva cautela com a sua letra. Doentia atenção ao pormenor e obsessiva preocupação em cobrir todas as possíveis ocorrências supervenientes são, pois, sintomas de desconfiança mútua.

Sou, por tudo isso, forçado a reconhecer a sabedoria dos constituintes de 1976 ao elaborarem um texto que, embora rebarbativo, dificulta a sua desvirtuação pelos derrotados de Abril que não se conformam. Tendo em conta a fragilidade das instituições, a podridão do sistema partidário e a escassez de figuras públicas respeitadas, é bem possível que só o Tribunal Constitucional consiga agora evitar a catástrofe.

João Pinto e Castro
Director-geral da Ology e Docente Universitário





VÍDEO:
Intervenção de João Galamba na AR
João Galamba, PS





Troika, na Grécia, exige:

semana de trabalho de seis dias,
horários semanais de 78 h
e reforma só aos 67 anos (12 Set. 2012)




Prof. José M. Castro Caldas [Univ. de Coimbra]

«Nestes dias estamos todos confrontados com uma escolha: deixar esta loucura prosseguir, ou exigir um ponto final. Não pensem que é impossível. Quando um povo exige com determinação a saída de um governo, o governo parte mesmo. Este tem de ir. E isto tem de parar.»




Vítor Gaspar et al é insane

«POR UM PRATO DE LENTILHAS ENVENENADO»



«O que explica então que, decorrido um ano, Gaspar aceite (e até defenda) a descida generalizada da TSU para as empresas? Face às evidências, que o João Rodrigues aqui oportunamente assinalou, só encontro uma resposta: por manifesto servilismo, oportunismo político e por profunda e dolosa irresponsabilidade. Gaspar sabe que fracassou em toda a linha: não só se afastou de forma colossal do objectivo do défice para este ano como estoirou violentamente com a economia do país. Contudo, fanático e obsessivo, jamais o poderia admitir, optando pela fuga em frente.

A descida da TSU constitui portanto, evidentemente, a moeda de troca para tentar camuflar o estrondoso e mais que previsível falhanço. Gaspar precisava do aligeiramento da meta do défice para 2012 (os míseros 0,5% que a troika lhe concedeu), para se poder manter à tona de água. Ou seja, para poder preparar a fuga em frente, através de
mais um golpe insane de austeridade, na eterna e infundada esperança de que um dia a mesma funcione. O preço a pagar foi, está bem de ver, a sujeição do país à perigosíssima hipótese científica que a troika quer testar, nas piores condições possíveis, no «bom aluno»: perceber se a redução da TSU favorece, ou não, a competitividade e a criação de emprego.»



VÍDEO:
Neste vídeo, a páginas tantas, Cavaco Silva aconselha uma pobre mulher a recorrer à ajuda de Instituições Sociais... mas não às do Estado!





11 de setembro de 2012

A SÓS COM DEUS? Um tormento...

Creio na Esperança



Eu vivia numa comunidade com companheiros de estudo [jesuítas], todos bons companheiros e irmãos como comunidade religiosa pelo menos era assim que os sentia e confesso que também não pretendia mais do que isso: nunca fui desconfiado, suspicaz. Mas, não encontrava, nem sequer no grupo dos amigos mais íntimos, uma comunicação que me pudesse encher as medidas, que pudesse preencher aquela sensação de vazio que me doía por dentro como uma ferida. Nem a fé, nem Cristo, nem Deus-Pai preenchiam o íntimo vazio da alma. Cristo estava, pela fé, firmemente na minha alma, mas estava como «ausência».

E esta solidão interior, este não poder sair de mim através duma comunicação interpessoal que me preenchesse, era como que uma sufocação dolorosa.

Comecei a escrever alguns poemas, de modesta qualidade, que expressavam a minha situação. Lembro-me de ter escrito um «Salmo interior», que descrevia o essencial da minha experiência daqueles anos.

A minha existência era como um barco: sentia-se irremediavelmente atraída pela longínqua obscuridade dum insondável oceano. A mim, competia afastar-me, dolorosamente, dos meus amigos: «Adeus, adeus camaradas que ficais na margem, figuras estranhas, forasteiros, que gesticulam numa luz longínqua». Guardei na memória este dístico, que era o primeiro do Salmo. A partir da solidão da minha barca, através da obscuridade, estendia a mão, mas impossível fora encontrar as mãos dos outros e muito menos, encontrar em mim a moeda que teria querido entregar ao meu irmão. Assim, me sentia constrangido a permanecer sentado na proa, absorto e silencioso, «com os queixos sobre as mãos e os olhos no firmamento». O meu silêncio era uma oração ardente, porém toda envolta em escuridão. Como uma luz obscura, a fé mantinha-se de pé. E eu aguardava.

Durante esses anos, sentia em mim uma forte inclinação para as missões estrangeiras. Este sonho chegou a preencher a minha vida de uma maneira estranha. Um superior meu, bondoso, mas bastante inepto e indeciso, fez-me acreditar que o meu sonho juvenil se iria realizar rapidamente. Mas, sem preparação e sem qualquer explicação, tudo foi cancelado. A minha dor foi fortíssima. Talvez desproporcionada, mas muito real. À minha mente vinha-me a espontânea analogia do amante a quem lhe haviam, súbita e irracionalmente, assassinado a amada. A minha experiência de solidão requintou e tornou-se mais amarga, ainda. O meu livro preferido desses tempos era Qohelet (o Eclesiastes).

Tinha acabado os estudos de filosofia seguidos de um tempo de licença, depois do que me enviaram para um colégio do ensino secundário a fim de dar aulas e exercer funções de inspector dos alunos. Estas tarefas adaptavam-se mal ao meu temperamento. Durante um ano sofri dum sentimento contínuo de ansiedade. Estava deprimido e, por conseguinte, a minha saúde física ressentia-se disso, razão porque depois desse ano de trabalho no colégio padeci duma poliadenite supurada do pescoço, que teve de ser lancetada.

Nesses tempos, senti o que é a morte. A um amigo, mais velho do que eu, a quem estava destinado ir para a América do Sul e que lhe custava bastante sair dali e despedir-se, dediquei-lhe um breve poema, nestes termos:

«Dizer-te em duas palavras isto,
quando estás para embarcar:
Vai! Depois será
maravilhoso
morrer!»


E, dedicado a mim mesmo, em plena depressão num Verão abafado, escrevi:

«Senhor!, este terrível cansaço,
que será?
Será que estou morrendo já?»


Com a ideia da morte estava também uma sensação de vazio, uma profunda desilusão.

Na fachada das traseiras do colégio onde eu prestava serviço, voltado para um campo aberto, havia uma espécie de terraço. Dali, a paisagem era austera, ainda que tranquila. Um caminho vicinal ascendia suavemente. À esquerda, um cemitério, parado, com árvores. Ao fundo, montanhas de baixa altitude. A luz dourada do entardecer revestia esta paisagem de beleza, mas, a mim, de profunda melancolia. Grande admirador de António Machado, tratei de imitá-lo, com a devida distância, expressando a minha situação nesta poesia:

«Tarde de Maio doirada
que vais a caminho do cemitério.
O meu amor e os meus pensamentos,
nada.
Levaram-nos os ventos
de prata
a caminho do cemitério.
A mim, deixaram-me morto
junto à trilha calada
e sumiram-se sem me dizerem
nada.»


Um superior meu demasiado puritano, nem sempre coerente e frequentemente quase desumano, tratou-me com dureza e com uma incompreensão absurda. Esta chicotada provocou em mim uma reacção saudável. Fiz por não cair na cólera, por reafirmar a minha fé e não me fechar ao amor do próximo, não obstante a natural reacção de retraimento.

Julgo que consegui um maior realismo, uma mais tranquila aceitação do horizonte fechado em que então vivia.

No final deste período de trevas luzia ou ardia, obscuramente, o facho da fé. Disse-o num breve poema a um grande amigo meu da época e de hoje, ainda que se ordenava sacerdote por aqueles dias:

«Dois anjos lado a lado.
Dois círios, verticais
lanças de paz,
humildes lâmpadas.
Pão e vinho.
Um milagre
de simplicidade.
Sobre a terra,
a palavra sentinela
da Fé.»


Era assim que as coisas estavam, quando deixei o meu trabalho de professor no colégio, às portas de iniciar os estudos de teologia. Completava, então, os meus 29 anos.

(…)

José Maria Diez-Alegria, sj


Descarregar AQUI o texto de Diez-Alegria,sj na íntegra, (10 pp.)