teologia para leigos

11 de setembro de 2012

A SÓS COM DEUS? Um tormento...

Creio na Esperança



Eu vivia numa comunidade com companheiros de estudo [jesuítas], todos bons companheiros e irmãos como comunidade religiosa pelo menos era assim que os sentia e confesso que também não pretendia mais do que isso: nunca fui desconfiado, suspicaz. Mas, não encontrava, nem sequer no grupo dos amigos mais íntimos, uma comunicação que me pudesse encher as medidas, que pudesse preencher aquela sensação de vazio que me doía por dentro como uma ferida. Nem a fé, nem Cristo, nem Deus-Pai preenchiam o íntimo vazio da alma. Cristo estava, pela fé, firmemente na minha alma, mas estava como «ausência».

E esta solidão interior, este não poder sair de mim através duma comunicação interpessoal que me preenchesse, era como que uma sufocação dolorosa.

Comecei a escrever alguns poemas, de modesta qualidade, que expressavam a minha situação. Lembro-me de ter escrito um «Salmo interior», que descrevia o essencial da minha experiência daqueles anos.

A minha existência era como um barco: sentia-se irremediavelmente atraída pela longínqua obscuridade dum insondável oceano. A mim, competia afastar-me, dolorosamente, dos meus amigos: «Adeus, adeus camaradas que ficais na margem, figuras estranhas, forasteiros, que gesticulam numa luz longínqua». Guardei na memória este dístico, que era o primeiro do Salmo. A partir da solidão da minha barca, através da obscuridade, estendia a mão, mas impossível fora encontrar as mãos dos outros e muito menos, encontrar em mim a moeda que teria querido entregar ao meu irmão. Assim, me sentia constrangido a permanecer sentado na proa, absorto e silencioso, «com os queixos sobre as mãos e os olhos no firmamento». O meu silêncio era uma oração ardente, porém toda envolta em escuridão. Como uma luz obscura, a fé mantinha-se de pé. E eu aguardava.

Durante esses anos, sentia em mim uma forte inclinação para as missões estrangeiras. Este sonho chegou a preencher a minha vida de uma maneira estranha. Um superior meu, bondoso, mas bastante inepto e indeciso, fez-me acreditar que o meu sonho juvenil se iria realizar rapidamente. Mas, sem preparação e sem qualquer explicação, tudo foi cancelado. A minha dor foi fortíssima. Talvez desproporcionada, mas muito real. À minha mente vinha-me a espontânea analogia do amante a quem lhe haviam, súbita e irracionalmente, assassinado a amada. A minha experiência de solidão requintou e tornou-se mais amarga, ainda. O meu livro preferido desses tempos era Qohelet (o Eclesiastes).

Tinha acabado os estudos de filosofia seguidos de um tempo de licença, depois do que me enviaram para um colégio do ensino secundário a fim de dar aulas e exercer funções de inspector dos alunos. Estas tarefas adaptavam-se mal ao meu temperamento. Durante um ano sofri dum sentimento contínuo de ansiedade. Estava deprimido e, por conseguinte, a minha saúde física ressentia-se disso, razão porque depois desse ano de trabalho no colégio padeci duma poliadenite supurada do pescoço, que teve de ser lancetada.

Nesses tempos, senti o que é a morte. A um amigo, mais velho do que eu, a quem estava destinado ir para a América do Sul e que lhe custava bastante sair dali e despedir-se, dediquei-lhe um breve poema, nestes termos:

«Dizer-te em duas palavras isto,
quando estás para embarcar:
Vai! Depois será
maravilhoso
morrer!»


E, dedicado a mim mesmo, em plena depressão num Verão abafado, escrevi:

«Senhor!, este terrível cansaço,
que será?
Será que estou morrendo já?»


Com a ideia da morte estava também uma sensação de vazio, uma profunda desilusão.

Na fachada das traseiras do colégio onde eu prestava serviço, voltado para um campo aberto, havia uma espécie de terraço. Dali, a paisagem era austera, ainda que tranquila. Um caminho vicinal ascendia suavemente. À esquerda, um cemitério, parado, com árvores. Ao fundo, montanhas de baixa altitude. A luz dourada do entardecer revestia esta paisagem de beleza, mas, a mim, de profunda melancolia. Grande admirador de António Machado, tratei de imitá-lo, com a devida distância, expressando a minha situação nesta poesia:

«Tarde de Maio doirada
que vais a caminho do cemitério.
O meu amor e os meus pensamentos,
nada.
Levaram-nos os ventos
de prata
a caminho do cemitério.
A mim, deixaram-me morto
junto à trilha calada
e sumiram-se sem me dizerem
nada.»


Um superior meu demasiado puritano, nem sempre coerente e frequentemente quase desumano, tratou-me com dureza e com uma incompreensão absurda. Esta chicotada provocou em mim uma reacção saudável. Fiz por não cair na cólera, por reafirmar a minha fé e não me fechar ao amor do próximo, não obstante a natural reacção de retraimento.

Julgo que consegui um maior realismo, uma mais tranquila aceitação do horizonte fechado em que então vivia.

No final deste período de trevas luzia ou ardia, obscuramente, o facho da fé. Disse-o num breve poema a um grande amigo meu da época e de hoje, ainda que se ordenava sacerdote por aqueles dias:

«Dois anjos lado a lado.
Dois círios, verticais
lanças de paz,
humildes lâmpadas.
Pão e vinho.
Um milagre
de simplicidade.
Sobre a terra,
a palavra sentinela
da Fé.»


Era assim que as coisas estavam, quando deixei o meu trabalho de professor no colégio, às portas de iniciar os estudos de teologia. Completava, então, os meus 29 anos.

(…)

José Maria Diez-Alegria, sj


Descarregar AQUI o texto de Diez-Alegria,sj na íntegra, (10 pp.)




10 de setembro de 2012

CARDEAL MARTINI

Um cardeal contra a injustiça



Foi sobre Carlo Maria Martini, o cardeal italiano que morreu no último dia de Agosto, que se falou no segundo texto destes dias da semana”, aqui publicado há mais de dez anos.

O pretexto foi um diálogo epistolar entre ele e o escritor e filósofo Umberto Eco, mantido em 1995 e 1996 nas páginas da revista italiana Liberal, posteriormente coligido em livro, também editado em Portugal (Em que crê quem não crê? Um diálogo sobre ética no final do milénio. Coimbra: Gráfica de Coimbra, 2000).

Membro da Companhia de Jesus e arcebispo de Milão, Carlo Maria Martini era, como então se referia, um dos nomes que os media insistiam em indicar como um dos mais prováveis sucessores de João Paulo II. Mas o cardeal preferiu não o ser, se assim se pode dizer, razão por que, no conclave que elegeria Joseph Ratzinger, resolveu apresentar-se de bengala. Assim dissuadiria eventuais votantes, podendo, como com humor dizia, ser Martini rosso em vez de Martini bianco.

Na homilia da celebração das exéquias de Carlo Maria Martini, que teve lugar na catedral de Milão na segunda-feira, o cardeal Angelo Scola citou o poeta Rainer Maria Rilke, o filósofo Theodor W. Adorno e uma passagem do Salmo 119 [118] escolhida por Carlo Maria Martini para ser colocada sobre o seu túmulo: “Lâmpada para os meus passos é a tua palavra, luz para o meu caminho”.

A frase, segundo Angelo Scola, é a chave para interpretar a existência e o ministério do cardeal Martini, mas há, no mesmo Salmo, não poucas passagens que bem poderão cumprir o mesmo objectivo:

“Abre os meus olhos, para eu contemplar as maravilhas da tua vontade”; “a minha alma consome-se, desejando as tuas normas”; “com os teus preceitos sou capaz de discernir e detestar qualquer caminho mau”; “tens como escória todos os injustos da Terra, por isso eu amo os teus testemunhos”.

“A justiça é, para a Bíblia, mais que direito e misericórdia: é o atributo fundamental de Deus”, disse Carlo Maria Martini em Colóquios nocturnos em Jerusalém. Sobre o risco de acreditar (Coimbra: Gráfica de Coimbra, s/d), obra que resulta de uma série de conversas com o também jesuíta Georg Sporschill.

“Justiça é comprometer-se com os que não têm protecção, a fim de lhes proteger a vida”, considera o cardeal, que, num outro momento, refere que “o pecado do mundo – como João Baptista designa as injustiças – assume um rosto amável. Mas é uma amabilidade enganadora.

O perigo do pecado torna-se baço. Temos de descobrir como vivem aqueles que entre nós pedem asilo político, quanto tempo passam os pais com os seus filhos, ver como é pouca a esperança dos jovens, saber das preocupações dos trabalhadores – e até da gente muito bem paga –, o que é que leva à ruptura das famílias”.

Para Carlo Maria Martini, “também não nos devemos habituar aos pecados globais. A sida, as catástrofes ambientais, a fome, a pobreza, as guerras e a miséria dos deslocados, as crianças que não têm acesso aos medicamentos e à educação, as mulheres maltratadas... estão sempre a desafiar-nos”.

Não ficar, pois, indiferente e agir: “Quem conhecer e amar um ser humano que sofre por causa deste tipo de pecados tem que ficar horrorizado e fazer alguma coisa”. Observa o cardeal que, se acompanharmos os acontecimentos através dos jornais ou da televisão, sentimo-nos abatidos e impotentes. Mas se ajudamos um ser humano, apercebemo-nos da nossa força.

Pensando, frequentemente, em S. Francisco Xavier e na circunstância de ele se ter confrontado com a miséria que existia na Índia, por onde, como se sabe, andou, no séc. XVI, Carlo Maria Martini perguntava-se: “Quanto desejaria ele voltar às salas de aula da Sorbonne, e gritar ali: Quem está disposto a lutar com Jesus contra a injustiça? Quem é que quer chegar onde Jesus chegou, assumindo inconveniências, injúrias e padecimentos?”

A miséria dos nossos dias impõe que as perguntas subsistam.


Eduardo Jorge Madureira Lopes
Os Dias da Semana
Braga


Diário de Notícias
15 Set 2012




9 de setembro de 2012

ORAÇÃO NA ACÇÃO

Eucaristia, Fraternidade e Libertação



Por fim, descobrimos a função insubstituível da Eucaristia. A celebração da Ceia do Senhor no interior da comunidade não é um rito devocional ou esotérico para iniciados ou um refúgio para crentes, mais ou menos marginalizados. É o momento em que a imolação de Cristo-Irmão se torna em acontecimento para esta comunidade concreta, permitindo assim fazer-se mais e mais fraternidade, como vocação do grupo e como dom do Pai. É o momento em que a comunidade se reveste, em Cristo, das exigências da fraternidade cristã. Ao mesmo tempo, a Eucaristia irmana-nos em Cristo, orienta-nos para o Pai, une-nos nas primícias da fé, abre-nos à universalidade (Mt 26:28), impulsiona-nos ao serviço dos pequenos (a Ceia é antes de tudo para eles, segundo Lucas 14:15: Parábola do Grande Banquete), reveste-nos de Jesus «que se imola por todos».

Mais ainda, toda a Eucaristia autêntica, conscientemente celebrada, pode considerar-se como o acto de protesto e libertação mais radical e absoluto. Pois a Eucaristia − e menos publicamente qualquer oração − é a proclamação explícita do senhorio de Cristo, único Libertador e único Senhor da história e do homem. Proclama-se aí conscientemente – esse é o sentido da anáfora − não só que Cristo é o único Senhor, mas que o seu senhorio exclui qualquer outro senhorio sobre os homens, que n’Ele se fizeram definitivamente livres. Sociologicamente falando, proclama-se que rechaçamos absolutamente qualquer tipo de opressão que impeça o homem de alcançar este destino.

Ou seja, que na terra não aceitamos senhores ou salvadores que se erijam em absolutos ou dominadores. Que ao celebrar a Eucaristia prometemos trabalhar para remover as opressões políticas, sociais e ideológicas incompatíveis com o que proclamamos.

Este anúncio torna-se consciencializador − e pode converter-se em inconformismo radical − quando os participantes da eucaristia são homens que sofrem qualquer tipo de dominação. Socialmente falando, a eucaristia, periodicamente celebrada, deve ser um poderoso grito de alarme e de protesto, intranquilizador de consciências e despertador de responsabilidades sociopolíticas.

Neste sentido, a acção religiosa e sobretudo a eucaristia é altamente religiosa para qualquer sistema desumano e opressor. A celebração, muitas vezes rotineira e inautêntica − puramente religiosa, − da eucaristia em sociedades onde há algum tipo de ditadura ou violência estabelecida vai pervertendo o sentido profético e de protesto social da oração e do próprio cristianismo.

Deveríamos redescobrir todo o sentido pastoral de libertação e denúncia não só da eucaristia, mas de toda a liturgia. (O baptismo como escolha de Cristo como Senhor e a não-aceitação, no futuro, de nenhuma opressão humana; a oração pessoal como um momento de tomada de consciência muito densa da nossa liberdade diante das pessoas, coisas e ideologias, etc.). Assim, toda a celebração cristã, que por definição não tem uma causa político-social, pode ter profundas repercussões neste terreno na medida em que os cristãos que a celebram se tornam conscientes do que, na realidade, estão proclamando. O vírus do inconformismo que a liturgia cristã inocula não se deterá só nos tipos de opressão socioeconómica.

Tenderá a remover os ídolos sempre novos que aprisionam o homem na sociedade de consumo, na sociedade marxista totalitária, etc.

A suprema liberdade que constitui proclamar a Cristo como único Senhor questiona qualquer sistema dominante. Está na raiz de muitas limitações à liberdade religiosa e ainda das perseguições às Igrejas. A proclamação eucarística, ao afirmar que a última palavra foi pronunciada por Deus que se entregou em Cristo, afirma, ao mesmo tempo que a mudança humana, a revolução e a acção política são, no melhor dos casos, só a penúltima palavra. E que, sem nenhum programa revolucionário, a fé que celebramos pode ter efeitos revolucionários.

Estes aspectos da Eucaristia, que a tornam significativa face à libertação, evidentemente não são os únicos. Acreditamos tão-somente que, ao elaborar uma espiritualidade da libertação na América Latina, devemos explicitar estas dimensões, que também são próprias da celebração da Páscoa de Cristo que se entregou pela redenção de seus irmãos.

Segundo Galileia [1928-2010]
Irmãozinhos de Foucauld



Descarregar aqui todo o texto sobre ESPIRITUALIDADE DA LIBERTAÇÃO, 18 pp.

4 de setembro de 2012

DIÁLOGO - O NOME DA AUTORIDADE ECLESIAL

Pacto de Jerusalém
- o chamado ‘concílio de Jerusalém’




Queremos encerrar este capítulo com a versão lucana do «concílio» (Act 15; cf. Gal 2:1-10), no qual a igreja de Jerusalém aceita, como seguidores messiânicos de Jesus (herdeiros das promessas de Israel), cristãos gentios, mesmo que não sejam judeus, não se circuncidem, nem cumpram com a maior parte da lei nacional. Por outro lado, as igrejas da gentilidade aceitam a raiz da sua fé, mantendo-se em comunhão com Jerusalém. Eis o ponto central dos Actos e do cristianismo: aqui se entretecem e se desatam os fios que estamos a analisar.

A igreja de Antioquia envia a Jerusalém os seus delegados (Paulo e Barnabé) para que se entendam quanto à questão da circuncisão, questão que alguns judeo-cristãos, vindos da Judeia, suscitaram (15:1-3). A igreja de Jerusalém, representada por Tiago e os presbíteros (15:2.4.6.22.23), decidem que os cristãos-gentios não têm que ser circuncidados, ratificando assim a conduta de Paulo e Barnabé, não sem antes imporem certas condições (15:22-35). Protagonistas são os delegados da missão gentílica (Paulo e Barnabé), os cristãos fariseus (os que exigem circuncisão: 15:5) e alguns mediadores tais como Pedro e Tiago (cf. 15:7-21)[1]. [PF, abrir a Bíblia e, antes de avançar, ler ponto por ponto]

1.    PROBLEMA – Act 15:1-2
2.    DISCUSSÃO – Act 15:4-6
3.    PEDRO – Act 15:7-12
4.    TIAGO – Act 15:13-21
5.    ACORDO & CARTA (documento) – Act 15:22-28
6.    IMPLEMENTAÇÃO & ROTURA – Act 15:30-41

Este acordo fixa o estilo de autoridade cristã. Assim o recordamos como a base que define a estrutura e a acção do evangelho, já que nele surgem os ministérios fundantes (‘apóstolos e anciãos’), os líderes das comunidades (Pedro, Tiago, Paulo-Barnabé) e o conjunto da igreja que escuta, argumenta e decide.[2]

Através da declaração final (“pareceu ao Espírito Santo e a nós”), sabemos que Deus (Espírito Santo) se exprime através do diálogo e da decisão colectiva dos crentes (‘nós’). A igreja é uma assembleia teologal: os irmãos juntam-se e dialogam acerca dos seus problemas à luz da mensagem de Jesus, de modo que são capazes de dizer, e dizem-no mesmo, que o Espírito Santo os assiste. A igreja é uma assembleia participativa: Deus fala através do diálogo fraterno.

Numa igreja, com problemas, estabelecida, eis o modelo cristão de governar. A igreja não poderá resolver os problemas de modo mágico nem apelando a uma instância exterior (oráculo de Deus, revelação privada ou decisão particular de um dignitário). Os irmãos têm que reunir-se e dialogar: só quando partilham a palavra segundo o evangelho (missão) e para o bem de todos é que o Espírito se revela. Lucas explanou este acordo de Jerusalém como exemplo de autoridade, expressando para sempre o sentido da comunhão eclesial.

Este é o primeiro e quiçá o mais importante de todos os «concílios», pois não define nenhum dogma especial, mas estabelece a base e a comunhão dialogal da igreja. Após o concílio de Niceia (325 EC), as decisões passaram a ser tomadas apenas pelos bispos, facto de certo modo lógico se tivermos em conta as mudanças na estrutura eclesial. Mas, antes era diferente: não se reuniam os bispos, mas sim os apóstolos e os presbíteros (mescla paradoxal) com os delegados das comunidades (Antioquia) e o conjunto da igreja (multidão de Jerusalém).[3]

A decisão conciliar, que vincula o Espírito Santo ao nós eclesial, constitui o princípio e o sentido de todos os ministérios.

Naquele tempo existia uma tendência aristocrática exemplarmente expressa nos círculos sacerdotais, essénios e rabínicos: a autoridade dos sacerdotes estava vinculada à sua família e à sua função sacral; a dos essénios, a uma hierarquia meticulosa baseada em critérios de níveis sociais e graus de pureza; os escribas apelavam à Lei e à sua competência intelectual. Por oposição a isso, o movimento de Jesus exprimiu-se na participação comunitária e no serviço aos excluídos.

Seguramente que a igreja de Jerusalém correu o risco de se estruturar segundo um esquema hierárquico seguindo uma ordenação por categorias e cargos a partir dos Doze, dos irmãos de Jesus ou dos anciãos, tal como já dissemos atrás. Mas, quando se tratava de se encontrarem para tomar decisões, todos os irmãos participavam. É claro que Pedro (a primeira história) e Tiago (com os novos presbíteros) e os delegados de Antioquia tinham peso. Mas, a partir do coração desse diálogo emerge a autoridade da Igreja, em que o nós do conjunto da comunidade surge como presença do Espírito Santo.[4]


Xabier Pikaza
“Igreja messiânica – instituições do Novo Testamento”
in Sistema, libertad, iglesia, Ed. Trotta 2001, pp. 237-240, ISBN 84-8164-454-4.





[1] A presença de Pedro, que havia deixado Jerusalém por volta do ano 43 (cf. Act 12:17), está atestada por Gálatas 2:1-10. Mas Paulo e Actos 15 supõem que Pedro já não pertence a esta comunidade (presidida por Tiago), mas actua como missionário. Pedro e Paulo vêm ao «concílio» como missionários de duas tendências distintas para receber a aprovação de Jerusalém. A decisão de admitir gentios na comunhão messiânica, sem exigir que se circuncidem, foi a igreja judaica que a tomou, colocando-se assim numa situação delicada face ao resto do povo: um sumo-sacerdote matará Tiago (62 EC; cf. Flávio Josefo, Ant 20, 200) e os cristãos serão expulsos das sinagogas.
[2] Cf. Meier, Antioch, in Brown, Rome, 28-44; Goguel, Naissance, 320-350; R. Bauckham, «James…», 450-475; F. Mussner, Petrus und Paulus, Freiburg, 36-39.
[3] Esse exemplo irá influenciar os concílios do futuro. Em vez de bispos (ao seu lado) poderão participar delegados eclesiais e missionários (=apóstolos) das comunidades. A estrutura actual da igreja não se sintoniza com a sua experiência original A razão conciliar (pareceu ao Espírito Santo e a nós) foi pouco desenvolvida e pouco praticada na igreja posterior em que o Espírito Santo surge vinculado a dons carismáticos privados e a funções administrativas da hierarquia (episcopal, presbiteral) e não à experiência e ao trabalho do diálogo comunitário. Temos que recuperar o nós colegiados dos diferentes estratos da igreja. Outros autores do Novo Testamento vão na mesma linha. 1) Mt 18:18-20 reassume a fórmula da Act 15:28 ao afirmar que a oração e o acordo dos crentes constitui a autoridade máxima da igreja. 2) 1Cor 13 reuniu os carismas e os ministérios eclesiais no amor mútuo. 3) Jo 21 situa nessa linha o testemunho do Discípulo amado. O diálogo comunitário não é uma ajuda moral, mas fonte e sentido da autoridade cristã. É por isso que, na igreja, não pode haver hierarquia como poder particular, pois a autoridade pertence à comunidade reunida no amor enquanto em processo de busca da resposta (da verdade) através do diálogo.
[4] A Igreja vai criar estruturas que muito cedo se diferenciam (as de Tiago em Jerusalém, as de Pedro e os apóstolos, as de Paulo-Barnabé…). Mas todas vinculam o Nós à revelação do Espírito Santo. Este é o princípio pneumatológico e ministerial da igreja.