teologia para leigos

12 de setembro de 2012

ECONOMIA & POLÍTICA CÍNICAS

O governo que doou o seu povo à ciência



Ouve-se perguntar há décadas que sentido faz ser a Constituição portuguesa tão longa, complexa e miudinha? Os últimos tempos ajudaram-me a perceber porquê. Passo a explicar. Na última sexta-feira ficámos a saber que a contribuição dos trabalhadores para a Segurança Social aumentará no próximo ano 7 pontos percentuais ao mesmo tempo que a das empresas baixará 5,75. Note-se que é pequeno o impacto desta decisão sobre o défice orçamental: estamos a falar de uns 500 milhões de euros quando as metas acordadas exigem no mínimo dos mínimos uma redução de 3 mil milhões.

Significa isso que, depois de ter virado contra si o grosso da opinião pública que ainda confiava nele, o governo ainda não enfrentou sequer o essencial do problema. O que virá a seguir? Decerto, nova revisão dos escalões do IRS, despedimentos na parte mais vulnerável da função pública, reduções drásticas da quantidade e qualidade dos serviços de saúde, educação e transportes, agravamento de taxas diversas (incluindo as do SNS) e o mais que adiante se verá.

Se as medidas anunciadas não reduzem o défice de 2012 e só marginalmente o fazem em 2013, como se explica então o desvario? Dir-se-ia que o défice e o endividamento são hoje o que menos importa. A única coisa que agora conta é a aplicação a todo o custo da receita mágica das reformas estruturais. Mesmo aqui, porém, o foco foi consideravelmente restringido, visto que das reformas da justiça ou do poder autárquico, por exemplo, já ninguém parece querer saber.

As reformas de que o país consensualmente necessita são, pois, no discurso e na prática, substituídas por contra-reformas inspiradas pelo revanchismo social, impondo-se uma modalidade de capitalismo extractivo que, por lei, transfere rendimentos dos trabalhadores para os empresários. A acção governativa orienta-se crescentemente apenas e só pelo intuito de precarizar as relações laborais e contrair os custos salariais, na crença (ou sob o pretexto) de que daí resultará uma economia mais sólida e competitiva.

Este extremismo ideológicoque, obviamente, ninguém sufragou – é o aliado natural da pulsão neurótico-depressiva de que a troika se alimenta. Afigura-se portanto plausível que o governo tenha conseguido a indulgência em relação ao fracasso do défice para 2012 a troco da garantia de redução da TSU para as empresas tão acarinhada por uma das mais retrógradas escolas do pensamento económico.

Sabe-se como a teoria da desvalorização interna é cara ao FMI e aos doutrinários do Banco de Portugal. Sabe-se também que, até hoje, ela só foi experimentada na Letónia, e que os seus resultados foram, numa avaliação caridosa, inconclusivos. Faz-lhes falta, pois, testá-la num país de razoável dimensão e complexidade económica como o nosso.

Com a colaboração do governo português, o FMI, que gosta de fazer experiências com animais vivos, encontrou neste povo o ratinho de laboratório ideal.

Qual a probabilidade de que daqui resultem consequência positivas para o crescimento e o emprego? A crer nos estudos a seu tempo encomendados pelo governo português, quase nenhuma. Além disso, os inquéritos regularmente lançados pelo INE mostram que as razões invocadas pelos empresários para não contratarem mais trabalhadores são a ausência de mercado e a indisponibilidade de crédito, não o nível salarial.

A vingar a orientação anunciada, dentro de um ano o país estará mais pobre e a sua economia terá sido desarticulada. Pior ainda, a amargura e a desconfiança ter-se-ão apoderado dos corações, porque não é impunemente que se passa um rolo compressor sobre as legítimas expectativas das pessoas, suspendendo garantias, coarctando direitos e abolindo vínculos. Uma sociedade civilizada não é um acampamento que a todo o momento pode ser desmontado sem aviso prévio. A legitimidade dos sistemas políticos, económicos e sociais é sustentada pela crença na boa-fé de quem detém o poder aos mais variados níveis.

Não sobrevive por muito tempo a convivência pacífica numa sociedade cujas classes dirigentes alienam a confiança que nelas é depositada comportando-se de forma discricionária, atrabiliária e irresponsável.

Voltemos então à Constituição. Leis e contratos não precisam de ser longos quando se presume a boa-fé das partes. Havendo identificação com a letra da norma dispensa-se excessiva cautela com a sua letra. Doentia atenção ao pormenor e obsessiva preocupação em cobrir todas as possíveis ocorrências supervenientes são, pois, sintomas de desconfiança mútua.

Sou, por tudo isso, forçado a reconhecer a sabedoria dos constituintes de 1976 ao elaborarem um texto que, embora rebarbativo, dificulta a sua desvirtuação pelos derrotados de Abril que não se conformam. Tendo em conta a fragilidade das instituições, a podridão do sistema partidário e a escassez de figuras públicas respeitadas, é bem possível que só o Tribunal Constitucional consiga agora evitar a catástrofe.

João Pinto e Castro
Director-geral da Ology e Docente Universitário





VÍDEO:
Intervenção de João Galamba na AR
João Galamba, PS





Troika, na Grécia, exige:

semana de trabalho de seis dias,
horários semanais de 78 h
e reforma só aos 67 anos (12 Set. 2012)




Prof. José M. Castro Caldas [Univ. de Coimbra]

«Nestes dias estamos todos confrontados com uma escolha: deixar esta loucura prosseguir, ou exigir um ponto final. Não pensem que é impossível. Quando um povo exige com determinação a saída de um governo, o governo parte mesmo. Este tem de ir. E isto tem de parar.»




Vítor Gaspar et al é insane

«POR UM PRATO DE LENTILHAS ENVENENADO»



«O que explica então que, decorrido um ano, Gaspar aceite (e até defenda) a descida generalizada da TSU para as empresas? Face às evidências, que o João Rodrigues aqui oportunamente assinalou, só encontro uma resposta: por manifesto servilismo, oportunismo político e por profunda e dolosa irresponsabilidade. Gaspar sabe que fracassou em toda a linha: não só se afastou de forma colossal do objectivo do défice para este ano como estoirou violentamente com a economia do país. Contudo, fanático e obsessivo, jamais o poderia admitir, optando pela fuga em frente.

A descida da TSU constitui portanto, evidentemente, a moeda de troca para tentar camuflar o estrondoso e mais que previsível falhanço. Gaspar precisava do aligeiramento da meta do défice para 2012 (os míseros 0,5% que a troika lhe concedeu), para se poder manter à tona de água. Ou seja, para poder preparar a fuga em frente, através de
mais um golpe insane de austeridade, na eterna e infundada esperança de que um dia a mesma funcione. O preço a pagar foi, está bem de ver, a sujeição do país à perigosíssima hipótese científica que a troika quer testar, nas piores condições possíveis, no «bom aluno»: perceber se a redução da TSU favorece, ou não, a competitividade e a criação de emprego.»



VÍDEO:
Neste vídeo, a páginas tantas, Cavaco Silva aconselha uma pobre mulher a recorrer à ajuda de Instituições Sociais... mas não às do Estado!





11 de setembro de 2012

A SÓS COM DEUS? Um tormento...

Creio na Esperança



Eu vivia numa comunidade com companheiros de estudo [jesuítas], todos bons companheiros e irmãos como comunidade religiosa pelo menos era assim que os sentia e confesso que também não pretendia mais do que isso: nunca fui desconfiado, suspicaz. Mas, não encontrava, nem sequer no grupo dos amigos mais íntimos, uma comunicação que me pudesse encher as medidas, que pudesse preencher aquela sensação de vazio que me doía por dentro como uma ferida. Nem a fé, nem Cristo, nem Deus-Pai preenchiam o íntimo vazio da alma. Cristo estava, pela fé, firmemente na minha alma, mas estava como «ausência».

E esta solidão interior, este não poder sair de mim através duma comunicação interpessoal que me preenchesse, era como que uma sufocação dolorosa.

Comecei a escrever alguns poemas, de modesta qualidade, que expressavam a minha situação. Lembro-me de ter escrito um «Salmo interior», que descrevia o essencial da minha experiência daqueles anos.

A minha existência era como um barco: sentia-se irremediavelmente atraída pela longínqua obscuridade dum insondável oceano. A mim, competia afastar-me, dolorosamente, dos meus amigos: «Adeus, adeus camaradas que ficais na margem, figuras estranhas, forasteiros, que gesticulam numa luz longínqua». Guardei na memória este dístico, que era o primeiro do Salmo. A partir da solidão da minha barca, através da obscuridade, estendia a mão, mas impossível fora encontrar as mãos dos outros e muito menos, encontrar em mim a moeda que teria querido entregar ao meu irmão. Assim, me sentia constrangido a permanecer sentado na proa, absorto e silencioso, «com os queixos sobre as mãos e os olhos no firmamento». O meu silêncio era uma oração ardente, porém toda envolta em escuridão. Como uma luz obscura, a fé mantinha-se de pé. E eu aguardava.

Durante esses anos, sentia em mim uma forte inclinação para as missões estrangeiras. Este sonho chegou a preencher a minha vida de uma maneira estranha. Um superior meu, bondoso, mas bastante inepto e indeciso, fez-me acreditar que o meu sonho juvenil se iria realizar rapidamente. Mas, sem preparação e sem qualquer explicação, tudo foi cancelado. A minha dor foi fortíssima. Talvez desproporcionada, mas muito real. À minha mente vinha-me a espontânea analogia do amante a quem lhe haviam, súbita e irracionalmente, assassinado a amada. A minha experiência de solidão requintou e tornou-se mais amarga, ainda. O meu livro preferido desses tempos era Qohelet (o Eclesiastes).

Tinha acabado os estudos de filosofia seguidos de um tempo de licença, depois do que me enviaram para um colégio do ensino secundário a fim de dar aulas e exercer funções de inspector dos alunos. Estas tarefas adaptavam-se mal ao meu temperamento. Durante um ano sofri dum sentimento contínuo de ansiedade. Estava deprimido e, por conseguinte, a minha saúde física ressentia-se disso, razão porque depois desse ano de trabalho no colégio padeci duma poliadenite supurada do pescoço, que teve de ser lancetada.

Nesses tempos, senti o que é a morte. A um amigo, mais velho do que eu, a quem estava destinado ir para a América do Sul e que lhe custava bastante sair dali e despedir-se, dediquei-lhe um breve poema, nestes termos:

«Dizer-te em duas palavras isto,
quando estás para embarcar:
Vai! Depois será
maravilhoso
morrer!»


E, dedicado a mim mesmo, em plena depressão num Verão abafado, escrevi:

«Senhor!, este terrível cansaço,
que será?
Será que estou morrendo já?»


Com a ideia da morte estava também uma sensação de vazio, uma profunda desilusão.

Na fachada das traseiras do colégio onde eu prestava serviço, voltado para um campo aberto, havia uma espécie de terraço. Dali, a paisagem era austera, ainda que tranquila. Um caminho vicinal ascendia suavemente. À esquerda, um cemitério, parado, com árvores. Ao fundo, montanhas de baixa altitude. A luz dourada do entardecer revestia esta paisagem de beleza, mas, a mim, de profunda melancolia. Grande admirador de António Machado, tratei de imitá-lo, com a devida distância, expressando a minha situação nesta poesia:

«Tarde de Maio doirada
que vais a caminho do cemitério.
O meu amor e os meus pensamentos,
nada.
Levaram-nos os ventos
de prata
a caminho do cemitério.
A mim, deixaram-me morto
junto à trilha calada
e sumiram-se sem me dizerem
nada.»


Um superior meu demasiado puritano, nem sempre coerente e frequentemente quase desumano, tratou-me com dureza e com uma incompreensão absurda. Esta chicotada provocou em mim uma reacção saudável. Fiz por não cair na cólera, por reafirmar a minha fé e não me fechar ao amor do próximo, não obstante a natural reacção de retraimento.

Julgo que consegui um maior realismo, uma mais tranquila aceitação do horizonte fechado em que então vivia.

No final deste período de trevas luzia ou ardia, obscuramente, o facho da fé. Disse-o num breve poema a um grande amigo meu da época e de hoje, ainda que se ordenava sacerdote por aqueles dias:

«Dois anjos lado a lado.
Dois círios, verticais
lanças de paz,
humildes lâmpadas.
Pão e vinho.
Um milagre
de simplicidade.
Sobre a terra,
a palavra sentinela
da Fé.»


Era assim que as coisas estavam, quando deixei o meu trabalho de professor no colégio, às portas de iniciar os estudos de teologia. Completava, então, os meus 29 anos.

(…)

José Maria Diez-Alegria, sj


Descarregar AQUI o texto de Diez-Alegria,sj na íntegra, (10 pp.)




10 de setembro de 2012

CARDEAL MARTINI

Um cardeal contra a injustiça



Foi sobre Carlo Maria Martini, o cardeal italiano que morreu no último dia de Agosto, que se falou no segundo texto destes dias da semana”, aqui publicado há mais de dez anos.

O pretexto foi um diálogo epistolar entre ele e o escritor e filósofo Umberto Eco, mantido em 1995 e 1996 nas páginas da revista italiana Liberal, posteriormente coligido em livro, também editado em Portugal (Em que crê quem não crê? Um diálogo sobre ética no final do milénio. Coimbra: Gráfica de Coimbra, 2000).

Membro da Companhia de Jesus e arcebispo de Milão, Carlo Maria Martini era, como então se referia, um dos nomes que os media insistiam em indicar como um dos mais prováveis sucessores de João Paulo II. Mas o cardeal preferiu não o ser, se assim se pode dizer, razão por que, no conclave que elegeria Joseph Ratzinger, resolveu apresentar-se de bengala. Assim dissuadiria eventuais votantes, podendo, como com humor dizia, ser Martini rosso em vez de Martini bianco.

Na homilia da celebração das exéquias de Carlo Maria Martini, que teve lugar na catedral de Milão na segunda-feira, o cardeal Angelo Scola citou o poeta Rainer Maria Rilke, o filósofo Theodor W. Adorno e uma passagem do Salmo 119 [118] escolhida por Carlo Maria Martini para ser colocada sobre o seu túmulo: “Lâmpada para os meus passos é a tua palavra, luz para o meu caminho”.

A frase, segundo Angelo Scola, é a chave para interpretar a existência e o ministério do cardeal Martini, mas há, no mesmo Salmo, não poucas passagens que bem poderão cumprir o mesmo objectivo:

“Abre os meus olhos, para eu contemplar as maravilhas da tua vontade”; “a minha alma consome-se, desejando as tuas normas”; “com os teus preceitos sou capaz de discernir e detestar qualquer caminho mau”; “tens como escória todos os injustos da Terra, por isso eu amo os teus testemunhos”.

“A justiça é, para a Bíblia, mais que direito e misericórdia: é o atributo fundamental de Deus”, disse Carlo Maria Martini em Colóquios nocturnos em Jerusalém. Sobre o risco de acreditar (Coimbra: Gráfica de Coimbra, s/d), obra que resulta de uma série de conversas com o também jesuíta Georg Sporschill.

“Justiça é comprometer-se com os que não têm protecção, a fim de lhes proteger a vida”, considera o cardeal, que, num outro momento, refere que “o pecado do mundo – como João Baptista designa as injustiças – assume um rosto amável. Mas é uma amabilidade enganadora.

O perigo do pecado torna-se baço. Temos de descobrir como vivem aqueles que entre nós pedem asilo político, quanto tempo passam os pais com os seus filhos, ver como é pouca a esperança dos jovens, saber das preocupações dos trabalhadores – e até da gente muito bem paga –, o que é que leva à ruptura das famílias”.

Para Carlo Maria Martini, “também não nos devemos habituar aos pecados globais. A sida, as catástrofes ambientais, a fome, a pobreza, as guerras e a miséria dos deslocados, as crianças que não têm acesso aos medicamentos e à educação, as mulheres maltratadas... estão sempre a desafiar-nos”.

Não ficar, pois, indiferente e agir: “Quem conhecer e amar um ser humano que sofre por causa deste tipo de pecados tem que ficar horrorizado e fazer alguma coisa”. Observa o cardeal que, se acompanharmos os acontecimentos através dos jornais ou da televisão, sentimo-nos abatidos e impotentes. Mas se ajudamos um ser humano, apercebemo-nos da nossa força.

Pensando, frequentemente, em S. Francisco Xavier e na circunstância de ele se ter confrontado com a miséria que existia na Índia, por onde, como se sabe, andou, no séc. XVI, Carlo Maria Martini perguntava-se: “Quanto desejaria ele voltar às salas de aula da Sorbonne, e gritar ali: Quem está disposto a lutar com Jesus contra a injustiça? Quem é que quer chegar onde Jesus chegou, assumindo inconveniências, injúrias e padecimentos?”

A miséria dos nossos dias impõe que as perguntas subsistam.


Eduardo Jorge Madureira Lopes
Os Dias da Semana
Braga


Diário de Notícias
15 Set 2012




9 de setembro de 2012

ORAÇÃO NA ACÇÃO

Eucaristia, Fraternidade e Libertação



Por fim, descobrimos a função insubstituível da Eucaristia. A celebração da Ceia do Senhor no interior da comunidade não é um rito devocional ou esotérico para iniciados ou um refúgio para crentes, mais ou menos marginalizados. É o momento em que a imolação de Cristo-Irmão se torna em acontecimento para esta comunidade concreta, permitindo assim fazer-se mais e mais fraternidade, como vocação do grupo e como dom do Pai. É o momento em que a comunidade se reveste, em Cristo, das exigências da fraternidade cristã. Ao mesmo tempo, a Eucaristia irmana-nos em Cristo, orienta-nos para o Pai, une-nos nas primícias da fé, abre-nos à universalidade (Mt 26:28), impulsiona-nos ao serviço dos pequenos (a Ceia é antes de tudo para eles, segundo Lucas 14:15: Parábola do Grande Banquete), reveste-nos de Jesus «que se imola por todos».

Mais ainda, toda a Eucaristia autêntica, conscientemente celebrada, pode considerar-se como o acto de protesto e libertação mais radical e absoluto. Pois a Eucaristia − e menos publicamente qualquer oração − é a proclamação explícita do senhorio de Cristo, único Libertador e único Senhor da história e do homem. Proclama-se aí conscientemente – esse é o sentido da anáfora − não só que Cristo é o único Senhor, mas que o seu senhorio exclui qualquer outro senhorio sobre os homens, que n’Ele se fizeram definitivamente livres. Sociologicamente falando, proclama-se que rechaçamos absolutamente qualquer tipo de opressão que impeça o homem de alcançar este destino.

Ou seja, que na terra não aceitamos senhores ou salvadores que se erijam em absolutos ou dominadores. Que ao celebrar a Eucaristia prometemos trabalhar para remover as opressões políticas, sociais e ideológicas incompatíveis com o que proclamamos.

Este anúncio torna-se consciencializador − e pode converter-se em inconformismo radical − quando os participantes da eucaristia são homens que sofrem qualquer tipo de dominação. Socialmente falando, a eucaristia, periodicamente celebrada, deve ser um poderoso grito de alarme e de protesto, intranquilizador de consciências e despertador de responsabilidades sociopolíticas.

Neste sentido, a acção religiosa e sobretudo a eucaristia é altamente religiosa para qualquer sistema desumano e opressor. A celebração, muitas vezes rotineira e inautêntica − puramente religiosa, − da eucaristia em sociedades onde há algum tipo de ditadura ou violência estabelecida vai pervertendo o sentido profético e de protesto social da oração e do próprio cristianismo.

Deveríamos redescobrir todo o sentido pastoral de libertação e denúncia não só da eucaristia, mas de toda a liturgia. (O baptismo como escolha de Cristo como Senhor e a não-aceitação, no futuro, de nenhuma opressão humana; a oração pessoal como um momento de tomada de consciência muito densa da nossa liberdade diante das pessoas, coisas e ideologias, etc.). Assim, toda a celebração cristã, que por definição não tem uma causa político-social, pode ter profundas repercussões neste terreno na medida em que os cristãos que a celebram se tornam conscientes do que, na realidade, estão proclamando. O vírus do inconformismo que a liturgia cristã inocula não se deterá só nos tipos de opressão socioeconómica.

Tenderá a remover os ídolos sempre novos que aprisionam o homem na sociedade de consumo, na sociedade marxista totalitária, etc.

A suprema liberdade que constitui proclamar a Cristo como único Senhor questiona qualquer sistema dominante. Está na raiz de muitas limitações à liberdade religiosa e ainda das perseguições às Igrejas. A proclamação eucarística, ao afirmar que a última palavra foi pronunciada por Deus que se entregou em Cristo, afirma, ao mesmo tempo que a mudança humana, a revolução e a acção política são, no melhor dos casos, só a penúltima palavra. E que, sem nenhum programa revolucionário, a fé que celebramos pode ter efeitos revolucionários.

Estes aspectos da Eucaristia, que a tornam significativa face à libertação, evidentemente não são os únicos. Acreditamos tão-somente que, ao elaborar uma espiritualidade da libertação na América Latina, devemos explicitar estas dimensões, que também são próprias da celebração da Páscoa de Cristo que se entregou pela redenção de seus irmãos.

Segundo Galileia [1928-2010]
Irmãozinhos de Foucauld



Descarregar aqui todo o texto sobre ESPIRITUALIDADE DA LIBERTAÇÃO, 18 pp.