teologia para leigos

14 de setembro de 2012

NO «COVIL DO LOBO»






Eles não querem saber e estão-se a borrifar para tudo o mais. Vivem em realidades virtuais de modelos teóricos elaborados em gabinetes, competência tecnocrata, curricula académicos, números, projeções e tabelas de desktop: é este o ambiente técnico.

Vivem alheados e longe da rua, dos centros de emprego, das escolas, do interior desertificado, dos dramas, das angústias e do desespero dos súbditos, sugerindo qu'ils mangent de la brioche a cada pergunta incómoda, interpelação inconveniente ou protesto inesperado: é esta a sensibilidade social.

Vivem numa espécie de síndrome do capataz, aquele que está empenhado em exceder as ordens do patrão, bajulá-lo e mostrar-lhe que é capaz de espremer os negros a golpes de chicote: é esta a postura internacional.

Vivem empenhados em desmantelar o que a democracia construiu em décadas, serviço público, cuidados de saúde gratuitos, ensino universal, igualdade de oportunidades, transporte público acessível, e e entregar tudo isto a interesses e grupos: é este o projeto político.

Eles não sabem nem sonham que os efeitos mais profundos da terra queimada não se medem em taxas e percentagens, recessão hoje, crescimento amanhã, receitas mágicas que transformam depressão em progresso num ápice, panaceias milagrosas que curam clivagens sociais profundas, toques de Midas que criam emprego e bem-estar súbitos,  como se dez milhões de pessoas fossem bonecos num cenário, sem alma, sem vontade e sem expectativas próprias individuais e coletivas: mede-se no sentimento de pertença a um edifício comum, na confiança na democracia, no sentido de justiça e bom senso, na esperança de que é possível um futuro coletivo melhor.

O que se passa neste momento corrói tudo isto, porque o engano conduz à desconfiança, a mentira leva à descrença e ao desânimo, a insensibilidade não faz mais do que promover o salve-se quem puder.

Talvez Portugal retome o regresso aos mercados num ano ou dois, talvez o ambiente internacional melhore, talvez o cenário não seja tão negro quanto se nos afigura hoje, talvez tudo isto não passe de um momento mau, quem sabe. Mas o quadro da confiança nacional, a dignidade de todo um povo, a autoestima individual e coletiva, o Yes, We Can! construído pacientemente ao longo de décadas e que não aparece nos números do PIB e nos índices das bolsas, está arruinado, e as cicatrizes profundas na alma da nação, os sintomas do stress pós-traumático, essas, demorarão gerações a desvanecer-se.

Não, eles não sabem, não querem saber frankly, dear, they don't give a damn.

Paulo Pinto
13 Set 2012
JUGULAR blog







No «Covil do Lobo»

«(Hitler) parecia querer dizer que a Europa passaria a existir como uma fortaleza fortemente armada e auto-suficiente, deixando as restantes potências beligerantes a lutarem entre si noutros teatros de guerra.

«Delineou a sua visão do futuro.
«Era essencial, depois de a guerra ter acabado, que fosse levado a cabo um gigantesco programa social que abrangesse operários e camponeses. O povo germânico era merecedor dessa medida. E proporcionariasempre o raciocínio político por detrás do objectivo de melhoria materiala “base mais segura para o nosso sistema de Estado”.

«O vastíssimo programa de habitação que Hitler tinha em mente tornar-se-ia possível, afirmou ele abertamente, por meio da mão-de-obra barata – através de salários reduzidos. O programa seria levado a cabo pelo trabalho forçado dos povos derrotados. Salientou que os prisioneiros de guerra, naquele momento, tinham pleno emprego na economia de guerra.

«Isto eram como as coisas deveriam ser, afirmou, como haviam sido na Antiguidade, dando origem pela primeira vez ao trabalho escravo. As dívidas de guerra alemãs seriam, sem dúvida, entre 200 a 300 mil milhões de marcos. Estas teriam de ser principalmente cobertas através do trabalho “de pessoas que perderam a guerra”. O trabalho barato permitiria que fossem construídas casas que seriam vendidas com um lucro substancial, que, por sua vez, serviria para pagar as dívidas de guerra dentro de dez a quinze anos.»

HITLER – Uma biografia
Ian Kershaw
Ed. D. Quixote, p. 572


NOTA: “COVIL DO LOBO” era o nome dado por Hitler ao bunker em que ele se instalara, a Leste, e de onde dirigia a invasão da Rússia… Os seus colaboradores mais íntimos relataram refeições, nesse bunker, que terminavam em estados psicológicos e discursos delirantes, megalómanos… meio loucos, por parte de Hitler! Vítor Gaspar, Carlos Moedas, Passos Coelho et al n'O COVIL DO LOBO, também.






MINISTÉRIO DA CONTRA PROPAGANDA
Por Miguel Januário



A INCURÁVEL DEMÊNCIA HITLERIANA ...

TUDO ISTO É PARA NOSSO BEM




Os parceiros europeus já deixaram de ouvir o que se passa em Portugal - mesmo quando o País está perdido está sempre "no bom caminho". Entretanto, o maior partido de oposição parece ainda hesitar em viabilizar esta nova experiência social do ministro das Finanças que será o Orçamento para 2013. São Bento aprendeu bem a lição europeia de medir a credibilidade pelo sofrimento infligido à população.

Noutras paragens ainda há resistência. Aqui não, a austeridade não é passageira e o Governo não é o condutor - somos todos culpados e aceitamos pagar pelos nossos pecados. Mas se o golpe na TSU for avante, ninguém mais duvidará da nossa total determinação.

De fora ninguém nos irá socorrer. Bruxelas entrou decididamente no modo de filme ‘gore' - quanto mais sangue, melhor. Já não é só cumprir o défice. A solução é sempre empobrecer porque qualquer tentativa séria de distribuir o fardo por empresas, mais-valias, rendimentos mais altos e proprietários é sempre visto como um convite para os investidores abandonarem o país.

A tentativa de Vítor Gaspar em repartir o esforço entre classes só podia ser simbólica e, essa sim, seguramente temporária. A reforma estrutural aqui é que, no segundo país com o maior índice de desigualdade da União, o governo decidiu colocar os trabalhadores a devolver um salário à sua empresa. A desonestidade intelectual na justificação das medidas ainda custa mais.

Quando um alto responsável do Eurogrupo em Bruxelas defende que a quebra da receita fiscal é uma "boa notícia", porque demonstra que a economia se está a reconverter mais rapidamente, está tudo dito. O aumento do desemprego e a perda de rendimentos também são boas notícias. É tudo para o nosso bem. O povo não percebe porque não é qualificado.

Se as taxas de juro no mercado secundário descem umas décimas é bom, se sobem é porque os mercados ainda não digeriram as medidas. Ninguém pára o comboio da transformação social. A TSU desce para as empresas para desanuviar a carga fiscal, mas quando aumenta para as pessoas não é um imposto!

Nem os empresários vão na conversa porque sabem que o problema das empresas é o acesso ao crédito, a atrofia do consumo, e a dificuldade em exportar porque o País escolheu o caminho dos baixos salários e da falta de valor acrescentado.

As PME vão ter mais dificuldade em vender a quem não pode comprar e as grandes empresas vão aumentar a sua renda - sem reflectir esta benesse nos preços, tal como não o fizeram quando o IVA baixou.

Esta é outra falácia da economia portuguesa: diz-se aberta quando se trata de atrair capital estrangeiro, mas não é concorrencial, é altamente protectora a interesses instalados das grandes empresas incumbentes.

Além disso, por muito bem acompanhada que seja, esta medida é profundamente desigual: não é universal, nem progressiva. E, como se viu, nem sequer exclui outras medidas de austeridade para penalizar os alvos do costume. Que fizemos nós para merecer isto?


 BCE lançou-se para fora de pé

A forma como o BCE decidiu - finalmente - intervir de forma ilimitada nos juros da dívida soberana é incoerente e empurra-o para fora do seu mandato. O BCE devia intervir no mercado secundário quando a distorção nos instrumentos da política monetária o justificasse. Ao invés, decide agora apenas intervir se o país tiver pedido ajuda ao Eurogrupo. Esse pedido depende de considerações políticas, como orgulho nacional de quem pede e populismos nacionais de quem dá. Definir condicionalidade não faz parte do seu mandato que é a estabilidade financeira. Se o Banco é independente para mexer nas taxas de juro para toda a zona euro, também o deve ser para comprar dívida soberana.


13:IX:2012




Pelo economista Eugénio Rosa (CLICAR PARA AMPLIAR)





VÍDEO:
Intervenção de João Galamba na AR










12 de setembro de 2012

ECONOMIA & POLÍTICA CÍNICAS

O governo que doou o seu povo à ciência



Ouve-se perguntar há décadas que sentido faz ser a Constituição portuguesa tão longa, complexa e miudinha? Os últimos tempos ajudaram-me a perceber porquê. Passo a explicar. Na última sexta-feira ficámos a saber que a contribuição dos trabalhadores para a Segurança Social aumentará no próximo ano 7 pontos percentuais ao mesmo tempo que a das empresas baixará 5,75. Note-se que é pequeno o impacto desta decisão sobre o défice orçamental: estamos a falar de uns 500 milhões de euros quando as metas acordadas exigem no mínimo dos mínimos uma redução de 3 mil milhões.

Significa isso que, depois de ter virado contra si o grosso da opinião pública que ainda confiava nele, o governo ainda não enfrentou sequer o essencial do problema. O que virá a seguir? Decerto, nova revisão dos escalões do IRS, despedimentos na parte mais vulnerável da função pública, reduções drásticas da quantidade e qualidade dos serviços de saúde, educação e transportes, agravamento de taxas diversas (incluindo as do SNS) e o mais que adiante se verá.

Se as medidas anunciadas não reduzem o défice de 2012 e só marginalmente o fazem em 2013, como se explica então o desvario? Dir-se-ia que o défice e o endividamento são hoje o que menos importa. A única coisa que agora conta é a aplicação a todo o custo da receita mágica das reformas estruturais. Mesmo aqui, porém, o foco foi consideravelmente restringido, visto que das reformas da justiça ou do poder autárquico, por exemplo, já ninguém parece querer saber.

As reformas de que o país consensualmente necessita são, pois, no discurso e na prática, substituídas por contra-reformas inspiradas pelo revanchismo social, impondo-se uma modalidade de capitalismo extractivo que, por lei, transfere rendimentos dos trabalhadores para os empresários. A acção governativa orienta-se crescentemente apenas e só pelo intuito de precarizar as relações laborais e contrair os custos salariais, na crença (ou sob o pretexto) de que daí resultará uma economia mais sólida e competitiva.

Este extremismo ideológicoque, obviamente, ninguém sufragou – é o aliado natural da pulsão neurótico-depressiva de que a troika se alimenta. Afigura-se portanto plausível que o governo tenha conseguido a indulgência em relação ao fracasso do défice para 2012 a troco da garantia de redução da TSU para as empresas tão acarinhada por uma das mais retrógradas escolas do pensamento económico.

Sabe-se como a teoria da desvalorização interna é cara ao FMI e aos doutrinários do Banco de Portugal. Sabe-se também que, até hoje, ela só foi experimentada na Letónia, e que os seus resultados foram, numa avaliação caridosa, inconclusivos. Faz-lhes falta, pois, testá-la num país de razoável dimensão e complexidade económica como o nosso.

Com a colaboração do governo português, o FMI, que gosta de fazer experiências com animais vivos, encontrou neste povo o ratinho de laboratório ideal.

Qual a probabilidade de que daqui resultem consequência positivas para o crescimento e o emprego? A crer nos estudos a seu tempo encomendados pelo governo português, quase nenhuma. Além disso, os inquéritos regularmente lançados pelo INE mostram que as razões invocadas pelos empresários para não contratarem mais trabalhadores são a ausência de mercado e a indisponibilidade de crédito, não o nível salarial.

A vingar a orientação anunciada, dentro de um ano o país estará mais pobre e a sua economia terá sido desarticulada. Pior ainda, a amargura e a desconfiança ter-se-ão apoderado dos corações, porque não é impunemente que se passa um rolo compressor sobre as legítimas expectativas das pessoas, suspendendo garantias, coarctando direitos e abolindo vínculos. Uma sociedade civilizada não é um acampamento que a todo o momento pode ser desmontado sem aviso prévio. A legitimidade dos sistemas políticos, económicos e sociais é sustentada pela crença na boa-fé de quem detém o poder aos mais variados níveis.

Não sobrevive por muito tempo a convivência pacífica numa sociedade cujas classes dirigentes alienam a confiança que nelas é depositada comportando-se de forma discricionária, atrabiliária e irresponsável.

Voltemos então à Constituição. Leis e contratos não precisam de ser longos quando se presume a boa-fé das partes. Havendo identificação com a letra da norma dispensa-se excessiva cautela com a sua letra. Doentia atenção ao pormenor e obsessiva preocupação em cobrir todas as possíveis ocorrências supervenientes são, pois, sintomas de desconfiança mútua.

Sou, por tudo isso, forçado a reconhecer a sabedoria dos constituintes de 1976 ao elaborarem um texto que, embora rebarbativo, dificulta a sua desvirtuação pelos derrotados de Abril que não se conformam. Tendo em conta a fragilidade das instituições, a podridão do sistema partidário e a escassez de figuras públicas respeitadas, é bem possível que só o Tribunal Constitucional consiga agora evitar a catástrofe.

João Pinto e Castro
Director-geral da Ology e Docente Universitário





VÍDEO:
Intervenção de João Galamba na AR
João Galamba, PS





Troika, na Grécia, exige:

semana de trabalho de seis dias,
horários semanais de 78 h
e reforma só aos 67 anos (12 Set. 2012)




Prof. José M. Castro Caldas [Univ. de Coimbra]

«Nestes dias estamos todos confrontados com uma escolha: deixar esta loucura prosseguir, ou exigir um ponto final. Não pensem que é impossível. Quando um povo exige com determinação a saída de um governo, o governo parte mesmo. Este tem de ir. E isto tem de parar.»




Vítor Gaspar et al é insane

«POR UM PRATO DE LENTILHAS ENVENENADO»



«O que explica então que, decorrido um ano, Gaspar aceite (e até defenda) a descida generalizada da TSU para as empresas? Face às evidências, que o João Rodrigues aqui oportunamente assinalou, só encontro uma resposta: por manifesto servilismo, oportunismo político e por profunda e dolosa irresponsabilidade. Gaspar sabe que fracassou em toda a linha: não só se afastou de forma colossal do objectivo do défice para este ano como estoirou violentamente com a economia do país. Contudo, fanático e obsessivo, jamais o poderia admitir, optando pela fuga em frente.

A descida da TSU constitui portanto, evidentemente, a moeda de troca para tentar camuflar o estrondoso e mais que previsível falhanço. Gaspar precisava do aligeiramento da meta do défice para 2012 (os míseros 0,5% que a troika lhe concedeu), para se poder manter à tona de água. Ou seja, para poder preparar a fuga em frente, através de
mais um golpe insane de austeridade, na eterna e infundada esperança de que um dia a mesma funcione. O preço a pagar foi, está bem de ver, a sujeição do país à perigosíssima hipótese científica que a troika quer testar, nas piores condições possíveis, no «bom aluno»: perceber se a redução da TSU favorece, ou não, a competitividade e a criação de emprego.»



VÍDEO:
Neste vídeo, a páginas tantas, Cavaco Silva aconselha uma pobre mulher a recorrer à ajuda de Instituições Sociais... mas não às do Estado!





11 de setembro de 2012

A SÓS COM DEUS? Um tormento...

Creio na Esperança



Eu vivia numa comunidade com companheiros de estudo [jesuítas], todos bons companheiros e irmãos como comunidade religiosa pelo menos era assim que os sentia e confesso que também não pretendia mais do que isso: nunca fui desconfiado, suspicaz. Mas, não encontrava, nem sequer no grupo dos amigos mais íntimos, uma comunicação que me pudesse encher as medidas, que pudesse preencher aquela sensação de vazio que me doía por dentro como uma ferida. Nem a fé, nem Cristo, nem Deus-Pai preenchiam o íntimo vazio da alma. Cristo estava, pela fé, firmemente na minha alma, mas estava como «ausência».

E esta solidão interior, este não poder sair de mim através duma comunicação interpessoal que me preenchesse, era como que uma sufocação dolorosa.

Comecei a escrever alguns poemas, de modesta qualidade, que expressavam a minha situação. Lembro-me de ter escrito um «Salmo interior», que descrevia o essencial da minha experiência daqueles anos.

A minha existência era como um barco: sentia-se irremediavelmente atraída pela longínqua obscuridade dum insondável oceano. A mim, competia afastar-me, dolorosamente, dos meus amigos: «Adeus, adeus camaradas que ficais na margem, figuras estranhas, forasteiros, que gesticulam numa luz longínqua». Guardei na memória este dístico, que era o primeiro do Salmo. A partir da solidão da minha barca, através da obscuridade, estendia a mão, mas impossível fora encontrar as mãos dos outros e muito menos, encontrar em mim a moeda que teria querido entregar ao meu irmão. Assim, me sentia constrangido a permanecer sentado na proa, absorto e silencioso, «com os queixos sobre as mãos e os olhos no firmamento». O meu silêncio era uma oração ardente, porém toda envolta em escuridão. Como uma luz obscura, a fé mantinha-se de pé. E eu aguardava.

Durante esses anos, sentia em mim uma forte inclinação para as missões estrangeiras. Este sonho chegou a preencher a minha vida de uma maneira estranha. Um superior meu, bondoso, mas bastante inepto e indeciso, fez-me acreditar que o meu sonho juvenil se iria realizar rapidamente. Mas, sem preparação e sem qualquer explicação, tudo foi cancelado. A minha dor foi fortíssima. Talvez desproporcionada, mas muito real. À minha mente vinha-me a espontânea analogia do amante a quem lhe haviam, súbita e irracionalmente, assassinado a amada. A minha experiência de solidão requintou e tornou-se mais amarga, ainda. O meu livro preferido desses tempos era Qohelet (o Eclesiastes).

Tinha acabado os estudos de filosofia seguidos de um tempo de licença, depois do que me enviaram para um colégio do ensino secundário a fim de dar aulas e exercer funções de inspector dos alunos. Estas tarefas adaptavam-se mal ao meu temperamento. Durante um ano sofri dum sentimento contínuo de ansiedade. Estava deprimido e, por conseguinte, a minha saúde física ressentia-se disso, razão porque depois desse ano de trabalho no colégio padeci duma poliadenite supurada do pescoço, que teve de ser lancetada.

Nesses tempos, senti o que é a morte. A um amigo, mais velho do que eu, a quem estava destinado ir para a América do Sul e que lhe custava bastante sair dali e despedir-se, dediquei-lhe um breve poema, nestes termos:

«Dizer-te em duas palavras isto,
quando estás para embarcar:
Vai! Depois será
maravilhoso
morrer!»


E, dedicado a mim mesmo, em plena depressão num Verão abafado, escrevi:

«Senhor!, este terrível cansaço,
que será?
Será que estou morrendo já?»


Com a ideia da morte estava também uma sensação de vazio, uma profunda desilusão.

Na fachada das traseiras do colégio onde eu prestava serviço, voltado para um campo aberto, havia uma espécie de terraço. Dali, a paisagem era austera, ainda que tranquila. Um caminho vicinal ascendia suavemente. À esquerda, um cemitério, parado, com árvores. Ao fundo, montanhas de baixa altitude. A luz dourada do entardecer revestia esta paisagem de beleza, mas, a mim, de profunda melancolia. Grande admirador de António Machado, tratei de imitá-lo, com a devida distância, expressando a minha situação nesta poesia:

«Tarde de Maio doirada
que vais a caminho do cemitério.
O meu amor e os meus pensamentos,
nada.
Levaram-nos os ventos
de prata
a caminho do cemitério.
A mim, deixaram-me morto
junto à trilha calada
e sumiram-se sem me dizerem
nada.»


Um superior meu demasiado puritano, nem sempre coerente e frequentemente quase desumano, tratou-me com dureza e com uma incompreensão absurda. Esta chicotada provocou em mim uma reacção saudável. Fiz por não cair na cólera, por reafirmar a minha fé e não me fechar ao amor do próximo, não obstante a natural reacção de retraimento.

Julgo que consegui um maior realismo, uma mais tranquila aceitação do horizonte fechado em que então vivia.

No final deste período de trevas luzia ou ardia, obscuramente, o facho da fé. Disse-o num breve poema a um grande amigo meu da época e de hoje, ainda que se ordenava sacerdote por aqueles dias:

«Dois anjos lado a lado.
Dois círios, verticais
lanças de paz,
humildes lâmpadas.
Pão e vinho.
Um milagre
de simplicidade.
Sobre a terra,
a palavra sentinela
da Fé.»


Era assim que as coisas estavam, quando deixei o meu trabalho de professor no colégio, às portas de iniciar os estudos de teologia. Completava, então, os meus 29 anos.

(…)

José Maria Diez-Alegria, sj


Descarregar AQUI o texto de Diez-Alegria,sj na íntegra, (10 pp.)




10 de setembro de 2012

CARDEAL MARTINI

Um cardeal contra a injustiça



Foi sobre Carlo Maria Martini, o cardeal italiano que morreu no último dia de Agosto, que se falou no segundo texto destes dias da semana”, aqui publicado há mais de dez anos.

O pretexto foi um diálogo epistolar entre ele e o escritor e filósofo Umberto Eco, mantido em 1995 e 1996 nas páginas da revista italiana Liberal, posteriormente coligido em livro, também editado em Portugal (Em que crê quem não crê? Um diálogo sobre ética no final do milénio. Coimbra: Gráfica de Coimbra, 2000).

Membro da Companhia de Jesus e arcebispo de Milão, Carlo Maria Martini era, como então se referia, um dos nomes que os media insistiam em indicar como um dos mais prováveis sucessores de João Paulo II. Mas o cardeal preferiu não o ser, se assim se pode dizer, razão por que, no conclave que elegeria Joseph Ratzinger, resolveu apresentar-se de bengala. Assim dissuadiria eventuais votantes, podendo, como com humor dizia, ser Martini rosso em vez de Martini bianco.

Na homilia da celebração das exéquias de Carlo Maria Martini, que teve lugar na catedral de Milão na segunda-feira, o cardeal Angelo Scola citou o poeta Rainer Maria Rilke, o filósofo Theodor W. Adorno e uma passagem do Salmo 119 [118] escolhida por Carlo Maria Martini para ser colocada sobre o seu túmulo: “Lâmpada para os meus passos é a tua palavra, luz para o meu caminho”.

A frase, segundo Angelo Scola, é a chave para interpretar a existência e o ministério do cardeal Martini, mas há, no mesmo Salmo, não poucas passagens que bem poderão cumprir o mesmo objectivo:

“Abre os meus olhos, para eu contemplar as maravilhas da tua vontade”; “a minha alma consome-se, desejando as tuas normas”; “com os teus preceitos sou capaz de discernir e detestar qualquer caminho mau”; “tens como escória todos os injustos da Terra, por isso eu amo os teus testemunhos”.

“A justiça é, para a Bíblia, mais que direito e misericórdia: é o atributo fundamental de Deus”, disse Carlo Maria Martini em Colóquios nocturnos em Jerusalém. Sobre o risco de acreditar (Coimbra: Gráfica de Coimbra, s/d), obra que resulta de uma série de conversas com o também jesuíta Georg Sporschill.

“Justiça é comprometer-se com os que não têm protecção, a fim de lhes proteger a vida”, considera o cardeal, que, num outro momento, refere que “o pecado do mundo – como João Baptista designa as injustiças – assume um rosto amável. Mas é uma amabilidade enganadora.

O perigo do pecado torna-se baço. Temos de descobrir como vivem aqueles que entre nós pedem asilo político, quanto tempo passam os pais com os seus filhos, ver como é pouca a esperança dos jovens, saber das preocupações dos trabalhadores – e até da gente muito bem paga –, o que é que leva à ruptura das famílias”.

Para Carlo Maria Martini, “também não nos devemos habituar aos pecados globais. A sida, as catástrofes ambientais, a fome, a pobreza, as guerras e a miséria dos deslocados, as crianças que não têm acesso aos medicamentos e à educação, as mulheres maltratadas... estão sempre a desafiar-nos”.

Não ficar, pois, indiferente e agir: “Quem conhecer e amar um ser humano que sofre por causa deste tipo de pecados tem que ficar horrorizado e fazer alguma coisa”. Observa o cardeal que, se acompanharmos os acontecimentos através dos jornais ou da televisão, sentimo-nos abatidos e impotentes. Mas se ajudamos um ser humano, apercebemo-nos da nossa força.

Pensando, frequentemente, em S. Francisco Xavier e na circunstância de ele se ter confrontado com a miséria que existia na Índia, por onde, como se sabe, andou, no séc. XVI, Carlo Maria Martini perguntava-se: “Quanto desejaria ele voltar às salas de aula da Sorbonne, e gritar ali: Quem está disposto a lutar com Jesus contra a injustiça? Quem é que quer chegar onde Jesus chegou, assumindo inconveniências, injúrias e padecimentos?”

A miséria dos nossos dias impõe que as perguntas subsistam.


Eduardo Jorge Madureira Lopes
Os Dias da Semana
Braga


Diário de Notícias
15 Set 2012