teologia para leigos

4 de setembro de 2012

PACTO DAS CATACUMBAS

O Pacto da Igreja Serva e Pobre

No dia 16 de Novembro de 1965 cerca de 40 Padres Conciliares concelebraram o Santo Sacrifício Eucarístico nas catacumbas de Santa Domitila, para obterem a graça de serem plenamente fiéis ao Espírito de Jesus “que vos consagrou e vos enviou para evangelizardes os pobres” (Lc 4, 18). Nesta ocasião alguns (não se conhece o número exato) Bispos adoptam as seguintes resoluções:

D. Hélder Câmara, bispo de Olinda e Recife


Nós, Bispos, reunidos no Concílio Vaticano II, esclarecidos sobre as deficiências de nossa vida de pobreza segundo o Evangelho;

incentivados uns pelos outros, numa iniciativa em que cada um de nós quereria evitar a singularidade e a presunção, unidos a todos os irmãos no Episcopado;

contando sobretudo com a graça e com a força de Nosso Senhor Jesus Cristo, com a oração dos fiéis e dos sacerdotes de nossas respectivas dioceses;

colocando-nos, pelo pensamento e pela oração, diante da Trindade, diante da Igreja de Cristo e diante dos sacerdotes e dos fiéis de nossas dioceses, na humildade e na consciência de nossa fraqueza, mas também com toda a determinação e toda a força de que Deus nos quer dar a graça, comprometemo-nos ao que segue:

1) Procuraremos viver segundo o modo ordinário da nossa população, no que concerne à habitação, à alimentação, aos meios de locomoção e a tudo que daí se segue. Cf. Mt 5,3; 6, 33-34; 8, 20.

2) Para sempre renunciamos à aparência e à realidade da riqueza, especialmente no traje (fazendas ricas, cores berrantes), nas insígnias de matéria preciosa (devem esses signos ser, com efeito, evangélicos). Cf. Mc 6,9; Mt 10, 9-10; At 3, 6. Nem ouro nem prata.

 3) Não possuiremos nem móveis, nem imóveis, nem conta em banco, etc., em nosso próprio nome; e, se for preciso possuir, poremos tudo no nome da diocese ou das obras sociais ou caritativas. Cf. Mt 6, 19-21; Lc 12, 33-34.

4) Cada vez que for possível, confiaremos a gestão financeira e material em nossa diocese a uma comissão de leigos competentes e cônscios do seu papel apostólico, em mira a sermos menos administradores do que pastores e apóstolos. Cf. Mt 10, 8; At 6, 1-7.

5) Recusamos ser chamados, oralmente ou por escrito, com nomes e títulos que signifiquem a grandeza e o poder (Eminência, Excelência, Monsenhor...). Preferimos ser chamados com o nome evangélico de Padre. Cf. Mt 20, 25-28; 23, 6-11; Jo 13, 12-15.

6) No nosso comportamento, nas nossas relações sociais, evitaremos aquilo que pode parecer conferir privilégios, prioridades ou mesmo uma preferência qualquer aos ricos e aos poderosos (ex.: banquetes oferecidos ou aceitos, classes, nos serviços religiosos). Cf. Lc 13, 12-14; 1 Cor 9, 14-19.

7) Do mesmo modo, evitaremos incentivar ou lisonjear a vaidade de quem quer que seja, com vistas a recompensar ou a solicitar dádivas, ou qualquer outra razão. Convidaremos nossos fiéis a considerarem as suas dádivas como uma participação normal no culto, no apostolado e na ação social. Cf. Mt 6, 2-4; Luc 15, 9-13; 2 Cor 12, 4.

8) Daremos tudo o que for necessário de nosso tempo, reflexão, coração, meios, etc., ao serviço apostólico e pastoral das pessoas e dos grupos laboriosos e economicamente fracos e subdesenvolvidos, sem que isso prejudique a outras pessoas e grupos da diocese. Ampararemos os leigos, religiosos, diáconos ou sacerdotes que o Senhor chama a evangelizarem os pobres e os operários compartilhando a vida operária e o trabalho. Cf. Lc 4, 18-19; Mc 6, 4; Mt 11, 4-5; At 18, 3-4; 20, 33-35; 1 Cor 4, 12 e 9, 1-27.

9) Cônscios das exigências da justiça e da caridade, e das suas relações mútuas, procuraremos transformar as obras de “beneficência” em obras sociais baseadas na caridade e na justiça, que levam em conta todos e todas as exigências, como um humilde serviço dos organismos públicos competentes. Cf. Mt 25, 31-46; Lc 13, 12-14 e 33-34.

10) Poremos tudo em obra para os responsáveis pelo nosso governo e nossos serviços públicos decidam e ponham em prática as leis, as estruturas e as instituições sociais necessárias à justiça, à igualdade e ao desenvolvimento harmónico e total do homem todo em todos os homens, e, por aí, ao advento de uma outra ordem social, nova, digna dos filhos do homem e dos filhos de Deus. Cf. At 2, 44-45; 4, 32-35; 5, 4; 2 Cor 8 e 9 inteiros; 1 Tim 5,’16.

11) Achando a colegialidade dos bispos sua realização a mais evangélica na assunção do encargo comum das massas humanas em estado de miséria física, cultural e moral – dois terços da humanidade – comprometemo-nos:

- a participarmos, conforme nossos meios, dos investimentos urgentes dos episcopados das nações pobres;
- a requerermos junto aos planos dos organismos internacionais, mas testemunhando o Evangelho, como o fez o Papa Paulo VI na ONU, a adopção de estruturas económicas e culturais que não mais fabriquem nações proletárias num mundo cada vez mais rico, mas sim permitam às massas pobres saírem de sua miséria.

12) Comprometemo-nos a partilhar, na caridade pastoral, nossa vida com nossos irmãos em Cristo, sacerdotes, religiosos e leigos, para que nosso ministério constitua um verdadeiro serviço; assim:

- esforçar-nos-emos para “revisar nossa vida” com eles;
- suscitaremos colaboradores para serem mais uns animadores segundo o Espírito, do que uns chefes segundo o mundo;
- procuraremos ser o mais humanamente presentes, acolhedores...;
- mostrar-nos-emos abertos a todos, seja qual for a sua religião. Cf. Mc 8, 34-35; At 6, 1-7; 1 Tim 3, 8-10.

13) Tornados às nossas dioceses respectivas, daremos a conhecer aos nossos diocesanos a nossa resolução, rogando-lhes ajudar-nos com sua compreensão, seu concurso e suas preces.

AJUDE-NOS DEUS A SERMOS FIÉIS.

(Extraído de KLOPPENBURG, Pe. Frei Boaventura. Vaticano II, Petrópolis: Vozes, 1966, vol. V, Quarta Sessão – Set.- Dez. 1965), pp. 526-528.)



3 de setembro de 2012

«TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO» NO VATICANO? [ANSELMO B.]

A teologia da libertação

na Doutrina da Fé?

 

Arcebispo Gerhard Ludwig Müller, Prefeito da Cong. Dout. da Fé

 

 

Uma vez, num seminário na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, um juiz perguntou-me o que é que eu pensava sobre a teologia da libertação. Disse-lhe: "Permita que lhe responda com uma pergunta: o que pensa o senhor sobre a teologia da opressão?"

Percebe-se. Se a teologia não for teologia da libertação, não será urgente bani-la, excomungá-la? Mas ele referia-se, evidentemente, a um tipo de teologia que dá por esse nome e que quer trabalhar e pensar a partir e ao serviço dos mais pobres, passando, portanto, de um cristianismo "sacral" a um cristianismo "social", e à qual o cardeal Joseph Ratzinger teceu fortes reservas.

Em 1972, foi o livro do teólogo G. Gutiérrez, Teologia da Libertação, que acabou por consagrar o seu nome. Em 1983, Ratzinger enviou à Conferência Episcopal do Peru observações críticas sobre a teologia de Gutiérrez, acusando-o concretamente de utilizar um método de interpretação marxista, fazer uma leitura parcial dos textos bíblicos e pôr o acento na economia e na política, não acautelando suficientemente a realidade religiosa e transcendente do Reino de Deus. Os bispos do Peru foram chamados a Roma em 1985 e pressionados para que o condenassem. A condenação não aconteceu, pois, como conta o teólogo X. Pikaza, foram vários a dizer que não tinha sentido "obrigá-los" a condenar um irmão crente comprometido com os pobres.

O singular nesta história é o alemão Gerhard L. Müller, que foi catedrático de Teologia na Universidade de Munique, bispo de Ratisbona desde 2002 e que, em substituição do norte-americano William Levada, que abandona o cargo por motivos de idade, acaba de ser nomeado prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, o organismo responsável pela vigilância da ortodoxia. Müller não esconde a sua amizade com Gutiérrez e, por isso, há quem chegue a pensar que esta nomeação é uma espécie de reparação de J. Ratzinger.

Müller escreveu: "A teologia da libertação está para mim unida ao rosto de Gustavo Gutiérrez." Em 1988, participou num seminário dirigido por ele, e confessa: "Operou-se em mim uma viragem na reflexão académica sobre uma nova concepção teológica dirigida para a experiência com as pessoas para as quais tinha sido desenvolvida essa teologia."

E pergunta: "Como se pode falar de Deus perante o sofrimento humano dos pobres, que não têm sustento para os filhos nem direito a assistência médica nem acesso à educação, excluídos da vida social e cultural, marginalizados e considerados um fardo e uma ameaça para o estilo de vida de uns poucos ricos?" A teologia de Gutiérrez "é ortodoxa, porque é ortoprática".

Durante 15 anos passou 2 ou 3 meses por ano na América Latina, vivendo em condições muito simples, o que, como confessa, "para um cidadão da Europa central implica um grande esforço". Mas isso marcou-o profundamente e, assim, é inclemente na condenação do capitalismo neoliberal, cuja expressão sem escrúpulos são os vulture funds.

"Depois da queda do comunismo, alguns pensaram que se poderia conseguir o paraíso na terra com um capitalismo desenfreado. As forças auto-reguladoras do mercado à escala mundial trariam por si mesmas o bem-estar para todos ou, pelo menos, para a maioria. A realidade é muito diferente. Foi a cobiça de homens concretos que provocou a actual crise financeira mundial, cujas consequências, mais uma vez, os pobres e os mais pobres dos pobres têm de pagar com a sua vida, a sua saúde, a morte prematura e todas as perspectivas perdidas, previstas por Deus para eles."

Deu recentemente uma entrevista ao Osservatore Romano, onde reafirma que é necessário "distinguir entre uma teologia da libertação equivocada e outra correcta", mas "qualquer teologia boa tem que ver com a liberdade e a glória dos filhos de Deus".

A sua chegada ao Vaticano não significa uma revolução - também foi prevenindo contra a "ordenação" das mulheres -, mas pode ser um bom sinal. Quer, com Paulo VI, que o aspecto positivo esteja em primeiro plano na Congregação para a Doutrina da Fé: "Ela deve, sobretudo, promover e tornar compreensível a fé, e este é o factor decisivo."

Anselmo Borges
Diário de Notícias
01 Setembro de 2012.




Se houvesse dúvidas, …

[É areia a mais para o Arcebispo Gerhard L. Müller – para que acreditemos nas suas boas intenções, as quais o padre Anselmo Borges quer fazer sobressair, teria que ‘levantar’ demasiadas ex-comunhões (Jon Sobrino, A. Torres Queiruga, H. Kung, L. Boff, etc. etc.), teria de restabelecer demasiadas relações feridas, emendar demasiados erros doutrinários, renegar o próprio Vaticano como Estado corrupto, em suma, voltar atrás em demasiadas e sensíveis matérias que colocariam em causa o poder usurpado da Cúria vaticana, essa instituição, em si, ilegítima, não conciliar. Só as questões internas ao seu país - a Alemanha - já lhe chegavam para o resto da sua vida… Se não, reparem bem nas expressões empregues pelo arcebispo, e que vêm na notícia abaixo, e que afastam toda e qualquer expectativa: «acreditar na doutrina da Igreja», «comunhão plena», «obediência», mas sobretudo o preconceito que está por trás do juízo de intenções em o «não levar os votos a sério». E, na notícia de cima, que releva a palavra judicial «distinções» e em que, em vez de libertação, fala de ‘liberdade’ e em vez de ‘glória dos pobres’ fala de glória dos Filhos de Deus… sem mais distinções. Pode ter-se operado uma «viragem na reflexão», mas na eclesiologia, no projecto de vida pessoal e na acção… «Católico significa acreditar naquilo que a Igreja ensina»? ("Catholic means believing what the church teaches") - Bom. Se é assim, 'vou ali e venho já...' É demasiada areia, caro padre Anselmo Borges! O acebispo Gerhard é farinha do mesmo saco: palavras sublimes, but only words. Quando pegar na caneta tudo ficará às claras. Esta é a terceira vez que o padre Anselmo Borges se entusiasma com o Vaticano; a 1ª foi aquando da nomeação do cardeal J. Ratzinger para Papa; a 2ª, aquando dumas certas palavras do Papa Bento XVI sobre o preservativo (cf. 'Luz do Mundo'); esta é a terceira... O Vaticano está bem blindado: chafurda na sua própria lama (Clicar)]


New Vatican doctrinal chief
talks about SSPX, LCWR discussions


Arcebispo Gerhard L. Müller


Asked about how he would handle the most controversial cases he inherited, the new head of the Vatican’s doctrinal office said:

“For the future of the church, it’s important to overcome ideological conflicts from whatever side they come.”

German Archbishop Gerhard L. Muller, named prefect of the Congregation for the Doctrine of the Faith in early July, told the Vatican newspaper that the congregation’s discussions with the traditionalist Society of St. Pius X and with the U.S. Leadership Conference of Women Religious would focus on the fact that being Catholic means believing what the church teaches.

Although he has been a member of the congregation for five years, Archbishop Muller told L’Osservatore Romano, the Vatican newspaper, that it would take him some time to get up to speed on all of the details of the congregation’s work.

But, in the interview published July 25, the archbishop was asked what he thought about the ongoing discussions aimed at bringing the traditionalist SSPX back into full communion with the church and about the congregation-ordered reform of the LCWR, the organization that brings together the superiors of most religious orders of women in the United States.

Apparently referring to the talks with the SSPX, which rejects certain reforms introduced by the Second Vatican Council, Archbishop Muller said, “One cannot make reference to the tradition of the church and then accept only parts of it.”

In an apparent reference to the LCWR, he said, “One cannot profess the three religious vows (poverty, chastity and obedience) and not take them seriously.”

SOURCE CNS

26 Julho 2012




OUTROS DADOS SOBRE ESTAS QUESTÕES:


PADRES ALEMÃES PEDEM REFORMAS:


FRATERNIDADE PIO X - ERRO ESCANDALOSO DO PAPA BENTO XVI:


RATZINGER E A TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO:


VATICANO E DINHEIRO SUJO:


CONFERÊNCIA DAS RELIGIOSAS NORTE-AMERICANAS ADVERTIDA:


CONDENAÇÃO A JON SOBRINO:


REFORMAR A HIERARQUIA OU RENOVAR A COMUNIDADE?:


OUTROS LINKS:







31 de agosto de 2012

MORAL CATÓLICA & PROGRAMA POLÍTICO

O ÓDIO AOS POBRES
SOB A FORMA DE AMOR


Trav. das Liceiras_Porto



Nunca antes havíamos ouvido falar tão abertamente de “pobres” como durante este Governo PSD-CDS/PP. Com Pedro Mota Soares, ministro do Ministério da Solidariedade e da Segurança Social, começaram-se a ouvir afirmações como: “encontrar respostas para que os mais fracos e desprotegidos…” Ou: “Como cristãos – e o CDS é um Partido democrata-cristão  – movem-nos preocupações sociais sobretudo para com os mais pobres”. Tal como David Cameron na Inglaterra aquando dos gravíssimos confrontos urbanos de há um ano e Viktor Urban na Hungria, subitamente, os neoliberais portugueses lembraram-se da sua “consciência social” e da sua preocupação para com os fracos e os pobres: estes são o novíssimo alvo da política.





Essa referência explícita aos «pobres», curiosamente, tem vindo da parte de pessoas publicamente conotadas com o CDS/PP e/ou conotadas com a Igreja Católica. É o caso de destacados dirigentes do CDS/PP que publicamente se afirmam cristãos (ex.: Assunção Cristas, vice-presidente do CDS e ministra da Agricultura, do Mar, do Ambiente e do Ordenamento do Território), é o caso de Isabel Jonet, presidente do Banco Alimentar contra a Fome. Introduzida no discurso social com a maior das ingenuidades, a palavra “pobres” ainda desperta ressonâncias sociológicas e psicológicas fortemente ligas ao regime salazarista, em que, até aos anos 1960, «ser pobre era crime punido por lei».






Acresce a esta terminologia, a anunciada determinação, por parte do Governo, em obrigar o beneficiário dos programas sociais a «devolver, como dever, à sociedade, sob a forma de trabalho socialmente útil», aquilo a que teve direito

A introdução de um certo tipo de linguagem moralizante (“os pobres” por oposição aos “utentes”) associado a uma tipologia mental que estigmatiza e criminaliza quem fique fora do mercado de trabalho (“direitos sim, mas com deveres”, nomeadamente, com trabalho não remunerado…) é a evidência de que estamos perante uma revolução política e moral.

Do ponto de vista político, regressamos a um estado pré-social e à mendicidade. Do ponto de vista moral, regressamos à valorização moral apenas da ‘esmola’, da ‘caridadezinha’. Aliás, foi o próprio ministro Pedro Mota Soares que deixou bem claras estas questões ao dizer que o Estado Social de social tem pouco [«o Estado não tem vocação para dirigir instituições sociais…», sic].



Se formos investigar, o discurso oficial deste ministro democrata-cristão é sobreponível ao do do Estado Novo dos anos 1930-40.

«Em 1934, o I Congresso da União Nacional reforçou o papel "supletivo" do Estado. Era uma ajuda aos "anormais físicos, psíquicos e sociais". E o Estatuto da Assistência Social de 1944 só atribuiu ao Estado a missão de "suscitar, promover e sustentar" obras de assistência, se as privadas faltassem. Mas nunca deveria favorecer a "preguiça" ou a "pedinchice".

O diploma reflectia já as mudanças na Europa ao criticar as teorias do filantropismo do século XIX. Mas, em vez das estruturas de segurança social criadas em Inglaterra, nos anos 40, a partir do relatório Beveridge (1942) - que propôs a cobertura a toda a colectividade de protecção de riscos sociais, uma política de redistribuição de rendimento e o alargamento das coberturas já existentes (doença, maternidade, invalidez, velhice, morte e desemprego) -, o Estado Novo fixou, antes, que o esforço essencial assentava no espírito caridoso dos portugueses, uma das suas "qualidades naturais".

"Os dirigentes do regime e o próprio Salazar", sintetiza Flunser Pimentel, "atribuíam a miséria em Portugal a dois defeitos: a preguiça e a imprevidência. A assistência social, se fosse excessiva, acabava por estimular o "parasitismo"." Por isso, o Estado devia retirar-se de cena.» [João Ramos de Almeida, PÚBLICO, 23:VIII:2011; link AQUI:]


Paralelamente, e sem falar já no convite descabelado a emigrar!, assiste-se à saturação do espaço mediático pela retórica da “sensibilidade social”, da “solidariedade social”, da “ajuda social”, do “voluntariado”, do “microcrédito”, por vezes, muito colados à promoção do “empreendedorismo” como outras vias de saída para a Crise. São estas as novas versões (globalizadas) da antiga expressão (da beira da porta) “caridade cristã”.

Com elas, fica, assim, traçado o triângulo perfeito: se o Estado puder (“Estado Social mínimo”), se a sociedade quiser (“voluntariado”) e se tu te dispuseres (“empreendedor”)… podes deixar de ser pobre!

Ora, já vamos sabendo que é a Austeridade que faz com que a Taxa de Desemprego divirja da Taxa de atribuição do RSI, sendo as políticas de austeridade, e não o oportunismo, as culpadas pela situação de dependência social da maioria dos ditos “pobres”.




Igualmente sabemos que a ajuda social com base no RSI pode ser significativamente estruturante para os jovens (sendo muito menos estruturante para os desempregados com idades elevadas), não devendo por isso ser tão perseguida e tão policiada (sobretudo, se comparada com a fraude fiscal):


Ora, já vamos sabendo também que «o trabalhador desempregado está apto a trabalhar e quer trabalhar. O trabalhador desempregado não quer esmola, quer emprego com direitos para si e para os seus concidadãos.» As mais recentes entrevistas televisivas a que assistimos o demonstram de modo testemunhal indesmentível (cf. recrutados - jardineiros - pela Câmara Municipal do Porto).


Já desmitificamos igualmente a eventualidade da “solidariedade social” e do “empreendedorismo” poderem vir a ser uma saída para a crise [CLICAR AQUI e AQUI].

Igualmente, foi longamente demonstrado, pelo Prof. João Ferreira do Amaral, que não bastam atitudes locais ou reivindicações regionais para regressarmos ao bem-estar social de antes da crise: impõe-se uma atitude política supra-nacional “anti-germânica” [CLICAR AQUI].


A Esmola desligada da denúncia do sistema que gera a pobreza (almoços de beneficência, chás de caridade, tômbolas, etc); a Tele-Beneficência que não arranca do sofá do seu estatuto quem se limita a ligar para o número que passa no rodapé do ecrã do seu televisor (bem denunciada em «O Crepúsculo do Dever», por G. Lipovetsky); a Beneficência Interesseira: Fundação António da Mota, Leopoldina, Popota, Fundação Manuel dos Santos, Fundação EDP, etc; os Hipócritas, falsos-exemplos de Pobreza-Humildade (o culto duma imagem pobretana de Steve Jobs-Apple ou do fundador do IKEA [Ingvar Kamprad Elmtaryd Agunnaryd], o primeiro sempre de t-shirts e ténis e o segundo de casaco roto guiando um pequeno carro muito velho; a propaganda dos Bill Gates beneméritos…),…


…todos estes «novos exemplos morais» poderiam, hoje, levar, mais uma vez, F. Nietzsche a dizer que a culpa da situação a que chegamos é da Moral sendo a «compaixão e a moral altruísta» (…) «um sintoma de retrocesso, um perigo, uma sedução, um veneno, um narcótico que» dá a vida «a expensas do futuro». [“A genealogia da moral”]


Pergunta-se: a Igreja católica, os seus dirigentes, não têm nada a dizer a estas políticas? Nem a estes políticos cristãos?

É compreensível que não tenha… até porque está trilhada pelo próprio sistema que soube amarrá-la à estratégia governamental (vide relações IPSS’s e Governo); por outro lado, a leitura que a Igreja Católica sempre fez da situação social contemporânea raramente foi estruturante, resvalando para o moralizante por medo de ser acusada de ‘fazer política’.


Os «problemas sociais» que o primeiro-ministro britânico identificava prometendo ter «a coragem de os enfrentar», resumiam-se a «um lento desmoronamento moral»: «Fihos sem pais, escolas sem disciplina e recompensas sem esforço». Promover a lógica segundo a qual a pobreza decorreria de problemas comportamentais, de falhas (ou mesmo de escolhas) individuais constitui uma boa forma de legitimar o projecto conservador de corte dos orçamentos ligados à protecção social. Uma das mais contestadas propostas do governo consistiu em limitar o apoio à habitação, concedido principalmente a trabalhadores pobres.»”

”Desmoronamento moral” - Não ouvimos frequentemente, os cristãos, dizer que «a crise é antes de tudo uma crise de valores», uma crise moral? Nesse ponto, a Igreja católica e David Cameron coincidem. Coincidem? Atada de pés e mãos, a Igreja Católica está MORALMENTE obrigada a coincidir (cf. a resposta do ministro Pedro Aguiar-Branco à posição televisiva do bispo das Forças Armadas: «O sr. bispo tem de se decidir entre ser comentador político ou bispo».... A Igreja Hierárquica surgiu de imediato a demarcar-se do... bispo!, mas não da política). Está moralmente obrigada a coincidir até porque retira significativos benefícios dessa relação com o poder político.

Subitamente, a Moral da ‘caridadezinha cristã’ surge, pela mão do poder político, no espaço social de uma forma descabelada, confiante em que nada nem ninguém a questionará.

Oficialmente, a Igreja Católica não reagiu às medidas de destruição do Estado Social promovidas por políticos cristãos. É compreensível que não reaja: talvez esses dirigentes governamentais estejam em sintonia com aquilo que a Universidade Católica ensina…


Perante os escrutinadores ‘à outrance’ da «justiça» e da «bondade» um euro mal gasto em subsídios sociais é muito grave...»], F. Nietzsche disse:

«Que querem estes psicólogos? De certo pôr em evidência a parte vergonhosa do nosso mundo interior e procurar o princípio activo, condutor decisivo, da evolução, precisamente no ponto em que o orgulho intelectual do homem não o esperava achar (…). O que é que impele os psicólogos neste direcção? Será o instinto secreto e pérfido de amesquinhar o homem? Será uma perspicácia pessimista, ou a desconfiança do idealista desiludido e triste, todo bílis? Ou talvez certa hostilidade subterrânea (…), certo rancor inconsciente? Ou antes uma perversa afeição às excentricidades, aos paradoxos, às incertezas e aos absurdos da existência? Ou, finalmente, um pouco de tudo isto, um pouco de vilania, um pouco de amargura, (…) um pouco de prurido?...

«Asseguram-me que não passam de umas rãs mucilaginosas e importunas, que saltam e se metem no peito do homem, como se ali estivessem no seu elemento, num charco.

«Eu repelo esta ideia e desejo que seja exactamente o contrário; desejo que estes investigadores, que estudam a alma ao microscópio, sejam criaturas generosas e dignas, que saibam refrear o coração e sacrificar os seus desejos à verdade, a toda a verdade (…).  Para mim, é evidente que esta teoria tira a sua origem do conceito «bom» num lugar aonde não está: o juízo «bom» não emana daqueles a quem se prodigalizou a «bondade». Foram os próprios «bons», os homens distintos, os poderosos, os superiores que julgaram «boas» as suas acções; isto é, «de primeira ordem» estabelecendo esta nomenclatura por oposição a tudo que era baixo, mesquinho, vulgar e vilão. Arrogavam-se da sua altura o direito de criar valores e determinismos (…) O instinto de dominar acabou por encontrar a sua expressão» [‘A genealogia da moral’]

O Estado não tem mais nada a oferecer se não «uma previdência mínima» e a Igreja Católica oficial não tem mais nada a oferecer se não apelar para aquela «qualidade natural» chamada «o espírito caridoso dos portugueses», que, porém, alguns (Isabel Jonet) consideram pernicioso por fomentar a preguiça… É o desmoronamento moral da Igreja Católica portuguesa sob a forma de um programa político neoliberal (e logo ela que não quer ‘fazer política’…).



Custa ver as IPSS’s a sujarem-se no mesmo desrespeito pelo valor do trabalho que este Governo neo-liberal manifesta e a colaborarem na destruição dos serviços públicos e na redução do papel redistributivo do Estado… [clicar AQUI]



Perante este súbito "interesse" para com os pobres por parte dos cristãos do CDS/PP, é bem provável que Nietzsche volte a ter razão: «de entre todos os perigos fosse a moral o perigo por excelência».

A Igreja Católica oficial ficará historicamente associada a um dos períodos mais negros da nossa história: pecado por incapacidade de denúncia profética, pecado por consentimento e omissão. A Igreja Católica, qual Caifás, colocou-se do lado do Poder. A História repete-se: 'é preferível que morra o pobre do que o nosso Lugar santo pereça'... [Jo 11:45-51]

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Outros links:





29 de agosto de 2012

LIDERANÇA - MARTINE DESJARDINS

VIVA O QUEBEQUE REBELDE !

Gabriel Nadeau-Dubois, Léo Bureau-Blouin e MARTINE DESJARDINS


Percurso imparável – Martine Desjardisn tem 30 anos e dirige, há um ano, a Federação de Estudantes Universitários do Quebeque. Criada na periferia de Montreal. É a mais velha de três irmãos. Estudou no liceu privado Regina Assumpta, um dos mais prestigiados da cidade, que era, na altura, exclusivamente feminino. Formada em Ciências da Educação, o voluntariado em assistência social, a que se dedicava nas férias, pô-la em contacto com novas realidades: trabalhou com gangues de rua e prostitutas. E também trabalhou enquanto fazia o curso. Foi guarda-redes de andebol e joga futebol. E deu aulas na Universidade de Sherbrooke, atividade a que deseja voltar. Está a fazer o doutoramento e casou no Outono passado. No seu escasso tempo livre, gosta de passear nas montanhas.



Martine Desjardins, Presidente da Associação de Estudantes Universitários do Quebeque (FEUQ, que representa metade dos 250 mil estudantes universitários desta província) está plenamente envolvida no conflito estudantil que agita o Quebeque desde fevereiro. É uma figura central do movimento que protesta contra o aumento de 75% no custo das propinas universitárias, que, em cinco anos, as fará passar de 2200 dólares canadianos (1700 euros) anuais para 3800 dólares (3000 euros).

Desconhecida do público antes da “greve dos quadrados vermelhos”, os pedacinhos de tecido que os grevistas e simpatizantes ostentam na lapela, esta jovem depressa se tornou a coqueluche dos meios de comunicação do Quebeque e das redes sociais. E com ela os outros dois porta-vozes do movimento estudantil, Gabriel Nadeau-Dubois, da CLASSE (Coligação Alargada da Associação para a Solidariedade Sindical Estudantil), e Léo Bureau-Blouin, da Federação Estudantil Colegial do Quebeque (FECQ). Alguns internautas foram ao ponto de traçar a árvore genealógica de Martine: será descendente de colonos franceses de Meaux, que chegaram à Nova França em 1620!


Nunca perdeu a calma

Tímida ao primeiro contacto, esta loura de 30 anos, cabelos compridos e rosto redondo foi ganhando segurança ao longo das suas intervenções públicas para explicar com argumentos e números a posição dos estudantes e para comentar as manifestações, o estado das negociações com o Governo ou as decisões tomadas por este, como a aprovação, em maio passado, de medidas especiais como a “Lei 78”, que suspendeu até meio de Agosto os cursos das instituições em greve e limitou o direito à manifestação.

Nunca ninguém a viu perder a calma. Tal como os outros líderes estudantis, conhece bem os dossiês e defende-os com eloquência. Teve um percurso escolar sem falhas, de uma reputada escola secundária privada de Montreal até ao mestrado em Ciências da Educação, com uma bolsa de excelência do Governo de Quebeque. Desde há quatro anos, dedica-se à preparação do doutoramento em Educação e Adaptação Escolar, na Universidade do Quebeque, em Montreal.




Martine casou em 2011. É a mais velha de três irmãos, os pais são técnicos de aeronáutica e de microbiologia e, ao contrário do seu colega Gabriel Nadeau-Dubois, não cresceu num meio ativista. A avó comenta: “Quando era pequena, estava sempre pronta a ajudar os outros, antes de se preocupar com ela própria.”

Dedicou boa parte dos seus verões a trabalhar como auxiliar (assistente) social em bairros problemáticos, junto de jovens delinquentes, antes de se empenhar nos movimentos estudantis. “Envolvi-me na FEUQ apenas para defender a causa do congelamento dos custos da escolaridade”, sublinha Martine. Aumentá-las contribuiria para agravar o já elevado endividamento dos estudantes, que, segundo ela, atinge em média os 14 mil dólares canadianos (11 164 euros) ao nível da licenciatura, sendo que a maioria dos alunos já é obrigada a trabalhar para pagar os seus estudos.

Membro da FEUQ desde 2009, presidente desta federação há um ano, Martine salienta que as mulheres ainda têm de lutar para serem ouvidas. “No Outono de 2011, quando tínhamos reuniões com sindicalistas ou personalidades políticas para falar sobre a causa estudantil, era frequente dirigirem-se ao meu número dois, do sexo masculino, em vez de à presidente. Era chocante.”


Espírito de equipa

Até há pouco tempo, Martine Desjardins ainda praticava desportos de alto nível, primeiro andebol e depois futebol feminino universitário. “Tem um bom espírito de equipa, consegue congregar as forças de cada um e sabe gerar consenso, o que não a impede de tomar decisões quando é preciso”, observa Yanick Grégoire, vice-presidente da FEUQ. A própria Martine descreve-se como pessoa “calma mas persistente”. “Quando tomo uma decisão, é porque tenho os meus argumentos”.





Em abril, quando o Governo tentou dividir o movimento estudantil, afastando das negociações a CLASSE, considerada a mais radical, foi ela quem manteve a coesão e exigiu a presença de todos os representantes dos estudantes. “Manter uma frente unida foi e continua a ser essencial”, insiste Martine Desjardins. Acha que desempenhou muitas vezes “o papel de mediadora entre Gabriel Nadeau-Dubois, mais virado para a ação, e Léo Bureau-Blouin, mais idealista”.

Ao terceiro dia de uma ronda de negociações com o Governo, que não estavam a registar progressos, Martine não hesitou em denunciar este bloqueio perante a comunicação social. No regresso à mesa das negociações, o tom do lado do Executivo foi diferente. Ainda assim, as conversações acabaram por fracassar, no final de maio. O seu veredicto: “Orgulhoso, casmurro e sobranceiro, o Governo diz que mantém a porta aberta às negociações mas rejeita o diálogo. Nós reclamamos o congelamento das propinas e uma auditoria à gestão das universidades; o Governo só propõe medidas paliativas, como a diluição dos aumentos ao longo de vários anos”.

Após a aprovação da lei especial, a 18 de maio, Martine afirmava que “a via negociada seria a melhor saída para a crise”. “Quando eu trabalhava com jovens delinquentes, aprendi a criar distância, a controlar as emoções, a manter a calma e a pôr-me em modo de procura de soluções”, conta. “Mas, então, o Governo sabotou as negociações, o que foi para mim um verdadeiro balde de água fria”.





Que pensa Martine sobre o futuro do movimento, com a partida dos estudantes para as férias ou para os empregos temporários de verão? “Há fortes possibilidades de a greve recomeçar ainda com mais força em agosto. Não vamos desistir da mobilização estudantil e continuamos a preparar o terreno, tendo em vista a possibilidade de eleições antecipadas no Quebeque, no próximo outono. Vamos mobilizar os jovens para irem votar e organizar reuniões com o maior número possível de pessoas, para fazer da nossa causa um objectivo eleitoral, sem tomarmos posição a favor de qualquer partido mas decididamente contra o Partido Liberal.”

É o partido de Jean Charest, primeiro-ministro do Quebeque. Até agora, Martine afirmava ser “totalmente apolítica”.

Anne Pélouas, em Montreal
Le Monde, 17:VI:2012.
In Courrier international, edição portuguesa, Agosto 2012 (pp. 13-15).
(Tradução : Isabel Fernandes)


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