teologia para leigos

14 de agosto de 2012

SNS - vale tudo...

ISABEL VAZ e a IVG

Eng.ª Isabel Vaz, BES-SAÚDE


«está na altura de nos deixarmos de conversa fiadae irmos muito mais além da troika!» [Eng.ª Isabel Vaz]



A Eng.ª Isabel Vaz ganhou o prémio «Mulheres de Negócios_Máxima 2011».


A Eng.ª Isabel Vaz afirmou à RTP (não sem se engasgar…) que a saúde é «talvez uma das maiores áreas de negócio a nível mundial; diria que melhor que o negócio da saúde só mesmo a indústria do armamento». Comparou a Saúde com a indústria da Guerra: há nesta comparação ALGUMA VERDADE. Mas, não lhe foi fácil: acabou por confessar TODA A VERDADE, sim, mas sob a forma de uma engasgadela…


A Eng.ª Isabel Vaz, presidente da comissão executiva do BES-Saúde, foi convidada pela Igreja Católica (Pastoral da Saúde) para ir a Fátima falar no âmbito de "Cuidados de Saúde, Lugares de Esperança (A Saúde em Portugal)".

Em Fátima, referindo-se ao novo Hospital de Loures, que é público (do Estado) mas que a BES-Saúde está a gerir sob a forma de PPP, a Eng.ª Isabel Vaz disse (o JN noticiou, 02:V:2012):

«"Tivemos mais consultas de interrupção voluntária da gravidez do que de obstetrícia" para terem filhos, afirmou Isabel Vaz. "E algumas das pessoas a repetirem segunda e terceira vez", sublinhou a responsável, em Fátima, durante a sua intervenção no XXIV Encontro Nacional da Pastoral Social (sic).

«Os números dizem respeito a março e são os primeiros dados desde a Espírito Santo Saúdo que iniciou a gestão do hospital, em fevereiro.

«"Isto não tem nada a ver com ser ou não católico", destacou a responsável da entidade do Grupo Espírito Santo, lembrando que "a cobertura universal dos cuidados de saúde não é possível".

«Isabel Vaz sustentou que uma das "discussões sérias que tem que ser feita" é "sobre o que deve ser de facto pago por todos nós", porque "não há dinheiro para pagar tudo". Ou seja, "há que fazer escolhas", defendeu.

«A responsável explicou que "não vale a pena fazer declarações de amor ao Serviço Nacional de Saúde (SNS)". O que é imperioso, sustentou, é "gerir melhor".» [Jornal de Notícias, 02 Maio 2012, link em baixo]




A notícia dá a entender que houve, na intervenção da Eng.ª Isabel Vaz durante o encontro nacional organizado pela Pastoral da Saúde, referência a conteúdos que costumam ser enquadrados no âmbito das questões da Vida, nomeadamente, a questão da interrupção da gravidez. A notícia leva o leitor a pensar que a Interrupção Voluntária da Gravidez (IVG), na prática, é uma questão muitíssimo grave: induz a pensar que se aborta mais do que se dá à luz… Se a reprodução do conteúdo das palavras da Eng.ª Isabel Vaz é exacta e se a inferência o for também, estamos perante uma situação gravíssima, tendo a Igreja Católica razões demasiado sérias para se preocupar − a Igreja Católica e todo o país…

Se consultarmos os dados da Direcção Geral de Saúde (ver também o relatório da UMAR[1]), verificamos que a Eng.ª Isabel Vaz tem um tipo de leitura típica do ‘homem da rua’: a partir duma amostragem casual transpõe para a realidade nacional. O conteúdo da notícia (e igualmente os links abaixo)  revela-nos uma Eng.ª Isabel Vaz imbuída de ideologia neo-liberal, preconceituosa, desprovida da competência técnica mínima exigível. Que credibilidade merece tal gestora? Terá havido lugar ao contraditório, em Fátima?

Quem convidou esta gestora para ir falar a Fátima? Com que critério foi seleccionada? Como cristã ou como mais um(a) gestor(a) ligada(o) à banca? Que voz foi dada às associações de utentes do SNS? Sobre estas perguntas, na verdade, o jornal não nos fornece elementos - destaca, apenas, a figura da BES-Saúde. A hierarquia da Igreja Católica, sobretudo nos lugares mais altos da pirâmide, é regra geral ocupada por pessoas muito próximas do poder secular. Sendo assim é compreensível que se privilegie o convite a quem esteja no mesmo comprimento de onda: banqueiros, intelectuais, gestores, políticos, artistas que se revelam do mainstream, do campo do tradicional e do reprodutível pela maioria dominante. A Concordata, afinal de contas, é um acordo: é sempre mais agradável ‘mandar vir’ daquilo de que se gosta e que não incomode demasiado. Às vezes, a regra é quebrada, mas só muito às vezes – não foi o caso, desta feita, com a Eng.ª Isabel Vaz.

Quem diz que a «cobertura universal dos cuidados de saúde não é possível» e que a Saúde é um «negócio» − negócio só comparável à mais que iníqua indústria do armamento − em que «lugares de esperança» e para quem está a pensar quando em Fátima é convidada para falar a cristãos?

O que é que o evangelho de Jesus tem a dizer aos «lugares de esperança» promovidos pelo Banco Espírito Santo_Saúde?

Esta é, na actualidade da vida dos cristãos, talvez a «Questão da Vida» moralmente mais importante: a Saúde como um valor da lei natural, carrefour de todas as condições prévias a qualquer discurso sobre ética universal, base do «valor incomparável da pessoa humana», do «EVANGELIUM VITAE».

As ‘preocupações sociais’ começam com o básico: ter saúde de bom nível e acessível para todos, ter casa para todos, ter trabalho para todos e ter um país solidário, antes de tudo com os mais desprotegidos ou com quem de repente se viu lançado para o esgoto social por uma governação parcial, cega, «corrupta» (D. Januário Torgal Ferreira, bispo) e criminosa.

Outros links:

Entrevista:


SIC – DEBATE «FINANCIAMENTO DO SNS»


SNS NA AMÉRICA: A SAÚDE «PÚBLICA» É MELHOR
«Goverment Health Care is THE BEST HEALTH CARE MONEY CAN BUY!»




13 de agosto de 2012

IVG's E OS NEGÓCIOS

Interrupção Voluntária de Gravidez
uma análise sem preconceitos



Quando ideologias profundamente conservadoras e princípios economicistas tolhem uma análise séria dos dados e procuram descarada e novamente colocar o direito à saúde sexual e reprodutiva das mulheres sob a tutela de outrem

«Na passada quinta-feira, 3 de Maio, a Direcção-Geral da Saúde (DGS) deu a conhecer dois relatórios sobre os registos das Interrupções da Gravidez (IG) ao abrigo da Lei 16/2007 de 17 de Abril - um com dados referentes ao período de Janeiro a Dezembro de 2011 e outro com dados referentes ao período de Janeiro a Dezembro de 2010 (edição revista em Março de 2012).

«Estes relatórios permitem fazer as seguintes reflexões (…)»



Aqui pode descarregar o texto integral do relatório da UMAR



A SAÚDE É O NEGÓCIO...

Saúde Privada: Melhor e mais barata?



O discurso dos liberais para a privatização da Saúde assenta em dois argumentos: os privados fornecem um serviço melhor e mais barato para estado e utentes. É verdade?

Este é um debate muito útil para perceber melhor o que se está a passar nos Estados Unidos e os esforços que na Europa estão a ser conduzidos para nos aproximarmos desse modelo no sentido da concessão a ou financiamento de serviços de saúde privados, elegantemente descritas como "liberdade de escolha".

O que é interessante é que, no momento em que a completa falência do modelo de saúde nos Estados Unidos está a aumentar a pressão para uma mudança de paradigma no sentido do modelo europeu, haja quem na Europa pressione para que se faça o movimento contrário.

Vamos primeiro aos factos:

1. É pura e simplesmente falso que a saúde privada seja melhor. O modelo dos Estados Unidos assente nas seguradoras produziu resultados esclarecedores: Os Estados Unidos estão em 37º no Ranking da Organização Mundial de Saúde (ONU), antes da Eslovénia e logo a seguir à Costa Rica. Só para dar uma ideia: o primeiro país é a França e Portugal está em 12º.

2. É pura e simplesmente falso que saia mais barata [dados da OCDE].

3. É inclusive falso que saia mais cara ao próprio Estado. Embora os Estados Unidos gastem muito menos em percentagem da despesa total com saúde e os utentes (os que podem) paguem incomensuravelmente mais, os EUA são o 3º país do Mundo, mesmo considerando apenas os gastos do Estado [dados da OCDE outra vez].

4. Acresce que a despesa pública com saúde é paga com impostos que não são apenas os dos utentes. É financiado também pelos impostos sobre os rendimentos do capital, numa lógica solidária que é a razão de ser do Estado Social e o pilar da sua viabilidade.

Não admira, portanto, que os liberais se refugiem no discurso da Liberdade de Escolha. É mesmo o único que têm.

E é dirigido para seduzir aqueles que podem escolher.

Para que o Estado suporte um serviço de saúde de pior qualidade e muito mais caro em vez de o assegurar directamente, com vantagens de custo e de qualidade.

As concessões a privados, os benefícios fiscais a privados em cuidados de saúde que existem no Público, a inexistência de cuidados de saúde no público (saúde oral, p. ex.), são buracos abertos no Serviço Nacional de Saúde que vão corroendo a sua universalidade, qualidade e viabilidade.

Com pezinhos de lã, como convém a uma política tão gritantemente contrária ao interesse público. A área de Saúde é uma das áreas em que os liberais têm de ter mais cuidado para não dizerem o que realmente querem. Senão, acontece-lhes o que aconteceu a William Kristol... [VER VÍDEO EM BAIXO]

Ladrões de Bicicletas, blog
12 ABRIL 2010


 
SNS NA AMÉRICA:
«Goverment Health Care is THE BEST HEALTH CARE MONEY CAN BUY!»



10 de agosto de 2012

OS POBRES E A IGREJA

A pobreza como método pastoral





Cristo mergulha totalmente na tragédia humana, participando totalmente dela: Cristo «despoja-se dos seus privilégios, toma a forma dum escravo, faz-se homem exposto à dor e à morte na forma mais ignominiosa» [Fl 2:7-8]; «faz-se pobre» [2Cor 8:9]; «mergulha num clima de pecado» [2Cor 5:21]; «parece um homem-carne, como qualquer pecador» [Rm 8:3]; «nasce de uma mulher, nasce sob a Lei» [Gl 4:4].

O Novo Testamento apresenta a grande façanha de Cristo como um gesto de «empobrecimento voluntário» (2Cor 8:9). Partindo daí, perguntamo-nos:

1.   Que papel desempenha a pobreza na implantação progressiva do «kerigma» evangélico?
2.   Como é que a pobreza pode levar a Igreja a perder-se?
3.   Qual a relação entre ‘assistência social’ e missão da Igreja?



Leia AQUI a resposta de José Maria González Ruiz



9 de agosto de 2012

ESPIRITUALIDADE CRISTÃ: o que é?

uma espiritualidade da libertação





Situar-se na perspectiva do Reino é participar da luta pela libertação dos homens que são oprimidos por outros homens. É isto que muitos cristãos começaram a viver quando se comprometeram com o processo revolucionário latino-americano.

Se esta opção os afastou da comunidade cristã é porque muitos, nela, empenhados em domesticar a Boa Nova, os olham como membros desordeiros e até perigosos. Se nem sempre sabem expressar em termos apropriados as motivações profundas do seu compromisso, é porque a teologia que receberam e que partilham com outros cristãos não forjou as categorias necessárias para traduzir essa opção que procura situar-se de forma criadora frente às novas exigências do evangelho e do povo espoliado e oprimido deste sub-continente.

Mas, com o seu compromisso e com as suas tentativas de explicação, há mais inteligência da fé, mais fé, mais fidelidade ao Senhor que na doutrina (assim preferem chamar-lhe) «ortodoxa» dos círculos cristãos bem pensantes.[1] Doutrina, reforçada por medidas de autoridade e publicitada graças aos meios de comunicação, doutrina tão estática e desvitalizada, que nem sequer força tem para se afastar do evangelho é o evangelho que a abandona.

No entanto, as categorias teológicas não são suficientes.
É necessária uma atitude vital: global e sintética, que informe a totalidade e o detalhe da nossa vida. É necessária uma «espiritualidade». A espiritualidade, no sentido estrito e fundo do termo, é o domínio do Espírito. Se «a verdade nos fará livres» (Jo 8:32), o Espírito, que «nos conduzirá à verdade completa» (Jo 16:3), conduzir-nos-à à liberdade plena rumo à liberdade diante de tudo aquilo que nos impede de nos realizarmos como homens e filhos de Deus, e rumo à liberdade de modo a amar e entrar em comunhão com Deus e com os outros. Conduzir-nos-à pelo caminho da libertação, porque «aí onde está o Espírito do Senhor, aí está a liberdade» (2Cor 3:17).





Uma espiritualidade é uma forma concreta, movida pelo Espírito, de viver o evangelho, uma maneira precisa de viver «diante do Senhor» em solidariedade com todos os homens, «com o Senhor» e diante dos homens. Ela surge duma experiência espiritual intensa que imediatamente é tematizada e testemunhada. Em função dum compromisso com o processo de libertação, essa experiência está a começar a ser feita por alguns cristãos [este texto de G. Gutiérrez é de 1972]. Experiências de gerações anteriores amparam-na, mas também fazem-lhes ver que devem rasgar caminhos inéditos. Ao HOJE da história e do evangelho corresponde um PRESENTE da experiência espiritual que não pode ser escamoteado. Espiritualidade significa uma reordenação dos grandes eixos da vida cristã em função do tal presente. A novidade está na síntese que se opera ao provocar o aprofundamento de certos temas, ao fazer vir à superfície aspectos desconhecidos ou esquecidos e, sobretudo, na forma como tudo isso é transformado em vida, oração, compromisso, gesto.

A verdade é que um cristianismo que seja vivido no compromisso com o processo libertador apresenta problemas próprios que não podem ser descurados e encontra escolhos que é necessário superar. Para muitos, o encontro com o Senhor nessas circunstâncias pode eclipsar-se a favor daquilo que suscita e alimenta: o amor ao homem. Será um amor que ignora toda a plenitude que encerra em si. A dificuldade é real. Porém, as pistas de solução devem nascer no coração do próprio problema. Doutro modo, será apenas um remendo, um novo impasse. Este é o desafio que enfrenta a espiritualidade da libertação. Ali onde a opressão e a libertação do homem parecem esquecer Deus um Deus catado pela nossa especial e ampla indiferença diante dessas questões deve brotar a fé e a esperança naquele que vem extirpar de vez a injustiça e oferecer, de modo imprevisível, a liberdade total. Trata-se duma espiritualidade que ouse lançar raízes no solo constituído pela situação de opressão-libertação.

A espiritualidade da libertação estará centrada na conversão ao próximo, ao homem oprimido, à classe social espoliada, à raça desprezada, ao país dominado. A nossa conversão ao Senhor passa por este movimento. A conversão evangélica, com efeito, é a pedra de toque de toda a espiritualidade. Conversão significa uma transformação radical de nós próprios, significa pensar, sentir e viver como Cristo presente no homem despojado e alienado. Converter-se é comprometer-se com o processo de libertação dos pobres e dos explorados, comprometer-se lúcida, realista e concretamente. Não só de uma forma generosa, mas também através duma análise da situação e segundo uma estratégia de acção. Converter-se é saber e experimentar que, contrariamente às leis do mundo e da física, segundo o evangelho, só se está de pé quando o nosso eixo de gravidade passa fora de nós.

A conversão é um processo permanente, no qual, muitas vezes, os impasses nos obrigam a desfazer o caminho já feito e a começar de novo. Da nossa disponibilidade para o encetar, da nossa infância espiritual depende a fecundidade da nossa conversão. Qualquer conversão implica rotura, e querer converter-se sem conflitos é enganar-se e enganar os outros. «Todo aquele que ama o seu pai e a sua mãe mais do que a mim, não é digno de mim». [Mt 10:37] Não se trata de uma atitude intimista e recolhida a nossa conversão está condicionada pela envolvência socioeconómica, política, cultural, humana em que ela se desenrola. Sem uma mudança nessas estruturas não haverá autêntica conversão. Trata-se de uma rotura com as nossas categorias mentais, com a forma de nos relacionarmos com os outros, com o nosso modo de nos identificarmos com o Senhor e com o nosso meio cultural, com a nossa classe social, isto é, rotura com tudo aquilo que entrava uma solidariedade real e profunda para com aqueles que, em primeiro lugar, sofrem porque estão submetidos a uma situação de miséria e de injustiça. Só assim, e não com pretensas atitudes puramente interiores e espirituais, é que surgirá o «homem novo» a partir dos escombros do «homem velho».





O cristão ainda não operou suficientemente a sua conversão ao próximo, à justiça social, à história. Não percebeu, ainda, com a desejada clareza, que conhecer a Deus é realizar a justiça. Ainda não vive, num único gesto, com Deus e com os homens. Não se situa ainda em Cristo prescindindo de evadir-se da história humana concreta. Falta-lhe percorrer o caminho que leva a procurar efectivamente a paz do Senhor no coração da luta social.

Uma espiritualidade da libertação deve estar impregnada de uma vivência de gratuidade. A comunhão com o Senhor e com todos os homens é, antes de mais, um dom. Daí a universalidade e a radicalidade da libertação que ele oferece. Um dom que, antes de ser um chamamento à passividade, exige uma atitude vigilante. Este é um dos temas bíblicos mais constantes: o encontro com o Senhor supõe atenção, disposição activa, trabalho, fidelidade à sua vontade, frutificação dos talentos recebidos. Saber que na raiz da nossa existência pessoal e comunitária se encontra o dom da auto-comunicação de Deus e a graça da sua amizade enche de gratuidade a nossa vida. Isso faz-nos ler como um dom os nossos encontros com os outros homens, os nossos afectos: tudo o que acontece na nossa vida é dom. Só se ama autenticamente quando há entrega gratuita, sem condições nem coacção. Só o amor gratuito vai à raiz de nós mesmos e faz brotar a partir daí um verdadeiro amor.

A oração é uma experiência de gratuitidade. É um acto «ocioso», tempo «desperdiçado» que nos recorda que o Senhor está para lá das categorias do útil e do inútil.[2] Deus não é deste mundo. A gratuidade do seu dom, criadora de necessidades profundas, liberta-nos de qualquer alienação religiosa e, em última instância, de todo o tipo de alienação. O cristão comprometido no processo revolucionário latino-americano tem que encontrar os caminhos duma oração autêntica e não evasiva. Não se pode negar que a respeito disto estamos em crise e que facilmente enveredamos por becos sem saída.[3] Muitos são aqueles que, com nostalgia e no «exílio», evocando anos anteriores da sua vida, dizem com o salmista: «A minha alma estremece ao recordar quando passava em cortejo para a Casa do Senhor, entre gritos de júbilo e de louvor da multidão em festa» [Sl 42:5] Mas não se trata de voltar atrás: novas experiências e novas exigências tornam intransitáveis os caminhos familiares e tranquilizantes e fazem-nos tomar atalhos nos quais esperamos ser possível dizer, um dia, como Job: «Os meus ouvidos tinham ouvido falar de ti, mas agora vêem-te os meus próprios olhos.» (Job 42:5)

O único Deus credível, dizia com razão D. Bonhoeffer, é o Deus dos místicos. Porém, não é um Deus sem relação com a história humana. Bem pelo contrário. Como recordávamos no parágrafo anterior, se é verdade que é necessário passar pleo homem para chegar a Deus é igualmente verdade que a «passagem» por esse Deus gratuito me despoja, me desnuda, me universaliza e torna gratuito o meu amor pelos outros. Exigem-se esses dois movimentos dialecticamente para uma síntese. Esta síntese dá-se em Cristo: no Deus-homem encontramos Deus e o homem. Em Cristo, o homem dá uma face humana a Deus e Deus dá uma face divina ao homem.[4] Só assim poderemos compreender que a «união com o Senhor», que toda a espiritualidade proclama, não seja uma separação do homem: para chegar a essa união há que passar por esta síntese e ela, ao mesmo tempo, faz-me encontrar plenamente o homem. Com isto não se procura «equilibrar» o anteriormente dito, mas sim aprofundá-lo e enxergá-lo em todo o seu significado.

Esta conversão ao próximo, e, nele, ao Senhor, esta gratuidade que me permite encontrar em plenitude os demais, este único encontro fundador da comunhão dos homens entre si e dos homens com Deus, é a fonte da alegria cristã. Alegria que nasce do dom já recebido e, todavia, sempre esperado, e que se expressa no presente, pese embora a dureza e as tensões da luta pela construção duma sociedade justa. Todo o anúncio profético da libertação total vem acompanhado dum convite a participar no gozo escatológico: «Esta Jerusalém será a minha alegria e o meu povo o meu gozo.» (Is 65:19) Alegria que deve encher a nossa existência tornando-nos atentos ao dom da libertação inegral do homem e da história, bem como dos aspectos mais pequenos da nossa vida e da dos outros.




Este gozo não deve adormecer o nosso compromisso pelo homem que vive num mundo de injustiça, nem deve levar-nos à conciliação fácil e a baixo custo. Pelo contrário, a nossa alegria é pascal, é garantida pelo Espírito (Gal 5:22; 1Tm 1:6; Rm 14:17), passa pelo conflito com os grandes deste mundo e pela cruz até chegar à vida. Por isso a celebramos no presente recordando a páscoa do Senhor. Recordar Cristo é crer nele. E essa celebração é uma festa (Ap 19:7), uma festa da comunidade cristã, daqueles que confessam Cristo como Senhor da história, como libertador dos oprimidos. Essa comunidade é aquilo que se denominou ‘o templo estreito’ por oposição ao templo grande da história da humanidade.[5] Sem enquadramento comunitário não é possível nem o surgimento nem a vivência duma nova espiritualidade.

O Magnificat poderia expressar muito bem essa nova espiritualidade da libertação. Texto de acção de graças pelos dons do Senhor, expressa humildemente a alegria de se saber amado por ele: «O meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador. Porque pôs os olhos na humildade da sua serva… O Todo-poderoso fez em mim maravilhas.» (Lc 1:47-49) Mas, ao mesmo tempo, é um dos textos com maior conteúdo libertador e político do Novo Testamento. Essa acção de graças e essa alegria estão estreitamente ligadas à acção de Deus libertando os oprimidos e humilhando os poderosos: «Derrubou os poderosos de seus tronos e exaltou os humildes. Aos famintos encheu de bens e aos ricos despediu de mãos vazias.» (52-53)

O futuro da história está em linha com os pobres e os espoliados. A libertação autêntica será obra do próprio oprimido: nele, o Senhor salva a história. A espiritualidade da libertação tem como ponto de partida a espiritualidade dos ‘anawim.

Mais do que teologias, são os testemunhos vividos os que assinalarão, ou que já estão a assinalar agora, o rumo da espiritualidade da libertação. É nessa tarefa que está empenhada, na América Latina, aquela que em páginas anteriores designamos por «a primeira geração cristã».

Gustavo Gutiérrez
Teologia de la Liberación – perspectivas
Ed. Sígueme 1972, pp. 265-273


[1] Basta ler Camilo Torres ou Néstor Paz Zamora (para citar dois que deixaram algo escrito) para nos convencermos disto mesmo. Mal fariam os teólogos, chocados com certas deficiências de expressão, em não se entenderem com estes esforços por desentranhar o que a palavra do Senhor diz ao homem no contexto latino-americano.
[2] Cf. José Maria Gonzalez Ruiz, Dios es gratuito, pero no supérfluo. Madrid 1970.
[3] Tal facto foi lucidamente assinalado no documento da Pastoral de elites, em Medellín, 126.
[4] Se Vallejo tinha razão quando dizia: «Meu Deus, se tivesses sido homem, hoje saberias ser Deus», então  poderíamos dizer: «se tivesses sido Deus, hoje saberias ser homem».
[5] Conrad Eggers Lan, Cristianismo y nuestra ideologia. Buenos Aires 1968, 47-48, citado por J. L. Segundo, Desarrollo y subdesarrollo: polos teológicos: PD 43 (1970) 79.

RATZINGER E A TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO

A «TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO» em julgamento






Poucos meses depois de, em 1984, ser conhecida a INSTRUÇÃO SOBRE ALGUNS ASPECTOS DA «TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO», pelo punho do cardeal Joseph Ratzinger (na altura Prefeito da Congregação para Doutrina da Fé e actualmente Papa Bento XVI), deu-se início, sobretudo na América Latina, a um debate vivíssimo sobre a profundidade teológica e exegética da ‘Teologia da Libertação’ (TdL).

De entre as várias questões em juízo, relevam-se, à sorte, três. (1) O significado da expressão ‘libertação’; (2) as consequências fracturantes, para a comunidade eclesial, da TdL; (3) as teologias da libertação vs a autêntica TdL. Assistiu-se, assim, ao aprofundamento de conceitos e à extracção das consequências pastorais disso mesmo.

A «Instrução» apela para uma definição «radical» da libertação, procedendo, assim, a uma separação da «libertação religiosa» («libertação do coração»; cf. Jer 31:31ss; Ez 36:26ss) face à «libertação temporal» (Ex 3; Ex:5ss) como se fossem duas realidades que corressem paralelas uma à outra.

Por outro lado, a «Instrução» apela a uma «neutralidade» teológico-exegética que permita conciliar harmoniosamente, sem tensões fracturantes, as classes sociais mais abastadas com as mais desfavorecidas, sendo este ponto considerado como um ponto da TdL «perigoso» para a unidade da igreja sul-americana. Esta crítica tem que ver com a metodologia (‘crítica’ ou ‘não crítica’) da leitura da realidade (dos chamados SINAIS DOS TEMPOS), ou seja, este ponto relaciona-se com Ciências Sociais ‘dóceis’, ‘submissas’ ou ‘não dóceis’. A Instrução esquece-se que «os Sinais dos Tempos não dizem respeito às aspirações humanas estudadas pelas Ciências Sociais, mas àquelas que são objecto de um “discernimento crítico” proveniente desse critério epistemológico superior e religioso que é “a luz do evangelho”. [Juan Luis Segundo, ‘Respuesta al Cardenal Ratzinger’, Ed. Cristiandad, col. Senda Abierta, 1985 p. 57]

Por fim, a «Instrução» distingue ‘as teologias’ da libertação (III,3) da ‘correctamente entendida’ ou ‘autêntica’ TdL (IV,1 e VI,7), que é a que brota do entendimento que a Congregação faz dos pressupostos bíblicos mais vezes citados pela TdL. A Congregação presume que seja qual for a teologia que se produza seja em que ponto do globo for, ela terá que, inculturalmente, ser formulada sob os mesmos termos conceptuais independentes das circunstâncias em que é elaborada. Com isto recusa qualquer inculturação da fé (como se tal fosse possível…). A ser assim, a estas horas ainda estaríamos a celebrar a nossa fé pascal na sinagoga judaica… e o cristianismo não teria passado duma tendência ou corrente dentro do judaísmo. Nada mais absurdo!

Aliás, este terceiro ponto remete para uma questão central em matéria de interpretação das Escrituras. Após Pio XII, com “Divino Afflante Spiritu”, e após o Concílio Vaticano II, com “Dei Verbum”, os «exegetas católicos devem respeito ao sentido literal, ou seja, devem levar plenamente a sério a intenção e o contexto, bem como o género literário das passagens bíblicas que se examinem». [ibidem, JL Segundo, p.61]

Ora, tal princípio o da «intenção do autor» também deverá ser aplicado ao texto da «Instrução»: qual é a intenção do autor da Instrução? Onde quer ele chegar? Bem como outras questões: É ela neutra? É discutível ou será, porventura, de origem ‘divina’, dogmática, isenta de erro?

Prestes a fazer 20 anos sobre esta séria ‘advertência’ à TdL, que tanto sofrimento iria produzir nas Comunidade de Base na América Latina e ‘sangue’ iria fazer correr[1] por esse já martirizado continente (a lista dos teólogos da libertação ‘condenados’ por heresia espalha-se, hoje, por mais de um continente), constata-se que a disputa ainda continua: a questão está de pé. Veja-se o caso Torres Queiruga. Importa que cada um se debruce sobre ela: a questão é demasiado importante, não só pelos princípios teológicos que cada facção defende, mas sobretudo pelas consequências pastorais. Em última análise, trata-se de saber que tipo de igreja queremos.

Para aguçar o apetite em ordem a uma busca de informação mais completa acerca desta discussão teológica, ficam aqui algumas reflexões de Juan Luis Segundo (apenas) sobre a interpretação que a Congregação faz de alguns textos bíblicos fundantes da TdL. A seu ver, trata-se de uma exegese (‘sofrível’?) ao serviço duma opção teológica que se pretende «a autêntica», posta ao exercício dum poder autoritário (inquirições, proibições, correcções e condenações sem transparência ou direito a defesa).

[LER RESPOSTA DE JUAN LUIS SEGUNDO AQUI] 


[1] Veja-se o debate fracturante entre os irmãos Boff  (Leonardo e Clodóvis) no qual entrou o teólogo austríaco Paul Weiss com acrescentos valiosos.

6 de agosto de 2012

NAS MARGENS, A IGREJA

A marginalidade
como paradigma da vida do cristão





Sempre me chamou a atenção um texto de Dietrich Bonhoeffer no início de Sequela [Seguimento], em que ele fala da vida monástica. Ele afirma que o monaquismo consiste "pôr-se nas margens" para guardar "a graça cara", tornando-se "um protesto vivo contra a mundanização do cristianismo, contra a redução da graça a mercadorias baratas"[1].

Falando dos monges, Bonhoeffer afirma: "Nas margens da Igreja encontrava-se o lugar onde foi mantida desperta a cognição da graça cara, e  graça implica seguimento"[2].

A partir do Novo Testamento, poderia perguntar-se se o estar "nas margens" não é precisamente uma condição do cristão que vive a sua fé de modo autêntico. De fato, se percorrermos novamente os textos dos Evangelhos, podemos descobrir que o próprio Jesus viveu essa condição de "marginalidade" e escolheu, durante o seu ministério, aqueles que estavam nas margens da sociedade da sua época.

Um homem da aldeia e do deserto

Acima de tudo, tentemos considerar o espaço habitado por Jesus. Nos Evangelhos, Jesus é um homem sempre a caminho, que passa de vilarejo em vilarejo. No seu contínuo caminhar, Ele privilegia uma região marginal de Israel, a Galileia. Além disso, ele não entra em grandes cidades, mas sim em pequenas aldeias. Se levarmos em consideração unicamente os relatos evangélicos, podemos até mesmo pensar que, na época de Jesus, não havia, com exceção de Jerusalém, grandes centros habitados[3]. Bem pelo contrário: nós sabemos que, na realidade, não foi assim.

Trata-se, portanto, de uma escolha de Jesus o fato de privilegiar os vilarejos no seu ministério. A esse tema M. Pesce e A. Destro dedicaram algumas páginas sugestivas no seu livro L'uomo Gesù. Giorni, luoghi, incontri[4]. Referindo-se ao Evangelho de Marcos, eles afirmam que Jesus é "um homem de aldeia que olha para as grandes cidades e para todo o resto da Terra de Israel a partir de um ponto de vista periférico e marginal"[5].

O que pode significar essa preferência de Jesus pela aldeia?
As tentativas de dar uma resposta a essa pergunta certamente poderiam ser múltiplas; a nós basta unicamente fazer um sublinhado.

 O vilarejo é um lugar marginal, mas nem por isso menos importante, da vida social. As cidades são o lugar onde se tomam as decisões, onde se governa a vida social e económica. A aldeia, com a sua marginalidade, o seu apego às tradições, a sua natural resistência ao anonimato que a vida citadina pode trazer consigo, pode ser, de certo modo, uma "contestação" da cidade, um modo para se pôr nas margens e chamar a atenção para uma outra possibilidade de vida.

Jesus, além disso, não é somente um homem da aldeia, mas é também um habitante do deserto. A missão de Jesus inicia-se no deserto, onde o Espírito o leva para O fazer viver a prova (Mc 1, 12). O deserto é lugar marginal por excelência. Os primeiros monges no antigo Egito também se retirariam para o deserto para viver a prova e se tornarem numa advertência para toda a Igreja apontando para a radicalidade do seguimento do evangelho. No deserto, Jesus é "posto à prova" por Satanás e ali ele se revela como o homem segundo o sonho de Deus, capaz de recuperar a harmonia com a criação (cf. Mc 1, 13).

Para o deserto Jesus também se retiraria no término da "jornada de Cafarnaum", que abre o segundo Evangelho (cf. Mc 1, 21-39). Marcos narra que, "de madrugada, quando ainda estava escuro, Jesus se levantou e foi rezar num lugar deserto" (Mc 1, 35). Estamos no término de uma jornada típica de Jesus, na qual ele realizou obras grandes: ensinou na sinagoga com autoridade, libertou um endemoninhado, curou a sogra de Pedro e muitos outros doentes da cidade. Mas, de manhã cedo, Jesus afasta-se da multidão e do sucesso para se retirar para um lugar deserto a fim de rezar.

Quando Simão, juntamente com os outros discípulos, o encontra e o convida para regressar ao vilarejo a fim de continuar a obra que lhe trouxera tanto sucesso e notoriedade, Jesus diz-lhe: "Vamos para outros lugares, às aldeias da redondeza. Devo pregar também ali, pois foi para isso que eu vim" (Mc 1, 38). Dirigindo-se para um lugar deserto, na margem da aldeia, na oração, Jesus retorna ao sentido mais profundo e verdadeiro da sua missão - "Foi para isso que eu vim" - e reafirma a soberania de Deus sobre a sua própria vida. O deserto é para o próprio Jesus, para a sua vida, "o lugar marginal" para reencontrar o sentido das coisas.

Mais adiante no relato de Marcos, Jesus também vai convidar os seus discípulos, que regressam da missão à qual Ele os havia convidado, a dirigirem-se para um lugar deserto para repousar (Mc 6, 31-32). É como se Jesus quisesse indicar aos seus discípulos a necessidade de viver a missão como ele, encontrando no deserto, isto é, nas margens, o sentido autêntico das suas atividades. No deserto, alcançados pela multidão faminta de palavra e de pão, eles terão de descobrir que o sucesso da sua missão não dependerá de grandes ações e meios poderosos, mas sim da disponibilidade para pôr à disposição a própria pobreza - cinco pães e dois peixes (Mc 6, 38; também cf. 8, 5) - para que, a partir dela, o Senhor possa saciar uma multidão imensa de modo superabundante.

Amigo de publicanos e pecadores

Do ponto de vista das relações, Jesus também se apresenta como alguém que "vive nas margens". De fato, ele "afasta-se da própria família e da própria aldeia, expondo-se a instabilidades, incertezas e críticas. Ele é contra a estabilidade e contra a certeza. Escolhe uma vida que não tende a se enraizar em um tecido seguro e confortável"[6].

No Evangelho de Lucas, Jesus é chamado de "amigo de publicanos e pecadores" (Lucas 7, 34). O fato de que quem vê Jesus em ação possa dizer algo semelhante nos diz algo de muito significativo sobre as relações de Jesus. Se percorrermos o início do Evangelho de Marcos - o mais antigo dos evangelhos -, essa impressão é confirmada. Basta pensar que o primeiro gesto público que Jesus realiza não é nem um milagre, nem um grande discurso inaugural, mas sim o de se pôr na fila daqueles que iam ao encontro de João para serem batizados (Mc 1, 9-11).

João no deserto, e portanto ele também nas margens da vida social, "proclamava um batismo de conversão para o perdão dos pecados" (Mc 1, 4). Aqueles que iam até ele sentiam-se, portanto, necessitados de ser perdoados e de mudar de vida. Em Lucas, sabemos que iam até João diversas categorias de pessoas, entre as quais os publicanos, considerados pecadores públicos. Não é por acaso que Jesus inaugura a sua missão com esse gesto e que, justamente nesse momento, uma voz do céu o chama de "meu filho" e proclama a complacência divina para com ele (cf. Mc 1, 11).

 Continuando a percorrer o Evangelho de Marcos, encontramos a jornada de Cafarnaum. Como já dissemos, nesse dia, Jesus encontra um endemoninhado, uma mulher com febre e muitos outros doentes. Pessoas, portanto, que vivem uma situação limite e, muitas vezes, se pensarmos na sociedade da época, marginalizadas. Posteriormente, Jesus cura uma pessoa afectada pela lepra (Mc 1, 40-45), a pessoa marginalizada por excelência (cf. Lv 13, 45-46), à qual era proibido entrar nos centros habitados. Um homem que vivia às margens por constrição, e não por escolha. Por fim - mas os episódios poderiam ser outros -, lembremos o chamamento de Levi e o posterior banquete com os pecadores (Mc 2, 14-17). Nesse episódio, na comunhão à mesa, emerge a solidariedade de Jesus com as pessoas mais marginalizadas da sua época. Notemos que não se trata de justificar "de forma barata" a conduta equivocada de algumas categorias de pessoas, mas sim de assumir a atitude do médico que veio para curar (Mc 2, 17).

Fora da porta da cidade

A Carta aos Hebreus lembra que Jesus foi crucificado "fora da cidade" (Hb 13, 12), ou seja, nas margens do lugar santo. O próprio Jesus, portanto, além de ser "solidário" na sua vida, principalmente com aqueles que estão às margens, na sua Páscoa, sofre o destino dos malfeitores, como um marginalizado. Na paixão e morte de Jesus, emerge, do modo mais forte e provocante, a sua escolha de habitar as margens e de ser o amigo dos marginalizados. Nos acontecimentos pascais, revela-se aquilo que caracterizou toda a sua existência, isto é, a escolha dos últimos e dos marginalizados. No fundo, a sua própria morte é o fruto de tal escolha. De fato, a decisão, por parte dos fariseus e dos herodianos, de matar Jesus (em Marcos 3, 6)  coloca-se precisamente no término de uma série de episódios que evidenciam o comportamento provocador de Jesus com o qual ele revela o rosto do Pai.

Homens e mulheres da aldeia e do deserto

Qual pode ser, hoje, o sentido dessa escolha de marginalidade vivida por Jesus com os seus discípulos? Estes, como o seu mestre, devem HOJE ser homens e mulheres da aldeia e do deserto, habitando nas margens. Esse seu chamamento deve traduzir-se HOJE em escolhas concretas não para se tornarem uma "seita de puros", mas sim para lembrar, com o seu testemunho, o alegre anúncio de Deus que Jesus trouxe e foi.

Viver a marginalidade não significa separar-se da sociedade ou erguer-se como juízes dos outros, mas sim permitir que todos possam olhar com olhos diferentes, distanciar-se de uma vida que flui sem nunca se interrogar sobre a bondade e a beleza das escolhas que são feitas.

Das margens, de fato, pode-se chamar a atenção para as coisas que verdadeiramente importam e que muitas vezes corremos o risco de perder de vista.


Matteo Ferrari, monge italiano do Mosteiro de Camáldoli
CEBI - 31 de Julho de 2012

[O artigo foi publicado na revista Ricerca. A tradução é de Moisés Sbardelotto]






[1] D. Bonhoeffer. Sequela (= Obras de Dietrich Bonhoeffer 4). Bréscia: Queriniana, 20012,31.
[2] D. Bonhoeffer, Sequela, pp.30-31.
[3] Cf. A. Destro; M. Pesce. L'uomo Gesù. Giorni, luoghi, incontri di una vita. Milão: Mondadori, 2008, p.19.
[4] Cf. Destro; Pesce. L'uomo Gesù, pp.19-25.
[5] Destro; Pesce. L'uomo Gesù, p.22.
[6] Destro; Pesce, L'uomo Gesù, p.45.