teologia para leigos

30 de julho de 2012

REVERSO DO LOGRO

A crise vista por um escritor

Rosa Lage Bateira_estudo


A apresentação, no Porto, na Livraria Gato Vadio, no dia 25 de Março de 2011, do livro Telemóvel. 13 Histórias à moda antiga foi memorável. Pelo menos, para o autor, Ingo Schulze. O escritor alemão veio a Portugal propositadamente para nela participar e, este ano, já recordou publicamente a ocasião pelo menos duas vezes; uma, em Janeiro, no diário alemão Süddeutsche Zeitung; outra, na quinta-feira passada, no diário francês Libération.

É precisamente um episódio ocorrido na sessão portuense que faz arrancar o artigo que ocupa toda a página 16 do Libération, o quarto de uma série de cinco textos sobre a crise vista por escritores da zona euro:

“Em Março de 2011, fui a Portugal, convidado para apresentar um dos meus livros. Leitura, discussão, a noite tinha reunido um público numeroso e atento. Mas um jovem colocou uma questão que, de um momento para o outro, alterou a atmosfera até aí amigavelmente interessada e aberta”. A pergunta, que o escritor qualifica como “desagradável”, era simples: “Não estaríamos nós – e este “nós” também me incluía por ser alemão – em vias de obter graças ao euro e às exportações o que não tínhamos, antes, conseguido com os blindados?” Ingo Schulze conta que respondeu à letra: “Ninguém é obrigado a comprar um Mercedes e os portugueses deveriam ficar felizes por poderem aceder a créditos menos caros do que os empréstimos bancários habituais”.

Pouco depois, o escritor reconheceu que a pergunta e a resposta eram como que o verso e o reverso de um logro.

“Como se pode ser estúpido a ponto de acreditar que o problema são os alemães e os portugueses e não de quem, em Portugal e na Alemanha, provocou esta situação, que dela retirou proveito e que com ela continua a lucrar?”, interroga Ingo Schulze.

O texto do autor de Telemóvel. 13 Histórias à moda antiga, que a editora portuense 7 Nós publicou no ano passado, está repleto de questões assaz pertinentes. “Não é verdade que, em Portugal, tal como na Alemanha (e não apenas nestes países), os lucros foram privatizados e os prejuízos nacionalizados? Não é verdade que, em Portugal, tal como na Alemanha, todos os sectores da vida se têm vindo, cada vez mais, a submeter às regras da economia e à procura do lucro, mesmo em domínios em que tal é absurdo e mesmo perigoso?”

O texto apresenta uma veemente censura de Angela Merkel por ela defender “uma democracia que respeite o mercado”. Explica o escritor que “é inútil recorrer à etimologia para compreender que uma democracia que respeita o mercado não é uma democracia”. No entanto, a expressão da chanceler alemã tem a vantagem de designar correctamente o momento em que vivemos e torna mais fácil dizer qual a alternativa que se impõe. E o que é necessário é ter “mercados que respeitem a democracia”. De facto, como Ingo Schulze nota, “se quisermos sobreviver economicamente, socialmente, ecologicamente e eticamente, importa que os mercados respeitem a democracia”.

“Não é monstruoso ouvir dizer, quase todos os dias, que os governos devem ‘acalmar os mercados’ e ‘recuperar a confiança dos mercados’?

Por mercados, entende-se as bolsas e os mercados financeiros, ou seja, aqueles que, no seu próprio interesse ou no dos seus mandantes, especulam para obter o máximo de lucro. Não são eles quem tem extorquido à comunidade fortunas inimagináveis? É a confiança deles que os mais altos representantes do povo se devem esforçar por recuperar?”

Boas perguntas, as de Ingo Schulz. Previsivelmente, continuarão sem as respostas certas e urgentes, que importa continuar a reclamar. Como o escritor alemão bem observa, “é a colectividade, somos nós que devemos fixar as regras segundo as quais os mercados têm direito a funcionar. No fim de contas, somos nós que devemos dizer que tipo de sociedade queremos”.

Eduardo Jorge Madureira Lopes
OS DIAS DA SEMANA
29:VII:2012

27 de julho de 2012

FOMOS ENGANADOS

TEMPO DE PERDER ILUSÕES

Grafiti_R. da Restauração_Porto


Em pleno Verão, os portugueses estão a ser confrontados com informação económica, financeira e política que, mesmo que não saibam entender em profundidade, lhes dá uma vaga mas real sensação de que o país está em queda livre. É certo que já ouviram inúmeras vezes os especialistas dizer que os mercados financeiros estão a cobrar taxas um pouco mais baixas do que há um ano e que até já conseguimos equilibrar a balança comercial. Mas parece-lhes pouco, e precário, face à dinâmica depressiva em que o país caiu.

Infelizmente, os portugueses não fazem ideia de que este jornalismo económico não é especializado em coisa nenhuma e que, na esmagadora maioria dos casos, faz comentários sem fundamento sério, quando não se fica pela propaganda neoliberal.

Os portugueses começam a perceber que foram manipulados.

Primeiro, disseram-lhes que a crise teve origem externa mas que podíamos combatê-la fazendo alguns sacrifícios para apaziguar os mercados financeiros. Nada mais falso, como se vê desde que o processo começou na Grécia.

Depois, disseram-lhes que foi o país que “se pôs a jeito” gastando acima das suas posses, pelo que agora deve expiar pelos excessos da última década. Sim, houve excessos simétricos, do lado dos credores que induziram o endividamento e do lado dos devedores que se iludiram com o dinheiro fácil.

Mas importa lembrar dois pontos:

a) a participação na zona euro, eliminando a necessidade de um stock de divisas que em devido tempo daria o alerta, colocou o sistema bancário na lucrativa posição de agente, silencioso e conivente, que canaliza e distribui os recursos financeiros dos países com excedente comercial;

b) à parte o empreendimento imobiliário especulativo que também tivemos, o endividamento das famílias destinou-se, no essencial, à compra de habitação própria por falta de alternativa.

Em resumo, disseram aos portugueses que a adesão ao euro nos faria convergir para o nível de vida das economias mais desenvolvidas quando afinal, por força de uma construção institucional comandada pela ideologia neoliberal, para estar na zona euro temos de convergir para o terceiro-mundo.

Entretanto, a linguagem sacrificial tomou conta do jornalismo e da retórica dos especialistas, aliás em linha com a cultura dos credores do Norte da Europa. A finalidade é clara, mesmo que não consciente. É preciso incutir resignação nas classes sociais que estão a sofrer. Sem resignação, sem interiorização de que “não há alternativa”, não é possível aplicar a estratégia de desvalorização interna que troika e governo julgam indispensáveis para tirar o país da crise.

O modelo não tem precedentes que o recomendem mas, graças ao poder da ideologia neoliberal que tomou conta dos departamentos de economia das nossas universidades, ele é o farol que ilumina as mentes dos membros mais influentes deste governo, do governador do Banco de Portugal e dos economistas da troika, embora com dúvidas em alguns sectores do FMI.

Como seguidor fundamentalista de uma religião do mercado sem freios que promete a redenção aos devedores, desde que assumam a culpa e se sujeitem à austeridade, o governo fará o que for preciso para salvar o país, quer dizer afundará o país na depressão até que metade da população emigre, como na Letónia. Na ausência de um repúdio nacional que tenha tradução política eficaz, este “ajustamento estrutural” estenderá a todo o corpo social a crueldade que já atinge os doentes de oncologia.

Note-se que os tratados da UE impedem qualquer governo decente de executar políticas que estimulem estrategicamente a nossa economia.

Sem moeda própria, não há política cambial que torne relativamente mais barata a produção nacional, um instrumento indispensável para evitar fazer do desemprego de massa a variável de ajustamento na correcção do desequilíbrio externo. Sem procura interna, e agora também com menos exportações, não há crescimento que estabilize a dívida pública, muito menos reduzi-la. Sem um banco central, o nosso financiamento fica nas mãos dos especuladores ou da chantagem dos estados ricos do Norte da UE.

Jorge Bateira
26:VII:2012
Economista, co-autor do blogue Ladrões de Bicicletas

20 de julho de 2012

O REGRESSO DO SAGRADO

E, entre nós, como vão as coisas?

 

Quando a Igreja [no Brasil] vira circo


Era o mês de Julho do ano de 1963 e eu não tinha ainda completado sete anos de idade. Em Araci (Bahia), minha cidade natal, celebrava-se uma festa de arromba: o Jubileu de Ouro do Apostolado da Oração da paróquia.
Naquela época Araci era uma cidade pequenina formada apenas por três praças e menos de uma dezena de ruas. O município, com população quase toda rural, não passava de alguns milhares de habitantes. A cidade não tinha pároco e o padre vinha de vez em quando de Serrinha, a paróquia vizinha, situada a 36 quilômetros de distância. A região estava sendo assolada por uma seca que já durava quase três anos. Mesmo assim a festa aconteceu e o povo acorreu numeroso para participar, apesar de todo o sofrimento.

A abertura da festa se deu com a chegada do bispo diocesano de Feira de Santana (BA). Era a primeira vez que eu ia ver um bispo e nem sabia naquela época o que isso significava exatamente. Como toda criança, corri curioso, ao lado de meu pai, para a Praça da Matriz para ver a chegada de Sua Excelência. Fiquei impressionado. Uma figura imponente e vestida solenemente; usava luvas e sapatilhas e carregava atrás de si uma longa cauda, que era mantida suspensa a certa altura do chão por alguns caudatários. Entre esses caudatários estava um jovem seminarista, filho da minha terra e meu parente.

O bispo fez um discurso inflamado, rebuscado de frases em latim. Todos os presentes aplaudiram o "bom pregador", embora quase ninguém tenha entendido nada, especialmente aquelas frases ditas na "língua da missa" que só o sacristão Zequinha, seu ajudante Agenário e a professora Dona Marieta - a mulher que tocava o harmônio da igreja - entendiam um pouco. Depois disso, o bispo deu a bênção do Santíssimo Sacramento, rebuscada com mais latim, o "Tantum Ergo Sacramentum". A festa continuou por uma semana inteira: missas, pregações, confissões, batismos, casamentos e muito foguetório. Depois o bispo voltou para a sede da diocese, os missionários foram embora e o povo retornou para as suas casas. A vida voltou ao normal: luta contra a seca, fome, sede e miséria. "Seja o que Deus quiser", repetia conformado o povo dos pobres.




Quando a festa do Jubileu do Apostolado aconteceu, já tinha sido realizada a abertura do Concílio Vaticano II. Porém, tudo continuava sendo realizado no "velho rojão", como se dizia então. Missa em latim, de costas para o povo e sempre pela manhã; celebração dos sacramentos numa "língua embolada"; o povo sem entender nada.

Em minha cidade a primeira missa em português foi celebrada na tarde do dia 1º de Janeiro de 1965. O presidente da celebração, um velho frade capuchinho, quase não conseguia pronunciar as palavras em português, de tão acostumado que estava com as velhas fórmulas decoradas em latim.

O tempo passou, entrei para o seminário e passei a conhecer vários bispos. Morei sete anos na Itália. Lá vi cardeais, bispos e padres vestidos com muita solenidade. Mas nunca mais tinha visto um bispo carregando uma cauda e vestido com tanta pompa. João XXIII e Paulo VI tinham simplificado as coisas, expurgando da Igreja e da liturgia os resquícios imperiais que as caracterizavam. O próprio Paulo VI renunciou à tiara e à "sedia gestatória", uma espécie de trono sobre o qual o papa se assentava e era carregado nos ombros de alguns homens. O Concílio Vaticano II renovou a Igreja, simplificou tudo, fazendo com que as comunidades cristãs retornassem à pureza do Evangelho e ao essencial. Pediu que a Igreja renunciasse às glórias mundanas, desse sinal de humildade e abnegação e, como seu Fundador, fosse pobre e estivesse ao lado dos pobres (LG, 8).

 A liturgia deixou de ser uma atividade exclusiva de padres para ser ação de todo o povo de Deus, o qual, por força do batismo, tem o direito e o dever de participar ativamente das celebrações (SC, 14).

Pude ver então um dinamismo extraordinário nas comunidades cristãs, com o povo participando ativamente da liturgia. Dava gosto ver uma celebração e perceber as pessoas participando de muitos momentos. Os cantos litúrgicos eram entoados entusiasticamente por todas as pessoas presentes à celebração. As celebrações litúrgicas deixaram de ser ações privadas e realmente se converteram em celebrações da Igreja (ekklesía), passando, de fato, a pertencer ao "povo santo reunido" (SC, 26).





Mas o tempo passou, o Concílio foi sendo esquecido e "aposentado" e muita coisa "mofa" começou a voltar. Inclusive, para minha surpresa, as caudas dos bispos e cardeais e seus caudatários. E a coisa tem se complicado mais ainda porque a pós-modernidade chegou e atingiu de cheio as religiões, como nota sabiamente Bauman em seu livro «O mal-estar da pós-modernidade» (Rio de Janeiro: Zahar). Além disso, a pós-modernidade, segundo David Lyon no seu livro sobre o assunto (São Paulo: Paulus), foi se infiltrando também no cristianismo, o qual se tornou um item de consumo, embora "delicadamente embalado". Assim sendo, as propostas cristãs foram se transformando em mercadorias, que podem ser compradas ou rejeitadas de acordo com os caprichos ou gostos consumistas de cada um.





As lideranças, especialmente alguns padres, sucumbiram à sedução da tirania das imagens que passaram a serem usadas para seduzir as pessoas, especialmente as mais vulneráveis. Desta forma, tornaram-se profissionais do espetáculo e se utilizam disso para vender suas mercadorias religiosas e seus "kits de salvação", enchendo seus bolsos. As celebrações litúrgicas também foram transformadas em espetáculo, no qual alguns fazem o show, enquanto o povo permanece mudo e inerte.

Qual o resultado disso?

Gilberto Dupas, citando Debord, em seu livro «Ética e poder na sociedade da informação» (São Paulo: Unesp, 2011) responde de maneira magistral:

- o espetáculo é "o herdeiro da grande fraqueza do projeto filosófico ocidental". De fato, "como a filosofia jamais conseguiu superar a teologia, o espetáculo é a reconstrução material da fantasia religiosa, a realização técnica do exílio, a cisão consumada do interior do homem. O espetáculo funciona ‘quase como uma forma de reconstrução material da ilusão religiosa. Ela já não remete para o céu, mas abriga dentro de si sua recusa absoluta, seu paraíso ilusório'" (p. 52).

Aplicando à Igreja e à liturgia o que disse Dupas, podemos afirmar que o espetáculo faz da Igreja um circo. Quando certos padres, e "presbiretes", viram palhaços, "cuspidores de fogo na Igreja", transformam celebrações litúrgicas em shows.

Buscam, na verdade, minutos de glória fugaz para si, tratam a assembleia dos fiéis como uma massa de dementes e desvirtuam o espírito do Vaticano II. Com isso causam a alienação do fiel, o qual vira um mero expectador, levando-o a não mais participar plena e ativamente das celebrações e nem compreender e assumir a própria existência: a ser apenas um repetidor mecânico dos gestos de um padre animador de programa de auditório. Com isso o padre pop star não "remete as pessoas para o céu", mas as empurra para um "paraíso ilusório" revestido de pura fantasia.






Quando a Igreja vira circo ela se enfraquece porque deixa de contar com pessoas adultas na fé. Passa a ser uma Igreja infantil formada por "crianças" que são jogadas para cá e para lá pela artimanha de pregadores astutos (Ef 4,14).

Na Igreja-circo as pessoas passam a acreditar em qualquer coisa, a multiplicar objetos e kits de salvação e a fetichizar tudo. A comunidade cristã não cresce e nem se dinamiza porque é alimentada pelo obscurantismo.

Na Igreja-espetáculo, diferentemente do que se pensa, a incerteza passa a ser a regra e não há crescimento "sob todos os aspectos em direção a Cristo, que é a Cabeça" (Ef 4,15). Não existe mais uma fé sólida porque tudo está revestido de fragilidade em razão da debilidade dos espetáculos religiosos e da superposição de "mercadorias religiosas" propostas pelos animadores dos shows religiosos.




A atenção dos fiéis não se volta mais para a pessoa de Jesus Cristo, mas para o fanático e obsessivo pregador de bobagens. A Boa Nova é substituída por outro evangelho (Gl 1,6) e o deus pregado é o "deus do ventre" (Fl 3,19), ou seja, a glória, o orgulho, a vaidade e o exibicionismo desses animadores de missas shows e de programas religiosos baratos e vazios.

José Lisboa Moreira de Oliveira Filósofo. Doutor em teologia. Ex-assessor do Setor Vocações e Ministérios/CNBB. Ex-Presidente do Inst. de Past. Vocacional. É gestor e professor do Centro de Reflexão sobre Ética e Antropologia da Religião (CREAR) da Universidade Católica de Brasília.

Adital, 20:VII:2012




19 de julho de 2012

«ARRANJA-ME UM EMPREGO...»

Despedimentos colectivos
quase duplicam no 1º semestre



Nunca como no primeiro semestre de 2012 os despedimentos colectivos foram usados por tantas empresas e afectaram tantos trabalhadores.

Entre Janeiro e Junho deste ano, foram encerrados os processos de despedimentos colectivos relativos a 478 empresas, mais 83% do que no mesmo período do ano passado, afectando 4191 trabalhadores, um aumento de 92% face ao semestre homólogo.

Tanto num caso como noutro, trata-se dos valores mais elevados desde 1995 apurados para o primeiro semestre, sinal de que a crise continua a afectar de forma profunda e inédita o mercado de trabalho. E mesmo tendo em conta os totais anuais, só em 2009 e em 2011 o número de trabalhadores alvo de despedimento colectivo foi superior ao ocorrido na primeira metade de 2012. Nos restantes anos, o número total de pessoas afectadas por este tipo de despedimento nunca foi além dos 3500.

Até meados de 2008, o despedimento colectivo era encarado pelas empresas como uma solução de último recurso, devido à má imagem associada a um processo desta natureza, e a alternativa eram as rescisões amigáveis. Contudo, o agravamento da situação económica forçou uma mudança de atitude. Ao aumento dos despedimentos colectivos nos anos mais recentes tem correspondido uma redução das rescisões por mútuo acordo. No primeiro semestre as rescisões consensuais caíram 47%.

Na segunda metade de 2012 a tendência de aumento dos despedimentos colectivos deverá manter-se ou mesmo agravar-se. A Direcção-Geral do Emprego e das Relações do Trabalho (DGERT) dá conta de 568 empresas que iniciaram processos de despedimento colectivo no primeiro semestre deste ano, com o objectivo de dispensar 5911 pessoas, números muito superiores aos registados no ano passado (322 empresas e 3008 trabalhadores).

Os números ontem divulgados pela DGERT mostram que a deterioração da situação económica está a afectar sobretudo as empresas de menor dimensão.

As micro e pequenas empresas empregavam mais de metade (58%) dos trabalhadores efectivamente despedidos, enquanto as médias empresas foram responsáveis por 41,5% dos despedimentos colectivos e as empresas com mais de 250 trabalhadores por 16%.

Estes resultados, além de serem o reflexo do facto de grande parte do tecido empresarial português ser construído por empresas de pequena dimensão, podem estar relacionados com as opções de gestão das grandes empresas, que preferem optar por programas de rescisão amigáveis, que garantem menor exposição pública e menos intervenção dos sindicatos.





PME  lideram ranking

A maior parte dos processos de despedimento colectivo ocorreram em firmas com menos de 50 trabalhadores. Do total de empresas que recorreram a este mecanismo, 45% eram consideradas pequenas empresas, 36% eram micro, 13% médias e apenas 5% eram consideradas grandes empresas.
(…)

A cessação tem que estar relacionada com motivos de mercado, estruturais ou tecnológicas e a empresa tem de pagar uma compensação aos funcionários despedidos.

Embora os direitos adquiridos dos trabalhadores mais antigos estejam salvaguardados, as alterações ao Código do Trabalho, que entram em vigor a 1 de Agosto, reduzem significativamente essa compensação passando de 30 para 20 dias de salário por cada ano de antiguidade, com um limite máximo de 12 salários ou 240 salários mínimos.

E em Novembro as indemnizações deverão sofrer novo corte para 8 a 12 dias.

Raquel Martins
Jornal PÚBLICO, 19:VII:2012, p. 16

Em 2008:



DESEMPREGO DOCENTE



Desemprego entre os professores
tem o maior aumento
ao subir 151% num ano



O número de professores que, no final de Junho, estavam inscritos nos centros de emprego como desempregados registou uma aumento de quase 151% por comparação a igual período de 2011.

Os dados ontem divulgados pelo Instituto de Emprego e Formação Profissional (IEFP) voltam a confirmar que o grupo de “docentes do ensino secundário, superior e profissões similares” é aquele em que se tem registado um maior aumento do desemprego. É uma tendência que se tem vindo a afirmar nos últimos anos e que se aprofundou em 2012. (…)

Em Junho de 2011 estavam inscritos nos centros de emprego 2963 docentes. No mês passado, este número subiu para 7432. Por comparação a Maio de 2012, o aumento foi de 10%.

Esta ano o ensino superior foi o principal responsável pelo aumento do desemprego entre os docentes, indicou ao PÚBLICO o dirigente da Federação Nacional de Professores, Luís Lobo. O sindicalista lembra que os números respeitantes ao final de Junho, por coincidirem com o final do ano lectivo, são os que permitem traçar um retrato mais fiel da situação. O que se comprova agora, frisa, é que se registou uma “redução brutal do número de professores do ensino superior” por via da não renovação de contratos a termo, acrescenta.

Este cenário já tinha sido antecipado pelos sindicatos no final do ano passado, quando foram conhecidos os cortes previstos para o ensino superior no Orçamento do Estado de 2012. Os sindicatos indicaram então que o problema da não renovação de contratos não se iria colocar logo, uma vez que a distribuição do serviço lectivo já estava feita, mas sim no final do primeiro semestre ou do ano lectivo, como agora se confirma.

Mas apesar de o principal contributo para o aumento do desemprego docente ter vindo do superior, Luís Lobo, da Fenprof, frisa que também há mais professores do ensino básico e secundário no desemprego, o que para já é sobretudo consequência da criação de mega-agrupamentos, acrescenta.

 Uma situação que, segundo a Fenprof, irá disparar já no próximo ano por força da revisão da estrutura curricular e de outras medidas implementadas pelo actual ministro Nuno Crato e que, afirmam os sindicatos, poderão levar ao desemprego cerca de 25 mil professores contratados.[…]


Clara Viana
Jornal PÚBLICO, 19:VII:2012, p. 11


O ataque à Escola Pública tem uma história...