teologia para leigos

17 de julho de 2012

FUNCIONÁRIO PÚBLICO - O BODE EXPIATÓRIO



FUNÇÃO PÚBLICA,
NATAL DE 2011 E AUSTERIDADE

Austeridade custa à função pública 17% do poder de compra em 2012

Impacto dos cortes nos rendimentos dos funcionários públicos Função pública vai sofrer maior queda no poder de compra da última década

Funcionários do Estado perderam 30% do rendimento desde 2000.

Sector público arrisca fuga de quadros


A função pública, frequentemente vista como despesista, tem estado na linha da frente quando é preciso diminuir o buraco das contas públicas e, desta vez, não vai ser diferente. A eliminação dos subsídios de férias e de Natal, nos próximos dois anos, vai infligir aos funcionários do Estado a maior quebra do poder de compra registada na última década.

Juntando a isso a progressiva erosão dos rendimentos reais nos últimos anos, resultantes de congelamentos, cortes e subida da inflação, a função pública chegará ao próximo ano com menos 29,4% de rendimento.

Um cenário que não só terá um impacto profundo sobre o consumo privado e a economia, como pode gerar uma fuga de quadros para o sector privado ou mesmo para o exterior.

 Segundo os cálculos do PÚBLICO, os funcionários públicos vão perder 17,1% do poder de compra em 2012, a maior quebra na série de descidas que se vêm a verificar desde 2000. Na sua origem está um corte salarial equivalente a 14%, a que se soma uma subida da inflação prevista de 3,1%. Este corte salarial (que passa pela eliminação dos dois subsídios) estará ligeiramente sobrestimado, visto que é apenas aplicável aos vencimentos acima de 1000 euros (para os salários inferiores, entre 485 e 1000, a redução é, em média, de apenas um subsídio).

Juntos, estes cortes no 13.º e 14.º meses vão contribuir para mais de metade da perda total de poder de compra – 29,4% – que os funcionários públicos vão sofrer entre 2000 e 2012. E, no próximo ano, se a inflação for de 1,4%, como o Governo prevê, a perda de rendimento passa para 30,8%. Ou seja, em pouco mais de uma década, os funcionários do Estado perdem cerca de 300 euros por cada 1000 de salário. Nos escalões mais elevados, as perdas do poder de compra ultrapassam os 1000 euros.






As justificações

Desde 2000, a função pública tem tido actualizações salariais abaixo da inflação. A situação agravou-se com o congelamento dos salários superiores em 2003 e 2004 e, a partir de 2005, com o congelamento efectivo das progressões na carreira – o instrumento que, até então, permitia aos empregados do Estado "driblar" os baixos aumentos salariais.

A única excepção foi 2009 – ano de eleições – onde o Governo socialista, apesar da crise internacional, garantiu um aumento salarial de 2,9%, que, ajudado por uma inflação negativa, elevou o poder de compra em 3,7%. Contudo, logo no ano seguinte, os salários foram congelados e, este ano, sofreram um corte médio de 5%.

Com todos estes antecedentes, o que leva a que, uma vez mais, o esforço de ajustamento do Estado atinja os funcionários públicos?

A primeira justificação tem a ver com a própria natureza da medida em causa. Um corte do 13.º e 14.º mês constitui uma redução de despesa para o Estado, enquanto a aplicação da mesma medida sobre todos os trabalhadores nacionais teria de revestir a forma de um imposto extraordinário, como o que o Governo vai aplicar este ano. Ou seja, ao eliminar os subsídios de férias e Natal apenas para a função pública, o executivo pode dizer que cortou na despesa – algo que deverá contentar a troika que, na primeira avaliação ao cumprimento do programa de ajuda externa, pediu que, em 2012, houvesse mais medidas do lado da despesa e não da receita.





A isso juntam-se os argumentos usados pelo ministro das Finanças, Vítor Gaspar: a segurança de emprego do sector público e o facto de este ganhar, em média, 10% a 15% mais do que os trabalhadores do privado.
Contudo, nem o risco de desemprego está já tão distante (o próprio ministro admitiu que a alternativa ao corte dos subsídios seria dispensar entre 50 mil a 100 mil funcionários públicos), nem a diferença salarial é assim tão linear.

Um estudo de 2005 do Banco de Portugal mostrava que, apesar de os trabalhadores do Estado ganharem, em média, mais do que os do privado, havia um grande desfasamento em função das qualificações. Os trabalhadores do sector público com níveis mais baixos de qualificação recebiam mais do que no privado, mas a tendência invertia-se à medida que se subia na pirâmide.

Um desfasamento que deverá agora acentuar-se com as novas medidas de austeridade. É que os cortes nos subsídios de férias e Natal serão menores para quem ganha menos, pelo que a diferença em relação ao sector privado tenderá a aumentar para os funcionários público mais qualificados. Vários especialistas já estão a alertar para o risco de uma saída de quadros do Estado.

E, se o sector privado seguir as pisadas, propondo um corte de subsídios nas empresas para evitar o despedimento (como sugeriu ontem o presidente do Conselho para a Promoção da Internacionalização, Francisco Van Zeller), a fuga de cérebros será mesmo para fora do país.


Ana Rita Faria
Referência colhida aqui, post de João Rodrigues:







ÁGUA - «SEDE DE JUSTIÇA»

JN, 17:VII:2012


a crise está a deixar
MILHARES DE FAMÍLIAS
SEM ÁGUA EM CASA





Há cada vez mais faturas em atraso que separam as águas.
As dificuldades económicas dos portugueses estão a levá-los a prescindir, em muitos casos, de bens essenciais, como a água canalizada.

Segundo os dados obtidos pelo “Jornal de Notícias”, o fechar das torneiras aumentou, mais ou menos consoante as regiões, por parte dos serviços municipais e das empresas que gerem o sistema. Só em seis cidades, Viana do Castelo (800), Braga (213), Aveiro (200), Lisboa (1027), Coimbra (300) e Olhão (365), há perto de 3.000 famílias que todos os meses ficam sem água.



a água suja das Privatizações neoliberais... dos bens essenciais


Mas a “seca” será muito maior. Apesar de vários municípios contactados pelo JN se terem recusado a dar os números dos cortes de serviço, como foi o caso do Porto, o montante em dívida pressupõe o fim da água nas torneiras para muita gente.

No caso da Águas do Porto, por exemplo, as faturas acumuladas dos clientes ascendem a 14,3 milhões de euros. O calote já chegou aos 20 milhões, mas um plano de regularização sem juros e custas judiciais fez diminuir o montante. Em Lisboa, pelo contrário, a dívida dos clientes disparou 15% em 2011, atingindo dois milhões de euros.

A situação só não é mais grave porque vários municípios alargaram o prazo de pagamento ou permitiram que este fosse efetuado em prestações sem quebra de serviço. Uma postura que a associação de defesa do consumidor DECO elogia.





2.100 pessoas em 6 meses

Só nos primeiros 6 meses do ano, a DECO foi contactada por cerca de 2.100 pessoas com problemas relacionados com o setor da água (cortes de serviço e outros).

Natália Nunes, coordenadora do gabinete de apoio ao sobre-endividamento, lembra que a lei permite às empresas cortar o serviço após a receção do segundo aviso da primeira fatura em atraso.

Mas há empresas tolerantes, como a da cidade de Braga, que deixam acumular duas faturas. A partir daí, mais tarde ou mais cedo, a “fonte” acaba por secar.

João Paulo Costa
Jornal de Notícias, 17:VII:2012.



Um caso – Viana do Castelo
800 cortes/mês e diminuição do consumo


Volume de negócios: 12 milhões de euros
Número de clientes: 42 mil
População: 88 mil
          
Corte do serviço: 800 cortes/mês
Incobráveis: 1,5% a 2% da receita/ano
Tarifário Social: aumentou 300%
Consumo: diminuiu 10%
          Mudança de Escalão: 60% das famílias «migraram» para o 1º escalão    [0-5 m3]: menos consumo


Jornal de Notícias, 17:VII:2012




PORTUGAL, RESERVA NATURAL... DA ALEMANHA

Serra da Malcata - ao menos, protejam o Lince...

O PAÍS ESTÁ A FECHAR
nas zonas longe do Poder

Há 27 concelhos que perderam escolas e serviços de saúde e agora estão em risco de ficar sem tribunal.
Em 7 anos, encerraram 3481 escolas, 700 extensões de saúde, 9 maternidades e 16 urgências.


As sucessivas políticas de encerramento de serviços públicos penalizam sobretudo os distritos interiores do Norte e Centro. É o Estado a fechar-se ao Interior e a recuar nas funções sociais.


PORTUGAL - Reserva Natural...

É uma tripla ameaça: perderam escolas, serviços de saúde e estão na iminência de ficar sem tribunais. A investigação realizada pelo JN identificou 27 concelhos nestas circunstâncias, onde as populações têm dificuldade crescente no acesso aos serviços públicos que garantem direitos fundamentais: Educação, Saúde e Justiça.

Foram as Maternidades, as Urgências, as Consultas à Noite, as Extensões de Saúde nas localidades mais recônditas, as Escolas Primárias isoladas, primeiro com menos de 10 alunos e, mais recentemente, com menos de 21.

Agora são 54 Tribunais e já se fala de outras Repartições Públicas. O país está a fechar no interior, nas zonas mais afastadas dos centros do poder e a função social do Estado está em causa.

O JN fez o levantamento dos serviços públicos que fecharam e abriram desde 2005, altura em que começaram a ser implementadas, no primeiro Governo de Sócrates, as reformas da Saúde e na Educação. Alegou-se que a centralização de serviços iria melhorar a qualidade dos cuidados de saúde e do ensino.

O abandono dos campos


Fecharam 3481 escolas

Na prática, foram milhares de encerramentos só escolas do 1º Ciclo foram 3481, mais de 700 extensões de saúde, nove maternidades e 16 urgências hospitalares. Embora o saldo não possa ser reduzido à frieza das estatísticas, os números ajudam a retratar um país crescentemente clivado.

A extinção de tribunais, repartições de finanças e outros serviços públicos, que o Governo prepara em nome da racionalização de recursos, é mais do que uma nova vaga de cortes. É um rude golpe nas regiões mais afetadas pela interioridade e a macrocefalia bipolar do país.

Os distritos mais afetados são do interior Norte e Centro. Só em Bragança, há cinco concelhos que fazem o pleno das perdas. Carrazeda de Ansiães, por exemplo, ficou sem as 29 escolas do 1º Ciclo isoladas, o serviço de atendimento permanente (SAP) e o tribunal está na lista dos fechos. Alfândega da Fé, Miranda do Douro, Vimioso e Vinhais estão em idêntica situação.



Portugal, 'sítio' arqueológico...


Recuo das funções sociais

“É o Estado a fechar-se ao país com o recuo evidente das funções sociais”, considera o sociólogo Nélson Dias, que alerta para o risco de as zonas rurais se transformarem em “espaços museológicos”. “Votadas ao abandono e ao esquecimento”, as populações do Interior sentem que só são lembradas “quando é para cortar”, diz o presidente da associação In Loco e promotor dos orçamentos participativos.

Para o geógrafo Álvaro Domingues, “a desarticulação de políticas” do “Estado macrocéfalo e centralista” traduziu-se em medidas dispersas que acentuam o esvaziamento de algumas zonas e as clivagens regionais que sempre existiram. “O equilíbrio regional é um mito, nunca existiu”, considera o professor da Faculdade de Arquitectura do Porto, que reconhece, porém, que os encerramentos e a falta de políticas de emprego só pioram a situação. O que está em causa, diz o autor de “A vida no campo”, é um problema mais vasto: “É a metamorfose do Estado social num modelo de Estado liberal puro e duro”.

Helena Norte
Jornal de Notícias, 16:VII:2012




Só falta encherem isto tudo de eucaliptos ou de campos de golfe...


REGIÃO NORTE PERDE 1256 ESCOLAS

O Norte perdeu 1256 escolas, 177 extensões de saúde, 27 serviços de atendimento permanente (SAP), cinco blocos de partos e duas urgências hospitalares.

Ganhou 111 centros escolares (que podem ter várias turmas e receber alunos de diversas localidades) e 172 unidades de saúde familiares (USF), mas cerca de metade destes equipamentos está concentrada no Porto.

Bragança e Vila Real que perderam um total de 56 extensões de saúde e 653 escolas do 1º Ciclo receberam apenas cinco USF e 15 centros escolares. Em Vila Real, as populações viram desaparecer 381 escolas, uma maternidade, um serviço de urgência, cinco SAP e 22 extensões de saúde e estão em risco de perder seis tribunais.

Quatro concelhos (Boticas, Mondim de Basto, Valpaços e Sabrosa) fazem o pleno das perdas.

Em Viana do Castelo, fecharam 156 escolas, seis SAP e nove extensões de saúde e devem ser extintos dois tribunais. Quanto a aberturas, foram 11 USF e 19 centros escolares.

Melgaço perdeu as sete escolas isoladas, ficou sem o SAP e o tribunal consta da lista de extinções.

Braga e Porto são dois distritos que não vão perder tribunais e ao que mais ganhos registaram em unidades de saúde e centros escolares. O Porto recebeu 97 das 172 USF abertas e 59 dos 111 centros escolares construídos em toda a região. Braga ganhou 44 USF e 18 centros escolares.

Helena Norte
Jornal de Notícias, 16:VII:2012


Nem sempre o deserto é fértil...


16 de julho de 2012

«RSI - POBRES E MAL AGRADECIDOS...»

Beneficiários do RSI
vão ser obrigados a trabalho social


Ministro Mota Soares diz que vai mudar a lógica do RSI, que passará a ser um contrato estabelecido com o próprio Estado


'Indignados'_Praça da Batalha_Porto 2011



O ministro da Solidariedade e Segurança Social, Pedro Mota Soares, confirmou ontem que os beneficiários do Rendimento Social de Inserção (RSI) vão passar a ser obrigados a:

1.   procurar trabalho,
2.   fazer formação profissional e
3.   desempenhar tarefas úteis à sociedade.

“O Rendimento Social de Inserção é um direito, mas também tem de atribuir deveres”, frisou aos jornalistas, no final da inauguração da creche e centro de dia de Vilar Seco (Nelas), ao comentar a manchete do JN que referia “Beneficiários do RSI obrigados a trabalhar 15 horas semanais”.

Mota Soares disse que o Governo decidiu mudar “a lógica do RSI”, que “vai passar a ser efectivamente um contrato estabelecido com o próprio Estado”, em que este “paga uma prestação, mas quem beneficia dela tem um conjunto de obrigações”, nomeadamente “procurar activamente trabalho, fazer formação profissional e desempenhar tarefas que sejam úteis à comunidade e à sociedade”.

 Para o governante, as “medidas como o RSI têm de servir para verdadeiramente inserirem os beneficiários”, sendo esse o objectivo do Governo ao fazer “uma reforma muito profunda” neste rendimento, de forma a garantir que “muitas pessoas que têm idade e capacidade para o trabalho e estão a receber este rendimento passem a ter uma procura activa de trabalho e a estar inscritas nos centros de emprego. “Estimávamos que cerca de 50 a 60 mil pessoas que estavam a receber o RSI nem sequer tinham uma inscrição activa no centro de emprego, nem sequer tinham uma obrigação de procurarem um emprego ou uma formação profissional”, explicou.

Estes números mostraram ao Governo que “havia muito para fazer no combate ao excesso e à fraude”. Neste âmbito, Mota Soares considerou muito importante estabelecer protocolos com câmaras municipais, juntas de freguesia e instituições sociais, porque “são estas entidades que têm uma lógica de proximidade, que sabem verdadeiramente o que é que é útil às comunidades”.

Será no âmbito destes protocolos que os beneficiários do RSI vão “devolver também um pouco do esforço que a sociedade está a fazer a essa mesma sociedade, em tarefas que sejam, de facto, necessárias e úteis”. Segundo o ministro, em breve deverá ser publicado o diploma que permitirá estabelecer os protocolos com as câmaras municipais, as juntas de freguesia e as instituições sociais.

 “Situações em que as pessoas, pela sua idade, pela sua dificuldade, porque têm uma deficiência e não têm capacidade para o trabalho, estão excluídas do âmbito de aplicação deste diploma”, garantiu.

Mas “todas as pessoas que têm idade e capacidade para trabalhar e estão a receber uma prestação do Estado, devem devolver também à sociedade uma parte do apoio que a sociedade lhe dá”, sublinhou. Questionado sobre se as tarefas a desempenhar pelos beneficiários do RSI não vão substituir postos de trabalho existentes, o governante respondeu que “os próprios representantes das instituições sociais dizem que é perfeitamente possível encontrar um conjunto de tarefas que vão para lá daquelas que são as básicas essenciais de uma instituição social”.

Mota Soares lembrou que, com as novas regras do RSI, o Governo estima poder poupar cerca de 70 milhões de euros este ano. Esta foi a verba “necessária para fazer o aumento das pensões mínimas, das pensões sociais, das pensões rurais”, acrescentou.

Jornal «Público», 16:VII:2012, p. 11