teologia para leigos

12 de julho de 2012

ATEUS EM DEUS [A. de BOTTON]

Alain de Botton


Guia das religiões
para uso dos não crentes





«Imagino Deus como alguém que está presente, que olha por ti, que conhece a tua mente melhor do que tu próprio. Alguém com quem se partilha problemas, que cria momentos especiais de intensidade, e a sensação de um contacto directo com momentos de revelação. Imagino que quem acredita tenha essa capacidade para admitir que está perdido e tem esperança de que Deus o vai ajudar a encontrar o caminho. Tem a capacidade para admitir tudo, de ser muito honesto com Deus - porque Deus vai perdoar, porque Deus é amor e por isso nunca se está sozinho. Imagino que isso saiba muito bem. Simplesmente não me parece plausível.»

Esta a resposta de Alain de Botton à pergunta do Público: "Como é que imagina Deus?" A. de Botton, que diz não ter sensibilidade para a fé em Deus, pensa que os ateus têm muito a aprender com as religiões em problemas fundamentais. No seu livro, que já aqui apresentei, «Religião para Ateus − Um guia para não crentes sobre as utilizações da religião», escreve:

"A essência da tese apresentada aqui é que muitos dos problemas da alma moderna podem ser resolvidos graças a soluções propostas pelas religiões", cuja sabedoria "pertence a toda a humanidade, mesmo às pessoas mais racionais, e merece ser selectivamente reabsorvida pelos maiores inimigos do sobrenatural. As religiões são por vezes demasiado úteis, demasiado eficazes e inteligentes para serem entregues apenas aos crentes".

"Deus talvez esteja morto", mas os problemas que levaram até ele continuam aí e o ateísmo não pode esquecer as respostas das religiões, que continuam pertinentes. Tenho aqui sublinhado a necessidade que os crentes têm de ouvir os ateus, pois, pelo facto de se encontrarem fora, estão mais capacitados para se aperceberem da desumanidade, intolerância e superstição que se apoderam tantas vezes das religiões.

 Mas, agora, é um ateu que reconhece as vantagens e benefícios das religiões, a ponto de, ao contrário do que faz R. Dawkins, não pretender converter as pessoas religiosas ao ateísmo. Parece-lhe cruel e uma loucura "convencer alguém a deixar de acreditar em Deus", confessou também ao Público.

Ninguém sabe se Deus existe ou não. Volto sempre ao filósofo ateu André Comte-Sponville, que escreve que é tão imbecil alguém dizer que "sabe" que Deus existe como outro dizer que "sabe" que Deus não existe. De facto, Deus não é objecto de saber, mas de fé, e o crente tem razões e o não crente também tem razões. As religiões, sendo humanas, trazem consigo uma enorme herança de oportunismo, violência e miséria moral, mas são igualmente fonte de dignidade, verdade, imensa generosidade.

Para A. de Botton, um dos aspectos mais dramáticos do nosso tempo é a solidão, que as religiões superam mediante a vivência comunitária, onde conhecidos e desconhecidos se reconhecem como amigos. As religiões conhecem bem as fragilidades humanas - a angústia, as tentações de injustiça, a maldade, a paralisia dos remorsos pela incapacidade de atingir níveis decentes de integridade - e sabe lidar com elas.

Para lá do saber, interessam-se pela sabedoria: qual a finalidade do meu trabalho?, como devo amar?, como posso ser virtuoso?, como viver com arte?, qual o sentido da existência?

Questão essencial é a do ensino. Os espaços cimeiros do saber não apresentam o género de assistência dada pelas religiões, porque há "a convicção de que a Universidade se deve abster de toda a associação entre as obras culturais e as preocupações do indivíduo". No entanto, as necessidades íntimas permanecem e seria necessário haver cursos sobre como estar só, o trabalho, as relações com os filhos, o contacto com a natureza, o confronto com a doença e a morte.

Pede-se "uma Faculdade das relações humanas, um Instituto sobre a morte, um Centro do conhecimento de si". Adultos, continuamos com uma parte de infância em nós e "o culto mariano ousa sugerir a todos os ateus que também eles continuam vulneráveis e pré-racionais no seu coração". E a arte? O cristianismo sabe para que serve: "Um meio de nos lembrar o que conta." O silêncio, a contemplação, a virtude, a transcendência.

ANSELMO BORGES
Diário de Notícias, 7 Julho 2012



BOAT PEOPLE not WELCOME


Clandestinos
morrem de sede após 15 dias à deriva


Dos 55 emigrantes que largaram do porto de Tripoli na Líbia, num barco insuflável com destino à costa italiana, só um escapou com vida: um cidadão da Eritreia, recolhido ao largo de Tunes, e que ontem contou como a embarcação andou à deriva no mar Mediterrâneo durante duas semanas, com os passageiros a morrer, um a um, de desidratação – incluindo três familiares seus que também seguiam a bordo.

O náufrago, identificado como Abbes Settou, foi avistado na segunda-feira à noite, em alto-mar, por um barco de pescadores tunisinos, que alertaram a guarda costeira.

Estava agarrado a um bidão e à “carcaça” vazia da embarcação, onde 55 clandestinos, metade dos quais eritreus e outros somalis, se meteram para chegar a Itália, no final de Junho. Sem água potável a bordo, e ao fim de três dias à deriva, os passageiros começaram a morrer – de fome, de sede, de exaustão.







Settou, que está hospitalizado na Tunísia à guarda do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados, disse que o barco alcançou a costa italiana logo no primeiro dia, mas o vento voltou a empurrá-los para alto-mar. Durante os 15 dias seguintes, permaneceu à deriva, incapaz de comunicar porque o telefone satélite que levava a bordo não funcionava. (…)

Ontem, uma barca de 23 argelinos a bordo foi resgatada pela Guarda Civil de Almeria ao largo daquele porto espanhol.

O “trânsito” de emigrantes que arriscam cruzar o Mediterrâneo a partir da Líbia para vir trabalhar ilegalmente na Europa já trouxe mais de 1300 pessoas à costa italiana desde Janeiro. Em 2011, 1500 pessoas perderam a vida na travessia, e este ano já se registaram 170 mortes.

Rita Siza
Jornal PÚBLICO, 12 Julho 2012, p. 21






FARMÁCIAS FALIDAS


1131 farmácias sem dinheiro
para repor medicamentos



Há uma farmácia em Viseu que sempre que está de serviço à noite tem de pedir a outra medicamentos emprestados para poder responder às situações mais urgentes. Antibióticos e embalagens de remédios para as dores e febre. Substâncias básicas, que deixaram de estar disponíveis nas prateleiras porque tem o fornecimento suspenso com todos os distribuidores.

De acordo com os dados da Associação Nacional de Farmácias (ANF), em Junho, 1131 farmácias – quase 40% do universo nacional – tinham o fornecimento suspenso por não terem dinheiro para pagar a pelo menos um dos fornecedores. A dívida ronda os 235,3 milhões de euros.

Consequência, dizem, da baixa constante de preços, diminuição das margens de lucro e de menos pessoas a procurar as farmácias. (…)





“A dívida aos grossistas cresceu 38,5 milhões de euros de Dezembro até Junho. O valor ascende a 235,3 milhões de euros”, disse ao DN Paulo Duarte, secretário-geral da ANF: “Todas estas farmácias estão em risco de fechar”.

O responsável não hesita em dizer que “muitas farmácias vão desaparecer”. Os resultados, apontou, são negativos. “O que se ganha com as vendas já não chega para pagar os custos fixos”. A falta de dinheiro também tem reflexos diretos nos doentes. “As farmácias têm um stock cada vez mais reduzido e as falhas são cada vez maiores. Os doentes correm cinco e seis farmácias para encontrar um medicamento”.

Os primeiros a sair da lista de compras das farmácias são os mais caros. Depois seguem-se os outros. (…)

“As pessoas têm dificuldade em pagar, mesmo com baixos preços. Vão cada vez menos aos serviços de saúde por causa das taxas moderadoras, estão a perder apoios [sociais] e há muito desemprego”, disse Isaura Martinho, dona da farmácia Marvila, em Chelas.
Muitas farmácias, acrescentou, estão a negociar com os trabalhadores a baixa de ordenados. “Tenho colegas que estão a endividar-se. Dizem ter que vender a farmácia o mais rápido possível para não perderem a casa”, lamentou a farmacêutica.

Ana Maia, in Diário de Notícias
12 Julho 2012, p. 14



TRANSPORTES «PÚBLICOS» PRIVADOS?


PASSEdescontos para estudantes acabam
depois da redução dos descontos, o governo acaba de vez com os mesmos

Sérgio Monteiro


Os estudantes entre os 4 e os 23 anos vão deixar de ter direito a partir do próximo ano lectivo à redução de 25% nos passes, passando a ter acesso apenas ao desconto previsto para as famílias de menores rendimentos.

A confirmação foi dada por Sérgio Monteiro, secretário de Estado das Obras Públicas, Transportes e Comunicações. O responsável explicou que a partir de Setembro «terminará a subsidiação transversal» que existe actualmente nos passes 4_18 e sub23. (…) passando a existir descontos em função do rendimento do agregado familiar.





Em Fevereiro, o governo já tinha reduzido o desconto nestes passes, assim como nos títulos para reformados, de 50% para 25%.





Com o fim dos descontos para estudantes, os novos preços que terão de ser pagos para estes utentes representarão subidas de nove euros ou mais por título mensal. (…)

Na última ronda de aumentos nos custos de andar de transportes públicos, Sérgio Monteiro impôs também subidas médias de 10,5% nos títulos mais baratos, com a versão do Social+ para reformados, pensionistas e desempregados que ganhem menos de 503 euros por mês a disparar 8,5% no caso do passe Metro/Carris, 10% no caso do L1 e 11% no caso do passe L12, ou dois, três quatro e cinco euros, respectivamente.

Jornal i
12 Julho 2012, p. 8
F.P.C. com Lusa

10 de julho de 2012

SNS EM PERIGO


A Greve dos Médicos
- uma questão de justiça social




A Greve dos Médicos convocada, para 11 e 12 de Julho de 2012, pelos Sindicatos Médicos e apoiada de forma inequívoca, desde o primeiro momento, pela Ordem dos Médicos, tem como reivindicação essencial a defesa do Serviço Nacional de Saúde (SNS), o direito dos portugueses a cuidados de saúde qualificados e o respeito pela dignidade da profissão médica e dos médicos como seres humanos.

O SNS criado em 1979, teve como pilares essenciais o respeito pela dignidade de todas as pessoas, a igualdade de acesso e tratamento e a solidariedade social. Nunca, como agora, aquela que foi talvez, a maior conquista social da democracia, esteve tão fragilizada e em risco de ser definitivamente desmantelada e consumida pela máquina trituradora do Estado.

De facto, muitas das medidas adoptadas sucessivamente pelo Ministério da Saúde indicam claramente uma opção, que não é seguramente nada saudável para a qualidade dos cuidados de saúde e que não respeita minimamente os princípios fundadores do SNS.

 Quantos de nós, médicos, lidamos frequentemente com a incapacidade dos doentes cumprirem os seus tratamentos ou as suas consultas por dificuldades cada vez maiores.

O aumento exponencial das taxas moderadoras, a dificuldade de acesso aos transportes para os doentes mais desfavorecidos, as medidas impostas por alguns hospitais no acesso e no tratamento, entre muitas outras, têm contribuído, em associação com todas as outras medidas de austeridade bem conhecidas, para o mal-estar generalizado, dos doentes e dos profissionais de saúde.

Os médicos têm o dever e a obrigação de defender a qualidade da medicina e a saúde dos doentes e do SNS. É, antes de mais, uma questão de justiça social. Por isso, as nossas preocupações centram-se em medidas destinadas a preservar os princípios fundamentais que servem de base ao SNS e, concomitantemente, a defender a qualidade dos cuidados de saúde prestados aos doentes.

Desta forma, não abdicamos de exigir:

- A implementação prática e actualização das Carreiras Médicas com abertura de concursos públicos para contratação de médicos e para progressão na Carreira (em detrimento da contratação de prestação de serviços médicos, ao mais baixo preço como lotes de horas impessoais, a empresas privadas, que não garantem a qualidade que todos temos o direito de exigir);

- A revisão da grelha salarial com os Sindicatos Médicos, de acordo com o valor real da responsabilidade da profissão médica;

 - O respeito pelas competências dos profissionais médicos e pelo papel de coordenação das equipas de Saúde;

 - A publicação de legislação sobre o acto médico de acordo com proposta fundamentada já apresentada pela Ordem dos Médicos;

 - O respeito pela capacidade formativa das Faculdades de Medicina e pela qualidade de toda a Formação Médica;

  - A alteração da portaria sobre a DCI que permita aos doentes o poder de escolher, no acto médico, o medicamento do princípio activo prescrito;

- A alteração ou suspensão de medidas impostas pelo governo que têm resultado numa diminuição substancial do acesso aos cuidados de saúde para um número elevado de doentes;

 - A alteração urgente do actual processo de revisão das listas de utentes dos médicos de família;

 - A continuação da reforma positiva dos cuidados de saúde primários;

 - A participação da Ordem dos Médicos na definição de protocolos terapêuticos e de utilização de dispositivos médicos.

 Este é um momento histórico para os médicos e para o País.

Não podemos continuar a aceitar a violação permanente da dignidade dos médicos, dos doentes e do próprio SNS. Todos temos a obrigação de manter o nível de excelência do melhor Serviço público português, o Serviço Nacional de Saúde. Por isso, a Greve nacional decretada pelos Sindicatos e apoiada pela Ordem dos Médicos é, antes de tudo, uma obrigação moral da nossa classe em defesa da qualidade dos cuidados de saúde e dos doentes. A responsabilidade pela conquista da justiça das nossas convicções e dos nossos objectivos está na União de todos os Médicos e em cada um de nós.

O Conselho Regional do Norte da Ordem dos Médicos.
Porto, 9 de Julho de 2012.