teologia para leigos

4 de julho de 2012

JESUS FUNDOU UMA IGREJA? [VÍCTOR CODINA]


do JESUS HISTÓRICO à IGREJA

«Diziam: - '«Não é este o filho de José?'» [Lc 4:22]


Que relação existe entre Jesus e a Igreja?
Até que ponto se pode afirmar que Jesus fundou a Igreja?

Esta questão, que não é propriamente de dogmática, mas histórico-crítica, é relativamente moderna. Não existia no tempo dos Padres da Igreja nem existiu na época medieval. É um problema ligado à exegese moderna. Do ponto de vista dogmático, é claro que a Igreja é a Igreja de Jesus, ela é o seu Corpo, é a sua Esposa, está edificada sobre a pedra angular que é Cristo (Ef 2:20; Ap 21:14).

O Vaticano II resume nestas breves frases as diversas etapas em que se foi realizando o projecto do Pai para a Igreja: «prefigurada desde a origem do mundo, preparada na história de Israel, constituída nos tempos últimos, manifestada na efusão do Espírito e consumada no final dos tempos» (LG 2).

E, mais adiante, proclama claramente a dimensão trinitária da Igreja: «Assim se manifesta a Igreja como multidão reunida pela unidade do Pai, do Filho e do Espírito Santo» (LG 4, citando Cipriano).

Sem dúvida que a pergunta sobre a origem histórica da Igreja é importante, já que na génese da Igreja se esconde o seu modo de ser.

Quanto a esta questão, podemos distinguir três posturas claramente definidas.

Postura clássica Esta postura afirma uma continuidade sem rotura entre o Jesus histórico e a Igreja. Jesus «fundou» uma instituição nova, com os seus chefes (Mc 3:7), com Pedro à cabeça (Mt 16), com os seus sacramentos (do baptismo e da eucaristia), com a função de missionar todas as nações.

Nesta perspectiva, a Igreja é o prolongamento da encarnação de Jesus, nascera em Belém, é uma sociedade com estrutura divina, é estática, intocável. Ao fundar a Igreja, Cristo criou uma nova instituição religiosa, bem organizada e estruturalmente bem equipada.

Sem dúvida que esta postura tradicional encontra muitas dificuldades, quer do ponto de vista exegético quer do ponto de vista teológico, de modo a continuar a ser admitida:

os evangelhos não são simples narrações historicistas, mas narrações teológicas, isto é, não são uma cópia fiel daquilo que aconteceu, mas  possuem carácter de reflexão eclesial para as Igrejas. Em todos os temas sobre as origens, os evangelhos (tal como acontece, por exemplo, no Génesis), têm um marcado carácter simbólico. É aquilo que se denomina género literário ‘etiológico’ ou ‘de origens’.

a palavra igreja (ekklesia), em todos os evangelhos, só surge três vezes (em Mt 16:18; e 18:17) e vinte vezes nos Actos. Por outro lado, a expressão Reino de Deus aparece mais de cem vezes nos evangelhos, o que quer dizer que Jesus pregou o Reino de Deus e sua emergência próxima, em vez da Igreja.

Jesus não fundou uma seita à parte, do género dos essénios de Qumrán, mas dirigiu-se a Israel como um todo, a quem vinha reunir e congregar. Daí a sua preocupação primeira pela ovelhas de Israel (Mt 10:5-6) o que explica as dificuldades da Igreja primitiva em abrir-se aos gentios (cf. Actos 10).

os ‘doze’ constituem um símbolo: as doze tribos de Israel; são os juízes escatológicos de Israel; as promessas a Pedro sobre a Igreja (Mt 16:19s) têm um marcado sentido simbólico e etiológico e estão redigidas à luz da Páscoa e da aparição do Ressuscitado a Pedro.

os próprios sacramentos do baptismo e da eucaristia, na sua origem, têm um forte significado escatológico, de conversão ao verdadeiro Israel e de participação no banquete escatológico do Reino, adquirindo, só depois da Páscoa, um sentido propriamente eclesial.

dificilmente poderia Jesus ter pensado na Igreja na medida em que estava plenamente convencido que a escatologia irromperia definitivamente com ele (Mc 13), tal como pensa a exegese moderna.

Jesus teve lentamente consciência de que o seu plano de o Reino se instaurar durante a sua vida não iria ocorrer: a chamada ‘crise da Galileia’ (Mt 16:13; Mc 8:27; Lc 9:18; Jo 6:67), a sua rejeição por parte dos dirigentes e de amplas camadas do povo levaram-no à paixão, à cruz e à dispersão dos discípulos.

Por todos estes motivos, a tese que defende que Jesus fundou uma instituição religiosa na sua vida terrena, a qual denominou ‘igreja’, não parece ter fundamentação histórica: não corresponde à exegese bíblica actual, nem à cristologia, nem à própria história da Igreja, a qual nos mostra como o processo de estruturação da Igreja foi um processo lento (primado romano, ministérios, Canon das Escrituras, número dos sacramentos…). Esta postura, que afirma com razão o princípio cristológico, chave para a institucionalização da Igreja, omite a referência à Páscoa e ao princípio pneumatológico.

Postura cindente ou fracturante É uma tese contrária à anterior, na qual a Igreja aparece como acontecimento pneumatológico sem referência nem conexão cristológica. Esta posição revela uma total descontinuidade entre Jesus e a Igreja. A formulação mais radical desta tese é a do modernista Loisy: «Jesus pregou o Reino e nasceu a Igreja». Para esta postura, a Igreja nasce da fé pascal, mas sem ligação com o Jesus histórico (Bultmann). Jesus não fundou a Igreja: esta nasceu à margem ou, inclusivamente, talvez contra a vontade de Jesus.

Esta postura vai contra a convicção eclesial mantida durante séculos pela tradição cristã que diz que há uma estreita relação entre a Igreja e Jesus. Podemos dizer, retomando formulações cristológicas de Calcedónia, que a Igreja e Cristo se relacionam de forma inseparável (indivise), mas que não se podem confundir (inconfuse). É uma posição racionalista e liberal, que desagua no fideísmo. Ora, tal como em todos os erros, há aqui intuições válidas.





Postura dialéctica Esta posição tenta assumir os elementos válidos da duas anteriores, o princípio cristológico e o pneumatológico, a instituição e os acontecimentos. A Igreja não nasce em Belém, mas na Jerusalém pascal e pentecostal.

Ela afirma que há, entre Jesus e a Igreja, uma continuidade descontínua ou uma descontinuidade contínua. Esta posição, não só defendida por alguns biblistas e teólogos protestantes mas também por autores católicos (os exegetas R. Schnackenburg, J. Blank, A. Votgle, N. Lohfink e os teólogos dogmáticos E. Peterson, H. Küng, J. Ratzinger, K. Rahner, L. Boff, etc.), defende que há uma íntima e profunda relação entre a Igreja e Jesus, mas que esta relação tem um carácter processual, é progressiva.

Entre o Jesus histórico e a Igreja há uma profunda rotura provocada pelo mistério da morte e ressurreição de Jesus e a pela vinda do Espírito. Acontece depois da Páscoa-Pentecostes quando os doze se convertem em apóstolos, dos quais Pedro é o fundamento. O baptismo passa a ser sacramento eclesial de incorporação na comunidade de Jesus; a eucaristia alimento pascal da comunidade eclesial; a Igreja prega Jesus como o centro do Reino e convoca a nova comunidade como comunidade do Reino de Deus. Mais: a rejeição por parte de Israel (simbolizada pela morte de Estêvão – Act 7:1-60 -  e pela destruição do Templo) marcará decisivamente a abertura da Igreja aos gentios e a passagem ao universalismo.

Esta posição é a que está por trás das afirmações tradicionais de que a Igreja nasceu no Pentecostes ou da leitura patrística do mistério do sangue e da água que brotam do lado de Cristo crucificado: a água simboliza o baptismo e o sangue a eucaristia, sacramento da futura Igreja pascal.

Há que admitir com muita clareza que a Igreja liga-se ao movimento de restauração de todo o povo de Deus iniciado por Jesus, mas que não se constitui como tal a não ser depois da Páscoa-Pentecostes, depois do fracasso da cruz e da dispersão dos discípulos.

Esta Igreja pascal e pentecostal, que surge sob a força do Espírito, não se pode desvincular do Jesus histórico, do seu plano de congregar o novo Israel, do chamamento de um grupo de discípulos, da sua pregação, do seu estilo de vida, do seu rebaixamento (kenosis), da sua opção pelos marginalizados que o levará à paixão e à cruz. Assim, a Igreja deverá ser sempre referida ao Jesus histórico. É assim que se explica que os evangelhos tenham sido escritos após os escritos paulinos como uma exigência em se conhecer a vida de Jesus histórico a fim de fundamentar a comunidade eclesial nascente como comunidade de Jesus.

Nesta perspectiva, a fundação da Igreja tem um carácter eminentemente teológico (funda-se em Jesus) e dinâmico-processual: é um processo, uma génesis que começa com o Jesus histórico, passa pela cruz e pela ressurreição até chegar ao Pentecostes.

O Vaticano II também prefere evitar a palavra fundação, e diz textualmente: «O Senhor deu início [initium fecit] à sua Igreja pregando a Boa Nova, isto é, a chegada do Reino de Deus» (LG 5) (…)

Podemos, enfim, distinguir as posturas quanto à origem da Igreja:

fundação: instituição organizada por Jesus; Jesus é o fundador;

experiência fundante: fundamentada no movimento profético de Jesus que veio para reunir o povo de Deus; experiência radicada em Jesus (princípio cristológico) e na experiência pascal (princípio pneumatológico). Jesus é o fundamento da Igreja, a sua pedra fundamental e angular;



Tudo isto tem consequências importantes para a vida eclesial. É muito distinto conceber a Igreja a partir dos começos como algo estático, a-histórico, fundada de forma fixa e perene ou concebê-la como algo histórico e dinâmico, que tem a sua pré-história no Antigo Testamento, se articula com a comunidade reunida à volta de Jesus histórico, que como tal se manifesta depois da Páscoa-Pentecostes e se abre aos gentios desligando-se do judaísmo. O próprio Primado romano funda-se num facto histórico e contingente como é o caso do martírio de Pedro e de Paulo em Roma. Certas formas de imobilismo eclesial estão ligadas a uma visão fixista da origem da Igreja.

Por outro lado, a postura cindente ou fracturante também tem consequências funestas: se a Igreja se desliga de Jesus, ficamos sem saber qual é o estilo específico da vida eclesial, caímos na maior das arbitrariedades já que, fora do seguimento de Jesus, tudo seria permitido na Igreja.

A visão dialéctica está mais conforme com a história da salvação: Deus actua na história, mas respeitando as liberdades e entrando no jogo humano. A Igreja é obra de Deus, mas obra ao longo da história - atravessada pela rejeição judaica, pelo fracasso de Cristo em instaurar o reino de Deus, pela conversão dos gentios. Esta é a maneira de actuar de Deus: respeito pela liberdade humana e escrevendo direito por linhas tortas, como dizia Santo Agostinho.

Esta postura mantém um duplo princípio na Igreja: o princípio cristológico e o princípio pneumatológico. A Igreja não procede unicamente do Jesus histórico sem referência ao Espírito, nem procede do Espírito sem referência ao Jesus histórico; ambos actuam na história humana, história concreta e contingente.

Isto significa que a Igreja deve ser fiel às opções e estilos do Jesus histórico (pobreza, compaixão pelos marginalizados, pregação do Reino, congregação de discípulos, oração ao Pai, a cruz) e, no caso de os ignorar, deixaria de ser memorial na história. Por outro lado, deve também deixar-se levar pelo Espírito de Jesus, confiar nele, confiar na sua presença sabendo que o Espírito é maior do que a igreja e que ele actua onde quer, como quer, criando sempre o novo.


a Igreja dos mártires


CONCLUSÃO

A afirmação de que Jesus fundou a Igreja, ainda que esteja correcta e expresse algo muito válido, pode ser ambígua caso não seja bem explicada:

diz demais, na medida em que a teologia pós-pascal da comunidade primitiva (tal como ficou plasmada nas Escrituras) não é historicamente demonstrável no tempo pré-pascal;

diz demasiado pouco, pois minimiza a visão da Igreja e a sua relação com Jesus reduzindo a igreja a um facto pré-pascal e pré-pneumatológico;

Hoje em dia prefere-se dizer que Jesus é o fundamento da Igreja ou que a Igreja tem uma eclesiogénese que vai do Jesus histórico até ao Pentecostes.

Esta visão permite algo muito importante: a Igreja não se pode centrar em si mesma, mas deve abrir-se às exigências do Reino que é o horizonte para o qual ela deve tender. Ela mesma é sacramento do Reino de Deus.

Em suma, escreve Rafael Aguirre, «o problema não está em saber se Jesus fundou a Igreja, mas como tem que ser a Igreja se quer estar fundada em Jesus» (R. Aguirre, La  Iglesia de Jerusalén, Bilbao 1989, p. 41).

Podemos terminar com um texto de Leonardo Boff:

«Do exposto conclui-se que a Igreja nasce a partir do acontecimento cristológico no seu todo, desempenhando a ressurreição e o Espírito Santo um papel especial na tomada de decisão dos apóstolos. Agora podemos compreender melhor a nossa afirmação de que Jesus fundou a Igreja. (…)»
«Hoje quando entrevemos a possibilidade de uma reinvenção da Igreja, reflexões deste tipo apresentam-se-nos surpreendentemente libertadoras. Oxigenam a atmosfera teológico-pastoral para que se possa tentar o ainda não experimentado. Se com o Papa Paulo VI reconhecemos a presença do Espírito na origem das comunidades de base (discurso de clausura do Sínodo de 1974), então devemos acompanhar atentamente e acolher o surgimento de uma nova forma de presença da Igreja no meio dos homens, com novos serviços e com tarefas e estilos novos face aos serviços antigos e tradicionais.» (L. Boff, Eclesiogénesis. Las comunidades de base reinventam la Iglesia, Santander 1979, pp. 94-95)

Victor Codina, sj
Professor (catalão) de Teologia em Barcelona durante vinte anos. Após 1993, é professor de Teologia na Universidade Católica Boliviana de Cochabamba, exercendo também trabalho pastoral junto de mineiros e em bairros periféricos de Oruro, Santa Cruz e Cochabamba.
in 'La Eclesiología desde América Latina', Verbo Divino 2008, pp. 40-45.


3 de julho de 2012

ECLESIOLOGIA - SEUS FUNDAMENTOS (VÍCTOR CODINA)


Princípios estruturadores e constitutivos
de qualquer eclesiologia



Face a todos os modelos eclesiológicos que, ao longo da história, se foram desenvolvendo surge a pergunta se não há princípios estruturadores, básicos, constitutivos de toda a eclesiologia. (…)

A fim de lhe conferir uma certa formulação narrativa, podemos dizer que a Igreja é:

1.    o Povo convocado pelo Pai,
2.    que faz memória da Páscoa e prossegue o caminho de Jesus rumo ao Reino,
3.    impulsionado pelo Espírito.


A Igreja é o Povo convocado pelo Pai

Isto implica a aceitação da dimensão comunitária como algo inerente à Igreja: é uma comunidade fraterna de baptizados, fiéis à Palavra dos apóstolos (Kerigma), com uma estrutura sacramental e eucarística (liturgia) presidida pelos pastores que sucedem a Pedro e aos outros apóstolos na responsabilidade de confirmar a fé e animar a comunhão eclesial; uma comunidade com pluralidade de carismas suscitados pelo Espírito que faz com que todos os fiéis sejam co-responsáveis e membros activos, com uma especial sensibilidade e solidariedade para com os mais necessitados (diakonia).

Porém, esta comunidade é convocada pelo Pai, ela faz parte do desígnio salvífico do Pai, da sua vontade universal, o qual, ao eleger Israel, quis com isso constituir um signo visível do seu amor para com todos os povos. É este Povo de Israel que, depois da Páscoa, se converterá na Igreja, Novo Povo de Deus. Esta comunidade é remetida para uma origem que a transcende, é uma eleição gratuita do Pai, tem o seu centro fora dela, o qual está no mistério trinitário de Deus. Esta comunidade não se fecha em si mesma, possui uma missão que vai para lá dela, abre-se a todos, é missionária, universal.

Esta comunidade constitui um Povo, isto é, possui uma dimensão social, histórica e dinâmica, que avança para o Reino, em pluralidade de raças, culturas e etnias em comunhão, de forma sinodal. Graças a este princípio, a Igreja é una e católica. A ausência deste princípio (constitutivo de qualquer eclesiologia) produz divisões internas, clericalismo e mundanização da Igreja.


A Igreja faz memória da Páscoa e prossegue o caminho de Jesus rumo ao Reino

A Igreja é um acontecimento pascal, nasce na Páscoa do Senhor morto e ressuscitado. Tal como a Páscoa judaica do Êxodo foi o acontecimento fundador do Povo de Israel, assim a Páscoa de Jesus o é para a igreja. Assim a Igreja, na eucaristia, faz continuamente memória deste acontecimento pascal de modo que «a Igreja faz a eucaristia e a eucaristia faz a Igreja». Ao celebrar na sua liturgia a Páscoa, a Igreja reconhece-se referida continuamente ao Senhor Jesus: é a Igreja de Jesus, de mais ninguém. A presidência da Igreja de Jesus e da eucaristia pelos ministros ordenados que sucederam aos apóstolos não pode ofuscar esta referência última a Jesus, a quem eles representam diante da comunidade.

Esta eucaristia pascal não só torna presente o Corpo eucarístico ressuscitado sob os sinais do pão e do vinho partilhado, como realiza e presentifica o Corpo eclesial do Senhor, de tal modo que a Igreja é realmente o Corpo de Cristo, Cristo presente em forma comunitária, personalidade corporativa de Cristo, o Cristo total agustiniano.

Mas a Igreja não só actualiza liturgicamente a memória de Jesus na eucaristia, como também, como Corpo de Cristo na história, actualiza a praxis de Jesus de Nazaré, que, assim, igualmente prossegue o seu caminho rumo ao Reino, segundo um estilo de vida nazareno: assumindo as suas opções, em especial a sua opção pelos pobres, pelos marginalizados, pelos pecadores e pelos excluídos. Com estes se identifica, a estes convida ao Banquete do reino e a estes constitui como ‘juízo universal sobre as nações’.

Esta Igreja fundada em Cristo, cimentada no testemunho e na missão dos apóstolos, é Igreja apostólica que nos transmite o evangelho de Jesus. Sempre que a Igreja esquece esta referência fundamental a Jesus converte-se em mais uma sociedade, mundana ou triunfalista, convencendo-se que ela é que é o Reino de Deus na terra.


Homenagem popular a Mons. Óscar Romero


Pela força do Espírito

A Igreja vive da força do Espírito, é Templo do Espírito, o que implica que possui um dinamismo interno constante, uma tensão escatológica rumo ao Reino e uma permanente fecundidade espiritual. É o Espírito que santifica a Igreja, é o Espírito que a vivifica com os sacramentos, com o martírio, o dom da fé, a infalibilidade, o ministério dos pastores, os carismas dos leigos, com a vida religiosa, a tensão para a missão, a fortaleza no martírio…

Este Espírito que adejava nos começos da criação, que guiou o Povo de Israel e que suscitou profetas, é o mesmo Espírito que faz nascer Jesus da virgem Maria, que unge Jesus no seu baptismo, que guia os seus passos ao longo de toda a sua vida pública e o faz evangelizar os pobres, é o mesmo que o ressuscita dentre os mortos, é o mesmo que será derramado, na Páscoa, sobre a comunidade de discípulos e discípulas impulsionando-os à missão.

Este Espírito sustenta a Igreja aquando das dificuldades, debilidades e perseguições, suscita carismas e profetas e é igualmente o mesmo Espírito que está presente na história da humanidade através das diferentes culturas, das religiões e dos sinais dos tempos que, continuadamente, devem ser auscultados e discernidos.

Quando se esquece esta presença do Espírito a Igreja converte-se em algo meramente institucional, jurídico, fixista, monocêntrico, moralista, sem um futuro esperançoso.

Em suma, a eclesiologia entendida como Povo de Deus convocado pelo Pai, Corpo de Cristo e Templo do Espírito retoma as imagens bíblicas mais tradicionais, mantém a dimensão trinitária e expressa a identidade constitutiva da Igreja que a diferencia doutros grupos e associações culturais, políticas e sociais, bem como de outras comunidades religiosas não cristãs.


Do pluralismo à opção

Porém, não se pode deduzir de aqui que os diversos modelos de eclesiologia que foram expostos são indiferentes. Em cada momento a Igreja tem de optar pelo modelo que lhe pareça que responde às exigências dos tempos e do evangelho. Neste sentido, deve dizer-se que alguns esquemas e modelos estiveram bem num determinado momento, mas talvez já não sejam adequados para o momento presente.

Qual será o modelo que melhor responde aos sinais dos tempos de hoje? (…)

Digamos que a igreja libertadora ou dita dos pobres não é uma seita ou uma Igreja paralela à Igreja institucional, mas é um movimento de renovação no interior da Igreja universal em comunhão com ela. É um movimento profético que se realiza a partir duma experiência espiritual e teológica nova, tal como acontece nas CEB’s (Comunidades Eclesiais de Base) e nos movimentos populares onde os cristãos estão presentes.

No regime da Cristandade, as classes dominantes utilizavam a Igreja institucional para legitimar o sistema de dominação capitalista e neoliberal, ao mesmo tempo que a hierarquia utilizava o poder social dominante para cristianizar a sociedade e ajudar os pobres.

Na América Latina, desde a década de 1960, a Igreja tomou consciência de que o capitalismo neoliberal, agora globalizado, é um regime de morte, é um darwinismo social no qual apenas os mais fortes sobrevivem enquanto que os pobres morrem e aumenta a distância entre ‘os poucos ricos e os muitos pobres’. Por isso, desta experiência de morte e da experiência de vida que o Espírito suscita ao longo do caminho libertador, surge um novo modelo de Igreja libertadora onde os pobres são o sujeito social.

Para a América Latina, optar por uma Igreja libertadora não é uma moda, nem uma veleidade: é consequência da necessidade de optar pelos pobres e pelos diferentes como resposta aos sinais dos tempos. Os pobres, com a luz do Espírito que o Senhor concede aos ‘pequeninos’, sintonizaram com a Igreja que prossegue no caminho do Senhor. (…)





Surge constantemente o problema de como passar de um modelo de Igreja a outro, de como passar de um esquema a outro.

Em geral, podemos dizer que a passagem da Igreja tradicional de Cristandade do segundo milénio para a da modernidade do Vaticano II, própria do terceiro milénio, é uma mudança sobretudo intelectual, uma mudança de mentalidade, uma mudança na forma de ver a realidade. O jovem camponês latino-americano que, partindo da sua comunidade rural, chega à cidade para estudar na universidade, em pouco tempo muda a sua forma de pensar, rapidamente se insere no mundo moderno, no mundo da racionalidade cientifico-técnica, no mundo da suspeita e da secularização. (…)

Mas o problema mais difícil é a passagem da Igreja moderna à Igreja libertadora. Aqui não basta uma maior informação intelectual, mas é necessária uma conversão, uma mudança de coração. Exige-se uma mudança de lugar social, uma leitura do evangelho a partir dos pobres, olhar o mundo a partir do lado contrário da história, mudar de interlocutor, cambiar de sujeito social.

Eis a razão porque é mais fácil passar da mentalidade de Cristandade tradicional à mentalidade da Igreja libertadora, que da eclesiologia moderna à libertadora. É mais fácil ao povo simples e tradicional da América Latina compreender a Igreja dos pobres que aos sectores cultos e seculares do mundo moderno ocidental.

Isto explica, entre outras coisas, a dificuldade que têm muitos sectores da sociedade e da Igreja do Primeiro Mundo em compreender a eclesiologia latino-americana e as suspeitas e tensões que coisas como as Comunidades Eclesiais de Base ou a ‘leitura bíblica pelos pobres’, a denúncia das estruturas de pecado ou a opção pelos pobres suscitam.





A evolução de monsenhor Óscar Romero [S. Salvador] pode demonstrar de modo muito significativo estas dificuldades em mudar de mentalidade. Educado, quer na sua família, quer no seminário, segundo uma mentalidade cristã tradicional tipicamente de Cristandade, pouco depois do Vaticano II, monsenhor Romero abriu-se a uma visão mais moderna da fé e da Igreja. Contudo, isso não bastou para que adquirisse uma visão ‘libertadora’. Quando, em 1977, foi eleito para a Sé de S. Salvador, monsenor era o candidato da oligarquia financeira e militar, bem como dos sectores mais tradicionais da Igreja.

Foi o assassinato do Padre Rutílio Grande e dos seus catequistas três semanas depois da sua tomada de posse como arcebispo de S. Salvador que lhe fez abrir os olhos, tal como a Paulo na estrada de Damasco. Romero compreendeu que eram as forças de segurança do estado e seus aliados poderosos os que assassinavam os seus sacerdotes, catequistas e o povo indefeso. Começando a ler a realidade ‘a partir de baixo’ tudo se lhe afigurou novo. Descobriu um mundo até então desconhecido apesar de ele ser salvadorenho. Este foi o começo duma mudança que fez dele o grande profeta da justiça, o grande defensor do povo, o grande denunciador das injustiças dos poderosos, o grande amigo dos pobres. A sua força profética desfraldou-se, sobretudo, nas suas homilias dominicais na catedral, onde, com a sua palavra evangélica, fez tremer o sistema de corrupção e de pecado, até que numa eucaristia foi assassinado a 24 de Março de 1980 o seu martírio selou com o selo da verdade a sua vida evangélica.

Desde a década de 1990 em diante, a esta opção pelos pobres se junta o diálogo intercultural e inter-religioso, o respeito pelos diferentes, pelas questões de género e o respeito pela criação. A abertura a esta nova dimensão supõe, não só, uma conversão social, mas também uma certa sensibilidade e afectividade humanas, um sentido profundo do respeito pela vida que valorize positivamente a riqueza e as diversas culturas e religiões, a partir da questão do ‘género’ e de toda a criação. Seguramente as mulheres são as mais sensíveis a tudo isto.

Víctor Codina, sj
Padre catalão jesuíta, Professor de Teologia em Barcelona e,  a partir de 1993, na Universidade Católica Boliviana de Cochabamba.

La Eclesiología desde América Latina’, Verbo Divino, 2008, pp.190-193.




2 de julho de 2012

ELECTRICIDADE LIBERALIZADA - MANDA QUEM PODE

O castigo dos vencedores

Neste domingo, 1 de Julho, entraram em vigor os primeiros aumentos de preços de energia, as ditas tarifas transitórias, imposta pela ERSE, que visam obrigar os consumidores de energia (gás e electricidade) a transitar para as tarifas liberalizadas.

«EDP - Sinta a nossa energia...»


Esta imposição sobre as tarifas reguladas é prova evidente do capitalismo autoritário em vigor, porque impõe um castigo económico a quem quiser resistir à liberalização e se quiser manter nas tarifas herdadas do serviço público. É ainda mostra da mentira descarada das virtudes da concorrência: se a desregulação e privatização da energia é tão favorável no mercado porque é que é preciso obrigar, por decreto, que as tarifas reguladas sejam ainda mais caras do que as liberalizadas?

Mais, mesmo com estes aumentos impostos, mesmo com os propagandeados planos de desconto e promoção para adesão ao mercado liberalizado, as tarifas bi-horárias reguladas ainda continuam a ser mais favoráveis. Como é expresso em vários trabalhos públicos, a comercialização de energia apenas terá uma margem de 3%. Ora quem quer usar, aquilo que deveria ser um serviço público, a energia como um mero negócio quer margens de lucro seguras. Como vivemos na ditadura dos mercados, em particular financeiros, a ERSE, que é tão isenta como a Autoridade da Concorrência, impõe artificialmente a destruição das tarifas reguladas através de aumentos de preço trimestrais.

Extraordinário ver a GALP, de Amorim e Isabel dos Santos, parte integrante do concubinato que mantém os preços dos combustíveis elevadíssimos, parte integrante de uma das maiores mentiras do país: a concorrência nos combustíveis, entrar como comercializador no mercado da energia lançando uma promoção com descontos. Porque é que a GALP nunca fez descer os preços do gás, gasolina e gasóleo se estava em plena concorrência? Em rigor, isto é apenas parte do plano de espoliação da população através da energia.

Mesmo em plena concorrência, os preços não descerão porque:
i)precisarão de assegurar pelo menos parte das chamadas rendas excessivas,
ii) precisarão de assegurar margens de lucro à plena entrada da mercantilização da energia e
iii) criar-se-ão mercados bilaterais (o produtor é o mesmo do comercializador) e os comportamentos oligopolísticos de mercado repetirão, em Portugal, aquilo que aconteceu na Alemanha, França, Reino Unido… Esperemos que, a exemplo dos mercados do crude e matérias primas, os especuladores financeiros não decidam atacar o mercado da energia elétrica…

Como demonstro no artigo “EDP, o mau da fita?”, o PS deve ser considerado o campeão desta vitória liberal. “O programa de privatizações para o biénio 96/97 aprovado pelo XIII Governo Constitucional, do PS de António Guterres, é decisivo.

O socialismo já tinha sido metido na gaveta, estava na hora de gritar: ‘todo o poder aos mercados’. A 1ª fase de privatização da EDP ocorreu em Junho de 1997 [Dec.Lei de Abril 97], e tal como as seguintes, as 2ª, 3ª e 4ª fases são decididas por António Guterres e consentidas por Jorge Sampaio. Na 5ª fase estão Santana Lopes e Jorge Sampaio. Na 6ª fase estão José Sócrates e Jorge Sampaio. Na 7ª fase estão José Sócrates e Cavaco Silva. E nesta última Passos Coelho e Cavaco Silva. Em jeito de humor negro, poderemos dizer que o PS ganha ao PSD por 12-4. De facto, o PS tem sido até agora o campeão das privatizações”.

As receitas das privatizações como financiadoras do défice do Estado é outra burla. Como demonstro no referido artigo, “as várias fases de privatização da EDP renderam ao Estado cerca de 10.788 milhões de euros. Ora acontece que, se somarmos apenas os resultados líquidos da EDP para o mesmo período, eles rondarão os 9.350 milhões de euros”. Em cumprimento das directivas troikianas em que PSD, CDS e PS se abraçaram, o direito do acesso à energia vai ser negado aos mais pobres, a tarifa única nacional - igual numa aldeia do interior ao centro de Lisboa - vai estiolar e a tarifa social vai ser uma caridade mínima suportada no máximo de requisitos e demagogia populista.

Chegámos ao fim de uma das mais históricas conquistas de Abril, o serviço público de energia está destruído. PS, PSD e CDS estão de parabéns!

Victor Franco
Membro da Comissão de Trabalhadores da EDP-Distribuição


A IGREJA, FERMENTO PROFÉTICO


DOIS MODELOS DE IGREJA

Cardeal Aloísio Lorcheider


A partir de aqui, acontecem dois modelos de igreja.

O primeiro está orientado segundo uma forma hierárquica, piramidal. Funciona de cima para baixo, é clerical, apoia-se na autoridade hierárquica como sede do poder sacramental. Ó Código de Direito Canónico de 1917 é a expressão patente deste modelo ainda exercendo influência, ainda que algo debilitado, na versão do Código de 1983.

O segundo modelo, por outro lado, é mais carismático, popular, vai dirigido de baixo para cima. Em vez do poder do clero, sublinha a força da comunidade, a essencial igualdade de todos os membros do Povo de Deus. A separação entre clero, ordens religiosas e leigos tende a esfumar-se, surgindo, no seu lugar, estruturas configuradas segundo o princípio da igualdade, formas muito diversificadas de participação do povo de responsabilização eclesial.

As comunidades eclesiais de base (CEB) entendem-se a si próprias como novo sujeito histórico que se impõe na sociedade e na igreja. A presença do bispo e dos sacerdotes não se sente como imposição, mas como ministério especial ao serviço da comunidade segundo uma tarefa de discernimento da vontade de Deus na história.

Este segundo modelo é testemunha da encarnação da fé nos estratos populares, fé caracterizada mais pelo símbolo que pelo conceito, pela narração concreta que pela argumentação abstracta. Diante do modelo monárquico, aristocrático, centralizador, este modelo é mais democrático, popular, pluralista e participativo.

A partir desta perspectiva encontramos a contraposição entre o modelo tradicional da igreja como «sociedade perfeita» e o modelo sócio-crítico de uma igreja que é fermento evangélico.

O primeiro é percebido como sociedade completa fechada sobre si mesma, contraposta a outras sociedades e ao Estado. É a igreja das nunciaturas, das secretarias de Estado, das delegações apostólicas, o Sacro Império Romano, dos privilégios régios: a igreja visível pela qual tanto lutou Belarmino por oposição a toda a evaporação espiritualista da instituição. É a igreja da «cristandade» que, em concorrência com o Estado, procura conquistar o seu «lugar ao sol» e influenciar todos os níveis da vida civil. Nesse sentido, assina concordatas, mantém relações diplomáticas, etc. Hoje em dia salta à vista as contradições deste modelo. Devemos continuar a manter este aparelho diplomático que tão claramente deixa transparecer o lado demasiado humano da igreja? Podemos continuar a defender hoje a igreja como uma «sociedade perfeita»?

Se mudamos para o outro modelo, encontramo-nos com uma igreja vivida como fermento profético colocado no meio da sociedade. Partindo do evangelho (aspecto profético), esta igreja desempenha na sociedade (aspecto social) uma tarefa de diferenciação (aspecto crítico) que subverte radicalmente tudo aquilo que no mundo se contrapõe ao plano da criação e da salvação divinas. Assim, «o que alma é para o corpo, assim são os cristãos para o mundo» (Carta Diogneto). […]

Com esta apresentação dos modelos e das imagens de igreja, perguntamo-nos: que igreja queremos? Em Puebla (1302-1305) obtivemos uma resposta que hoje se aprofunda através da acção viva do Espírito Santo nas igrejas deste nosso continente [América Latina].

Sonhamos com uma igreja que escuta e que realiza efectivamente a palavra de Deus e a kenosis salvadora de Jesus Cristo (Fl 2:5-9), que testemunha, anuncia e celebra a vida de Deus encarnada na transformação do mundo, de modo que os corações e as estruturas se convertam e realize o compromisso de todos os cristãos numa acção transformadora do mundo que seja anúncio, antecipação e sacramento definitivo do Reino Deus: sacramento de participação do Espírito do Servo de Yahvé, sacramento de libertação numa linha de fidelidade total a Cristo e aos homens no Espírito.

Só assim será sacramento universal de salvação (LG 48; GS 45).

Cardeal Aloísio Lorcheider (Brasil)
‘La comunidad eclesial, sacramento de liberación’ [resumo em Selecciones de Teologia 109 (1989) 37-39]