teologia para leigos

29 de abril de 2012

O MODELO ALEMÃO E A PRECARIEDADE

O consenso de Berlim

O Muro de Berlim_Berlim

PRECÁRIOS_9H DE TRABALHO/dia por MENOS DE 600 EUROS/mês


«A AUSTERIDADE SUICIDA» – pelo Nobel Joseph Stiglitz



‘MOBBING’_«Sexta às 9»_RTP 2
(12 minutos de ‘mobbing’ na ManPower; força o cursor até aos 17 m 03 s; termina aos 26m 50s)

Vídeo:


«O medo – uma retórica… culpabilizante! E legitimadora da austeridade»
Por António Casimiro Ferreira, sociólogo

É sobre os efeitos da austeridade que fala o novo livro do sociólogo António Casimiro Ferreira. No livro "Sociedade da Austeridade e Direito do Trabalho de Excepção" fala-se dos efeitos da austeridade que alimenta o medo. Medo, diz António Casimiro Ferreira, que surge associado a uma ideia de sacrifício e de culpa, reforçado pelo discurso.

Audio:


Abril de 2010

A «Troika», composta pela Comissão Europeia, pelo Banco Central Europeu [BCE] e pelo Fundo Monetário Internacional [FMI], intervém no processo de negociação colectiva na Grécia e exige uma diminuição dos salários de cerca de 25% no sector público. Em Junho, o mesmo trio emite um procedimento especial intimando o governo romeno a «adoptar um código do trabalho revisto e uma legislação sobre a negociação colectiva que reduza o custo do emprego e melhore a flexibilidade dos salários».[1] Por último, um ano depois, a Comissão Europeia interpela a Bélgica para que reforme o seu sistema de indexação dos salários, argumentando que «os custos unitários da mão-de-obra aumentaram [ali] mais rapidamente do que nos três países vizinhos (França, Alemanha, Holanda)».[2]

Grécia, Roménia e Bélgica… Desde há alguns meses, Bruxelas pôs a evolução dos salários no centro da sua estratégia de resolução da crise que está a abalar a Europa. Mais: intima as autoridades nacionais a obterem reduções. No entanto, o Tratado de Maastricht, que entrou em vigor em 1 de Novembro de 1993, estipulava que «a Comunidade não prestará apoio nem ajuda às actividades dos Estados-membros em matéria de remuneração» (artº 2.6), cláusula essa que foi retomada no Tratado de Lisboa.

A questão dos salários foi, desde o início, excluída das prerrogativas comunitárias, mas as obrigações impostas pela União – do controlo dos défices públicos ao da dívida – visavam em parte garantir a «moderação salarial». Este comando, porém, fazia-se à distância, sem intervenção directa, coisa que agora já não acontece. E segundo o presidente da Comissão Europeia, a evolução recente da evolução de Bruxelas nada tem de anedótico. «O que se está a passar actualmente», − afirma José Manuel Durão Barroso«é uma revolução silenciosa, de pequenos passos, rumo a uma mais forte governação económica. Os Estados-membros aceitaram atribuir às instituições europeias – e espero que o tenham compreendido bem – poderes importantes em matéria de vigilância».[3]

Os governos decidiram coordenar-se para levar a cabo, à escala europeia, uma política comum de regressão salarial. O pacto «euro mais», adoptado em Março de 2011, acelera o desmantelamento dos modelos de negociação colectiva. A União Europeia [EU], além da limitação das dívidas e dos défices públicos – que deseja ver inscrita na legislação de cada país −, pretende doravante intrometer-se nas negociações nacionais para impor a sua concepção da disciplina salarial. O «pacote sobre a boa governação europeia» («six-pack»), que o Parlamento Europeu aprovou em Outubro de 2011, associa mesmo obrigações jurídicas a esse pacto, o qual é um simples compromisso político entre Estados.

Este dispositivo que contém seis actos legislativos europeus, foi adoptado com carácter de urgência e com grande discrição. Regido pela Direcção-Geral dos Assuntos Económicos e Financeiros (DGECFIN), pelos ministros da Economia e pelo BCE, prevê que um «painel de instrumentos» dê o alarme em caso de «desequilíbrio macroeconómico» ou de um «desvio de competitividade» que Bruxelas considere muito importante. O país que não se conforme com essas recomendações será passível de sanções financeiras.

Em matéria de salários, o indicador escolhido para mostrar o equilíbrio desta arquitectura nada tem de anódino: preferiu-se o custo unitário da mão-de-obra [CUMO] à parte das riquezas atribuível aos salários.[4] Enquanto o primeiro indicador reflecte a evolução das remunerações relativamente à restante União Europeia, o segundo analisa a distribuição das riquezas em trabalho (salários) e capital (lucros). O termo «competitividade» disfarça mal a natureza do projecto: a intensificação da concorrência entre os assalariados europeus, no seio de uma União cujos criadores, no entanto, afirmavam que ela iria favorecer a cooperação dos seus membros face ao exterior…

Foi a breve trecho construído um novo modelo, a Alemanha, que as reformas de Schröder [1998-2005] transformaram em padrão de modernidade. Em 30 de Março de 2010, declarou Christine Lagarde, então ministra da economia francesa: «A Alemanha realizou um excelente trabalho ao longo dos últimos dez anos, melhorando a competitividade e exercendo uma forte pressão sobre os seus custos de mão-de-obra.»[5]

Um pouco mais tarde, Jean-Claude Trichet, então governador do BCE, insistiu: «As empresas alemãs souberam adaptar-se rapidamente à globalização. (…) O facto de prestarem muita atenção aos custos de produção e de encetarem reformas para tornar a economia mais flexível pode servir de exemplo a todos os países vizinhos.»[6]



escultura na estação de comboios, em Berlim



Todavia, se Gerhard Schröder se viu tão depressa cognominado «camarada dos patrões», foi talvez porque a sua batalha pela competitividade se saldou numa derrota social. Sem esquecer que a estratégia alemã de desinflação competitiva – aumento da competitividade das exportações através da redução dos salários – constitui um perfeito contra-exemplo de cooperação europeia.[7] No final dos anos 90, a Alemanha justificara esta política com a deterioração da sua balança comercial e a perda de eficácia da sua economia na sequência da unificação; presentemente, os indicadores privilegiados pela ortodoxia em vigor estão positivos. Mas a que preço!

«Criámos um dos melhores sectores de baixos salários na Europa», congratulou-se Gerhard Schröder no Forum Económico Mundial de Davos, em 2005. Desde 2003, as políticas de flexibilização do mercado do trabalho (leis Hartz) empobreceram consideravelmente a Alemanha. O trabalho temporário tornou-se um sector em si mesmo, foram suprimidos alguns subsídeos de desemprego proporcionais ao rendimento e surgiram os «mini-empregos» (empregos flexíveis pagos a 400 euros por mês). Em 2008, 33% dos trabalhadores foram admitidos com contratos precários e 6,5 milhões (28%) tinham empregos «de salário baixo» (menos de dez euros por hora).[8]

As convenções colectivas tornaram-se também muito vulneráveis. De todos os países da Organização de Cooperação e Desenvolvimento Económico [OCDE], a Alemanha é o que teve a mais lenta progressão dos salários entre 2000 e 2009. Em termos reais (ou seja, levando em conta a inflação), estes baixaram 4,5%, ao mesmo tempo que subiram 8,6% em França e 22% na Finlândia.[9]


Os défices comerciais de uns condicionam os excedentes dos outros

Ao apresentarem a Alemanha como um modelo de saída da crise, muitos esquecem-se de lembrar que Berlim consegue vender os seus produtos, porque os seus parceiros lhos compram.[10] As exportações alemãs dependem, pois, do consumo de outros países da região, ela própria tributária do poder de compra das populações.[11] Ou, por outras palavras: os défices comerciais de uns condicionam os excedentes dos outros. De tal maneira que, segundo Martin Wolf, economista britânico e editorialista do Financial Times, a eliminação da crise actual implica que, neste domínio, «a Alemanha se torne menos alemã».[12] Mas os oráculos de Bruxelas não desistem: as capitais europeias são convidadas a imitar Berlim. Esta perspectiva constitui o resultado lógico de uma velha dinâmica.

Na década de 1980, o sistema monetário europeu (SME) impôs aos seus membros uma política de ancoragem ao marco alemão e a submissão efectiva a uma dupla ortodoxiamonetária e orçamental – ditada pelas autoridades monetárias alemãs. Nessa altura, diferentes medidas ainda permitiam que os Estados melhorassem os seus custos relativos de produção: desvalorização (jogando com as taxas de câmbio) e desinflação competitiva (jogando com os salários, a fiscalidade, etc.). Mas, no início da década de 1990, os critérios de ajustamento estrutural impostos pelo Tratado de Maastricht consagraram a opção de uma coordenação liberal das políticas económicas, resultante da relação de forças entre os grandes países.

Ao mesmo tempo que a França reclamava, da Alemanha recém-unificada, a moeda única como garantia de integração europeia, o chanceler Helmut Kohl impunha, em resposta, o modelo alemão de banco central e a sua obsessão anti-inflacionista. O défice público não deverá ultrapassar 3% do produto interno bruto (PIB), a dívida pública 60% do PIB e os governos deverão visar um «elevado grau» de estabilidade dos preços (ou seja, «uma taxa de inflação que não ultrapasse 1,5 pontos da taxa média dos três Estados-membros que apresentem as mais baixas taxas de inflação»). Nesta altura, as remunerações não foram objecto de qualquer orientação directa.

Em 1999, com a criação do euro houve uma viragem: a moeda única passou a interditar que os Estados efectuem qualquer desvalorização ou que actuem de qualquer outra maneira sobre as taxas de câmbio para melhorar a sua competitividade. Consequência: os salários passaram a ser a última variável de ajustamento de que os Estados dispõem para melhorar os seus custos relativos de produção. Esta situação acaba por exercer uma pressão constante sobre o poder de compra dos trabalhadores europeus. Ao longo deste período, as políticas de negociação colectiva passaram por uma mutação fundamental e tornaram-se profundamente defensivas. Sob pressão das reestruturações em curso e do aumento do desemprego em massa, muitos sindicatos europeus (com os alemães à cabeça) reviram as suas reivindicações pela bitola baixa. Negociando sob a ameaça de prejudicarem a competitividade nacional, a sua prioridade deixou de ser o aumento dos salários, passando a ser a conservação do emprego.

Uma longa série de acordos de empresa, que ratificaram aumentos do tempo de laboração em troca de postos de trabalho, ilustra a tendência, em toda a Europa, para a desvalorização da negociação por sector, como em 2004 na Siemens (Alemanha) ou em 2005 na Bosch (França). O alongamento do tempo de trabalho equivale a uma redução do custo do trabalho. «A Confederação Europeia dos Sindicatos (CES) pensava que a moderação salarial era um momento necessário num período de muito desemprego (12% a 13% na União)», conta Jean Lapeyre, nessa altura secretário-geral da organização. «Pensávamos que devíamos fazer esse esforço para proteger o emprego. (…) Mas, depois, sentimo-nos traídos e enganados pelos empregadores, porque a parte salarial continuou a regredir sem que o emprego melhorasse.»[13]

Num tal contexto, foi cerceada a própria natureza do salário. Até então objecto de deliberação política por excelência, o salário passou a ser reduzido à categoria de vulgar factor de pressão inflacionista ou de melhoramento da competitividade. Coisa que corresponde a afastar definitivamente a questão crucial da redistribuição das riquezas.

Na União, os actores económicos que assim se apoderam desta questão negligenciam facilmente o papel da esfera política nas opções económicas. Segundo eles, a única ambição dos parceiros sociais – chamados à «responsabilidade» − só pode ser uma necessária redução do CUMO: «Os parceiros sociais deverão continuar a dar provas do mesmo sentido de responsabilidade e a negociar, nos Estados-membros, acordos salariais concordantes com os princípios gerais definidos nas grandes orientações das políticas económicas».[14]

Teoricamente afastado do âmbito das competências sociais de Bruxelas, o salário foi projectado para o âmbito das políticas económicas comuns. Ora, a sujeição macroeconómica da União só deixa como perspectiva o dumping salarial organizado. Visto não poder encarar-se, de momento, no quadro do direito europeu nenhum quadro de negociação colectiva europeia, nem nenhuma harmonização por cima, a negociação só é concebível… com base em reduções, como se fosse impossível imaginar uma coordenação das negociações com vista ao aumento de salários.


Anne Dufresne

Socióloga, investigadora do Fundo Nacional de Investigação Científica (FNRS), na Bélgica. Autora do livro «Le salaire, un enjeu pour l’euro-syndicalisme. Histoire de la coordination des négociations collectives nationales», Presses Universitaires de Nancy, 2011.

in Le Monde Diplomatique – edição em português, Fevereiro de 2012.


[1] Carta de intenções do governo da Roménia ao FMI, 16 de Junho de 2010.
[2] Comissão Europeia, «Avaliação do Programa Nacional de Reforma e do Programa de Estabilidade 2011 da Bélgica», Bruxelas, 7 de Junho de 2011.
[3] Discurso no Instituto Europeu de Florença, 18 de Junho de 2010.
[4] Ler François Ruffin, «Não há dinheiro para os salários?», Le Monde Diplomatique edição portuguesa, Janeiro de 2008.
[5] «Lagarde au Conseil des ministres allemand», Le Figaro, Paris, 30 de Março de 2010.
[6] «Les pays de la zone euro doivent faire dês efforts», Le Figaro, 3 de Setembro de 2010.
[7] Ler Till Van Treeck, «Vitória de Pirro para a economia alemã», Le Monde diplomatique – edição portuguesa, Setembro de 2010.
[8] Para mais pormenores, ler Bispinck Reinhard e Schulten Thorsten, «Trade Union Responses to Precarious Employment in Germany», WSI-Diskussionpapier, nº 178, Dezembro de 2011.
[9] Organização Internacional do Trabalho (OIT), «Relatório mundial sobre os salários 2010-2011. Políticas salariais em tempos de crise», Genebra, Novembro de 2011.
[10] Cerca de 40% das exportações alemãs destinam-se à zona euro.
[11] Recorde-se a compra por Portugal supérflua! de 2 submarinos à Alemanha, o mesmo tendo acontecido entre a Alemanha e a Grécia. [Nota do Editor deste blog]
[12] Martin Wolf, «A Disastrous Failure at the Summit», Financial Times, Londres, 14 de Dezembro de 2011.
[13] Entrevista concedida à autora.
[14] Recomendação do Conselho Europeu a respeito das grandes orientações das políticas económicas, 15 de Junho de 2001.

28 de abril de 2012

AS REFORMAS - PORQUE ESTÃO EM CAUSA?

O Sistema Público de Pensões sob pressão
 



O Estado terá assumido 80 milhões (de euros…) relativos a dívidas de Duarte Lima, Arlindo Carvalho, antigo ministro da saúde e José Neto, antigo secretário de Estado.

Vídeo_RTP:



Cadilhe refere BPN como fraude gigantesca e aponta culpasDiário de Notícias [29:IV:2012], o homem que durante cinco meses presidiu ao banco, afirma que a opção de Sócrates pela nacionalização foi apenas política.

Vídeo_RTP:



Os sistemas públicos de pensões financiados por repartição têm estado sujeitos a fortes pressões políticas. Em Portugal, tem‑se assistido nos últimos anos a um processo de redução organizada dos direitos, com configurações diferenciadas. Na primeira fase, marcada pela reforma das pensões de 2007, as pressões visaram conter a despesa. Esta deriva foi justificada com o argumento de que o envelhecimento demográfico suscita encargos crescentes, tornando os sistemas insustentáveis de um ponto de vista financeiro. Na segunda fase, iniciada pelo actual governo, a pressão também passa a atingir as receitas. A política de redução organizada dos direitos é agora mais evidente. A narrativa do envelhecimento demográfico, essa subsiste, alimentando o medo do futuro.

As duas fases do processo de redução organizada dos direitos foram marcadas por uma grande desestabilização financeira da segurança social, fruto não apenas do envelhecimento demográfico mas sobretudo dos efeitos das políticas orçamentais restritivas no crescimento e no emprego. Quando o ritmo de crescimento das despesas com pensões ultrapassa o ritmo de crescimento do produto, o encargo do sistema torna-se mais pesado. Note-se que o desemprego é uma das maiores causas de dificuldades financeiras, ao reduzir o número de activos empregados e pressionar para baixo os níveis salariais; tem, além disso, efeitos indirectos perversos, por suscitar a elevação das despesas com as prestações a ele associadas e favorecer a antecipação das reformas.

Na primeira fase, a política de redução de direitos encontrou a sua expressão mais evidente na reforma de 2007, que introduziu alterações de vulto nos princípios organizadores do sistema público de pensões. A repartição não foi substituída pela capitalização, mas os princípios organizadores do sistema foram reconfigurados. Apesar de, à primeira vista, se ter operado somente uma alteração de natureza paramétrica, com vista a reduzir a despesa para melhorar a sustentabilidade financeira, de facto, ocorreu uma alteração de natureza paradigmática que, por ser subtil, é mais difícil de identificar.

Reforçou-se o carácter contributivo das pensões e incluiu-se a esperança de vida na fórmula de cálculo, através de um factor de redução da pensão, metaforicamente designado “de sustentabilidade”. O esquema público adquiriu assim semelhanças com um mecanismo segurador privado. A pensão de reforma passa a ser concebida como a contrapartida das contribuições prévias, ou seja, como um “rendimento individual diferido”. A repartição permanece, mas desconfigurada, pois passa a obedecer a uma lógica patrimonial que irá esbater a referência salarial da pensão, já que esta deixa de ser entendida como “salário continuado”. O novo método de cálculo reduz, significativa e progressivamente, as taxas de substituição. Adicionalmente, as pensões em geral são desindexadas da evolução dos preços e as pensões de nível mínimo passam a divergir da evolução da remuneração mínima nacional. Implicitamente, abandonou‑se o objectivo primordial de assegurar a manutenção dos níveis de vida aos trabalhadores.

Em simultâneo, assumiu‑se explicitamente que o objectivo de reduzir a pobreza dos idosos é prioridade política. A reorientação referida encontra uma expressão evidente na política de mínimos sociais para idosos que passa a adoptar o princípio da selectividade. A criação do “complemento solidário para idosos” (CSI), prestação sujeita a condição de recursos, ilustra esta orientação. No preâmbulo do diploma que a institui[1], declara‑se que se pretende pôr em causa o aumento generalizado do valor das pensões mínimas, considerado financeiramente insustentável. Em consequência, ocorre uma degradação do estatuto dos trabalhadores. Estes, em situação de necessidade, podem beneficiar do CSI se comprovarem carência de recursos. O entendimento anterior assumia que o exercício prévio de uma actividade profissional era o fundamento do direito a um nível mínimo de rendimento na reforma, a condição necessária e suficiente para o assegurar. A actual perspectiva conduz à “concentração dos recursos nos estratos da população idosa com menores rendimentos”, apelando à “solidariedade familiar”, designação figurativa dos “deveres morais” dos filhos, cujos rendimentos são considerados no apuramento da condição de recursos. Em consonância com este espírito, a partir de 2007 os valores mínimos das pensões do regime contributivo passam a divergir do salário mínimo nacional.

Na segunda fase, iniciada pelo actual governo, a redução organizada dos direitos à pensão assume novos contornos: também o lado das receitas passa a estar sujeito a grandes pressões. Isto ocorre num momento em que o sistema de segurança social já está muito desestabilizado pelas políticas recessivas.

A actual orientação tem colocado sob pressão todas as variáveis que determinam as receitas da repartição: o salário médio, o emprego e a taxa de contribuição. Nos domínios salarial e do emprego, para os sectores público e privado, o modelo que está a ser seguido é inequívoco. A troika[2], por um lado, tem pugnado pela redução do emprego e aplaudido as reduções salariais no sector público, recomendando que o sector privado siga o exemplo reduzindo as remunerações. O primeiro‑ministro, por seu turno, depois de decretar as reduções salariais no sector público, afirmou que as considera necessárias também no sector privado. Porém, espera que estas decorram da “racionalização de custos… [que] significará em muitos casos um aumento do desemprego, a redução dos salários”, mas entende ser este o caminho para “ultrapassar a crise económica e lançar as bases do crescimento futuro”[3].

A terceira variável, a Taxa Social Única (TSU), também tem estado sob ameaça de redução. Admitiu-se a possibilidade de reduzir a TSU em alguns pontos percentuais (as contribuições da entidade patronal), compensada com um aumento de impostos indirectos (IVA). A medida foi justificada pelo presumível impacto positivo na competitividade externa da economia. Porém, a proposta não avançou porque persistiram sérias dúvidas sobre a sua capacidade de contribuir significativamente para a realização do objectivo. Ao mesmo tempo, foram reconhecidos os seus custos orçamentais[4].

Todavia, foi ignorado o facto de a medida introduzir uma ruptura nos princípios organizadores do financiamento e constitutivos da essência dos esquemas de repartição.


Praça Parada Leitão_Cordoaria_Porto

 
As contribuições são receitas consignadas, destinadas a satisfazer as necessidades de financiamento do subsistema contributivo da segurança social. Nisso se distinguem dos impostos, cuja receita é de afectação geral e indiscriminada. Caso viesse a ocorrer a substituição parcial das receitas de contribuições por receita do IVA, os beneficiários perderiam segurança. As receitas não consignadas tornam o nível das prestações vulneráveis às exigências orçamentais de curto prazo, estando assim sujeitas a grande volatilidade. As receitas consignadas asseguram a protecção das prestações relativamente à situação orçamental.

Além disso, coloca-se outra questão de princípio, central na génese dos esquemas de repartição. Na origem, estes esquemas organizaram‑se como mecanismos de socialização de uma parte da massa salarial. A receita de contribuições sociais provém da massa salarial e é redistribuída de imediato para garantir o pagamento de um conjunto de prestações sociais de substituição do rendimento de trabalho (reforma, desemprego, doença, etc.). A pensão de reforma é financiada pela massa salarial socializada. Por isso, deve ser entendida como um salário socializado.

Ao substituir a receita de contribuições por receita de impostos, fragiliza‑se o financiamento das pensões porque se reduzem as receitas consignadas. Mesmo que o nível das receitas permanecesse constante, estar‑se‑ia a comprimir a massa salarial socializada, reduzindo dessa forma a parte do trabalho no rendimento nacional.

Entretanto, continua‑se a acenar com o espectro do envelhecimento demográfico para induzir o medo do futuro. Anuncia-se que a redução das pensões garantidas pelos esquemas de repartição é inevitável e enaltecem‑­se as virtudes dos esquemas de capitalização e da provisão privada voluntária. Assim o fez o primeiro-ministro, numa entrevista ao Correio da Manhã, em Dezembro de 2011. Quando questionado sobre o valor da reforma que esperava receber dentro de vinte anos, respondeu “sensivelmente metade daquela que existia antes de 2007” e aconselhou os futuros pensionistas a fazer aplicações de poupança.

Recomendação imprudente! Na perspectiva da segurança, quer os esquemas de repartição, quer os de capitalização, estão sujeitos a grande incerteza no que respeita à evolução futura de variáveis económicas e demográficas que condicionam o respectivo rendimento, além de estarem ambos expostos a riscos políticos. Os esquemas de capitalização estão sujeitos a riscos específicos. Um exemplo é o risco de investimento, que resulta do facto de o valor dos activos acumulados nos fundos de pensões depender das flutuações dos mercados financeiros. As suas consequências podem ser desastrosas, como a história recente evidencia.






O impacto da crise financeira sobre os fundos privados de pensões tem sido devastador. A OCDE[5] estimou a comportamento do retorno dos investimentos dos fundos privados de pensões nos 23 países em que estes têm maior peso na economia. Só no ano de 2008, a perda média ponderada de retorno real dos investimentos foi equivalente a 23%. A Irlanda teve a pior performance, com uma perda de 38%, sendo seguida pela Austrália, com uma perda de 27%, e os Estados Unidos, com uma perda próxima de 26%. Tais perdas afectaram os esquemas de contribuições definidas e os esquemas de prestações definidas. Muitos destes últimos ficaram em défice, pois o quociente entre os activos do fundo e as suas responsabilidades em pensões (o funding ratio) tornou‑se inferior a 100%. Na Irlanda, o indicador passou de 120% para 75% durante 2008. Nos 100 maiores esquemas dos Estados Unidos desceu de 109% para 78%, no mesmo ano. No Reino Unido, o ratio passou de 118%, em Junho de 2007, para 76%, em Fevereiro de 2009. No entanto, depois de reconhecer a dimensão catastrófica das perdas de valor dos planos privados de pensões, o relatório da OCDE apela a que não se substitua a provisão privada pela pública. E alerta para os riscos – políticos e do mercado de trabalho – que afectam os esquemas públicos de pensões, argumentando que a diversidade na provisão será a melhor forma de garantir a segurança de rendimento aos idosos. Desconcertante!

Mais prudente do que o primeiro-ministro, o presidente da direcção do Sindicato dos Bancários do Centro, congratula-se com a recente integração dos bancários no regime geral da segurança social, a concretização de um “velho desiderato”, a “forma de melhor se verem defendidos de eventual colapso dos fundos de pensões[6].

As previsíveis dificuldades de financiamento futuras têm sido evocadas para impor limites às pensões no presente. Note­‑se, contudo, que as pensões a receber daqui a vinte anos vão depender essencialmente do nível de produção futura e das regras que, então, definirem a parte do produto que cabe aos reformados. Felizmente, as convenções sociais podem ser alteradas. Há razões para ter esperança, pois as ideias políticas hoje prevalecentes não se irão eternizar.

Maria Clara Murteira
Economista, Professora da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra [FEUC]
in, Le Monde Diplomatique (edição em português), Fev 2012, 15

[texto gentilmente cedido, a título particular, pela autora – proibida a reprodução sem autorização prévia]


[1] Decreto-Lei n.º 232/2005, de 29 de Dezembro.
[2] Ver o comunicado da missão conjunta da Comissão Europeia, BCE e FMI, em 16 de Novembro de 2011.
[3] Declarações no Congresso dos Economistas, em 21 de Outubro de 2011.
[4] Relatório da Desvalorização Fiscal, Julho de 2011.
[5] OECD, Pensions at a Glance: Retirement-Income Systems in OECD Countries, 2009.
[6] Carlos Silva, “Fundos de Pensões da Banca. A Salvaguarda do Futuro”, Revista de Informação, Sindicato dos Bancários do Centro, Dezembro de 2011, p.5.

27 de abril de 2012

«EXPLORAÇÃO», PALAVRA INSULTUOSA?

O tabu da exploração


1de Maio 2012_Precários dizem: 'Basta!'

Mário Crespo "entrevista" Arménio Carlos



«“Explorados”!, novamente aí está, um termo que eu em princípio não usaria facilmente. Não sugiro que o tenha usado com ligeireza… Mas a exploração como elemento negocial não pode ser utilizada. Porque há muita gente que não está a explorar ninguém, que está meramente a dar emprego a pessoas, a retribuir um salário possível, dentro de uma economia de mercado que tem também as suas regras. Portanto a “exploração” talvez seja um adjectivo [sic] um bocado forte. (…) O senhor diga-me só! Na Central [CGTP] contemplam que o mundo está a mudar em termos da dinâmica financeira toda que nos ultrapassa em muitos casos e que é preciso também criar uma nova ordem de relações laborais [1]

Pode não ser logo evidente, mas a longa e opinativa citação, retirada de uma entrevista, pertence ao entrevistador. O jornalista Mário Crespo entrevistava o agora secretário-geral da Confederação Geral dos Trabalhadores Portugueses (CGTP), Arménio Carlos, no Jornal das 9 da SIC Notícias de 16 de Janeiro de 2012.

Debatiam-se as alterações às leis laborais propostas pelo governo à concertação social, negociações de que a central sindical se afastou denunciando a falta de postura negocial do governo e a extrema gravidade do quadro legislativo imposto ao mundo do trabalho. Ainda assim elas culminaram, a 18 de Janeiro, na assinatura de um acordo que vincula as estruturas patronais e a União Geral dos Trabalhadores (UGT).

Era a segunda vez que Arménio Carlos usava o termo que tanto incomodou o jornalista, primeiro para dizer que se estava a aproveitar a crise para aumentar a «exploração» e promover um maior desequilíbrio nas relações laborais e, pouco depois, para explicitar a situação a que são sujeitos os trabalhadores que vendem a sua força de trabalho: são «explorados».

À segunda foi de vez, Mário Crespo teve de interromper. Tentando repor a ordem habitualmente reinante no espaço mediático, instruiu o convidado, sem êxito é certo, sobre as sãs regras da etiqueta discursiva que costumam ser observadas na televisão, ainda para mais em horário nobre, caso não se queira ser tratado como insensato ou anacrónico.

Já antes o jornalista se sentira à vontade para chamar «retórica» à forma como o convidado se exprimia e para o criticar quando, no seu entender, colocou o trabalho na esfera «do garantismo e dos direitos» (dizer «direitos» poderá ser aceitável, desde que não sejam garantidos nem laborais…).

Mas a seguir, perante o repetido uso do conceito de exploração pelo sindicalista, Crespo adoptou um tom mais impositivo. Não é apenas um termo que o próprio dificilmente usaria; é um termo que não pode ser usado: «A exploração como elemento negocial não pode ser utilizada». Não é também apenas um termo de que ele discorda, por legitimamente ter um pensamento político diferente; é um termo cuja utilização ele se sente no direito de censurar, num tom entre o paternalismo e a agressividade, por o considerar ultrapassado numa altura em que o que importa é promover a aceitação da configuração que o mundo está a tomar e isolar ao máximo os que a contestam: «O senhor diga-me só, na Central contemplam que o mundo está a mudar (…)

Vamos passar então a chamar-lhe uma conversa num programa televisivo, e não uma entrevista. Seria necessário e urgente que a comunicação social fizesse o debate sobre as vantagens de os órgãos de informação assumirem com clareza os pontos de vista subjacentes às suas análises e escolhas informativas. Seria desejável, para o reforço da democracia, que os cidadãos não tivessem quase só acesso a um campo mediático sem verdadeiro pluralismo de ideias e que tantos jornalistas deixassem de ver a sua autonomia ser cada vez mais constrangida pelas regras e interesses dos poderes económicos proprietários da generalidade dos meios de comunicação. Enquanto nada disto for uma realidade, fica a sensação, como diria Mário Crespo (mas agora acertando na gramática), de que chamar a esta conversa jornalismo talvez seja um substantivo um bocado forte.

Em rigor, esta conversa não pode ser vista como um exemplo do modo como habitualmente se reparte no espaço mediático, e sobretudo televisivo, o tempo dado ao confronto entre estas duas visões do mundo. Ao contrário do que aqui acontece, os pontos de vista que contestam o neoliberalismo têm um acesso muito limitado a esse espaço que é central à formação da opinião, à naturalização de consensos e à delimitação do campo dos possíveis. Ainda assim, esta conversa tem a vantagem de mostrar como é vital para o projecto neoliberal, e mais ainda durante a grave crise em curso, conter a visibilidade desse confronto de opiniões. Porque, quando irrompem no espaço público, as palavras ganham vida e as ideias que elas exprimem são discutidas, trabalhadas, apropriadas. Passam a fazer parte do acervo de possíveis que estão disponíveis para que as mudanças aconteçam. As palavras proibidas, que são tratadas como verdadeiros tabus, são lugares de experiência e de compreensão do mundo. Quanto mais elas traduzem uma realidade observável ou apontam para caminhos alternativos desejáveis, mais são objecto de anátema, em moldes mais ou menos sofisticados.

O tabu da exploração, tal como o do proteccionismo ou o das classes, contribui para fazer desaparecer do espaço público a noção de que a arquitectura de uma sociedade é feita de escolhas conflituais, que resultam das correlações de forças que historicamente se vão formando entre interesses divergentes. Actualmente o tabu apoia-se em duas ideias, repetidas através dos dispositivos de geração de subalternidade:

(1)       a de que todos somos culpados pela crise e pela dívida, por «termos vivido acima das nossas possibilidades»;
(2)       e a de que esse barco da culpa em que todos estamos justifica o mar revolto dos sacrifícios que temos de aceitar, porque não há alternativa, não há dinheiro nem bem-estar para distribuir.

Como sugere Mário Crespo, num argumento ecoado por todos os neoliberais, ninguém quer explorar ninguém mas, como não há dinheiro, cria-se «uma nova ordem de relações laborais» para nos conformarmos a uma dinâmica financeira e de mercado «que nos ultrapassa»e paga-se o «salário possível».

Com um pouco de sorte, pensarão, os cidadãos esquecer-se-ão de que diferentes políticas gerariam e redistribuiriam os recursos de outro modo, limitando os rendimentos mais elevados, com o objectivo de reduzir as desigualdades socioeconómicas. E esquecer-se-ão de que, por cada pequena empresa em dificuldades que dificilmente poderia pagar salários mais elevados, há outras, onde todo o nosso destino colectivo se joga, em que lucros gigantescos resultantes de uma exploração cada vez mais desenfreada do trabalho são canalizados para remunerar o capital accionista a níveis sempre mais elevados, lucros esses que são depois investidos em produtos financeiros ainda mais remuneradores, numa espiral cujas consequências estão à vista…

Na Europa, o que importa agora aos defensores da tremenda regressão social em curso é que a crise das dívidas soberanas sirva, com a ajuda dos poderes públicos nacionais e das instâncias europeias, para transferir os custos do ajustamento estrutural para o mundo do trabalho.

Como se verifica pela leitura do referido acordo assinado na concertação social [2], o que se prevê é que os trabalhadores portugueses vendam a sua força de trabalho mais barata, tanto por trabalharem mais tempo não pago, com eliminação de dias de férias e feriados, como através da diminuição do valor pago pelo trabalho extraordinário. Além disso, diminuem-se os montantes a pagar em caso de despedimento, que é em si mesmo facilitado, reduz-se a duração e o montante a pagar pelo subsídio de desemprego e, como se estes aspectos não fossem já suficientemente graves, dá-se uma forte machadada na negociação colectiva com a deslocação para o nível da empresa de decisões com tanto impacto para a vida dos trabalhadores e das suas famílias como a mobilidade geográfica e funcional.

A exploração, não só existe, como está a aumentar para níveis ainda recentemente inconcebíveis. Traduz-se na venda mais barata da força de trabalho, na criação de trabalhadores que se tornam sujeitos menos autónomos e com menos tempo para si.

Ela é a marca deste tempo em que a única mudança para a qual se quer que os cidadãos estejam disponíveis é para aquela que resulta em mais acumulação, nalguns poucos, e mais privação, na esmagadora maioria dos restantes. Com mais exploração não se resolverá nenhum dos problemas da dívida ou da sustentabilidade da economia. Só teremos um país marcado por mais desigualdades e, com elas, mais expressões da arrogância de classe e do desespero de classe que se instala nos dois extremos da sociedade.

 Irão os trabalhadores encontrar as formas de participação colectiva que recusem a ideologia do «salário possível» e mostrem que a exploração, bem real, o será tanto menos quanto mais a tornarem impossível?

Sandra Monteiro
Le Monde Diplomatique [ed. em português]
10 de Fevereiro de 2012

Notas


25 de abril de 2012

25 DE ABRIL, SEMPRE!

25 de Abril, o perfume da utopia!

Júlio Resende


«Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo…» [Sophya]


«o 25 de Abril» para os nossos filhos e netos… sempre!


Denúncia do massacre de Wiriyamu feita pelo padre inglês Adrian Hastings no jornal Times de Londres.


«Tornar a paz possível» - Católicos na Capela do Rato_Lisboa


Bispo D. Manuel Vieira Pinto [Nampula, Moçambique] - «Imperativo de Consciência»