teologia para leigos

23 de abril de 2012

A RADICALIDADE DE JESUS DE NAZARÉ

O específico cristão






Quando, em tempos de crise austera, se pergunta aos cristãos ‘que esperança devem oferecer?’ está-se a procurar perguntar pela especificidade da condição cristã. Ora, tal desafio só pode ser resolvido recorrendo ao ‘testemunho de vida’ daquele que nos grafou de ‘cristãos’, ou seja, daquele de que nos dizemos seguidores: Jesus, o Cristo. Os cristãos, portanto, são os seguidores de Jesus e, por isso, deveriam ser designados mais propriamente por ‘jesuanos’ e não por ‘cristãos/messianos’. (Jesus de Nazaré rejeitou o título de Messias / Kristos[1], por causa das conotações políticas, violentas, de tal título; cf Jo 6:14-15 - «Aquela gente, ao ver o sinal milagroso que Jesus tinha feito, dizia: «Este é realmente o Profeta que devia vir ao mundo!» Por isso, Jesus, sabendo que viriam arrebatá-lo para o fazerem rei, [‘messias’] retirou-se de novo, sozinho, para o monte»).


Preâmbulo – caridade ou metanóia?

Os seguidores de Jesus são os que vêem nele a felicidade durável, plena, a felicidade radical que verdadeiramente vale a pena, e têm nele a esperança - esperam n'Ele a felicidade! Mas tais sentimentos – a felicidade e a esperança – são, antes de tudo, sentimentos muito humanos: são humanos antes de serem religiosos ou teologais. Todas as pessoas esperam ser felizes − muito antes de quererem ser ricas esperam ser felizes! − e vivem pouco alegres enquanto não palpam a felicidade. A felicidade, portanto, tem que ser algo que se palpe, que se encontre, que se veja, que possa ser demonstrada na vida real do dia-a-dia, que se viva: a esperança e a felicidade têm que ser para hoje e têm que ser palpáveis, sensíveis, vivíveis e acessíveis. Não basta serem um desejo ou uma expectativa – têm que ser um dinamismo, uma vida propulsora!

A alegria e a felicidade dos que escutaram Jesus de Nazaré pela primeira vez, remete-nos imediatamente para a memória do primeiro alvo do discurso das Bem-aventuranças [Mt 5]: FELIZES! QUE SEJAM FELIZES! «Felizes os pobres porque deles é o Reino dos Céus» (v.3) E Lucas refere, como timbre ou sinete da missão de Jesus, a seguinte proclamação: «O Espírito do Senhor está sobre mim e enviou-me a anunciar a Boa-Nova aos pobres». (Lc 4:18) Portanto, a primeira achega à pergunta inicial que está contida no título deste texto, é esta: o específico cristão é o anúncio duma denúncia!, na medida em que, proclamar que Deus elege de forma exclusivista os ‘pobres’ (‘anawim) como os únicos destinatários da FELICIDADE do REINO de DEUS, é uma insuportável afronta. Proclamar que os ‘anawim são os primeiros (nos planos de Deus) significa que os outros serão os últimos. Trata-se de uma revolução política de 180º!, insuportável, seja em que país ou tempo for. O versículo 18 de Lucas é uma revolução política, é um convite a uma revolução total, é um rastilho de pólvora lançado a rabear sob os alicerces do poder imperial naquela longínqua província do Império Romano, a Judeia. Nos versículos 18 e 19 de Lucas não há traços de assistencialismo, de reformas ou remendos a operar no sistema imperial e eclesiástico: eles convocam a uma inversão absoluta das estruturas, incompatível com melhorias ou pensos rápidos. É uma inversão completa: atinge as estruturas sócio-políticas (v.18) e as estruturas religiosas (v.19). A força destas palavras de Jesus de Nazaré é reforçada, ainda mais, pela introdução de uma pequena palavra: «hoje» (v.21) – Deus quer que a mudança comece já, aqui, na vida do dia-a-dia, dentro da História, em nós, e não apenas após a nossa morte ou nos finais dos tempos.

Eis o pórtico do «programa de vida» de Jesus, julgamento erguendo-se como júbilo para alguns (Mt 5:3; Lc 6:20b) e como abalo catastrófico (Lc 6:24) para outros (para estes, desencadeador do pior dos ódios contra Jesus; cf. Lc 4:28-29).



Freguesia da Sé_Porto

Desta memória de Jesus de Nazaré − que nos ficou nos textos bíblicos − não sobram traços de assistencialismo, caridade distributiva ou piedade caritativa: estas nunca poderão constituir a especificidade cristã! É usual interpretar os relatos de banquetes messiânicos de Jesus, ditos «relatos da multiplicação», − «Multiplicação dos pães e dos peixes» (Mt 14,13-21; 15,32-38; Mc 6,34-44; 8,1-9; Lc 9,10-17; Jo 6:1-15) − como suporte teológico para a pastoral soció-caritativa. Porém, concluir isso é dizer pouco acerca da Boa Nova que Jesus foi, realizou e proclamou. Qualquer leitura teológica baseada na aparência dos textos pode levar-nos a acentuar aspectos que estão ausentes da mensagem de Jesus (p. ex., Jesus nunca teorizou sobre o pecado,[2] pelo que não faz muito sentido acentuar a condição de pecador, sobretudo, numa linha de desvalorização ou culpabilização da natureza humana: ex - «Ó ditosa culpa que tão grande Redentor nos mereceu ter!», in Precónio Pascal; «As previsões, as previdências, as providências de Deus mediante nós podem não dar certo pela falta do homem pecador»; «Podemos estar em ausentes, não acudir no dia em que nos chamem. Podemos não responder ao apelo (excepto no Vale do Juízo), Terrível favor. Podemos fazer falta a Deus. Eis a situação em que ele se pôs, a má situação. Pôs-se no caso de ter necessidade de nós. Que imprudência! Que confiança!»; in Charles Péguy, O pórtico do mistério da segunda virtude; nos relatos da Multiplicação, verdadeiramente, não há lugar a nenhuma multiplicação, mas sim a distribuição / partilha, estado igualitário, comunhão partilhante de destino – «pois é de vida e de vida partilhada que as nossas vidas se alimentam», JT Mendonça, Pai Nosso que estais na terra).

Quando regressamos aos evangelhos constatamos que Jesus nunca se preocupou com a organização soció-caritativa (nunca fundou padarias ou IPSS’s…), mas os discípulos sim!, bem que o queriam: uma fé pobrezinha tende rapidamente a verter-se num programazinho! (Lc 9:12) «Reparando que uma grande multidão viera ter com Ele, Jesus disse então a Filipe: «Onde havemos de comprar pão para esta gente comer?» [Jesus] Dizia isto para o pôr à prova» (Jo 6:4). Jesus era muito malandro…

Jesus nunca fala da pobreza, mas de «acolhimento e libertação dos pobres» (Lc 9:11: «Jesus acolheu-as [as multidões de pobres] e pôs-se a falar-lhes do Reino de Deus, curando os que necessitavam.»), mas os discípulos só pensavam em organizar o projecto de Jesus segundo um modelo empreendedor / empresarial: «Tiago e João, filhos de Zebedeu, aproximaram-se dele e disseram: «Mestre, queremos que nos faças o que te pedimos.» Disse-lhes: «Que quereis que vos faça?» Eles disseram: «Concede-nos que, na tua glória, nos sentemos um à tua direita e outro à tua esquerda.» (Mc 10:35-37)

A Boa Nova de Jesus não é remendar o sistema, mas proclamar: arrependei-vos (‘metanoite’) e acreditai na Boa Nova.»! Assentai alicerces novos! («Depois de João ter sido preso, Jesus foi para a Galileia, e proclamava o Evangelho de Deus, dizendo: «Completou-se o tempo e o Reino de Deus está próximo: arrependei-vos e acreditai no Evangelho.», cf. Mc 1:14-15)

Metanoia!, quer dizer, mudai de 180º a vossa vida. Virai do avesso os vossos critérios, reestruturais-vos de alto a baixo!

O anúncio de Jesus traz colado a si uma denúncia estrutural que desestabiliza. Uma denúncia estrutural e não piedosa, não religiosa. Assistencialismo em Zaqueu? Como? Zaqueu (Lc 19) virou a sua vida do avesso. Zaqueu foi contra o que a Lei mandava; Zaqueu rebentou com a Lei divina (Ex 22,3.6; Lv 5,21-24; Nm 5,6-7). Com o seu gesto, Zaqueu deixou em maus lençóis o assistencialismo. Mais uma vez, não podemos fundamentar, neste relato, a actividade soció-caritativa como actividade cristã específica.

Portanto, se é verdade que todo o tipo de actividade assistencial é útil (nem sequer se discute a sua utilidade ou premência!), para os cristãos isso será sempre inespecífico. O Banco Alimentar contra a Fome, a Caritas, as IPSS’s, revista CAIS, a sopa dos pobres, peditórios e tômbolas, dezenas e dezenas de iniciativas movidas por centenas de voluntários extraordinariamente generosos que dão o melhor de si para aliviar o sofrimento das vítimas dum sistema político perverso, tudo isso será sempre «pôr remendo novo em pano velho». (Mt 9:16) De fora fica o Micro crédito, pois é um meio-termo entre a dádiva totalmente gratuita e o crédito bancário institucional (portanto, menos especificamente cristão, ainda). De fora ficam, também, afirmações como «para os cristãos um estilo de vida frugal testemunha melhor do que mil palavras a Fé em Deus» (J T Mendonça, Pai Nosso que estás na terra); e fica de fora pela ambiguidade que encerra e por ficar aquém da proclamação de Jesus na sinagoga de Nazaré.

É importante – urgentíssimo! – confrontar todas as iniciativas ditas de «responsabilidade social» (estatais e empresariais) com a mensagem de Jesus. Aos cristãos, sobretudo, impõe-se um juízo crítico sobre essa realidade que, à nossa volta, cresce como cogumelos. Como por exemplo: é compatível com o evangelho acções de ‘solidariedade social’ por parte de empresas que cometem as mais escandalosas injustiças em matéria de contratação laboral ou praticam fuga ao fisco transferindo lucros para offshores? É compatível com o evangelho de Jesus as dádivas (em serviços, géneros ou dinheiro) à Igreja Católica por parte de empresas que buscam nisso publicidade, prestígio, mas nunca repartição social de todos os seus lucros? (Mt 19:21-26; Lc 16:27)


Av. da Ponte_Porto


À procura dum paradigma

Diante do sofrimento monstruoso de que os povos foram vítimas nos últimos sessenta anos, surgiu, na teologia, a necessidade de encontrar uma categoria que reunisse em si esmagamento (Kenosis) e salvação em Deus. Os teólogos, da América Latina, «Ellacuría e Sobrino consideram que o «Servo de Yahvé» é a categoria bíblica mais adequada para interpretar teologicamente a realidade dos povos crucificados. Essa figura teológica proporciona uma «soteriologia histórica» pessoal e colectiva. O Servo de Yahvé, dos Cantos de Isaías, é eleito para instaurar o direito e a justiça nas nações [Is 42:1.4.6] e para trazer a salvação; é luz das nações [Is 42:6; 49:6]; carrega com os crimes humanos, «embora não tenha cometido crime algum, nem praticado qualquer fraude.» [Is 53:9] (Juan José Tamayo, Hacia la comunidad_5, Trotta, 20042, 177)

A alegria cristã e a esperança cristã, face à monstruosidade da injustiça mundialmente globalizada, só podem ser alicerçadas na alegria e na esperança do Servo de Yahvé, aquele que carregou com as vítimas, pois só nele se casam vitimização violenta, clamor e escuta por parte de Deus:

«O meu servo ficará satisfeito com a experiência que teve. Ele, o justo, justificará a muitos, porque carregou com o crime deles. Por isso, ser-lhe-á dada uma multidão como herança, há-de receber muita gente como despojos» (Is 53:11-12)

Trata-se, de facto, duma relação cultual nova, duma nova teo-logia. «Por isso, ao entrar no mundo, Cristo diz [a Deus]: ‘Não quiseste nem te agradaram sacrifícios, oferendas e holocaustos pelos pecados − e, no entanto, eram oferecidos segundo a Lei.  Disse em seguida: Eis que venho para fazer a tua vontade. Suprime, assim, o primeiro culto, para instaurar o segundo». (Heb 10:5-9)

O mesmo diálogo, que leva a uma revolução teológica, é agora entre Jesus de Nazaré e um escriba: «Amar o próximo como a si mesmo vale mais do que todos os holocaustos e todos os sacrifícios [todos os actos religiosos].» Vendo que ele [o escriba] respondera com sabedoria, Jesus disse: «Não estás longe do Reino de Deus.» (Mc 12:33-34)

«Fazer a vontade de Deus» é retomar o espírito dos profetas, reclamar pelo direito e pela justiça. «O verdadeiro discípulo (Lc 6,39-42; 13,25-27) - «Nem todo o que [rezar muito] me diz: ‘Senhor, Senhor’ entrará no Reino do Céu, mas sim aquele que faz a vontade de meu Pai que está no Céu. Muitos me dirão naquele dia: ‘Senhor, Senhor, não foi em teu nome que profetizámos, em teu nome que expulsámos os demónios e em teu nome que fizemos muitos milagres?’ E, então, dir-lhes-ei: ‘Nunca vos conheci; afastai-vos de mim, vós que praticais a iniquidade.’» (Mt 6:21)

Eis em que consiste «o segundo culto» que agrada a Jesus de Nazaré: não é inaugurar mais espaços de oração, mas praticar a justiça, retomar o espírito dos Profetas. (Mt 5:23-24)

«Em seguida [o Rei] dirá aos da esquerda: ‘Afastai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, que está preparado para o diabo e para os seus anjos! Porque tive fome e não me destes de comer, tive sede e não me destes de beber, era peregrino e não me recolhestes, estava nu e não me vestistes, doente e na prisão e não fostes visitar-me.’ Por sua vez, eles perguntarão: ‘Quando foi que te vimos com fome, ou com sede, ou peregrino, ou nu, ou doente, ou na prisão, e não te socorremos?’ Ele responderá, então: ‘Em verdade vos digo: Sempre que deixastes de fazer isto a um destes mais pequenos, foi a mim que o deixastes de fazer.’ Estes irão para o suplício eterno, e os justos, para a vida eterna.» (Mt 25:41-46)

A vontade do Pai é laica e não piedosa. A vontade do Pai é que identifiquemos a transcendência que está encerrada na economia e nas políticas que visam a eliminação da aflição económica: não ter emprego, não ter dinheiro para comer, beber, vestir, ter saúde, ter casa e pagar as dívidas que levam (naquele tempo e hoje…) à cadeia (Mt 25:41-46). A vontade do Pai é uma política activa: «paz, pão, habitação, saúde, educação».

Dois aspectos.

1.   No rosto desfigurado do Cristo crucificado, os discípulos reconheceram a actualização d’O Servo de Yahvé:  «Eu, porém, sou um verme e não um homem, o opróbrio dos homens e o desprezo da plebe. Todos os que me vêem escarnecem de mim; franzem o sobrolho e abanam a cabeça [“como foi possível ter-se chegado tão baixo…!?”].» (Sl 22:7-8)

2.   «Morte de Jesus (Mt 27,45-56; Lc 23,44-49; Jo 19,25.28-30) - Ao chegar o meio-dia, fez-se trevas por toda a terra, até às três da tarde. E às três da tarde, Jesus exclamou em alta voz: «Eloí, Eloí, lemá sabachtáni?», que quer dizer: Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?» (Mc 15:33-34; Salmo 22:7b).

A imagem de repugnante desfiguração (‘viram a cabeça para o lado’) e de absoluto abandono (‘Meu Deus, meu Deus…’) que a vítima dá de si pode parecer uma figura de estilo literário (uma perífrase?), mas não é. «O opróbrio dos homens e o desprezo da plebe», a que se refere o Salmo 22 e que está posto na boca de Jesus crucificado (Sl 22:7b), é uma radiografia social, é um retrato realista da condição dos marginalizados, dos ‘anawim (dos pobres). Não se trata de um comentário moral.[3] Iguais expressões se encontram em Isaías: 49:7; 52:14; 53:3. A prova de que é assim está no versículo 25, referindo claramente que se refere aos ‘anawim: «Pois Ele não desprezou nem desdenhou a aflição do pobre, nem desviou dele a sua face; mas ouviu-o, quando lhe pediu socorro.» (Sl 22:25) Ainda dentro do mesmo Salmo 22, o v. 27 vem reforçar, digamos assim, a Bem-aventurança divina: «Os pobres comerão e ficarão saciados» [v.27] (este versículo recorda o «Felizes vós, os pobres, porque vosso é o Reino de Deus. Felizes vós, os que agora tendes fome, porque sereis saciados.», cf. Lc 6:21).

«Neste verso [o poeta] pode ter-se inspirado no Livro da Sabedoria (2:12-20) quando coloca na boca dos dissolutos as seguintes palavras contra o justo: “Armemos laços ao justo porque nos incomoda, e se opõe à nossa forma de actuar. Censura-nos as transgressões da Lei, (…). Provemo-lo com ultrajes e torturas para avaliar da sua paciência e comprovar a sua resistência. Condenemo-lo a uma morte infame, pois, segundo ele diz, Deus o protegerá.”» (L. A. Schökel, o. cit.)

O Servo de Yahvé regressou no rosto do Cristo crucificado. Este revive no rosto dos marginalizados da nossa cidade. O mesmo aspecto repugnante têm, hoje, os “arrumadores” das nossas ruas (toxicodependentes, alcoólicos, etc.). A miséria social repugna. Facilmente desencadeia violência (cf, crime cometido pelos jovens das Oficinas de S. José, Porto, sobre um travesti marginal). Monsenhor Óscar Romero dizia: «Todo o que estorva é eliminado».

Trav. de Cedofeita_Porto


As multidões de pobres maltrapilhos que acorriam atrás de Jesus para o ouvir eram repugnantes, eram nojentas. Para os evangelhos, Jesus aceitou partilhar o seu destino com publicanos, pecadores, prostitutas, pequenos (Mc 9:42; Mt 10:42; 18:10.14; nunca traduzir por ‘crianças’), ‘pequeninos’ ou ‘os mais pequenos’ (Mt 25:40.45; nunca traduzir por ‘criancinhas’) e com os simples (por oposição aos sábios e entendidos; Mt 11:25s). São gente que, socialmente, ou menosprezava a Thora (os Mandamentos de Deus) ou exercia profissões desprezadas (pastores, curtidores de peles, cambistas, cobradores de impostos, praticantes de jogos de azar ou fortuna, publicanos) ou eram ladrões e assassinos ou eram pessoas sem formação religiosa (era o caso dos discípulos de Jesus), sem sensibilidade piedosa e sem hábitos de culto religioso, atrasadas e incultas. Em suma, pessoas que eram apontadas a dedo, difamadas, pessoas para quem a porta da salvação de Deus estava fechada. [2Sam 5:6-10]

Onde está, hoje, o desfigurado Servo de Yahvé que repugna?
Conhecemos o seu paradeiro?
Acantonados nos nossos condomínios fechados, sabemos, nós, dos seus condomínios amuralhados?
Onde está, hoje, o «verme» (não) humano desfigurado?
Como identificar o rosto do «Crucificado» do século XXI, que mora na nossa cidade?


O específico cristão

O específico cristão que ofereça uma esperança-não-ópio (ancorada no coração da história da humanidade e não num céu adventicial qualquer: cinema, poesia, budismo, paisagem, arte, êxtase inefável, canto gregoriano, etc.) só pode ser uma comunidade de acolhimento (do pobre), de louvor e de partilha de destino! Sem esta condição, tudo aquilo é alienação. Nisto se resume o específico cristão.

1.   O específico cristão não é a Cruz, mas o crucificado, não é a memória dum acontecimento ocorrido há dois mil anos, mas a presença moribunda da vítima, hoje. No tríduo pascal, em vez de nos prostrarmos diante da Cruz deveríamos acolher e reverenciar os marginalizados da nossa sociedade – o primeiro lugar para a vítima (forma de denunciar e destruir/queimar, em holocausto, a cruz – em noite de Alelluia dever-se-ia fazer uma fogueira com a Cruz pascal…)!

2.   O específico cristão não é rezar, pedir graças a Deus, mas dar graças, louvar (palavras que estão na raiz da palavra ‘eucaristia’), ‘namorar em Deus’ na alegria da nossa fragilidade colectiva – em primeiro lugar o louvor numa simplicidade de ‘anawim, de vítima!

3.   O específico cristão é entrar no mundo dos ‘anawim, carregarmos as vítimas às costas, ser Simão de Cirene (Mt 27:32). «A melhor forma de nos solidarizarmos com as vítimas não é vê-las sofrer de longe e de fora, mas entrar no seu mundo, colocarmo-nos do seu lado, partilhar a sua morte e, em última instância, tornarmo-nos vítima. «Não há libertação do pecadodiz Jon Sobrinosem carregar com o pecado; não há erradicação da injustiça sem carregar com ela». Assim, não há libertação nem reabilitação das vítimas sem tornar-se vítima, como o fez o Servo de Yahvé, como o fez Jesus de Nazaré, como o próprio Deus fez. Tudo o mais é assistencialismo, paternalismo.» (Juan José Tamayo, Hacia la comunidad_5, Trotta, 20042, 177) – em primeiro lugar, partilhar (todo) o destino das vítimas.


A esperança cristã tem que ser palpável, sentida, vivida na verdade da comunhão realizada. Este é o drama da maior parte dos católicos em Portugal: suas vidas não são acolhidas pela Igreja; nas nossas celebrações reina o isolamento e o anonimato em matéria de partilha da intimidade; vive-se, não o amor, mas a simpatia com um reliquat de desconfiança; ‘vai-se a uma missa’ onde se sente a beleza do canto, a poesia da homilia e o êxtase da arte, onde se respira paz e consolo… mas a sós: quanto à vida de cada um, entra-se mudo e sai-se calado: ela não entra na partilha da palavra! (e ainda me querem convencer que a Missa é um ponto de chegada…). Não existem comunidades de acolhimento e partilha de destinos que coloquem o pobre no centro da sua vida: na verdade, depois da missa, rico e pobre ‘cada um come com os seus talheres’…, ouvem-se a si próprios.

Em 1Cor 11:33, Paulo exprime bem o que deve ser a comunhão eclesial: «Por isso, meus irmãos, quando vos reunirdes para comer, esperai uns pelos outros.» Esperamos pelo pobre para que a Ceia dominical comece? Esperamos pelo pobre para que a Ceia se prolongue depois da Ceia? Estamos – na vida quotidiana – lado-a-lado com o pobre? As nossas comunidades partilham os seus bens, fazem o real ou sonham um desejo?

«Nós não criamos o Reino de Deus. (…) mantemos [apenas] sempre aberta a esperança da vinda de Deus (…): “Maranatha”». (Edward Schillebeeckx, A identidade cristã: desafio e desafiada. A propósito da extrema proximidade do Deus não-experimentável, in «Deus no Século XXI e o Futuro do Cristianismo», coord. Anselmo Borges, Campo das Letras, 2007, 419)

O específico cristão é fazer com que não acabe o azeite na almotolia. É manter a lamparina acesa.

Eu não tenho dúvidas que a esperança e a alegria específicas que os cristãos em tempos de austeridade podem oferecer são a de se sentirem carregando-se uns aos outros em seus destinos de pobreza. «Cristo morreu como nasceu: extra-muros da cidade. Para enxergar a luz, o sol da Páscoa, é preciso saltar os muros». (Mensagem Pascal do bispo de Évreux, Jacques Gaillot, 1983)

Vizibilizar a esperança e assinalar um sentido cristão passa por acolher os frágeis e por partilhar o seu destino. Fazer nossa a causa dos pobres (caritas) confere Alegria ao Banquete do Reino (fides) e efectiva a Esperança (spe).

Esta é uma esperança e uma alegria específica, para hoje, palpável e bastante acessível, que se pode transformar em louvor.

Garanto que, a partir do pobre marginalizado (‘anawim), a solidão dos apartamentos se transforma em felicidade duradoura – para isso só é preciso tornar-nos pobres, também. «O pobre é o lugar eclesial da cristologia; fora dos pobres não há salvação» (Jon Sobrino), apenas problemas de consciência e boas intenções.

pb\Abril 2012



[1] ‘Cristo’, literalmente ‘ungido’. Por alguma razão esta designação aparece 7 vezes em Marcos, 16 em Mateus, 12 em Lucas e 19 em João. Ou seja, à medida que os testemunhos se vão afastando da pessoa de Jesus vão, ao mesmo tempo, carregando-o de atributos divinatórios, exaltatórios, criando distância entre nós e a figura daquele que «andou de lugar em lugar, fazendo o bem e curando todos os que eram oprimidos pelo diabo, porque Deus estava com Ele [Act 10:38] De todos os títulos, o «Profeta» e o «Filho do Homem» foram os que melhor acolhimento tiveram por parte de Jesus de Nazaré.
[2] Cf. Joachim Jeremias, Teología del nuevo testamento, Sígueme, Salamanca 20098, 139-144.
[3] Luis Alonso Schökel, Cecilia Carniti, Salmos I, EVD, 20083, 383.

20 de abril de 2012

CRISTÃOS E CARIDADEZINHA 1/2

1/2
Jesus: instinto de posse, pobreza e comensalidade

Praça Parada Leitão_Porto


Renúncia ao instinto de posse e comensalidade

Jesus não pretende ter ocupações com a melhor gestão dos bens de subsistência: tem outras pré-ocupações. «Não possuais ouro, nem prata, nem cobre, em vossos cintos; nem alforge para o caminho, nem duas túnicas, nem sandálias, nem cajado; pois o trabalhador [o discípulo] merece o seu sustento.» [Mt 10:9-10] O anúncio do Reino (o exemplo cristão) deve assentar no desprendimento e numa dinâmica do provisório!

Jesus não exclui ninguém da sua mesa: a comensalidade era a parábola do Reino! Partilhar da mesa é sinal «de paz, de confiança, de fraternidade e de perdão: numa palavra,  comunhão de mesa é comunhão de vida». [Joaquim Jeremias, Teologia del Nuevo Testamento, Sígueme 20098, 141; cf. 2Rs 25:27-30; Jer 52:31-34]

Jesus, diante duma sociedade baseada nos «códigos de honra e desonra, no patrocínio e na clientela» [J.-D. Crossan], propõe a vida de partilha de bens e de comunhão de destino como forma de realizar antecipadamente a vontade de Deus [Mt 8:11 par], que é a de que os bens têm destino e uso universais: são para ser partilhados e não capturados ou excluídos do colectivo pelo direito privado usurpador. Jesus declara que os bens têm um valor de uso superior ao valor de posse. (a Reforma Agrária já não deverá exigir «a posse da terra a quem a trabalha», mas a «distribuição justa» dos frutos da terra) A acumulação de riqueza é «desonestidade», injustiça [Lc 6:24-25; 16:9] – a riqueza de uns é  a pobreza de outros; a saciedade de uns é a fome de outros; o riso de uns é o choro de outros. [Lc 6:20-21] Para além do mais, a riqueza é evanescente, caduca, efémera! [Mt 6:19]

O dinheiro convertido em ídolo, em Deus – Mamon – a quem se venera e a quem tudo se submete e oferece (inclusivamente, vidas humanas na pira do holocausto do neoliberalismo), é o maior concorrente da vida em Deus. [Mt 6:24; «não podeis servir a dois senhores»]

(hoje temos que traduzir Mamon por «os mercados»; cf. Michael J. Sandel, professor de filosofia política em Harvard, autor de What Money Can’t Buy: The Moral Limits of Markets: ver link)


Há uma linhagem que vem de Moisés [Ex 32], passa por Amós [5:21-24], Isaías [1:10-17], pelo salmista [115:4-8], por Karl Marx, etc. que desenvolve o tema do fetichismo das mercadorias e do dinheiro. Tal é o apego dos ricos ao dinheiro que não atendem (nunca atendem!!!) às razões humanas [Lc 16:20-21] nem às divinas [Lc 16:30-31]. Além do mais, é bem claro que aqueles a quem nós chamamos «benfeitores» são inimigos do Reino (são anti-Reino; Lc 22:25), pois nunca serão capazes de lutar contra o sistema que os faz ser benfeitores (que os faz ser ricos e, portanto, poderosos), mas fabrica os outros como pobres lázaros: «Abraão respondeu-lhe: ‘Se não dão ouvidos a Moisés e aos Profetas, tão-pouco se deixarão convencer, se alguém ressuscitar dentre os mortos.’» [Lc 16:31]

Jesus reconheceu que as relações não podem estar dependentes de convenções formais baseadas nos laços de sangue ou no poder do dinheiro: a família e os amigos ricos [Lc 14:12-14], regra geral, constrangem a liberdade individual e o espírito crítico tão necessários para a maturação pessoal e a revolução do mundo! São forças de bloqueio: Mt 12:46; Mc 8,11-12; Lc 11,29-32; Mc 10:23-25; Mt 19,23-26; Lc 18,24-27; Jesus; Buda; Aung San Suu Kyi [1945-].

O Cântico de Maria [Lc 1:51-53] é um belo poema ao desprendimento  como escada de acesso aos dons de Deus, que apenas derrama a Sua graça sobre os que possuem um coração pobre, desprendido. [Mt 19:21]



O tributo do templo - Entrando em Cafarnaúm, aproximaram-se de Pedro os cobradores do imposto do templo e disseram-lhe: «O vosso Mestre não paga o imposto?» Ele respondeu: «Paga, sim». Quando chegou a casa, Jesus antecipou-se, dizendo: «Simão, que te parece? De quem recebem os reis da terra impostos e contribuições? Dos seus filhos, ou dos estranhos?» E como ele respondesse: «Dos estranhos», Jesus disse-lhe: «Então, os filhos estão isentos.
No entanto, para não os escandalizarmos, vai ao mar, deita o anzol, apanha o primeiro peixe que nele cair, abre-lhe a boca e encontrarás lá um estáter. Toma-o e dá-lho por mim e por ti.» [Mt 17:24-27]
O desprendimento, que no Reino de Deus é proclamado como salvação, é um desprendimento que quer chegar ao próprio coração da consciência moral: ‘se não pago sou considerado revoltoso político, se pago sou colaboracionista’… Jesus, diante das costumeiras dualidades (‘ouou’), introduz uma terceira via, a via da liberdade dos Filhos de Deus: ‘não te limites apenas à armadilha das dualidades; para sobreviver sê esperto e não embarques em aventureirismos pseudo-revolucionários; submete a tua consciência apenas ao poder de Deus’.[1] Como diz o provérbio árabe: «O rei passa, eu inclino-me e solto os gases…».

Lembremos, por fim, que a versão de Mateus do Pai-Nosso [6:9-13] diz: «perdoa-nos as nossas dívidas assim como também nós perdoamos aos nossos devedores», e que essa versão é mantida na Didaké (8:2). Até no Pai-Nosso ‘o Perdão’ é relacionado com o desprendimento extremo do perdão de uma dívida…

pb\



[1] Cf. Carter, W., «Paying the Tax to Rome as Subversive Praxis: Matthew 17:24-27», JSNT 76 (1999) 3-31.



pb\

19 de abril de 2012

CRISTÃOS E CARIDADEZINHA 2/2

2/2
Jesus: instinto de posse, pobreza e comensalidade

Rua do Rosário_Porto



Jesus e os pobres (‘anawim)

Jesus não era um «consagrado» ao serviço do culto sacerdotal, não «amava uma igreja» ou um movimento religioso, não era ‘nazireu’ [Act 21:17-26; Jesus nunca teria aceitado a hipocrisia da contradição estratégica, que, aqui nos Actos, Paulo aceitou…]. (Cf. a Carta aos Hebreus 8:4-5 e a respectiva denúncia)

Jesus não era um asceta, não vivia à parte do comum dos mortais, não usava vestes cerimoniais ou símbolos distintivos, língua cultivada, vocabulário fino, nem tinha subordinados às suas ordens. Tal como se proclamava na catequese do século II, «os cristãos não se distinguem dos demais homens, nem pela terra, nem pela língua, nem pelos costumes. Nem, em parte alguma, habitam cidades peculiares, nem usam alguma língua distinta, nem vivem uma vida de natureza singular. Nem uma doutrina desta natureza [refere-se ao cristianismo] deve a sua descoberta à invenção ou conjectura de homens de espírito irrequieto, nem defendem, como alguns, uma doutrina humana.» [A Diogneto] «Os cristãos não se distinguem dos demais homens» − Jesus também não!

No entanto, Jesus escandalizou o seu tempo (também) pelo tipo de gente que Ele permitia que o acompanhasse. Terá Jesus usado de «discriminação positiva» e escolhido, como comunidade de vida, preferencialmente gente pobre por uma questão de oportunismo populista? Terá, Jesus, defendido ‘interesses particulares’ – feito uma «opção de classe», no sentido marxista-leninista – jogando apenas num tabuleiro? Não creio. Introduziu, no seu jeito de ser, uma ética humana radical, o «princípio da igualdade na consideração de interesses» [Peter Singer], aquele que se aplica a todas as pessoas, independentemente da raça, sexo ou desempenho num teste de inteligência. «O princípio da igualdade na consideração de interesses actua como uma balança pesando os interesses imparcialmente; ignora totalmente a quem pertencem os interesses que ponderam». «Significa que pondera interesses, considerados simplesmente como interesses e não os nossos interesses, os interesses dos Australianos ou dos Europeus». [Peter Singer, Ética Prática, Gradiva2 2002, 39.38]

No entanto, Jesus fez uma escolha deliberada – não usou de hipocrisia ou infantilidade, e não fez acepção de pessoas. É certo que afirmou que Deus quando envia o sol e a chuva os envia igualmente sobre bons e sobre maus, sobre justos e pecadores [Mt 5:45], mas isso não só não quer dizer que Deus pouco se importa que haja bons e maus, como quer afirmar que Deus sabe que há gente boa e gente má (Deus faz ‘análise social’) e que conta com esse dado da realidade na relação de amor pedagógico que quer manter com a humanidade [Heb 3:7-19].

 «É tudo gente boa» − é afirmação que não se coaduna com a postura que Jesus adoptou. Os evangelhos o mostram: há uma evidente tensão social em torno de Jesus. E porquê? Porque Jesus usa de uma ética que ajuíza acções, Jesus usa de um Decálogo que se formula pela positiva e que retoma a originalidade e a essencialidade das coisas [Mt 19:8; Lc 14:5-6; 1 Cor 9:9] – essa a sua radicalidade, o não se ficar apenas pela aparência, mas o inquirir até às fontes. Jesus não julgou a moralidade das consciências individuais, mas optou pelos pobres, no sentido da definição de Gustavo Gutierrez: «pobres são os que morrem antes de tempo».


Rua das Liceiras_Porto


Jesus sabia que – tal como hoje em pleno século XXI − a «pobreza absoluta» abundava ao seu redor e que o problema da pobreza era (e ainda é), sobretudo, um problema de má distribuição. Ao afirmar que Deus concretizava, em primeiro lugar, o seu amor junto dos pobres [Lc 4:18-19] e que isso já estava em marcha com ele [v.21], Jesus arriscava-se a liderar um «movimento de marginais», movimento mal visto aos olhos do poder militar romano e do poder religioso.

«O Espírito do Senhor está sobre mim,porque me ungiu para anunciar a Boa-Nova aos pobres [Lc 4:18] – forte proposição!

 «Uma proposição não tem a particularidade de um sentir, nem a realidade de um nexo. É um dado dum sentir, à espera de um sujeito que o sinta. A sua relevância para o mundo actual, por meio dos seus sujeitos lógicos, transforma-a num engodo do sentir. De facto, uma multiplicidade de sujeitos pode senti-la com diferentes sentires e diferentes maneiras de sentir.» (…) «Cada proposição implica os seus próprios sujeitos lógicos, não podendo ser a proposição que é, a não ser que esses sujeitos lógicos sejam as entidades actuais que são.» [Alfred North Whitehead, Processo e Realidade, Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa 20101, 292]

«Todos os que estavam na sinagoga tinham os olhos fixos nele.» [v.20b]

«Começou, então, Jesus a dizer-lhes: «Cumpriu-se hoje esta passagem da Escritura, que acabais de ouvir.» [v.21]

O cenário estava pronto para que a proposição fizesse sentido e tivesse impacto: Deus, na pessoa do filho de José e de Maria [v.22b], escolhia os pobres como os preferenciais destinatários da sua preocupação!

O desenvolvimento desta proposição está à vista de todos: a Jesus adeririam de imediato os ‘anawim, os pobres [Lc 7:21-22: «Nessa altura, Jesus curava a muitos das suas doenças, padecimentos e espíritos malignos e concedia vista a muitos cegos. Tomando a palavra, disse aos enviados: «Ide contar a João o que vistes e ouvistes: Os cegos vêem, os coxos andam, os leprosos ficam limpos, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam, a Boa-Nova é anunciada aos pobres»]. Eis «um jubiloso clamor escatológico de Jesus. Para sintonizar o nosso ouvido com o seu conteúdo, escutemos a lista tanaítica e fixemo-nos no contraste: “Quatro coisas se podem comparar a um morto: o paralítico, o cego, o leproso e o que não tem filhos” [b. Ned. 64b Bar.]. A estes modos de vida não se pode chamar vida – estas pessooas, praticamente, estão mortas. Ora, chega AGORA (Lc 4:21; o acento está na palavra ‘hoje’) a ajuda aos que, sem perspectiva alguma, se encontravam numa situação de desespero absoluto. Ora, aos que pareciam mortos, a esses, oferece-se AGORA vida. Jorra a água da vida, terminou o tempo da maldição, o paraíso permanece aberto. A consumação do mundo começa AGORA.» [J. Jeremias, TNT, Sígueme 20098, 128]

Com Jesus de Nazaré começa um tempo novo, o tempo de Deus prometido em Isaías (35:5ss; 29:18ss − «tempo da salvação»; 61:1 − «tempo da boa-nova anunciada aos pobres»), tempo tão aguardado!


Trav. do Carregal_Porto



«A Boa-Nova é anunciada aos pobres» [Lc 7:22]

Mas a quem se refere a palavra ‘pobre’? A resposta a esta pergunta é crucial, e o próprio Jesus assim o acha, pois acrescentou, como recado aos discípulos de João Baptista, o seguinte: «e feliz de quem não se escandalizar com este anúncio que faço» (v.23). Jesus ao dizer que oferece a salvação aos pobres – a melhor tradução é «o reino pertence unicamente aos pobres»; cf. Lc 6:20; Mt 5:3; cf. J. Jeremias, TNT, Sígueme 20098, 142 – abre-nos a porta de acesso ao núcleo central da sua mensagem: só quem se tornar pobre é que poderá esperar ser salvo! No que diz respeito ao quem é quem, há dois pontos de vista.

Para os evangelhos, Jesus aceitou partilhar o seu destino com publicanos, pecadores, prostitutas, pequenos (Mc 9:42; Mt 10:42; 18:10.14; nunca traduzir por ‘crianças’), ‘pequeninos’ ou ‘os mais pequenos’ (Mt 25:40.45; nunca traduzir por ‘criancinhas’) e com os simples (por oposição aos sábios e entendidos; Mt 11:25s).

Para Jesus, estas mesmas companhias são descritas a uma luz distinta: elas são os pobres [Lc 4:18; 6:20; 7:22; Mt 11:5] e os cansados e oprimidos pelo peso da Lei [Mt 11:28].

A primeira terminologia tem claramente origem nos adversários de Jesus: Mt 11:19 par e Lc 7:34.
A segunda terminologia é de Jesus, tal como ficou na memória dos seus primeiros seguidores.

A primeira terminologia refere-se a gente que, socialmente, ou menosprezava a Thora (os Mandamentos de Deus) ou exercia profissões desprezadas (pastores, cambistas, cobradores de impostos, praticantes de jogos de azar ou fortuna, publicanos) ou eram ladrões e assassinos ou eram pessoas sem formação religiosa (era o caso dos discípulos de Jesus), sem sensibilidade piedosa e sem hábitos de culto religioso, atrasadas e incultas. Em suma, pessoas que eram apontadas a dedo, difamadas, pessoas para quem a porta da salvação de Deus estava fechada. [2Sam 5:6-10]

A segunda terminologia – os pobres, ‘anawim – tem duas conotações, consoante estamos em Lucas (6:20) ou em Mateus (11:5). Entre os dois textos, seguramente que o texto de Lucas é o original. Lucas pensa nos discípulos – no discipulado −  e na condição de quem quer dispor-se a seguir a Jesus: pode padecer pobreza, fome e perseguição. Em Mateus há claras referências ao Antigo Testamento: Isaías 57:15, «espírito humilde»; Is 66:2, «de espírito abatido»; Salmo 34:19, «coração contrito, apertado». Ou seja, em Mateus, os pobres são os humildes, os que se sentem pobres diante de Deus, os que se sentem como mendigos, de mãos vazias, conscientes da sua pobreza espiritual ante Deus.

«Mateus 11:5 e Lucas 4:18 é uma citação de Isaías 61:1 entendida como predição: «a anunciar a boa nova aos pobres (lebasser ‘anawim) eu fui enviado». Este ponto é muito importante, sobretudo pelas expressões paralelas: veja as locuções tais como «os desesperados», «os que se encontram cativos (da culpa?)», «os prisioneiros» (v.1), «os aflitos» (v.2), «os de espírito abatido» (v.3). Isto revela-nos que «os pobres» são todos aqueles que são oprimidos em sentido amplíssimo: todos os que sofrem opressão ou não se podem defender, os desesperançados, os que não têm salvação. Num sentido mais amplo, os conceitos de ‘ani / ‘anaw são empregues noutros pontos da literatura profética. Originalmente foi uma denominação para designar os desgraçados. Mas, nos profetas, tal palavra abarca também os oprimidos e os pobres que sabem que estão completamente à mercê de Deus. (…) Lucas pensa na opressão exterior e Mateus pensa na necessidade interior. A tradição mateana das bem-aventuranças formulou-se numa igreja que estava em luta contra a tentação farisaica de se fazer justiça pelas próprias mãos. A tradição lucana formou-se numa igreja que se via gravemente oprimida e que necessitava de consolo.» [J. Jeremias, o. cit., 137-138]

Por último «os pecadores» [Mt 9:9-13; Mc 2:13-17: 4 vezes a palavra ‘pecadores’] correspondem a um tipo moral de pessoas que não só «não temem a Deus» como não concedem algum valor à Thora [Sl 12:4-9; 28:5; 36:2; 73:11; 74:10.18.21; 94:1-7]. Serão castigados, pois é inerente à justiça e ao poder de Deus rejeitar os que rejeitam a sua vontade ética para com os homens. A literatura sapiencial aconselha a que não nos misturemos com esse tipo de gente [Pr 4:14; 9:7; 18:5; 24:24; 25:5.26], a que não tenhamos nenhum trato de familiaridade com ela, de modo a não sermos contaminados – a Lei e a sua espiritualidade são excludentes. [cf. Esther Miquel Pericás, Amigos de esclavos, prostitutas y pecadores, EVD 20071, 329-337]. Jesus, porém, não se importa.


Praça da Batalha_Porto

 O Chamamento de Levi (Mt 9,9-13; Lc 5,27-32) - Jesus saiu de novo para a beira-mar. Toda a multidão ia ao seu encontro, e Ele ensinava-os. Ao passar, viu Levi, filho de Alfeu, sentado no posto de cobrança, e disse-lhe: «Segue-me.» E, levantando-se, ele seguiu Jesus. Depois, quando se encontrava à mesa em casa dele, muitos cobradores de impostos e pecadores também se puseram à mesma mesa com Jesus e os seus discípulos, pois eram muitos os que o seguiam. Mas os doutores da Lei do partido dos fariseus, vendo-o comer com pecadores e cobradores de impostos, disseram aos discípulos: «Porque é que Ele come com cobradores de impostos e pecadores Jesus ouviu isto e respondeu: «Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas sim os enfermos. Eu não vim chamar os justos, mas os pecadores.» [Marcos 2:13-17]

«As más companhias de Jesus não são seguramente criminosos, assassinos e ladrões, mas pessoas cuja atitude e comportamento de alguma forma questiona a legitimidade da moral religiosa judaica. Ao tratar com eles em termos de amizade e companheirismo, Jesus desdenha abertamente os conselhos de toda a tradição moral judaica dando a entender que não rejeita aqueles que põem em perigo a identidade religiosa e a integridade moral do povo eleito. Aos olhos de todos, Jesus aparece como um potencial traidor do Judaísmo.» [Esther Miquel Pericás, o. cit., 329-337]

«Se o seguimento público de Jesus incluía pecadores notórios que não se haviam arrependido nem realizado a restituição [de acordo com as exigências habituais da Thora] e se Jesus proclamava publicamente que estes precederiam os justos no Reino – inclusivamente iam à frente dos justos, daqueles a quem João havia convencido a arrepender-se – então, é compreensível o estalido de indignação pública.» [E. P. Sandres, Jesús y el Judaísmo, Trotta 20041, 368]


«Na prática, a oferta, por parte de Jesus, da salvação aos pobres é extremamente escandalosa.» [J. Jeremias, o. cit., 133]

«O Reino pertence unicamente aos pobres. (…) A primeira Bem-aventurança afirma: a salvação está destinada unicamente aos mendigos e pecadores. É o que lemos, expressamente, em Marcos 2:7 (é o que se conclui do convite para o banquete escatológico). Jesus repetiu sem conta que a salvação é para os pecadores, não para os justos (piedosos). Deus concede a revelação, não aos teólogos eruditos, mas aos incultos [Mt 11:25s par. Lc 10:21]. Para as crianças [Mc 10:14] e para aqueles que, com espírito filial, são capazes de dizer ‘Abba [Mt 18:3], Jesus abre o Reino.» [J. Jeremias, o. cit., 142]

O modo de olhar de Jesus evidencia uma guerra de pontos de vista: uma guerra entre os que apontam o dedo vs os que se compadecem! Entre um e outro existe uma diferença górdica: o primeiro olhar é moralizante e culpabilizante ao passo que o segundo é analítico. O primeiro não procura explicações sistémicas enquanto que o segundo quer responder à pergunta: como foi possível ter-se chegado a isto? O primeiro pergunta pela culpa pessoal; o segundo pergunta pela culpa integral (pessoal e social). O primeiro ignora a dimensão estrutural enquanto o segundo propõe uma salvação holística da pessoa. De qual dos lados está Jesus? Juan José Tamayo di-lo assim:

«A prática de Jesus é uma prática unitária, que engloba as diferentes dimensões do ser humano: subjectividade e historicidade, individualidade e sociabilidade, corporalidade e espiritualidade. Orienta-se para a salvação integral, como o mostra o concílio Vaticano II (1962-1965) num texto antológico: “Com efeito, há que salvar a pessoa humana e renovar a sociedade humana (…), (salvar) o ser humano, mas o ser humano em sua unidade e totalidade, corpo e alma, coração e consciência, inteligência e vontade”». (Gaudium et Spes, nº 3)

«A prática de Jesus é includente, conflituosa, processual e crítico-pública.» (Juan José Tamayo, Hacia la comunidad_Nº5, Trotta, Madrid 20042, 116ss)

Na encíclica Sollicitudo rei socialis (1987), João Paulo II refere-se a atitudes e estruturas de pecado (nº 36) que são anti-Reino e cuja eliminação exige «uma atitude diametralmente oposta: a entrega por bem do próximo, de quem está disposto a “perder-se” − no sentido evangélico − pelo outro, em vez de o explorar, e a “servi-lo” em vez de o oprimir para proveito próprio» (nº 38). A propósito disto, João Paulo II cita vários textos dos evangelhos sinópticos: Mt 20:25; Mc 10:42-45; Lc 22:25-27.

A encíclica entende o desenvolvimento dos povos, não como um dever apenas individualista, como se fosse possível alcançá-lo através de esforços de cada um isolados, mas como «um imperativo (ético) para todos e cada um dos homens e da mulheres, para as sociedades e as nações, para a Igreja católica e para as outras igrejas e comunidades eclesiais com as quais estamos plenamente dispostos a colaborar neste campo» (nº 32). Isso pressupõe desmascarar e «denunciar a existência de mecanismos económicos, financeiros e sociais…» (nº 16).

«A oferta do Reino de Deus para os pobres não se fica, portanto, no plano dos bens meramente espirituais, no plano do consolo anímico. Tem uma dimensão histórica, social, económica, política, tal como se evidencia na contraposição repetidas vezes e de diversas formas estabelecida (…) entre a sorte dos ricos e a dos pobres.» (Lc 6:20-26) [Juan José Tamayo] Seguramente que isto pesou na hora de julgar a Jesus. «Assim que viram Jesus, os sumos sacerdotes e os seus servidores gritaram: «Crucifica-o! Crucifica-o!» Disse-lhes Pilatos: «Levai-o vós e crucificai-o. Eu não descubro nele nenhum crime.» [Jo 19:6] Provavelmente os argumentos oficiais das autoridades não passaram de jogos políticos, meros embustes, desculpas face à evidência [Jo 19:14-16].

Jesus escolheu ser o defensor das vítimasacabou vítima da dominação dos senhores deste mundo, vítima de «Babilónia, a grande, a mãe das prostitutas e das abominações da terra.» Vítima, mas apenas por instantes [cf. Ap 17:14]

pb\