teologia para leigos

20 de abril de 2012

CRISTÃOS E CARIDADEZINHA 1/2

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Jesus: instinto de posse, pobreza e comensalidade

Praça Parada Leitão_Porto


Renúncia ao instinto de posse e comensalidade

Jesus não pretende ter ocupações com a melhor gestão dos bens de subsistência: tem outras pré-ocupações. «Não possuais ouro, nem prata, nem cobre, em vossos cintos; nem alforge para o caminho, nem duas túnicas, nem sandálias, nem cajado; pois o trabalhador [o discípulo] merece o seu sustento.» [Mt 10:9-10] O anúncio do Reino (o exemplo cristão) deve assentar no desprendimento e numa dinâmica do provisório!

Jesus não exclui ninguém da sua mesa: a comensalidade era a parábola do Reino! Partilhar da mesa é sinal «de paz, de confiança, de fraternidade e de perdão: numa palavra,  comunhão de mesa é comunhão de vida». [Joaquim Jeremias, Teologia del Nuevo Testamento, Sígueme 20098, 141; cf. 2Rs 25:27-30; Jer 52:31-34]

Jesus, diante duma sociedade baseada nos «códigos de honra e desonra, no patrocínio e na clientela» [J.-D. Crossan], propõe a vida de partilha de bens e de comunhão de destino como forma de realizar antecipadamente a vontade de Deus [Mt 8:11 par], que é a de que os bens têm destino e uso universais: são para ser partilhados e não capturados ou excluídos do colectivo pelo direito privado usurpador. Jesus declara que os bens têm um valor de uso superior ao valor de posse. (a Reforma Agrária já não deverá exigir «a posse da terra a quem a trabalha», mas a «distribuição justa» dos frutos da terra) A acumulação de riqueza é «desonestidade», injustiça [Lc 6:24-25; 16:9] – a riqueza de uns é  a pobreza de outros; a saciedade de uns é a fome de outros; o riso de uns é o choro de outros. [Lc 6:20-21] Para além do mais, a riqueza é evanescente, caduca, efémera! [Mt 6:19]

O dinheiro convertido em ídolo, em Deus – Mamon – a quem se venera e a quem tudo se submete e oferece (inclusivamente, vidas humanas na pira do holocausto do neoliberalismo), é o maior concorrente da vida em Deus. [Mt 6:24; «não podeis servir a dois senhores»]

(hoje temos que traduzir Mamon por «os mercados»; cf. Michael J. Sandel, professor de filosofia política em Harvard, autor de What Money Can’t Buy: The Moral Limits of Markets: ver link)


Há uma linhagem que vem de Moisés [Ex 32], passa por Amós [5:21-24], Isaías [1:10-17], pelo salmista [115:4-8], por Karl Marx, etc. que desenvolve o tema do fetichismo das mercadorias e do dinheiro. Tal é o apego dos ricos ao dinheiro que não atendem (nunca atendem!!!) às razões humanas [Lc 16:20-21] nem às divinas [Lc 16:30-31]. Além do mais, é bem claro que aqueles a quem nós chamamos «benfeitores» são inimigos do Reino (são anti-Reino; Lc 22:25), pois nunca serão capazes de lutar contra o sistema que os faz ser benfeitores (que os faz ser ricos e, portanto, poderosos), mas fabrica os outros como pobres lázaros: «Abraão respondeu-lhe: ‘Se não dão ouvidos a Moisés e aos Profetas, tão-pouco se deixarão convencer, se alguém ressuscitar dentre os mortos.’» [Lc 16:31]

Jesus reconheceu que as relações não podem estar dependentes de convenções formais baseadas nos laços de sangue ou no poder do dinheiro: a família e os amigos ricos [Lc 14:12-14], regra geral, constrangem a liberdade individual e o espírito crítico tão necessários para a maturação pessoal e a revolução do mundo! São forças de bloqueio: Mt 12:46; Mc 8,11-12; Lc 11,29-32; Mc 10:23-25; Mt 19,23-26; Lc 18,24-27; Jesus; Buda; Aung San Suu Kyi [1945-].

O Cântico de Maria [Lc 1:51-53] é um belo poema ao desprendimento  como escada de acesso aos dons de Deus, que apenas derrama a Sua graça sobre os que possuem um coração pobre, desprendido. [Mt 19:21]



O tributo do templo - Entrando em Cafarnaúm, aproximaram-se de Pedro os cobradores do imposto do templo e disseram-lhe: «O vosso Mestre não paga o imposto?» Ele respondeu: «Paga, sim». Quando chegou a casa, Jesus antecipou-se, dizendo: «Simão, que te parece? De quem recebem os reis da terra impostos e contribuições? Dos seus filhos, ou dos estranhos?» E como ele respondesse: «Dos estranhos», Jesus disse-lhe: «Então, os filhos estão isentos.
No entanto, para não os escandalizarmos, vai ao mar, deita o anzol, apanha o primeiro peixe que nele cair, abre-lhe a boca e encontrarás lá um estáter. Toma-o e dá-lho por mim e por ti.» [Mt 17:24-27]
O desprendimento, que no Reino de Deus é proclamado como salvação, é um desprendimento que quer chegar ao próprio coração da consciência moral: ‘se não pago sou considerado revoltoso político, se pago sou colaboracionista’… Jesus, diante das costumeiras dualidades (‘ouou’), introduz uma terceira via, a via da liberdade dos Filhos de Deus: ‘não te limites apenas à armadilha das dualidades; para sobreviver sê esperto e não embarques em aventureirismos pseudo-revolucionários; submete a tua consciência apenas ao poder de Deus’.[1] Como diz o provérbio árabe: «O rei passa, eu inclino-me e solto os gases…».

Lembremos, por fim, que a versão de Mateus do Pai-Nosso [6:9-13] diz: «perdoa-nos as nossas dívidas assim como também nós perdoamos aos nossos devedores», e que essa versão é mantida na Didaké (8:2). Até no Pai-Nosso ‘o Perdão’ é relacionado com o desprendimento extremo do perdão de uma dívida…

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[1] Cf. Carter, W., «Paying the Tax to Rome as Subversive Praxis: Matthew 17:24-27», JSNT 76 (1999) 3-31.



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19 de abril de 2012

CRISTÃOS E CARIDADEZINHA 2/2

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Jesus: instinto de posse, pobreza e comensalidade

Rua do Rosário_Porto



Jesus e os pobres (‘anawim)

Jesus não era um «consagrado» ao serviço do culto sacerdotal, não «amava uma igreja» ou um movimento religioso, não era ‘nazireu’ [Act 21:17-26; Jesus nunca teria aceitado a hipocrisia da contradição estratégica, que, aqui nos Actos, Paulo aceitou…]. (Cf. a Carta aos Hebreus 8:4-5 e a respectiva denúncia)

Jesus não era um asceta, não vivia à parte do comum dos mortais, não usava vestes cerimoniais ou símbolos distintivos, língua cultivada, vocabulário fino, nem tinha subordinados às suas ordens. Tal como se proclamava na catequese do século II, «os cristãos não se distinguem dos demais homens, nem pela terra, nem pela língua, nem pelos costumes. Nem, em parte alguma, habitam cidades peculiares, nem usam alguma língua distinta, nem vivem uma vida de natureza singular. Nem uma doutrina desta natureza [refere-se ao cristianismo] deve a sua descoberta à invenção ou conjectura de homens de espírito irrequieto, nem defendem, como alguns, uma doutrina humana.» [A Diogneto] «Os cristãos não se distinguem dos demais homens» − Jesus também não!

No entanto, Jesus escandalizou o seu tempo (também) pelo tipo de gente que Ele permitia que o acompanhasse. Terá Jesus usado de «discriminação positiva» e escolhido, como comunidade de vida, preferencialmente gente pobre por uma questão de oportunismo populista? Terá, Jesus, defendido ‘interesses particulares’ – feito uma «opção de classe», no sentido marxista-leninista – jogando apenas num tabuleiro? Não creio. Introduziu, no seu jeito de ser, uma ética humana radical, o «princípio da igualdade na consideração de interesses» [Peter Singer], aquele que se aplica a todas as pessoas, independentemente da raça, sexo ou desempenho num teste de inteligência. «O princípio da igualdade na consideração de interesses actua como uma balança pesando os interesses imparcialmente; ignora totalmente a quem pertencem os interesses que ponderam». «Significa que pondera interesses, considerados simplesmente como interesses e não os nossos interesses, os interesses dos Australianos ou dos Europeus». [Peter Singer, Ética Prática, Gradiva2 2002, 39.38]

No entanto, Jesus fez uma escolha deliberada – não usou de hipocrisia ou infantilidade, e não fez acepção de pessoas. É certo que afirmou que Deus quando envia o sol e a chuva os envia igualmente sobre bons e sobre maus, sobre justos e pecadores [Mt 5:45], mas isso não só não quer dizer que Deus pouco se importa que haja bons e maus, como quer afirmar que Deus sabe que há gente boa e gente má (Deus faz ‘análise social’) e que conta com esse dado da realidade na relação de amor pedagógico que quer manter com a humanidade [Heb 3:7-19].

 «É tudo gente boa» − é afirmação que não se coaduna com a postura que Jesus adoptou. Os evangelhos o mostram: há uma evidente tensão social em torno de Jesus. E porquê? Porque Jesus usa de uma ética que ajuíza acções, Jesus usa de um Decálogo que se formula pela positiva e que retoma a originalidade e a essencialidade das coisas [Mt 19:8; Lc 14:5-6; 1 Cor 9:9] – essa a sua radicalidade, o não se ficar apenas pela aparência, mas o inquirir até às fontes. Jesus não julgou a moralidade das consciências individuais, mas optou pelos pobres, no sentido da definição de Gustavo Gutierrez: «pobres são os que morrem antes de tempo».


Rua das Liceiras_Porto


Jesus sabia que – tal como hoje em pleno século XXI − a «pobreza absoluta» abundava ao seu redor e que o problema da pobreza era (e ainda é), sobretudo, um problema de má distribuição. Ao afirmar que Deus concretizava, em primeiro lugar, o seu amor junto dos pobres [Lc 4:18-19] e que isso já estava em marcha com ele [v.21], Jesus arriscava-se a liderar um «movimento de marginais», movimento mal visto aos olhos do poder militar romano e do poder religioso.

«O Espírito do Senhor está sobre mim,porque me ungiu para anunciar a Boa-Nova aos pobres [Lc 4:18] – forte proposição!

 «Uma proposição não tem a particularidade de um sentir, nem a realidade de um nexo. É um dado dum sentir, à espera de um sujeito que o sinta. A sua relevância para o mundo actual, por meio dos seus sujeitos lógicos, transforma-a num engodo do sentir. De facto, uma multiplicidade de sujeitos pode senti-la com diferentes sentires e diferentes maneiras de sentir.» (…) «Cada proposição implica os seus próprios sujeitos lógicos, não podendo ser a proposição que é, a não ser que esses sujeitos lógicos sejam as entidades actuais que são.» [Alfred North Whitehead, Processo e Realidade, Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa 20101, 292]

«Todos os que estavam na sinagoga tinham os olhos fixos nele.» [v.20b]

«Começou, então, Jesus a dizer-lhes: «Cumpriu-se hoje esta passagem da Escritura, que acabais de ouvir.» [v.21]

O cenário estava pronto para que a proposição fizesse sentido e tivesse impacto: Deus, na pessoa do filho de José e de Maria [v.22b], escolhia os pobres como os preferenciais destinatários da sua preocupação!

O desenvolvimento desta proposição está à vista de todos: a Jesus adeririam de imediato os ‘anawim, os pobres [Lc 7:21-22: «Nessa altura, Jesus curava a muitos das suas doenças, padecimentos e espíritos malignos e concedia vista a muitos cegos. Tomando a palavra, disse aos enviados: «Ide contar a João o que vistes e ouvistes: Os cegos vêem, os coxos andam, os leprosos ficam limpos, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam, a Boa-Nova é anunciada aos pobres»]. Eis «um jubiloso clamor escatológico de Jesus. Para sintonizar o nosso ouvido com o seu conteúdo, escutemos a lista tanaítica e fixemo-nos no contraste: “Quatro coisas se podem comparar a um morto: o paralítico, o cego, o leproso e o que não tem filhos” [b. Ned. 64b Bar.]. A estes modos de vida não se pode chamar vida – estas pessooas, praticamente, estão mortas. Ora, chega AGORA (Lc 4:21; o acento está na palavra ‘hoje’) a ajuda aos que, sem perspectiva alguma, se encontravam numa situação de desespero absoluto. Ora, aos que pareciam mortos, a esses, oferece-se AGORA vida. Jorra a água da vida, terminou o tempo da maldição, o paraíso permanece aberto. A consumação do mundo começa AGORA.» [J. Jeremias, TNT, Sígueme 20098, 128]

Com Jesus de Nazaré começa um tempo novo, o tempo de Deus prometido em Isaías (35:5ss; 29:18ss − «tempo da salvação»; 61:1 − «tempo da boa-nova anunciada aos pobres»), tempo tão aguardado!


Trav. do Carregal_Porto



«A Boa-Nova é anunciada aos pobres» [Lc 7:22]

Mas a quem se refere a palavra ‘pobre’? A resposta a esta pergunta é crucial, e o próprio Jesus assim o acha, pois acrescentou, como recado aos discípulos de João Baptista, o seguinte: «e feliz de quem não se escandalizar com este anúncio que faço» (v.23). Jesus ao dizer que oferece a salvação aos pobres – a melhor tradução é «o reino pertence unicamente aos pobres»; cf. Lc 6:20; Mt 5:3; cf. J. Jeremias, TNT, Sígueme 20098, 142 – abre-nos a porta de acesso ao núcleo central da sua mensagem: só quem se tornar pobre é que poderá esperar ser salvo! No que diz respeito ao quem é quem, há dois pontos de vista.

Para os evangelhos, Jesus aceitou partilhar o seu destino com publicanos, pecadores, prostitutas, pequenos (Mc 9:42; Mt 10:42; 18:10.14; nunca traduzir por ‘crianças’), ‘pequeninos’ ou ‘os mais pequenos’ (Mt 25:40.45; nunca traduzir por ‘criancinhas’) e com os simples (por oposição aos sábios e entendidos; Mt 11:25s).

Para Jesus, estas mesmas companhias são descritas a uma luz distinta: elas são os pobres [Lc 4:18; 6:20; 7:22; Mt 11:5] e os cansados e oprimidos pelo peso da Lei [Mt 11:28].

A primeira terminologia tem claramente origem nos adversários de Jesus: Mt 11:19 par e Lc 7:34.
A segunda terminologia é de Jesus, tal como ficou na memória dos seus primeiros seguidores.

A primeira terminologia refere-se a gente que, socialmente, ou menosprezava a Thora (os Mandamentos de Deus) ou exercia profissões desprezadas (pastores, cambistas, cobradores de impostos, praticantes de jogos de azar ou fortuna, publicanos) ou eram ladrões e assassinos ou eram pessoas sem formação religiosa (era o caso dos discípulos de Jesus), sem sensibilidade piedosa e sem hábitos de culto religioso, atrasadas e incultas. Em suma, pessoas que eram apontadas a dedo, difamadas, pessoas para quem a porta da salvação de Deus estava fechada. [2Sam 5:6-10]

A segunda terminologia – os pobres, ‘anawim – tem duas conotações, consoante estamos em Lucas (6:20) ou em Mateus (11:5). Entre os dois textos, seguramente que o texto de Lucas é o original. Lucas pensa nos discípulos – no discipulado −  e na condição de quem quer dispor-se a seguir a Jesus: pode padecer pobreza, fome e perseguição. Em Mateus há claras referências ao Antigo Testamento: Isaías 57:15, «espírito humilde»; Is 66:2, «de espírito abatido»; Salmo 34:19, «coração contrito, apertado». Ou seja, em Mateus, os pobres são os humildes, os que se sentem pobres diante de Deus, os que se sentem como mendigos, de mãos vazias, conscientes da sua pobreza espiritual ante Deus.

«Mateus 11:5 e Lucas 4:18 é uma citação de Isaías 61:1 entendida como predição: «a anunciar a boa nova aos pobres (lebasser ‘anawim) eu fui enviado». Este ponto é muito importante, sobretudo pelas expressões paralelas: veja as locuções tais como «os desesperados», «os que se encontram cativos (da culpa?)», «os prisioneiros» (v.1), «os aflitos» (v.2), «os de espírito abatido» (v.3). Isto revela-nos que «os pobres» são todos aqueles que são oprimidos em sentido amplíssimo: todos os que sofrem opressão ou não se podem defender, os desesperançados, os que não têm salvação. Num sentido mais amplo, os conceitos de ‘ani / ‘anaw são empregues noutros pontos da literatura profética. Originalmente foi uma denominação para designar os desgraçados. Mas, nos profetas, tal palavra abarca também os oprimidos e os pobres que sabem que estão completamente à mercê de Deus. (…) Lucas pensa na opressão exterior e Mateus pensa na necessidade interior. A tradição mateana das bem-aventuranças formulou-se numa igreja que estava em luta contra a tentação farisaica de se fazer justiça pelas próprias mãos. A tradição lucana formou-se numa igreja que se via gravemente oprimida e que necessitava de consolo.» [J. Jeremias, o. cit., 137-138]

Por último «os pecadores» [Mt 9:9-13; Mc 2:13-17: 4 vezes a palavra ‘pecadores’] correspondem a um tipo moral de pessoas que não só «não temem a Deus» como não concedem algum valor à Thora [Sl 12:4-9; 28:5; 36:2; 73:11; 74:10.18.21; 94:1-7]. Serão castigados, pois é inerente à justiça e ao poder de Deus rejeitar os que rejeitam a sua vontade ética para com os homens. A literatura sapiencial aconselha a que não nos misturemos com esse tipo de gente [Pr 4:14; 9:7; 18:5; 24:24; 25:5.26], a que não tenhamos nenhum trato de familiaridade com ela, de modo a não sermos contaminados – a Lei e a sua espiritualidade são excludentes. [cf. Esther Miquel Pericás, Amigos de esclavos, prostitutas y pecadores, EVD 20071, 329-337]. Jesus, porém, não se importa.


Praça da Batalha_Porto

 O Chamamento de Levi (Mt 9,9-13; Lc 5,27-32) - Jesus saiu de novo para a beira-mar. Toda a multidão ia ao seu encontro, e Ele ensinava-os. Ao passar, viu Levi, filho de Alfeu, sentado no posto de cobrança, e disse-lhe: «Segue-me.» E, levantando-se, ele seguiu Jesus. Depois, quando se encontrava à mesa em casa dele, muitos cobradores de impostos e pecadores também se puseram à mesma mesa com Jesus e os seus discípulos, pois eram muitos os que o seguiam. Mas os doutores da Lei do partido dos fariseus, vendo-o comer com pecadores e cobradores de impostos, disseram aos discípulos: «Porque é que Ele come com cobradores de impostos e pecadores Jesus ouviu isto e respondeu: «Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas sim os enfermos. Eu não vim chamar os justos, mas os pecadores.» [Marcos 2:13-17]

«As más companhias de Jesus não são seguramente criminosos, assassinos e ladrões, mas pessoas cuja atitude e comportamento de alguma forma questiona a legitimidade da moral religiosa judaica. Ao tratar com eles em termos de amizade e companheirismo, Jesus desdenha abertamente os conselhos de toda a tradição moral judaica dando a entender que não rejeita aqueles que põem em perigo a identidade religiosa e a integridade moral do povo eleito. Aos olhos de todos, Jesus aparece como um potencial traidor do Judaísmo.» [Esther Miquel Pericás, o. cit., 329-337]

«Se o seguimento público de Jesus incluía pecadores notórios que não se haviam arrependido nem realizado a restituição [de acordo com as exigências habituais da Thora] e se Jesus proclamava publicamente que estes precederiam os justos no Reino – inclusivamente iam à frente dos justos, daqueles a quem João havia convencido a arrepender-se – então, é compreensível o estalido de indignação pública.» [E. P. Sandres, Jesús y el Judaísmo, Trotta 20041, 368]


«Na prática, a oferta, por parte de Jesus, da salvação aos pobres é extremamente escandalosa.» [J. Jeremias, o. cit., 133]

«O Reino pertence unicamente aos pobres. (…) A primeira Bem-aventurança afirma: a salvação está destinada unicamente aos mendigos e pecadores. É o que lemos, expressamente, em Marcos 2:7 (é o que se conclui do convite para o banquete escatológico). Jesus repetiu sem conta que a salvação é para os pecadores, não para os justos (piedosos). Deus concede a revelação, não aos teólogos eruditos, mas aos incultos [Mt 11:25s par. Lc 10:21]. Para as crianças [Mc 10:14] e para aqueles que, com espírito filial, são capazes de dizer ‘Abba [Mt 18:3], Jesus abre o Reino.» [J. Jeremias, o. cit., 142]

O modo de olhar de Jesus evidencia uma guerra de pontos de vista: uma guerra entre os que apontam o dedo vs os que se compadecem! Entre um e outro existe uma diferença górdica: o primeiro olhar é moralizante e culpabilizante ao passo que o segundo é analítico. O primeiro não procura explicações sistémicas enquanto que o segundo quer responder à pergunta: como foi possível ter-se chegado a isto? O primeiro pergunta pela culpa pessoal; o segundo pergunta pela culpa integral (pessoal e social). O primeiro ignora a dimensão estrutural enquanto o segundo propõe uma salvação holística da pessoa. De qual dos lados está Jesus? Juan José Tamayo di-lo assim:

«A prática de Jesus é uma prática unitária, que engloba as diferentes dimensões do ser humano: subjectividade e historicidade, individualidade e sociabilidade, corporalidade e espiritualidade. Orienta-se para a salvação integral, como o mostra o concílio Vaticano II (1962-1965) num texto antológico: “Com efeito, há que salvar a pessoa humana e renovar a sociedade humana (…), (salvar) o ser humano, mas o ser humano em sua unidade e totalidade, corpo e alma, coração e consciência, inteligência e vontade”». (Gaudium et Spes, nº 3)

«A prática de Jesus é includente, conflituosa, processual e crítico-pública.» (Juan José Tamayo, Hacia la comunidad_Nº5, Trotta, Madrid 20042, 116ss)

Na encíclica Sollicitudo rei socialis (1987), João Paulo II refere-se a atitudes e estruturas de pecado (nº 36) que são anti-Reino e cuja eliminação exige «uma atitude diametralmente oposta: a entrega por bem do próximo, de quem está disposto a “perder-se” − no sentido evangélico − pelo outro, em vez de o explorar, e a “servi-lo” em vez de o oprimir para proveito próprio» (nº 38). A propósito disto, João Paulo II cita vários textos dos evangelhos sinópticos: Mt 20:25; Mc 10:42-45; Lc 22:25-27.

A encíclica entende o desenvolvimento dos povos, não como um dever apenas individualista, como se fosse possível alcançá-lo através de esforços de cada um isolados, mas como «um imperativo (ético) para todos e cada um dos homens e da mulheres, para as sociedades e as nações, para a Igreja católica e para as outras igrejas e comunidades eclesiais com as quais estamos plenamente dispostos a colaborar neste campo» (nº 32). Isso pressupõe desmascarar e «denunciar a existência de mecanismos económicos, financeiros e sociais…» (nº 16).

«A oferta do Reino de Deus para os pobres não se fica, portanto, no plano dos bens meramente espirituais, no plano do consolo anímico. Tem uma dimensão histórica, social, económica, política, tal como se evidencia na contraposição repetidas vezes e de diversas formas estabelecida (…) entre a sorte dos ricos e a dos pobres.» (Lc 6:20-26) [Juan José Tamayo] Seguramente que isto pesou na hora de julgar a Jesus. «Assim que viram Jesus, os sumos sacerdotes e os seus servidores gritaram: «Crucifica-o! Crucifica-o!» Disse-lhes Pilatos: «Levai-o vós e crucificai-o. Eu não descubro nele nenhum crime.» [Jo 19:6] Provavelmente os argumentos oficiais das autoridades não passaram de jogos políticos, meros embustes, desculpas face à evidência [Jo 19:14-16].

Jesus escolheu ser o defensor das vítimasacabou vítima da dominação dos senhores deste mundo, vítima de «Babilónia, a grande, a mãe das prostitutas e das abominações da terra.» Vítima, mas apenas por instantes [cf. Ap 17:14]

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10 de abril de 2012

CRER NO RESSUSCITADO

Mistério de Esperança

Júlio Resende

.Crer no Ressuscitado é resistir à ideia de que a nossa vida é apenas um parêntesis entre dois imensos vazios.
Apoiando-nos em Jesus ressuscitado por Deus, intuímos, desejamos e acreditamos que Deus conduz, à sua verdadeira plenitude, o anseio de vida, de justiça e de paz que habita o coração da Humanidade e o da criação inteira.

.Crer no Ressuscitado é rebelar-nos com todas as nossas forças para que essa imensa maioria de homens, mulheres e crianças, que nesta vida apenas conheceram miséria, humilhação e sofrimento, não caia definitivamente no esquecimento.

.Crer no Ressuscitado é confiar numa vida em que jamais haja pobreza, dor, pessoas tristes ou choro.
Veremos chegar finalmente à sua verdadeira pátria todos aqueles que sulcam os mares em frágeis botes.

.Crer no Ressuscitado é levarmos esperança a tantas pessoas sem saúde, doentes crónicos, incapacitados físicos e psíquicos, pessoas mergulhadas na depressão cansadas de viver e de lutar.
Um dia saberão o que é viver em paz e com saúde plena – esses ouvirão as palavras do Pai: «Entra para sempre no deleite do teu Senhor!»

.Crer no Ressuscitado é não nos resignarmos a que Deus se mantenha sempre um «Deus oculto», do qual nunca possamos conhecer o olhar, a ternura e os abraços.
Encontrá-lo-emos gloriosamente encarnado para sempre em Jesus.

.Crer no Ressuscitado é confiar que, os nossos esforços por um mundo mais humano e ditoso, não se perderão no nada.
Num felicitante dia, os últimos serão os primeiros e as prostitutas preceder-nos-ao no Reino.

.Crer no Ressuscitado é saber que tudo aquilo que deixamos a meio, tudo o que se tornou inviável, o que esmagamos − porque torpes ou pecadores − tudo isso alcançará, em Deus, sua plenitude.
Do que vivêramos no amor, nada se perderá, bem como nada daquilo a que renunciámos por amor.

.Crer no Ressuscitado é confiar que as horas alegres e as experiências amargas, as «marcas» que deixamos nas pessoas e nas coisas, tudo aquilo que construímos ou de que desfrutamos generosamente será transfigurado.
Jamais amizades incompletas, festa com hora para findar, despedidas tristes − Deus será tudo em todos.

.Crer no Ressuscitado é crer que um dia ouviremos estas incríveis palavras que o livro do Apocalipse coloca na boca de Deus: «Eu sou o princípio e o fim de tudo. Ao que tiver sede, de graça lhe darei de beber do manancial da vida.»
Findará a morte e o choro, não haverá mais gritos nem canseiras, pois tudo isso é passado.

J A Pagola



9 de abril de 2012

SOCIEDADE DE BEM-ESTAR E FÉ

IDENTIFICADO COM AS VÍTIMAS



Nem o poder de Roma nem as autoridades do Templo puderam suportar a novidade que foi Jesus. A Sua forma de entender e de viver Deus era perigosa. Não defendia o império de Tibério, chamava todos a procurar o Reino de Deus e a sua Justiça. Pouco lhe importava faltar à Lei do Sábado ou às tradições religiosas – preocupava-se, apenas, em aliviar o sofrimento das pessoas doentes e desnutridas da Galileia.

Não lho perdoaram. Identificava-se demasiado com as vítimas inocentes do império e com os esquecidos pela religião do templo. Executado sem piedade numa cruz, n’Ele se nos revela agora Deus, identificado para sempre com todas as vítimas inocentes da história. Ao grito de todos eles une-se agora o grito de dor do mesmo Deus.

Nesse rosto desfigurado do Crucificado revela-se-nos um Deus surpreendente, que rompe as nossas imagens convencionais de Deus e coloca em questão toda a prática religiosa que pretenda dar culto a Deus esquecendo o drama de um mundo onde se continua a crucificar os mais débeis e indefesos.

Se Deus morreu identificado com as vítimas, a Sua crucificação converte-se num desafio inquietante para os seguidores de Jesus. Não podemos separar Deus do sofrimento dos inocentes. Não podemos adorar o Crucificado e viver de costas ao sofrimento de tantos seres humanos destruídos pela fome, pelas guerras ou pela miséria.

Deus continua a interpelar-nos a partir dos crucificados dos nossos dias. Não nos é permitido continuar a viver como espectadores desse sofrimento imenso alimentando uma ingénua ilusão de inocência.

Temos de nos rebelar contra essa cultura de esquecimento, que nos permite isolar-nos dos crucificados deslocando o sofrimento injusto que há no mundo para longe onde desaparece todo clamor, gemido ou choro.

Não nos podemos fechar na nossa “sociedade de bem-estar”, ignorando essa outra “sociedade de mal-estar” em que milhões de seres humanos nascem apenas para se extinguir ao fim de poucos anos de uma vida que só foi de morte. Não é humano nem cristão instalar-nos na segurança esquecendo quem só conhece uma vida insegura e ameaçada.

Quando nós, os cristãos, levantamos os nossos olhos até ao rosto do Crucificado contemplamos o amor insondável de Deus entregue até à morte para nossa salvação. Se o olhamos mais demoradamente, logo descobrimos nesse rosto o de tantos outros crucificados que, longe ou perto de nós, reclamam o nosso amor solidário e compassivo.

 J A Pagola

Eclesalia, 28 Março 2012
Tradução: Antonio Manuel Álvarez Pérez