teologia para leigos

19 de abril de 2012

CRISTÃOS E CARIDADEZINHA 2/2

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Jesus: instinto de posse, pobreza e comensalidade

Rua do Rosário_Porto



Jesus e os pobres (‘anawim)

Jesus não era um «consagrado» ao serviço do culto sacerdotal, não «amava uma igreja» ou um movimento religioso, não era ‘nazireu’ [Act 21:17-26; Jesus nunca teria aceitado a hipocrisia da contradição estratégica, que, aqui nos Actos, Paulo aceitou…]. (Cf. a Carta aos Hebreus 8:4-5 e a respectiva denúncia)

Jesus não era um asceta, não vivia à parte do comum dos mortais, não usava vestes cerimoniais ou símbolos distintivos, língua cultivada, vocabulário fino, nem tinha subordinados às suas ordens. Tal como se proclamava na catequese do século II, «os cristãos não se distinguem dos demais homens, nem pela terra, nem pela língua, nem pelos costumes. Nem, em parte alguma, habitam cidades peculiares, nem usam alguma língua distinta, nem vivem uma vida de natureza singular. Nem uma doutrina desta natureza [refere-se ao cristianismo] deve a sua descoberta à invenção ou conjectura de homens de espírito irrequieto, nem defendem, como alguns, uma doutrina humana.» [A Diogneto] «Os cristãos não se distinguem dos demais homens» − Jesus também não!

No entanto, Jesus escandalizou o seu tempo (também) pelo tipo de gente que Ele permitia que o acompanhasse. Terá Jesus usado de «discriminação positiva» e escolhido, como comunidade de vida, preferencialmente gente pobre por uma questão de oportunismo populista? Terá, Jesus, defendido ‘interesses particulares’ – feito uma «opção de classe», no sentido marxista-leninista – jogando apenas num tabuleiro? Não creio. Introduziu, no seu jeito de ser, uma ética humana radical, o «princípio da igualdade na consideração de interesses» [Peter Singer], aquele que se aplica a todas as pessoas, independentemente da raça, sexo ou desempenho num teste de inteligência. «O princípio da igualdade na consideração de interesses actua como uma balança pesando os interesses imparcialmente; ignora totalmente a quem pertencem os interesses que ponderam». «Significa que pondera interesses, considerados simplesmente como interesses e não os nossos interesses, os interesses dos Australianos ou dos Europeus». [Peter Singer, Ética Prática, Gradiva2 2002, 39.38]

No entanto, Jesus fez uma escolha deliberada – não usou de hipocrisia ou infantilidade, e não fez acepção de pessoas. É certo que afirmou que Deus quando envia o sol e a chuva os envia igualmente sobre bons e sobre maus, sobre justos e pecadores [Mt 5:45], mas isso não só não quer dizer que Deus pouco se importa que haja bons e maus, como quer afirmar que Deus sabe que há gente boa e gente má (Deus faz ‘análise social’) e que conta com esse dado da realidade na relação de amor pedagógico que quer manter com a humanidade [Heb 3:7-19].

 «É tudo gente boa» − é afirmação que não se coaduna com a postura que Jesus adoptou. Os evangelhos o mostram: há uma evidente tensão social em torno de Jesus. E porquê? Porque Jesus usa de uma ética que ajuíza acções, Jesus usa de um Decálogo que se formula pela positiva e que retoma a originalidade e a essencialidade das coisas [Mt 19:8; Lc 14:5-6; 1 Cor 9:9] – essa a sua radicalidade, o não se ficar apenas pela aparência, mas o inquirir até às fontes. Jesus não julgou a moralidade das consciências individuais, mas optou pelos pobres, no sentido da definição de Gustavo Gutierrez: «pobres são os que morrem antes de tempo».


Rua das Liceiras_Porto


Jesus sabia que – tal como hoje em pleno século XXI − a «pobreza absoluta» abundava ao seu redor e que o problema da pobreza era (e ainda é), sobretudo, um problema de má distribuição. Ao afirmar que Deus concretizava, em primeiro lugar, o seu amor junto dos pobres [Lc 4:18-19] e que isso já estava em marcha com ele [v.21], Jesus arriscava-se a liderar um «movimento de marginais», movimento mal visto aos olhos do poder militar romano e do poder religioso.

«O Espírito do Senhor está sobre mim,porque me ungiu para anunciar a Boa-Nova aos pobres [Lc 4:18] – forte proposição!

 «Uma proposição não tem a particularidade de um sentir, nem a realidade de um nexo. É um dado dum sentir, à espera de um sujeito que o sinta. A sua relevância para o mundo actual, por meio dos seus sujeitos lógicos, transforma-a num engodo do sentir. De facto, uma multiplicidade de sujeitos pode senti-la com diferentes sentires e diferentes maneiras de sentir.» (…) «Cada proposição implica os seus próprios sujeitos lógicos, não podendo ser a proposição que é, a não ser que esses sujeitos lógicos sejam as entidades actuais que são.» [Alfred North Whitehead, Processo e Realidade, Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa 20101, 292]

«Todos os que estavam na sinagoga tinham os olhos fixos nele.» [v.20b]

«Começou, então, Jesus a dizer-lhes: «Cumpriu-se hoje esta passagem da Escritura, que acabais de ouvir.» [v.21]

O cenário estava pronto para que a proposição fizesse sentido e tivesse impacto: Deus, na pessoa do filho de José e de Maria [v.22b], escolhia os pobres como os preferenciais destinatários da sua preocupação!

O desenvolvimento desta proposição está à vista de todos: a Jesus adeririam de imediato os ‘anawim, os pobres [Lc 7:21-22: «Nessa altura, Jesus curava a muitos das suas doenças, padecimentos e espíritos malignos e concedia vista a muitos cegos. Tomando a palavra, disse aos enviados: «Ide contar a João o que vistes e ouvistes: Os cegos vêem, os coxos andam, os leprosos ficam limpos, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam, a Boa-Nova é anunciada aos pobres»]. Eis «um jubiloso clamor escatológico de Jesus. Para sintonizar o nosso ouvido com o seu conteúdo, escutemos a lista tanaítica e fixemo-nos no contraste: “Quatro coisas se podem comparar a um morto: o paralítico, o cego, o leproso e o que não tem filhos” [b. Ned. 64b Bar.]. A estes modos de vida não se pode chamar vida – estas pessooas, praticamente, estão mortas. Ora, chega AGORA (Lc 4:21; o acento está na palavra ‘hoje’) a ajuda aos que, sem perspectiva alguma, se encontravam numa situação de desespero absoluto. Ora, aos que pareciam mortos, a esses, oferece-se AGORA vida. Jorra a água da vida, terminou o tempo da maldição, o paraíso permanece aberto. A consumação do mundo começa AGORA.» [J. Jeremias, TNT, Sígueme 20098, 128]

Com Jesus de Nazaré começa um tempo novo, o tempo de Deus prometido em Isaías (35:5ss; 29:18ss − «tempo da salvação»; 61:1 − «tempo da boa-nova anunciada aos pobres»), tempo tão aguardado!


Trav. do Carregal_Porto



«A Boa-Nova é anunciada aos pobres» [Lc 7:22]

Mas a quem se refere a palavra ‘pobre’? A resposta a esta pergunta é crucial, e o próprio Jesus assim o acha, pois acrescentou, como recado aos discípulos de João Baptista, o seguinte: «e feliz de quem não se escandalizar com este anúncio que faço» (v.23). Jesus ao dizer que oferece a salvação aos pobres – a melhor tradução é «o reino pertence unicamente aos pobres»; cf. Lc 6:20; Mt 5:3; cf. J. Jeremias, TNT, Sígueme 20098, 142 – abre-nos a porta de acesso ao núcleo central da sua mensagem: só quem se tornar pobre é que poderá esperar ser salvo! No que diz respeito ao quem é quem, há dois pontos de vista.

Para os evangelhos, Jesus aceitou partilhar o seu destino com publicanos, pecadores, prostitutas, pequenos (Mc 9:42; Mt 10:42; 18:10.14; nunca traduzir por ‘crianças’), ‘pequeninos’ ou ‘os mais pequenos’ (Mt 25:40.45; nunca traduzir por ‘criancinhas’) e com os simples (por oposição aos sábios e entendidos; Mt 11:25s).

Para Jesus, estas mesmas companhias são descritas a uma luz distinta: elas são os pobres [Lc 4:18; 6:20; 7:22; Mt 11:5] e os cansados e oprimidos pelo peso da Lei [Mt 11:28].

A primeira terminologia tem claramente origem nos adversários de Jesus: Mt 11:19 par e Lc 7:34.
A segunda terminologia é de Jesus, tal como ficou na memória dos seus primeiros seguidores.

A primeira terminologia refere-se a gente que, socialmente, ou menosprezava a Thora (os Mandamentos de Deus) ou exercia profissões desprezadas (pastores, cambistas, cobradores de impostos, praticantes de jogos de azar ou fortuna, publicanos) ou eram ladrões e assassinos ou eram pessoas sem formação religiosa (era o caso dos discípulos de Jesus), sem sensibilidade piedosa e sem hábitos de culto religioso, atrasadas e incultas. Em suma, pessoas que eram apontadas a dedo, difamadas, pessoas para quem a porta da salvação de Deus estava fechada. [2Sam 5:6-10]

A segunda terminologia – os pobres, ‘anawim – tem duas conotações, consoante estamos em Lucas (6:20) ou em Mateus (11:5). Entre os dois textos, seguramente que o texto de Lucas é o original. Lucas pensa nos discípulos – no discipulado −  e na condição de quem quer dispor-se a seguir a Jesus: pode padecer pobreza, fome e perseguição. Em Mateus há claras referências ao Antigo Testamento: Isaías 57:15, «espírito humilde»; Is 66:2, «de espírito abatido»; Salmo 34:19, «coração contrito, apertado». Ou seja, em Mateus, os pobres são os humildes, os que se sentem pobres diante de Deus, os que se sentem como mendigos, de mãos vazias, conscientes da sua pobreza espiritual ante Deus.

«Mateus 11:5 e Lucas 4:18 é uma citação de Isaías 61:1 entendida como predição: «a anunciar a boa nova aos pobres (lebasser ‘anawim) eu fui enviado». Este ponto é muito importante, sobretudo pelas expressões paralelas: veja as locuções tais como «os desesperados», «os que se encontram cativos (da culpa?)», «os prisioneiros» (v.1), «os aflitos» (v.2), «os de espírito abatido» (v.3). Isto revela-nos que «os pobres» são todos aqueles que são oprimidos em sentido amplíssimo: todos os que sofrem opressão ou não se podem defender, os desesperançados, os que não têm salvação. Num sentido mais amplo, os conceitos de ‘ani / ‘anaw são empregues noutros pontos da literatura profética. Originalmente foi uma denominação para designar os desgraçados. Mas, nos profetas, tal palavra abarca também os oprimidos e os pobres que sabem que estão completamente à mercê de Deus. (…) Lucas pensa na opressão exterior e Mateus pensa na necessidade interior. A tradição mateana das bem-aventuranças formulou-se numa igreja que estava em luta contra a tentação farisaica de se fazer justiça pelas próprias mãos. A tradição lucana formou-se numa igreja que se via gravemente oprimida e que necessitava de consolo.» [J. Jeremias, o. cit., 137-138]

Por último «os pecadores» [Mt 9:9-13; Mc 2:13-17: 4 vezes a palavra ‘pecadores’] correspondem a um tipo moral de pessoas que não só «não temem a Deus» como não concedem algum valor à Thora [Sl 12:4-9; 28:5; 36:2; 73:11; 74:10.18.21; 94:1-7]. Serão castigados, pois é inerente à justiça e ao poder de Deus rejeitar os que rejeitam a sua vontade ética para com os homens. A literatura sapiencial aconselha a que não nos misturemos com esse tipo de gente [Pr 4:14; 9:7; 18:5; 24:24; 25:5.26], a que não tenhamos nenhum trato de familiaridade com ela, de modo a não sermos contaminados – a Lei e a sua espiritualidade são excludentes. [cf. Esther Miquel Pericás, Amigos de esclavos, prostitutas y pecadores, EVD 20071, 329-337]. Jesus, porém, não se importa.


Praça da Batalha_Porto

 O Chamamento de Levi (Mt 9,9-13; Lc 5,27-32) - Jesus saiu de novo para a beira-mar. Toda a multidão ia ao seu encontro, e Ele ensinava-os. Ao passar, viu Levi, filho de Alfeu, sentado no posto de cobrança, e disse-lhe: «Segue-me.» E, levantando-se, ele seguiu Jesus. Depois, quando se encontrava à mesa em casa dele, muitos cobradores de impostos e pecadores também se puseram à mesma mesa com Jesus e os seus discípulos, pois eram muitos os que o seguiam. Mas os doutores da Lei do partido dos fariseus, vendo-o comer com pecadores e cobradores de impostos, disseram aos discípulos: «Porque é que Ele come com cobradores de impostos e pecadores Jesus ouviu isto e respondeu: «Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas sim os enfermos. Eu não vim chamar os justos, mas os pecadores.» [Marcos 2:13-17]

«As más companhias de Jesus não são seguramente criminosos, assassinos e ladrões, mas pessoas cuja atitude e comportamento de alguma forma questiona a legitimidade da moral religiosa judaica. Ao tratar com eles em termos de amizade e companheirismo, Jesus desdenha abertamente os conselhos de toda a tradição moral judaica dando a entender que não rejeita aqueles que põem em perigo a identidade religiosa e a integridade moral do povo eleito. Aos olhos de todos, Jesus aparece como um potencial traidor do Judaísmo.» [Esther Miquel Pericás, o. cit., 329-337]

«Se o seguimento público de Jesus incluía pecadores notórios que não se haviam arrependido nem realizado a restituição [de acordo com as exigências habituais da Thora] e se Jesus proclamava publicamente que estes precederiam os justos no Reino – inclusivamente iam à frente dos justos, daqueles a quem João havia convencido a arrepender-se – então, é compreensível o estalido de indignação pública.» [E. P. Sandres, Jesús y el Judaísmo, Trotta 20041, 368]


«Na prática, a oferta, por parte de Jesus, da salvação aos pobres é extremamente escandalosa.» [J. Jeremias, o. cit., 133]

«O Reino pertence unicamente aos pobres. (…) A primeira Bem-aventurança afirma: a salvação está destinada unicamente aos mendigos e pecadores. É o que lemos, expressamente, em Marcos 2:7 (é o que se conclui do convite para o banquete escatológico). Jesus repetiu sem conta que a salvação é para os pecadores, não para os justos (piedosos). Deus concede a revelação, não aos teólogos eruditos, mas aos incultos [Mt 11:25s par. Lc 10:21]. Para as crianças [Mc 10:14] e para aqueles que, com espírito filial, são capazes de dizer ‘Abba [Mt 18:3], Jesus abre o Reino.» [J. Jeremias, o. cit., 142]

O modo de olhar de Jesus evidencia uma guerra de pontos de vista: uma guerra entre os que apontam o dedo vs os que se compadecem! Entre um e outro existe uma diferença górdica: o primeiro olhar é moralizante e culpabilizante ao passo que o segundo é analítico. O primeiro não procura explicações sistémicas enquanto que o segundo quer responder à pergunta: como foi possível ter-se chegado a isto? O primeiro pergunta pela culpa pessoal; o segundo pergunta pela culpa integral (pessoal e social). O primeiro ignora a dimensão estrutural enquanto o segundo propõe uma salvação holística da pessoa. De qual dos lados está Jesus? Juan José Tamayo di-lo assim:

«A prática de Jesus é uma prática unitária, que engloba as diferentes dimensões do ser humano: subjectividade e historicidade, individualidade e sociabilidade, corporalidade e espiritualidade. Orienta-se para a salvação integral, como o mostra o concílio Vaticano II (1962-1965) num texto antológico: “Com efeito, há que salvar a pessoa humana e renovar a sociedade humana (…), (salvar) o ser humano, mas o ser humano em sua unidade e totalidade, corpo e alma, coração e consciência, inteligência e vontade”». (Gaudium et Spes, nº 3)

«A prática de Jesus é includente, conflituosa, processual e crítico-pública.» (Juan José Tamayo, Hacia la comunidad_Nº5, Trotta, Madrid 20042, 116ss)

Na encíclica Sollicitudo rei socialis (1987), João Paulo II refere-se a atitudes e estruturas de pecado (nº 36) que são anti-Reino e cuja eliminação exige «uma atitude diametralmente oposta: a entrega por bem do próximo, de quem está disposto a “perder-se” − no sentido evangélico − pelo outro, em vez de o explorar, e a “servi-lo” em vez de o oprimir para proveito próprio» (nº 38). A propósito disto, João Paulo II cita vários textos dos evangelhos sinópticos: Mt 20:25; Mc 10:42-45; Lc 22:25-27.

A encíclica entende o desenvolvimento dos povos, não como um dever apenas individualista, como se fosse possível alcançá-lo através de esforços de cada um isolados, mas como «um imperativo (ético) para todos e cada um dos homens e da mulheres, para as sociedades e as nações, para a Igreja católica e para as outras igrejas e comunidades eclesiais com as quais estamos plenamente dispostos a colaborar neste campo» (nº 32). Isso pressupõe desmascarar e «denunciar a existência de mecanismos económicos, financeiros e sociais…» (nº 16).

«A oferta do Reino de Deus para os pobres não se fica, portanto, no plano dos bens meramente espirituais, no plano do consolo anímico. Tem uma dimensão histórica, social, económica, política, tal como se evidencia na contraposição repetidas vezes e de diversas formas estabelecida (…) entre a sorte dos ricos e a dos pobres.» (Lc 6:20-26) [Juan José Tamayo] Seguramente que isto pesou na hora de julgar a Jesus. «Assim que viram Jesus, os sumos sacerdotes e os seus servidores gritaram: «Crucifica-o! Crucifica-o!» Disse-lhes Pilatos: «Levai-o vós e crucificai-o. Eu não descubro nele nenhum crime.» [Jo 19:6] Provavelmente os argumentos oficiais das autoridades não passaram de jogos políticos, meros embustes, desculpas face à evidência [Jo 19:14-16].

Jesus escolheu ser o defensor das vítimasacabou vítima da dominação dos senhores deste mundo, vítima de «Babilónia, a grande, a mãe das prostitutas e das abominações da terra.» Vítima, mas apenas por instantes [cf. Ap 17:14]

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10 de abril de 2012

CRER NO RESSUSCITADO

Mistério de Esperança

Júlio Resende

.Crer no Ressuscitado é resistir à ideia de que a nossa vida é apenas um parêntesis entre dois imensos vazios.
Apoiando-nos em Jesus ressuscitado por Deus, intuímos, desejamos e acreditamos que Deus conduz, à sua verdadeira plenitude, o anseio de vida, de justiça e de paz que habita o coração da Humanidade e o da criação inteira.

.Crer no Ressuscitado é rebelar-nos com todas as nossas forças para que essa imensa maioria de homens, mulheres e crianças, que nesta vida apenas conheceram miséria, humilhação e sofrimento, não caia definitivamente no esquecimento.

.Crer no Ressuscitado é confiar numa vida em que jamais haja pobreza, dor, pessoas tristes ou choro.
Veremos chegar finalmente à sua verdadeira pátria todos aqueles que sulcam os mares em frágeis botes.

.Crer no Ressuscitado é levarmos esperança a tantas pessoas sem saúde, doentes crónicos, incapacitados físicos e psíquicos, pessoas mergulhadas na depressão cansadas de viver e de lutar.
Um dia saberão o que é viver em paz e com saúde plena – esses ouvirão as palavras do Pai: «Entra para sempre no deleite do teu Senhor!»

.Crer no Ressuscitado é não nos resignarmos a que Deus se mantenha sempre um «Deus oculto», do qual nunca possamos conhecer o olhar, a ternura e os abraços.
Encontrá-lo-emos gloriosamente encarnado para sempre em Jesus.

.Crer no Ressuscitado é confiar que, os nossos esforços por um mundo mais humano e ditoso, não se perderão no nada.
Num felicitante dia, os últimos serão os primeiros e as prostitutas preceder-nos-ao no Reino.

.Crer no Ressuscitado é saber que tudo aquilo que deixamos a meio, tudo o que se tornou inviável, o que esmagamos − porque torpes ou pecadores − tudo isso alcançará, em Deus, sua plenitude.
Do que vivêramos no amor, nada se perderá, bem como nada daquilo a que renunciámos por amor.

.Crer no Ressuscitado é confiar que as horas alegres e as experiências amargas, as «marcas» que deixamos nas pessoas e nas coisas, tudo aquilo que construímos ou de que desfrutamos generosamente será transfigurado.
Jamais amizades incompletas, festa com hora para findar, despedidas tristes − Deus será tudo em todos.

.Crer no Ressuscitado é crer que um dia ouviremos estas incríveis palavras que o livro do Apocalipse coloca na boca de Deus: «Eu sou o princípio e o fim de tudo. Ao que tiver sede, de graça lhe darei de beber do manancial da vida.»
Findará a morte e o choro, não haverá mais gritos nem canseiras, pois tudo isso é passado.

J A Pagola



9 de abril de 2012

SOCIEDADE DE BEM-ESTAR E FÉ

IDENTIFICADO COM AS VÍTIMAS



Nem o poder de Roma nem as autoridades do Templo puderam suportar a novidade que foi Jesus. A Sua forma de entender e de viver Deus era perigosa. Não defendia o império de Tibério, chamava todos a procurar o Reino de Deus e a sua Justiça. Pouco lhe importava faltar à Lei do Sábado ou às tradições religiosas – preocupava-se, apenas, em aliviar o sofrimento das pessoas doentes e desnutridas da Galileia.

Não lho perdoaram. Identificava-se demasiado com as vítimas inocentes do império e com os esquecidos pela religião do templo. Executado sem piedade numa cruz, n’Ele se nos revela agora Deus, identificado para sempre com todas as vítimas inocentes da história. Ao grito de todos eles une-se agora o grito de dor do mesmo Deus.

Nesse rosto desfigurado do Crucificado revela-se-nos um Deus surpreendente, que rompe as nossas imagens convencionais de Deus e coloca em questão toda a prática religiosa que pretenda dar culto a Deus esquecendo o drama de um mundo onde se continua a crucificar os mais débeis e indefesos.

Se Deus morreu identificado com as vítimas, a Sua crucificação converte-se num desafio inquietante para os seguidores de Jesus. Não podemos separar Deus do sofrimento dos inocentes. Não podemos adorar o Crucificado e viver de costas ao sofrimento de tantos seres humanos destruídos pela fome, pelas guerras ou pela miséria.

Deus continua a interpelar-nos a partir dos crucificados dos nossos dias. Não nos é permitido continuar a viver como espectadores desse sofrimento imenso alimentando uma ingénua ilusão de inocência.

Temos de nos rebelar contra essa cultura de esquecimento, que nos permite isolar-nos dos crucificados deslocando o sofrimento injusto que há no mundo para longe onde desaparece todo clamor, gemido ou choro.

Não nos podemos fechar na nossa “sociedade de bem-estar”, ignorando essa outra “sociedade de mal-estar” em que milhões de seres humanos nascem apenas para se extinguir ao fim de poucos anos de uma vida que só foi de morte. Não é humano nem cristão instalar-nos na segurança esquecendo quem só conhece uma vida insegura e ameaçada.

Quando nós, os cristãos, levantamos os nossos olhos até ao rosto do Crucificado contemplamos o amor insondável de Deus entregue até à morte para nossa salvação. Se o olhamos mais demoradamente, logo descobrimos nesse rosto o de tantos outros crucificados que, longe ou perto de nós, reclamam o nosso amor solidário e compassivo.

 J A Pagola

Eclesalia, 28 Março 2012
Tradução: Antonio Manuel Álvarez Pérez

8 de abril de 2012

DEUS E A HUMANIDADE, A HUMANIDADE DE DEUS

«Deus e o sentido da existência»

por Andrés Torres Queiruga

Fundação António d'Almeida_Porto_Dez. 2011


Retomando o mesmo título do recém-editado livro de Anselmo Borges (ed. Gradiva), A. Torres Queiruga, docente jubilado de ‘Teologia Fundamental’ e de ‘Filosofia da Religião’ na Universidade de Santiago de Compostela (Galiza), proferiu, no passado dia 15 de Dezembro, uma comunicação na Fundação António de Almeida (Porto), constituindo, assim, um pontapé-de-saída para o debate do conteúdo do livro de Anselmo Borges.

AT Queiruga começou por situar o problema de Deus face à crise actual iniciada na modernidade. Ou seja, a ‘questão de Deus’ como algo demasiado circunscrito, quer temporal, quer civilizacionalmente: algo, portanto, muito recente e muito ocidental. Nunca a humanidade fizera, até então, a experiência de viver, ou sequer pensar, na ausência da ‘hipótese-Deus’. O que quer dizer que ainda temos pouca experiência humana de ‘uma vida com sentido humano sem Deus’.

Tal mutação cultural (de paradigma?) deve-se, segundo AT Queiruga, a dois factores.

O primeiro está na dependência da descoberta da lei da autonomia da realidade (p. ex., no plano da física - os astros não são mais movidos por entes superiores, como no caso de Josué 10:12-14, nem as doenças são causadas por espíritos ou demónios; no plano da realidade social e económica – se há pobres e ricos não é porque Deus assim quis as coisas; os governantes jamais são emanações dum Deus celeste na terra; no plano moral – o juízo moral já não recebe total outorga do religioso, mas busca descobrir aquelas normas de conduta que mais humanizem a realidade humana, quer ao nível individual, quer ao nível social; etc.). Tudo, na realidade, obedece a leis intrínsecas, que apetece conhecer ao pormenor e dominar senhorialmente.

O segundo factor deriva da seguinte constatação: a realidade possui evolutividade histórica. Basta percorrermos a viagem civilizacional começando pelas descobertas cósmicas, continuando pela teoria evolucionista de Darwin e terminando na constatação dessa marca específica de tudo o que é humano que é a ‘historicidade’.

Nada mais pode ser pensado abstraindo destes dois conceitos: autonomia e evolutividade histórica. Deus também não. Este é o desafio que a Modernidade faz à Religião, à Teologia e de nada nos vale virar-lhe as costas e fazer de conta que. O desafio consiste, então, em responder-lhe de uma forma humana moderna e credível. Como também a saída não está nas posturas que extremam e acirram, tão típicas de mentes que só sabem jogar o ‘jogo do tudo ou nada’ (um certo modo de disfarçar fraquezas… ou medos). Colocar em campos antagónicos a Transcendência, o Desenvolvimento humano e a Liberdade é promover o Ateísmo e, desse modo, a Igreja seguramente que contribuiu muito para alimentar o ateísmo. Agora que algumas das ‘certezas’ da pós-modernidade sabemo-las frágeis ou praticamente desvitalizadas (nihilismo, ‘morte do homem’, crítica da ‘razão instrumental’ com o consequente abismo Norte-Sul e a super-exploração do trabalho, a ameaça atómica, a crise ecológica, etc.), urge repensar a Transcendência segundo novas coordenadas.

A relação imanência-transcendência é uma delas a exigir ser repensada, já não sendo mais possível ‘ler ao pé-da-letra’ muitos dos textos bíblicos (Génesis, Josué, a apocalíptica, etc.), por várias razões: porque uns pertencem ao género ‘mito de origem’ e outros porque carecem de re-leitura histórica contextualizante (por exemplo, as carnificinas do «passar a fio de espada»: Js 10:30.35; 11:11; 19:47, etc., que correspondem a Leis da Guerra da época, que visavam impedir guerras que tivessem apenas o fito de engrossar os exércitos próprios). Uma certa concepção cosmogónica tripartida – Deus distante, lá em cima no céu; o inferno lá em baixo e a terra no meio dos dois e deles recebendo influxos – continua a sustentar linguagens crentes («Pai-Nosso que estais no Céu»; «Deus pai todo poderoso dignai inclinar-vos a este vale de lágrimas…»; etc.); práticas pastorais bem intencionadas (procissões, penitências, petições) e modelos mentais esquizofrénicos incompatíveis com a dignidade e a liberdade humanas ou com a autonomia do real por todos os lados reclamada.

Partindo destes modelos, a ‘acção de Deus’ fica assim prisioneira duma certa ‘visão mundana’ que a degrada ou empobrece, porque a obriga a entrar no chamado ‘mundo dos espíritos’, os quais se movem com todo o à-vontade nos territórios da idolatria e da magia (severamente condenados pelos Profetas de Israel – cf. «o sacrifício do Carmelo», 1 Reis 18:23ss – e punidos pela Lei de Moisés, Levítico 26). A ideia da acção de Deus só pode deixar de ser equívoca quando concebida como acção que tem lugar, não ao lado doutras acções e acontecimentos históricos, mas a partir do interior dos acontecimentos. Veja-se a Parábola do Bom Samaritano (Lucas 10:29): Deus não está agindo enquanto o bom samaritano não chega? Claro que está: age no sistema plaquetário que procura estancar a hemorragia, e sabe-se lá onde mais… Deus age, Deus está lá: nós é que temos dificuldade em ver a acção de Deus (muitas vezes, Ele age «no oculto»). Se Deus age a partir do interior dos acontecimentos, isso pressupõe o seguinte: um profundo respeito pela autonomia da História, o qual nos deveria levar, antes de tudo, ao esforço agudo e extremo da escuta e descodificação da voz de Deus, previamente a tudo, aí presente.





E porquê assim? Porque é na História dos Homens que Deus sempre se revelou e revela (Deuteronómio 26:5). Crer num Deus ‘de vivos’ (Marcos 12:26-27) é crer na História de hoje e isso deveria levar-nos a reformular as nossas categorias mentais, nomeadamente as que presidem à nossa dicotomia clássica «coisas de religião» vs «coisas de política», por exemplo. Mas também, na questão da Piedade. Sobretudo, deveria levar-nos a reformular hábitos mentais ainda demasiado assentes no cultual, na oferenda e no sacrifício a um Deus extra-humano, um Deus celestial, no limite, a um Deus ‘extra-terrestre’. Ou, noutras situações, a um Deus Atraente, do êxtase, do espectáculo, um Deus soft! Seja como for, ao contrário do que se possa pensar, alimentamos demasiado um Deus muito pouco sim-bólico (de comunhão) e, sem nos darmos conta, andamos de braço dado com um Deus dia-bólico (fracturante). Muitas vezes usamos o simbolismo’ do rito como forma de afastar a ‘historicidade’ (que questiona os nossos ritos)! Gostamos de dualismos; isso dá muito jeito…

Numa mentalidade mitológica passada, o real estava constantemente embebido de um Deus causador e responsável por tudo o que acontecia (Torre de Siloé, Lucas 13:4). Uma mentalidade nova, a de um Deus separado, levou necessariamente, ou a um ‘deísmo puro e duro’ próprio dum Deus «arquitecto ou relojoeiro» que se desliga da criação muito facilmente logo após concluir a sua obra; ou leva a um ‘deísmo intervencionista’, isto é, a uma imagem de um Deus que habita no céu e que de vez em quando intervém através da ‘invocação’, do ‘rito’, da ‘petição’, da ‘oferenda’ ou do ‘santo sacrifício’. Em qualquer dos casos, neste tipo de imagem, a parte mais significativa da «acção» é transferida de Deus para o Homem, na medida em que é ao Homem que compete solicitar a Deus que intervenha… pelo que se presume que, se o Homem não o fizer, Deus não intervirá.

É evidente que se impõe uma inversão radical destes modelos.
Deus não tem que vir ao mundo, pois Ele está na raiz do mundo que criou, que cria e que continua a criar sempre - «Meu Pai trabalha sempre», disse Jesus (João 5:17). Deus não tem que intervir, porque a sua acção é a que sustenta e promove a vida do mundo. Ele não acode e intervém quando O chamam, já que é Ele que sempre está convocando e solicitando a nossa colaboração. Sem a nossa acção, a acção de Deus no mundo ficaria velada e menos completa. É isso que quer significar o ‘grito’ de Deus a Caim: «Onde está o teu irmão Abel?» (Génesis 4:9). Um Deus que agisse independentemente da vontade do Homem ou contra a vontade do Homem ou em vez do Homem seria um Deus que nunca iria permitir que o Homem alguma vez fosse responsável ou crescesse. Deus só poderia ser «Abba-ô Pater»! Tal como um homem só é pai quando caminha lado-a-lado com o filho (para o incentivar e/ou para o amparar), e um filho só é filho quando caminha lado-a-lado com um pai que só quer ser pai, assim Deus só quer a plenitude da realização do Homem. Deus só pode agir por Amor! Deus só pode ‘estar sendo’ Amor! Deus não cria a humanidade para ser servido pelos homens, mas para a servir («Também o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida para resgatar a multidão»; Mateus 20:28). Nisto, Jesus é «a grande parábola de Deus»!

Daqui nasce uma consciência anti-dualista (anti: natural vs sobrenatural; sagrado vs profano, leigo vs sacerdote, puro vs impuro, templo vs mundo, etc.), pois tudo vem de Deus e tudo pode e deve ser servido e acolhido como manifestação e acção de Deus. Tudo o que ajuda à verdadeira realização da realidade criada por Deus − material, espiritual, científica, social, moral ou religiosamente… − isso responde ao desígnio criador e constitui tal e qual a alegria do Criador pelas suas criaturas.

Deus actua criando e sustendo, «fazendo que façamos», possibilitando e animando para que façamos a Sua vontade, ou simplesmente fazendo perguntas (Anselmo Borges, face à pergunta: «Para si, Deus quem é?», respondeu: «Deus é alguém que não se cansa de colocar questões!»). Quem actua é sempre Deus – passivo, Ele? Nunca! Todo e qualquer esforço nosso será sempre precedido e acompanhado pela Sua presença activa e amorosa, sem nunca nos forçar. «Fazer é consentir, mas consentir é fazer a sério».

E a questão de Deus e do Mal?
AT Queiruga não quis desviar-se do tópico central (por uma questão de gestão do tempo da comunicação oral com que nos brindou), mas foi adiantando que Deus é o Anti-Mal e o Mal é tudo aquilo que, pelo facto de ser limitado e imperfeito, se opõe ao Amor Absoluto de Deus. Ou seja, Deus não quer o Mal, nem condena os maus (nem Hitler seria condenado por Deus se Deus tivesse vindo cá a baixo durante a Segunda Guerra Mundial…). Primeiro, porque Deus ‘não baixa’ – Deus está no mundo «identificado como homem» (Filipenses 2:7b); e, segundo, porque Deus é Amor e não um inquisidor justiceiro e ‘duro de coração’… (1 João 4:7) Nada poderia ser doutro modo, pois uma realidade finita não pode ‘ser tudo ao mesmo tempo’, ainda que o Homem seja ‘sede infinita de infinito’.

 Desajustamentos, egoísmos, conflitos e maldades são reflexos da imperfeição, da finitude humana, e não podem ser julgados/catalogados ‘definitivamente’ (Mateus 7: «Não julgueis/condeneis-definitivamente para não serdes julgados/condenados-definitivamente»), pois «tudo é aparência» (João 7:24: «Não julgueis pelas aparências; julgai com um juízo recto.»).

O Mal é a manifestação da realidade finita: o Mal faz parte do mundo humano… mas não da realidade divina, do Reino de Deus. Deus não tem poder sobre o Mal (Deus nunca poderá ser ‘usado’ como talismã ou exorcista…). O Mal é tarefa humana! Génesis 1:28: «Deus disse-lhes: «Crescei e multiplicai-vos, enchei e sêde responsáveis pela terra. Governai sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus e sobre todos os animais que se movem na terra.» O Homem tem em si capacidade para ‘governar o barco’ da Criação humana e não humana, se se tornar íntimo, «amigo de Deus» (João 15:15: «a vós chamei-vos amigos, porque vos dei a conhecer tudo o que ouvi ao meu Pai.»). E esta afirmação − «o Mal é tarefa humana» − tem implicações terríveis quanto à Oração.


Fundação António d'Almeida_Porto



Outra consequência deste repensar da Transcendência gravita, então, à volta da Oração.

Ante um Deus imanente, encarnado, que sustém o mundo por Amor e só por Amor, que se revela a partir do interior da aventura humana e não envia ‘recados’ a partir de um outro mundo, portanto, diante dum Deus «amigo» e íntimo não faz sentido uma atitude ‘negocial’, mas, sim, uma atitude de acolhimento, de sintonia, de ‘memória’, como acontece entre dois amantes: de vez em quando, lembram-se um do outro para logo regressarem às suas tarefas ‘mundanas’; de vez em quando ‘rossam-se’ um no outro, ‘tocam-se’, beliscam-se para se crerem que não se trata dum sonho irrealista (João 20:27: «Chega cá o teu dedo! Estende a tua mão e põe-na no meu peito», disse Jesus a Tomé); olham-se fixamente em silêncio, pronunciam carícias em surdina, contemplam-se nas suas belezas, no ápex duma surpresa suspendem-se e explodem.

Diante dum amor assim, a ‘súplica’ e a ‘petição’ carecem de sentido, não por uma questão de soberbia ou auto-satisfação petulante, mas precisamente pelo contrário, porque se reconhece que a falta dum leva ao definhamento do outro. É então que a ‘súplica’ ou a ‘petição’ dão a vez ao êxtase do Amor, facto que encontramos em S. João da Cruz, em Teresa do Menino Jesus e também na Bíblia: «Beija-me com os beijos da tua boca. (…) Arrasta-me atrás de ti. Corramos! (…) Folgaremos e alegrar-nos-emos contigo; mais do que o vinho celebraremos teus amores.» (Cântico dos Cânticos 1ss) A Oração torna-se encanto, magia e não súplica peticional a um qualquer distante.

Não se pode negar que nos evangelhos surjam frequentemente ‘petições’ a Deus, inclusivamente na boca de Jesus (Mateus 26:39: «Meu Pai, se é possível, afaste-se de mim este cálice.») ou convites a fazê-las a Deus (Mateus 7:7: «Pedi, e ser-vos-á dado»).

A questão está no significado profundo destes relatos. Antes de mais, eles falam muito mais de «orar» que de «pedir», o que não é a mesma coisa.

Depois, se nos dermos ao trabalho de escrutinar os textos, Jesus privilegia a «acção de graças».

Depois, é óbvio que as palavras citadas não podem ser levadas à letra, carecem de ‘trabalho teológico’, de hermenêutica (cf. Joaquim Jeremias, Teologia do Novo Testamento) − doutra forma tudo seria uma burla (se sempre que eu pedisse me fosse sempre dado, o meu próprio interesse esmoreceriae não só a minha ‘piedade’ seria perversa, como Deus não seria verdadeiramente Pai, seria um ‘falso-amigo’).

Por outro lado, quando a Oração é um substituto do nosso contributo, estamos a menosprezar-nos ou a negociar com Deus impondo unilateralmente condições: «se me deres isto ou aquilo, em troca eu ofereço-te um trintário…». Claro que nada disto se passa conscientemente na alma do crente quando o realiza, mas, quando acaso o orante se dá conta do que diz, o mundo da piedade/oração pode desabar… Pode ficar em questão o edifício da própria Fé.

Se «Deus nos amou primeiro» (1 João 4:10), se Deus Pai «vê no oculto» (Mateus 6:18), se Deus que é Pai «sabe do que necessitamos mesmo antes de lho pedirmos» (Mateus 6:8), Orar não poderá nunca ser ‘pedir coisas’: pedir para que Ele faça acabar a fome no Corno d’África’, não!, porque… todos nós já sabemos, de antemão, que Ele não o irá fazer na vez da Nações Unidas! E a Oração, assim, será apenas a exteriorização dum sentimento ou duma vontade, um desabafo piedoso, ao mesmo tempo que a nossa prece nos alivia/descarrega do que ‘devemos verdadeiramente fazer’ – lutar por um mundo melhor! Em vez disso, na ‘Oração de Petição’ passamos a batata quente para as costas de Deus…

Se repararmos com cuidado, a única Oração que Jesus nos deixou foi o PAI-NOSSO e, na sua estrutura, de cabo a rabo (expressão muito galega…), está apenas a estrutura dum compromisso com a Sua vontade. O Pai-Nosso não é mais do que um ‘contrato-selado’ entre duas partes: o de que, aconteça o que acontecer, o Reino de Deus não pode ser traído! (Mateus 6:10) E, para que seja assim, um conta com o Outro! Além do mais, em Mateus 6:5-6, pouco antes do Pai-Nosso, o evangelista deixa muito claro que a Oração de Petição pode ser pura perda de tempo («Ele vê no oculto»)… ou mera hipocrisia («orar onde possamos ser vistos a orar», p. ex. rezar na igreja e não no íntimo).

‘Orar’ − a Oração – poderá, então, ser o momento de ‘alimento da confiança’, momento de ternura, tempo de ‘namoro com Deus’ em que as palavras só estorvam, pausa em que nos enroscamos um no outro para fazer ‘o ponto da situação’ asa-com-asa e em que nós, os humanos, nos embebemos/encharcamos da Graça divina que é essencialmente Fidelidade, Perseverança, Recusa de todos os Voluntarismos, Confirmação do Caminho, Confronto ou Infirmação.

Na Oração, quando falamos convém que falemos sem fazer mal a ninguém. Muito menos a nós mesmos… Como já dizia Sócrates, «falar mal faz mal às almas» (aos homens)… e não a Deus – lembrou A. Torres Queiruga.

A crise do cristianismo numa época moderna tão contingente é uma excelente oportunidade para redescobrir Deus, sobretudo, porque tudo é contingente! Oportunidade a descobrir Deus tal como Ele nos é dado em Jesus, tal como nos é revelado finalmente em Cristo. E por isso sentimos como algo muito vivo «regressar a Jesus de Nazaré», voltarmos à sua escola, querermos ser «seguidores de Jesus» tal como os Evangelhos no-lo sugere repetidamente (Mateus 4:20; 20:34; Marcos 1:36; Mateus 28:7.10.11). Não porque ser-se ‘religioso’ nos acrescente seguranças ou certezas ou porque a hora da morte nos mete medo, mas porque ‘ser seguidores’ nos questiona, nos desinstala e nos faz avançar num empenhamento que seja humanamente mais libertador. O Projecto de Deus é a acção divina e não a passividade. Carlos Mesters, oc, dizia: «No Génesis, a Bíblia não se preocupa em explicar como o Mal entrou no mundo, mas em como ele deve sair do mundo…». Deus é isso. Assim fazem sentido Deus e a existência humana.


[síntese de Paulo Bateira, a partir da Conferência de Andrés Torres Queiruga na Fundação António de Almeida, Porto, em 2011]

VATICANO «ESPANHOL» CONDENA A. TORRES QUEIRUGA

Teólogo condenado: da criação à ressurreição

padre Andrés Torres Queiruga_Inst. Univ. de Santiago de Compostela


Enquanto o Papa, em Cuba, fazia apelo à liberdade, a Comissão para a Doutrina da Fé da Conferência Episcopal Espanhola publicava uma Notificação - na prática, para a opinião pública, a condenação de mais um teólogo, Andrés Torres Queiruga. Como se a liberdade fosse para os outros e não devesse vigorar também no interior da Igreja.

Para muitos - também para mim -, A. Torres Queiruga é um dos maiores teólogos católicos vivos. No meu entendimento, foi e é o teólogo que de modo mais profundo e conseguido enfrentou o cristianismo com a modernidade e a modernidade com o cristianismo. Desgraçadamente, alguns teólogos e bispos espanhóis não pensam assim.

O que aí fica é tão-só, na medida em que o permite uma crónica de jornal, o que considero nuclear no pensamento de A. Torres Queiruga.

1. Tudo arranca da fé, com razões, no Deus que cria por amor. Deus não criou por causa dele, da sua maior honra e glória, mas apenas por causa das criaturas e da sua felicidade.
Tomada no seu sentido radical, a criação por amor, a partir do nada, implica, por um lado, a presença suma de Deus à sua criação, de tal modo que, se ele se retirasse, tudo voltava ao donde veio, isto é, ao nada, e, por outro, a autonomia das criaturas. Assim, a ciência, a política, a economia, a própria moral, não vão buscar a sua legitimação à religião, pois devem reger-se pelas suas próprias leis.

Segue-se que, sendo tudo milagre - o que existe podia pura e simplesmente não existir -, não há milagres no sentido da suspensão das leis que regem a natureza. De facto, os milagres supõem o que não é pensável: um deus "intervencionista", que está fora do mundo e que, de vez em quando e de forma arbitrária, vem dentro. Ora, Deus ao mesmo tempo que é infinitamente transcendente ao mundo é infinitamente presente e activo no mundo, e é, enquanto Anti-mal, sempre Força infinita criadora e potenciadora das possibilidades das criaturas.

2. Deste modo, torna-se inteligível o conceito fundamental das religiões, a revelação: como sabem os crentes que Deus falou?
 
Tudo o que é autenticamente religioso é resposta humana a perguntas profunda e radicalmente humanas. O que a especifica é o facto de descobrir nela a presença viva de Deus que quer manifestar-nos o seu amor e salvação. Há uma só realidade para crentes e não crentes. O que acontece é que o crente tem a convicção de que a realidade não se esgota na sua imediatidade empírica, e essa convicção não surge porque é crente, mas porque a própria realidade, para a sua compreensão adequada, se apresenta incluindo uma Presença divina, que não se vê em si mesma, mas está implicada no que se vê. Mediante certas características - a contingência radical, a morte e o protesto contra ela, a exigência de sentido último -, a própria realidade se mostra implicando essa Presença divina como seu fundamento e sentido último. Assim, cito, na estrutura íntima do processo religioso, "não se interpreta o mundo de uma determinada maneira porque se é crente ou ateu, mas é-se crente ou ateu porque a fé ou a não crença aparecem ao crente e ao ateu, respectivamente, como a melhor maneira de interpretar o mundo comum".

3. A fé na ressurreição é central no cristianismo, mas ela não é a reanimação do cadáver nem pode ser constatável pelos historiadores. Ela é real, mas não é um facto da história empírica. Se o fosse, seria constatável empiricamente e não era precisa a fé nem seria ressurreição.

Os discípulos que, como Jesus, confessavam cada dia, na Shemoné Eshré, a fé no "Deus que ressuscita os mortos" e que tinham acreditado em Jesus continuaram a crer nele, após a sua morte, uma morte que testemunhava o que foi o centro da sua mensagem por palavras e obras: que Deus é amor. Mais uma vez, reflectindo, aprofundaram a convicção de fé de que Jesus não morreu para o nada, mas para o interior da vida de Deus, que é a vida plena e eterna. E disso deram testemunho até à morte.

Fica aqui a minha viva solidariedade de amigo e também filosófica e teológica com A. Torres Queiruga.


Anselmo Borges, padre, teólogo, filósofo e professor de Antropologia Filosófica na Universidade de Coimbra


NOTIFICAÇÃO DA CEE [CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ]: