teologia para leigos

8 de abril de 2012

DEUS E A HUMANIDADE, A HUMANIDADE DE DEUS

«Deus e o sentido da existência»

por Andrés Torres Queiruga

Fundação António d'Almeida_Porto_Dez. 2011


Retomando o mesmo título do recém-editado livro de Anselmo Borges (ed. Gradiva), A. Torres Queiruga, docente jubilado de ‘Teologia Fundamental’ e de ‘Filosofia da Religião’ na Universidade de Santiago de Compostela (Galiza), proferiu, no passado dia 15 de Dezembro, uma comunicação na Fundação António de Almeida (Porto), constituindo, assim, um pontapé-de-saída para o debate do conteúdo do livro de Anselmo Borges.

AT Queiruga começou por situar o problema de Deus face à crise actual iniciada na modernidade. Ou seja, a ‘questão de Deus’ como algo demasiado circunscrito, quer temporal, quer civilizacionalmente: algo, portanto, muito recente e muito ocidental. Nunca a humanidade fizera, até então, a experiência de viver, ou sequer pensar, na ausência da ‘hipótese-Deus’. O que quer dizer que ainda temos pouca experiência humana de ‘uma vida com sentido humano sem Deus’.

Tal mutação cultural (de paradigma?) deve-se, segundo AT Queiruga, a dois factores.

O primeiro está na dependência da descoberta da lei da autonomia da realidade (p. ex., no plano da física - os astros não são mais movidos por entes superiores, como no caso de Josué 10:12-14, nem as doenças são causadas por espíritos ou demónios; no plano da realidade social e económica – se há pobres e ricos não é porque Deus assim quis as coisas; os governantes jamais são emanações dum Deus celeste na terra; no plano moral – o juízo moral já não recebe total outorga do religioso, mas busca descobrir aquelas normas de conduta que mais humanizem a realidade humana, quer ao nível individual, quer ao nível social; etc.). Tudo, na realidade, obedece a leis intrínsecas, que apetece conhecer ao pormenor e dominar senhorialmente.

O segundo factor deriva da seguinte constatação: a realidade possui evolutividade histórica. Basta percorrermos a viagem civilizacional começando pelas descobertas cósmicas, continuando pela teoria evolucionista de Darwin e terminando na constatação dessa marca específica de tudo o que é humano que é a ‘historicidade’.

Nada mais pode ser pensado abstraindo destes dois conceitos: autonomia e evolutividade histórica. Deus também não. Este é o desafio que a Modernidade faz à Religião, à Teologia e de nada nos vale virar-lhe as costas e fazer de conta que. O desafio consiste, então, em responder-lhe de uma forma humana moderna e credível. Como também a saída não está nas posturas que extremam e acirram, tão típicas de mentes que só sabem jogar o ‘jogo do tudo ou nada’ (um certo modo de disfarçar fraquezas… ou medos). Colocar em campos antagónicos a Transcendência, o Desenvolvimento humano e a Liberdade é promover o Ateísmo e, desse modo, a Igreja seguramente que contribuiu muito para alimentar o ateísmo. Agora que algumas das ‘certezas’ da pós-modernidade sabemo-las frágeis ou praticamente desvitalizadas (nihilismo, ‘morte do homem’, crítica da ‘razão instrumental’ com o consequente abismo Norte-Sul e a super-exploração do trabalho, a ameaça atómica, a crise ecológica, etc.), urge repensar a Transcendência segundo novas coordenadas.

A relação imanência-transcendência é uma delas a exigir ser repensada, já não sendo mais possível ‘ler ao pé-da-letra’ muitos dos textos bíblicos (Génesis, Josué, a apocalíptica, etc.), por várias razões: porque uns pertencem ao género ‘mito de origem’ e outros porque carecem de re-leitura histórica contextualizante (por exemplo, as carnificinas do «passar a fio de espada»: Js 10:30.35; 11:11; 19:47, etc., que correspondem a Leis da Guerra da época, que visavam impedir guerras que tivessem apenas o fito de engrossar os exércitos próprios). Uma certa concepção cosmogónica tripartida – Deus distante, lá em cima no céu; o inferno lá em baixo e a terra no meio dos dois e deles recebendo influxos – continua a sustentar linguagens crentes («Pai-Nosso que estais no Céu»; «Deus pai todo poderoso dignai inclinar-vos a este vale de lágrimas…»; etc.); práticas pastorais bem intencionadas (procissões, penitências, petições) e modelos mentais esquizofrénicos incompatíveis com a dignidade e a liberdade humanas ou com a autonomia do real por todos os lados reclamada.

Partindo destes modelos, a ‘acção de Deus’ fica assim prisioneira duma certa ‘visão mundana’ que a degrada ou empobrece, porque a obriga a entrar no chamado ‘mundo dos espíritos’, os quais se movem com todo o à-vontade nos territórios da idolatria e da magia (severamente condenados pelos Profetas de Israel – cf. «o sacrifício do Carmelo», 1 Reis 18:23ss – e punidos pela Lei de Moisés, Levítico 26). A ideia da acção de Deus só pode deixar de ser equívoca quando concebida como acção que tem lugar, não ao lado doutras acções e acontecimentos históricos, mas a partir do interior dos acontecimentos. Veja-se a Parábola do Bom Samaritano (Lucas 10:29): Deus não está agindo enquanto o bom samaritano não chega? Claro que está: age no sistema plaquetário que procura estancar a hemorragia, e sabe-se lá onde mais… Deus age, Deus está lá: nós é que temos dificuldade em ver a acção de Deus (muitas vezes, Ele age «no oculto»). Se Deus age a partir do interior dos acontecimentos, isso pressupõe o seguinte: um profundo respeito pela autonomia da História, o qual nos deveria levar, antes de tudo, ao esforço agudo e extremo da escuta e descodificação da voz de Deus, previamente a tudo, aí presente.





E porquê assim? Porque é na História dos Homens que Deus sempre se revelou e revela (Deuteronómio 26:5). Crer num Deus ‘de vivos’ (Marcos 12:26-27) é crer na História de hoje e isso deveria levar-nos a reformular as nossas categorias mentais, nomeadamente as que presidem à nossa dicotomia clássica «coisas de religião» vs «coisas de política», por exemplo. Mas também, na questão da Piedade. Sobretudo, deveria levar-nos a reformular hábitos mentais ainda demasiado assentes no cultual, na oferenda e no sacrifício a um Deus extra-humano, um Deus celestial, no limite, a um Deus ‘extra-terrestre’. Ou, noutras situações, a um Deus Atraente, do êxtase, do espectáculo, um Deus soft! Seja como for, ao contrário do que se possa pensar, alimentamos demasiado um Deus muito pouco sim-bólico (de comunhão) e, sem nos darmos conta, andamos de braço dado com um Deus dia-bólico (fracturante). Muitas vezes usamos o simbolismo’ do rito como forma de afastar a ‘historicidade’ (que questiona os nossos ritos)! Gostamos de dualismos; isso dá muito jeito…

Numa mentalidade mitológica passada, o real estava constantemente embebido de um Deus causador e responsável por tudo o que acontecia (Torre de Siloé, Lucas 13:4). Uma mentalidade nova, a de um Deus separado, levou necessariamente, ou a um ‘deísmo puro e duro’ próprio dum Deus «arquitecto ou relojoeiro» que se desliga da criação muito facilmente logo após concluir a sua obra; ou leva a um ‘deísmo intervencionista’, isto é, a uma imagem de um Deus que habita no céu e que de vez em quando intervém através da ‘invocação’, do ‘rito’, da ‘petição’, da ‘oferenda’ ou do ‘santo sacrifício’. Em qualquer dos casos, neste tipo de imagem, a parte mais significativa da «acção» é transferida de Deus para o Homem, na medida em que é ao Homem que compete solicitar a Deus que intervenha… pelo que se presume que, se o Homem não o fizer, Deus não intervirá.

É evidente que se impõe uma inversão radical destes modelos.
Deus não tem que vir ao mundo, pois Ele está na raiz do mundo que criou, que cria e que continua a criar sempre - «Meu Pai trabalha sempre», disse Jesus (João 5:17). Deus não tem que intervir, porque a sua acção é a que sustenta e promove a vida do mundo. Ele não acode e intervém quando O chamam, já que é Ele que sempre está convocando e solicitando a nossa colaboração. Sem a nossa acção, a acção de Deus no mundo ficaria velada e menos completa. É isso que quer significar o ‘grito’ de Deus a Caim: «Onde está o teu irmão Abel?» (Génesis 4:9). Um Deus que agisse independentemente da vontade do Homem ou contra a vontade do Homem ou em vez do Homem seria um Deus que nunca iria permitir que o Homem alguma vez fosse responsável ou crescesse. Deus só poderia ser «Abba-ô Pater»! Tal como um homem só é pai quando caminha lado-a-lado com o filho (para o incentivar e/ou para o amparar), e um filho só é filho quando caminha lado-a-lado com um pai que só quer ser pai, assim Deus só quer a plenitude da realização do Homem. Deus só pode agir por Amor! Deus só pode ‘estar sendo’ Amor! Deus não cria a humanidade para ser servido pelos homens, mas para a servir («Também o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida para resgatar a multidão»; Mateus 20:28). Nisto, Jesus é «a grande parábola de Deus»!

Daqui nasce uma consciência anti-dualista (anti: natural vs sobrenatural; sagrado vs profano, leigo vs sacerdote, puro vs impuro, templo vs mundo, etc.), pois tudo vem de Deus e tudo pode e deve ser servido e acolhido como manifestação e acção de Deus. Tudo o que ajuda à verdadeira realização da realidade criada por Deus − material, espiritual, científica, social, moral ou religiosamente… − isso responde ao desígnio criador e constitui tal e qual a alegria do Criador pelas suas criaturas.

Deus actua criando e sustendo, «fazendo que façamos», possibilitando e animando para que façamos a Sua vontade, ou simplesmente fazendo perguntas (Anselmo Borges, face à pergunta: «Para si, Deus quem é?», respondeu: «Deus é alguém que não se cansa de colocar questões!»). Quem actua é sempre Deus – passivo, Ele? Nunca! Todo e qualquer esforço nosso será sempre precedido e acompanhado pela Sua presença activa e amorosa, sem nunca nos forçar. «Fazer é consentir, mas consentir é fazer a sério».

E a questão de Deus e do Mal?
AT Queiruga não quis desviar-se do tópico central (por uma questão de gestão do tempo da comunicação oral com que nos brindou), mas foi adiantando que Deus é o Anti-Mal e o Mal é tudo aquilo que, pelo facto de ser limitado e imperfeito, se opõe ao Amor Absoluto de Deus. Ou seja, Deus não quer o Mal, nem condena os maus (nem Hitler seria condenado por Deus se Deus tivesse vindo cá a baixo durante a Segunda Guerra Mundial…). Primeiro, porque Deus ‘não baixa’ – Deus está no mundo «identificado como homem» (Filipenses 2:7b); e, segundo, porque Deus é Amor e não um inquisidor justiceiro e ‘duro de coração’… (1 João 4:7) Nada poderia ser doutro modo, pois uma realidade finita não pode ‘ser tudo ao mesmo tempo’, ainda que o Homem seja ‘sede infinita de infinito’.

 Desajustamentos, egoísmos, conflitos e maldades são reflexos da imperfeição, da finitude humana, e não podem ser julgados/catalogados ‘definitivamente’ (Mateus 7: «Não julgueis/condeneis-definitivamente para não serdes julgados/condenados-definitivamente»), pois «tudo é aparência» (João 7:24: «Não julgueis pelas aparências; julgai com um juízo recto.»).

O Mal é a manifestação da realidade finita: o Mal faz parte do mundo humano… mas não da realidade divina, do Reino de Deus. Deus não tem poder sobre o Mal (Deus nunca poderá ser ‘usado’ como talismã ou exorcista…). O Mal é tarefa humana! Génesis 1:28: «Deus disse-lhes: «Crescei e multiplicai-vos, enchei e sêde responsáveis pela terra. Governai sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus e sobre todos os animais que se movem na terra.» O Homem tem em si capacidade para ‘governar o barco’ da Criação humana e não humana, se se tornar íntimo, «amigo de Deus» (João 15:15: «a vós chamei-vos amigos, porque vos dei a conhecer tudo o que ouvi ao meu Pai.»). E esta afirmação − «o Mal é tarefa humana» − tem implicações terríveis quanto à Oração.


Fundação António d'Almeida_Porto



Outra consequência deste repensar da Transcendência gravita, então, à volta da Oração.

Ante um Deus imanente, encarnado, que sustém o mundo por Amor e só por Amor, que se revela a partir do interior da aventura humana e não envia ‘recados’ a partir de um outro mundo, portanto, diante dum Deus «amigo» e íntimo não faz sentido uma atitude ‘negocial’, mas, sim, uma atitude de acolhimento, de sintonia, de ‘memória’, como acontece entre dois amantes: de vez em quando, lembram-se um do outro para logo regressarem às suas tarefas ‘mundanas’; de vez em quando ‘rossam-se’ um no outro, ‘tocam-se’, beliscam-se para se crerem que não se trata dum sonho irrealista (João 20:27: «Chega cá o teu dedo! Estende a tua mão e põe-na no meu peito», disse Jesus a Tomé); olham-se fixamente em silêncio, pronunciam carícias em surdina, contemplam-se nas suas belezas, no ápex duma surpresa suspendem-se e explodem.

Diante dum amor assim, a ‘súplica’ e a ‘petição’ carecem de sentido, não por uma questão de soberbia ou auto-satisfação petulante, mas precisamente pelo contrário, porque se reconhece que a falta dum leva ao definhamento do outro. É então que a ‘súplica’ ou a ‘petição’ dão a vez ao êxtase do Amor, facto que encontramos em S. João da Cruz, em Teresa do Menino Jesus e também na Bíblia: «Beija-me com os beijos da tua boca. (…) Arrasta-me atrás de ti. Corramos! (…) Folgaremos e alegrar-nos-emos contigo; mais do que o vinho celebraremos teus amores.» (Cântico dos Cânticos 1ss) A Oração torna-se encanto, magia e não súplica peticional a um qualquer distante.

Não se pode negar que nos evangelhos surjam frequentemente ‘petições’ a Deus, inclusivamente na boca de Jesus (Mateus 26:39: «Meu Pai, se é possível, afaste-se de mim este cálice.») ou convites a fazê-las a Deus (Mateus 7:7: «Pedi, e ser-vos-á dado»).

A questão está no significado profundo destes relatos. Antes de mais, eles falam muito mais de «orar» que de «pedir», o que não é a mesma coisa.

Depois, se nos dermos ao trabalho de escrutinar os textos, Jesus privilegia a «acção de graças».

Depois, é óbvio que as palavras citadas não podem ser levadas à letra, carecem de ‘trabalho teológico’, de hermenêutica (cf. Joaquim Jeremias, Teologia do Novo Testamento) − doutra forma tudo seria uma burla (se sempre que eu pedisse me fosse sempre dado, o meu próprio interesse esmoreceriae não só a minha ‘piedade’ seria perversa, como Deus não seria verdadeiramente Pai, seria um ‘falso-amigo’).

Por outro lado, quando a Oração é um substituto do nosso contributo, estamos a menosprezar-nos ou a negociar com Deus impondo unilateralmente condições: «se me deres isto ou aquilo, em troca eu ofereço-te um trintário…». Claro que nada disto se passa conscientemente na alma do crente quando o realiza, mas, quando acaso o orante se dá conta do que diz, o mundo da piedade/oração pode desabar… Pode ficar em questão o edifício da própria Fé.

Se «Deus nos amou primeiro» (1 João 4:10), se Deus Pai «vê no oculto» (Mateus 6:18), se Deus que é Pai «sabe do que necessitamos mesmo antes de lho pedirmos» (Mateus 6:8), Orar não poderá nunca ser ‘pedir coisas’: pedir para que Ele faça acabar a fome no Corno d’África’, não!, porque… todos nós já sabemos, de antemão, que Ele não o irá fazer na vez da Nações Unidas! E a Oração, assim, será apenas a exteriorização dum sentimento ou duma vontade, um desabafo piedoso, ao mesmo tempo que a nossa prece nos alivia/descarrega do que ‘devemos verdadeiramente fazer’ – lutar por um mundo melhor! Em vez disso, na ‘Oração de Petição’ passamos a batata quente para as costas de Deus…

Se repararmos com cuidado, a única Oração que Jesus nos deixou foi o PAI-NOSSO e, na sua estrutura, de cabo a rabo (expressão muito galega…), está apenas a estrutura dum compromisso com a Sua vontade. O Pai-Nosso não é mais do que um ‘contrato-selado’ entre duas partes: o de que, aconteça o que acontecer, o Reino de Deus não pode ser traído! (Mateus 6:10) E, para que seja assim, um conta com o Outro! Além do mais, em Mateus 6:5-6, pouco antes do Pai-Nosso, o evangelista deixa muito claro que a Oração de Petição pode ser pura perda de tempo («Ele vê no oculto»)… ou mera hipocrisia («orar onde possamos ser vistos a orar», p. ex. rezar na igreja e não no íntimo).

‘Orar’ − a Oração – poderá, então, ser o momento de ‘alimento da confiança’, momento de ternura, tempo de ‘namoro com Deus’ em que as palavras só estorvam, pausa em que nos enroscamos um no outro para fazer ‘o ponto da situação’ asa-com-asa e em que nós, os humanos, nos embebemos/encharcamos da Graça divina que é essencialmente Fidelidade, Perseverança, Recusa de todos os Voluntarismos, Confirmação do Caminho, Confronto ou Infirmação.

Na Oração, quando falamos convém que falemos sem fazer mal a ninguém. Muito menos a nós mesmos… Como já dizia Sócrates, «falar mal faz mal às almas» (aos homens)… e não a Deus – lembrou A. Torres Queiruga.

A crise do cristianismo numa época moderna tão contingente é uma excelente oportunidade para redescobrir Deus, sobretudo, porque tudo é contingente! Oportunidade a descobrir Deus tal como Ele nos é dado em Jesus, tal como nos é revelado finalmente em Cristo. E por isso sentimos como algo muito vivo «regressar a Jesus de Nazaré», voltarmos à sua escola, querermos ser «seguidores de Jesus» tal como os Evangelhos no-lo sugere repetidamente (Mateus 4:20; 20:34; Marcos 1:36; Mateus 28:7.10.11). Não porque ser-se ‘religioso’ nos acrescente seguranças ou certezas ou porque a hora da morte nos mete medo, mas porque ‘ser seguidores’ nos questiona, nos desinstala e nos faz avançar num empenhamento que seja humanamente mais libertador. O Projecto de Deus é a acção divina e não a passividade. Carlos Mesters, oc, dizia: «No Génesis, a Bíblia não se preocupa em explicar como o Mal entrou no mundo, mas em como ele deve sair do mundo…». Deus é isso. Assim fazem sentido Deus e a existência humana.


[síntese de Paulo Bateira, a partir da Conferência de Andrés Torres Queiruga na Fundação António de Almeida, Porto, em 2011]

VATICANO «ESPANHOL» CONDENA A. TORRES QUEIRUGA

Teólogo condenado: da criação à ressurreição

padre Andrés Torres Queiruga_Inst. Univ. de Santiago de Compostela


Enquanto o Papa, em Cuba, fazia apelo à liberdade, a Comissão para a Doutrina da Fé da Conferência Episcopal Espanhola publicava uma Notificação - na prática, para a opinião pública, a condenação de mais um teólogo, Andrés Torres Queiruga. Como se a liberdade fosse para os outros e não devesse vigorar também no interior da Igreja.

Para muitos - também para mim -, A. Torres Queiruga é um dos maiores teólogos católicos vivos. No meu entendimento, foi e é o teólogo que de modo mais profundo e conseguido enfrentou o cristianismo com a modernidade e a modernidade com o cristianismo. Desgraçadamente, alguns teólogos e bispos espanhóis não pensam assim.

O que aí fica é tão-só, na medida em que o permite uma crónica de jornal, o que considero nuclear no pensamento de A. Torres Queiruga.

1. Tudo arranca da fé, com razões, no Deus que cria por amor. Deus não criou por causa dele, da sua maior honra e glória, mas apenas por causa das criaturas e da sua felicidade.
Tomada no seu sentido radical, a criação por amor, a partir do nada, implica, por um lado, a presença suma de Deus à sua criação, de tal modo que, se ele se retirasse, tudo voltava ao donde veio, isto é, ao nada, e, por outro, a autonomia das criaturas. Assim, a ciência, a política, a economia, a própria moral, não vão buscar a sua legitimação à religião, pois devem reger-se pelas suas próprias leis.

Segue-se que, sendo tudo milagre - o que existe podia pura e simplesmente não existir -, não há milagres no sentido da suspensão das leis que regem a natureza. De facto, os milagres supõem o que não é pensável: um deus "intervencionista", que está fora do mundo e que, de vez em quando e de forma arbitrária, vem dentro. Ora, Deus ao mesmo tempo que é infinitamente transcendente ao mundo é infinitamente presente e activo no mundo, e é, enquanto Anti-mal, sempre Força infinita criadora e potenciadora das possibilidades das criaturas.

2. Deste modo, torna-se inteligível o conceito fundamental das religiões, a revelação: como sabem os crentes que Deus falou?
 
Tudo o que é autenticamente religioso é resposta humana a perguntas profunda e radicalmente humanas. O que a especifica é o facto de descobrir nela a presença viva de Deus que quer manifestar-nos o seu amor e salvação. Há uma só realidade para crentes e não crentes. O que acontece é que o crente tem a convicção de que a realidade não se esgota na sua imediatidade empírica, e essa convicção não surge porque é crente, mas porque a própria realidade, para a sua compreensão adequada, se apresenta incluindo uma Presença divina, que não se vê em si mesma, mas está implicada no que se vê. Mediante certas características - a contingência radical, a morte e o protesto contra ela, a exigência de sentido último -, a própria realidade se mostra implicando essa Presença divina como seu fundamento e sentido último. Assim, cito, na estrutura íntima do processo religioso, "não se interpreta o mundo de uma determinada maneira porque se é crente ou ateu, mas é-se crente ou ateu porque a fé ou a não crença aparecem ao crente e ao ateu, respectivamente, como a melhor maneira de interpretar o mundo comum".

3. A fé na ressurreição é central no cristianismo, mas ela não é a reanimação do cadáver nem pode ser constatável pelos historiadores. Ela é real, mas não é um facto da história empírica. Se o fosse, seria constatável empiricamente e não era precisa a fé nem seria ressurreição.

Os discípulos que, como Jesus, confessavam cada dia, na Shemoné Eshré, a fé no "Deus que ressuscita os mortos" e que tinham acreditado em Jesus continuaram a crer nele, após a sua morte, uma morte que testemunhava o que foi o centro da sua mensagem por palavras e obras: que Deus é amor. Mais uma vez, reflectindo, aprofundaram a convicção de fé de que Jesus não morreu para o nada, mas para o interior da vida de Deus, que é a vida plena e eterna. E disso deram testemunho até à morte.

Fica aqui a minha viva solidariedade de amigo e também filosófica e teológica com A. Torres Queiruga.


Anselmo Borges, padre, teólogo, filósofo e professor de Antropologia Filosófica na Universidade de Coimbra


NOTIFICAÇÃO DA CEE [CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ]:


PADRE MÁRIO DA LIXA, 1969...

em 1969…

«ENCONTRO»_Paróquia de Macieira da Lixa, em 1969... [Igreja do Porto]

Apresentação


Em Outubro de 1969, passei a fazer parte do Povo que vive em Macieira da Lixa.

Não quis ser paternalista, mas tão-somente um companheiro, um irmão, sempre ao serviço das aspirações desse Povo. Fui-o descobrindo como ele era e fui-me empenhando no sentido da sua libertação de todas as formas tradicionais de opressão, até da opressão «sagrada».

Dei conta de que Jesus Cristo era, ali, o grande desconhecido, apesar de quase todos estarem habituados a ir à Missa ao domingo. A religião vinha sendo pura alienação, pois Deus e os santos funcionavam, na vida do Povo, como substitutos do esforço a fazer para todos se libertarem e salvarem. E era também autêntico ópio, pois levava o Povo a permanecer resignado na própria miséria, com  a vaga esperança de alcançar o céu, que viria depois da morte.

A própria luta pela Justiça, mais o esforço por chegar à liberdade dos filhos de Deus – que é serviço fraterno a todos – eram vistos como um mal, porque era agir contra a «ordem estabelecida» nesta Terra que se pensava querida por Deus!

Comecei por anunciar Jesus Cristo ao Povo e ele entrou na fase do escândalo. Deus, afinal, não era como se pensava. Não nos entretinha, mas era exigência viva. E não faltava quem ficasse assustado, ao ter de concluir que, a ser assim, andava muita gente religiosamente enganada. Era uma dolorosa, mas formidável, conclusão. A partir dela é que nos abriríamos a uma radical transformação, aquela que o Evangelho chama de «conversão».

Os encontros, com grupos de gente a evangelizar, foram-se multiplicando nos lugares da aldeia, pelas noites adiante. Eram encontros vivos, participados, autênticos momentos de luz que curavam muitos «cegos». E a alegria e a paz sucediam-se ao escândalo inicial.

Surgiram, depois, encontros gerais na Igreja paroquial, abertos a toda a gente. Ali cantávamos e ouvíamos o Evangelho aplicado à vida. Aí íamos aprendendo a ser religioso, hoje.

Foram desses encontros, mais a vontade de levar a todos, antecipadamente, o que pensávamos reflectir em grupos, ou de apresentar conclusões a que íamos chegando, que nasceu a ideia, logo realizada, de policopiar uma espécie de Boletim Paroquial com o título de ENCONTRO.

O bom acolhimento por parte do Povo da Paróquia e mesmo de outros que, através dele, iam tomando conhecimento do seu conteúdo, foi estímulo a prosseguir na mesma orientação. Nunca a religião fora tão assunto de conversa, como então, sempre que duas ou três pessoas se encontravam.

Desde Janeiro de 1970 até Junho, saíram cinco exemplares, cada qual com o seu tom especial. Nessa altura, foi suspensa a sua publicação, em virtude de participação oficial, emanada dos Serviços de Censura.

Por ocasião do meu Julgamento em Tribunal Plenário, os cinco exemplares faziam parte, quer da acusação, quer da defesa. Foram, assim, tornados totalmente públicos, eles, que no início, não pretendiam senão ficar no âmbito paroquial e no de alguns amigos que os solicitavam com invulgar interesse.

Aparecem, agora, em volume, à consideração de toda a gente, porventura preocupada ainda em descobrir um sentido para a vida.

Depois dessa experiência, penso que as tradicionais estruturas religiosas que oprimiram os Homens, durante séculos, têm os dias contados. Não interessa lutar para as manter. É mais inteligente descobrir e viver a religião sempre antiga e sempre nova que é a de Jesus Cristo. Vivendo-a, as necessárias estruturas, também novas, aparecerão simultaneamente. A «vinho» novo deve corresponder «odres» novos. Não basta mudar os «odres», como, por vezes, parece que tanto se faz por essas aldeias fora.

Quando, como servidores do Evangelho, não soubermos, entre o Povo, outra coisa que Jesus Cristo, veremos como esse Povo começará a movimentar-se e a ensaiar o êxodo da opressão para o serviço mútuo, do individualismo para a comunhão fraterna, da exploração para a partilha.

Então, o Povo poderá continuar a proclamar que Jesus Cristo é o Salvador que veio ao mundo e que, para além dEle, não há outro nome no qual os Homens possam ser salvos (Act 4,12).

Mário de Oliveira, pároco de Macieira da Lixa [1969]

 
[excertos de «ENCONTRO – alguns aspectos da religião tradicional discutidos pelo povo de Macieira da Lixa», edição de Mário Pais de Oliveira, presbítero da Igreja do Porto, edição Afrontamento, Porto, s/ data; respeitou-se em tudo a grafia do texto original]

CONFECIONÁRIO E LIBERTAÇÃO CRISTÃ

Páscoa: como vamos responder?



Vem aí a Páscoa! Com ela, costuma vir também «a corrida à vigarice da absolvição» (P.e Jean Cardonel).

Todos sabemos que existe um Mandamento da Igreja para o cristão se confessar e comungar pela Páscoa. Eu também sei! Mas…

Não entendo Páscoa que não seja libertação humana. E os ajuntamentos de pessoas (sobretudo, mulheres), em longas «bichas», impacientemente à espera da sua vez para dizerem por trás dum «ripo» os seus «pecados» a um «padre» escondido… poderá dizer-se que seja sinal de que está a celebrar-se, ali, uma libertação?

Começa logo por uma opressão à Mulher que, tratada desta maneira, parece querer indicar que ela continua a ser olhada como «perigosa», havendo necessidade de todas aquelas cautelas…

Os «pecados»… também o não são tantas vezes. Para muitos, não passam de «coisas» que vêm fazendo desde a infância e de que nunca se arrependeram e, por isso, as fazem sempre!

Até no pecado somos alienados!...

E também o dizer, com mais ou menos nervos, aquela «lista» de «pecados», por trás dum «ripo», significará uma libertação? Não será antes um fingir que estamos arrependidos para depois se poder ir à «comunhão» e, assim, cumprirmos um fastidioso dever anual?...

Como pároco, estou, seriamente, preocupado com este acontecimento e, por isso, convido a Paróquia a reflectir comigo. É tempo de sermos honestos e leais connosco e uns com os outros. Confessar há-de ser libertar-se do pecado, para se ser capaz de viver em comum, em Fraternidade.

Comungar há-de ser comprometer-se com Cristo para, decididamente, lutar contra todas as consequências do pecado em nós e à nossa volta.

Um Homem que ainda não ama os outros é um oprimido. Se decide confessar-se, não basta que vá dizer que não ama os outros. É urgente, sobretudo, que se liberte e, então, confessar-se significará que ele se dispõe a amar os outros daí em diante.

Comungar não há-de ser somente «receber a Hóstia». Há-de querer significar que descobrimos não poder continuar a viver isolados, separados, para nós! E por isso somos dos que decidiram viver em comum união (comunhão) com todos, para, assim, transformarmos este mundo de selvagem em humano, de humano em divino, onde tudo esteja orientado para a Pessoa Humana.

Se for assim que aceitamos ver a Confissão e a comunhão, então, podemos dizer que vai haver Páscoa entre nós, isto é, vai haver gente que se libertará e por isso começará a Amar.

Gostaria que reflectíssemos todos e fôssemos conversando entre nós ainda sobre mais alguns pontos de interesse:

1.   O modo como vem sendo celebrada a Confissão ajuda a que ela seja uma libertação? Não teremos de pensar noutro modo?
2.   Que diríamos, se a fizéssemos, calmamente, em diferentes grupos – talvez por idades: crianças, jovens e casais – em dias também diferentes, após uma breve, mas séria preparação?
3.   Aceitaríamos já uma Celebração comunitária da Penitência?
4.   E como havemos de fazer a Eucaristia para que ela mostre que estamos decididos a viver, daí em diante, em comum união, isto é, em Fraternidade?

JESUS CRISTO quer-nos livres, isto é, quer-nos a viver em Amor Fraterno. Só quem ama é livre, porque já consegue dar-se aos outros. Por isso podemos dizer que ser livre é fazer-se irmão de cada um dos outros, custe o que custar, vivendo, solidàriamente, os problemas e angústias, as alegrias e as esperanças de todos.

Vamos querer, então, que a Páscoa entre nós celebre uma verdadeira libertação? Está apenas em nós responder afirmativa, ou negativamente.

COMO VAMOS RESPONDER?

 
[excertos de «ENCONTRO – alguns aspectos da religião tradicional discutidos pelo povo de Macieira da Lixa», edição de Mário Pais de Oliveira, presbítero da Igreja do Porto, edição Afrontamento, Porto, s/ data; respeitou-se em tudo a grafia do texto original]

«VISITA PASCAL» - ANACRONISMO E DECADÊNCIA

Visita Pascal ou «Compasso»





Vem já de há muitos anos o costume de se fazer a «visita pascal» às casas, em dia de Páscoa.
Queria reflectir com a Paróquia também sobre esse acontecimento e, por isso, aqui deixo alguns pontos que poderão ajudar à reflexão.


O que é o «Compasso»

Sai, de manhã cedo, um grupo de Homens entre os quais o padre da Paróquia. Este grupo pretende levar a todas as casas a Boa Nova da Ressurreição de Jesus Cristo.






E como o faz?

Um deles leva uma Cruz onde está um Cristo morto e bem crucificado!...

Todos resolveram enfiar «opas vermelhas» para terem assim um ar de mais importância e melhor serem vistos. O próprio padre lá costuma ir também de batina preta, sobrepeliz branca e estola ao pescoço, com ar bastante abonecado. Se todos aparecessem assim nas casas durante os outros dias, seriam olhados de soslaio. Mas, naquele dia, há uma abundância de boa vontade que leva a achar-se tudo bem!...

Às vezes, não é um padre, mas um jovem de 17 ou 18 anos que estuda no seminário e a quem vestiram aquelas roupas e depois todos lhe chamam «senhor abade»!…

No grupo, há outro, também com «opa vermelha», a que, todos gostam de chamar «Judas». Vai encarregado de recolher o «folar» para o «senhor abade». E, por vezes, é exigente com aquele «negócio», pois não se satisfaz com qualquer coisa.

Há párocos que com este serviço», mais ou menos folclórico, conseguem juntar dezenas de contos!... Será honesto e justo? Alguma vez se viu que, por anunciar a Boa Nova da Ressurreição de Jesus, se viessem a juntar contos de réis no final do dia?! Todos sabemos, entretanto, que, quando Jesus enviou os seus discípulos levar a Boa Nova do Reinado de Deus ao Povo, ordenou que não levassem «bolsa», nem «alforge» (conferir S. Lucas 10,1-12). Hoje, vai-se de «saco», ou de «pasta»!...



E O QUE SE PASSA DENTRO DAS CASAS que recebem o «compasso»?


Fala-se do tempo: se faz frio ou calor, se chove ou se está bom tempo. Insiste-se com os componentes do grupo para que comam e bebam. Alguns, no final do dia, já aparecem bem «vermelhos», como as «opas» e cambaleantes, como é habitual ver os embriagados – o que provoca gáudio e riso alegre nos outros!...

Ninguém fala de Jesus Cristo, muito menos da sua Ressurreição!
Mas como falar dela se, em geral, ela não existe hoje? Quais os filhos de Deus que, hoje, nós fazemos ressuscitar da opressão e do subdesenvolvimento?!...

Não temos Boa Nova viva a anunciar e a comentar, porque a de há dois mil anos já está envelhecida e gasta e não é capaz de entusiasmar hoje, se não for actualizada em todos os que ainda estão «mortos» e «sepultados» por uma sociedade capitalista e opressora que, assim, os «matou»!

O próprio padre aparece, infantilmente, alegre, às vezes, outras vezes, brinca com as crianças, para não enfrentar os adultos. E, se quiser algo mais do que isso, não tem ouvintes, porque estão todos, geralmente, bem alienados e não querem pensar em coisas sérias, como é trabalhar na libertação de filhos de Deus, oprimidos em tantos sub-homens!

Isto é o «compasso»!... E para fazer esta representação, valerá a pena sair de manhã e andar a correr de casa em casa, como um «cobrador» de mensalidades?!

Entretanto, tenho ouvido alguns dizer, quando pus a hipótese de não haver «compasso»: «isso é acabar com a religião. Se não houver, então também não vale a pena ir à Missa»! – ESTÁ CERTO PENSAR ASSIM?!





Como deverá ser a visita pascal?

«Ide dizer aos discípulos: Ele (Jesus) ressuscitou dos mortos e vai preceder-vos na Galileia; lá O vereis» (Mateus 28,7). Poderíamos ver nestas palavras dos Anjos às Mulheres, na manhã de Páscoa, a origem do «Compasso». E também vemos como foi: Era um grupo de Mulheres. Não levavam Cruz com um Crucificado. Não ia o padre naquele grupo. Não vestiram roupa especial. Foram sòmente aos outros discípulos. E – veja-se bem! – foram só depois de verificar que se dera a Ressurreição. Tinham, de facto, uma Boa Nova a comunicar e comentar.

O nosso «compasso» está longe de ser assim! Não levamos boa nova nenhuma, porque não trabalhamos na libertação de ninguém. Por isso vamos comer e beber, levantar dinheiro e falar do tempo!... NÃO SERÁ ISTO UMA EXPLORAÇÃO DO POVO EM NOME DA RELIGIÃO?


Pergunto mais:

Estaremos já a viver e a trabalhar de maneira a podermos, com verdade, dar a Boa Nova da Ressurreição de Jesus Cristo? Quem acreditará nela, se não vir primeiro que há «mortos», hoje, que «ressuscitam»? Creio que só vendo outros «mortos», hoje, a ressuscitar é que poderemos falar do primeiro entre todos que ressuscitou e provoca a ressurreição deles.

Por isso, se quisermos viver a Verdade, em vez de andarmos a fingir, ou a viver alienados, não teremos de começar, já este ano, a não sair com o «compasso», ou a encará-lo de outro modo?!


Que dizemos a tudo isto?

Penso que só aqueles que estiverem empenhados na libertação e salvação de outros poderão dar-se, mutuamente, a Boas Nova da Ressurreição de Jesus Cristo, porque é Ele que continua a ressuscitar neles. E, então, todos esses – são todos os que amam e por isso se fazem irmãos de todos – poderão reunir-se em pequenos grupos, em casa uns dos outros, partilhando com simplicidade e alegria uma refeição, com a presença daquele ou daqueles que eles ajudaram a ressuscitar!

Foi, assim, que Jesus celebrou a Ressurreição de Lázaro, partilhando uma ceia com ele e suas irmãs (conferir João 12,1-11). E foi também assim que de certa maneira celebrou a Sua própria Ressurreição com os seus Amigos (conf. João 21,1-9).

E não é verdade que a MISSA celebra a MORTE e RESSURREIÇÃO de JESUS CRISTO?

Vamos reflectir. Em família. Entre famílias. Por toda a parte. Procuremos contacto com a CASA PAROQUIAL. Ajudemo-nos uns aos outros a caminhar para a VERDADE.


[excertos de «ENCONTRO – alguns aspectos da religião tradicional discutidos pelo povo de Macieira da Lixa», edição de Mário Pais de Oliveira, presbítero da Igreja do Porto, edição Afrontamento, Porto, s/ data; respeitou-se em tudo a grafia do texto original]

3 de abril de 2012

«IGREJA DE POBRES» - LUGAR ECLESIAL DA CRISTOLOGIA

O caso Jon Sobrino como sintoma

«Digo-vos que, se eles se calarem, gritarão as pedras.»_Lc 19:40

Participando do movimento de solidariedade que emerge de diferentes lugares da Igreja em favor de Jon Sobrino, o teólogo Andrés Torres Queiruga oferece sua contribuição para o debate analisando este caso em seu significado no âmbito eclesial.
O Prof. Dr. Andrés Torres Queiruga é professor da Universidade de Santiago de Compostela, na Espanha.  Ele é licenciado em Filosofia e Teologia pela Universidade de Comillas, Espanha, é doutor em Filosofia pela Universidade de Santiago de Compostela, Espanha, e doutor em Teologia pela Pontifícia Universidade Gregoriana, Itália. Entre suas obras publicadas em português, destacamos A revelação de Deus na realização humana (São Paulo: Paulus, 1995); Recuperar a Criação. Por uma religião humanizadora. São Paulo: Paulus, 1999. Repensar a ressurreição. São Paulo: Edições Paulinas, 2004. Em 2004, participou do Simpósio O Lugar da Teologia na Universidade do Século XXI, promovido pela Unisinos. Na ocasião, Queiruga concedeu  entrevista à IHU On-Line na edição número 103, de 31 de maio de 2004. Já havia concedido outra, na edição número 92, de 15 de março de 2004


Jon Sobrino


"A censura romana ao cristão e teólogo Jon Sobrino suscitou um autêntico plebiscito de solidariedade em grandes, vivos e variados setores de toda a Igreja. Um fenômeno tão notório, que transcende o significado meramente pessoal em relação a um autor amado e respeitado.

Nos últimos tempos tenho a sorte de coincidir com Jon nos trabalhos comuns da revista Concilium. Se antes eu admirava sua obra, agora admiro e agradeço muito mais a pessoa cristã, humilde e comprometida, fraterna e cordial, sempre pensando – ele, gravemente vulnerado pela enfermidade – no sofrimento dos pobres e humildes, de todas as vítimas da história. Por isso, não vou aqui fazer uma defesa de sua teologia, com a qual me sinto identificado e da qual aprendo sempre naquelas dimensões em que o meu pensamento, embora aberto a elas e contribuindo para sua fundamentação, não sabe entrar com a lucidez e a paixão que caracterizam o seu pensamento. Além disso, sua resposta às acusações basta a si mesma, sem necessidade de apologias externas.

Esta é a razão pela qual vou refletir sobre dois aspectos, dos quais o documento romano me parece ser um grave sintoma. Sintoma que dá o que pensar e que deve ser pensado em sua importância eclesial, pois indica que algo muito grave está sucedendo na presença da Igreja no mundo.

1. Antes de tudo, o tom do documento. Não é boa coisa quando escritos repletos de coração, com a inteligência posta ao serviço da fé e com a vida entregue evangelicamente aos mais pobres, são lidos com olhos de censor, ou pior, com espírito inquisitorial. Assombra, pelo menos a mim assombra muito o tom seguro e dogmático que se emprega para declarar rotundamente como “erros” propostas teológicas muito meditadas, inclusive quando poderiam ser discutíveis. Um tom somente equiparável com a segurança com a qual se afirmam como indiscutíveis outras propostas que podem ser legítimas, mas que de nenhum modo têm o direito de monopolizar para si a pretensão de serem as únicas que explicam a fé.
Uma teologia que, desde santo Tomás de Aquino e recolhendo uma ampla tradição, proclama tantas vezes que “de Deus não sabemos o que ele é, senão o que não é e como se relaciona conosco”, tem o dever de ser muito cautelosa e muito modesta quando se atreve a julgar, mais ainda, quando ultrapassa os limites do diálogo para chegar à condenação.
É algo que aparece agudizado por uma leitura unilateral e não empática que, em lugar de ler o autor em sua intenção e em sua perspectiva, o interpreta exclusivamente a partir da própria perspectiva. Uma leitura que, além disso, assombra mais de uma vez pelo fundamentalismo com que recorre a determinados textos bíblicos, com clara exclusão de outros, em geral mais próximos ao estilo e à intenção vital de Jesus de Nazaré. Para não falar por abstrações, bastem dois exemplos.




Uma das acusações que o documento faz à teologia de Jon Sobrino consiste em afirmar que é a “fé apostólica” e não a “igreja dos pobres” o lugar eclesial da Cristologia. Porém, trata-se realmente de verdades incompatíveis? Afirmar, como faz Sobrino, que “os pobres questionam dentro da comunidade a fé cristológica e lhe oferecem sua direção fundamental”, poderá significar para alguém que isso negue ou ponha em perigo a fundamentalidade da “fé apostólica”, e não antes, que suponha uma ajuda preciosa para sua correta interpretação?

Fariam bem os redatores do documento em submeter a esse teste o próprio Jesus de Nazaré. Então se encontrariam com a surpresa de ver que ele, nada menos que ele apresenta, como critério decisivo para a fé em geral – através de algo que está na parábola do Juízo Final – precisamente a atenção aos pobres: os justos, os que na verdade conheceram o Senhor, não são os que confessaram a fé de palavra, senão os que deram de comer ou beber... a ”um dos irmãos meus mais pequeninos”. Com o documento na mão, o texto fundacional de Mt 25, 37-43 sairia condenado com muito mais razão do que qualquer um dos de Jon Sobrino.
Outra acusação, Teo-logicamente, a Jon Sobrino, como a Rahner e a tantos teólogos e teólogas, se baseia em que não lhes agrada chamar Jesus de maneira direta de “Deus”, servindo-se de diversos recursos teológicos para expressar a fé em sua divindade. Sobrino está consciente, como o deveria ser todo teólogo sério, que o problema não está em recitar a palavra que expressa a “divindade”, senão em acercar-se com cuidado, a partir de uma compreensão responsável, ao mistério de seu significado: ou seja, “àquilo que queremos dizer quando falamos da “divindade” de Jesus. Um significado que nunca conseguiremos desentranhar com clareza, porque sempre ultrapassará nossos conceitos. Refere-se a isso, remete a isso, por exemplo, a citação que oferece o seguinte documento: “Jesus está intimamente ligado a Deus, pelo que será preciso expressar de alguma forma sua realidade como realidade que é de Deus (cf. Jo 20, 28)?

Os autores do documento vêem aí um não, porque pensam – e estão em seu direito, contanto que não o convertam em exclusivo – que a divindade deve afirmar-se de modo direto. Mais ainda, recorrendo à dificílima doutrina da communicatio idiomatum, “isto é, a possibilidade de referir as propriedades da divindade à humanidade e vice-versa”, e tomando não só a Escritura, senão também os Concílios ao pé da letra, lhe contrapõem, sem mais, afirmações diretas como esta: “Na linguagem cristã é possível dizer, e se diz, por exemplo, que Jesus é Deus, que é criador e onipotente”.

Não vou negar que, com as devidas mediações e com um forte trabalho hermenêutico, esta frase possa ter um sentido correto. Mas, aqui também me agradaria que ousassem submeter a esse teste Jesus de Nazaré. Para tal, remeto a palavras suas, por certo incomparavelmente mais seguras, por serem do próprio Jesus, do que aquelas que, com claro matiz metodológico, aduzem quase sem exceção o documento. Pois bem, quando alguém o interpela, não já com palavras que, com todo o respeito, o situam do lado transcendente, como de-Deus, senão com uma palavra bem simples e comum, chamando-o de “bom”, a contestação de Jesus é de evidente recusa, possivelmente irado: “Por que me chamas bom? Ninguém é bom, senão Deus” (Mc 10,18). O que teria respondido, se o tivessem chamado de “Deus”? E qual seria então o veredicto do documento?



2. Porém, não se trata de limitar-se a casos concretos. Mais grave, em meu parecer, resulta ser o clima geral do qual nascem. Porque, estes casos e outros que caberia citar em abundância, são pontas de iceberg de uma obscura maré de fundo que trata de afogar todo o âmbito da vida comunitária e da reflexão teológica.

Resulta verdadeiramente incompreensível, de que maneira possa ser que nosso mais alto governo eclesiástico não aprenda as lições do passado; não já de um passado remoto, senão inclusive do mais recente, com testemunhos tão estremecedores como os de Bernhard Häring e Yves Congar, e, em geral, daqueles grandes teólogos que, primeiro silenciados e reprimidos, se tornaram logo a seguir o espírito do Concílio, sendo oficialmente reivindicados e inclusive, em alguns casos, elevados a cardeais. Resulta incompreensível que numa comunidade que, para sua existência e sua missão, só tem sentido e justificação na vivência da fraternidade e no espírito de serviço, e na qual seu Fundador alerta de maneira expressa contra o ocultamento – a luz que deve estar “sobre a montanha” -, continuem procedimentos hoje inaceitáveis numa democracia normal.

Resulta incompreensível que se julgue e interprete mal um homem que dedica sua inteligência ao esclarecimento teológico e sua vida ao serviço da proclamação mais nuclear do Evangelho: “bem-aventurados os pobres”. Mais, muito mais incompreensível resulta tudo isso, quando este homem, este cristão e este teólogo é, sem metáforas, um mártir, ou, caso se queira, como justamente recorda o excelente escrito Cristianisme i Justicia, alguém a quem a Igreja primitiva venerava como “confessor”, porque havia sofrido o martírio sem chegar a morrer nele.

A gravidade, repito, não reside tanto no fato concreto, senão na situação que está delatando, pois tudo indica que obedece a um programa de fundo – não me atrevo a pensar que conscientemente planejado – de travar, senão de anular, o movimento de renovação aberto pelo Concílio Vaticano II. E, muito em concreto, desvirtuar fortemente – apesar do reconhecimento expresso de sua legitimidade e inclusive de sua necessidade – o saudável impacto da Teologia da Libertação como dimensão irrenunciável na reconfiguração de toda a teologia. Sob manifestos verbais de aceitação, são muitos os teólogos que têm – que temos – a sensação de que aquilo que certos intentos de resistir à renovação não conseguiram no diálogo conciliar, levam tempo querendo impô-lo depois por via autoritária.

Compreendo que é muito sério o que estou dizendo, e asseguro que de todo  coração desejaria equivocar-me. Porém, ainda sob o risco de equivocar-se, a teologia está obrigada em consciência a trazer para a luz do diálogo e do exame comunitário tudo o que possa ameaçar a autêntica compreensão do Evangelho e da missão da Igreja. E inclusive, se o diagnóstico resultasse ser equivocado, a Igreja sempre sairia ganhando de um diálogo fraterno no tom e rigoroso nos conteúdos.

O Vaticano II, apesar de uma firme herança “hierarcológica” (em palavras de Congar), pôs todo o empenho em promover uma Igreja comunitária e fraternal: um “povo de Deus”, no qual a categoria fundamental seja o “serviço” e não o poder, a participação e não o mandato, a co-responsabilidade e não o verticalismo decisionista. A isso apontava, sem lugar à menor dúvida, o espírito do Nazareno: “Já sabeis que os chefes dos povos os tiranizam e que os poderosos os dominam. Porém entre vós não pode ser assim. Nem muito menos: quem queira ser importante, que sirva os outros, e quem queira ser o primeiro, que seja o mais serviçal” (Mc 10,42-43). A isso está apontando há muito tempo o melhor do processo cultural que, confluindo com o apelo de Jesus, exige um esforço incessante por obter modos de governo cada vez mais democráticos. E, quem afirme que o “mistério da Igreja” não é redutível à categoria política de “democracia”, somente o fará com justiça acentuando a exigência na direção marcada pelo Evangelho: se não democracia, muito mais – nunca muito menos- do que uma democracia.

Pois bem, por muito que nos custe reconhecê-lo, com honestidade histórica e fidelidade eclesiológica, a muitos de nós resulta bastante difícil negar que o anterior pontificado supôs uma travagem, quase violenta, em todos os processos que iam para uma Igreja mais participativa, mais comunitária, mais corresponsável, mais de base: mais “democrática”, no melhor e mais evangélico sentido da palavra.

Se essa evolução sucedia no plano prático e de governo, o mesmo sucedia também e está sucedendo no plano teórico e teológico. A explosão de criatividade pós-conciliar, com suas falhas inevitáveis, mas também com seus frutos evidentes e, sobretudo, com a legitimidade de trabalhar, por claro encargo conciliar, na realização de seu espírito, está a tempo sendo energicamente freada. Pouco a pouco, uma teo-logia – repito, em princípio, legítima como qualquer outra que seja séria e responsável – tratou de ir se impondo por via autoritária, considerando-se a teo-logia: a única que encarna e representa a fé da Igreja. Não sei até que ponto, nesse processo, se foi ou se é consciente de que assim se corre o risco não só de silenciar vozes legítimas que ajudam a apresentar outros aspectos do inesgotável Mistério de Deus, senão de impor, de maneira absoluta, um “ídolo conceitual” ali onde só pode estar o apelo vivo da Palavra e o impulso incessante da fé.

Se cabia abrigar esperanças de uma mudança e se muitos saudamos com gozo a promessa da encíclica Deus caritas est, gestos como este, por desgraça dolorosamente confirmados pela instrução Sacramentum caritatis, parecem fechar o horizonte. Com uma teo-logia assombrosamente pré-conciliar, sem lugar para um verdadeiro diálogo atualizador, pondo de relevo temas que pareciam amplamente superados na teologia mais moderada... o novo documento dá a impressão de querer fechar o círculo da restauração.

 Desde logo, resulta muito difícil poder nele reconhecer o mais genuíno da intenção e do apelo conciliar: abrir as janelas ao mundo, as portas à cultura e a verdade divina a todos os seres humanos: “Esforçar-nos-emos em manifestar aos homens desta época a verdade pura e sincera de Deus, de tal forma que todos a entendam com clareza e a sigam com agrado”, dizia a mensagem inicial dos padres conciliares.

Pode ser todo  um indício o fato de que não são os textos do Concílio, senão antes o Catecismo da Igreja Católica, o que a Notificação recomenda com mais insistência.

3. Apesar de tudo, a esperança. Falei antes de “fechar o horizonte”, porém isso não é nem pode ser verdade, se cremos que o mundo e a Igreja estão habituados e animados pelo Espírito de Deus. Marcado por uma longa história, o que estamos vivendo é um episódio, não um destino. E, nem uma simples olhadela pode reduzir tudo à obscuridade, nem uma fé viva pode desconhecer sinais de esperança.

Começando pelo próprio documento. Se as primeiras notícias falavam de “condenação”, o resultado acaba numa advertência que, por injusta que nos possa parecer, não é um facto meramente disciplinar. Tenha existido, ou não, essa mudança e fosse ou não devido ao clamor da resistência que despertou ao longo da geografia eclesial, tudo indica certa acolhida do direito do sensus fidelium a manifestar-se e fazer sentir sua participação ativa no pensamento e no governo da Igreja.


Jon Sobrino_sobrevivente do massacre dos padres jesuítas


Na verdade, se este acontecimento deixa algo claro, é que este sentimento se faz cada vez mais vivo na consciência eclesial. O Papa e os bispos não são a Igreja, pois,  conforme aos seus ministérios e carismas, ela consiste em discernir e tratar de realizar sua vontade em bem da humanidade. Quando as tensões não rompem a unidade, constituem uma viva recordação desta verdade fundamental. Assim o demonstra o fato de que ela transcendeu os meios, de que o Geral da Companhia de Jesus respeitou e apoiou a decisão em consciência de Jon Sobrino.

Da mesma forma em que o demonstram as resistências de vários episcopados, sobretudo o francês, aos intentos romanos de impor a missa em latim, com óbvia concessão “lefèvbriana”, ao que convém somar as vozes de numerosos liturgistas, teólogos e inclusive hierarcas frente a intentos restritivos de traduzir (unicamente) “por muitos” e não “por todos” o pro multis da consagração. São fatos talvez demasiado isolados, mas que constituem sinais de uma clara mudança de clima.

Como sinal muito importante, talvez mais do que possa parecer de imediato, que porém constitui, de algum modo, um novum na história do papado, é a declaração de Bento XVI indicando que seu próximo livro sobre Cristo quer ser uma proposta teo-lógica, e que, como tal, se apresenta aberta ao diálogo e à discussão. Se as manifestações do magistério, quando começam a ajuizar questões diretamente teológicas, procedessem assim, tenho a convicção de que seriam talvez menos “potentes” em aparência, porém muito mais eficazes e, por suposto, mais fraternalmente evangélicas na prática.

Finalmente, um mínimo de perspectiva histórica, que simplesmente remonte apenas um século para trás, mostra que o horizonte segue aberto e que a vida da Igreja continuará seu caminho de renovação. A repressão antimodernista de começos do século passado foi de um autoritarismo e de uma violência hoje unanimemente reconhecidos pelos historiadores. Porém não pôde impedir o florescer do renascimento patrístico, exegético, litúrgico e pastoral. Já em 1950, o duro freio à Nouvelle Théologie foi uma autêntica marretada na grande maioria dos espíritos. Mas, não foi capaz de cortar o trabalho renovador de seus protagonistas, que acabaram encontrando o mais alto apoio possível: o do maior dos concílios ecumênicos de toda a história. Não há nada de ilusório em pensar que também a estreiteza deste novo clima acabará sendo re-absorvida pela vitalidade da consciência eclesial, pela vida do Espírito na Igreja e no mundo.

As grandes experiências históricas – e a conciliar o é, sem lugar a dúvidas -, uma vez acontecidas, já não podem ser apagadas. De fato, apesar de todas as resistências e obstáculos, a renovação tanto da teologia quanto da consciência comunitária das pessoas que em geral crêem, tem sido e está sendo de tal calibre e profundidade, que a situação acabaria sendo literalmente irreconhecível para a maioria dos teólogos que escreviam em meados do século vinte. O simples fato de que hoje se possam escrever reflexões como as numerosas às quais se soma esta, constitui sua mais sólida confirmação. A nova situação criada a partir do Vaticano II faz com que se possa escrever justamente como manifestação de fidelidade à própria consciência no serviço do Evangelho.

Porque, quem queira lê-las com espírito límpido e no sentido da verdadeira fraternidade, deverá reconhecer que são feitas, não a partir da rebeldia, senão da responsabilidade, e escritas não a partir da distância indiferente, senão a partir do amor e do interesse por uma comunhão eclesial mais viva e autêntica. Porque se fazem na convicção de que a liberdade crítica dentro da Igreja é a melhor mostra de fidelidade e a única garantia de que o Evangelho não fique paralisado ou presa da rotina, senão que continue sendo Boa Notícia, Boa Nova carregada de futuro, para bem de todos os homens e mulheres.

Andrés Torres Queiruga
02 Maio 2007