teologia para leigos

8 de abril de 2012

«VISITA PASCAL» - ANACRONISMO E DECADÊNCIA

Visita Pascal ou «Compasso»





Vem já de há muitos anos o costume de se fazer a «visita pascal» às casas, em dia de Páscoa.
Queria reflectir com a Paróquia também sobre esse acontecimento e, por isso, aqui deixo alguns pontos que poderão ajudar à reflexão.


O que é o «Compasso»

Sai, de manhã cedo, um grupo de Homens entre os quais o padre da Paróquia. Este grupo pretende levar a todas as casas a Boa Nova da Ressurreição de Jesus Cristo.






E como o faz?

Um deles leva uma Cruz onde está um Cristo morto e bem crucificado!...

Todos resolveram enfiar «opas vermelhas» para terem assim um ar de mais importância e melhor serem vistos. O próprio padre lá costuma ir também de batina preta, sobrepeliz branca e estola ao pescoço, com ar bastante abonecado. Se todos aparecessem assim nas casas durante os outros dias, seriam olhados de soslaio. Mas, naquele dia, há uma abundância de boa vontade que leva a achar-se tudo bem!...

Às vezes, não é um padre, mas um jovem de 17 ou 18 anos que estuda no seminário e a quem vestiram aquelas roupas e depois todos lhe chamam «senhor abade»!…

No grupo, há outro, também com «opa vermelha», a que, todos gostam de chamar «Judas». Vai encarregado de recolher o «folar» para o «senhor abade». E, por vezes, é exigente com aquele «negócio», pois não se satisfaz com qualquer coisa.

Há párocos que com este serviço», mais ou menos folclórico, conseguem juntar dezenas de contos!... Será honesto e justo? Alguma vez se viu que, por anunciar a Boa Nova da Ressurreição de Jesus, se viessem a juntar contos de réis no final do dia?! Todos sabemos, entretanto, que, quando Jesus enviou os seus discípulos levar a Boa Nova do Reinado de Deus ao Povo, ordenou que não levassem «bolsa», nem «alforge» (conferir S. Lucas 10,1-12). Hoje, vai-se de «saco», ou de «pasta»!...



E O QUE SE PASSA DENTRO DAS CASAS que recebem o «compasso»?


Fala-se do tempo: se faz frio ou calor, se chove ou se está bom tempo. Insiste-se com os componentes do grupo para que comam e bebam. Alguns, no final do dia, já aparecem bem «vermelhos», como as «opas» e cambaleantes, como é habitual ver os embriagados – o que provoca gáudio e riso alegre nos outros!...

Ninguém fala de Jesus Cristo, muito menos da sua Ressurreição!
Mas como falar dela se, em geral, ela não existe hoje? Quais os filhos de Deus que, hoje, nós fazemos ressuscitar da opressão e do subdesenvolvimento?!...

Não temos Boa Nova viva a anunciar e a comentar, porque a de há dois mil anos já está envelhecida e gasta e não é capaz de entusiasmar hoje, se não for actualizada em todos os que ainda estão «mortos» e «sepultados» por uma sociedade capitalista e opressora que, assim, os «matou»!

O próprio padre aparece, infantilmente, alegre, às vezes, outras vezes, brinca com as crianças, para não enfrentar os adultos. E, se quiser algo mais do que isso, não tem ouvintes, porque estão todos, geralmente, bem alienados e não querem pensar em coisas sérias, como é trabalhar na libertação de filhos de Deus, oprimidos em tantos sub-homens!

Isto é o «compasso»!... E para fazer esta representação, valerá a pena sair de manhã e andar a correr de casa em casa, como um «cobrador» de mensalidades?!

Entretanto, tenho ouvido alguns dizer, quando pus a hipótese de não haver «compasso»: «isso é acabar com a religião. Se não houver, então também não vale a pena ir à Missa»! – ESTÁ CERTO PENSAR ASSIM?!





Como deverá ser a visita pascal?

«Ide dizer aos discípulos: Ele (Jesus) ressuscitou dos mortos e vai preceder-vos na Galileia; lá O vereis» (Mateus 28,7). Poderíamos ver nestas palavras dos Anjos às Mulheres, na manhã de Páscoa, a origem do «Compasso». E também vemos como foi: Era um grupo de Mulheres. Não levavam Cruz com um Crucificado. Não ia o padre naquele grupo. Não vestiram roupa especial. Foram sòmente aos outros discípulos. E – veja-se bem! – foram só depois de verificar que se dera a Ressurreição. Tinham, de facto, uma Boa Nova a comunicar e comentar.

O nosso «compasso» está longe de ser assim! Não levamos boa nova nenhuma, porque não trabalhamos na libertação de ninguém. Por isso vamos comer e beber, levantar dinheiro e falar do tempo!... NÃO SERÁ ISTO UMA EXPLORAÇÃO DO POVO EM NOME DA RELIGIÃO?


Pergunto mais:

Estaremos já a viver e a trabalhar de maneira a podermos, com verdade, dar a Boa Nova da Ressurreição de Jesus Cristo? Quem acreditará nela, se não vir primeiro que há «mortos», hoje, que «ressuscitam»? Creio que só vendo outros «mortos», hoje, a ressuscitar é que poderemos falar do primeiro entre todos que ressuscitou e provoca a ressurreição deles.

Por isso, se quisermos viver a Verdade, em vez de andarmos a fingir, ou a viver alienados, não teremos de começar, já este ano, a não sair com o «compasso», ou a encará-lo de outro modo?!


Que dizemos a tudo isto?

Penso que só aqueles que estiverem empenhados na libertação e salvação de outros poderão dar-se, mutuamente, a Boas Nova da Ressurreição de Jesus Cristo, porque é Ele que continua a ressuscitar neles. E, então, todos esses – são todos os que amam e por isso se fazem irmãos de todos – poderão reunir-se em pequenos grupos, em casa uns dos outros, partilhando com simplicidade e alegria uma refeição, com a presença daquele ou daqueles que eles ajudaram a ressuscitar!

Foi, assim, que Jesus celebrou a Ressurreição de Lázaro, partilhando uma ceia com ele e suas irmãs (conferir João 12,1-11). E foi também assim que de certa maneira celebrou a Sua própria Ressurreição com os seus Amigos (conf. João 21,1-9).

E não é verdade que a MISSA celebra a MORTE e RESSURREIÇÃO de JESUS CRISTO?

Vamos reflectir. Em família. Entre famílias. Por toda a parte. Procuremos contacto com a CASA PAROQUIAL. Ajudemo-nos uns aos outros a caminhar para a VERDADE.


[excertos de «ENCONTRO – alguns aspectos da religião tradicional discutidos pelo povo de Macieira da Lixa», edição de Mário Pais de Oliveira, presbítero da Igreja do Porto, edição Afrontamento, Porto, s/ data; respeitou-se em tudo a grafia do texto original]

3 de abril de 2012

«IGREJA DE POBRES» - LUGAR ECLESIAL DA CRISTOLOGIA

O caso Jon Sobrino como sintoma

«Digo-vos que, se eles se calarem, gritarão as pedras.»_Lc 19:40

Participando do movimento de solidariedade que emerge de diferentes lugares da Igreja em favor de Jon Sobrino, o teólogo Andrés Torres Queiruga oferece sua contribuição para o debate analisando este caso em seu significado no âmbito eclesial.
O Prof. Dr. Andrés Torres Queiruga é professor da Universidade de Santiago de Compostela, na Espanha.  Ele é licenciado em Filosofia e Teologia pela Universidade de Comillas, Espanha, é doutor em Filosofia pela Universidade de Santiago de Compostela, Espanha, e doutor em Teologia pela Pontifícia Universidade Gregoriana, Itália. Entre suas obras publicadas em português, destacamos A revelação de Deus na realização humana (São Paulo: Paulus, 1995); Recuperar a Criação. Por uma religião humanizadora. São Paulo: Paulus, 1999. Repensar a ressurreição. São Paulo: Edições Paulinas, 2004. Em 2004, participou do Simpósio O Lugar da Teologia na Universidade do Século XXI, promovido pela Unisinos. Na ocasião, Queiruga concedeu  entrevista à IHU On-Line na edição número 103, de 31 de maio de 2004. Já havia concedido outra, na edição número 92, de 15 de março de 2004


Jon Sobrino


"A censura romana ao cristão e teólogo Jon Sobrino suscitou um autêntico plebiscito de solidariedade em grandes, vivos e variados setores de toda a Igreja. Um fenômeno tão notório, que transcende o significado meramente pessoal em relação a um autor amado e respeitado.

Nos últimos tempos tenho a sorte de coincidir com Jon nos trabalhos comuns da revista Concilium. Se antes eu admirava sua obra, agora admiro e agradeço muito mais a pessoa cristã, humilde e comprometida, fraterna e cordial, sempre pensando – ele, gravemente vulnerado pela enfermidade – no sofrimento dos pobres e humildes, de todas as vítimas da história. Por isso, não vou aqui fazer uma defesa de sua teologia, com a qual me sinto identificado e da qual aprendo sempre naquelas dimensões em que o meu pensamento, embora aberto a elas e contribuindo para sua fundamentação, não sabe entrar com a lucidez e a paixão que caracterizam o seu pensamento. Além disso, sua resposta às acusações basta a si mesma, sem necessidade de apologias externas.

Esta é a razão pela qual vou refletir sobre dois aspectos, dos quais o documento romano me parece ser um grave sintoma. Sintoma que dá o que pensar e que deve ser pensado em sua importância eclesial, pois indica que algo muito grave está sucedendo na presença da Igreja no mundo.

1. Antes de tudo, o tom do documento. Não é boa coisa quando escritos repletos de coração, com a inteligência posta ao serviço da fé e com a vida entregue evangelicamente aos mais pobres, são lidos com olhos de censor, ou pior, com espírito inquisitorial. Assombra, pelo menos a mim assombra muito o tom seguro e dogmático que se emprega para declarar rotundamente como “erros” propostas teológicas muito meditadas, inclusive quando poderiam ser discutíveis. Um tom somente equiparável com a segurança com a qual se afirmam como indiscutíveis outras propostas que podem ser legítimas, mas que de nenhum modo têm o direito de monopolizar para si a pretensão de serem as únicas que explicam a fé.
Uma teologia que, desde santo Tomás de Aquino e recolhendo uma ampla tradição, proclama tantas vezes que “de Deus não sabemos o que ele é, senão o que não é e como se relaciona conosco”, tem o dever de ser muito cautelosa e muito modesta quando se atreve a julgar, mais ainda, quando ultrapassa os limites do diálogo para chegar à condenação.
É algo que aparece agudizado por uma leitura unilateral e não empática que, em lugar de ler o autor em sua intenção e em sua perspectiva, o interpreta exclusivamente a partir da própria perspectiva. Uma leitura que, além disso, assombra mais de uma vez pelo fundamentalismo com que recorre a determinados textos bíblicos, com clara exclusão de outros, em geral mais próximos ao estilo e à intenção vital de Jesus de Nazaré. Para não falar por abstrações, bastem dois exemplos.




Uma das acusações que o documento faz à teologia de Jon Sobrino consiste em afirmar que é a “fé apostólica” e não a “igreja dos pobres” o lugar eclesial da Cristologia. Porém, trata-se realmente de verdades incompatíveis? Afirmar, como faz Sobrino, que “os pobres questionam dentro da comunidade a fé cristológica e lhe oferecem sua direção fundamental”, poderá significar para alguém que isso negue ou ponha em perigo a fundamentalidade da “fé apostólica”, e não antes, que suponha uma ajuda preciosa para sua correta interpretação?

Fariam bem os redatores do documento em submeter a esse teste o próprio Jesus de Nazaré. Então se encontrariam com a surpresa de ver que ele, nada menos que ele apresenta, como critério decisivo para a fé em geral – através de algo que está na parábola do Juízo Final – precisamente a atenção aos pobres: os justos, os que na verdade conheceram o Senhor, não são os que confessaram a fé de palavra, senão os que deram de comer ou beber... a ”um dos irmãos meus mais pequeninos”. Com o documento na mão, o texto fundacional de Mt 25, 37-43 sairia condenado com muito mais razão do que qualquer um dos de Jon Sobrino.
Outra acusação, Teo-logicamente, a Jon Sobrino, como a Rahner e a tantos teólogos e teólogas, se baseia em que não lhes agrada chamar Jesus de maneira direta de “Deus”, servindo-se de diversos recursos teológicos para expressar a fé em sua divindade. Sobrino está consciente, como o deveria ser todo teólogo sério, que o problema não está em recitar a palavra que expressa a “divindade”, senão em acercar-se com cuidado, a partir de uma compreensão responsável, ao mistério de seu significado: ou seja, “àquilo que queremos dizer quando falamos da “divindade” de Jesus. Um significado que nunca conseguiremos desentranhar com clareza, porque sempre ultrapassará nossos conceitos. Refere-se a isso, remete a isso, por exemplo, a citação que oferece o seguinte documento: “Jesus está intimamente ligado a Deus, pelo que será preciso expressar de alguma forma sua realidade como realidade que é de Deus (cf. Jo 20, 28)?

Os autores do documento vêem aí um não, porque pensam – e estão em seu direito, contanto que não o convertam em exclusivo – que a divindade deve afirmar-se de modo direto. Mais ainda, recorrendo à dificílima doutrina da communicatio idiomatum, “isto é, a possibilidade de referir as propriedades da divindade à humanidade e vice-versa”, e tomando não só a Escritura, senão também os Concílios ao pé da letra, lhe contrapõem, sem mais, afirmações diretas como esta: “Na linguagem cristã é possível dizer, e se diz, por exemplo, que Jesus é Deus, que é criador e onipotente”.

Não vou negar que, com as devidas mediações e com um forte trabalho hermenêutico, esta frase possa ter um sentido correto. Mas, aqui também me agradaria que ousassem submeter a esse teste Jesus de Nazaré. Para tal, remeto a palavras suas, por certo incomparavelmente mais seguras, por serem do próprio Jesus, do que aquelas que, com claro matiz metodológico, aduzem quase sem exceção o documento. Pois bem, quando alguém o interpela, não já com palavras que, com todo o respeito, o situam do lado transcendente, como de-Deus, senão com uma palavra bem simples e comum, chamando-o de “bom”, a contestação de Jesus é de evidente recusa, possivelmente irado: “Por que me chamas bom? Ninguém é bom, senão Deus” (Mc 10,18). O que teria respondido, se o tivessem chamado de “Deus”? E qual seria então o veredicto do documento?



2. Porém, não se trata de limitar-se a casos concretos. Mais grave, em meu parecer, resulta ser o clima geral do qual nascem. Porque, estes casos e outros que caberia citar em abundância, são pontas de iceberg de uma obscura maré de fundo que trata de afogar todo o âmbito da vida comunitária e da reflexão teológica.

Resulta verdadeiramente incompreensível, de que maneira possa ser que nosso mais alto governo eclesiástico não aprenda as lições do passado; não já de um passado remoto, senão inclusive do mais recente, com testemunhos tão estremecedores como os de Bernhard Häring e Yves Congar, e, em geral, daqueles grandes teólogos que, primeiro silenciados e reprimidos, se tornaram logo a seguir o espírito do Concílio, sendo oficialmente reivindicados e inclusive, em alguns casos, elevados a cardeais. Resulta incompreensível que numa comunidade que, para sua existência e sua missão, só tem sentido e justificação na vivência da fraternidade e no espírito de serviço, e na qual seu Fundador alerta de maneira expressa contra o ocultamento – a luz que deve estar “sobre a montanha” -, continuem procedimentos hoje inaceitáveis numa democracia normal.

Resulta incompreensível que se julgue e interprete mal um homem que dedica sua inteligência ao esclarecimento teológico e sua vida ao serviço da proclamação mais nuclear do Evangelho: “bem-aventurados os pobres”. Mais, muito mais incompreensível resulta tudo isso, quando este homem, este cristão e este teólogo é, sem metáforas, um mártir, ou, caso se queira, como justamente recorda o excelente escrito Cristianisme i Justicia, alguém a quem a Igreja primitiva venerava como “confessor”, porque havia sofrido o martírio sem chegar a morrer nele.

A gravidade, repito, não reside tanto no fato concreto, senão na situação que está delatando, pois tudo indica que obedece a um programa de fundo – não me atrevo a pensar que conscientemente planejado – de travar, senão de anular, o movimento de renovação aberto pelo Concílio Vaticano II. E, muito em concreto, desvirtuar fortemente – apesar do reconhecimento expresso de sua legitimidade e inclusive de sua necessidade – o saudável impacto da Teologia da Libertação como dimensão irrenunciável na reconfiguração de toda a teologia. Sob manifestos verbais de aceitação, são muitos os teólogos que têm – que temos – a sensação de que aquilo que certos intentos de resistir à renovação não conseguiram no diálogo conciliar, levam tempo querendo impô-lo depois por via autoritária.

Compreendo que é muito sério o que estou dizendo, e asseguro que de todo  coração desejaria equivocar-me. Porém, ainda sob o risco de equivocar-se, a teologia está obrigada em consciência a trazer para a luz do diálogo e do exame comunitário tudo o que possa ameaçar a autêntica compreensão do Evangelho e da missão da Igreja. E inclusive, se o diagnóstico resultasse ser equivocado, a Igreja sempre sairia ganhando de um diálogo fraterno no tom e rigoroso nos conteúdos.

O Vaticano II, apesar de uma firme herança “hierarcológica” (em palavras de Congar), pôs todo o empenho em promover uma Igreja comunitária e fraternal: um “povo de Deus”, no qual a categoria fundamental seja o “serviço” e não o poder, a participação e não o mandato, a co-responsabilidade e não o verticalismo decisionista. A isso apontava, sem lugar à menor dúvida, o espírito do Nazareno: “Já sabeis que os chefes dos povos os tiranizam e que os poderosos os dominam. Porém entre vós não pode ser assim. Nem muito menos: quem queira ser importante, que sirva os outros, e quem queira ser o primeiro, que seja o mais serviçal” (Mc 10,42-43). A isso está apontando há muito tempo o melhor do processo cultural que, confluindo com o apelo de Jesus, exige um esforço incessante por obter modos de governo cada vez mais democráticos. E, quem afirme que o “mistério da Igreja” não é redutível à categoria política de “democracia”, somente o fará com justiça acentuando a exigência na direção marcada pelo Evangelho: se não democracia, muito mais – nunca muito menos- do que uma democracia.

Pois bem, por muito que nos custe reconhecê-lo, com honestidade histórica e fidelidade eclesiológica, a muitos de nós resulta bastante difícil negar que o anterior pontificado supôs uma travagem, quase violenta, em todos os processos que iam para uma Igreja mais participativa, mais comunitária, mais corresponsável, mais de base: mais “democrática”, no melhor e mais evangélico sentido da palavra.

Se essa evolução sucedia no plano prático e de governo, o mesmo sucedia também e está sucedendo no plano teórico e teológico. A explosão de criatividade pós-conciliar, com suas falhas inevitáveis, mas também com seus frutos evidentes e, sobretudo, com a legitimidade de trabalhar, por claro encargo conciliar, na realização de seu espírito, está a tempo sendo energicamente freada. Pouco a pouco, uma teo-logia – repito, em princípio, legítima como qualquer outra que seja séria e responsável – tratou de ir se impondo por via autoritária, considerando-se a teo-logia: a única que encarna e representa a fé da Igreja. Não sei até que ponto, nesse processo, se foi ou se é consciente de que assim se corre o risco não só de silenciar vozes legítimas que ajudam a apresentar outros aspectos do inesgotável Mistério de Deus, senão de impor, de maneira absoluta, um “ídolo conceitual” ali onde só pode estar o apelo vivo da Palavra e o impulso incessante da fé.

Se cabia abrigar esperanças de uma mudança e se muitos saudamos com gozo a promessa da encíclica Deus caritas est, gestos como este, por desgraça dolorosamente confirmados pela instrução Sacramentum caritatis, parecem fechar o horizonte. Com uma teo-logia assombrosamente pré-conciliar, sem lugar para um verdadeiro diálogo atualizador, pondo de relevo temas que pareciam amplamente superados na teologia mais moderada... o novo documento dá a impressão de querer fechar o círculo da restauração.

 Desde logo, resulta muito difícil poder nele reconhecer o mais genuíno da intenção e do apelo conciliar: abrir as janelas ao mundo, as portas à cultura e a verdade divina a todos os seres humanos: “Esforçar-nos-emos em manifestar aos homens desta época a verdade pura e sincera de Deus, de tal forma que todos a entendam com clareza e a sigam com agrado”, dizia a mensagem inicial dos padres conciliares.

Pode ser todo  um indício o fato de que não são os textos do Concílio, senão antes o Catecismo da Igreja Católica, o que a Notificação recomenda com mais insistência.

3. Apesar de tudo, a esperança. Falei antes de “fechar o horizonte”, porém isso não é nem pode ser verdade, se cremos que o mundo e a Igreja estão habituados e animados pelo Espírito de Deus. Marcado por uma longa história, o que estamos vivendo é um episódio, não um destino. E, nem uma simples olhadela pode reduzir tudo à obscuridade, nem uma fé viva pode desconhecer sinais de esperança.

Começando pelo próprio documento. Se as primeiras notícias falavam de “condenação”, o resultado acaba numa advertência que, por injusta que nos possa parecer, não é um facto meramente disciplinar. Tenha existido, ou não, essa mudança e fosse ou não devido ao clamor da resistência que despertou ao longo da geografia eclesial, tudo indica certa acolhida do direito do sensus fidelium a manifestar-se e fazer sentir sua participação ativa no pensamento e no governo da Igreja.


Jon Sobrino_sobrevivente do massacre dos padres jesuítas


Na verdade, se este acontecimento deixa algo claro, é que este sentimento se faz cada vez mais vivo na consciência eclesial. O Papa e os bispos não são a Igreja, pois,  conforme aos seus ministérios e carismas, ela consiste em discernir e tratar de realizar sua vontade em bem da humanidade. Quando as tensões não rompem a unidade, constituem uma viva recordação desta verdade fundamental. Assim o demonstra o fato de que ela transcendeu os meios, de que o Geral da Companhia de Jesus respeitou e apoiou a decisão em consciência de Jon Sobrino.

Da mesma forma em que o demonstram as resistências de vários episcopados, sobretudo o francês, aos intentos romanos de impor a missa em latim, com óbvia concessão “lefèvbriana”, ao que convém somar as vozes de numerosos liturgistas, teólogos e inclusive hierarcas frente a intentos restritivos de traduzir (unicamente) “por muitos” e não “por todos” o pro multis da consagração. São fatos talvez demasiado isolados, mas que constituem sinais de uma clara mudança de clima.

Como sinal muito importante, talvez mais do que possa parecer de imediato, que porém constitui, de algum modo, um novum na história do papado, é a declaração de Bento XVI indicando que seu próximo livro sobre Cristo quer ser uma proposta teo-lógica, e que, como tal, se apresenta aberta ao diálogo e à discussão. Se as manifestações do magistério, quando começam a ajuizar questões diretamente teológicas, procedessem assim, tenho a convicção de que seriam talvez menos “potentes” em aparência, porém muito mais eficazes e, por suposto, mais fraternalmente evangélicas na prática.

Finalmente, um mínimo de perspectiva histórica, que simplesmente remonte apenas um século para trás, mostra que o horizonte segue aberto e que a vida da Igreja continuará seu caminho de renovação. A repressão antimodernista de começos do século passado foi de um autoritarismo e de uma violência hoje unanimemente reconhecidos pelos historiadores. Porém não pôde impedir o florescer do renascimento patrístico, exegético, litúrgico e pastoral. Já em 1950, o duro freio à Nouvelle Théologie foi uma autêntica marretada na grande maioria dos espíritos. Mas, não foi capaz de cortar o trabalho renovador de seus protagonistas, que acabaram encontrando o mais alto apoio possível: o do maior dos concílios ecumênicos de toda a história. Não há nada de ilusório em pensar que também a estreiteza deste novo clima acabará sendo re-absorvida pela vitalidade da consciência eclesial, pela vida do Espírito na Igreja e no mundo.

As grandes experiências históricas – e a conciliar o é, sem lugar a dúvidas -, uma vez acontecidas, já não podem ser apagadas. De fato, apesar de todas as resistências e obstáculos, a renovação tanto da teologia quanto da consciência comunitária das pessoas que em geral crêem, tem sido e está sendo de tal calibre e profundidade, que a situação acabaria sendo literalmente irreconhecível para a maioria dos teólogos que escreviam em meados do século vinte. O simples fato de que hoje se possam escrever reflexões como as numerosas às quais se soma esta, constitui sua mais sólida confirmação. A nova situação criada a partir do Vaticano II faz com que se possa escrever justamente como manifestação de fidelidade à própria consciência no serviço do Evangelho.

Porque, quem queira lê-las com espírito límpido e no sentido da verdadeira fraternidade, deverá reconhecer que são feitas, não a partir da rebeldia, senão da responsabilidade, e escritas não a partir da distância indiferente, senão a partir do amor e do interesse por uma comunhão eclesial mais viva e autêntica. Porque se fazem na convicção de que a liberdade crítica dentro da Igreja é a melhor mostra de fidelidade e a única garantia de que o Evangelho não fique paralisado ou presa da rotina, senão que continue sendo Boa Notícia, Boa Nova carregada de futuro, para bem de todos os homens e mulheres.

Andrés Torres Queiruga
02 Maio 2007
 



BISPOS E EXERCÍCIO DA AUTORIDADE - o caso Queiruga

Andrés Torres Queiruga


A. Torres Queiruga



Conferência Episcopal Espanhola aponta sete erros doutrinais. A Conferência Episcopal Espanhola publicou uma dura condenação contra o teólogo galego devido a sete erros doutrinais.
A reportagem é de Juan G. Bedoya, publicada no jornal El País, 30-03-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

«Felizes sereis, quando vos insultarem e perseguirem e, mentindo, disserem todo o género de calúnias contra vós, por minha causa [Mt 5:11]

 
O catolicismo espanhol tem, a partir da última sexta-feira, um novo herege. Trata-se de Andrés Torres Queiruga , nascido em 1940 na paróquia de Aguiño, Ribeira (A Coruña). Ele é professor de teologia no Instituto Teológico Compostelano [Instituto Teológico Compostelano] e de filosofia da religião na Universidade de Santiago de Compostela [Universidad de Santiago de Compostela], mas os bispos espanhóis, mediante uma chamada Notificação, o acusam de sete erros que se referem ao "realismo da ressurreição de Jesus Cristo, enquanto acontecimento histórico (milagroso) e transcendente", ao "caráter indedutível da Revelação" e à "unicidade e universalidade da mediação salvífica de Cristo e da Igreja".

O termo “notificação”, no jargão vaticano, significa que a autoridade doutrinal torna pública uma resolução contra alguém. Nesse caso, a vítima é um teólogo de renome social, especialmente na Galiza, onde Torres Queiruga é membro da Real Academia Galega e do Conselho de Cultura Galego. Autor de mais de 20 livros de prestígio, ele também é Prémio Nacional de Melhor Tradução da Bíblia. Ele diz que a Comissão Episcopal para a Doutrina da Fé, nome actual do sinistro Santo Ofício da Inquisição, que, com essa condenação, os bispos "querem salvaguardar aspectos essenciais da doutrina da Igreja para evitar a confusão no Povo de Deus e contribuir para o fortalecimento da sua vida cristã". A Notificação não fala de heresia, nem condena nenhuma obra do teólogo galego, mas é uma mensagem de condenação doutrinal propriamente dita.

Assim percebeu o afetado, que se mostra "triste, confuso e escandalizado por um procedimento eclesialmente irregular". Ele fez essa declaração assim que soube que os bispos tornaram pública a sua decisão no site da Conferência Episcopal Espanhola (CEE) [texto disponível aqui, em castelhano].

Em declarações ao site Religión Digital, Torres Queiruga acrescenta: "Não é só uma condenação injusta, mas acima de tudo teologicamente infundada e desviada. A rectidão de uma obra como a minha não seria questionada em nenhuma outra nação europeia com uma séria tradição teológica. Todo o meu trabalho sempre tem sido presidido por um grande cuidado em preservar a fé da Igreja, tentando repensá-la com um espírito construtivo, para que seja fundamentada, compreensível e vivível para os homens e as mulheres de hoje".

A hierarquia do catolicismo espanhol tomou ao pé da letra a recente instrução do Vaticano que deposita sobre os bispos a máxima autoridade. 

 


A Espanha, antiga "luz de Trento" (nas palavras do exagerado Marcelino Menéndez Pelayo), é a primeira a apagar a investigação teológica livre seguindo a nova consigna romana. A Notificação (eufemismo para a palavra condenação) foi maquinada em Madri pela Comissão Episcopal para a Doutrina da Fé, presidida pelo bispo de Almería, Adolfo González Montes, sem julgamento prévio e sem dar a oportunidade de defesa para o processado. Tendo sido elevada à Comissão Permanente da Conferência Episcopal, a resolução foi ratificada no dia 29 de Fevereiro passado.

A nota de condenação começa apelando a um "diz-se", sem rosto. Afirma-se: "Em repetidas ocasiões, chegaram à Conferência Episcopal consultas sobre a conformidade dos escritos do reverendo professor padre Andrés Torres Queiruga com o ensinamento da Igreja Católica".

A Notificação, de apenas 20 páginas, defende que o teólogo galego "quer romper com uma concepção da Revelação como «ditado» [como 'oferta impositiva vinda de fora'] e a entende como uma descoberta de Deus já presente e, nesse sentido, não mais misteriosa do que outro conhecimento. Deus não precisa 'chegar', porque já está sempre. Por isso, a revelação efectiva é sempre uma experiência já realizada, algo com o qual o sujeito religioso se encontra no próprio acto de tomar consciência dela. [...] Tomada nessa estrutura original e sob esse aspecto, a revelação não é nem mais misteriosa nem menos simples do que um acto cognitivo qualquer".

Convencido da ortodoxia de seus escritos, Torres Queiruga desafia seus inquisidores para que, se em algum escrito vêem que se possa danificar a fé, o demonstrem "com razões que corrijam ou refutem" as que o condenado oferece. Ele também diz que está vivendo essa censura como "uma desqualificação pessoal" que, objectivamente, o expõe "a uma calúnia pública em matéria muito grave".

Na sua opinião, a condenação irá causar "uma perturbação desnecessária nos fiéis e é um duro golpe para a credibilidade pública da fé, que muitas julgarão, mais uma vez, como sobrecarregada por um peso autoritário e por uma negação da liberdade intelectual".

Instituto Humanitas Unisinos, 2 Abril 2012

Para ler mais:


26 de março de 2012

RESSURREIÇÃO 1/3

 1/3

O caminho da exegese crítica
sobre os textos da Ressurreição



Os estudos exegético-críticos acerca dos textos da Ressurreição tornaram-se um mare magnum, a ponto de ser difícil para os próprios especialistas se poderem orientar. O que aqui apresentamos quer ser apenas uma indicação das pistas pelas quais caminha hoje [1996] a exegese, tanto a católica, quanto a protestante. Isso nos ajudará a compreender melhor as várias interpretações atrás arroladas e deverá servir de base para nossas reflexões de ordem sistemática.



Como era a pregação primitiva sobre a Ressurreição?_1

Os exegetas estão de acordo que a pregação primitiva da Igreja sobre a Ressurreição não deve ser buscada nos evangelhos nem em S. Paulo, mas sim nas fórmulas pré-paulinas e pré-sinópticas, que através dos métodos morfo-críticos descobrimos assimiladas em S. Paulo, nos evangelhos e especialmente nos Actos. Nos discursos de Pedro nos Actos 2-5 e em Paulo 1Cor 3-5 encontramos essas fórmulas antigas. Paulo diz expressamente que «transmite aquilo que ele mesmo recebeu» (1Cor 15:3). O próprio estilo literário de 1Cor 15:3-5 trai a antiguidade da fórmula que Paulo já encontrou fixada na comunidade de Jerusalém por volta do ano 35 aquando da sua primeira viagem àquela cidade. A estrutura formal rígida é a mesma nos Actos e em 1Cor 15:3-5:

a)   Cristo morreu… foi sepultado;
b)  Foi ressuscitado (ou ‘Deus o ressuscitou’: Act 2:4);
c)   Segundo as Escrituras;
d)  Apareceu a Kefas e depois aos Doze (ou «E disso nós somos testemunhas»: Act 2:32).

Nos discursos de Pedro nos Actos (2-5) a mensagem pascal é anunciada dentro de duas categorias de pensamento: uma apocalíptica e outra escatológica.

Na apocalíptica, que florescia no judaísmo pós-exílico, havia a ideia do justo-sofredor, humilhado e exaltado por Deus (cf. Sab 5:15ss). Isso tornou-se um leitmotiv das cristologia antiga como em Lucas 24:26 e Filipenses 2:6-11: «Ele se humilhou a si mesmo, por isso Deus também o exaltou». Nos discursos de Pedro encontramos semelhante explicação do acontecimento pascal: «Vós o mataste… contudo foi elevado à direita de Deus» [Act 2:24.33]. Mais adiante: «Deus o exaltou à sua direita como Autor (da vida) e Salvador» [5:30.31; cf. 3:13-15]. Com muita probabilidade esse esquema está ligado ao outro do ocultamento de Jesus [Act 3:21], como ao do profeta Henoc e Elias. Assim como Elias foi «arrebatado» ao céu [2Rs 2:9-11; 1Mac 2:58] da mesma forma Jesus [Act 1:9-11.22; Mc 16:19; Lc 9:51; 1Tm 3:16; 1Ts 4:16.17 e Ap 13:5]. O emprego desta terminologia pôde certamente ser sugerido pelo facto do desaparecimento do corpo de Cristo [Mc 16:6; Mt 28:5; Lc 24:32; Jo 20:2] ao qual os textos dão certa importância. O Jesus de S. João fala a linguagem primitiva do anúncio pascal. A Ressurreição é entendida como elevação, glorificação e ir para o Pai. Essa concepção está ligada ao tema do Messias, do Filho do Homem e do Servo Sofredor que é exaltado. Assim são, nos Actos, interpretados os Salmos 110 [Act 2:34] e Salmo 2 [Act 4:26]. Os factos pascais são vistos como a entronização do Messias-Rei como «Senhor e Cristo» [Sl 2; Act 2:36] e sua elevação como «Senhor e Salvador» [5:31].

A mensagem pascal é ainda interpretada por uma outra categoria de pensamento, a escatológica. Segundo esta, esperava-se, para o final dos dias, a ressurreição dos mortos. Os Apóstolos viram na Ressurreição de Jesus a realização dum facto escatológico. Se falam e anunciam a Ressurreição isso significa, nos moldes das categorias bíblicas, Ressurreição real e corporal. Vida sem corpo – embora glorificado [Mc 13:43] – para um judeu, é impensável. Como as manifestações de Jesus, no uso da terminologia da ressurreição, mostravam um Jesus glorificado era necessário deixar clara a identidade entre o crucificado e o glorificado. Os textos doa Actos (cf, 2:32; 3:15; 5:30) acentuam essa identidade, bem como, mais tarde, o fazem Lucas e João frente aos gregos. Essa terminologia recalcou, em grande parte, a outra de origem apocalíptica. Isso, por motivos óbvios, já que, frente à negação do facto da Ressurreição, devia-se acentuar a realidade da transfiguração da existência terrestre de Jesus. Por aí vemos que os fenómenos das aparições, das falas de Jesus vivo após a crucificação e do sepulcro vazio não foram logo interpretados como Ressurreição da carne, mas como elevação e glorificação do justo sofredor. Esta interpretação parece ter sido a mais antiga. Evidentemente, ela pressupõe também o Cristo vivo e transfigurado e o sepulcro vazio. Mas a isso não se chamou ainda Ressurreição. Mais tarde, devido às polémicas e por motivos querigmáticos, os fenómenos acima referidos foram mais adequadamente interpretados como Ressurreição, no sentido de total transfiguração da realidade terrestre de Jesus. Por isso, a Ressurreição é sempre referida à história de Jesus: à sua morte e sepultamento.

A interpretação dos fenómenos pascais como Ressurreição já vem testemunhada por Paulo em 1Cor 15:3-5, como acima referimos já. A expressão: ‘foi ressuscitado ao terceiro dia’ pode ser uma reminiscência histórica. Mas é também uma expressão oriental para dizer: ‘Cristo permaneceu só temporariamente na sepultura’. Segundo a crença geral, após esse espaço de tempo a vida se separaria definitivamente do cadáver. Quatro dias significaria ‘permanência definitiva’ [Didaqué 11:5]. A expressão ‘segundo as Escrituras’ não precisa de ser referida a nenhuma passagem explícita. Apenas quer exprimir a unidade da acção salvífica: o Deus que agiu outrora no Antigo Testamento (AT) agiu agora maximamente ressuscitando a Cristo. A referência aos testemunhos não precisa ser cronológica. A aparição a Pedro aparece já na seguinte fórmula, uma das mais antigas do Novo Testamento (NT): «Jesus Cristo ressuscitou verdadeiramente e apareceu a Simão» [Lc 24:34]. A aparição a 500 irmãos de uma vez só não precisa ser tomada ao pé da letra. Talvez essa aparição seja a mesma indicada por Mateus 28:16ss no Monte da Galileia. A referência de uma aparição a Tiago fala em favor da credibilidade desse testemunho Paulino, porque o grupo de Tiago [Gálatas 2:12] se distanciara desconfiado do evangelho de Paulo acerca da liberdade cristã frente ao culto da Lei do judaísmo bíblico.

As fórmulas de fé em 1Cor 15 e nos Actos 2-5 deixam entrever, pela sua formulação rígida, que a Ressurreição não é nenhum produto da fé da comunidade primitiva, mas testemunho de um impacto que se lhes impôs. Não é nenhuma criação teológica de alguns entusiastas pela pessoa do nazareno, mas testemunho de fenómenos acontecidos depois da crucificação e que os obrigara a exclamar: Jesus ressuscitou verdadeiramente. Esse pequeno credo proclama os magnalia Dei realizados em Jesus e corresponde ao credo do povo judeu no Dt 26:5-11. O sepulcro vazio não é objecto de pregação, mas é antes suposto. As aparições são sempre atestadas como fundamento das duas possíveis interpretações, seja como elevação-glorificação do justo de Deus, seja como Ressurreição no sentido de uma acção de Deus transfigurando em vida nova de glória o Crucificado.

Ecce Homo


Donde veio a convicção dos Apóstolos na Ressurreição de Jesus?_2

Ninguém viu a Ressurreição. O evangelho apócrifo de S. Pedro, descoberto em 1886 (surgiu por volta de 150dC na Síria), narra o modo como Cristo ressuscitou diante dos vigias e dos anciãos judeus. Mas a Igreja não o reconheceu como canónico, porque certamente já a consciência cristã cedo percebeu que assim maciçamente não se pode falar da Ressurreição do Senhor. Possuímos apenas testemunhos que atestam duas coisas: o sepulcro está vazio e houve várias aparições do Senhor vivo a determinadas pessoas. Devemos, portanto, analisar as tradições que falam do sepulcro vazio e aquelas que referem aparições.

Grande número de exegetas, independentemente da sua confissão religiosa, chegou à seguinte conclusão: primitivamente, ambas as tradições circulavam autonomamente, uma ao lado da outra. Em Marcos 16:1-8, onde se narra a descoberta do sepulcro vazio pelas mulheres, temos já trabalho redacional combinando as duas tradições. A ligação, porém, não se ajusta bem. Os textos revelam tensões ocasionadas pelos versículos 5-7 que tiram a unidade ao relato. Se lermos Marcos 16:1-5a.8 a homogeneidade do relato transparece límpida: (1) as mulheres vão ao sepulcro; (2) encontram-no vazio; (3) fogem de medo e nada contam a ninguém. A aparição do Anjo com a sua mensagem (5b-7) seria um acréscimo tirado da outra tradição que só conhece aparições e não o sepulcro vazio. Qual a função do relato do sepulcro vazio, testemunhado pelos quatro evangelistas? Qual o seu Sitz im Leben?

Leonardo Boff
A nossa ressurreição na morte
Ed. Vozes, Petrópolis 2004, 10ª edição, pp-41-55

RESSURREIÇÃO 2/3

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 O sepulcro vazio não deu origem à fé na Ressurreição_3



O sepúlcro vazio
É claro que a tradição do sepulcro vazio se formou em Jerusalém. A pregação da Ressurreição de Jesus ter-se-ia tornado impossível na cidade santa se o povo pudesse mostrar o corpo de Jesus no sepulcro. Além do mais, na antropologia bíblica, qualquer forma de vida mesmo a pneumática, implica sempre o corpo. Os inimigos, seja nos tempos apostólicos, seja nas polémicas rabino-cristãs da literatura talmúdica, jamais negaram o sepulcro vazio. Interpretaram-no de modo diverso, como roubo por parte dos discípulos [Mt 28:13] ou, como recentemente quer D. Whitaker, roubo perpetrado por violadores de túmulos. Exegetas, tanto católicos, como protestantes, afirmam um núcleo central histórico anterior aos evangelhos − as mulheres encontraram o sepulcro vazio.

Esse núcleo histórico foi feito tradição em ambientes cultuais. É sabido que os judeus veneravam os túmulos dos profetas. [J. Jeremias] Assim, semelhantemente desde cedo os cristãos começaram a venerar os lugares onde se realizou o mistério cristão em Jerusalém. Dramatizavam-no em três momentos principais: (1) uma recordação – anamnese – da última noite de Jesus por ocasião do agápe fraternal; (2) uma liturgia da sexta-feira santa na hora em que se celebravam as orações judias; (3) e uma acção litúrgica na manhã de páscoa com uma visita ao sepulcro de Jesus. Por isso, os textos do relato do encontro do sepulcro vazio mostram um interesse especial pelo lugar: «Ele não está aqui. Vede o lugar onde o depositaram» [Mc 16:6b]. Essa tradição, porém, não se preocupou em dar exactamente os detalhes. Basta comparar os paralelos sinópticos e João para se observar as divergências (no número de mulheres; no número de anjos; divergência acerca dos motivos porque as mulheres foram ao sepulcro; diferença de horário; diferença na mensagem do anjo; diferença na reacção das mulheres frente ao sepulcro vazio). O relato, contudo, atém-se ao essencial: o Senhor vive e ressuscitou. O sepulcro está vazio.

O facto ‘sepulcro vazio’, porém, não é transformado em prova da Ressurreição de Jesus em nenhum evangelista. Em vez de provocar fé originou medo, espanto e tremor, de sorte que «elas fugiram do sepulcro» [Mc 18:6; Mt 28:8; Lc 24:4] (a visita de Pedro e João ao sepulcro vazio em Jo 20:8 parece não ser uma reminiscência histórica, mas uma construção teológica do autor do evangelho de João, no sentido de colocar o chefe do grupo joaneu junto do chefe da Igreja, Pedro; cf. Benoît, P., Passion et Réssurrection du Seigneur, (Lire la Bible_6), Cerf, Paris 1969, pp.284-286) O facto ‘sepulcro vazio’ foi imediatamente interpretado por Maria Madalena como roubo [Jo 20:2.13.15]. Para os discípulos, ele não passa de um diz-que-diz-que de mulheres [Lc 24:11.22-24:34]. O sepulcro vazio por si só é um sinal ambíguo, sujeito a várias interpretações. Somente a partir das aparições sua ambiguidade é dilucidada e pode ser lido pela fé como um sinal da Ressurreição de Jesus. As aparições são concedidas a testemunhas escolhidas. O sepulcro vazio é um sinal que fala a todos e leva a reflectir na possibilidade da Ressurreição. É um convite à fé. Não leva ainda à fé.



Aparição a Maria Madalena

Um problema à parte oferece a aparição dos anjos junto ao sepulcro. A interpretação tradicional vê neles, de facto, seres supra terrestres e verdadeiros anjos. Contudo, sem questionarmos a existência dos anjos, deve-se dizer que esta interpretação, mesmo dentro dos critérios bíblicos, não é a única possível. O ‘anjo’ (mal’ak Yahvé) está no lugar de Yahvé cuja transcendência o judeu reafirma absolutamente, de modo que, em vez de dizer ‘Yahvé’ dizia ‘Anjo de Yahvé’ [Gn 22:11-14; Ex 3:2-6; Mt 1:20]. Outra interpretação poderia ser a seguinte: as mulheres encontram o sepulcro vazio e logo atinam com a Ressurreição de Jesus. Esta ideia é interpretada como uma iluminação de Deus. Exprimem-na na linguagem literária da época como sendo uma mensagem do anjo (Deus). Outra interpretação possível, e que se coaduna melhor com a análise que expusemos acima, se articularia da seguinte forma: as mulheres vão ao sepulcro; encontram-no vazio; estão desapontadas e com medo. Nesse entretanto regressam os apóstolos da Galileia, onde tiveram aparições do Senhor. O testemunho deles é unido ao das mulheres. A mensagem dos Apóstolos «O Senhor Ressuscitou verdadeiramente e apareceu a Simão» [Lc 24:34, talvez a fórmula, mais antiga] é considerada como uma revelação de Deus e expressa na linguagem da época, colocando-a na boca de um anjo (Deus). A fé na Ressurreição não encontrou sua origem na descoberta do sepulcro vazio e no testemunho das mulheres, mas nas aparições dos apóstolos. Por isso a preocupação de Marcos 16:7 em fazer as mulheres irem a Pedro e aos discípulos e comunicarem-lhes a mensagem do anjo. Eles souberam do sepulcro vazio primeiro pelas mulheres. Por isso eles podem responder às calúnias dos judeus – de que tinham raptado o corpo de Jesus – que por si mesmos nada sabiam do sepulcro vazio. Mt 28:11-16 (o conluio dos vigias com o sumo-sacerdote) revela uma clara tendência apologética de Mateus. Na forma de uma estória, ele quer tornar ridícula a calúnia (dos judeus) do roubo do corpo de Jesus.

Leonardo Boff
A nossa ressurreição na morte
Ed. Vozes, Petrópolis 2004, 10ª edição, pp-41-55