teologia para leigos

8 de março de 2012

O CONCEITO CRISTÃO DA LIBERDADE_1

S. João e a revelação da Liberdade
«A verdade vos fará livres» [João 8:32]


Império sob Domiciano_Época de Crise e perseguições (Patmós)



I - UM POVO DE REIS E SACERDOTES

 
O CONTEXTO_1

Não podemos compreender o evangelho segundo S. João fora da perspectiva do livro do Apocalipse. Mesmo que os dois livros não tenham sido escritos pelo mesmo autor no seu teor actual, pelo menos temos a certeza de que ambos estão estreitamente relacionados com S. João e foram escritos por pessoas que pertenciam ao grupo formado em torno do último dos apóstolos, aquele que foi o último a morrer, e a respeito do qual circulou um dia o rumor de que não morreria, antes que Jesus voltaria antes da sua morte.

O livro do Apocalipse é anterior ao evangelho e deve ser lido antes do evangelho, se queremos entender a mensagem deste último. O Apocalipse fornece o contexto do evangelho. De certo modo, podemos dizer que o evangelho de S. João é uma leitura do evangelho de Jesus Cristo à luz dos acontecimentos contemplados e interpretados pelo livro do Apocalipse.

O livro do Apocalipse não exprime explicitamente uma mensagem sobre a liberdade. Não é o seu tema. Mas a mensagem sobre a liberdade que se acha no quarto evangelho não pode ser separada do seu contexto que é o Apocalipse. O Apocalipse mostra a história e não a exprime em termos abstractos. Não chega a usar o vocabulário da liberdade, mas mostra o povo livre, implicado no drama do mundo, enfrentando o seu adversário cósmico e histórico de sempre. Por isso, a contemplação da luta daquele povo de homens livres contra os opressores da liberdade constituirá a melhor introdução à leitura da revelação da liberdade no evangelho segundo S. João. O evangelho considera a mesma perspectiva, usa os mesmos conceitos e ensina a mesma mensagem, mas num outro género literário. O que o Apocalipse mostra na forma de drama histórico mundial, o evangelho o expõe em forma de discursos de Jesus: Jesus anunciou o que o Apocalipse mostra.

Vimos (noutras meditações anteriores) a proclamação da mensagem cristã para o mundo dos judeus, dentro do contexto judaico e numa linguagem judaica. Para S. Paulo, o império romano era simplesmente uma circunstância acidental. Não era o objecto da mensagem. Não interferia, realmente, com a novidade do cristianismo. Parecia tão neutro como o ar, a terra e o mar: uma parte da paisagem e nada mais. A liberdade não o atingia. Ele parecia estar fora do alcance da liberdade.

Mas, na perspectiva de S. João, o império romano ficava no centro do drama. Acontece é que passaram muitos anos: 30 anos entre as grandes Epístolas e o Apocalipse. Em 30 anos as circunstâncias mudaram. Com a destruição de Jerusalém e do Templo, a polémica judaica contra as novas igrejas perdeu grande parte da sua força persuasiva. Ao invés, sobretudo nas cidades gregas da Ásia Menor, a presença das novas comunidades cristãs começa a ser percebida como factor social e cultural novo, específico. Apareceram os primeiros conflitos e as primeiras formas de rejeição do cristianismo pelo conjunto social e cultural do império romano. Alguns cristãos morrem vítimas das agressões de certos grupos irritados pela posição dos cristãos contra os cultos pagãos e provavelmente contra o culto imperial. As sete cartas do Apocalipse às sete igrejas revelam tais situações de conflito.

Nesse contexto, o significado histórico do Apocalipse de S. João tem a ver com o começo dum novo drama que o cristianismo estava a enfrentar. A profecia de S. João revela que esses conflitos não devem ser interpretados apenas como simples acidentes da história: nas primeiras perseguições, havia que reconhecer os primeiros sinais de um debate que doravante ia definir a condição cristã no mundo. A oposição entre fariseus e discípulos de Jesus dentro do povo judaico − perspectiva constante de Paulo − era um facto superado pela evolução. Mas o fim dessa oposição, como situação característica, não significava, para a igreja de Deus, um tempo de paz e tranquilidade. Muito pelo contrário. A perseguição das primeiras comunidades cristãs pelos fariseus era apenas uma imagem duma perseguição muito mais ampla, profunda e radical. A Igreja estava na aurora duma perseguição imensa e dum drama imenso que ia ocupar a totalidade do seu destino na terra.

O Apocalipse era a revelação da totalidade do porvir da Igreja na forma de uma imensa perseguição e de uma imensa resistência à perseguição. A liberdade cristã era chamada a ser vivida sob a forma de uma resistência oposto a uma oposição total e radical. E a oposição procedia, desta vez, do império romano na sua totalidade: como cultura e como poder, como união de todos os povos da terra e como sistema de dominação total. O julgamento de S. João sobre o império romano é dramático e terrível. Mas não podemos considerá-lo excepcional na história cristã. Lembremo-nos que, para S. Agostinho, o império romano era «magnum latrocinium»: uma imensa empresa de roubo, banditismo, no fundo, uma imensa máfia e nada mais. E, na realidade, assim era, apesar do império se ter revestido de todos os despojos, bens materiais e culturais roubados aos povos escravizados, de tal modo que o mérito de todo o trabalho dos povos escravos lhe ser atribuído como mérito próprio do império. S. João não se deixou seduzir pelo prestígio do império. Ao invés, a sua profecia é a revelação da mentira que engana os povos, é a revelação da mentira que o próprio império é e que provoca uma profecia de denúncia generalizada dessa mentira generalizada. O papel da Igreja no mundo será, justamente, a denúncia dessa mentira total sob a forma duma profecia total. Esse é o contexto em que se vive a liberdade cristã.

Hoje em dia, o império romano morreu, mas a mensagem de S. João não perdeu a sua força, pois o império é uma realidade permanente. Os impérios históricos desaparecem, mas o sistema renasce sob outras formas. A teologia cristã da história consiste, justamente, em mostrar como as realidades denunciadas por S. João reaparecem em novas circunstâncias sob novas formas. A realidade do império é mais viva do que nunca nos dois impérios que repartiram o poder entre si: o Americano e o Soviético. Nós mesmos somos uma parte do império americano, dirigidos por um poder político e económico que corresponde aos aspectos denunciados por S. João no império romano, com a ajuda de uma ideologia imperial que é a ideologia da segurança nacional, hoje em dia norma e consciência de todos os órgãos do império em todos os países que dependem dele [NATO, etc]. Se cada império mantém a disciplina e a sujeição dos povos dominados invocando a necessidade da defesa comum contra o império rival, na realidade ambos os impérios são cúmplices e, graças a essa luta fictícia, ajudam-se mutuamente a manterem a sua dominação sobre a parte do mundo que lhes compete.

De acordo com a mensagem profética de S. João, o povo de Deus há-de ser colocado dentro do contexto desse drama, se é que se quer compreender o conteúdo real da sua liberdade. Já não se trata de conquistar a liberdade da Lei de Moisés, mas a liberdade frente à máquina infernal do império romano. A liberdade cristã é histórica, um dado que se conquista dentro dum contexto histórico numa luta contra adversários cujos nomes agora são conhecidos. Já não são os rabis de Israel, mas os imperadores com a sua corte, a sua administração e os seus exércitos.

 

Imperadores, Império e Roma Imperial



O DRAMA_2

Vejamos, primeiro, como o Apocalipse descreve a situação histórica do Povo de Deus.

Em primeiro lugar, S. João revela que o império romano não é toda a realidade abarcada por essa designação. Naturalmente, dentro das fronteiras do império há inúmeras realidades humanas boas e óptimas, que não têm responsabilidade nenhuma no sistema imperial, bem pelo contrário, são vítimas do sistema imperial. O que ele tem na mira é o sistema como tal, o sistema de dominação que é, ao mesmo tempo, um sistema de mentira, sistema que pretende destruir o cristianismo por este estar a descobrir que tem no império romano o seu mais radical adversário. Ora, segundo S. João, esse sistema não é apenas um acidente histórico, não é apenas obra de homens malévolos, corruptos pela vontade de poder. Tal sistema de poder não se explica pela pura malícia de alguns indivíduos: os imperadores são muito mais instrumentos do sistema de poder que seus autores. Não está excluído que, os imperadores e seus funcionários, possam ser pessoas com boas intenções e, inclusivamente, capazes de actos bons. Mas, por trás deles, está o sistema. E o autor do sistema, o inspirador que fez surgir a máquina imperial é o próprio Satanás, a serpente do Génesis.

Para S. João, o drama mundial da oposição entre o sistema imperial romano e as igrejas cristãs é a manifestação, a continuação, a repetição sempre renovada do drama do primeiro capítulo do Génesis[1]: a luta entre Deus e «o grande dragão, a cobra antiga que se chama diabo e Satanás, o sedutor do mundo inteiro» [Ap 12:9]. O jardim do Paraíso tem, agora, o tamanho do mundo inteiro. A humanidade enganada pela serpente é o conjunto dos povos: «Toda a terra admirou a fera e adorou o dragão» [Ap 13:3]. O dragão não conseguiu vencer Cristo, mas continua fazendo guerra ao seu povo: «o dragão irritou-se contra a mulher e foi fazer guerra ao resto da sua descendência, aos que guardam os mandamentos» [Ap 12:17]. Esse é o dragão que enganou a antiga Eva, mas que foi vencido pelo Filho da nova Eva e que não conseguiu enganá-la: agora o dragão continua a luta ao atacar os descendentes da nova Eva, isto é, as Igrejas cristãs.

Portanto, as perseguições que as igrejas cristãs sofrem são a nova forma de luta do dragão que não conseguiu enganar a Igreja, a nova Eva. E a fera que o dragão suscitou, «o dragão deu-lhe a sua força, o seu trono e grande poder» [Ap 13:2], é, de acordo com os melhores intérpretes, o império romano e todos os poderes que lhe prolongam o domínio na terra. «Foi-lhe dado fazer a guerra aos santos e vencê-los. E foi-lhe dado poder sobre toda a tribo, língua, povo e nação» [Ap 13:7]. As perseguições que sofrem as igrejas, desde o final do século I, correspondem à guerra de Satanás − a guerra da mentira, da falsidade contra a verdade, pois só Deus é verdadeiro.

Sobre os mártires − os discípulos que são fiéis até à morte − o dragão não tem poder. Foi vencido por Jesus, em virtude da sua morte e ressurreição – eis o sentido dos mil anos de preservação de que fala o profeta do Apocalipse: «Vi descer do céu um anjo que tinha na mão a chave do abismo e uma grande algema. Ele apanhou o dragão, a serpente antiga, que é o diabo, Satanás, e algemou-o por mil anos» [Ap 20:1s]. «Depois de se consumarem mil anos, Satanás será solto da prisão saindo para seduzir as nações dos quatro cantos da terra, Gog e Magog, e reuni-las para a luta, numerosas como areia do mar… Mas desceu um fogo do céu e as devorou» [Ap 20:9].

A situação das igrejas cristãs há-de ser pensada como o inverso da condição do primeiro Adão que foi escravizado por Satanás e submetido à escravidão do pecado. A libertação da mentira e da morte, isto é, da condição de submissão ao dragão, é a condição das igrejas perseguidas que enfrentam, pela vitória, a actual agressão do dragão.

O livro do Apocalipse é, porém, uma reinterpretação da totalidade do Antigo Testamento, uma compreensão dos acontecimentos actuais à luz dos grandes antagonismos passados do Povo de Deus. Depois do antagonismo entre Satanás e os pais da humanidade, verificamos a luta entre o Egipto e Israel. Dessa luta resultou a libertação pelo Êxodo. Ora, nas igrejas cristãs estamos assistindo a um novo Êxodo [2]. Não podemos citar aqui todos os textos do Apocalipse que evocam o Êxodo. Basta-nos lembrar alguns dos mais importantes. Eles mostram-nos a realidade actual da libertação da qual o Êxodo (de Israel) do Egipto foi uma imagem e uma primeira aproximação. «E vi também como que um mar… E os vencedores da fera… conservavam-se de pé sobre o mar com as cítaras de Deus. Cantavam o cântico de Moisés, o servidor de Deus…» [Ap 15:3]. Passaram o Mar Vermelho e Cristo, o novo Moisés, o Cordeiro os leva pelo deserto até à nova Jerusalém: «O Cordeiro será o seu pastor e os levará às fontes das águas de vida» [Ap 7:17]. O Egipto é identificado pelo autor do Apocalipse: as duas testemunhas que encarnam a Igreja de Deus frente ao dragão estão no Egipto. Agora é que estamos no Egipto e estamos vencendo os egípcios, ainda que lhes seja concedido dar a morte às testemunhas da verdade [Ap 11:7-9].

Na história de Israel, o papel do Egipto, opressor, cruel, idólatra, anti-divino foi assumido mais tarde pela Babilónia. Ora, a oposição entre um resto de Israel perseguido mas inabalável e a grande cidade dos ídolos e da blasfémia acha-se renovada e atinge o auge na situação concreta em que vivem as igrejas cristãs no momento em que João recebe a sua revelação e proclama a sua profecia.

Babilónia [3] é, ao mesmo tempo, o grande ídolo, a grande mentira que assume o lugar de Deus e do seu Cristo e a cidade que domina os povos da terra. Ela é dominação para os homens e mentira para Deus. Face a um Deus que dá vida, ela é fonte de morte: «Vem e eu te mostrarei o julgamento da grande prostituta, que se assenta sobre as muitas águas, com a qual se prostituíram os reis da terra» [Ap 17:1-2]. «A mulher estava ébria do sangue das testemunhas de Jesus» [Ap 17:6]. O anjo disse-me: «As águas que viste, sobre as quais a prostituta se assenta, são povos e multidões, nações e línguas» [Ap 17:15].

Os exegetas concordam: Babilónia é Roma, o império romano. Esse império que a Igreja enfrenta é a realização completa daquilo que Babilónia prefigura no Antigo Testamento. Desse modo, a luta de Israel contra o Egipto e contra Babilónia, há-de ser contemplada na situação actual: fornece, à situação actual, as categorias que nos permite compreendê-la.

 A Igreja é Israel frente ao Egipto e à Babilónia. Tanto o Egipto como a Babilónia têm, por carácter típico, a dominação dos povos reduzidos, por si, à escravidão material e cultural: estão submetidos à edificação da máquina de poder e riqueza duma potência mundial que se quer total e absoluta, e estão submetidos à mentira radical e blasfemadora que consiste em apresentar esse poder mundial como o verdadeiro deus e o verdadeiro salvador.

Frente a essa escravidão levantam-se as testemunhas, a igreja dos profetas, denunciando a mentira e rejeitando a submissão: essa é a sua liberdade. Precisamos ver a libertação e a liberdade no quadro do drama total da humanidade colocada na opção radical entre escravidão total e liberdade radical.

Para completar esse quadro, convém assinalar um aspecto que será importante para a interpretação do quarto evangelho e que, sem dúvida alguma, já  é importante para o próprio Apocalipse. S. João considera uma quarta oposição como sendo paralela às três que acabamos de expor. Trata-se da oposição tão viva na tradição da primeira geração cristã entre o grupo dos discípulos de Jesus e o judaísmo simbolizado por Jerusalém [4]: Jesus morreu em Jerusalém. Jerusalém matou-o. A cidade que tinha recebido as promessas messiânicas matou o Messias, Jerusalém transformou-se assim num novo símbolo do poder de Satanás e do seu assalto contra Deus. Jerusalém é mais uma figura do império romano, na medida em que o que está a acontecer presentemente no império romano é a repetição, a renovação daquilo que aconteceu com Jesus em Jerusalém. Jerusalém pôs-se na linha do grande dragão-serpente do Génesis, na linha do Egipto, da Babilónia. Ela representa a oposição à verdade, o poder da mentira e da dominação. Assim se explica porque é que João vê cadáveres das testemunhas mortas por causa do império romano, em Jerusalém: «seus cadáveres jazerão na praça da grande cidade que se chama simbolicamente Sodoma ou  Egipto, onde o seu senhor foi crucificado (isto é, Jerusalém)» [Ap 11:8].

Jerusalém, ou seja, os judeus que crucificaram Jesus, mas também os judeus que participaram na perseguição aos cristãos [Ap 2:9; 3:9], separa-se do verdadeiro Israel e junta-se aos inimigos de sempre do Povo de Deus: Egipto, Sodoma, Babilónia! Frente a eles, o «verdadeiro Israel», que são as comunidades cristãs, permanece fiel à vocação do Israel de sempre.

Tal é a estrutura do mundo revelada pela profecia de S. João. Contudo, o profeta não usa o vocabulário da liberdade para a enunciar. É verdade que as palavras abstractas não intervêm para definir a condição cristã, mas a realidade concreta da liberdade está bem presente.

Eis como o autor do Apocalipse a vê:

1/ Por um lado temos o Dragão, as feras, o Egipto, Babilónia, Jerusalém a traidora que mata o Messias. Ora, essas imagens designam o império romano e todos os seus sucessores. Aquilo que os caracteriza, assim como as suas figuras do Antigo Testamento, são dois atributos: a mentira e a opressão. A mentira consiste em dar o nome de Deus a quem não é Deus: ao poder imperial; o culto ao imperador não é a totalidade da blasfémia, mas o culto imperial representa bem o carácter anti-divino do sistema civilizacional (ou de anti-civilização encarnado no império). Quanto à opressão, ela é total e envolve todas as actividades dos povos submetidos condenados a edificar uma riqueza blasfemadora e atentatória da dignidade de Deus e dos homens.

Já citamos alguns textos que mostram a dominação total sobre os povos escravos. Eis alguns textos mais. «E a todos, pequenos e grandes, ricos e pobres, livres e escravos, marcou-os com um sinal na mão direita ou na fronte. E assim, quem não tivesse o sinal, o nome da Besta ou o número do seu nome não podia comprar nem vender» [Ap 13:16-17]. «Caiu, caiu Babilónia, a grande. Tornou-se antro de demónios, guarida de todos os espíritos imundos, guarida de todas as aves imundas, guarida de todos os animais imundos e repelentes; porque, do vinho da sua luxúria, se embriagaram todas as nações; prostituíram-se com ela os reis da terra e, com o seu luxo despudorado, enriqueceram os comerciantes do mundo.» [Ap 18:2-3]. Não podemos citar aqui todo o capítulo 18 que é uma lamentação de estilo profético, na linha dos profetas do Antigo Testamento, sobre a ruína de Babilónia. «Todas as nações erraram por causa dos seus malefícios» [Ap 18:23].

2/ Diante dessa dominação total, numa mentira e num engano total, está o povo dos profetas. As igrejas cristãs são descritas na categoria dos profetas. O seu papel no mundo, a sua figura ideal é a dos profetas. São os continuadores dos profetas do Antigo Testamento.

3/ Entre o poder de dominação e os profetas, quais são as relações? Quais são os actos que constituem a história do seu enfrentamento? Esses actos são três e aparecem sucessivamente no capítulo 11: a profecia, o martírio e a ressurreição da alma, como prelúdio da futura ressurreição do corpo.

A profecia é uma primeira vitória sobre a mentira e a dominação. A morte dos mártires é uma derrota aparente, que a força da vida de Deus transforma em triunfo: ressurreição. O destino da Igreja na terra está marcado por esses três actos: são as três etapas do seu relacionamento com o mundo.


LIVRES DA DOMINAÇÃO_3

Tudo o que acabamos de lembrar a respeito do contexto geral do livro do Apocalipse permite-nos agora entrever em que consiste a liberdade que resulta da salvação ou libertação realizada em Jesus. Essa liberdade tem dois aspectos fundamentais: em primeiro lugar ela é atitude de afirmação e de desafio diante do poder da mentira e dominação; em segundo lugar, ela consiste num novo relacionamento entre os membros do povo de Deus que nasce da fecundidade do martírio e da profecia entre os homens que se salvarem da dominação e da mentira.

Em primeiro lugar, a liberdade dos homens livres está em não aceitarem o domínio do dragão e das feras, da Babilónia ou do Egipto e não se deixarem seduzir pelo aparelho de intimidação da mentira. Essa é a liberdade que se conquista pelo acto de rejeitar a dominação. E não se trata simplesmente duma rejeição interior, mas do acto público da profecia que é um verdadeiro desafio: eles têm o poder de renovar os sinais (1 Rs 17:1-7: ELIAS, ‘ fechar as águas do céu’; Êxodo 4:9: MOISÉS, ‘mudar as águas em sangue’), que faziam de Moisés e Elias os grandes profetas do passado [Ap 11:3-6;]. Assim, os cristãos de Sardes: «Sei onde habitas: aí se encontra o trono de Satanás. Mas tu te apegas firmemente ao meu nome e não renegaste a minha fé, mesmo naqueles dias em que Antipas, minha fiel testemunha, foi morto entre vós, onde Satanás habita» [Ap 2:13].

Os profetas estão destinados ao martírio: «E, quando terminarem de dar testemunho, a Besta que sobe do Abismo lutará contra eles, vencê-los-á e dar-lhes-á a morte.» [Ap 11:7]. Mas, depois do seu martírio,, «um espírito de vida vindo de Deus entrará neles: eles se porão de pé…» [Ap 11:11]. «Foram resgatados da terra» [Ap 14:4]. Estão a salvo das garras do dragão.

Em segundo lugar, a liberdade das testemunhas procede da confiança total e absoluta em Deus que os leva à vida ainda que pelo caminho do martírio. Confiança absoluta no valor da morte vivida em Jesus Cristo. E confiança absoluta na força da palavra do testemunho. A liberdade é a superação do medo e da segurança individual e colectiva. A liberdade da testemunha é a figura terrestre e a encenação da liberdade da palavra de Deus à qual nada pode opor-se. Essa liberdade paga-se com um preço altíssimo, mas, uma vez pago o preço, essa liberdade logra romper todas as barreiras da dominação, da opressão e da mentira. Ainda que totalmente desarmado no meio do mundo opressor, o profeta é livre porque pode pronunciar o seu testemunho, e esse testemunho fica a agir no mundo, infundindo fé, suscitando o povo de Deus.


O POVO LIVRE_4

Chegamos, assim, ao segundo aspecto da liberdade: a liberdade do povo resgatado pelo testemunho. O testemunho dos profetas gera o novo Israel, que se levanta como povo livre diante do mundo escravizado. O povo livre de Deus procede dessa massa escravizada: são as primícias que foram compradas pelo sangue do Cristo e salvas pelo apelo do testemunho. Sem dúvida o estado final deste novo Israel acha-se somente depois da prova final do martírio: os seus membros definitivos e exemplares são as almas dos mártires que aguardam a hora da ressurreição final: «as almas dos que foram decapitados por causa do testemunho de Jesus e da palavra de Deus e todos aqueles que não tinham adorado a fera ou sua imagem, que não tinham recebido o seu sinal na fronte nem nas mãos» [Ap 20:4]. Deles se fala quando se cantam as aclamações a Cristo: «resgataste para Deus, pelo teu sangue, homens de toda a tribo, língua, povo e nação» [Ap 5:9]. Porém, esse povo de Deus, novo e verdadeiro Israel, já está presente, ainda que permanentemente exposto à perseguição, no meio deste mundo: a sua presença actual responde à fase de profecia dos mártires. A Igreja actual é uma Igreja confessante, uma Igreja-profeta, e, como Igreja-profeta, ela constitui a presença da liberdade entre os homens aqui na terra. A liberdade não qualifica somente a palavra, mas o próprio povo que a recebe e assume a tarefa de proclamá-la.

Se as massas dominadas pelo dragão e as suas encarnações terrestres são escravos que somente o sangue de Cristo pode resgatar, ao invés, o verdadeiro Israel adquire a qualidade de povo livre: «ele fez de nós um povo de reis e sacerdotes» [Ap 1:6]; «fizeste para nosso Deus um povo de reis e sacerdotes, e eles reinarão sobre a terra» [Ap 5:10]. Essa fórmula – povo de reis e sacerdotes – alude à constituição de Israel proclamada por Deus no Sinai. Israel foi constituído povo livre: independente de toda dominação de príncipes ou de sacerdotes. Um povo em processo de afirmação de si mesmo: assim surgiu a noção cristã de povo.

Um povo, no sentido cristão da palavra, quer dizer uma sociedade em que todos participam do poder quanto às relações com Deus e entre si mesmos. Todos são sacerdotes e, portanto, comunicam com Deus sem depender duma classe privilegiada, e todos participam do governo do Estado porque o poder não é reservado a uma classe de salvadores.

A proclamação dum povo em que todos são reis e sacerdotes tem consequências incalculáveis. Todos os sistemas de dominação são virtualmente atingidos e mortalmente feridos. Sem dúvida, uma longa história será necessária para que tal proclamação entre realmente na história e produza consequências visíveis. No princípio, tratava-se apenas duma proclamação feita pelo mártir. Mas, quando o novo Israel começou a crescer, apareceram os primeiros movimentos no sentido de buscar na história uma encarnação dos princípios de liberdade. Apareceram movimentos para encarnar o sacerdócio de todos os membros do povo: sabemos como finalmente o Concílio Vaticano II publicou solenemente o sacerdócio de todos os membros do povo de Deus e a dignidade de povo sacerdotal. Ao mesmo tempo, o Concílio destacou, depois de muitos documentos pontifícios, o direito de participação de todos os cidadãos no governo da cidade: no povo de Deus todos são reis e ninguém pode ser tratado como escravo, como elemento sem direito e sem participação. Essa participação é entendida como um movimento indefinido visando mais igualdade efectiva no governo e nas responsabilidades da vida colectiva.

Assim vemos que, quando o conceito cristão da liberdade entra em contacto com a totalidade social daquele tempo, provoca a abertura completa da revelação. A liberdade não é somente a libertação da Lei judaica, a libertação dos sistemas de dominação dentro do povo judaico, como se o facto de se afastar do antigo povo de Israel fosse suficiente para esgotar todas as virtualidades da mensagem de libertação.

Muito pelo contrário: a emancipação da dominação dos fariseus e sacerdotes do templo de Jerusalém era apenas uma figura do grande movimento de libertação que começa no momento em que o evangelho de Jesus é anunciado no meio das nações e dos impérios.

O livro do Apocalipse esclarece o que estava ainda um pouco implícito nos livros anteriores. No fim do primeiro século, o evangelho de Jesus Cristo atinge a plenitude das suas implicações. O próprio Jesus não tinha explicitado tudo dado o facto de que Ele estava reservado para as tribos do Israel antigo. Mas os apóstolos foram encarregados de pôr o fermento da sua palavra no meio do mundo. O Apocalipse de S. João é justamente esse acto de colocar o fermento da liberdade no meio da escravidão e da opressão. Aí começa a história nova e definitiva do povo de Israel novo livre, livre pela palavra profética, livre e chamado a pagar, como Jesus, o preço da sua liberdade, mas livre definitivamente pela força de Deus.

José Comblin [1977]

Anselmo Borges, in 'Diário de Notícias' 31:III:2012, sobre o Apocalipse e o Fim do Mundo:


7 de março de 2012

O CONCEITO CRISTÃO DA LIBERDADE_2


II - SEREIS REALMENTE LIVRES


Perseguição aos primeiros cristãos

O TESTEMUNHO DA VERDADE_1

No quarto evangelho, a liberdade é explicitamente o objecto do evangelho. O evangelho de Jesus, chamado testemunho’ por S. João, tem por objecto o anúncio de alguns atributos essenciais: a vida, a luz, a liberdade. Aqui, o conceito de liberdade está presente explicitamente. Ele designa aquilo que Jesus nos traz da parte de Deus, paralelamente à luz e à vida. Por outro lado, a liberdade está em conexão íntima com a vida e como a luz ou a verdade. A vida é liberdade e a vida, tal como a liberdade, procede da luz e da verdade.

S. João não explica os conceitos que usa. O seu significado torna-se claro pelo contexto e, quando o contexto do próprio evangelho não é suficientemente claro, podemos e devemos considerar o Apocalipse como parte integrante do contexto. O quarto evangelho não dá nenhuma definição do seu conceito de liberdade. Mas devemos iluminar-lhe o contexto pelo que acabamos de ver sobre o Apocalipse na meditação anterior.

Para o quarto evangelho está subjacente a ideia do povo de Deus, verdadeiro Israel. Os discursos de Jesus não são dirigidos às almas individuais, mas ao verdadeiro Israel. Jesus é o novo Moisés, o anunciador e o autor do novo Israel, o verdadeiro Moisés, chefe do verdadeiro Israel. Essa situação está sempre na base de todos os conceitos. A liberdade que Jesus anuncia não é a liberdade do filósofo ou do místico isolado do mundo; é a liberdade do verdadeiro Israel, oposto à falsa liberdade, que é realmente escravidão, do falso Israel.

Jesus vem revelar a Israel a sua vocação verdadeira: ele foi o revelador de Israel. De acordo com o Jesus do quarto evangelho, Israel tinha uma mensagem para o mundo – a mensagem do Povo de Deus, fiel à Palavra recebida e vivendo a mensagem recebida no amor, na caridade. Mas o Israel histórico foi infiel à sua vocação. Não foi o verdadeiro Israel, e perdeu a mensagem de liberdade.  Tinha uma mensagem para o mundo e não deu a sua mensagem. Refugiou-se na sua Lei, nos seus princípios. Os judeus ficaram fechados em si próprios. Não quiserem abrir-se para o mundo e assumir a sua tarefa dentro do mundo. Pior ainda: entregaram-se ao mundo, tornaram-se colaboradores do mundo pecador, ao entregarem Jesus ao mundo. O Israel histórico, tal como no Apocalipse, foi infiel à sua essência e tornou-se semelhante aos adversários de Israel: tornou-se instrumento do dragão, de Satanás. Os judeus históricos tornaram-se filhos de Satanás, eles que, por vocação, eram os filhos de Deus. Filhos de Deus são, agora, os membros do novo e verdadeiro Israel.

E qual é o acontecimento central que permite ter acesso à liberdade ou fecha as portas dessa mesma liberdade? Qual é o acto, a circunstância, que provoca essa divisão simultânea, ou seja, a rejeição do Israel antigo e a eleição dum Israel novo, a escravidão ou a liberdade? Resposta: o testemunho! A vocação de Israel é dar testemunho ao mundo e, para poder dar esse testemunho, tem de recebê-lo de Jesus, em primeiro lugar.

O testemunho é a palavra de Jesus, em nome de Deus, oposta ao mundo! Entre a luz e as trevas, entre a luz e a escuridão, há um abismo e uma luta incessante desde as origens do mundo. O desafio salvador de Deus produz-se na forma de palavra. Deus pronuncia a sua palavra. E essa palavra é chamada a despertar os homens para a luz e a vida. Essa palavra é criadora de liberdade: a resposta que desperta é justamente a liberdade. Essa palavra tinha sido pronunciada em parte em Israel e os filhos de Israel eram chamados a recebê-la para a anunciar ao mundo inteiro. Mas eles próprios não a receberam e preferiram as trevas à luz. «Veio até os seus e os seus não O receberam» [Jo 1:11].

A palavra de Deus encarnada em Jesus e comunicada aos discípulos para a anunciar destina-se a ser pronunciada frente ao mundo, publicamente. É uma palavra que é luta, apelo à libertação e se bate contra a escravidão. Chama-se testemunho porque é realmente um testemunho dado diante do tribunal do mundo, como defesa contra o mundo acusador, contra a acusação mentirosa do Maligno, do Grande mentiroso que envolveu o mundo inteiro e fez dele o instrumento da mentira. Quem recebe o testemunho, o guarda e o pronuncia diante do mundo, este escapa da escravidão da mentira e do demónio – torna-se membro livre do verdadeiro Israel. A separação entre verdadeiro e falso Israel, que é a mesma entre luz e trevas, entre Deus e Satanás, é feita pelo testemunho. Não basta recebê-lo: recebê-lo activamente é assumir o papel de profeta, ser testemunha do testemunho, a ponto de enfrentar a morte. Quem corre o risco dessa morte, recebe a vida.

Esta introdução era necessária para compreendermos a perspectiva do capítulo 8 que é em parte dedicado ao tema da liberdade.

O capítulo 8 do quarto evangelho é o discurso de Jesus dirigido aos judeus explicitamente, isto é, o discurso que apresenta o testemunho em contraposição aos judeus. Todos os discursos de Jesus são o seu testemunho, o anúncio da vida e o apelo à aceitação do testemunho que leva à vida. Jesus usa diversos temas para enunciar o seu testemunho. Aqui usa o tema do judaísmo: tem assim a oportunidade de opor o verdadeiro Israel ao falso. Para Jesus, os judeus que não aceitam a sua palavra são iguais ao mundo, são expressão do mundo, perderam o seu atributo de povo de Israel para passarem a ser instrumento ao serviço da serpente de Génesis 2-3: são filhos de Satanás; como o seu pai, querem a mentira, a morte e a escravidão.

Os judeus protestam: «Somos posteridade de Abraão e jamais fomos escravos de ninguém. Como é que dizes que seremos livres?» [Jo 8:33]. Com efeito, o povo de Deus é um povo livre. Eles, porém, perderam essa qualidade ao rejeitarem o testemunho: preferiram o pecado.

O pecado é sempre igual: como no Génesis 3, o pecado consiste em buscar a salvação pelo caminho da segurança pessoal, pela confiança em si próprio em vez de aceitar o caminho do risco baseado na palavra de Deus – é isso que é sugerido a Jesus pela serpente no deserto. Esse é o pecado dos judeus que não querem arriscar a sua vida através do testemunho em Jesus e preferem a segurança da sua Lei, do seu sistema.

Respondeu-lhes Jesus: «Em verdade, em verdade vos digo: todo aquele que comete o pecado é escravo do pecado… Bem sei que sois descendência de Abraão, no entanto, quereis matar-me, porque minha palavra não penetra em vós» [Jo 8:34-38]. Perderam a liberdade do povo de Deus. A vontade de defender a sua segurança leva-os à rejeição da verdade, preferindo a mentira; leva-os ao homicídio; preferem matar Jesus em vez de o aceitar para se tornarem livres da ameaça à segurança que o seu convite constitui. Em nome da sua segurança estão dispostos a matar em vez de aceitar, como Jesus, o risco de morrer pelo testemunho. É onde chega a sua escravidão sob o pecado: estão dispostos a querer a morte se esta lhes dá a segurança. Matam para viver pensando que desse jeito vão poder viver: «Eu falo do que vi junto do Pai, e vós fazeis o que ouvistes de vosso pai» (isto é, o homicídio, pois o pai deles é o autor da morte) [Jo 8:38].

Retorquiram-lhe: «Nosso pai é Abraão». Contrapôs-lhes Jesus: «Se sois filhos de Abraão, praticai as obras de Abraão. No entanto,  agora mesmo procurais matar-me a mim que vos disse a verdade que ouvi do próprio Deus. Isto Abraão não o fez. Vós fazeis as obras do vosso pai».

Disseram-lhe: «Nós não somos bastardos. Temos um só Pai, que é Deus». Disse-lhes Jesus: «Se Deus fosse vosso Pai, vós me amaríeis, porque eu saí de Deus e dele venho; eu não vim porque quis: foi Ele quem me enviou. Qual é a razão pela qual não compreendeis a minha linguagem? É porque não sois capazes de escutar a minha palavra. Vós tendes o diabo por pai e quereis cumprir os desejos de vosso pai. Ele foi homicida desde o princípio e não permaneceu na verdade, porque não há nele verdade; quando ele mente faz o que lhe é próprio: ele é mentiroso e pai da mentira. Pelo contrário, a mim, que digo a verdade, não me dais crédito. Quem de vós me pode acusar de pecado? Portanto, se vos digo  a verdade, porque é que não acreditais em mim? Aquele que é de Deus ouve as palavras de Deus; se não me ouvis é porque não sois de Deus» [Jo 8:39-47]


A VERDADE LIBERTA_2

As categorias são as do Apocalipse. Por um lado, temos a morte que entrou pelo diabo na humanidade, a morte activa, a morte de quem mata; o diabo quis a morte e iniciou a cadeia dos homicídios; querer a morte está no fundo de todo o pecado. Ao lado da morte está  a mentira, porque o diabo apresentou o que era caminho de morte como caminho de vida: mentiu para matar. Ao lado da mentira está a escravidão, porque a vontade de salvar a vida por si mesmo cria uma necessidade permanente: para assegurar a sua vida, o homem vai de mentira em mentira, de homicídio em homicídio. Entra na escravidão do pecado: um pecado leva ao pecado seguinte numa espiral de necessidade implacável. Forma-se uma cadeia que é uma verdadeira escravidão. Quem busca a sua segurança torna-se escravo dessa segurança. Ao invés, quem arrisca a sua vida e aceita o martírio está livre. A liberdade é o prémio do risco dos profetas. Quem não assume essa missão profética torna-se escravo: não deixa de precisar de evitar novos perigos.

A liberdade define-se por oposição a essa escravidão. A liberdade é a condição do homem que aceita a tarefa de profeta, que aceita o desafio e o risco, pois a palavra de Deus enunciada por Jesus é uma palavra que há-de ser proclamada perante o mundo. Quem recebe essa palavra recebe-a para a pronunciar ao mundo que a ela se opõe. Não se trata de receber a palavra para a colocar numa biblioteca. Ela é uma palavra que se move, caminha e vai a diante. Quem conhece realmente a palavra de Jesus, o testemunho de Jesus, é quem o propõe ao mundo, quem o proclama na praça pública. Quem aceita essa palavra com todo o seu dinamismo, toda a sua missão, esse é realmente livre; esse realiza o acto realmente livre neste mundo e entra num povo livre, o povo dos livres profetas de Deus. Desse modo é que a palavra de Jesus torna o homem livre.

«Se permaneceis na minha palavra, sois verdadeiramente meus discípulos, conhecereis a verdade e a verdade vos libertará» [Jo 8:32]. «Se o Filho vos liberta, sereis realmente livres» [Jo 8:36].

A verdade que liberta é aquela verdade plenamente assumida numa missão profética. O testemunho liberta quem o pronuncia; a verdade liberta quem a proclama ao mundo.

À primeira vista, alguns leitores poderão pensar que o conteúdo dessa liberdade está pouco determinado, pouco claro. Do mesmo modo, as categorias de ‘mundo’, ‘mentira’, ‘escravidão’, ‘morte’ parecem vagas e bastractas. Precisamos, porém, de situar o quarto evangelho no pano de fundo do Apocalipse e recebê-lo no seu contexto histórico. O mundo não é vago: é o mundo pagão do império romano e todos os seus sucessores; a mentira, a escravidão e o homicídio não são categorias abstractas, mas factos quotidianos no sistema romano. Portanto, o testemunho que enfrenta o mundo não é uma palavra vaga, mas uma palavra que se dirige a uma realidade histórica bem concreta.

O império romano e a sua civilização desapareceram, mas o pecado que S. João nele denunciava não desapareceu com ele. Renasceu e renasce constantemente na história, de tal modo que a verdade de Jesus sempre é uma verdade dinâmica, um desafio feito a um mundo antagonista, um risco, e, finalmente, um martírio. E a liberdade é uma superação desse mundo através do acto profético do testemunho sempre renovado e aplicado a novas realidades históricas. Somente a liberdade dos profetas gera o verdadeiro povo de Deus, o verdadeiro Israel livre, o Israel dos reis e dos sacerdotes, livre de qualquer dominação política ou ideológica.

Os profetas falam do futuro último e do presente à luz desse último futuro. Não conhecem as etapas intermediárias, nem podem anunciá-las. Assim, S. João mostra a comunidade profética proclamando o seu testemunho frente ao sistema romano e formando o núcleo do povo de Deus nesse acto de testemunhar, no martírio e na união com os mártires que, invisivelmente presentes, aguardam com eles a ressurreição final. João anuncia também essa consumação final depois do testemunho presente, mas não pode prever as etapas intermediárias. Da profecia podemos, porém, concluir que as etapas intermediárias serão determinadas pelas categorias que aparecem no momento presente. O que o profeta afirma é que os conceitos que permitem compreender o presente à luz do fim e o fim à luz do presente servem também para compreender as etapas intermediárias. Estas constituem, por um lado, como que uma transição entre o puro testemunho e o puro martírio, e, por outro, o advento completo do povo de Deus na nova Jerusalém. Entre os dois pólos, teremos situações intermediárias: ainda não a consumação do povo de Deus, mas certas realizações históricas, certas formas de cristandade em que se procuram certas aproximações da liberdade, certas instituições de liberdade. Não se trata mais do puro martírio vivido através dum testemunho a-histórico, mas (apesar de todas as conquistas do espírito) da necessidade de enfrentar o mundo, de pronunciar a profecia e de aceitar a perspectiva do martírio. Cada etapa histórica situa-se entre esses dois pólos. Ambos mostram os limites entre os quais somos chamados a desenvolver a nossa acção.

A cada momento, a liberdade cristã estará situada entre esses dois pólos que a delimitam. Por um lado, já existem certas aproximações do povo de Deus, graças a certas instituições que defendem o povo de Deus contra a dominação política e ideológica, contra «os reis e os sacerdotes», transformando-o realmente através da sua participação num «povo de reis e de sacerdotes». Por outro lado, na medida em que o mundo ainda resiste e se opõe a essa transformação e insiste em manter a dominação política e ideológica,  a liberdade ainda consiste em afirmar o testemunho da verdade diante da mentira, o testemunho da vida diante da morte, e o risco do martírio diante da prioridade da segurança. A liberdade encontra-se nessas duas expressões e no meio delas. A dosagem entre ambas está submetida às circunstâncias imprevisíveis da história e precisa de um discernimento permanente. O que S. João nos revela é o quadro em que se coloca o problema da liberdade e os indispensáveis elementos que compõem a solução de Deus.

José Comblin [1977]



6 de março de 2012

PEDRO, PESCADOR OU CHEFE DE ESTADO?



Pedro, o pescador, ia à pesca de tiara



«Diz-se que, pelos lados do Vaticano, o gosto pela ostentação, pelos mantos, peles, rendas e luvas, pela pose e ritualismos ocos está a crescer a ritmos estonteantes com reflexos naturais em toda o orbe católico. Ou então cresce no orbe católico e concentra-se no Vaticano. Qualquer dos sentidos é um mau sinal. A recente celebração dos cardeais esteve cheia disso. Os títulos, eminências, reverências, dons, monsenhores, príncipes..., prestam-se a mostrar o que a igreja tem de pior: o desejo de poder, a distância da realidade mais comum. E as vestes, os barretes...


 

Se tivessem noção do ridículo, abandonavam-nos num instante. Mas em Roma, a monumentalidade da cidade e a diversidade da fauna eclesiástica atenuam a percepção do ridículo.



 
O que mais me impressionou, porém, foi terem vestido a estátua de S. Pedro (aquela que tem os pés gastos pelas mãos dos peregrinos e visitantes da basílica), com vestes de imperador (é preciso não esquecer que boa parte das vestes eclesiásticas é uma imitação do poder romano), anel e tiara. Provavelmente, a paramentação da estátua de Pedro é algo habitual nestas celebrações. E é mais difícil acabar com uma tradição do que resolver o défice português.

A tiara tem três faixas, por causa dos três poderes papais (ordem, jurisdição e magistério), mas é preciso notar que, historicamente, as faixas foram aparecendo com o desejo de poder dos papas medievais.

 Quando Paulo VI se desfez de uma das tiaras, quis dizer que o poder da Igreja é o serviço à humanidade. Não precisa de símbolos ambíguos.

Li num livro de Bento XVI (quis agora mesmo encontrar a citação, mas não dei com ela) que um dos teólogos medievais (Bernardo de Claraval?) escreveu uma carta a um pontífice que ainda agora os Papas lêem. Nela, pede-se ao Papa que se lembre que é sucessor de Pedro, um pescador, e não de Constantino, um imperador. A lição deveria ser aprendida por todos.»

Comunidade Cristã da Serra do Pilar
04:III:2012




Bernardo de Claraval

 
«Ontem falávamos de que tipo de bispos gostaríamos de ter para nos guiar ao longo do nosso caminho: não dos que temos na realidade. A nossa experiência está a léguas do que dizíamos, já que os que nos rodeiam hoje e adestram a Esposa [de Cristo] nem todos são amigos do Esposo. São muito escassos os que não buscam seus próprios interesses. Adoram prendas e não conseguem amar a Cristo, pois têm as mãos atadas pelo dinheiro. Reparem como se passeiam elegantes, esplendorosos, envoltos em tecidos como esposa que sai de seu tálamo… E donde julgas que lhes vem tal exuberância de coisas, tal resplendor de vestidos, o luxo de suas mesas, sua colecção de objectos de ouro e prata? É claro que procede dos bens da Esposa [A Igreja], a qual, por via disso, se vê desfigurada, em desalinho, pálida, insípida e com aspecto lamentável. Aquilo que eles fazem não é desposá-la, mas despojá-la. Não é conservá-la, mas deitá-la a perder. Não a compõem: a expõem! Não a constituem: a prostituem! Não apascentam o rebanho: sacrificam-no e comem-no…

O Profeta diz: ‘comerão os pecados do meu povo’, o que quer dizer: exigem dinheiro (pelas penitência) pelos pecados, sem sequer se preocuparem em emendar os pecadores. Aponta-me um bispo que não ande mais preocupado em esvaziar as bolsas que em despejar os pecados do povo.»

S. Bernardo de Claraval, “Sermão 77 sobre o Cântico dos Cânticos”; PL 183, 1155-56. [citado por J. I. G. Faus, ‘La libertad de la Palabra en la Iglesia y en la Teología’]


«Aquele em cuja cadeira estás é S. Pedro, de quem não há notícia de que jamais saísse vestido de sedas ou adornado de pedras ou coberto de ouro, nem em cavalo branco, nem rodeado de soldados, nem com um séquito de seguidores vociferantes. Já estás a ver: sem nada disto, Pedro pensou que seria capaz de cumprir bastante bem o mandamento do Senhor: ‘Se me amas, apascenta as minhas ovelhas’. Em tudo o que fica dito, tu não sucedeste a Pedro, mas a Constantino.

«Que sejas pastor de povos, mestre de analfabetos, os olhos dos cegos, voz dos sem-voz, báculo dos anciãos…, martelo dos tiranos…, sal da terra, luz do mundo, ungido do Senhor e até ‘Deus’ para os faraós…».

[ibidem, PL 182, 771-778; citado por J. I. G. Faus, ‘La libertad de la Palabra en la Iglesia y en la Teología’]

Cluny



Bernardo de Claraval

 
«Nascido numa grande família nobre da Borgonha, no castelo de Fontaine-lès-Dijon, Bernardo [1090-1153] foi o terceiro de sete filhos de Tescelin o Vermelho (Tescelin Sorrel) e de Aleth de Montbard. Com a idade de nove anos, é enviado para a Escola Canônica de Châtillon-sur-Seine, onde mostra um gosto particular pela literatura. Em 1112, (com 22 anos) decide entrar na Abadia de Cister, fundada em 1098 por São Roberto de Molesme, [cf. o romance ‘O NOME DA ROSA’, de Umberto Eco] e na qual Santo Estevão Harding havia acabado de ser eleito Abade. Convence vários amigos, irmãos e parentes a ingressarem com ele na vida monástica e chega assim com outros 30 candidatos para entrar na Abadia.

«Em 1115, Estevão Harding envia-o jovem à frente de um grupo de monges para fundar uma nova casa cisterciense no vale de Langres, em Ville-sous-la-Ferté. A fundação é chamada "Vale Claro", ou Clairvaux – Claraval. Bernardo é nomeado Abade desta nova Abadia, e confirmado por Guilherme de Champeux, bispo de Châlons e célebre teólogo.

«Os primórdios de Claraval são difíceis: a disciplina imposta por São Bernardo é bastante severa. Bernardo busca formação nas ‘Sagradas Escrituras’ e nos ‘Padres da Igreja’. Ele tem uma predileção quase exclusiva pelo Cântico dos Cânticos e por Santo Agostinho. O livro e o autor correspondem às tendências da época.




 
«Em 1119, Bernardo faz parte do Capítulo Geral dos Cistercienses convocado por Estevão Harding, que dá sua forma definitiva à Ordem. A Carta da Caridade, que é então redigida, é confirmada pouco depois pelo papa Calisto II. É nesta época que Bernardo escreve suas primeiras obras, tratados e homilias e, sobretudo, uma Apologia, escrita a pedido de Guilherme de Saint-Thierry, que defende os beneditinos brancos (os cistercienses segundo a cor de seu hábito) contra os beneditinos negros (clunisienses). Pedro, o Venerável, abade de Cluny, responde-lhe amigavelmente, e apesar de suas diferenças ideológicas, os dois homens tornam-se amigos. Ele envia igualmente numerosas cartas para incentivar à reforma o resto do clero, em particular os bispos. Sua carta ao arcebispo de Sens, Henrique de Boisrogues chamada mais tarde de De Officiis Episcoporum (Da conduta dos Bispos) é reveladora do importante papel dos monges no XII século, e das tensões entre o clero regular e secular.»