teologia para leigos

6 de março de 2012

PEDRO, PESCADOR OU CHEFE DE ESTADO?



Pedro, o pescador, ia à pesca de tiara



«Diz-se que, pelos lados do Vaticano, o gosto pela ostentação, pelos mantos, peles, rendas e luvas, pela pose e ritualismos ocos está a crescer a ritmos estonteantes com reflexos naturais em toda o orbe católico. Ou então cresce no orbe católico e concentra-se no Vaticano. Qualquer dos sentidos é um mau sinal. A recente celebração dos cardeais esteve cheia disso. Os títulos, eminências, reverências, dons, monsenhores, príncipes..., prestam-se a mostrar o que a igreja tem de pior: o desejo de poder, a distância da realidade mais comum. E as vestes, os barretes...


 

Se tivessem noção do ridículo, abandonavam-nos num instante. Mas em Roma, a monumentalidade da cidade e a diversidade da fauna eclesiástica atenuam a percepção do ridículo.



 
O que mais me impressionou, porém, foi terem vestido a estátua de S. Pedro (aquela que tem os pés gastos pelas mãos dos peregrinos e visitantes da basílica), com vestes de imperador (é preciso não esquecer que boa parte das vestes eclesiásticas é uma imitação do poder romano), anel e tiara. Provavelmente, a paramentação da estátua de Pedro é algo habitual nestas celebrações. E é mais difícil acabar com uma tradição do que resolver o défice português.

A tiara tem três faixas, por causa dos três poderes papais (ordem, jurisdição e magistério), mas é preciso notar que, historicamente, as faixas foram aparecendo com o desejo de poder dos papas medievais.

 Quando Paulo VI se desfez de uma das tiaras, quis dizer que o poder da Igreja é o serviço à humanidade. Não precisa de símbolos ambíguos.

Li num livro de Bento XVI (quis agora mesmo encontrar a citação, mas não dei com ela) que um dos teólogos medievais (Bernardo de Claraval?) escreveu uma carta a um pontífice que ainda agora os Papas lêem. Nela, pede-se ao Papa que se lembre que é sucessor de Pedro, um pescador, e não de Constantino, um imperador. A lição deveria ser aprendida por todos.»

Comunidade Cristã da Serra do Pilar
04:III:2012




Bernardo de Claraval

 
«Ontem falávamos de que tipo de bispos gostaríamos de ter para nos guiar ao longo do nosso caminho: não dos que temos na realidade. A nossa experiência está a léguas do que dizíamos, já que os que nos rodeiam hoje e adestram a Esposa [de Cristo] nem todos são amigos do Esposo. São muito escassos os que não buscam seus próprios interesses. Adoram prendas e não conseguem amar a Cristo, pois têm as mãos atadas pelo dinheiro. Reparem como se passeiam elegantes, esplendorosos, envoltos em tecidos como esposa que sai de seu tálamo… E donde julgas que lhes vem tal exuberância de coisas, tal resplendor de vestidos, o luxo de suas mesas, sua colecção de objectos de ouro e prata? É claro que procede dos bens da Esposa [A Igreja], a qual, por via disso, se vê desfigurada, em desalinho, pálida, insípida e com aspecto lamentável. Aquilo que eles fazem não é desposá-la, mas despojá-la. Não é conservá-la, mas deitá-la a perder. Não a compõem: a expõem! Não a constituem: a prostituem! Não apascentam o rebanho: sacrificam-no e comem-no…

O Profeta diz: ‘comerão os pecados do meu povo’, o que quer dizer: exigem dinheiro (pelas penitência) pelos pecados, sem sequer se preocuparem em emendar os pecadores. Aponta-me um bispo que não ande mais preocupado em esvaziar as bolsas que em despejar os pecados do povo.»

S. Bernardo de Claraval, “Sermão 77 sobre o Cântico dos Cânticos”; PL 183, 1155-56. [citado por J. I. G. Faus, ‘La libertad de la Palabra en la Iglesia y en la Teología’]


«Aquele em cuja cadeira estás é S. Pedro, de quem não há notícia de que jamais saísse vestido de sedas ou adornado de pedras ou coberto de ouro, nem em cavalo branco, nem rodeado de soldados, nem com um séquito de seguidores vociferantes. Já estás a ver: sem nada disto, Pedro pensou que seria capaz de cumprir bastante bem o mandamento do Senhor: ‘Se me amas, apascenta as minhas ovelhas’. Em tudo o que fica dito, tu não sucedeste a Pedro, mas a Constantino.

«Que sejas pastor de povos, mestre de analfabetos, os olhos dos cegos, voz dos sem-voz, báculo dos anciãos…, martelo dos tiranos…, sal da terra, luz do mundo, ungido do Senhor e até ‘Deus’ para os faraós…».

[ibidem, PL 182, 771-778; citado por J. I. G. Faus, ‘La libertad de la Palabra en la Iglesia y en la Teología’]

Cluny



Bernardo de Claraval

 
«Nascido numa grande família nobre da Borgonha, no castelo de Fontaine-lès-Dijon, Bernardo [1090-1153] foi o terceiro de sete filhos de Tescelin o Vermelho (Tescelin Sorrel) e de Aleth de Montbard. Com a idade de nove anos, é enviado para a Escola Canônica de Châtillon-sur-Seine, onde mostra um gosto particular pela literatura. Em 1112, (com 22 anos) decide entrar na Abadia de Cister, fundada em 1098 por São Roberto de Molesme, [cf. o romance ‘O NOME DA ROSA’, de Umberto Eco] e na qual Santo Estevão Harding havia acabado de ser eleito Abade. Convence vários amigos, irmãos e parentes a ingressarem com ele na vida monástica e chega assim com outros 30 candidatos para entrar na Abadia.

«Em 1115, Estevão Harding envia-o jovem à frente de um grupo de monges para fundar uma nova casa cisterciense no vale de Langres, em Ville-sous-la-Ferté. A fundação é chamada "Vale Claro", ou Clairvaux – Claraval. Bernardo é nomeado Abade desta nova Abadia, e confirmado por Guilherme de Champeux, bispo de Châlons e célebre teólogo.

«Os primórdios de Claraval são difíceis: a disciplina imposta por São Bernardo é bastante severa. Bernardo busca formação nas ‘Sagradas Escrituras’ e nos ‘Padres da Igreja’. Ele tem uma predileção quase exclusiva pelo Cântico dos Cânticos e por Santo Agostinho. O livro e o autor correspondem às tendências da época.




 
«Em 1119, Bernardo faz parte do Capítulo Geral dos Cistercienses convocado por Estevão Harding, que dá sua forma definitiva à Ordem. A Carta da Caridade, que é então redigida, é confirmada pouco depois pelo papa Calisto II. É nesta época que Bernardo escreve suas primeiras obras, tratados e homilias e, sobretudo, uma Apologia, escrita a pedido de Guilherme de Saint-Thierry, que defende os beneditinos brancos (os cistercienses segundo a cor de seu hábito) contra os beneditinos negros (clunisienses). Pedro, o Venerável, abade de Cluny, responde-lhe amigavelmente, e apesar de suas diferenças ideológicas, os dois homens tornam-se amigos. Ele envia igualmente numerosas cartas para incentivar à reforma o resto do clero, em particular os bispos. Sua carta ao arcebispo de Sens, Henrique de Boisrogues chamada mais tarde de De Officiis Episcoporum (Da conduta dos Bispos) é reveladora do importante papel dos monges no XII século, e das tensões entre o clero regular e secular.»




4 de março de 2012

APPLE E A IMORALIDADE LABORAL




Devemos boicotar a Apple?




 
Foi uma semana alucinante para os accionistas da Apple!
O preço das acções da empresa atingiu valores máximos, impulsionado pelo anúncio de lucros no valor recorde de 13,06 mil milhões de dólares [9,95 mil milhões de euros] só no primeiro trimestre. A empresa vendeu 37 milhões de iPhones e 15,4 milhões de iPads no período das festas de fim-de-ano, ou seja, duas vezes mais do que no ano passado.

Mas, na mesma altura, notícias comprometedoras ensombraram esta fantástica feira de gadgets revolucionários da Apple. Num artigo pormenorizado, The New York Times voltou à questão dos custos humanos da produção de todos esses iPhones e iPads não nos Estados Unidos, mas na China. Estes custos, suportados pelos operários em cidades industriais como Chengdu [na província de Sichuan], não aparecem nos registos, uma vez que as fábricas onde estes trabalham não pertencem à Apple, mas aos seus subcontratados a imensa cadeia de fabrico e de acabamento de todos os seus produtos.


APPLE_PRODUCT - 'Our Guarantee'


Segundo o inquérito, estas fábricas foram palco de explosões e de mortes. Um número elevado dos assalariados seria vítima de um ambiente profissional tão perigoso quanto brutal, que desrespeita as mais elementares condições de segurança. [cf. ‘um sistema monstruoso’ na fábrica de Foxconn, a principal subcontratada da Apple, na cidade de Chengdu]

Apenas alguns meses depois da morte de Steve Jobs [em Outubro de 2011], a empresa que este fundou jamais parecera tão poderosa. Continua a ser o filho querido da era digital: as suas inovações suscitam inveja e os seus resultados financeiros ciúme. Mas, aparentemente, os mágicos de Cupertino [sede da empresa na Califórnia] têm alguns esqueletos escondidos nos seus armários chineses. É aí que se manifesta o lado obscuro de todas estas belas invenções a maior parte dos grandes nomes das tecnologias de ponta são, evidentemente, confrontados com o mesmo desafio ético, uma vez que todos fabricam os seus produtos na China.


Um biscoito e uma chávena de chá

Estas informações são perturbadoras, mas não deviam surpreender-nos. O fabuloso sucesso da Apple não se explica apenas pela inovação e pelo design: tem também algo de implacável. A capacidade da Apple para se impor no mercado e comercializar os gadgets mais deslumbrantes que o mundo alguma vez viu é igualmente o triunfo de um sistema de produção.

É ainda outro artigo em The New York Times, a descrever o desaparecimento dos empregos da classe média [nos Estados Unidos], que foram exportados para a China, um país conhecido pelas suas façanhas industriais. Segundo parece, na China, é possível arrancar oito mil operários dos seus dormitórios, em meia hora, e mandá-los montar ecrãs de vidro nos iPhones durante 12 horas seguidas, a troco de um biscoito e de uma chávena de chá.

Thomas Friedman [cronista em The New York Times] conta esta mesma história num editorial, vendo nela um exemplo da fraqueza da América. Que conclusões devemos tirar? Imitar a China ou ter pena dos trabalhadores chineses?

"Mais funcionalidades! Mais aplicações! Mais aplicações..."
'Ouve', diz o gorila, 'se não gostas do trabalho...'


 
Uma questão de ética e de lei

Os accionistas e os aficionados da Apple vêem-se assim confrontados com um dilema moral: será que podem regozijar-se com a explosão das acções da Apple e murmurar palavras doces a Siri, a assistente pessoal virtual do iPhone 4S, e, ao mesmo tempo, manter o silêncio sobre as terríveis condições de trabalho que vigoram entre os fornecedores da Apple? No entanto, a empresa não cometeu nenhum delito. Do ponto de vista legal, não é responsável pelo que se passa nas fábricas chinesas.

Por outro lado, no mundo empresarial, raramente hesitamos quando se trata de desrespeitar os princípios morais. Nunca confundimos os resultados financeiros com as nossas pretensões de sermos os campeões da moral, dos comportamentos éticos, das boas práticas e da decência. A fronteira entre aquilo que é correcto, do ponto de vista legal, e aquilo que é justo, do ponto de vista moral, é bem clara. E essa fronteira separa igualmente o lado privado e moral da nossa vida do nosso lado profissional e público.

No mundo do trabalho, considera-se que todos os abusos são permitidos. E entre as 9 e as 17 horas os nossos actos nunca estão dependentes de critérios morais. É apenas na esfera da sua vida privada que homens e mulheres estão sujeitos a julgamento moral. No mundo do trabalho, a moral não tem lugar, porque o sucesso profissional se transformou em regra de ouro.





Podemos atirar pedras à Apple. Talvez os iPhones tenham alguns telhados de vidro. Talvez a empresa faça tudo quanto está ao seu alcance para conseguir conciliar dois imperativos, o moral e o financeiro: responder às exigências dos consumidores e dos accionistas e respeitar o exigente legado do seu fundador, preocupando-se em simultâneo com as condições de vida daqueles cujo trabalho consiste em montar as jóias da modernidade. Mas o problema é bastante mais vasto: reside na nossa recusa em aplicar os nossos princípios morais a tudo aquilo que fazemos, e não apenas à Apple.

Thane Rosenbaum
site, Thedailybeast.com (27:01:201)
Nova Iorque

In Courrier International, edç. portuguesa, Março 2012, pp. 70-71 [trad. Isabel Fernandes]

ARQUIVO:

“Apple – os grandes princípios e a triste realidade das fábricas”. Baseado num inquérito realizado por três ONG’s chinesas, este artigo do NANFANG ZHUMO, publicado em 10 Fevereiro de 2011 no Courrier International nº 1058, já denunciava as violações das normas que a Apple impôs aos trabalhadores. O mesmo cenário foi descrito, na edição portuguesa, no Artigo “A dança das empresas planetárias”, publicado em Abril.


STEVE JOBS - RECEITA PARA SE COZINHAR UM DEUS...



Génio, em quê de original?
- receita para se cozinhar um deus…

 
Nascimento

«Steven Paul Jobs (Steve Jobs) nasceu em San Francisco, filho de Joanne Simpson e de Abdulfattah John Jandali, membro de uma proeminente família síria proprietária de poços de petróleo, empresas e propriedades agrícolas. O casal se conheceu em meados dos anos 50 na Universidade de Wisconsin. Os pais de Joanne, alemães católicos, eram contra o relacionamento. Com a descoberta da gravidez em 1954, após uma viagem do casal à Síria, Joanne e Jandali decidiram não se casar e ceder o bebê para adoção. Joanne viajou para São Francisco onde ficou sob proteção de um médico que cuidava de mães solteiras, fazia partos e cuidava de adoções sigilosas. Joanne exigiu que seu filho fosse adotado por um casal com pós-graduação universitária. Inicialmente, o bebê seria adotado por um advogado e sua esposa que acabaram declinado após o parto, pois queriam uma menina. Após a recusa do primeiro casal, o bebê foi deixado sob guarda de Paul Reinhold Jobs, mecânico e ex-membro da guarda costeira e Clara Hagopian Jobs, filha de imigrantes armênios. Inicialmente Joanne recusou-se a assinar os papéis da adoção pois o casal não tinha completado o segundo grau. O impasse só terminou após Paul assinar um compromisso de criar um fundo para enviar o menino à faculdade.






 

Juventude

Em 1958, o casal Jobs adota uma menina chamada Patty e se muda para a casa número 286 da rua Diablo, em um loteamento em Mountain View ao sul de Palo Alto.»(…)


«Steven Paul Jobs (São Francisco, Califórnia, 24 de fevereiro de 1955 — Palo Alto, Califórnia, 5 de outubro de 2011) foi um inventor, empresário e magnata americano no setor da informática. Notabilizou-se como cofundador, presidente e diretor executivo da Apple Inc. e por revolucionar seis indústrias: computadores pessoais, filmes de animação, música, telefones, tablets e publicação digital... Além de sua ligação com a Apple, foi diretor executivo da empresa de animação por computação gráfica Pixar e acionista individual máximo da The Walt Disney Company.

«No final da década de 1970, Jobs, em conjunto com Steve Wozniak e Mike Markkula, entre outros, desenvolveu e comercializou uma das primeiras linhas de computadores pessoais de sucesso, a série Apple II. No começo da década de 1980, ele estava entre os primeiros a perceber o potencial comercial da interface gráfica do usuário guiada pelo mouse, o que levou à criação do Macintosh.

«Após perder uma disputa de poder com a mesa diretora em 1985, Jobs demitiu-se da Apple e fundou a NeXT, uma companhia de desenvolvimento de plataformas direcionadas aos mercados de educação superior e administração. A compra da NeXT pela Apple em 1996 levou Jobs de volta à companhia que ele ajudara a fundar, e ele serviu como seu CEO de 1997 a 2011, ano em que anunciou sua renúncia ao cargo, recomendando Tim Cook como sucessor.»






O Regresso à Apple

«Numa ensolarada manhã de julho de 1997, Steve Jobs voltou à empresa que havia co-fundado vinte anos antes em seu próprio quarto. A Apple estava em uma espiral mortífera. A companhia estava a seis meses da falência. Em poucos anos, a Apple havia deixado de ser uma das maiores empresas de computadores do mundo para se tornar um fracasso. Estava perdendo dinheiro e também sua participação no mercado. Ninguém comprava seus computadores, as ações haviam perdido quase todo o seu valor e a imprensa prenunciava sua morte iminente. Os executivos de primeiro escalão foram convocados para uma reunião de manhã cedo na sede da empresa. O então CEO, Gilbert Amelio, que estava no comando havia um ano e meio, entrou abatido na sala. Havia conseguido equilibrar a companhia, mas não conseguira trazer de volta sua alma criativa. "Está na hora de ir embora", disse, e retirou-se em silêncio.

Antes que alguém esboçasse qualquer reação, Steve Jobs entrou na sala, parecendo um mendigo. Estava de bermuda e tênis e não fazia a barba há dias. Jogou-se em uma cadeira e começou a girar lentamente. "Me digam o que há de errado neste lugar", disse ele. Antes que qualquer um pudesse responder, explodiu: "São os produtos. Os produtos são uma BOSTA! Já não tem mais sexo neles."»

«O levantamento de Jobs levou várias semanas. Foi calmo e metódico. Não houve nenhuma das infames explosões características de Jobs. "Steve disse que a companhia tem que ter um foco e que cada grupo, individualmente, tem que fazer o mesmo", disse Oliver. "Foi uma coisa bastante formal. Muito calma. Ele dizia: 'A Apple está numa grave situação financeira e não temos meios para fazer nada extra.' Foi gentil, porém firme." Jobs não fez os cortes de cima para baixo. Chamou cada grupo de produto para que decidissem o que seria cortado e o que seria mantido. Se o grupo quisesse manter vivo um projeto, teria que vender a idéia a Jobs, e isso não era nada fácil. Compreensivelmente, algumas das equipes argumentaram a favor de manter projetos que eram secundários, mas que talvez fossem estratégicos ou tivessem a melhor tecnologia no mercado. Mas Jobs freqüentemente respondia que, se não estivesse dando lucro, teria que ser cortado. Oliver se lembra que a maioria das equipas se dispunha a sacrificar um bode expiatório e Jobs respondia: "Não é o bastante." «Oliver se lembra de ouvir Jobs dizer: "Se a Apple quiser sobreviver, temos que cortar mais."

"Várias vezes Oliver viu Jobs desenhar em um quadro branco um mapa simplificado das receitas anuais da Apple. O mapa mostrava o declínio abrupto, de 12 bilhões de dólares por ano a 10 bilhões, e depois a 7 bilhões.





Os fornecedores.

Jobs também negociou novos contratos com os fornecedores da Apple. Naquela época, tanto a IBM quanto a Motorola vinham fornecendo chips para a Apple. Jobs decidiu colocá-las uma contra a outra. Disse-lhes que a Apple só iria continuar com uma delas e que esperava concessões importantes daquela que ele escolhesse. Não deixou de lado nenhum dos dois fornecedores, mas, como a Apple era o único grande comprador de chips PowerPC das duas empresas, ele obteve as concessões que queria e - o mais importante - garantias da continuidade do desenvolvimento dos chips.

Ser "stevado"

«Embora não haja relatos publicados de demissões em massa envolvendo milhares de funcionários depois que Jobs assumiu o leme, na prática houve demissões em massa. A maior parte, se não todas, foi levada a cabo pelos gerentes de produto, que demitiam funcionários depois que os projetos eram cancelados. Mas o fato foi muito discretamente mantido fora dos jornais. Existem histórias - provavelmente falsas - de Jobs encurralando desventurados funcionários nos elevadores e sabatinando-os sobre o papel que desempenhavam na empresa. Caso as respostas não fossem satisfatórias, eram demitidos no ato. A prática ficou conhecida como ser "stevado". O termo é hoje parte do jargão técnico de qualquer projecto que é cancelado sem cerimônias: "Meu gerador de pontos de tricô on-line foi stevado."



[outra opinião sobre o percurso deste mito denominado Steve Jobs...]


Saída da Apple

«O sucesso inicial das vendas do Macintosh reafirmaram a personalidade difícil e as excentricidades de Jobs. Inicialmente John Sculley, presidente da Apple, o apoiou entregando-lhe as unidades unificados do Mac e do Lisa. As exigências extravagantes quanto a design e estética, vinganças cruéis contra funcionários e parceiros acabaram desgastando sua imagem no conselho da Apple. As quedas nas vendas do Mac a partir do segundo semestre de 1984 e vendas nulas do Lisa acabaram levando Jobs e Scully a desentendimentos gerenciais. No dia 24 de maio de 1985, uma reunião entre Jobs, Scully e o corpo executivo da Apple apoiou firmemente Scully. Com a restruturação planejada por Scully, Jobs não ficaria com o controle de nenhuma divisão e nenhum encargo operacional, mas poderia ficar na empresa com o título de presidente do conselho e no papel de visionário dos produtos. Jobs não aceitou. Ele agora estava fora da Apple.


NeXT

«Após sua saída da Apple, Jobs vasculhou no mercado educacional e criou a NeXT. Parte da equipe da nova empresa foi recrutada nas fileiras de engenheiros da Apple, o que gerou revolta em parte da diretoria da empresa. O embrolho seria resolvido com um acordo extra-judicial no final de 1986. Na NeXT Jobs teve oportunidade de se entregar a seus melhores e piores instintos na área de gerenciamento, design e trabalho coletivo.


Rivalidades

«A rivalidade de Steve Jobs com Bill Gates, ex-presidente e principal acionista da Microsoft, já é elemento cultural do setor. Essa disputa pode ser verificada no filme produzido pelo canal de TV a cabo TNT, "Pirates of Silicon Valley" (Piratas do Vale do Silício, na versão em português), que aborda a biografia deles e das suas empresas, algumas vezes de forma exagerada. Podemos ver a disputa que existia entre eles e suas respectivas empresas muito antes de serem os ícones e "ídolos" que são hoje.




Morte

«Steve Jobs morreu no dia 5 de outubro de 2011 na sequência de um câncer pancreático, contra o qual lutava desde 2004. O anúncio foi dado pela família dele, que disse: "morreu em paz hoje". «No mesmo dia, o site corporativo da Apple recebia os visitantes com uma página simples mostrando o nome de Steve Jobs, o seu ano de nascimento e morte e um dos seus retratos mais famosos. Ao ser clicada, a imagem conduzia a uma página com um obituário que dizia:

«A Apple perdeu um visionário e gênio criativo, e o mundo perdeu um ser humano incrível. Aqueles de nós que tiveram sorte o bastante para conhecer e trabalhar com Steve perderam um amigo querido e um mentor inspirador. Steve deixa para trás uma empresa que só ele poderia ter construído e seu espírito sempre será a base da Apple.»

Às portas da morte admitiu, numa entrevista, que Deus possa existir… «É provável que exista», disse.



1 de março de 2012

O CONCEITO CRISTÃO DA LIBERDADE_3

Da Libertação à Liberdade
«Se o Filho vos liberta, sereis realmente livres» [João 8:36]


MOISÉS_Miguel Ângelo
 
O centro da consciência do Israel antigo era a lembrança do Êxodo.

Uma das mais antigas declarações de Fé dizia: «Meu pai era um arameu errante: desceu ao Egipto com um pequeno número e ali viveu como estrangeiro, mas depois tornou-se um povo forte e numeroso. Então os egípcios maltrataram-nos, oprimindo-nos e impondo-nos dura escravidão. Clamámos ao Senhor, Deus de nossos pais, e o Senhor ouviu o nosso clamor, viu a nossa humilhação, os nossos trabalhos e a nossa angústia, e tirou-nos do Egipto, com sua mão forte e seu braço estendido, com grandes milagres, sinais e prodígios.» [Dt 26:5-8]

Essa lembrança nunca esteve ausente da consciência do israelita. Ela é a tela de fundo de toda a sua representação de Deus, do mundo e de si próprio. A totalidade da sua existência individual e social refere-se à original origem da libertação. Através dos séculos esse facto inicial nunca deixou de ser fecundo e de gerar novos efeitos, já que o acto inicial de libertação prolongou-se por numerosos novos actos salvadores no decorrer dos séculos. O mesmo constitui a base das esperanças para o futuro.

Dada essa consciência, não é de estranhar que a figura de Moisés – o profeta que presidiu em nome de Yahvé à libertação do Povo – tenha ocupado um lugar tão destacado na memória desse Povo. Todas as ambições do povo para o futuro concentram-se ao redor da figura dum novo Moisés. Que venha um novo Moisés – impossível imaginar melhor! De certo modo, todos os profetas prolongam a acção de Moisés realizada no passado: todos culminam no novo Moisés do futuro. Da mesma maneira, os acontecimentos que marcaram a libertação do Egipto – os sinais e prodígios do Mar Vermelho e do deserto, a revelação de Deus, os actos fundadores da Aliança e do Povo – forneceram uma referência permanente para que o povo de Israel pudesse compreender, julgar e orientar todos os acontecimentos da sua história. O Êxodo era a norma, o modelo,  a imagem ideal.

Ora, os evangelhos mostram-nos o advento desse novo Moisés, desse novo libertador do seu povo na pessoa de Jesus. Para os discípulos, sem dúvida, Jesus é superior a Moisés. [Mt 19:7-9; Jesus atreve-se a pôr em questão a prescrição de Moisés e a propor um critério NOVO, mais exigente] Os próprios judeus da mais estrita observância esperavam um Messias que transcendesse o Moisés antigo. Contudo, por ser superior a Moisés, Jesus há-de ser compreendido a partir da figura do profeta antigo que para Jesus foi uma imagem e uma preparação. Jesus vem completar e acabar a antiga libertação do Egipto, levando-a ao seu termo. De nenhuma maneira a sua obra poderia ser entendida sem essa referência fundamental.

Por isso, o evangelista mais sintético, aquele que pretendeu elaborar uma certa sistematização da revelação de Jesus, S. Lucas, redigiu o cântico de Zacarias, que é como que uma síntese da missão do Salvador. Nesse cântico, Jesus aparece como o novo Moisés libertador do seu povo: «Bendito seja o Senhor, Deus de Israel, porque visitou e libertou o seu Povo e suscitou-nos um salvador poderoso (…) para nos salvar dos nossos inimigos e da mão de quantos nos odeiam (…)» [Lucas 1:68-71].

De facto, os discípulos entenderam assim essa missão. Depois da morte de Jesus, os discípulos recapitulam a mensagem que tinham recebido e aceite: «Nós esperávamos que fosse ele o que haveria de libertar Israel» [Lc 24:21]. Na realidade eles tinham razão ao expectar ansiosamente assim, mas deixaram de ter razão ao duvidarem por causa da crucifixão.

Se Jesus é um novo Moisés libertador, a sua obra é a restauração daquele povo de Israel que Paulo designa com a expressão bíblica tradicional «a igreja de Deus». «Igreja» no sentido original da palavra que significa «assembleia de Deus» (expressão assumida por certos grupos evangélicos contemporâneos no Brasil e em outras regiões do mundo). Inclusivamente, a palavra «assembleia» não exprime todo o conteúdo bíblico. Uma igreja é um povo reunido em acto público para decidir e assumir o seu destino diante de Deus. A libertação do cativeiro do Egipto fora essa reunião pública de um povo livre para decidir o seu destino. Da mesma maneira, a libertação de Jesus desembocou numa reunião de um povo reunido para assumir o seu destino de povo.

Contudo, há diferenças notáveis entre o acto de libertação presidido por Moisés e a libertação de Jesus, assim como há grandes diferenças entre as doze tribos de Israel reunidas em torno de Moisés no deserto do Sinai e o povo de Deus que se torna o corpo de Jesus Cristo.

A primeira diferença é óbvia: Moisés foi o libertador dum povo particular, o Povo de Israel constituído pelas doze tribos. Jesus é o libertador dum povo universal tirado de todos os povos da terra, de tal modo que a antiga separação entre ‘povo de Deus’ e povos da terra, Israel e gentios, está condenada a desaparecer. A libertação de Jesus não se destina unicamente ao antigo povo de Israel, entendido como determinado conjunto de famílias biológicas. Jesus não foi um precursor do sionismo. Por isso não podia compreender a sua missão dentro dos limites da compreensão dos zelotas. Estes queriam a libertação de Israel da dominação romana, visando o restabelecimento de um Estado israelita análogo ao Estado de David. Jesus, porém, age em função da vocação de todas as nações a participarem do Povo de Deus: assim o entendeu claramente a totalidade dos seus discípulos e não podemos imaginar que se tenham enganado num ponto tão central da missão do seu Mestre.

Mas, então, poderíamos perguntar-nos qual o sentido da referência a Moisés e ao Povo do Deserto? Que têm a ver Moisés, o Sinai, as tribos de Israel, o deserto e os acontecimentos que afectaram essas tribos há mais de três mil anos com os outros povos, por exemplo, com o povo português? Contudo, o autor do evangelho escrito justamente para os não-judeus é o que mais insiste na relação de Jesus à figura de Moisés e na libertação do povo de Israel a fim de apresentar a mensagem e a acção de Jesus. Essa história do passado tem peso e a sua memória é imprescindível para todos os povos chamados a constituírem o Povo Universal. Pois, como dizia Santo Ireneu num texto muito famoso: «a saída do povo do Egipto pela força de Deus foi a imagem perfeita e o tipo ideal de saída da Igreja que devia sair das nações» [Ad. Haer., IV, 47]. Portanto, todos os povos que entram no Povo de Deus passam por um processo semelhante ao do Povo de Israel ao sair do Egipto, de tal modo que o tema do Êxodo permite-nos entender correctamente em que consiste essa «conversão» dos povos a Jesus Cristo e ao seu corpo. Todos passam por um processo de «libertação».


Qual é o conteúdo dessa libertação? Livre de quê? Livre em quê?

Esse assunto está a ser muito discutido nos últimos anos dentro da Igreja católica. Muitos tendem a dar a sua resposta a priori na base do palpite ou de suas preferências pessoais. Projectam nas palavras bíblicas o sentido que corresponde às suas preocupações. Daí tantas controvérsias apaixonadas, e sem solução, justamente porque apaixonadas e julgadas a priori.

Contudo, o Novo Testamento contém a resposta a essas perguntas. A resposta é a doutrina do Novo Testamento sobre a liberdade cristã. O Antigo Testamento não tinha doutrina explícita da liberdade: tal silêncio explica-se na medida em que a tendência profunda do Antigo Testamento era a espera do futuroa libertação era um futuro sempre futuro, cujo conteúdo não se manifestava nunca. Porém, no Novo Testamento, o futuro torna-se, de certa maneira, presente: Paulo criou a linguagem da liberdade e realizou a passagem do conceito de libertação ao conceito de liberdade. Por certo, Paulo usou certos elementos prévios para criar a sua linguagem de liberdade: a democracia grega, forneceu-lhe uma base providencial e, de certo modo, podemos dizer que a democracia grega foi uma preparação providencial no sentido de preparar a realidade e a linguagem do povo cristão.

No Novo Testamento, o novo Êxodo desemboca na liberdade cristã. A libertação do Êxodo é passível de caracterização. Essa caracterização fornecerá o objecto destas meditações. Em que consiste a libertação cristã anunciada pelo Novo Testamento? Em que é que ela prolonga e aprofunda a libertação do Êxodo de Israel a partir do Egipto? Em que sentido foi transformada a experiência do passado e renovada, de modo diferente, na experiência de todos os povos chamados a formar parte do povo de Deus? É o que queremos contemplar nestas modestas páginas.

A doutrina paulina da liberdade não surgiu de repente a partir do Êxodo do Antigo Testamento. A passagem seria violenta demais. Entre o Êxodo do Egipto e a mensagem paulina da liberdade houve muitas fases e o povo de Israel conheceu muitas experiências que foram percorrendo pouco a pouco com vistas à nova compreensão da libertação de Deus.

O êxodo do Egipto era apenas o começo duma longa história. A libertação das tribos de Israel não podia ser a etapa final do processo total da libertação. As diversas etapas históricas do povo de Israel iam manifestar as dimensões do problema.

O próprio povo de Israel tornou-se opressor e dominador para com as tribos que viviam na terra da Palestina. Os israelitas mataram e exterminaram os habitantes do país em nome de Deus, dum Deus da guerra e do genocídio [Josué 10:30.35;11:11;19:47; etc.]. Depois disso, quiseram entrar no jogo da dominação política ao rivalizarem com os povos vizinhos. Quiseram reis para dirigir de modo permanente os seus exércitos e nem deram valor às advertências de Samuel que lhes mostrou que o poder político dominador e imperial se paga com o preço da servidão e da exploração dentro do próprio povo [1 Samuel 12]. Depois de séculos de lutas e combates, o povo de Israel foi vítima do jogo das rivalidades políticas, caindo nas mãos dos impérios que dominaram o Médio Oriente: Babilónia, Pérsia, Alexandre Magno e os seus sucessores gregos, finalmente o império Romano. Contudo, o império persa permitiu o restabelecimento de Israel na forma de comunidade religiosa sob a hegemonia do império. Salvo alguns períodos difíceis, os impérios grego e romano permitiram a mesma semi-independência. Tudo isso, porém, servia para mostrar a complexidade do processo histórico de formação de um povo livre, verdadeiro povo de Deus livre.

A continuidade com a história do Antigo Testamento tem uma finalidade pedagógica: o de mostrar que o povo de Deus é um povo real e histórico, um povo que se desenvolve nesta terra, ainda que num processo original e diferente do processo que seguiam as tribos, as monarquias, os impérios, e naturalmente as nações modernas.

Se a mensagem do Novo Testamento estivesse separada do Antigo e da história do povo de Deus, ela seria facilmente vítima do processo de metaforização característico da cultura helenística contemporânea dos primeiros tempos da Igreja.

Naquele tempo, os gregos letrados dedicavam-se a um processo de racionalização das suas religiões tradicionais. As religiões tradicionais referiam muitas histórias de deuses e outros seres super-humanos, histórias inclusivamente, em muitos casos, pouco edificantes. Os letrados queriam dar melhor aspecto às suas religiões e interpretavam essas histórias num sentido alegórico. As histórias dos deuses transformavam-se em alegorias ou figuras de realidades morais, dramas da psicologia humana, realidades do mundo interior. Da mesma maneira, podia surgir a tentação de aplicar o mesmo processo às realidades cristãs, transformando toda a história do povo de Deus numa alegoria das aventuras psicológicas da alma religiosa. Nesse caso, o Povo de Deus seria puramente o lugar em que as almas religiosas cultivam as suas experiências do Deus cristão. Vários autores gregos, em parte, caíram nessa tentação. Eles conheciam muito bem os processos de interpretação que se aplicavam, nas escolas pagãs, às histórias dos deuses. A facilidade consistia em usar os mesmos métodos em relação ao Deus cristão.

Nesse caso, o leitor da Bíblia estaria inclinado a ver na história da libertação do povo de Deus uma mera expressão literária, uma alegoria dum acontecimento puramente interior: alegoria do sentimento de libertação interior que lhe daria a adesão pessoal à mensagem religiosa de Jesus.

Do mesmo modo, os filósofos e os sábios da Antiguidade romana, durante os tempos do império, não esperavam nenhuma forma de libertação exterior. Para eles, a libertação consistia em manter um sentimento de autonomia interior ao aceitarem as necessidades tanto da natureza como do império. Para a filosofia contemporânea das origens do cristianismo, a única liberdade era a liberdade interior da pessoa que aceita voluntariamente todas as dependências exteriores inevitáveis, a ordem social e a ordem física, mas conserva inviolável o sentimento dos seu «eu». Para esses filósofos, o cristianismo podia ser útil ao dar motivações superiores para aceitar a ordem estabelecida e manter a riqueza do seu «eu» interior inviolável. Nesse «eu» estritamente individual eles teriam depositado o tesouro do seu Deus. Apesar de todas as necessidades e dependências, teriam a liberdade de viver uma vida de amor com o seu Deus pessoal, último reduto da personalidade e reserva riquíssima do indivíduo humano.

Com certeza, há no cristianismo elementos que permitem desenvolver e valorizar ao máximo essa reserva de individualidade, esse segredo da vida interior do eu: os cristãos que viveram nos campos de concentração, tão numerosos neste século XX que, de certo modo, se pode dizer que são uma das imagens históricas que o nosso século deixará para as gerações futuras, esses cristãos puderam experimentar a força que dá a fé cristã numa situação de total despojamento e na mais alta forma de alienação inventada pelo génio técnico da humanidade. Porém, o cristianismo não foi feito para ser vivido unicamente nos campos de concentração, como se este fosse o único provir possível para a humanidade.

Em todo o caso, não podemos aplicar ao conceito bíblico de libertação os métodos de alegorização que a tornam uma mera imagem dum fenómeno interior. A Bíblia fala do destino de povos concretos e a sua libertação refere-se a povos concretos, e o povo de Deus tem um destino histórico concreto, material, bem visível e socialmente vivido por pessoas inteiras e não somente por puras almas.

Por conseguinte, não podemos evitar o encontro da mensagem de libertação bíblica com os diversos movimentos de libertação da nossa época. Não podemos fugir do problema dizendo que a libertação bíblica se refere somente às almas. Na realidade, ela encarna-se em condições concretas e encontra-se com os problemas da libertação racial, libertação da mulher, libertação das nações oprimidas pelos impérios ou libertação dos trabalhadores oprimidos pelos detentores do capital.

Qual é a relação exacta entre a mensagem do Novo Testamento e tais movimentos? Uma resposta adequada a semelhante pergunta não cabe dentro dos limites destas meditações bíblicas. Podemos aqui, porém, considerar o ponto de partida de todas as respostas autênticas a tal pergunta:

1.   Que diz o Novo Testamento?
2.   Quais são os conceitos pelos quais o Novo Testamento orienta a leitura do processo de libertação cristã?

Ora, tal como já dissemos, o Novo Testamento orienta a nossa leitura: a libertação do Povo de Deus desemboca numa situação descrita pelo vocabulário paulino da libertação. «Fomos chamados à liberdade», diz o Apóstolo Paulo, e essa liberdade há-de ser vivida de alguma maneira na actualidade histórica.

Que significa essa mensagem?

O autor da doutrina da liberdade foi S. Paulo. Confrontado com o sistema judaico que ele próprio conhecia muito bem, e conhecedor dos recursos que a civilização grega lhe podia oferecer para enunciar a novidade do cristianismo para o judaísmo, S. Paulo definiu as bases do povo cristão. Partindo dessa base, a teologia de S. João pôde estendê-la à situação concreta do cristianismo no império romano. E, finalmente, graças à explicação feita pelas primeiras gerações cristãs, podemos entender melhor o significado da prática histórica de Jesus, isto é, o alcance histórico das suas obras e palavras.

Jesus não fez a doutrina da sua acção: agiu sem dizer o que é que estava a realizar deixando que as obras falassem por si próprias, tal como ele próprio o disse. Por isso, devemos ler os Evangelhos em último lugar, mas apoiados na interpretação que os apóstolos iluminados pelo Espírito lhe deram: tal foi o princípio sempre seguido pela Igreja.


José Comblin [1977]


«Uma alegoria (do grego αλλος, allos, "outro", e αγορευειν, agoreuein, "falar em público") é uma figura de linguagem, mais especificamente de uso retórico, que produz a virtualização do significado, ou seja, sua expressão transmite um ou mais sentidos que o da simples compreensão ao literal. Diz b para significar a. Uma alegoria não precisa ser expressa no texto escrito: pode dirigir-se aos olhos e, com freqüência, encontra-se na pintura, escultura ou noutras formas de linguagem. Embora opere de maneira semelhante a outras figuras retóricas, a alegoria vai além da simples comparação da metáfora. A fábula e a parábola são exemplos genéricos (isto é, de gêneros textuais) de aplicação da alegoria, às vezes acompanhados de uma moral que deixa claro a relação entre o sentido literal e o sentido figurado.»