teologia para leigos

27 de fevereiro de 2012

O DEUS DE JESUS DE NAZARÉ

antigo 'Mercado do Anjo'_Porto
Em que Deus acreditava Jesus?


 
Introdução

«Antes de começar a narrar a actividade profética de Jesus, Marcos escreve estes breves versículos: "O Espírito levou Jesus para o deserto. Ficou no deserto quarenta dias deixando-se tentar por Satanás; vivia entre as feras, e os anjos serviam-no". [Marcos 1:12-13] Essas breves linhas são um resumo das experiências básicas vividas por Jesus até a sua execução na cruz.» [J.A. Pagola]

Primeira questão: que «espírito» é esse? Hoje, século XXI, pensamos imediatamente em «espíritos», em magia, em forças imateriais obscuras que podem condicionar a vontade dum ser humano e sujeitá-la a inevitabilidades.

Mas Jesus é um judeu nascido no caldo cultural (político, económico e religioso) que o Antigo Testamento nos revela. Jesus foi educado e sensibilizado para a história do seu povo. Nela, Deus ocupa um espaço único. Mas que Deus é esse? Provavelmente, a mãe de Jesus lho ensinou: um Deus terno, materno!, mas não ingénuo… Os tempos não eram fáceis e a mãe de Jesus, aliás, como todas as mães, colocou-o de sobreaviso: ‘Cuidado com Herodes, com o império romano e os revoltosos: chacinam-se uns aos outros, meu filho! Cuidado com os padres e os bispos! Cuidado com os ricos e os religiosos fanáticos! Vê lá o queres da tua vida!’ Jesus amadureceu observando meticulosamente a realidade à sua volta, comparando as alternativas ao que via, ouvindo os velhos sábios, escapando-se para fora do seu pequeno mundo rural, por exemplo, visitando um afamado profeta do deserto, de nome João, que apelava a uma «mudança radical de vida» - João Baptista. Foi assim – de modo multifactorial! − que Jesus configurou o seu «espírito», o seu «projecto de vida». ‘Retomar o anúncio dos Profetas de Israel!’, provavelmente terá sido o impulso íntimo de Jesus, opção tomada alagado em suores frios. Jesus deixou-se tomar pela profecia a partir das entranhas.

Mas o que é que estava por trás de tal decisão? Com base em quê se terá começado a desenvolver tal convicção em Jesus? Que pressupostos o antecedera? Ou será que Jesus foi um fenómeno sui generis?


A denúncia dos «profetas»

Quando, em Israel, a realeza se corrompeu e a injustiça se tornou insuportável, entraram em cena os profetas, que levantaram a voz contra a acumulação de capital em poucas mãos, contra a ostentação insultuosa do poder instalado:

«Ai de vós os que juntais casas e mais casas, e que acrescentais campos e mais campos, até que não haja mais terreno, e até que fiqueis os únicos proprietários em todo o país! Aos meus ouvidos chegou este juramento do Senhor do universo: «As suas muitas casas  serão arrasadas, os seus palácios magníficos ficarão desabitados» [Isaías 5:8-9]

Os profetas gritavam contra a redução do povo à miséria na sequência do enriquecimento das classes poderosas:

«Ouvi isto, vós que esmagais o pobre e fazeis perecer os desvalidos da terra,  dizendo: «Quando passará a Lua-Nova, para vendermos o nosso trigo, e o sábado, para abrirmos os nossos celeiros, diminuindo o efá, aumentando o siclo e falseando a balança para defraudar? Compraremos os necessitados por dinheiro e o pobre por um par de sandálias, e venderemos até as alimpas do nosso trigo.» O Senhor jurou contra a soberba de Jacob: «Não esquecerei jamais nenhuma das suas obras.» [Amós 8:4-7]

Especialmente dura é a profecia de Amós contra as senhoras aristocráticas que viviam rodeadas de riqueza e luxo:

«Ouvi esta palavra, vacas de Basan, que viveis na montanha da Samaria, vós, que oprimis os fracos e maltratais os pobres, vós, que dizeis a vossos maridos: «Traz e bebamos!» O Senhor Deus jurou pela sua santidade: «Eis que virão dias, para vós, em que vos arrastarão com ganchos, e à vossa posteridade, com arpões.» [Amós 4:1-2] (‘Basan’, fértil planalto na região oriental do Jordão de pastos famosos – cf. Miqueias 7:14; Jeremias 50:19; Naum 1:4 – onde pastava gado bem cevado – cf. Ezequiel 39:18)

Os profetas não poupavam em críticas os próprios juízes corruptos que se deixavam subornar pelos culpados, condenando os inocentes:

«Por isso, tornam-se ricos e poderosos; apresentam-se nédios e bem nutridos. Ultrapassam mesmo os limites do mal. Não procedem de acordo com o direito, não defendem a causa do órfão e não fazem justiça em favor dos pobres! Como não hei-de punir tais crimes e não me hei-de vingar de um povo como este? - oráculo do Senhor.» [Jeremias 5:28-29]

Os profetas denunciavam quando se anulavam as velhas leis feitas para proteger os pobres e se editavam novas leis para beneficiar os poderosos:

«Ai dos que decretam leis injustas, e dos que redigem prescrições opressoras, dos que afastam os pobres do tribunal, e zombam dos direitos dos fracos do meu povo, fazendo das viúvas a sua presa e roubando os bens dos órfãos! Que fareis vós no dia do ajuste de contas, quando o furacão vier de longe? A quem acudireis em busca de auxílio, e onde escondereis as vossas riquezas?» [Isaías 10:1-3]

Os profetas afirmavam que se perverteu a finalidade da justiça que passou a estar ao serviço da injustiça:

«Porventura correm os cavalos por entre os rochedos? Ou pode lavrar-se o mar com bois? Entretanto, converteis o direito em veneno, e o fruto da justiça em absinto (=’amargura’).» [Amós 6:12]

Os profetas chegaram ao extremo de dizer que Deus prefere a mispãtjustiça LAICA, inter-humanos – ao culto!

«De que me serve a mim a multidão das vossas vítimas?- diz o Senhor. Estou farto de holocaustos de carneiros, de gordura de bezerros. Não me agrada o sangue de vitelos, de cordeiros nem de bodes. Quando me viestes prestar culto, quem reclamou de vós semelhantes dons, ao pisardes o meu santuário? Não me ofereçais mais dons inúteis: o incenso é-me abominável; as celebrações lunares, os sábados, as reuniões de culto, as festas e as solenidades são-me insuportáveis. Abomino as vossas celebrações lunares, e as vossas festas; estou cansado delas, não as suporto mais. Quando levantais as vossas mãos, afasto de vós os meus olhos; podeis multiplicar as vossas preces, que Eu não as atendo. É que as vossas mãos estão cheias de sangue. Lavai-vos, purificai-vos, tirai da frente dos meus olhos a malícia das vossas acções. Cessai de fazer o mal, aprendei a fazer o bem; procurai o que é justo, socorrei os oprimidos, fazei justiça aos órfãos, defendei as viúvas.» [Isaías 1:11-17]

O profeta Amós clamava no mesmo sentido:

«Eu detesto e rejeito as vossas festas;e não sinto nenhum gosto nas vossas assembleias (‘religiosas’). Se me ofereceis holocaustos e oblações (‘oferendas religiosas’), não as aceito, nem ponho os meus olhos nos sacrifícios das vossas vítimas gordas. Afastai de mim o vozear dos vossos cânticos, não quero ouvir mais a música das vossas harpas. Antes, jorre a equidade como uma fonte, e a justiça como torrente que não seca.» [Amós 5:21-24; cf. Miq 6:6-8; Os 6:6]

Por fim, no célebre «Sermão do Templo», o profeta Jeremias apostrofava nestes termos aqueles que entravam no templo do Senhor:

«Coloca-te à porta do templo do Senhor e proclama aí este discurso: «Escutai a palavra do Senhor, habitantes de Judá, que entrais por estas portas para adorar o Senhor. Assim fala o Senhor do universo, o Deus de Israel: ‘Endireitai os vossos caminhos e emendai as vossas obras e Eu habitarei convosco neste lugar. Não vos fieis em palavras de mentira, dizendo: 'Templo do Senhor, templo do Senhor! Este é o templo do Senhor'. Mas, se endireitardes os vossos caminhos e emendardes as vossas obras, se verdadeiramente praticardes a justiça uns com os outros, se não oprimirdes o estrangeiro, o órfão e a viúva, nem derramardes neste lugar o sangue inocente, se não seguirdes, para vossa desgraça, deuses estrangeiros, então, Eu permanecerei convosco neste lugar, nesta terra que dei desde sempre e para sempre a vossos pais. Contudo, eis que vos enganais a vós mesmos, confiando em palavras vãs (‘orações’), que de nada vos servirão. Roubais, matais, cometeis adultérios, jurais falso, ofereceis incenso a Baal e procurais deuses que vos são desconhecidos;  e depois, vindes apresentar-vos diante de mim, neste templo, onde o meu nome é invocado, e exclamais: 'Estamos salvos!' Mas seguidamente voltais a cometer todas essas abominações. Porventura, este templo, onde o meu nome é invocado, é a vossos olhos, um covil de ladrões? Ficai sabendo que Eu vi todas estas coisas - oráculo do Senhor.» [Jeremias 7:2-11]

É curioso verificar que em nenhum destes textos existe qualquer “predicção do futuro”. Porém, para o comum dos mortais, ‘profeta’ é alguém que é capaz de prever o futuro, alguém que adivinha o porvir. Profeta é uma palavra que advém de ‘phemi’, ‘dizer’. Mas, o advérbio ‘pró’ que o precede não significa ‘antes’ (no sentido temporal; ‘antes que ocorra’), mas no sentido de ‘em vez de’ (‘na vez de outro’). É um ‘pró’ substitutivo, como acontece em pronome, procurador, proconsul, etc. Portanto profeta é «alquele que fala em vez doutro», neste caso, «fala na vez de Deus», «fala por Deus», é Deus que fala na fala humana!

Isto é determinante!
A relevância teológica dos profetas de Israel não está no conteúdo das suas denúncias, mas pelo facto de serem feitas em nome de Deus! Recordemos os famosos estribilhos: «palavra de Deus», «oráculo do Senhor», «assim disse o Senhor», etc. (das 230 vezes que estes estribilhos aparecem na Bíblia, em 221 vezes surgem nos livros proféticos)

«Existem reivindicações sociais fora do âmbito da Bíblia. O que nelas impressiona é que não se tratam propriamente de profetismo. Nem no autor egípcio das «Lamentações do camponês», nem em Hesíodo tal se atribui a inspiração profética. Essas lamentações e essas críticas emanam de reflexões e de experiências puramente humanas. Nelas, os deuses são invocados unicamente a título de testemunhas ou de árbitros. Não são os deuses os inspiradores da indignação e da rebeldia que, dentro das suas almas, os escritores e os poetas experimentam. (…) Na Antiguidade, a justiça sempre foi uma conquista do espírito laico, uma conquista da razão[André Neher, La esencia del profetismo, Sígueme, Salamanca 1975, p. 49]

O profeta não fala por iniciativa própria: antes de tudo, interiorizou a vontade divina. Deus disse a Ezequiel (3:10-11): «Filho de homem, todas as palavras que Eu te disser, guarda-as no teu coração, escuta-as com toda a atenção. Levanta-te e vai ter com os deportados, os teus compatriotas. Fala com eles e diz-lhes: ‘Assim fala o Senhor Deus’».

A Bíblia expressa esta assimilação da mensagem divina com o símbolo da logofagia. O que o profeta proclama não são opiniões suas. Primeiro, necessita de «comer» a palavra de Deus para a converter em substância própria: só depois disso é que pode falar. Ezequiel tinha que comer um rolo escrito: «Tu, porém, filho de homem, escuta o que te digo. Não sejas rebelde como aquela gente rebelde. Abre a boca e come o que te vou dar. (…) «Disse-me: «Filho de homem, come aquilo que te é apresentado, come este manuscrito e vai falar à casa de Israel.» [Ez 2:8;3:] Jeremias dizia o mesmo: «Quando eu encontrava as tuas palavras eu as devorava; as tuas palavras eram para mim pura delícia e a alegria do meu coração.» [Jer 15:16]

Um judeu estudioso do profetismo definiu assim o símbolo da logofagia: «Uma análise das declarações proféticas mostram-nos que a experiência fundamental do profeta é a sua comparticipação com os sentimentos de Deus, uma simpatia com o pathos divino, uma comunicação com a consciência divina». [Abraham J. Heschel, Los profetas, t. 1, Paidós, Buenos Aires 1973, p.71] Isto quer dizer que o profeta faz uma experiência mística profunda. Durante uma experiência de arrebatamento místico [Ap 4:1-2], João, porém não um místico desenraizado das lutas políticas («irmão na perseguição» sob o império romano; Ap 1:9), afirma que ouviu uma voz do céu a dizer-lhe: “Vai toma o livro e come-o. Ele vai amargar-te nas entranhas, mas na tua boca será doce como o mel” [Ap 10:8-11]. No Pentateuco se diz, por três vezes, que Deus falava com Moisés «cara a cara, como um homem fala com o seu amigo». [Ex 33:11; Dt 34:10; Nm 12:8]  E foi, precisamente, essa intimidade com Deus que fez de Moisés um profeta por antonomasia. Cinco séculos depois da sua morte, diz o livro do Deuteronómio (34:10): «Nunca mais surgiu em Israel um profeta semelhante a Moisés, com quem o Senhor falava face a face.»

Jesus nasceu neste caldo cultural (religioso e político) de penúria espiritual, carente de líderes proféticos. Conheceu João Baptista, que o não satisfez totalmente, e decidiu-se a começar sozinho. Primeira decisão: regressou à sua região, voltou ao norte e fez de Cafarnaúm o seu ponto de referência. Virou as costas à capital politico-religiosa (Jerusalém) e aos ascetas do deserto (João Baptista e Qümran). Optou por viver perto dos mais pobres, dos camponeses e pescadores.


Jesus de Nazaré, esperança para os pobres

Logo no início, os evangelhos sinópticos dizem o que vêm anunciar: a «Boa Notícia de Jesus Cristo, o Filho de Deus» (Marcos 1:1); a «Boa Notícia do Reino» (Mateus 4:23); a «Boa Notícia do Reino de Deus» (Lucas 4:43).

A mãe de Jesus diz como sente essa «boa notícia»: Deus «Manifestou o poder do seu braço e dispersou os soberbos. Derrubou os poderosos de seus tronos e exaltou os humildes. Aos famintos encheu de bens e aos ricos despediu de mãos vazias.» [Lucas 1:51-53], apetitosas «expressões para o lápis vermelho de qualquer censor». [JI González Faus]

E, Jesus, na Sinagoga de Nazaré (sua terra natal), diz de si mesmo ‘trago comigo o espírito de Deus que quero compartilhar’: «Segundo o seu costume, entrou em dia de sábado na sinagoga e levantou-se para ler. Entregaram-lhe o livro do profeta Isaías e, desenrolando-o, deparou com a passagem em que está escrito: «O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me ungiu para anunciar a Boa-Nova aos pobres; enviou-me a proclamar a libertação aos cativos e, aos cegos, a recuperação da vista; a mandar em liberdade os oprimidos, a proclamar um ano favorável da parte do Senhor.» Depois, enrolou o livro, entregou-o ao responsável e sentou-se. Todos os que estavam na sinagoga tinham os olhos fixos nele. Começou, então, a dizer-lhes: «Cumpriu-se hoje esta passagem da Escritura, que acabais de ouvir.» Todos davam testemunho em seu favor e se admiravam com as palavras repletas de graça que saíam da sua boca. Diziam: “Não é este o filho de José?”» [Lucas 4:18-19]

Depois desta cena, as coisas não tardaram a complicar-se para Jesus: «Acrescentou, depois: «Em verdade vos digo: Nenhum profeta é bem recebido na sua pátria. Posso assegurar-vos, também, que havia muitas viúvas em Israel no tempo do profeta Elias, quando houve uma grande seca durante três anos e seis meses e por isso houve uma grande fome em toda a terra; contudo, Elias não foi enviado a nenhuma delas, mas sim a uma viúva que vivia em Sarepta de Sídon. Havia muitos leprosos em Israel, no tempo do profeta Eliseu, mas nenhum deles foi purificado senão (um ateu, um pagão) o sírio Naaman.» Ao ouvirem estas palavras, todos, na sinagoga, se encheram de ódio (contra Jesus, claro!). E, erguendo-se, lançaram-no fora da cidade e levaram-no ao cimo do monte sobre o qual a cidade estava edificada, a fim de o matarem. Mas, passando pelo meio deles, Jesus seguiu o seu caminho.» [Lc 4:24-30]

O Deus de Jesus é o mesmo Deus dos Profetas do Antigo Testamento: prefere os pagãos, os excluídos! O «espírito» que repousa, agora, em Jesus é o mesmo Espírito de Deus que sempre tentou intervir na história da humanidade para proteger os fracos e alentar os sem-valor, para colocar o dedo na ferida do povo, para fazer o diagnóstico certeiro da doença.

Porque é que, na Sinagoga de Nazaré, os responsáveis se encheram de ódio contra Jesus? Porque Jesus não leu todo o texto do profeta Isaías: pura e simplesmente, recusou-se a ler o versículo que destilava «condenação», o versículo que revelava um deus vingativo, juiz implacável, um deus algoz: «anunciar o dia da vingança da parte do nosso Deus» [Isaías 61:2b], o qual, no Dia do Juizo Final, deveria cair sobre todos os que tivessem cometido pecados. Jesus saltou este versículo… Com este gesto insolente e revolucionário, Jesus quiz dizer que não vinha anunciar vinganças divinas (religiosas), mas acolhimento e libertação humanos (laicos)!

Mais uma vez, o Espírito de Jesus está em concordância com o Espírito dum Deus Misericordioso, um Deus bom para todos, sem barreiras nem estigmas, um Deus inimigo do ódio, mas denunciador dos odiosos (para seu bem…), um Deus tolerante, excepto para os intolerantes!, um Deus que faz cair a chuva sobre bons e maus. [Mateus 5:43-48: «…vosso Pai que está no Céu, pois Ele faz com que o Sol se levante sobre os bons e os maus e faz cair a chuva sobre os justos e os pecadores. Porque, se amais os que vos amam, que recompensa haveis de ter? Não fazem já isso os cobradores de impostos? E, se saudais somente os vossos irmãos, que fazeis de extraordinário? Não o fazem também os pagãos? Portanto, sede perfeitos como é perfeito o vosso Pai celeste.»] O espírito de Jesus é o mesmo espírito do Deus fundador de Israel: um espírito que perdoa muito mais do que castiga [Dt 5:8-10; milésima vs terceira e quarta geração], mas sobretudo que liberta [v.15] da opressão.

Jesus «vê-se» a si mesmo como um profeta, e tal como todos os profetas, Jesus é um ‘homem’ plantado nas questões do seu tempo, mas pressionado pelo memorial de intervenções de Deus no passado. Jesus é um profeta igual aos Profetas de Israel que se deixaram ‘apanhar’ pelos planos de Deus: ‘comeu’ Deus, digeriu Deus, ‘engoliu’ Deus – consubstanciou-se com os planos de Deus. No passado (AT), 99,9% dos profetas de Israel tinham sido eliminados ou assassinados pelo seu próprio povo. Apesar disso, Jesus não vira as costas ao desafio dos desafios: «dar a vida por uma causa extrema»… Jesus acabava de vir a este mundo e sobre ele pendia já a espada da rejeição: «Depois de partirem, o anjo do Senhor apareceu em sonhos a José e disse-lhe: «Levanta-te, toma o menino e sua mãe, foge para o Egipto e fica lá até que eu te avise, pois Herodes procurará o menino para o matar.» E ele levantou-se de noite, tomou o menino e sua mãe e partiu para o Egipto, permanecendo ali até à morte de Herodes. Assim se cumpriu o que o Senhor anunciou pelo profeta: ‘Do Egipto chamei o meu filho’.» [Mateus 2:13-15]

Quem alguma vez foi ou sentiu o que é ser refugiado político pode entender a dramaticidade deste relato. Algum de nós o aceitaria representar em carne viva? O ambiente é de cortar à faca (‘permaneceram escondidos aguardando a morte do ditador Herodes’), porém, nada disso fez azedar ou acidificar de ódio os planos de Jesus. De facto, a expressão ‘Do Egipto chamei o meu filho’ refere-se a uma das mais comoventes declarações de amor do AT: o projecto de Jesus estava, de veras, preenchido de compaixão! (leia PF todo o Oseias 11; p. ex., ‘Como poderia Eu esquecer-te? O meu coração dá voltas dentro de mim, comovem-se as minhas entranhas. Não desembainharei o furor da minha cólera, não voltarei a destruir Efraim; porque sou Diferente (=um Deus Santo) e não sou como um homem comum, sou o Santo no meio de ti, e não me deixo levar pela ira.’). Como poderia, Jesus, esquecer todo o passado do seu povo e tanta misericórdia divina para com o seu povo? Aquilo que parecia bebedeira, ‘loucura divina’ («Segurava-os com laços humanos, com laços de amor os atava, fui para eles como os que erguem ao ar uma criancinha, face-a-face, ao nível do seu rosto»), aquilo que parecia bebedeira, ‘loucura divina’ para Jesus era ‘desperdício’ divino, excesso, esbanjamento transbordante de amor, «vida em plenitude». [Dt 4:29-31] O coração de Jesus batia, as suas entranhas davam voltas e mais voltas, o fogo da paixão começava a abrasá-lo. Em Israel nascia (mais) um profeta de Deus!


O Deus de Jesus não ‘debatido’, nem ‘explicado’…

Jesus nunca fundou uma ‘escola de filosofia’ (naquele tempo, líder que era líder fundava escola), Jesus nunca ‘estudou para padre’, Jesus nunca frequentou a Universidade Católica-Curso de Teologia-Curso de Ciências Religiosas, Jesus nunca fundou uma Religião ou uma Igreja (ou uma seita), Jesus nunca foi ordenado sacerdote, Jesus nunca revelou pretensões de reconquista para a Fé dos povos pagãos (‘nova evangelização’, ‘luta contra o secularismo’, etc.), Jesus viveu mal acompanhado («Jesus em más companhias») e morreu absolutamente só (verdadeira parábola dos nossos últimos telejornais…). Jesus foi um fracasso absoluto! Morreu como um marginal, um sem-abrigo, um «drogado arrumador de carros» dos nossos dias, como um farrapo e, por isso, tinha à sua espera o género de morte que estava reservado aos insurrectos, aos odiados pelas pessoas muito religiosas, aos «malditos»: o madeiro, a cruz! [«o dependurado do madeiro é um maldito de Deus»; Dt 21:22-23]

Jesus levou uma vida itinerante, viveu para o essencial (ou seja, para anunciar que «um mundo outro é possível»), enfrentou com sagacidade o poder político do Império Romano (Marcos 12:13-17), enfrentou o peso, a raiva e a hipocrisia do poder religioso e das práticas cultuais (Marcos 2:18-28; Mc 7:1-23; Mc 10:1-12; Mc 11:27-28; Dt 28:15-68) e denunciou a ditadura dos laços de nacionalidade e de sangue (foi contra a mentalidade clubística e catalogadora de os «nossos» por oposição aos «outros», Mc 9:38-41; contra as tradições familiares da etiqueta, conveniência e boas maneiras; Marcos 3:20-21.31-35).

Jesus tinha bem claro que, mais importante do que de ter uma boa teoria ideológica, era ter feito uma opção de vida bem firme! Mais importante do que saber (o que é «ser cristão») era fazer (o «Reino»). Jesus tinha “alma de profeta”! Todos os profetas de Israel foram desconfortáveis (para os poderosos), inconvenientes, intransigentes, impiedosos, cheios de compaixão, sofridos por amor, apaixonados. Mas mais importante de tudo isto é que, ao mesmo tempo, sabiam que de nada lhes valiam as suas palavras e denúncias se elas não fossem testadas na realidade social e histórica.

Jesus nunca pregou «Deus», Jesus nunca precisou de proclamar que Deus foi expulso da praça pública [Bento XVI e a «Nova Evangelização»: «"a exclusão de Deus, da religião e da virtude da vida pública"»], Jesus nunca promoveu fóruns de debate culturais sobre «Relação Fé e Razão», Jesus nunca editou um Livro, Jesus nunca colocou no centro das suas preocupações «questões religiosas» (Jesus nunca “foi à missa”, nem aconselhou práticas religiosas – procissões, oferendas religiosas, peditórios, benzeduras, orações para que chova ou nasçam vocações, adorações a objectos ou a estátuas ditas santas, etc.); Jesus nunca usou ‘distintivos na lapela’, nem arregimentou multidões (que confirmassem a sua autoridade), não fez ‘conferências’. Jesus enfrentou a sua escolha, enfrentou a opção de vida que tinha feito, testou-a diante dos seus inimigos (a Igreja do seu tempo), por vezes, discutiu e enfureceu-se.

Jesus tinha bem em mente as palavras que, seguramente, sua mãe lhas fizera decorar (como um bom semita que era): ‘tudo o que tu achas justo, faz. Não te fiques apenas pelas palavras, meu filho… Se te assalta uma ideia justa, vai primeiro testá-la antes de a proclamar’. Mais tarde, já crescido, Jesus terá topado com o Livro do Deuteronómio (18:20-22) e confirmado sua mãe: «O profeta, porém, que tiver a insolência de anunciar em meu nome (em nome de Deus) palavras que não lhe mandei dizer, e aquele que falar em nome de deuses estrangeiros, esse profeta morrerá. Poderás perguntar-te a ti mesmo: ‘Como distinguiremos a palavra que não proferiu o Senhor? Quando o profeta falar em nome do Senhor e essas palavras não se realizarem, então essa palavra não veio do Senhor, o Senhor não a disse. É insolência da palavra deste profeta.»

Em vez de se ficar no ‘face-book’ ou no ‘twitter’, Jesus pôs em marcha um movimento de pessoas em que as ‘proibições’ eram apenas a negação das ‘obrigações’: ou seja, um movimento de pessoas assente em ‘acolhimento e libertação’!


… mas realizado!

A postura do profeta Jesus será, desde os começos, acolher e libertar! Jesus não discorre sobre Deus – Jesus faz acontecer Deus.

Cura um possesso na Igreja, cura uma mulher velha fora da Igreja, cura um leproso, cura um paralítico, perdoa pecados, cura uma mão paralisada, cura um possesso em Gerasa, cura a filha de Jairo, cura uma mulher com metrorragias, cura muitos doentes em Genesaré, cura multidões de doentes nas praças ao ar livre «onde quer que entrasse», cura a filha da mulher siro-fenícia, cura um surdo-mudo, cura um cego em Betsaida, cura um epiléptico que os discípulos não conseguiram curar, cura um cego em Jericó. Por fim, completa a cura, muito antes iniciada, de Maria de Magdala. [Mc 16:9-11]

Onde a vida encrava, Jesus desencrava!
Jesus faz funcionar o «Deus da vida» humana − sempre que ela pára Jesus dá à manivela. Jesus muda as pilhas a Deus… quando Deus parece esfriar no seu ilógico interesse pelo homem. Deus, em Jesus, é (age como, sob a forma de) uma paixão pelo homem sofrido. Jesus acha que qualquer outro espelho de Deus não serve para nada (tal como o achavam Martinho Lutero e Gustavo Gutierrez). O homem em sofrimento é (revela) Deus.

Jesus dispensa a religião para revelar Deus, o Deus dos Vivos, de Abraão, de Isaac e de Jacob – Jesus elege Job e rechaça o deus dos amigos de Job.

Jesus mergulha na trama miserável das misérias humanas para aí ‘ser’ e contagiar (Efésios 4:9-2; Jesus desce à condição mais rebaixada para contagiar uma atitude de serviço). A natureza de Jesus – esse é o seu «projecto de vida» − é estar com os que não têm lugar! É alentar os desalentados e os sem-futuro! É carregar ao colo o próprio destino dos sem-destino! É ofertar ‘olhos que vejam no escuro e sem confusão’, ‘pernas que queiram mesmo fazer caminho’, ‘revitalizar a ouvidos preguiçosos’, ‘serenar e dar alternativa aos aflitos, aos oprimidos’ e ‘dignidade e inclusão aos excluídos pelo poder ou pela religião’ – Jesus é Deus em acção! [Jesus sabia da existência do conselho de Deus: Dt 15:4 - «Em verdade, não deve haver pobres entre vós»]

No território da História da Humanidade (ou do Mal), Jesus revela «Deus aí escondido». O Mal pode transformar-se num local privilegiado de acesso a Deus, no entanto, contudo, sem sado-masoquismos («O Senhor abençoou a nova condição de Job, mais do que a antiga»; Job 42:12).

O Mal pode ser hierofânico. Às vezes, é a partir do Mal absoluto (extremo) que melhor e mais claro se pode ver a Deus, já que é a partir da vida deste mundo que Deus se revela. «Na realidade, basta abrir a Bíblia para sentir em cada página a vida pessoal e colectiva em toda a sua concretitude. A história (bíblica), justamente, conta-se ali para iluminar o presente à luz do que sucedeu com «os pais» (fundadores). Os profetas não falam de futuros misteriosos mas de problemas morais, éticos e até políticos bem agudos. Os salmos são orações carregadas de preocupações, ânsias e problemas agudos. A literatura sapiencial constitui uma reflexão sobre a vida, desde os problemas mais universais até aos de mera etiqueta. Os escritos apocalípticos falam de coisas raras e adoptam o estilo (convencional) de revelações misteriosas, mas nós sabemos que enraizam nas angústias e esperanças de uma história concreta. E, entrando nos evangelhos, o que impressiona na pregação e no comportamento de Jesus é justamente a sua adesão à vida, o seu centramento nos problemas mais imediatos da marginalidade, da pobreza, da dor, a sua oferta de sentido, não a partir dum Deus abstracto, mas a partir dum Deus «pai» que se preocupa inclusivamente com os cabelos da nossa cabeza». [Lucas 21:18] (A. Torres Qeiruga)

A «História como parteira» revela o sentido da vida a todos os seres humanos, independentemente de serem crentes ou não. Depois, é uma questão de exigência pessoal: uns desvalorizam e viram-lhe as costas; outros interrogam-se, batem-se, ferem-se e desanimam; outros, porém, querem ir sempre mais ao fundo das questões e … perdem-se nisso: «dão a vida»! (1 Jo 3:16-20) «A Bíblia e o coração dizem o mesmo. Por isso (e por isso) a Bíblia é ‘revelação’» [F. Rosenzweig, filósofo judeu]

«Captamos Deus no sentido em que nos deixamos transformar pelo seu dinamismo» [A. Torres Queiruga]

Jesus, um pouco à maneira de Dietriech Bonhoeffer, interrogava-se: Como pode Deus chegar a ser também Senhor dos não-religiosos num ‘mundo adulto’ para quem a hipótese de Deus é supérflua? «Como falar de Deus sem religião?» [D. Bonhoeffer, ‘Cartas do Cativeiro’, prisão de Tegel 1944]

«Não podemos ser honestos sem reconhecer que é necessário que vivamos no mundo etsi Deus non daretur. (…) Chegados à maioridade, temos que reconhecer de forma muito verdadeira a nossa situação diante de Deus. Deus faz-nos saber que é preciso que vivamos como seres humanos que conseguem viver sem Deus. O Deus que está connosco é o Deus que nos abandonou! (Mc 15:34) O Deus que nos deixa viver no mundo sem a hipótese de trabalho «Deus» é aquele diante do qual estamos constantemente. Diante de Deus e com Deus vivemos sem Deus. Deus deixa-se  desalojar do mundo e ser cravado na cruz. Deus é impotente e débil neste mundo e só assim está connosco e só assim nos ajuda. Mateus 8:17 indica-nos claramente que Cristo nos ajuda, não pela sua omnipotência, mas sim pela sua debilidade e pelos seus sofrimentos». [D. Bonhoeffer]

Há que falar de Deus mundanamente, na finitude da história, no limite, na realidade das coisas, «laicamente» [DB], de forma secular.

Jesus não pregou Deus: anunciou a vinda do reino de Deus!
Jesus foi, sobretudo, um profeta: nele, Deus era e agia! O ‘conceito Deus’ era-lhe perfeitamente inútil. Deus, em Jesus, era sobretudo PROXIMIDADE, irmandade, amizade, gestos de «acolhimento e libertação total» e nunca religião. A Religião (toda a religião) assenta em três pressupostos: a metafísica; a existência da ‘alma’ (por oposição à exterioridade e à história) − o que leva ao individualismo e às obras autosatisfatórias; e a segregação ou parcialidade, aquilo que se denomina o sagrado. [Arnaud Corbic, ‘Dietrich Bonhoeffer: Cristo, Señor de los no-religiosos’]

Jesus não é um homem do sagrado, mas um homo-humanus e Deus é o homem levado ao extremo do seu ser!, aspecto que não depende absolutamente de práticas religiosas ou piedosas, mas absolutamente duma existência terrena radicalizada e provocadora. Cristão é todo o ser humano terrestre em que a vida de libertação se derrama e entorna. Foi isso que muito custou a entender a Pedro (Marcos 8:31). E a muitos de nós, ainda hoje. Jesus veio revelar um Deus próximo [Abba-ô Pater], fraterno e ao serviço do homem. O esquema mental de Jesus era: ‘Deus-Pai Nosso-próximo’ logo ‘fraternidade-igualdade entre todos’ logo ‘serviço mútuo universal’. Jesus veio colocar o Homem no centro e, assim, condenar qualquer tipo de dominação do homem sobre o homem.

Aquilo que mais exasperava Jesus era um Deus desligado da história da humanidade. [JI González Faus]

O capítulo oitavo de Marcos é um sítio suficiente para exemplificar isto. Jesus é a abundância de felicidade e bem-estar (v.1-10: «alimenta 4.000»), mas para as pessoas religiosas isso não bastava: exigiam uma prova celeste, um sinal vindo do Céu! (v.11). Enquanto que, para Jesus, Deus é bem-estar, fome satisfeita, sede saciada e conforto humano (v6, ‘ordenou que se sentassem’), para os piedosos ‘tem que haver mais alguma coisa’. Ou seja, Deus é uma espécie de rótulo que se tem que colar à embalagem: doutra forma ninguém acreditaria que o conteúdo fosse real, verdadeiro ou a encomenda fosse suficientemente perfeita.

O ‘primeiro anúncio da paixão’ (v.31-33) diz o mesmo. Jesus tenta tornar claro aos discípulos que «fora da história dos excluídos não há salvação» (v.31-32a). Porém, Pedro (v.32b) acha que não: que é possível mudar a vida deste mundo compactuando com as regras deste mundo. Jesus volta ‘à vaca fria’ (v.33): «os teus pensamentos não são os de Deus, mas os dos homens». Há aqui uma esgrima: Pedro usa a espada do seu deus (a ideologia religiosa e piedosa dos conciliadores moderados que temem a verdade toda) e Jesus usa a espada dos profetas (o apelo à Koinonia, ao serviço como um absoluto, ao ‘ser apenas dom de vida’, injectores de ressurreição, salvadores e libertadores - v.35).

Em Mateus 23 – a célebre condenação do farisaísmo – Jesus regressa à denúncia do «dizem mas não fazem» (v.3). Diante duma prática religiosa em que Deus é colocado lá em cima no Céu e o Homem cá em baixo, em que existem territórios bem definidos e canais de comunicação entre ambos (mandar rezar missas por, água benta para, santos que metem cunhas a Deus – que intercedem −, procissões e orações de petição, etc.), diante deste triste e pobre espectáculo pietista, Jesus só tem uma palavra: «Hipócritas»!

«Desprezais o mais importante da Lei (da religião): a justiça, a misericórdia e a fidelidade [Mateus 23:23]

A frustração de Jesus não podia ser maior: «Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os que te são enviados! Quantas vezes quis reunir os teus filhos como a galinha reúne os seus pintainhos sob as asas, e tu não quiseste!Pois bem, a vossa casa ficará deserta. Eu vos digo que não voltareis a ver-me até que digais: ‘Bendito o que vem em nome do Senhor’.» [Mateus 23:37-38]. Jesus profetisa o fim da religião que não nasça do interior da vida humana.

Pergunta: Em que Deus acreditava Jesus?
Resposta: Na vida da humanidade, renovada, levada ao extremo do serviço!

É incrível! Custa a crer! Sobretudo, que, dois mil anos depois, isto tenha que ser proclamado, mais uma vez, como novidade, como «uma Boa Notícia».


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23 de fevereiro de 2012

REFORMAR A HIERARQUIA OU RENOVAR A COMUNIDADE?

Há 50 anos – Roma, 11 Out. 1962
Abertura Solene do Concílio Ecuménico Vaticano II





«Teologia» da Igreja e «Organização» da Igreja
 
Os Bispos que participaram no Concílio Vaticano II e aprovaram os seus Documentos, estavam convencidos de que, se se renovasse a teologia da Igreja, se renovava a própria Igreja, isto é, se conseguiria a verdadeira reforma da Igreja, no melhor sentido do termo. Isto porque a grande maioria dos Bispos e dos teólogos estavam profundamente persuadidos que a Igreja seria mais coerente com as suas origens e, por conseguinte, estaria mais de acordo com os desígnios divinos, se as ideias sobre a Igreja ou seja, a sua teologia se alterassem no sentido dos desígnios divinos. Porque, «em assuntos de verdadeira importância, o mais prático é ter uma boa teoria», e isso sempre resultou. Por isso, se elaborassem uma boa teologia sobre a Igreja pensavam os padres conciliares a Igreja seria como deve ser.

Não há dúvida que esta postura é correcta. É assim que se explica porque os debates doutrinários ocuparam quase todo o tempo do Concílio os Bispos gastaram todas as suas energias a discutir doutrinas teológicas, porque achavam que nisso se jogava o futuro da Igreja. Sem dúvida, agora que já passaram várias décadas sobre aquelas apaixonadas discussões doutrinárias, damo-nos conta de que toda a paixão gasta em mudar a eclesiologia foi, seguramente, o maior engano em que caíram os que queriam uma Igreja renovada e, nesse sentido, distinta. E foi o maior engano por uma razão muito simples: a Igreja não se renova apenas porque se renove a sua «teologia». A Igreja renova-se sim, e isso para lá da sua «teologia», se se renova também a sua «organização». Dito de outro modo: se tivermos uma ‘eclesiologia’ muito avançada, mas ao mesmo tempo temos um Direito Canónico tradicionalista e conservador, a Igreja continuará a ser aquilo que sempre foi durante séculos, pelo menos desde o século XI, quando o Papa Gregório VII operou uma grande volta à organização eclesiástica e concentrou o poder hierárquico no papado.

A razão para quilo que acabo de dizer compreende-se facilmente. A Igreja não é só uma verdade de Fé ou um conjunto de doutrinas em que os fiéis acreditam piamente e que cada qual procura viver como pode. A Igreja é necessariamente uma instituição que, como acontece com todas as instituições deste mundo, se pode organizar de maneiras muito distintas. Ora, em qualquer instituição é o seu sistema organizativo e o funcionamento desse sistema que são o mais importante na hora de se querer saber em que realmente consiste a instituição e se ela realmente responde às ideias que a inspiraram e que são a razão de ser da sua existência e dos fins que persegue. Assim se compreende que o fracasso do Concílio esteve em pensar que, ao renovarem-se as verdades que os cristãos devam ter na cabeça quando pensam na Igreja, se renovaria a instituição eclesiástica. Claro que, em primeiro lugar, são as verdades que devemos ser renovadas. Mas, conjuntamente com as verdades, há que renovar a legislação e todo o sistema organizativo que é o que faz com que o sistema produza determinados frutos ou, pelo contrário, desse sistema resulte precisamente o contrário daquilo que se pretende.

 No fundo, tudo isto pretende dizer que a eclesiologia é uma parte da teologia e que não se pode reduzir a meras ideias, por mais verdadeiras e ortodoxas que sejam. Uma eclesiologia que se reduza a enunciados doutrinais, mas que não contenha em si própria as normas e as práticas concretas que especifiquem como deve funcionar a instituição, é uma eclesiologia incompleta e, por isso mesmo, exposta a desvios que podem chegar a ser extremamente perigosos. Em grande medida, isto explica o que se passou no Concílio. O grande eclesiólogo e teólogo conciliar que foi Yves Congar, disse que o Concílio produziu uma «concentração vertical sobre Cristo e um descentramento horizontal em direcção à comunidade e ao povo de Deus». E, de facto, foi isso que aconteceu, mas apenas no que diz respeito à doutrina eclesiológica, porque, na prática organizativa, o descentramento horizontal em direcção à comunidade e ao povo de Deus não se produziu. Quanto ao modelo de funcionamento da Igreja − o poder do governo − ao nível universal, continua concentrado no Papa, e, ao nível local, no Bispo.

Para se fazer uma ideia do que isto significa, o melhor será dar alguns exemplos concretos que permitam explicar porque é que, poucos anos após o encerramento do Concílio, esse acontecimento continuava desconhecido de muitos cristãos, esquecido por outros e se tenha tornado suspeito para algumas pessoas e grupos dentro da Igreja. Que se passou? O que levou a que tal acontecesse?
 


É claro que qualquer pessoa que conheça bem a eclesiologia do Concílio sabe perfeitamente que o Vaticano II deixou por resolver, no plano doutrinal, a grande questão que consiste em como coordenar e harmonizar o poder do Papa com o poder dos bispos. Aliás, ficou também por resolver como se deve exercer o poder dentro da Igreja, de modo a que aqueles que exercem o poder dentro da comunidade dos crentes não acabem por marginalizar a própria comunidade e por anular os seus direitos. Isto, pela importância e complexidades que acarretam, seria suficiente para nos levar a um estudo específico e de pormenor. Porém, neste momento, convém fixarmo-nos em dois outros temas de enorme envergadura que, sem dúvida, explicam suficientemente bem porque as grandes verdades que o Concílio ensinou sobre a Igreja não produziram «o descentramento horizontal sobre a comunidade» de que, com muita razão, Congar falava.

Uma questão de enorme importância para a Igreja é o papel desempenhado pela Cúria romana no que diz respeito ao governo da instituição eclesiástica no seu todo. Pois bem, no que a isto diz respeito, aquilo que em primeiro lugar chama a atenção é que, tendo a Cúria a importância que de facto tem no governo da Igreja, acerca dela não se diz nem uma palavra na Constituição Dogmática sobre a Igreja ‘Lumen Gentium’. Esta questão foi tratada no Decreto Christus Dominus, o qual explana o ministério pastoral dos bispos. Tal facto, já de si é significativo, pois significa que, para aqueles que aprovaram os documentos do Concílio, a Cúria romana não é uma «questão dogmática» mas uma questão de ordem prática que tem seu devido tratamento no modo de exercer o ministério pastoral por parte dos bispos. Por outro lado, o Decreto ‘Christus Dominus’ tão pouco lhe dedica especial atenção à questão da Cúria. Limita-se a falar dele em dois números (9 e 10) para dizer que a Cúria realiza o seu labor «em nome» do Papa e «com autoridade» do Papa. Mas acrescentando, de seguida, que faz isso «ao serviço dos bispos» (in servitium Sacrorum Pastorum) [CD 9,1]. Mas há mais: o Concílio reconheceu (sem o dizer explicitamente) que a Cúria romana não funcionaria como devia funcionar. Por isso, expressou o desejo dos bispos de todo o mundo de que os departamentos da Cúria (os dicastérios) «se submetam a uma nova organização» (novae ordinationi… subiciantur) [CD 9,2], concretamente, e entre outras coisas, no que se refere «à competência e modo de proceder» dos departamentos centrais da Igreja referidos.



Isto era o que o Concílio queria. A realidade, porém, foi muito distinta, porque o Papa Paulo VI, que tentou pôr em prática o que o Vaticano II pediu (e, para isso, publicou a 15 de Agosto de 1967 a Constituição Regimini Ecclesiae Universae), não conseguiu os seus intentos. Na verdade, nos trinta e cinco anos que passaram desde o fim do Concílio até hoje [2oo2], a Cúria romana em vez de se reduzir, o que aconteceu foi ver crescer o número dos seus dicastérios, conselhos, tribunais, departamentos, organismos e comissões. O mesmo ocorreu com o número de personalidades e pessoas que trabalham para tão complexo organigrama que, de facto, a Cúria é. Mas, porém, isto não é o mais importante. O mais relevante é que, sendo a Cúria quem de facto decide em assuntos sérios em matéria de governo quer diga respeito a fiéis, quer a bispos, quer mesmo a cardeais, é surpreendente que o actual Código de Direito Canónico lhe dedique apenas um só Canon (o 360), ficando a sua regulamentação dependente duma norma pouco clara e em grande parte desconhecida para a maioria dos católicos.


Eis porque não faltam razões ao arcebispo John R. Quinn (que foi presidente da Conferência Episcopal dos Estados Unidos) quando diz que a Cúria corre o risco de ser considerada um tertium quid. Então, no lugar da estrutura dogmática – Papa e Colégio Episcopal – surgiria uma nova estrutura: papa, cúria e episcopado. Pode, então, considerar-se a Cúria como quem exerce supervisão e possuindo autoridade sobre o colégio dos bispos, ideia que não é mera hipótese, mas realidade. E os bispos de todo o mundo bem o sabem por experiência própria, já que, de facto, é ela quem os nomeia, os controla e os chama à atenção quando considera oportuno. E, caso seja preciso, traslada ou até destitui de funções episcopais um bispo, por mais importante até que ele seja. A Cúria não pretende emagrecer os limites das suas competências, até porque, desde o momento que o citado Canon 360 diz que a Cúria romana «realiza as suas funções em nome e com a autoridade» do pontífice romano, é evidente que os funcionários curiais podem sentir a tentação (na qual não raras vezes caem) de tomar decisões sobre membros da Igreja (incluindo bispos) de tal forma que aqueles a quem dizem respeito essas decisões as recebem como mandatos pontifícios, ou seja, como disposições que muito dificilmente serão modificadas, e serão inapeláveis.

Mas o mais grave de tudo ainda não é isto.
Sem dúvida alguma, o assunto mais delicado no que diz respeito ao funcionamento interno da Igreja é o problema que representa o facto de que ninguém, dentro desta instituição, tem direitos adquiridos. Por conseguinte, na Constituição Dogmática sobre a Igreja fala-se dos direitos dos bispos (LG 27,1), e dos direitos que os fiéis têm a «receber em abundância dos sagrados pastores…, antes de mais nada, os auxílios da palavra de Deus e os dos sacramentos» (LG 37,1). A Constituição Pastoral sobre a Igreja no Mundo Contemporâneo trata dos direitos da pessoa humana na comunidade política (GS 73), só que, neste caso, já não estamos no âmbito dos direitos no interior da Igreja. É certo que no Código do Direito Canónico se formulam «os deveres e direitos de todos os fiéis» (c. 208-223) e, mais concretamente, «das obrigações e direitos dos fiéis leigos» (c. 224-231). Claro que não se trata aqui de especificar esses direitos, os quais a legislação eclesiástica menciona como direitos dos membros da Igreja. O importante é perceber que, tal como se tem vindo a organizar a instituição eclesiástica no que diz respeito ao seu funcionamento interno, o poder está de tal forma concentrado num só homem – o romano pontífice – que, de facto, do ponto de vista dos direitos dos súbditos, a Igreja acaba por ficar configurada de acordo com um sistema de governo que ao que mais se assemelha é àquilo que sempre pareceu ser: uma «monarquia absoluta».

Esta afirmação baseia-se (segundo o Canon 331) em que, na Igreja, o poder do Papa é «supremo, pleno, imediato e universal» e, além do mais, o «pode exercer sempre livremente». Mas, do ponto de vista legal, isso ainda não é o mais contundente. O determinante está em que o Canon 333, parágrafo 3º, estabelece que «não há apelo nem recurso duma sentença ou dum decreto do romano pontífice». E isto, no direito eclesiástico, é considerado de tal modo intocável que o Canon 1404 afirma taxativamente que «a Primeira Sede (o Papa) não pode ser julgada por ninguém». Assim fica claro que, por mais que aos fiéis cristãos se lhes reconheçam determinados direitos, na realidade qualquer desses direitos estarão sempre sujeitos a que «uma sentença ou um decreto» do Papa (ou de quem mande em seu nome, isto é, os dirigentes da Cúria romana – Canon 360) os invalide e os reduza a pó. Pois bem – isso é que define «monarquia absoluta», aquela na qual o monarca exerce o poder sem ter que dar conta dos seus actos a ninguém. É claro que nas monarquias absolutistas havia monarcas que assassinavam aqueles que se lhe opunham, coisas que os Papas não fazem. Mas, o que para aqui conta, não é se o monarca é mais ou menos brutal em matéria de comportamentos ou se, pelo contrário, até é boa pessoa, mas que não está em questão a ética da pessoa que preside ao sistema, mas a ética da natureza do próprio sistema. Pois bem, a natureza do sistema de governo da Igreja Católica, segundo se lê no vigente Código de Direito Canónico, é que o Papa possui poder «supremo», diante de cujas decisões «não cabem apelo nem recurso» algum e, para além disso, o Papa «não pode ser julgado por ninguém». Isto é o mesmo que dizer-se que «não tem que prestar contas dos seus actos». Aí está: uma «monarquia absoluta».


Adiante se verá que, por mais que juridicamente isto esteja assim estabelecido na Igreja, teologicamente a coisa não está tão clara assim. Nem pouco mais ou menos. É precisamente aqui que se levanta um dos problemas mais sérios que a eclesiologia, até hoje, ainda não resolveu. Trata-se duma desconformidade (como em tantos outros assuntos) entre direito eclesiástico e teologia. Mas desta questão se falará detalhadamente mais adiante.



Tarcísio Bertone, Secretário do Vaticano



A conclusão do que se disse até aqui é muito clara. O Concílio renovou profundamente a «teologia» da Igreja, mas não modificou a sua «organização». Concretamente, deixou intactas duas coisas que são decisivas no que diz respeito ao funcionamento da Igreja: o poder da Cúria e os direitos de todos os membros da Igreja, excepto o Papa.

Daqui resultam, duma assentada, duas consequências:

1)  A Cúria é o organismo «mediante o qual o romano pontífice faz tramitar os assuntos da Igreja universal e que realiza a sua função em nome e sob autoridade do Papa» (Canon 360). Dito de outra maneira, a Cúria acaba por ser, na prática, o instrumento mediante o qual o Papa exerce o seu poder e tramita os assuntos da Igreja. Portanto, há inúmeros assuntos de Igreja (muitos deles de enorme importância) que são geridos, decididos e impostos, não pelo Papa, mas por outras pessoas que, na prática, tomam decisões que são como se as tivesse tomado o sumo pontífice.
2)  Os membros da Igreja não podem apelar a direito algum, sobretudo se se tratam de decisões muito graves nas quais estejam em jogo interesses de grande importância para a instituição eclesiástica. Tenhamos em conta que, quando dizemos «membros da Igreja», neste imenso colectivo entram todos os cristãos incluindo os funcionários da Cúria, os bispos e até os cardeais, seja qual for o seu nível, seu cargo ou sua influência.

Pois bem, uma instituição religiosa em que «a organização» está montada desta maneira é, inevitavelmente, um corpo social em que as ideias seguirão um determinado curso e a realidade da vida seguirá um totalmente outro. No terreno das ideias apelar-se-á constantemente a elevados ideais relacionados com generosidade, solidariedade, amor e, sobretudo, vontade divina e bem da Igreja. Mas, na realidade da vida diária, o que se acabará por impor é o interesse natural do ser humano em se sentir seguro no posto que ocupa, o não se sentir ameaçado, o saber que é valorizado e estimado e, frequentemente, o poder subir a postos mais elevados.

É nesta situação em que nos encontramos: a «teologia» do Concílio colocou o ‘povo de Deus’ à frente da hierarquia e seus poderes. Mas a «organização» da Igreja manteve-se praticamente como estava antes do Concílio. O resultado é o que estamos a ver: no campo das «ideias» teológicas, o Povo de Deus é o primeiro, mas na «realidade» da vida, em primeiro lugar continua a ser o poder hierárquico que, por sua vez, se encontra controlado e dirigido pelo poder da Cúria. Consequentemente, o Concílio teve cada vez menos poder efectivo quanto a definir o ser da Igreja, quanto ao funcionamento da Igreja e quanto ao como ela está presente na sociedade.


  

Os documentos conciliares continuam a ser citados em escritos eclesiásticos e em livros de teologia, mas, na hora da verdade, tudo isso serve para pouco ou, dito doutro modo, tem uma efectividade bastante reduzida. Porque a Igreja, na sua estrutura profunda, continua a funcionar como funcionava antes do Concílio. Mantiveram-se certas mudanças externas de importância relativa: a missa já não se diz em latim, nem de costas para o povo, a maior parte dos eclesiásticos veste-se à civil, reúnem-se as ditas ‘conferências episcopais’ e os ditos ‘conselhos presbiteriais’, mas a verdade mais pura é que tudo isso influi pouco na marcha geral da Igreja, no seu pensamento teológico, nas decisões verdadeiramente operativas quando é chegado o momento de definir o rumo da instituição na sociedade e na cultura actuais.

Bem pelo contrário, a impressão que têm muitos cristãos é que a cultura e a sociedade mudam a grande velocidade, ao passo que a Igreja (juntamente com outras instituições religiosas) fica amarrada ao que sempre foi. É verdade que as aparições constantes do Papa nos meios de comunicação social podem dar, a certos sectores da população, a impressão de que a Igreja goza agora duma popularidade que nunca teve. A realidade é bem distinta. O acontecimento mais importante do século XX – o Concílio Vaticano II – foi marginalizado e, para muitos, enterrado no esquecimento. E, no entanto, a sangria de gente que silenciosamente abandona a Igreja aumenta de dia para dia.

Quando alguns pensam que a Igreja alcançou o cume dos seus êxitos, na verdade o que acontece é que a igreja está metida numa das crises mais profundas da sua história. Certamente que estará cheio de razão o escritor inglês John Cornwell quando, recentemente, disse que a «imagem característica de Pio XII… sugere vários traços que distinguem os últimos Papas dos seus predecessores. Quanto mais elevado se encontra o pontífice, mais pequenos e insignificantes parecem os fiéis. Quanto mais carregado de responsabilidade e autoritário é o pontífice, menos direitos tem o Povo de Deus, nele incluídos os bispos, os sucessores dos Apóstolos. E quanto mais santo e distante é o pontífice, mais profano e secular é o mundo em que vive.»

Às vezes, é impossível resistir à impressão que João XXIII e o Concílio que ele convocou foram um parênteses na atormentada história da Igreja ao longo do século XX. Aconteceu imensa coisa, mas parece que nada passou dum capítulo, sem dúvida interessante, da história da Igreja, mas que não passa de algo que serve apenas para ser recordado, e não como uma força que continua viva e operante no interior da Igreja e, através da Igreja, na sociedade actual.

José Maria Castillo [2002]

22 de fevereiro de 2012

ESPÍRITO DE RECONQUISTA E O FANTASMA DO SECULARISMO

Pessoas com fé dizem que o secularismo se tornou uma força agressiva e intolerante na Grã-Bretanha. O que deu errado? Ele deveria unir a sociedade...

A religião está realmente sob ameaça?


Os extremos...
... tocam-se!
Um fantasma ronda a Europa - o fantasma do secularismo. Todos os poderes da velha Europa entraram em uma sagrada aliança para exorcizar esse fantasma: o papa, os políticos tanto do partido Conservador quanto Trabalhista, Melanie Phillips [jornalista e escritora britânica]...

Parece estranho pedir emprestadas as palavras de abertura do Manifesto Comunista Marx e Engels para descrever o secularismo e achá-los muito apropriadas. Para alguém como eu, que sempre viu o ideal secularista como o legado mais benigno do Iluminismo, é um pouco como descobrir que o seu ursinho de pelúcia está sendo retratado como um urso feroz e arrasador. Mas não há dúvida de que o secularismo é cada vez mais visto como uma ameaça à liberdade em vez do seu mais vigoroso defensor.

A presidente do Partido Conservador, Lady Warsi, foi a última pessoa a soar o alarme, falando do seu "medo" de que "a secularização militante está tomando conta das nossas sociedades". Ela não faz rodeios ao afirmar que, "em sua essência e em seus instintos, ele é profundamente intolerante" e "demonstra traços semelhantes aos regimes totalitários".

 Praticamente a mesma mensagem veio de David Lammy, do Partido Trabalhista, no programa Friday's Any Questions?, da Radio 4, quando atacou "um secularismo agressivo que está afogando a capacidade das pessoas de fé de viver com essa fé". Warsi está levando essa mensagem ao papa, o que é um pouco como levar pizza para Nápoles.

Na visita do pontífice ao Reino Unido em 2010, o Papa também protestou contra "formas agressivas de secularismo", comparando-as aos males do nazismo e afirmando que "a exclusão de Deus, da religião e da virtude da vida pública leva, finalmente, a uma visão truncada do ser humano e da sociedade".

 Outros clérigos o seguiram. O líder da Igreja Católica na Escócia, cardeal Keith O'Brien, usou seu último sermão de Páscoa para condenar o "secularismo agressivo" que tenta "destruir a nossa herança e cultura cristãs e tirar Deus da praça pública". E a lista daqueles que disseram coisas semelhantes é interminável.

Mas até onde as pessoas estão aterrorizadas com isso? O secularismo é realmente uma ameaça, ou ele simplesmente tem sido distorcido por seus críticos, seus defensores ou ambos?

Para responder a isso, poderíamos fazer pior do que começar com os supostos exemplos mais recentes da terrível perseguição dos cristãos do país: a decisão da Suprema Corte na última sexta-feira de que as orações não fazem parte legítima de um conselho empresarial formal. A isso se seguiu a manutenção da sentença do Tribunal de Recurso contra dois donos de pousada cristãos, Peter e Hazelmary Bull, que afirmava que eles eram culpados de discriminação por não permitir que casais gays ficassem em quartos duplos. O alarmista antissecular vê ambas as decisões como um indicativo dos tempos, quando, como Warsi afirma, "sinais religiosos não podem ser expostos ou usados em edifícios governamentais; quando os Estados não financiam escolas religiosas; e onde a religião é posta de lado, marginalizada e rebaixada na esfera pública".

É difícil levar a sério a ideia de que disso representa uma ameaça mortal à religião na vida pública. Eu só posso afirmar que o cristianismo sempre se fortaleceu na perseguição, e ele está forçando um pouco demais ao se retratar como se estivesse debaixo de uma chuva de cassetetes novamente, quando, na verdade, em grande parte, ele está sendo apenas ignorado.

No entanto, a outra extremidade da linguagem - as comparações com o nazismo e o modo em que tais afirmações estão cada vez mais vistas como verdades autoevidentes - nos diz que algo deu errado com o secularismo na Grã-Bretanha. E o problema, eu acho, é que ele perdeu a sua alma secular. O secularismo, no sentido político, não é um projeto abrangente para varrer a religião completamente para fora da vida pública. Nem é uma celebração da ciência sem Deus, como o plano mal concebido de Alain de Botton para a construção de um "templo para ateus" de 46 metros na cidade de Londres.

Ao contrário, ele é - ou deveria ser - uma forma maravilhosamente simples de aproximar as pessoas de todas as fés ou de nenhuma, não um meio de opô-las.


«Projecto de Ética Mundial»_ Hans Küng



Neutralidade

Tudo remonta a como entendemos o princípio secularista fundamental da neutralidade na praça pública.

A neutralidade significa exatamente isto: não se posicionar nem a favor nem contra a religião ou qualquer outra visão abrangente de mundo. É por isso que, em teoria, senão na prática, os Estados Unidos são tanto culturalmente o país mais religioso do Ocidente desenvolvido, quanto, constitucionalmente, o mais secular. Lá, compreende-se claramente que o valor do secularismo é que ele permite que todas as fés sejam praticadas livremente, sem que nenhuma delas desfrute de um lugar especial no coração do poder. Isso explica porque, quando eu participei uma vez de um painel de discussões com um Batista do Sul, uma das denominações mais conservadoras, ele estava tão entusiasmado com o secularismo quanto eu.

Por que, então, na Grã-Bretanha, o secularismo passou a ser visto como hostil à religião?

Porque muitas vezes assume-se que a neutralidade exige a dissolução de todos os vestígios da fé, excluindo a crença, e o discurso religioso, da vida pública. Mas isso não acontece, e nós podemos ver por que pelo apelo à noção de razão pública articulado mais claramente pelo falecido filósofo político John Rawls.

Rawls era bastante claro de que os religiosos não têm nenhuma obrigação de manter a sua fé inteiramente para si mesmos. "Doutrinas abrangentes e razoáveis, religiosas ou não religiosas, podem ser introduzidas na discussão política pública a qualquer momento", escreveu ele, "desde que, em seu devido momento, apresentem-se razões políticas adequadas - e não razões dadas apenas por doutrinas abrangentes - que sejam suficientes para defender o que quer que seja que as doutrinas abrangentes dizem defender".

A linguagem certamente tem uma aridez jurisprudencial, mas a mensagem é bastante clara. Quando entramos na praça pública, somos obrigados a falar uns com os outros em termos que podemos compartilhar e compreender, e não de formas que estejam vinculadas às nossas "doutrinas abrangentes" específicas. Se estivermos debatendo a ética do aborto, por exemplo, não chegaremos a lugar algum se alguns insistirem que seus pontos de vista repousam sobre sua fé católica, enquanto outros inexoravelmente tiram os seus do seu ateísmo. O que todos nós precisamos fazer é fornecer razões que tenham algo a oferecer para as outras pessoas em sua qualidade de concidadãos, independentemente de suas visões de mundo. Isso não significa negar ou mesmo encobrir o fato de que temos motivações religiosas ou outras para acreditar naquilo que acreditamos. É simplesmente reconhecer que não podemos esperar que eles carreguem qualquer peso com os outros.

Por quê, então, o evidente melindre sobre falar de religião na vida pública?

A resposta curta é que nós simplesmente não estamos habituados a isso. O mais impressionante da observação de Alastair Campbell, em 2003, de que "nós não nos ocupamos de Deus" foi que, até então, era absolutamente preciso dizer isso. Quase ninguém se ocupava de Deus em público. O discurso público refletia o fato de que a fé de muitos é, como David Cameron descreveu, "um pouco como sintonizar a rádio Magia FM em Chilterns: ela aparece e desaparece". Ou como uma pesquisa da BBC concluiu, o maior grupo na Grã-Bretanha são os de "fé vaga". Assim, a religião era ocasionalmente vista e raramente ouvida, e essa era assim que as pessoas gostavam.







O fim do silêncio educado

As coisas mudaram por várias razões. Vários dos chamados novos ateus dizem que o 11 de Setembro os motivou a levantar o silêncio educado que cercava a religião e lançar seus ataques. O Islão mudou a agenda e, com ela, a religião em geral. Mas agora que a fé está a céu aberto não parecemos saber o que fazer com ela. O despertar de uma seriedade religiosa que parecia estar em um estado vegetativo permanente perturbou os secularistas que talvez estavam então muito preocupados para sedá-la novamente.

Mas, como os romanos aprenderam, quanto mais um grupo se sente perseguido, mais forte, e não fraco, ele fica. Eles também são estimulados pelas simpatias daqueles de fé vaga, que muitas vezes vêem os semelhantes a Richard Dawkins como pestes furiosas, mesquinhas e agressivas. Uma das causas disso foi, creio eu, um clássico erro racionalista.

É verdade que não há nada de justo ou democrático com relação a ter deselegido bispos anglicanos na Câmara dos Lordes. Não há nenhuma razão para que a religião tenha um espaço protegido chamado Thought for the Day [Pensamento do Dia] no meio do principal programa de notícias da emissora nacional. Uma reunião de conselho não é lugar para orações. Mas todas essas anomalias existem porque a Grã-Bretanha tem uma história enraizada na Cristandade. Onde a tradição voa em face à razão e à justiça, ela deve ser desmantelada. Mas quando ela simplesmente as importuna, muitas vezes é melhor permitir a passagem do tempo para que corroa essas reminiscências anacrónicas do que tentar demoli-las.

A maioria das pessoas, ao contrário, parece gostar dessas heranças estranhas ou são indiferentes a elas. Por isso, quando elas se transformam em locais totémicos de batalha, o público em geral olha perplexo. Mas o erro central é simplesmente perder de vista o fato de que o secularismo realmente é um princípio muito específico acerca do funcionamento das instituições públicas e políticas. Enquanto elas operam sem conceder privilégios a nenhuma visão de mundo particularmente abrangente, o secularismo não tem nada a dizer sobre quanto o resto da sociedade e do discurso público deveria ser religioso. Para defender os ideais secularistas, portanto, nós precisamos renová-los.

A neutralidade do Estado deve ser ferozmente defendida quando se trata de legislação e de instituições-chave. Mas, assim como com aquilo que acontece além desse núcleo, os secularistas deveriam estar mais relaxados. E se devemos nos queixar, precisamos fazê-lo seletiva e proporcionalmente. Deseleger bispos na Câmara dos Lordes é indefensável, e devemo-nos posicionar firme e persistentemente contra isso. Mas tentar usar a Lei dos Direitos Humanos para frear as orações em uma reunião atinge muitos, mesmo aqueles simpáticos à causa, como um exagero. E debater ano após ano sobre o Thought for the Day parece mais uma obsessão do que uma busca de justiça. O que eu estou defendendo é, em parte, pragmático, mas o seu núcleo é inteiramente baseado em princípios.

Permitir a livre expressão e discussão da religião é tanto um princípio inegociável do secularismo, quanto à manutenção da neutralidade das instituições centrais da sociedade civil. Pode ser injusto criticar os secularistas por serem "militantes" ou "agressivos", mas muitas vezes somos desajeitados e desastrados. Se o secularismo passou a ser visto como o inimigo do religioso quando deveria ser seu melhor amigo, então nós, secularistas, devemos compartilhar ao menos uma parte da culpa.


Instituto Humanitas Unisinos (IHU) - 20 de fevereiro de 2012

A reportagem é de Julian Baggini, publicada no jornal The Guardian, 14-02-2012. (A tradução é de Moisés Sbardelotto)




[O Vaticano sempre deu mais importância a crucifixos, que ao sangue derramado de padres, leigos e freiras, por exemplo, na América Latina, quando denunciaram a insuportável ganância das multinacionais ou a injustiça da exploração Capitalista. A escandalosa unilateralidade! A título de exemplo, Dom Óscar Romero (como tantas outras e outros) nunca foi beatificado
 

 Um Papa piegas? Vesgo!
Para Roma o que conta é «religião» e «transcendência»…]


BENTO XVI – RECEPÇÃO AO CORPO DIPLOMÁTICO ACREDITADO JUNTO DA SANTA SÉ
PARA A TROCA DE BONS VOTOS DE INÍCIO DE ANO.


(…)«É preciso implementar políticas de formação para que a educação escolar seja acessível a todos e que a mesma, mais do que promover o desenvolvimento cognoscitivo da pessoa, cuide do crescimento harmonioso da personalidade, incluindo nisso a sua abertura ao Transcendente. (…)«Nesta perspectiva, é bem compreensível que uma obra educativa eficaz exija igualmente o respeito da liberdade religiosa. Esta caracteriza-se por uma dimensão individual, bem como por uma dimensão colectiva e uma dimensão institucional. Trata-se do primeiro dos direitos do homem, porque expressa a realidade mais fundamental da pessoa. Muitas vezes, por variados motivos, este direito é ainda limitado ou espezinhado. Não posso evocar este tema sem começar por saudar a memória do ministro paquistanês Shahbaz Bhatti, cuja luta incansável pelos direitos das minorias terminou com uma morte trágica. E não se trata, infelizmente, dum caso único. Em numerosos países, os cristãos são privados dos direitos fundamentais e postos à margem da vida pública; noutros, sofrem ataques violentos contra as suas igrejas e as suas casas. Às vezes, vêem-se constrangidos a abandonar países que eles mesmos ajudaram a edificar, por causa de tensões contínuas e por políticas que frequentemente os relegam para a condição de espectadores secundários da vida nacional. Noutras partes do mundo, encontram-se políticas tendentes a marginalizar o papel da religião na vida social, como se ela fosse causa de intolerância em vez de uma apreciável contribuição na educação para o respeito da dignidade humana, para a justiça e a paz. O terrorismo religiosamente motivado ceifou, no ano passado, também numerosas vítimas, sobretudo na Ásia e na África. Por esta razão, como lembrei em Assis, os responsáveis religiosos devem repetir, com vigor e firmeza, que «esta não é a verdadeira natureza da religião. Ao contrário, é a sua deturpação e contribui para a sua destruição». A religião não pode ser usada como pretexto para pôr de lado as regras da justiça e do direito em favor do «bem» que ela persegue. Nesta perspectiva, tenho o gosto de recordar, como fiz no meu país natal, que a visão cristã do homem constituiu a verdadeira força inspiradora para os Pais constituintes da Alemanha, como aliás o foi para os Pais fundadores da Europa unida. Queria mencionar também alguns sinais encorajadores no campo da liberdade religiosa. Refiro-me à alteração legislativa, pela qual a personalidade jurídica pública das minorias religiosas foi reconhecida na Geórgia; penso também na sentença do Tribunal Europeu dos Direitos Humanos favorável à presença do Crucifixo nas salas de aulas italianas. E, precisamente falando da Itália, desejo dirigir-lhe uma saudação particular na conclusão dos 150 anos da sua unificação política. As relações entre a Santa Sé e o Estado italiano atravessaram momentos difíceis depois da unificação. Mas, com o passar do tempo, prevaleceram a concórdia e a vontade mútua de cooperar, cada qual no seu próprio campo, para favorecer o bem comum. Espero que a Itália continue a promover uma relação equilibrada entre a Igreja e o Estado, constituindo deste modo um exemplo para o qual as outras nações possam olhar com respeito e interesse.»

9 Janeiro 2012



MISSIONÁRIOS DA CONSOLATA E ESPECULAÇÃO FINANCEIRA

Estado paga a padres de Fátima milhões
perdidos em especulação no BPN

Vítimas de burla de 3,5 milhões por gestor que gastou dinheiro na Bolsa



 
Durante um ano, uma instituição religiosa de Fátima entregou 3,5 milhões de euros a um gestor do BPN que prometia juros superiores aos dos depósitos a prazo. Só que, afinal, o dinheiro foi desviado e perdido na Bolsa. O Estado vai agora pagar tudo.

A condenação do BPN foi decidida pelos juízes do Supremo Tribunal de Justiça, numa acção cível. Estes consideram que o Instituto Missionário da Consolata tem direito a receber tudo aquilo que entregou ao gestor bancário Leonel Gordo, de 46 anos, entre 2004 e 2005, em cheques mas também em dinheiro vivo, para investimentos especulativos e de alto risco.

A conta final é de 3,584 milhões de euros, quantia a que se acrescentam juros desde Abril de 2006. Mas – mesmo com a venda do BPN ao banco de origem angolana BIC −,  a factura será paga pelo Estado português, que é quem assume todas as obrigações do banco nacionalizado em 2008.


Enganados com papéis falsos

Em tribunal foi provado que o gestor do BPN burlou o padre responsável financeiro do Instituto. Convenceu-o a resgatar depósitos a prazo e outras aplicações para investimentos «seguros» e com aliciantes rendimentos, dizendo-se «especialista» no mercado de títulos. Numa ocasião, até fez crer ao sacerdote ter sido promovido no banco por causa desses «profundos conhecimentos».

Segundo o acórdão, a maior parte das entregas de dinheiro e os contactos com o padre eram feitos «pessoalmente» em instalações dos Missionários da Consolata, na Cova da iria.

O gestor evitava a deslocação dos padres à agência do BPN explicando que, visitar os clientes poupando-lhes os incómodos, fazia parte do seu trabalho. E assim foi conseguindo ficar com as verbas, depositando-os em contas por si controladas e investindo na bolsa e em «warrants» (altamente especulativa).

Durante meses, a instituição não teve informação oficial do BPN sobre os investimentos. Mas, quando a pediu, recebeu do gestor, em três ocasiões, papéis sem carimbo do banco. Eram falsos. Esta aparente falta de controlo das contas levou a Relação a atribuir culpas aos padres, numa proporção de 25% dos danos. Só que o Supremo não concorda e obriga o BPN a pagar os 3,5 milhões.

A fraude só veio a lume quando, após contacto com outros funcionários do BPN, o padre perguntou ao gestor o que se passava. Este confessou estar «desesperado e perdido» por ter desviado o dinheiro. Não foi perdoado e acabou condenado, em 2008, por burla e falsificação, a quatro anos e meio de cadeia, com pena suspensa.

Jornal de Notícias’, 3 Janeiro de 2012 (p.3)
por Nuno Miguel Maia


[Título de capa: «Vamos pagar 3,5 milhões a padres burlados pelo BPN». No interior, fotos do Instituto Missionário da Consolata e do ‘HOTEL PAX’, Fátima, propriedade do Instituto]

[Os Missionários estão em Portugal desde 1943, exploram o HOTEL PAX, mas também possuem uma conta bancária em nome de «Missões Consolata – Artigos Religiosos». O Hotel dispõe de salão de conferências para 200 pessoas e uma loja de artigos religiosos e regionais]