teologia para leigos

17 de fevereiro de 2012

ESCÂNDALO E IMPOTÊNCIA NO VATICANO



''Por trás do escândalo, a intensificação do confronto entre
«Comunhão & Libertação» e «Opus Dei»''





 
Para esclarecer mais as razões profundas que movem o fornecimento de notícias dos palácios vaticanos aos mídia e o  conflito em andamento dentro da cúpula eclesiástica, a Adista entrevistou Ferruccio Pinotti, jornalista de investigação, autor de inúmeros livros sobre as finanças vaticanas, assim como sobre o Comunhão e Libertação e o IOR [‘Instituto das Obras Religiosas’, o chamado Banco do Vaticano].


P/ O que você pensa sobre o escândalo que estourou depois das revelações feitas pelo canal La7 sobre caso Viganò?

R/ Parece claro que está em curso um confronto interno ao Vaticano que está chegando a um nível muito elevado e que tem hoje como objetivo principal o secretário de Estado, o cardeal Bertone, e a sua entourage.

P/ Você, portanto, é da ideia de que o episódio não estourou casualmente, mas sim como fruto de uma estratégia interna aos âmbitos eclesiásticos. Um pouco como o caso Boffo de 2009... Além disso (como testemunha a palavra "recebida" estampada na parte superior direita do original mostrada por Gianluigi Nuzzi), a carta de Viganò ao cardeal Bertone saiu da Secretaria de Estado, não do arquivo privado do ex-secretário do Governatorato...

R/ Sim, é uma hipótese muito realista. No Vaticano, há anos, está em andamento uma guerra entre correntes. O conflito, da forma como está se desenvolvendo hoje, me parece um pouco confuso nos resultados e, em todo o caso, muito pouco governável. O fornecimento de notícias dada como alimento aos meios de comunicação é testemunha disso. Bertone, na Cúria, sempre teve inimigos. Mas acho que hoje a hostilidade contra ele se agudizou por consequência da operação que o secretário de Estado realizou de forme muito decisiva para a aquisição do [hospital] San Raffaele de Milão. O projeto de expansão dos interesses vaticanos no âmbito da saúde, por si só, certamente entra em conflito com os históricos interesses nesse setor por parte do Comunhão e Libertação (CL). Mas levar esse projeto justamente para a Lombardia, no coração do poder ciellino [referente ao CL], e ainda mais visando o San Raffaele, um hospital que obtém 450 milhões de euros por ano de reembolso público pelos serviços de saúde prestados, bem, esse talvez foi o risco que Bertone está pagando. E, com efeito, entre os opositores mais acesos da tentativa de escalada de Bertone ao San Raffaele, estava justamente o cardeal Scola, cuja ação se uniu à dos âmbitos próximos à CEI [Conferência dos Bispos da Itália] e a um certo número de expoentes da Cúria que, nos últimos anos, haviam sido postos progressivamente à margem por Bertone.




P/ Bertone foi defendido nestes anos pelo Opus Dei (na cúpula do IOR, senta-se, entre outros, um dos seus supranumerários, Ettore Gotti Tedeschi), que teria voltado novamente à fracassada operação de aquisição do San Raffaele junto com o empresário Malacalza. Estaria se repropondo, portanto, em um plano intraeclesial, além do econômico-financeiro, o tradicional confronto entre CL e Opus Dei?

R/ Sim, com uma diferença com relação ao passado: o Opus Dei não tem mais aquela atitude de superioridade e de arrogante indiferença que tradicionalmente teve contra o movimento do Pe. Giussani, quando a «Obra» [OD] se ocupava das altas finanças e deixava ao «Comunhão e Libertação» [CL] os contratos e as relações com os governos locais. Uma mudança que eu pude constatar pessoalmente nas declarações que, no encontro de Rimini de 2009, me foram dadas pelo próprio porta-voz do Opus Dei na Itália, Giuseppe Corigliano, muito atento em buscar um diálogo com o CL, ao enfatizar os carismas que tornavam a Obra semelhante ao movimento de Giussani. Certamente, ao mesmo tempo, se notava também um certo constrangimento de Corigliano diante da exibição de grandeza e de poder que caracteriza as kermesse do CL e que não tem nada a ver com o estilo do Opus. Um desconforto que, para além do desapontamento, talvez escondesse também um certo desejo de imitação.

P/ Certamente, hoje, mais do que o confronto entre as duas forças, parece haver um choque entre duas fraquezas, se é verdade que o Opus, no fim, não se deu bem na tentativa de reforçar a sua presença no setor da saúde, e o CL não está passando por um período muito feliz do ponto de vista político e judicial...

R/ Se somarmos a isso a crise econômica, provavelmente conseguiremos explicar também a intensidade que o confronto intraeclesial atingiu nos últimos meses e que é difícil de detectar, pelo menos nessas formas, em épocas anteriores vividas pela Igreja Católica pós-conciliar.

P/ Você considera o papa como espectador, apesar do confronto em andamento, ou como parte interessada, por ter nomeado Bertone e ter apoiado a sua ação?

R/ É difícil responder. Historicamente, esse papa teve ótimas relações com o Comunhão e Libertação [CL], do qual sempre admirou o espírito e a ação eclesial. Não por acaso são Memores Domini [membros leigas do CL] que prestam o serviço no apartamento pontifício. Mas o Opus Dei também teve uma relação privilegiada com o papa atual. Alguns chegam a defender que a Obra desempenhou um papel importante na própria eleição de Bento XVI. Portanto, considero que Ratzinger, hoje, prefere mediar entre os diversos interesses em campo. Mas, objetivamente, até pelo nível do que está em jogo e dos atores em campo, a situação lhe escapou das mãos. Em suma, está em andamento na Igreja um projeto disruptivo que, muito dificilmente, o papa ou Bertone poderão levar novamente à unidade.

P/ Mas Bento XVI deu muito poder justamente a essas realidades que, hoje, na Igreja, combatem abertamente a sua própria luta pela hegemonia...

R/ A contradição está justamente aí. Esse papa, hoje, gostaria de levar à ordem justamente lefebvrianos, legionários, neocatecumenais, ciellini, opusdeístas. Mas tratam-se de estruturas às quais, nos últimos anos, especialmente sob o pontificado de João Paulo II, foi concedida uma autonomia enorme do ponto de vista doutrinário, eclesial e, sobretudo, financeiro. Hoje, portanto, os impulsos centrífugos, desencadeados pela próprio pontificado wojtyliano (dentro do qual Ratzinger desempenhou um papel nada secundário) parecem muito mais fortes do que os centrípetas, e eu não acredito que o papa conseguirá reconduzir à unidade setores do corpo eclesial que já se tornaram muito influentes, até por causa do enorme poder financeiro acumulado. E que combatem a sua batalha uns contra os outros em projetos muito complexos e diferentes, que vão das estratégias políticas às alianças com os banqueiros e o mundo industrial, das finanças à aquisição de hospitais e universidades, da ocupação dos postos-chave no organograma vaticano às nomeações episcopais.


 IHU – INSTITUTO HUMANITAS UNISINOS

15 Fevereiro 2012.
[Entrevista com Ferruccio Pinotti]

A reportagem é de Valerio Gigante, publicada na pela agência Adista, 18-02-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.



LER MAIS:







16 de fevereiro de 2012

FUNÇÃO PÚBLICA - O BODE EXPIATÓRIO

Função Pública sob ataque

«Funcionários públicos insatisfeitos podem sempre demitir-se» [João Almeida, CDS-PP, à TSF]


 
Esta sexta-feira, o governo irá discutir com os sindicatos a extensão dos cortes aplicados no privado à função pública. Em causa estão, entre outros, a introdução do banco de horas e a diminuição do valor pago por horas extraordinárias. Executivo quer ainda impor mobilidade geográfica total aos funcionários públicos.

Segundo noticia a Lusa, o governo terá enviado um documento aos sindicatos, a ser sujeito a discussão na próxima sexta-feira, onde é proposta a aplicação das alterações laborais decorrentes do 'Compromisso para o Crescimento, Competitividade e Emprego' na função pública.

Em causa estão matérias como a diminuição do número de feriados, a criação de um banco de horas, a diminuição para metade do valor da remuneração do trabalho extraordinário, que, ao contrário do que havia sido acordado com a troika, passa a ter caráter definitivo, e a eliminação do descanso compensatório.

Durante a reunião de sexta-feira, será ainda discutida a extinção de 23 carreiras e categorias e será dado um 'pontapé de partida' para a discussão da alteração do sistema de avaliação de desempenho da administração pública (SIADAP).


Governo exige mobilidade geográfica total aos funcionários públicos

Segundo a proposta apresentada pelo executivo do PSD/CDS-PP, os funcionários públicos poderão também vir a ser obrigados a mudar de serviço ou de organismo, ainda que o mesmo se situe em qualquer outra zona do país que não a sua área de residência.

A lei em vigor já permite “alguma mobilidade geográfica sem o acordo do trabalhador”, segundo admite o próprio secretário de Estado da Administração Pública, mas “impõe limites que podem dificultar uma distribuição de recursos humanos mais ajustada às necessidades da Administração Pública”, lamenta Hélder Rosalino.

Atualmente, os funcionários já poderão ser obrigados a mudar para qualquer outro concelho, se as deslocação em transportes públicos não representarem despesas superiores a 8% da remuneração líquida, ou não excederem as despesas de deslocação para o serviço de origem, e desde que a viagem não supere 25% do horário de trabalho.

Caso a proposta apresentada pelo governo se venha a concretizar, os funcionários públicos poderão vir a ser obrigados a pagar para trabalhar, mediante as despesas inerentes à sua recolocação.

Ana Avoila, da Frente Comum, já veio afirmar em declarações à agência Lusa que não é admissível qualquer negociação que aponte para um recuo dos direitos dos trabalhadores do Estado.

O secretário coordenador da Frente Sindical da Administração Pública (FESAP) também já garantiu à Lusa que não vai aceitar as novas regras para a mobilidade geográfica. Os trabalhadores “não são peças ou máquinas que se transfiram de um lado para o outro”, realça Jorge Nobre dos Santos.


15 Fev 2012
Esquerda.net



[NOTA:  Em França, há alguns anos, esta política resultou em inúmeros suicídios em funcionários bancários e em funcionários dos Correios…]

JESUS REPROVOU NA CATEQUESE

«Teus pecados estão perdoados» [Mc 2,1-12]



 
TEUS PECADOS ESTÃO PERDOADOS!!!”
O PRIMEIRO CONFLITO PROVOCADO PELO ANÚNCIO DA BOA NOVA

 
Nos anos 70 dC, época em que Marcos escreveu, havia muitos conflitos na vida das comunidades, mas elas nem sempre sabiam como comportar-se diante das acusações que vinham da parte das autoridades romanas e dos líderes dos judeus. Este conjunto de cinco conflitos de Marcos 2,1 e 3,6 servia como uma espécie de cartilha para orientar as comunidades, tanto as de ontem como as de hoje. Pois o conflito não é um acidente de percurso, mas sim parte integrante da caminhada.


COMENTÁRIO

Marcos 2,1-2: O povo procura Jesus e quer ouvir a Palavra de Deus.


Depois de uma das suas viagens pelas aldeias da Galileia, Jesus estava de volta a Cafarnaum. Quando o povo soube disso, foi toda a gente para lá. Juntou uma multidão na porta da casa. Jesus acolheu a todos e começou a ensinar. O que será que ele ensinava?

Jesus anunciava a Boa Nova de Deus (Mc 1,14). Falava ao povo sobre Deus e, para isso, usava exemplos da vida (parábolas) e da história do povo (Bíblia). O povo conhecia a vida e a Bíblia, mas Jesus falava delas de um jeito novo, diferente. Falava a partir da experiência que ele mesmo tinha de Deus e da vida. Jesus vivia em Deus. Ele deve ter tocado o coração do povo que gostava de ouvi-lo (Mc 1,22.27). Deve ter falado muito bonito sobre Deus. A partir da pregação de Jesus, Deus, em vez de ser um juiz severo que de longe ameaça o povo com castigo e inferno, tornava-se, de novo, uma presença amiga no meio do povo, uma Boa Nova.


Marcos 2,3-5: A solidariedade dos amigos consegue o perdão dos pecados para o paralítico.

Enquanto Jesus está falando, chega um paralítico, carregado por quatro pessoas. Jesus é a única esperança deles. Por isso, não hesitam em subir no telhado e tirar as telhas. Significa que a casa não era das melhores. Deve ter sido um barraco coberto de folhas. Eles descem o homem em frente a Jesus. Sinal de muita solidariedade. Jesus, vendo a fé deles, diz ao paralítico: ‘Teus pecados estão perdoados!’ Naquele tempo, o povo achava que defeitos físicos (paralíticos) eram todos castigos de Deus por algum pecado. Os doutores ensinavam que tal pessoa ficava impura e tornava-se incapaz de aproximar-se de Deus. Por isso, os doentes, os pobres, os paralíticos e tantos outros se sentiam rejeitados por Deus!

Mas Jesus não pensava assim. Ele achava o contrário. Aquela fé tão grande era, para ele, um sinal de que o paralítico estava sendo acolhido por Deus. Por isso, Jesus declarou: "Teus pecados estão perdoados!" Ou seja, "Você não está afastado de Deus!" Com esta afirmação Jesus negou que a paralisia fosse um castigo pelo pecado do homem.


Marcos 2,6-7: Jesus é acusado de blasfémia pelos donos do poder.

A afirmação de Jesus era contrária ao catecismo dos doutores da lei. Não combinava com a ideia que eles tinham de Deus. Por isso, reagiram e, dentro dos seus corações, acusaram Jesus: "Ele blasfema!" Conforme o ensino deles, era só Deus que podia perdoar os pecados. E era só o sacerdote que podia declarar uma pessoa perdoada e purificada. Como é que esse Jesus de Nazaré, homem sem estudo, leigo, um simples operário, carpinteiro, andava declarando as pessoas perdoadas e purificadas dos pecados? Mas havia ainda um outro motivo que os levava a criticar Jesus. Eles devem ter pensado: "Se for verdade o que esse Jesus está falando, nós vamos perder nosso poder! Vamos perder também nossa fonte de renda."


Marcos 2,8-11: Ao curar, Jesus prova que tem o poder de perdoar os pecados.

Jesus percebeu que eles o condenavam. Por isso, pergunta: "O que é mais fácil: dizer: 'Teus pecados estão perdoados!' ou dizer: 'Levanta-te e anda?'" Evidentemente, é muito mais fácil dizer: "Teus pecados estão perdoados!" Pois ninguém pode verificar se de fato o pecado foi ou não perdoado. Mas se eu digo: "Levanta-te e anda!", aí todos poderão verificar se tenho ou não esse poder de curar. Por isso, para mostrar que tinha o poder de perdoar os pecados em nome de Deus, Jesus disse ao paralítico: "Levanta-te, toma o teu leito e vai para casa!" Curou o homem! Assim provou, através de um milagre, que a paralisia do homem não era um castigo de Deus e mostrou que a fé dos pobres é uma prova de que Deus os acolhe no seu amor.


Marcos 2,12: A reacção do povo – Nunca vimos tal coisa!

O paralítico se levanta, pega seu leito, começa a andar, e todos anunciam: Nunca vimos coisa igual!

Este milagre revelou três coisas muito importantes:

1) As doenças das pessoas não são consequências dos seus pecados. Os doentes não devem achar que estão sendo castigados por Deus.

2) Jesus abriu um novo caminho para Deus. Aquilo que o sistema chamava de impureza já não era empecilho para as pessoas se aproximarem de Deus.

3) O rosto de Deus revelado através da atitude de Jesus era bem diferente do rosto severo do deus revelado pela atitude dos doutores. Isto lembra a fala de um drogado que se recuperou e agora participa de uma comunidade em Curitiba. Ele disse: "Fui criado na religião católica. Deixei de participar. Meus pais eram muito praticantes e queriam que nós, os filhos, fôssemos como eles. A gente era obrigado a ir à igreja sempre, todos os domingos e festas. E quando não ia, eles diziam: 'Deus castiga!' Eu ia a contragosto, e quando fiquei adulto, fui deixando aos poucos. Eu não gostava do Deus dos meus pais. Não conseguia entender como Deus, criador do mundo, ficasse em cima de mim, menino da roça, ameaçando com castigo e inferno. Eu gostava mais do Deus do meu tio que não pisava na Igreja mas que, todos os dias, sem falta, comprava o dobro de pão de que ele mesmo precisava para dar para os pobres!"


 ALARGANDO

Doença e Pecado

Como dissemos, naquele tempo, se ensinava que todo sofrimento era fruto de algum pecado [‘religião culpabilizante…’]. Por isso, diante do cego de nascimento, Pedro perguntava: "Quem pecou, ele ou seus pais para ele nascer cego?" (Jo 9,1-3). Jesus respondeu: "Nem ele nem seus pais". Jesus desliga o pecado da pessoa doente. Ele não permite que as autoridades religiosas manipulem a religião, pois elas, em nome do sistema, atiravam à cara do paralítico: "Você é um pecador!" [vulgo: ‘Você é o único culpado de estar assim… Alguma você andou aprontando…’] Jesus faz ao contrário: "Você não é pecador! Deus o acolhe, mesmo sendo paralítico. Sua doença não é fruto do seu pecado!" Ter a coragem de fazer esta afirmação diante das autoridades presentes era uma revolução! Uma mudança muito grande!

O povo vibrava com Jesus, porque ficava mais livre!

Este é um lado da medalha. Tem o outro lado.
De fato, muito sofrimento é fruto de algum pecado. Por exemplo, o sofrimento da mãe que chora o assassinato do filho. Jesus tem algo a dizer sobre este outro lado. Certa vez, teve um desastre em Jerusalém. Uma torre caiu e matou 18 pessoas (Lc 13,4). Em outra ocasião, Pilatos matou um grupo de galileus e misturou sangue deles com o sangue dos sacrifícios (Lc 13,1). Jesus perguntava: "Vocês acham que eles eram mais pecadores do que os outros habitantes de Jerusalém? Eu lhe digo que não, mas se não houver arrependimento, mudança, muita gente ainda vai morrer do mesmos jeito" (Lc 13,2.4). Não houve arrependimento nem mudança e, 40 anos depois, Jerusalém foi destruída: muitas torres caíram e muito sangue foi derramado!

Em outras palavras: muitos dos males que sofremos não são uma fatalidade, mas sim consequência de acções pecaminosas. Outros são fruto da cultura. Outros ainda são fruto do sistema neoliberal que nos foi imposto e que nos oprime.

 Por isso, os males que sofremos são um apelo à conversão. Apelam para a nossa responsabilidade.

O que entrou no mundo como fruto de acções livres para o mal pode ser expulso do mundo através de acções livres para o bem!



CARLOS MESTERS & MERCEDES LOPES

CEBI, 15 Fevereiro 2012


[Nota da edição: Verdadeiramente, só há um tipo de Mal que conta: aquele que intencionalmente fazemos uns aos outros. Tudo o mais é reflexo dos limites (estreitos, insatisfatórios…) a que estamos sujeitos nesta vida, nesta terra. Há coisas que, de facto, não são da nossa responsabilidade… e muito menos de Deus. A isso chamamos «os desafios da vida». Sempre houve e sempre haverá filosofias que dizem que o mundo é um lugar onde andamos a 'pagar culpas passadas' e não um lugar de gozo e felicidade palpáveis, possíveis]

15 de fevereiro de 2012

JESUS, O ROSTO HUMANO DE DEUS LIBERTADOR



A humanidade de Jesus
como divindade e amor

José Ignacio González Faus acredita que, depois de Jesus, fica muito claro e normativo que toda a moral se condensa no amor desinteressado ao próximo. Na entrevista que aceitou conceder, o teólogo jesuíta González Faus alerta para o risco de deixarmos de lado a humanidade de Jesus: “é que, daí, ficamos com um Deus falso, porque a humanidade de Jesus é a única imagem, ou o único rosto que temos de Deus”. E explica: “por não se ter atendido devidamente à dimensão «humanidade de Jesus», boa parte da teologia tradicional eliminou por completo o carácter ‘revelador de Deus’ em Jesus, e ficou só com seu caráter ‘redentor’. Isso foi fatal, ainda que possa compreender-se como «a portagem» paga para a respectiva «entrada/inculturação» do cristianismo no mundo grego. E hoje é imprescindível superar isso porque senão estaremos anunciando um deus falso: o deus de Platão ou de Aristóteles, mas não o Deus de Jesus”. González Faus ainda acrescenta que “a fé em Jesus Cristo implica hoje uma conversão não só de nossa dimensão ‘pagã’ ou incrédula, como também de nossa dimensão religiosa”. José Ignacio González Faus é jesuíta, doutorado em Teologia, foi professor de Teologia Sistemática na Faculdade de Teologia de Barcelona [hoje, Professor Emérito] e na UCA, de San Salvador. Além disso, leccionou como professor convidado em vários países da América Latina. Atualmente é responsável académico do Centro de Estudos "Cristianismo e Justiça". Entre as suas obras mais importantes, citamos: «A Humanidade Nova - Ensaio de Cristologia», e «Acesso a Jesus».



Instituto Humanitas Unisinus [IHU, on-line] - Como descreve o rosto humano de Jesus?
José Ignacio González Faus [JIGF] - Podemos valer-nos das duas expressões que mais são usadas, acerca dele, nos evangelhos: “lhe comoveram as entranhas”; “se admiravam de sua eksousía ” (palavra que traduzirei em seguida); e de outras duas que aparecem exclusivamente em sua boca: se auto-denominava “O Filho do Homem”, e acusava a muitos homens religiosos de seu tempo de “hipócritas”.
A - Jesus viveu nesta terra com as entranhas comovidas pela dor dos homens. Essas entranhas comovidas são a fonte da liberdade e da autoridade com que actua. B - A palavra eksousía não traduzi porque em grego significa liberdade e autoridade. O Novo Testamento a usa com ambos os significados, às vezes mudando em um mesmo texto: Jesus chama a atenção por uma liberdade que é fonte de sua autoridade, não fala nem actua segundo os clichês oficiais, mas segundo sua experiência da vontade de Deus. E certamente, creio que não há maior fonte de liberdade que uma experiência profunda de Deus, de Jesus e que essa liberdade engendra sempre uma autoridade que não é exterior (como a de nossas autoridades que Santa Teresa chamava “postiças”), mas que brota de dentro. C- Além disso, Jesus se qualificava a si mesmo como “O Homem” (com uma expressão aramaica ambígua – “Filho do Homem” - que pode significar simplesmente “ser humano”, mas pode ser também um título de dignidade: autodefine-se a partir essa ambiguidade de homem que inclui a pequenez e a grandeza máximas). E, sendo judeu até a medula, entra às vezes em conflito, porque também seu povo havia caído no que é a máxima tentação de toda religiosidade: usar a Deus em proveito próprio. D - Jesus costumava chamar isso de hipocrisia, palavra que vem do teatro grego (e que, segundo alguns críticos, Jesus pode ter aprendido em Séforis, cujo teatro parece ter estado em construção ou remodelação na época de Jesus e onde alguns suspeitam que pode ter ido vender suas pequenas manufaturas). Essa hipocrisia faz os homens enormemente “cegos” (outra palavra que também aparece muito nos lábios de Jesus).

IHU On-Line - Como responde hoje à pergunta: quem foi Jesus (do ponto de vista histórico)?
José Ignacio González Faus – Têm-se escrito milhares de páginas para responder a essa pergunta. O que direi deverá ser muito simples. Jesus era um judeu até à medula que, não obstante, entrou em conflitos muito sérios com o sector mais poderoso do judaísmo de seu tempo. Era um homem até ao tutano, o que resulta conflituoso (e sedutor também) para todo o género humano. Deduzia como iminente a chegada de uma nova situação humana que ele qualificava, com o léxico de seu tempo, como Reinado de Deus[ou «Império de Deus» por oposição ao «Império de Roma» - na expressão de Warren Carter] e que significa duas coisas: a) uma situação na qual nenhum poder terreno reina sobre o homem (o que mais tarde levará a conflitos com o Imperador), e: b) uma situação na qual se torna claro que Deus “faz justiça aos oprimidos, dá pão aos famintos, liberta os cativos, dá vista aos cegos, sustenta aos que sucumbem, ama aos justos, acolhe aos peregrinos, recebe o órfão e a viúva, e transforma o caminho dos malvados”. É numa situação destas (diz o Salmo 146) que, então, “Deus reina”. E isso era o que Jesus anunciava.

IHU On-Line - Em que sentido a realidade do Jesus histórico pode interferir nas origens da fé cristã?
José Ignacio González Faus - Na fé cristã interferem decisivamente não só a realidade do Jesus histórico antes esboçada, mas seu destino. Jesus fracassou historicamente; e triunfou meta-historicamente: sua morte na cruz foi a “desautorização de sua pretensão” (Moltmann), feita em nome de Deus. E a sua ressurreição é a confirmação desta pretensão da parte de Deus, com alguns alcances insuspeitos: porque sua ressurreição inclui a todos nós em um duplo sentido: a) com a chegada do Messias (o do Reino), inclui-se todo o género humano mesmo o que existe para lá do judaísmo, cuja chegada significa, mais do que o seu ‘cumprimento absoluto’, a universalização da promessa. E b), porque afecta não só a vítima (e, n’Ele, todas as vítimas da história), como também aos carrascos e cúmplices daquele destino.

Eu costumo dizer que a Páscoa ilumina a cruz, mas não a elimina. Não a elimina porque a cruz é histórica e a páscoa meta-histórica. Ilumina-a porque a Meta-história é o fundamento de uma história com sentido e concebida como progresso. O céu do além não elimina esta terra, mas ilumina-a: porque não pode haver fé cristã sem uma tentativa de antecipar o céu na terra. E digo apenas antecipar, e não traduzir ou substituir o céu pela terra, porque isso só leva a criar infernos.

 IHU On-Line - Quais os principais impactos que Jesus provocou na sociedade de sua época?
José Ignacio González Faus - É preciso expressá-los de maneira dialéctica: a esperança e o desconcerto (que terminam na pergunta: «quem será este); a sedução e a subversão (que põem em marcha o seguimento, com os seus riscos); e a irradiação e as dificuldades (que convertem o “ir com Ele” em “tomar a cruz de cada dia”).

IHU On-Line - Como a postura humana do nazareno influi na base moral do cristianismo?
José Ignacio González Faus - Depois de Jesus fica muito claro e normativo que toda a moral se condensa no amor desinteressado ao próximo e que toda moralidade à margem desse amor (não digamos contra ele) deixa de ser moralidade e se converte em farisaísmo. Isto pode não ser totalmente novo, mas agora explicita-se e reafirma-se muito mais. Pois bem: o amor chega muito mais além que a “Lei”: obriga menos, mas pode pedir mais. Isso abrirá a porta para que, devendo haver uma moral “racional” comum a todos e útil para viver na comunidade humana, pode haver demandas e responsabilidades maiores precisamente para os cristãos. (Devo acrescentar com dor que às vezes a Igreja oficial parece proceder ao contrário).

IHU On-Line - Quais os riscos de se deixar de lado a humanidade real de Jesus?
José Ignacio González Faus – O risco é que daí ficamos com um Deus falso, porque a humanidade de Jesus é a única imagem, ou o único rosto que temos de Deus. Por se ter dado pouca importância à humanidade de Jesus, boa parte da teologia tradicional eliminou por completo o carácter “revelador de Deus” em Jesus, e ficou só com seu carácter “redentor”. Isso foi fatal, ainda que possa compreender-se como «a portagem» paga pela entrada-inculturação do cristianismo no mundo grego. E hoje é imprescindível superar isso porque senão estaremos anunciando um deus falso: o deus de Platão ou de Aristóteles, mas não o Deus de Jesus. Com muita razão escreveu Bonhoeffer nas suas cartas da prisão que “o Deus que se revela em Jesus põe do avesso tudo o que o homem religioso espera de Deus”. E daí que a fé em Jesus Cristo implique hoje uma conversão não só de nossa dimensão “pagã” ou incrédula, como também de nossa dimensão religiosa.

IHU On-Line - Em que medida conhecer melhor o Jesus homem pode contribuir para a construção da sociedade e da cultura pós-moderna e para o diálogo inter-religioso?
José Ignacio González Faus - Primeiro: creio que a fé em Jesus poderia libertar toda a Modernidade (da qual viemos) da sua conversão em “maldição da Lei” que – como já dizia Pedro no “concílio de Jerusalém” - acaba impondo cargas insuportáveis, e que gerou a reação pós-moderna, tão desenganada dos ideais de nossa Modernidade como podia estar o “fariseu irrepreensível” (Paulo) de sua antiga militância fariséia. Mas, a fé em Jesus é uma dura crítica a esse niilismo descafeinado de nossa pós-modernidade que utiliza o desengano como desculpa para a própria preguiça, e que ficou só com o progresso tecnológico da Modernidade, e com a redução dos direitos humanos a só “meus próprios direitos” (que acabam sendo meus próprios egoísmos). Neste sentido, a partir de Jesus, poderia acontecer algo que se tem reclamado tanto desde o cristianismo como mesmo a partir de fora dele: uma crítica séria da Modernidade, feita a partir de dentro dela mesma. Segundo: entendo o diálogo como diálogo da vida: convivência e colaboração; [cf. Aloysius Pieris e um novo paradigma para o diálogo religioso] não como diálogo no sentido intelectual que (a meu modo de ver) é algo que só pode acontecer quando já existe deveras o outro diálogo da vida, sob pena de converter-se em um exercício pouco útil de esgrima intelectual. A partir daqui, responderia: Todas as religiões podem ser chamadas, sem perder sua identidade, a seguir a Jesus, ainda que não sejam chamadas a crer n’Ele [cf. a obra de Andrés Torres Queiruga]. A interpelação do homem Jesus sobre a identidade entre amor, misericórdia e liberdade e sobre a sacralidade de “pobres e enfermos”, vale para todos os homens, em minha opinião. O cristão não poderá pedir aos homens de outras religiões que olhem a cruz de Jesus como “morte de Deus”, mas sim que a erijam às vítimas da terra e da história como “controle de qualidade” que deve atravessar toda fé em Deus, venha ela de onde vier, sem negar nenhuma das verdades que possa aportar. Neste sentido, gostaria de dizer que, mais que ‘teocentrismo’, ‘cristocentrismo’ ou ‘eclesiocentrismo’, [que são as posturas de Bento XVI na chamada «NOVA EVANGELIZAÇÃO»] o ponto comum a todas as religiões deve ser um antropocentrismo pneumatológico.

IHU On-Line - Qual a importância da humanidade de Jesus para a compreensão de sua divindade?
José Ignacio González Faus – A humanidade de Jesus leva-nos a compreender a divindade não como poder, mas como amor. O balanço de todo o Novo Testamento foi a frase da primeira carta de João “Deus é Amor”, e não: Deus é poder. E a chamada omnipotência de Deus deve ser entendida como o poder débil do amor. Sintomático deste esquecimento me parece a constante presença, nas orações da Igreja, do adjectivo “Deus Todo Poderoso”. Esse adjectivo está ausente na Bíblia: só se acalenta no Apocalipse, para apoiar os cristãos perseguidos recordando que, apesar de tudo, Deus é mais forte que seus perseguidores e continua tendo a última palavra sobre a história. Depois disso passou para a linguagem eclesiástica a partir da visão neo-platónica de Deus que difunde o chamado Pseudodionísio. E quero acrescentar que isto tem consequências importantes: já no século II, Santo Ignacio de Antioquia, em uma de suas cartas, critica os que negavam que o messias veio “na carne” (onde a palavra carne não tem só o sentido neutro de matéria, mas um sentido mais negativo de pouquidade humana). E a crítica que lhes faz é: precisamente por isso não se preocupam com os pobres, nem com o órfão, nem com a viúva, nem com o amor aos irmãos... A Humanidade de Jesus força-nos a buscar a Deus não em uma suposta “verticalidade” abstracta, mas em uma horizontalidade transformada e agraciada pela presença de Deus nela. Com uma frase dita muitas vezes: Deus encarnou para que não O procurássemos nas igrejas, mas nos irmãos. Se vamos, se devemos ir à Igreja não é para O encontrar a Ele, mas para buscar a luz, o calor e a força que nos permitam encontrá-lo nos irmãos. [Fim]

Graziela Wolfart, IHU, entrevistou.
Revista do Instituto Humanitas Unisinos on-Line
06:VII:2010






14 de fevereiro de 2012

PALAVRAS SUBLIMES OU CARREGAR COM O FARDO DOS FRÁGEIS?

«Desde há muito que me impressiona o contraste entre a estátua de O Pensador, de Rodin, e a do bodisatva meditativo, que preside no templo de Chuuguji, em Nara (Japão). O primeiro, seguro da sua força, coloca-se tenso para pensar. O segundo concentra o seu olhar compassivo e sapiencial sobre a frágil condição humana; está sentado em postura de lotus, atento mas ao mesmo tempo relaxado e distendido, receptivo a fim de se deixar iluminar e transformar a partir «da outra margem» [Juan Masiá]

«Diz-me como fazes as perguntas, como escolhes, como confias e eu te direi quem és.»

Desde há um século que o conceito de «vida», para o Vaticano, se limita a dois espaços temporais: da concepção até ao nascimento e quando a morte se aproxima… Ou seja, a maior parte da vida dum ser humano, para o Vaticano, não é tão importante assim… Exige-se uma revisão da hermenêutica antropológica oficial!


em Baião_Casa da Isabel e do Manel

 
Gerar vida e gerar morte


 
Espanta-me a facilidade como alguns clérigos e bispos afirmam poder distinguir com clareza as forças que geram vida e as que geram morte. Discorrem como se estivessem num campo de certezas. Nem percebem que o próprio uso dessas duas palavras principalmente nos seus discursos acalorados sobre a importância de escolhermos a vida conduz quase necessariamente a defender armadilhas de morte e provocar formas sutis de violência.

O que é vida? O que é morte? É possível que a morte se sustente fora da vida e a vida fora da morte? Não somos nós vida e morte ao mesmo tempo? Não somos sempre aprendizes, caminhando trôpegos, dando um passo depois do outro nas escolhas diárias que tentamos fazer?

Faz algum tempo que a Igreja Católica no Brasil vem desenvolvendo uma linha equivocada de defesa da vida. Quando falam da defesa da vida reduzem o termo vida à vida do feto humano e, assegurados da vida do feto esquecem-se de todos os outros aspectos e personagens reais da complexa teia da vida. Fico me perguntando de novo porque insistem nesse erro e nesse limite lógico condenado também de muitas maneiras pelos muitos filósofos e teólogos da Tradição Cristã. Distanciam-se até das últimas reflexões de Bento XVI que, com justeza, discorre sobre a complexidade da vida no universo, incluindo-se a vida humana.

 Espanta-me constatar mais uma vez a pouca formação filosófica e teológica de parte do episcopado e de muitos clérigos que se arvoram a defender a vida, mas atiram pedras em pessoas que consideram "mal-amadas" só por defenderem um ideário diferente do seu. Porquê "mal-amada" ou "mal-amado" seria uma forma de menosprezar ou diminuir as pessoas? O que de fato querem dizer com isso? Não somos todos nós necessitados de amor? Não é o amor a missão cristã? Não é para os desprezados, esquecidos e mal-amados que o Cristianismo diz manter sua missão a exemplo de Jesus?

É desconcertante perceber que usam expressões desse tipo e instrumentalizam a mensagem cristã para afirmar desacordos de posições, como o fez D. Benedito Simão, bispo de Assis e Presidente da Comissão pela Vida do Regional Sul I da CNBB.

Em entrevista ao Grupo Estado de São Paulo na semana passada, por ocasião da escolha da Professora e Doutora Eleonora Menicucci como ministra da Secretaria de Políticas para Mulheres, o referido bispo classificou a nova ministra de "mal-amada" e, com isso desrespeitou-a e incitou ao desrespeito e à falta de diálogo em relação à responsabilidade pública de enfrentar os sérios problemas sociais. Seria o bispo então um privilegiado "bem-amado"? A partir de que critérios? O desrespeito às histórias e escolhas pessoais, às muitas dores e razões de muitas mulheres torna-se moeda corrente em muitas Igrejas cristãs que se armam para uma chamada "guerra santa" sem a preocupação de aproximar-se das pessoas envolvidas em situações de desespero. Usam sua autoridade junto ao povo para gritar palavras de ordem e em nome de seu deus confundir as mentes e os corações.

 Perdeu-se a civilidade. Perdeu-se o desejo de consagração à sabedoria e ao bom senso. Perdeu-se a escuta aos acontecimentos e à aproximação respeitosa das dores alheias. Apenas se responde a partir de PRINCÍPIOS e de pretensa autoridade.

Mas, o que são os princípios fora da vida cotidiana das pessoas de carne e osso? Qual é o tecto dos princípios? Quem os estabelece? Onde vivem eles? Como se conjugam nas diferentes situações da vida?

O convite ao pensamento se faz absolutamente necessário quando as trevas da ignorância obscurecem as mentes e os corações. Nesse momento crítico de descrença em relação a muitos valores humanos, as atitudes policialescas de um ou mais bispos, de clérigos e pastores, assim como de alguns fiéis nos apavoram. A ignorância das próprias fontes do Evangelho e a instrumentalização da fé dos mais simples nos espantam. A democracia real está em risco. A liberdade está ameaçada pelo obscurantismo religioso.

De nada servem palavras como diálogo, escuta, conversão, solidariedade, respeito à vida quando na prática é a violência e a defesa de ideias pré-concebidas que parecem nortear alguns comportamentos religiosos públicos. Seguem esquecendo que não se deve tomar Deus em vão. Não apenas seu nome, pois isto, já o fazem. Tomar Deus em vão é tomar as criaturas em vão, seleccionando-os, desrespeitando-as e julgando-as de antemão.

 Nós todas/os temos palhas e traves em nossos olhos e eu sou a primeira. Por isso, cada pessoa ou grupo apenas consegue ver algo da realidade, que é sempre maior do que nós.

Entretanto, se quisermos enxergar um pouco mais, somos convidadas a nos aproximar de forma desarmada dos outros. Somos desafiadas a ouvir, olhar, sentir, acolher, perguntar, conversar como se o corpo do outro ou da outra pudessem ser meu próprio corpo, como se os olhos e ouvidos dos outros pudessem completar minha visão e audição.

E mais, como se as dores alheias pudessem ser de facto minhas próprias dores e suas histórias de vida minhas mestras. Só assim poderemos ter um pouco de autoridade com dignidade. Só assim nossas belas palavras não serão ocas. E, talvez, nessa abertura a cada dia renovada, poderemos acreditar na necessidade vital de carregar os fardos uns dos outros e esperar que a fraternidade e a sororidade sejam possíveis em nossas relações.


Ivone Gebara

13 Fevereiro 2012
por ADITAL- NOTÍCIAS DA AMÉRICA LATINA E DO CARIBE