teologia para leigos

14 de fevereiro de 2012

EVANGELIZAÇÃO OU RECONQUISTA?



Evangelizar sem afundar na restauração:
- o desafio da Igreja hoje

Três ministérios, três serviços prestados permanentemente aos outros e a Cristo: a benção, a escuta e a esperança. A bênção, a escuta e a esperança nos parecem ser os caminhos da evangelização.

O texto que segue é a contribuição da Conférence Catholique des Baptisé-e-s Francophones (CCBF, Conferência Católica dos/as Batizados/as Francófonos/as) para a preparação do Sínodo sobre a Nova Evangelização que será realizado em Roma, em Outubro de 2012. Ele foi enviado pela CCBF à Conferência dos Bispos da França no fim de Outubro de 2011. O artigo foi publicado no sítio da CCBF, Baptises.fr, 17-01-2012. (a tradução é de Moisés Sbardelotto).


 
“Jesus percorria toda a Galileia, ensinando nas sinagogas, anunciando a Boa Nova do Reino e curando toda espécie de doença e enfermidade do povo" (Mateus 4, 23).

Evangelizar significa assumir a atitude de Jesus que, em todos os relatos evangélicos, encontra, escuta, dá a palavra, eleva e cura. Hoje, a Igreja busca os caminhos para uma "Nova Evangelização", sobretudo na Europa, nos países muito antigamente cristãos, e que, aos olhos de muitos, hoje parecem sê-lo menos.

Nos países europeus, o Magistério deplora aquela que chama de secularização e a sua perda de influência, mas os cidadãos, cristãos e católicos em primeiro lugar, não se encontram tão mal. Ao contrário, apreciam a democracia e a liberalização dos costumes que a Igreja por muito tempo obstacularizou. Além disso, dentro da Igreja, levantam-se movimentos de leigos para contestar o conservadorismo e a governança autoritária dos clérigos. A "Nova Evangelização", nesse contexto, não pode ser entendida em termos de reconquista de um terreno perdido, mas sim como um convite pessoal a se apropriar das palavras de Cristo na própria linguagem e na própria de homens e de mulheres de hoje, a acolher o Verbo na própria carne, mesmo que ela não seja judaico-cristã depois de 2.000 anos.

A criação da CCBF e é a nossa resposta para a nova evangelização. A CCBF se vê livre de toda ligação clerical ou hierárquica, ela não é um movimento de Igreja, mas também não constrói uma oposição na Igreja. A Conferência está na Igreja e quer fazer Igreja com todos. A Conferência reúne cristãos muitos diferentes que não têm todos a mesma opinião sobre certas questões sociais. O ponto comum dos membros da Conferência é querer que todos os batizados exerçam a sua vocação de sacerdotes, profetas e reis, leigos e clérigos juntos, unidos em Cristo, no cotidiano e na encarnação de suas vidas. É com essa finalidade que a Conferência quer colocar todas as suas ações no quadro de três ministérios, três serviços prestados permanentemente aos outros e a Cristo: a benção, a escuta e a esperança. A bênção, a escuta e a esperança nos parecem ser os caminhos da evangelização.


[1] - Bênção: e se começássemos a falar bem da Europa?

Abençoar, bendizer, significa "dizer bem". É reconhecer o valor do outro, é o início do respeito e do diálogo. E, mesmo que hoje as instituições e a moeda europeias se encontrem em plena crise, se começássemos a falar bem da Europa e dos europeus?

 Depois de séculos de enfrentamentos, os europeus encontraram o sábio caminho da paz. Depois de mais de 60 anos, a Europa está em paz. A paz, primeira riqueza dos homens e primeiro dom de Deus. Desde o fim dos anos 1950, a União Europeia progride, certamente não muito depressa em certas questões, mas os cidadãos do continente globalmente obtiveram disso prosperidade e progresso social. Certos países da União souberam até desenvolver, sob a influência conjunta da social-democracia e da democracia cristã, um modelo social de proteção, que deve ser sustentado e estendido.

A Europa é democrática, aboliu a pena de morte e promove a paz no mundo: seus exércitos são os primeiros fornecedores de tropas para a manutenção da paz, enviadas pela ONU a todo o planeta. Os europeus podem ficar orgulhosos por participar no cotidiano dessa obra, certamente imperfeita, totalmente humana e frágil, mas única no mundo. Graças sejam dadas aos seus pais fundadores, como Jean Monnet, Konrad Adenauer, Alcide De Gasperi, tenazes leigos católicos, àqueles que os seguiram e a todos aqueles, cidadãos e habitantes da Europa, que trabalham todos os dias para a sobrevivência e o desenvolvimento desse conjunto político, econômico e social que, apesar de seus pesos e disfunções, a Terra inteira nos inveja.

Bendigamos, falemos bem também da juventude europeia, que, quando tem a chance, estuda juntos, muitas vezes fala ao menos duas línguas como em um Pentecostes laico e convive com outros jovens em todas as metrópoles estudantis, sob a égide de um grande pensador cristão independente e livre: Erasmo.






«- A Espanha é um Estado laico...». «- Sim, claro, graças a Deus...»




Alguns deploram que a Europa como instituição não faça mais referência ao cristianismo - mas ela precisa ser uma organização cristã? Não, absolutamente não, porque deve dialogar com toda a Terra sem a prioris religiosos. Em contrapartida, a Europa integrou muitos valores do Evangelho, incluindo a paz e o respeito da pessoa e do indivíduo. Pela atenção aos pobres, ela deve continuar essa rota e às vezes confirmá-lo, sob o olhar de seus cidadãos.

Reconciliada, a Europa não precisa ser piedosa ou praticante, ou fazer referência – como bloco único – a raízes cristãs. Basta-lhe sempre continuar debatendo e discutindo, conciliando, "fazendo concílio" das suas dificuldades, dos seus desacordos, para permanecer moderna, para viver e fazer viver uma permanente atualização de paz e de progresso social.

É reconhecendo essa Europa da modernidade, dando confiança a essa sociedade secularizada, mas democrática e social, que os cristãos poderão transmitir nela a mensagem de Cristo.

Evangelizar significa não apenas socorrer, à beira da estrada, como o Samaritano, a pessoa dada como morta na fé, mas também dar confiança à sociedade (ao dono da pensão) para levar a termo a sua obra.


[2] - Escuta: saber ouvir as pessoas, a Igreja e a Palavra de Deus

A CCBF coloca a evangelização no centro do seu ministério de Escuta: a escuta das pessoas, do povo simples com o qual a Igreja e os fiéis convivem, a escuta da Igreja, de sua Tradição e de seu Magistério, e a escuta da Palavra de Deus.

Embora distantes da Igreja, ou opostos às suas opiniões, aos seus ritos ou aos seus posicionamentos, os nossos concidadãos, no entanto, têm uma rica espiritualidade: é o específico do homem. Evangelizar significa sobretudo escutar, dar a palavra a essas interioridades, a essas expressões da fé ou da não fé que alguns crentes rígidos prefeririam nem ouvir, mas que são o terreno fértil dos imensos questionamentos espirituais do nosso tempo e a ocasião para que aqueles que se dizem cristãos testemunhem a sua fé em Cristo.

Aqui, pelo debate e pelo testemunho, pode haver escuta mútua: expressão de uma espiritualidade pessoal, mais ou menos cristã, ou nada cristã, e apostolado de uma fé cristã que dá à luz o seu Cristo, não com um discurso teórico, mas sim com uma palavra existencial. Com esse objetivo, a Conferência promoverá oficinas de expressão da fé, ou da espiritualidade, abertas a todos.

A Conferência também está à escuta da Igreja, de sua Tradição e de seu Magistério, e se vê próxima dos seus clérigos, que precisam do sustento dos batizados para exercer seus ministérios. Muito frequentemente, esses ministérios ordenados são o lugar de sofrimentos humanos, que nada mais são do que a consequência da incompreensão, de rigidezes e da falta de atenção justamente dentro da nossa Igreja. Escutar os nossos clérigos, os nossos padres, as nossas religiosas é acolher fraternalmente os seus questionamentos e os seus problemas, e oferecer soluções que respeitem mais o espírito dos discípulos de Cristo do que a simples disciplina regulamentar e organizacional. Uma Tradição e um Magistério vivos e presentes devem ser audíveis por todos. Para a Conferência, escutá-los não é lhes outorgar uma obediência cega. A obediência evangélica não é a execução de uma ordem, mas sim uma escuta, uma discussão, uma disputatio, uma necessária interpretação, especialmente pelos e para os leigos encarregados, segundo as próprias palavras da constituição dogmática sobre a Igreja Lumen Gentium, capítulo 4, §31, do Concílio Vaticano II, de "iluminar e ordenar de tal modo as realidades temporais, a que estão estreitamente ligados, que elas sejam sempre feitas segundo Cristo".

A Conferência se esforçará, portanto, para predispor espaços públicos de debate em torno das questões levantadas pela Tradição e pelo Magistério, de modo que a Tradição continue sendo aquilo que se pode e se quer transmitir e intercambiar (tradere em latim), e de modo que o Magistério, encarnado na vida dos homens e das mulheres deste tempo, seja unicamente o de Cristo.

Assim, falando a mesma linguagem dos seus contemporâneos, os católicos poderão ser escutados por todos, crentes ou não crentes, o que é uma condição prévia para uma nova evangelização exitosa.

 Enfim, evangelizar é sobretudo escutar a Palavra de Deus. Ler, falar, contar, discutir os relatos bíblicos e evangélicos, destacar as suas asperezas, os subentendidos, os símbolos, as correspondências, as contradições, os exageros, os escândalos. Não tomar nada ao pé da letra, mas fazer uma leitura e uma escuta ativas, revoltadas, implicadas, para finalmente, com a ajuda do Espírito, poder escutar o seu sal que dá sabor à nossa vida e nos faz dizer "Eu creio". Nessa perspectiva, a Conferência irá orientar o seu ensinamento segundo a exortação apostólica Verbum Domini "sobre a Palavra de Deus na vida e na missão da Igreja", que insiste na importância da Bíblia, no pecado unicamente como não escuta da Palavra e no papel dos leigos na evangelização.


[3] - Esperança: Cristo se dirige a cada um de nós, para que possamos fazer e refazer a Igreja

Se criamos a Conferência, é porque não podemos mais suportar que a nossa Igreja seja átona, que os cristãos se afastem dela silenciosamente, porque não são mais ouvidos. Sabemos também que toda oposição leigos-clero é estéril, e que a nossa Igreja não se transforma como um partido, uma empresa, um país ou uma associação. Por isso, queremos ficar no meio do barco, não reivindicar nada, mas esperar tudo, não ir embora, mas não calar, porque acreditamos que somos a Igreja e Cristo todos juntos, leigos e clérigos, liberais e mais tradicionais, homens e mulheres igualmente.

Para que a nossa Igreja não seja mais estática, avariada ou tentada a afundar na restauração de um passado superado e contrário à evolução da sociedade, porque nós somos a Igreja e somos modernos, parte ativa da sociedade atual, porque não desenvolvemos uma contracultura, mas estamos na vida real, com todos os outros, cristãos e não cristãos, temos no coração o nosso sacerdócio de batizados/as e, por tudo isso, temos a Esperança de que fazemos e continuaremos refazendo a Igreja, porque Cristo se dirige a cada um de nós e a cada um daqueles que encontramos no nosso apostolado.

Pouco a pouco, não mais de forma hierárquica, nem mediante um poder temporal, mas, de ser humano para ser humano, em rede, em rizoma [1], faremos crescer, faremos florescer e daremos o fruto da Vida.

Conférence Catholique des Baptisés Francophones, pelo seu Conselho de Administração, 23 Janeiro de 2012.

[1] - Rizoma é um modelo descritivo e epistemológico no qual a organização dos elementos não segue uma linha de subordinação hierárquica, segundo uma concepção de árvore, mas sim na qual cada elemento pode influenciar qualquer outro elemento. A concepção é dos filósofos franceses Deleuze-Guattari.


BENTO XVI – o retrocesso. «Há esforço pelo cumprimento das normas da disciplina litúrgica, eclesiástica e da moral, além de rejeição de todo relativismo. Aqui se toca ponto fundamental do atual pontificado. Já na homilia, antes da eleição do Papa, o cardeal Ratzinger mostrou profunda preocupação com o relativismo. E este continua sendo grande adversário a ser combatido por corroer o núcleo do dogma



Para ler mais:



10 de fevereiro de 2012

JESUS, DOUTOR OU LIBERTADOR?

Manter viva a consciência da missão! (Mc 1, 40-45)

Ninguém liberta ninguém organizando Colóquios, Editando livros, distribuindo migalhas de caridade, ter afã por Espaços de Oração. Impõem-se duas coisas: mudar-se de ‘armas e bagagens’ para o lado dos excluídos & ter uma leitura estrutural correcta das causas da pobreza!

Tudo mais é espiritualismo, cristianismo desencarnado ou desculpas… Esse nunca foi o jeito de Jesus! Os ‘excluídos’ são o único critério de salvação para Jesus.






NÃO VOLTAR ATRÁS NO ANÚNCIO DA BOA NOVA
MANTER VIVA A CONSCIÊNCIA DA MISSÃO


 
Nos versículos 16 a 45 do primeiro capítulo, Marcos descreve o objectivo da Boa Nova e a missão da comunidade, apresentando oito critérios para as comunidades do seu tempo poderem avaliar a sua missão. Tanto nos anos 70, época em que Marcos escreveu, como hoje, época em que nós vivemos, era e continua sendo importante ter diante de nós modelos de como viver e anunciar o Evangelho e de como avaliar a nossa missão.



COMENTANDO


Mc 1, 40-42: Acolhendo e curando o leproso, Jesus revela um novo rosto de Deus


Um leproso chega perto de Jesus. Era um excluído. Devia viver afastado. [Levítico 13:31;33.43-46] Quem tocasse nele ficava impuro também! Mas aquele leproso teve muita coragem. Transgrediu as normas da religião para poder chegar perto de Jesus. Ele diz: "Se queres, podes curar-me!" Ou seja: "Não precisa tocar-me! Basta o senhor querer para eu ficar curado!" A frase revela duas doenças: 1) a doença da lepra que o tornava impuro; 2) a doença da solidão a que era condenado pela sociedade e pela religião. Revela também a grande fé do homem no poder de Jesus. Profundamente compadecido, Jesus cura as duas doenças. Primeiro, para curar a solidão, toca no leproso. É como se dissesse: "Para mim, você não é um excluído. Eu o acolho como irmão!" Em seguida, cura a lepra dizendo: "Quero! Seja curado!" O leproso, para poder entrar em contacto com Jesus, tinha transgredido as normas da lei. Da mesma forma, Jesus, para poder ajudar aquele excluído e, assim, revelar um rosto novo de Deus, transgride as normas da sua religião e toca no leproso. Naquele tempo, quem tocava num leproso tornava-se um impuro perante as autoridades religiosas e perante a lei da época.

[libertar é mudar de território, passar dos Pinhais da Foz para o Aleixo… é tocar a exclusão mesmo!]


Mc 1, 43-44: Reintegrar os excluídos na convivência fraterna


Jesus não só cura, mas também quer que a pessoa curada possa conviver. Reintegra a pessoa na convivência. Naquele tempo, para um leproso ser novamente acolhido na comunidade, ele precisava ter um atestado de cura assinado por um sacerdote. É como hoje. O doente só sai do hospital com o documento assinado pelo médico de plantão. Jesus obrigou o fulano a buscar o documento, para que ele pudesse conviver normalmente. Obrigou as autoridades a reconhecer que o homem tinha sido curado.

[Jesus obrigou as autoridades a reintegrar o excluído com todos os direitos dos incluídos…]



Mc 1, 45: O leproso anuncia o bem que Jesus fez e ele e Jesus se tornam excluídos


Jesus tinha proibido o leproso de falar sobre a cura. Mas não adiantou. O leproso, assim que partiu, começou a divulgar a notícia, de modo que Jesus já não podia entrar publicamente numa cidade. Permanecia fora, em lugares desertos. Por quê? É que Jesus tinha tocado no leproso. Por isso, na opinião da religião daquele tempo, agora ele mesmo era um impuro e devia viver afastado de todos. Já não podia entrar nas cidades. Mas Marcos mostra que o povo pouco se importava com estas normas oficiais, pois de toda a parte vinham a ele! Subversão total!

O duplo recado que Marcos dá às comunidades do seu tempo e a todos nós e este: 1) anunciar a Boa Nova é dar testemunho da experiência concreta que se tem de Jesus. O leproso, o que ele anuncia? Ele conta aos outros o bem que Jesus lhe fez. Só isso! Tudo isso! E é este testemunho que leva os outros a aceitar a Boa Nova de Deus que Jesus nos trouxe. 2) Para levar a Boa Nova de Deus ao povo, não se deve ter medo de transgredir normas religiosas que são contrárias ao projecto de Deus e que dificultam a comunicação, o diálogo e a vivência do amor. Mesmo que isso traga dificuldades para a gente, como trouxe para Jesus.

[libertar é correr o risco de não ser mais ouvido pelo Poder dominante, de ficar de fora rotulado de incómodo…]




ALARGANDO

O Anúncio da Boa Nova de Deus feito por Jesus


A prisão de João fez Jesus regressar à sua terra natal e iniciar o anúncio da Boa Nova.

Foi um início explosivo e criativo!

Jesus percorre a Galiléia toda: as aldeias, os povoados, as cidades (Mc 1,39). Visita as comunidades. Ele muda de residência, e vai morar em Cafarnaum (Mc 1,21; 2,1), cidade que fica no entroncamento de estradas, o que facilita a divulgação da mensagem. Ele quase não pára. Está sempre andando. Os discípulos e as discípulas com ele, por todo canto. Na praia, na estrada, na montanha, no deserto, no barco, nas sinagogas, nas casas. Muito entusiasmo!

Jesus ajuda o povo prestando serviço de muitas maneiras: expulsa maus espíritos (Mc 1,39), cura os doentes e os maltratados (Mc 1,34), purifica quem está excluído por causa da impureza (Mc 1,40-45), acolhe os marginalizados e confraterniza com eles (Mc 2,15). Anuncia, chama e convoca. Atrai, consola e ajuda. É uma paixão que se revela. Paixão pelo Pai e pelo povo pobre e abandonado da sua terra. Onde encontra gente para escutá-lo, ele fala e transmite a Boa Nova de Deus. Em qualquer lugar.

Em Jesus, tudo é revelação daquilo que o anima por dentro! Ele não só anuncia a Boa Nova do Reino. Ele mesmo é uma amostra, um testemunho vivo do Reino de Deus. Nele aparece aquilo que acontece quando um ser humano deixa Deus reinar, tomar conta de sua vida. Pelo seu jeito de conviver e de agir, Jesus revelava o que Deus tinha em mente quando chamou o povo no tempo de Abraão e de Moisés. Jesus desenterrou uma saudade e transformou-a em esperança! De repente, ficou claro para o povo: "Era isso que Deus queria quando nos chamou para ser o seu povo!

Este foi o começo do anúncio da Boa Nova do Reino que se divulgada rapidamente pelas aldeias da Galiléia. Começou pequena como uma semente, mas foi crescendo até tornar-se árvores grande, onde o povo todo procurava um abrigo (Mc 4,31-32). O próprio povo se encarregava de divulgar a notícia.

O povo da Galileia ficava impressionado com o jeito que Jesus tinha de ensinar. "Um novo ensinamento! Dado com autoridade! Diferente dos escribas!" (Mc 1,22.27). Ensinar era o que Jesus mais fazia (Mc 2,13; 4,1-2; 6,34). Era o costume dele (Mc 10,1). Por mais de 15 vezes o Evangelho de Marcos diz que Jesus ensinava. Mas Marcos quase nunca diz o que ele ensinava. Será que não se interessava pelo conteúdo?

Depende do que a gente entende por conteúdo! Ensinar não é só uma questão de ensinar verdades novas para o povo decorar. O conteúdo que Jesus tem para dar transparece não só nas palavras, mas também nos gestos e no próprio jeito de ele se relacionar com as pessoas. O conteúdo nunca está desligado da pessoa que o comunica. Jesus era uma pessoa acolhedora (Mc 6,34). Queria bem ao povo. A bondade e o amor que transparecem nas suas palavras fazem parte do conteúdo. São o seu tempero. Conteúdo bom [doutrina] sem bondade [gestos] é como leite derramado.

Marcos define o conteúdo do ensinamento de Jesus como "Boa Nova de Deus" (Mc 1,14). A Boa Nova que Jesus proclama vem de Deus e revela algo sobre Deus. Em tudo que Jesus diz e faz, transparecem os traços do rosto de Deus. Transparece a experiência que ele mesmo tem de Deus como Pai. Revelar Deus como Pai é fonte, conteúdo e destino da Boa Nova de Jesus.


Carlos Mesters e Mercedes Lopes


9 de fevereiro de 2012

TEOLOGIA FEMININA 1/2



Teologia feminista

1/2

«Quem dizem as mulheres que Eu sou?»
 
Introdução

A teologia feminista é um tema recente. Desde os seus começos que busca inter-relacionar os seguintes aspectos: a Experiência de Vida das mulheres (tanto a vida própria delas como a vida das suas companheiras, sobretudo em meios populares) com a Experiência de Deus vivida e experimentada de uma maneira distinta, próxima e relacional, experimentada no quotidiano, pois Deus está do lado dos mais débeis, a quem protege e infunde coragem e esperança. (…)

Ao observar a imagem tradicional de Deus, a teologia feminista descobriu uma relação directa entre a imagem exclusivamente masculina de Deus e a opressão estrutural das mulheres. Neste sentido, é complicado aceitar e aplicar essa cristologia às mulheres, porque Jesus Cristo é indiscutivelmente um homem que é apresentado como Salvador e o único mediador entre a humanidade e o Pai.

Uma cristologia feminista tem como tarefa explicar o que significa, para as mulheres, ser Salvador e Mediador. A teologia feminista também tem que criar modelos cristológicos adequados aos nossos dias. A hermenêutica propõe-nos que leiamos um texto não como um relato ‘acabado’ que fizesse referência a um passado longínquo, mas como algo relacionado com a história actual da nossa comunidade. [S. Croatto, Hermenêutica Bíblica, Sinodal, São Leopoldo 1985, p.36]


Teologia Feminista – algumas chaves de leitura

A Teologia desenvolvida por mulheres na América Latina tem a sua fonte na «Teologia da Libertação». [A.M.Tepedino, ‘Mulher e Teologia na América Latina, perspectiva histórica’, in A.M. Bidelgáin, Mulheres, Autonomia e Controlo Religioso na América Latina, Cheila, Vozes, S. Paulo - Petrópolis 1996, pp.197-220; cf. também María Pilar Aquino, ‘Nuestro Clamor por la Vida’, Dei, Sanbanilla (San José – Costa Rica)]

Alguns pontos comuns entre ambas as teologias:

a)   A experiência de vida como ponto de partida. Quer as teólogas dos EUA e da Europa, quer as da América Latina acreditam que esta é uma questão central. A experiência das mulheres é o resultado da sua vida quotidiana, de uma série de acontecimentos, de sentimentos e lutas que são partilhadas por nós, mulheres, nas circunstâncias concretas onde se vive. Apesar de existirem muitos pontos em comum, a experiência de vida das mulheres não é monolítica. Muda segundo a raça, a classe social e a cultura. Essas diferenças notam-se nas diferentes perspectivas das nossas reflexões. A forma de opressão que afecta as mulheres é bem diferente. Há um tipo de opressão que afecta às mulheres de raça branca, classe média, com emprego fixo e com estudos universitários. Há um outro tipo de opressão que atinge mulheres pobres, especialmente se são de cor negra, mestiças ou indígenas, sem estudos, trabalhando a tempo parcial ou em economia clandestina. Ora, trata-se de «partir do nosso ser e do nosso fazer, do nosso olhar e do nosso sentir, do nosso falar e do nosso calar». [I. Gebara, ‘La mujer hace teologia. Ensaio para la reflexión’, in M.P. Aquino, Aportes para una teologia desde la mujer, Bíblia y Fé, Madrid 1988, p.10] Partimos da própria busca existencial da identidade. A identidade outorgada pela sociedade patriarcal não corresponde à experiência que possuímos. [cf. A.M. Tepedino, ‘A Mulher: aquela que começa a desconhecer seu lugar’, in Perspectivas Teológicas, 17 (1985), pp. 375-379] Há muito que não nos reconhecemos no estereótipo de seres irracionais, emocionais, meladas, débeis, subjectivas e exclusivamente domésticas. A ‘experiência’ é o contexto do nosso trabalho teológico. Pelo que, antes de começar a raciocinar sobre Deus, sobre Jesus Cristo, sobre a Igreja, necessitamos de ter a oportunidade de nos nomearmos a nós mesmas e nomear as nossas experiências para que as nossas reflexões teológicas, cristológicas e eclesiais possam ser autenticamente nossas. [M.P. Aquino, La Iglesia y la mujer en América Latina, Indo-American, Bogotá 1994] O discurso teológico realizado pelos homens sempre pretendeu ser universal na medida em que a sua tentação sempre foi a de identificar a linguagem masculina como universal. (…)

Na América Latina, a teologia feminista está ligada, desde os começos, à luta maior dos pobres e dos oprimidos pela vida. Ela concentrou os seus esforços na luta em que as condições sociais e pessoais se interligavam e se completavam entre si. Concebemos o problema da ‘classe social’ a partir duma prática social, precisamente aí onde nos encontramos com muitas dificuldades e barreiras. É a partir de aí que levantamos questões relacionadas com a situação pessoal e familiar. E, como somos seres crentes comprometidos nas comunidades, interrogamo-nos sobre a nossa situação eclesial. É aqui onde se cruzam duas direcções: a classe e o sexo. A questão da ‘raça’ surge quando nos damos conta que as mulheres negras sofrem por ser mulheres, por ser pobres e por serem negras. Ou seja, sofrem uma tripla opressão: de género, de classe e de raça.

Neste momento, é necessário que a Teologia da Libertação abra uma chaveta para investigar acerca da opressão, quer de género, quer cultural. A princípio privilegiou-se a questão económica e social, mas, agora, os pobres – objecto da Teologia da Libertação – não só começam a ter rostos, mas também corpos, histórias distintas, vozes e reflexões diferentes. (…)

b)   Outro ponto comum é a interdisciplinariedade. Procura-se a mediação analítica das ciências humanas e sociais como colaboração para compreender melhor a problemática. A princípio, foi a sociologia, a antropologia, a psicologia e a história. A seguir veio a economia e a filosofia. Todos estes ramos do conhecimento oferecem-nos dados para melhor compreender o patriarcalismo. Ajudam-nos, também, a superá-los.


Teologia patriarcal

A leitura que, após o nascimento do cristianismo, se fez dos capítulos 2 e 3 do Génesis, já sob a influência da filosofia grega, desembocou na sub-valorização e desvalorização das mulheres.

Apresentam-se, as mulheres, criadas depois do homem ter sido criado. Foram elas quem cometeu o primeiro pecado e foram elas que fizeram os homens pecar. Ainda que não tenha sido essa a intenção do autor dos textos bíblicos, tal interpretação deles − numa linha patriarcal e sexista − provocou a marginalização das mulheres dentro das Igrejas cristãs e também na sociedade «cristã ocidental».

«A teologia patriarcal acentuava a maior propensão [da mulher] para o pecado e a sua menor espiritualidade. Como ‘produto inferior’, a mulher nunca poderá representar a imagem de Deus como o homem o pode, sendo o homem considerado o representante da parte racional do ‘eu’» [R. Ruether, ‘Sexismo e religión’, São Leopoldo, 1993, p.84] «Neste sentido, a ideologia da subjugação das mulheres é reflexo da sua natureza inferior, castigo pela sua responsabilidade no ‘pecado’ [‘original’]». [ibidem]

Santo Agostinho e S. Tomás de Aquino são os ilustres responsáveis deste tipo de antropologia.

Santo Agostinho admite que, ainda que a mulher possa ser redimida e vir a participar da «imagem de Deus», tal facto será sempre prejudicado pela representação corporal de um eu inferior propenso ao pecado. Considera a mulher como imagem secundária de Deus. O homem representa, de forma normativa, a imagem de Deus. Os homens possuem faculdades racionais superiores. As mulheres têm menos capacidades racionais e menor controlo moral. Faz parte da natureza da boa ordem, que os superiores rejam os inferiores. Aqueles autores acreditam que a hierarquização das classes e a escravatura são necessárias para que exista ordem social. Consideram a hierarquia consequência do «pecado» [‘original’ – Génesis 2 e 3]. Concluem que a hierarquia homem-mulher não é só consequência do ‘pecado original’: ela faz parte da ordem natural criada por Deus. [R. Ruether, ibidem]

S. Tomás vai mais longe com este tipo de pensamento e chega até a ridicularizar a mulher. Diz que ela é inferior quanto ao corpo (é mais débil), quanto à mente (menor capacidade racional) e quanto à moralidade (menor capacidade volitiva e menor autocontrolo). [Santo Tomás de Aquino,Summa Theologica’, 1, 92, 1, citado por Ruerther; cf. também K.E. Borresen, «Subordination et Equilivalence. Nature de la femme d’après Augustin et Thomas d’Aquin», Universitetsforlaget – Mame, Oslo – Paris 1967] Na opinião de S. Tomás, esta compreensão agudizou-se ainda mais por causa do ‘pecado’. Já desde os começos, a natureza defeituosa da mulher significava que, naturalmente, a mulher é servil e se deve encontrar submetida ao homem. Como resolve, S. Tomás, este problema? Se Deus tudo criou perfeito, como pode ter criado a mulher imperfeita? S. Tomás soluciona-o dizendo que a mulher, ainda que imperfeita na sua natureza individual, faz parte da perfeição geral da natureza através do seu papel na procriação. S. Tomás diz que a mulher foi criada para a procriação. Em matéria de ajuda espiritual, o homem sempre recorrerá a outro homem.

A antropologia patriarcal foi extremamente perversa e negativa para as mulheres. (…)


Cristologia patriarcal

A Teologia feminista não produziu muitos textos sobre cristologia, mas trata sempre do tema quando reflecte sobre a situação da mulher dentro do movimento de Jesus ou quando reflecte sobre a Igreja. A cristologia é, seguramente, um dos capítulos mas polémicos. Por um aldo, Jesus Cristo é o centro da Fé e da teologia cristã; por outro, o facto da salvação oferecida pelo Deus vivo ser encarnada num homem (sexo masculino) cria problemas a muitas mulheres. Como não se sentirem cidadãs de segunda categoria no Reino proosto por um Deus que privilegia o sexo masculino na hora de se encarnar? [cf. M. C. Bingemer, ‘Jesus Cristo e a salvação da mulher’, in «O segredo feminino do mistério», Vozes, Petrópolis 1991, pp. 44-45] (…)

Ao longo dos séculos dá-se uma paulatina desvalorização do papel das mulheres nas comunidades primitivas. (…) Do mesmo modo a cristologia sofreu um processo crescente de patriarcalização. Evangelizar e celebrarar sacramentos esteva reservado apenas aos homens – numa palavra, eles actuavam in persona Christi. (…)

A proclamaçãp messiânica de Jesus centra-se na apresentação do Reino de Deus. Na realidade, tal anúncio não realiza a expectativa de um rei semelhante ao rei David, bem pelo contrário: vai mais na linha profética de Moisés. Após a morte de Jesus, a interpretação que a comunidade cristã faz desse messianismo situa-a mais na linha do Servo de Yahvé. (…) Com o pasar do tempo, a Igreja nascente sente a necessidade de se organizar e, para esse fim, instala uma incipiente hierarquia formada de bispos, presbíteros e diáconos. Eles serão os responsáveis pelo deposito fidei, ficando como responsáveis pela ortodoxia.

Pouco a pouco, processa-se uma progressiva alienação do Jesus histórico, roubando-se-lhe a sua individuação como ‘ser humano’. Sem a sua história concreta, Cristo converte-se numa imagem. [José Comblin, ‘Teologia de la revolution’, Desclée de Brouwer, Bilbao 1973.] E, para se ter acesso a Ele, tem-se que deitar mão da linha oficial do ensino dos apóstolos. Só homens podem ocupar o ofício do ensino apostólico quanto a representar Cristo. «Cristo vira uma revelação atemporal da perfeição divina localizada num momento paradigmático do passado. E este revelação atemporal nunca mais se voltará a repetir.» [cf. R. Ruether, o.c., pp. 106-107]

O momento decisivo da patriarcalização da cristologia acontece no século IV – estamos no ano de 312 d.C. A conversão do imperador Constantino ao cristianismo marca a passagem da religio ilícita, perseguida, minoritária, de marginais, à religião oficial do Império Romano. Legitima-se, então, a sua ideologia. A unidade imperial exige unidade de fé e de teologia. [cf. A. Grillmeier, ‘The Christian Tradition: From the Apostolic Age to Chalcedon’, John Knox, Atlanta 1975, pp. 153-154; trad. espanhola, ‘Cristo en la tradición Cristiana: desde el tiempo apostólico hasta el Concilio de Calcedonia’ (451), Sígueme, Salamanca 1997] Um cristianismo instalado num poder político sobre o «mundo» integra-se perfeitamente na expectativa messiânica davídica.

«A doutrina cristológica de Cristo como Logos ou fundamento do mundo criado identifica-se com os fundamentos do sistema social vigente. Cristo como Logos de Deus é revelação da mente divina − oferece o governo e o plano do cosmos social estabelecido. Assim, tudo se integra numa única e ampla hierarquia do ser.» [Eusébio de Cesareia, ‘Vida de Constantino’, 10, 7, citado por R. Ruether, o.c., p. 108]

Tal como o Logos de Deus governa o cosmos, o imperador romano cristão, conjuntamente com a Igreja cristã, governa o mundo político. Os senhores governam os escravos e os homens governam as mulheres. [A teóloga Elisabeth Schüssler Fiorenza inventou o termo «kiriarcalismo» para rotular este sistema ideológico masculino de dominação e subordinação, autoridade e obediência, de governantes e governados, na família e no Estado. É também nesta cristologia utilizada que o poder imperial encontra o seu fundamento.] As mulheres, os escravos e os bárbaros eram os alagoi, as pessoas «sem palavra própria, sem mente». Precisam de ser guiadas pelos representantes do Logos divino. Jesus Cristo é o retrato do Imperador. Jesus é o Pantocrator, que tudo governa. Reina sobre a nova ordem social, na qual as mulheres não têm nenhuma importância. O Deus masculino só pode ser representado por homens.

Cristo transforma-se no fundador e no governante cósmico da hierarquia social vigente. É a revelação masculina de um Deus masculino, cujo representante normativo só pode ser o homem.

Até à Idade Média adoptava-se o modelo biológico aristotélico: o homem oferece o sémen que dá forma ao corpo humano. A mulher é apenas matéria, o recipiente onde se fará o novo ser. O sexo masculino, portanto, é o sexo normativo ou genérico da raça humana.

Em suma, a encarnação do Logos de Deus num homem não é um acidente histórico – é uma necessidade ontológica. Assim como Cristo teve que encarnar-se num homem, da mesma forma só num homem Cristo pode ser representado. [S. Tomás, o.c., 1, 1, 92, 1-2; 1, 1, 99, 2; 3, supl., 39, 1; citado por R. Ruether, o.c., p. 108]

Esta cristologia ressurgiu recentemente com a reivindicação do acesso ao ministério ordenado por parte de algumas mulheres. Os argumentos usados inter-relacionam masculinidade, cristologia e sacerdócio. Sem dúvida, e na opinião de Rosemary Ruether, Jesus Cristo é a «kenosis do patriarcado». Ele é o auto-esvaziamento do poder dominador masculino a favor da nova humanidade, do serviço compassivo e do mútuo reconhecimento. (segue)


Ana María Tepedino
Teóloga, Universidade Católica do Rio de Janeiro


In «10 Palabras clave sobre Jesus de Nazaret» (Dir. J. J. Tamayo Acosta), Editorial Verbo Divino, pp. 415-452 [excertos].