teologia para leigos

21 de janeiro de 2012

TROPEÇAR AO SOM DO SINO



O caminhar

Nem sei que dia é hoje… nem sei.
No silêncio a gente se entende.
Eu, do lado de cá a tentar o ritmo,
da multidão mais lento.
Tu, do lado de lá
a dar-me uma grande lição.

Badalada a badalada, badalada a badalada.

Um pé tropeça mais do que o outro.
O frio respira-se pelo nariz.
Assim há tempo para pensar.

Para onde vai o pé?
Onde poisa ele?
Não sei. Pois nem sei…

O outro vem sempre atrás.






[Na Igreja da Reconciliação, Taizé – Janeiro 2012]

17 de janeiro de 2012

A IGREJA NÃO É O REINO DE DEUS


Há 50 anos – Roma, 11 Out. 1962
Abertura Solene do Concílio Ecuménico Vaticano II




A Igreja que o Concílio quis


Após os diversos esquemas preparatórios e as numerosas intervenções de bispos durante o Concílio, na Constituição Dogmática sobre a Igreja que foi aprovada a 21 de Novembro de 1964 define-se, a Igreja, primeiro e antes de mais nada, como Mistério, a seguir, como Sacramento, e, em terceiro lugar, como Povo de Deus. Podemos afirmar com certeza absoluta que o Concílio pensou e quis, antes de mais nada, uma Igreja na qual se realizassem e se presentificassem essas três grandes ideias: o «mistério», o «sacramento» e «o povo de Deus», a ponto de, só a partir de tal triplo projecto, se poder perceber o que é a Igreja, como se organiza a sua presença e qual o seu modo de actuar neste mundo e na sociedade concreta em que vive.

Ao apresentar a Igreja segundo estes três conceitos fundamentais, a profunda intenção do Concílio terá sido afirmar que a Igreja é, essencialmente e antes de tudo, comunhão[1]. Porém, não o afirmou de ânimo leve, mas explicando essa «comunhão» a partir da sua origem última a fonte do seu próprio ser e que é a Trindade de Deus: o Pai, o Filho e o Espírito Santo, comunhão perfeita. Por isso, no capítulo primeiro da Constituição sobre a Igreja ocupam-se três pontos consecutivos a explicar a origem trinitária da mesma [Lumen Gentium, LG 2, 3 e 4]. Daí esse primeiro capítulo intitular-se «O mistério da Igreja». Neste ponto coincidiam todos os projectos elaborados durante a preparação do Concílio. Todos eles intitulavam o primeiro capítulo da Constituição sobre a Igreja com a palavra «mistério», porque todos pensavam que, ao falar da Igreja, o ponto de partida teria de ser o que a Bíblia e a tradição dos primeiros séculos diz sobre o assunto.

Espantoso é que, em matéria tão evidente, tenha havido alguns que se lamentassem do «excessivo» (?) recurso à Sagrada Escritura. Opinavam que se deviam citar mais as encíclicas papais! Foi neste último sentido que se manifestou o cardeal Ottaviani, perfeito do Santo Ofício, facto, ainda que estranho, perfeitamente compreensível. E, isso, por uma razão muito simples: interpretar a Igreja a partir da ‘comunhão perfeita’, aquela que se dá no mistério da Trindade divina, equivaleria a conceber todos os cristãos unidos por igual numa unidade que tem abundantes argumentos nas Sagradas Escrituras; ao passo que, as encíclicas papais (do século XIX e primeira metade do XX), ao que dão mais destaque, é a toda uma série de argumentos que apoiam os direitos e os poderes da hierarquia. Consequentemente, aqueles que defendiam a unidade e a comunhão por igual (como na Trindade Santíssima) não negavam a necessidade e a importância da hierarquia. O que acontecia é que Ottaviani, e com ele muita gente da Cúria Vaticana, tremiam diante duma eclesiologia que começasse por afirmar, assim de maneira tão taxativa e firme, a igualdade fundamental de todos os crentes. Ao cabo e ao rabo, os «homens da Cúria romana» sempre se sentiram inclinados a defender uma espécie de «ontologia das diferenças», antepondo-o a todo o tipo de argumento a favor da «igualdade fundamental» de todos.

Contudo, o Concílio não começou por falar de diferenças, mas afirmou que «as condições do tempo presente acrescentam ao dever da Igreja uma maior urgência, de modo a que todos os homens (hoje mais intimamente unidos entre si em virtude das novas relações sociais, técnicas e culturais) consigam também a plena unidade em Cristo». [LG 1] Ora, falar de unidade é, antes de mais nada, falar de igualdade. As diferenças, sejam elas quais forem, terão que ser entendidas em função da unidade e, portanto, colocadas ao serviço da igualdade básica de todos. Diferenças que criem divisões, e pior ainda se o que criam são enfrentamentos, são diferenças que não podem ser queridas por Deus. E, portanto, elas não têm lugar na Igreja que o Concílio quis.

A segunda palavra que o Concílio utiliza para explicar a Igreja que quis defender e que quis apresentar diante do mundo actual, é a palavra sacramento. Essa afirmação encontra-se precisamente no começo da Constituição Lumen Gentium: «A Igreja é, em Cristo, como um sacramento ou sinal e instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o género humano» [LG 1]. E mais. No nº 9 da mesma Constituição, dá a seguinte definição de Igreja: «A congregação de todos os crentes que vêem Jesus como autor da salvação e princípio da unidade e da paz, é a Igreja convocada e constituída por Deus para ser sacramento visível dessa união salvadora de todos e de cada um». Nesta definição de Igreja volta a aparecer a palavra «sacramento» e, certamente, se refere ao sacramento da «unidade». Antes de mais nada, isto significa que a Igreja que o Concílio quis é uma Igreja pensada a partir da unidade e em função da unidade de todos os seres humanos, a unidade com o Deus de Jesus que se deu a conhecer no próprio Jesus, e a unidade entre eles mesmos. Ou seja, se a Igreja pretende ser fiel ao que o Concílio disse dela, terá que organizar-se de tal maneira que surja diante das pessoas como a instituição que promove e fomenta tudo aquilo que é indispensável para que haja realmente unidade entre os seres humanos. Ou seja, a Igreja é fiel ao Concílio quando defende, a todo o custo, as pessoas, quando luta pelos direitos das pessoas, quando denuncia os que atropelam os mais miseráveis impossibilitando, assim, a unidade entre todos. Pelo contrário, a Igreja é infiel ao Concílio quando se organiza e funciona de maneira a que a unidade e a igualdade básica de todos se torne impossível no concreto.

Mas existe mais um aspecto nesta Igreja sacramento da unidade. O Concílio não definiu o que entende por ‘Igreja como sacramento’. Deixou esta questão entregue aos teólogos, para que estes a tornem mais precisa. Em todo o caso, é necessário ter em conta que, quando se fala de Igreja como sacramento, não se trata (como acertadamente assinalou O. Semmelroth) de uma ‘definição essencial’ (da essência) da Igreja, mas de uma descrição funcional. Isto é, falar da Igreja como sacramento não é falar da essência da Igreja, mas da sua funcionalidade, da sua actuação e, nesse sentido, da sua eficácia para cumprir a tarefa que tem que cumprir neste mundo. Por outro lado, nos anos do Concílio, um «sacramento» entendia-se, e ainda hoje se entende, como uma realidade visível («signo» ou «símbolo», segundo as diversas teorias) que nos comunica algo invisível, ou seja, algo que transcende as coisas imediatas. Pois bem, daqui seguem-se consequências de uma enorme importância. Com isto quer-se dizer que a Igreja tem que aparecer diante do mundo de forma que o visível que nela existe aquilo que entra pelos olhos adentro e de que toda a gente se apercebe de imediato esteja pensado e organizado de modo que qualquer pessoa veja, toque e palpe, nos «homens da Igreja», nas «cerimónias religiosas», nas «personagens eclesiásticas» (do Papa até ao último dos últimos) algo que leve a superar divisões, atropelos, agressões e as mil formas de violência que se cometem neste mundo. Sobretudo, as agressões e os atropelos que se cometem contra os mais indefesos e os mais débeis.

Por conseguinte, quando a Igreja é vista como uma instituição que está ao lado de uns contra outros, os dirigentes eclesiásticos têm que se interrogar por que o fazem. E os cristãos em geral também têm que se fazer a mesma pergunta. Jesus foi imensamente respeitador e tolerante para com os ignorantes, os pobres e os pecadores, os perdidos e os marginais do seu tempo. Jesus só foi intolerante para com os intolerantes, para com os fanáticos que, baseando-se na religião, se presumiam melhores do que os outros e se tomavam como ‘a norma’ à qual, todo o mundo, teria que se ajustar. Isso é que Jesus nunca tolerou! A partir desse tipo de comportamento é que se tem de compreender o que significa Igreja como sacramento da unidade.

Por último, a terceira expressão que o Concílio destaca, a fim de afirmar o modelo de Igreja que ele quis, é a conhecida fórmula de Povo de Deus [LG 9]. A ela, a Constituição sobre a Igreja dedica todo o segundo capítulo, sinal claro que esta questão foi de grande importância para o Concílio. No Novo Testamento já a comunidade cristã é denominada como «Povo de Deus» [1 Pe 2:9-10]. Esta ideia foi desenvolvida amplamente pelos Padres da Igreja nos primeiros séculos do cristianismo e, de seguida, na Tradição cristã. Mas foi, sobretudo a partir do final dos anos 30 do século XX, que se acentuou a compreensão da Igreja como «povo de Deus». O Concílio Vaticano II, como muito bem assinalou Juan A. Estrada, representou o fim deste processo e, ao mesmo tempo, o ponto de partida para a revalorização da comunidade e do povo como elemento característico da Igreja.

Chegados aqui, importa recordar que, no Esquema preparatório que se elaborou antes do Concílio, se falava primeiro da hierarquia e só depois do «povo de Deus». Mas o Concílio decidiu mudar esta ordem e antepôs o capítulo do «povo de Deus» ao capítulo terceiro, aquele que trata da hierarquia. Esta ordenação manifesta, claramente, as intenções do Concílio: primeiro, fala-se do que é comum a todos os cristãos, pois, sem dúvida, isso é básico e determinante; depois, estudam-se as diferenças e determinam-se o que distingue uns dos outros. Desta maneira acabou-se com aquela teologia antiga, na qual a hierarquia era o principal, o essencial e o decisivo na Igreja, enquanto os fiéis não passavam (na prática) da clientela do clero. O teólogo do século XX mais bem preparado nestas matérias, o dominicano Yves Congar, denominou aquela «eclesiologia» de «hierarcologia». Era assim que, nos manuais anteriores ao Concílio, se estudava a matéria sobre a Igreja e o resultado era que os sacerdotes saíam dos seminários com a firme convicção que eles eram os que, antes de tudo e essencialmente, constituíam a Igreja. Os bispos e os sacerdotes eram os que sabiam das coisas da Fé e os que decidiam o que os fiéis tinham que fazer ou deixar de fazer. O resto dos cristãos não tinha outra tarefa se não aceitar o que lhes diziam e cumprir o que lhes ordenavam.

Portanto, a grande novidade que o Vaticano II trouxe foi afirmar que aquilo que há que dizer dos cristãos (desde o Papa até ao último membro da Igreja) é que todos são iguais diante de Deus e, por isso, todos participam da mesma condição.

O motivo teológico desta igualdade fundamental está, antes de tudo, em que todos os baptizados participam por igual do sacerdócio que é comum a todos os membros do «Povo de Deus», já que Cristo «fez de nós um reino, sacerdotes para Deus e seu Pai» [Ap 1:6; 5:9-10]. Isto quer dizer que o sacerdócio primeiro e essencial que existe na Igreja não é o sacerdócio ritual (que se realiza no culto e nas cerimónias dos templos), mas é o sacerdócio existencial que se realiza na vida de todos os dias e a todas as horas, ao longo da vida de cada pessoa. Isto é prévio e é mais importante que todos os ritos e todas as liturgias que se possam oferecer nas melhores catedrais do mundo. Importa que todos os cristãos tenham isto bem claro!, pois com frequência se dá mais importância a uma cerimónia sagrada, que ao comportamento diário que cada um adopta na sua vida familiar, no trabalho ou nas suas relações com os outros ou com a sociedade em que está.

A igualdade básica e fundamental de todos os cristãos também se explica porque os sacramentos primordiais da Igreja são comuns a todos os seus membros. Esses sacramentos são, antes de mais, os tradicionalmente chamados «sacramentos da iniciação cristã»: o baptismo, a confirmação e a eucaristia [LG 11]. Através do baptismo, os fiéis são incorporados na Igreja por igual e têm o dever, todos por igual, de «confessar diante dos homens a Fé que receberam». Através da confirmação, estão todos «obrigados, de modo reforçado, a difundir e a defender a Fé através de palavras e actos». E, pela eucaristia, todos «oferecem a Deus a Vítima divina» e «todos tomam parte na acção litúrgica, não de modo sincrético, mas cada um segundo a sua condição» [LG 11,1].

A conclusão disto tudo é algo de que muitos cristãos não estão de todo conscientes, mas que é determinante: a Igreja diz respeito a todos os baptizados, é da responsabilidade de todos e é um direito que, basicamente, concerne a todos por igual. Porque o sacramento que configura a Igreja na sua essência não é o sacramento da «ordem» que os bispos e presbíteros recebem, mas o sacramento do «baptismo» que é igual para todos os cristãos. Por outro lado, a eucaristia que é «fonte e cume» de toda a vida cristã [LG 11,1], − centro da vida da Igreja, como tantas vezes se diz − é acto de todos e oferenda de todos, independentemente do posto e da tarefa que cada um exerça na celebração (non promiscue sed alii aliter). O que significa que, obviamente, ainda que na eucaristia um é que preside enquanto os demais participam, isso não quer dizer que o sacerdote é o que «diz» a missa e os fiéis a «oiçam», nem tão pouco significa que o presbítero «celebra» enquanto os outros «assistem» à celebração que o clérigo de turno realiza. Todas estas expressões não são meras deformações linguísticas – expressam uma perversão teológica grave. Perversão que atinge o cume quando alguém pergunta ao padre: «A que horas dá a missa?», como se a eucaristia fosse algo parecido com um concerto ou um recital que o artista «dá» e ao qual o público «assiste».

A gravidade da perversão teológica que se oculta por de trás destas linguagens consiste em que, se os cristãos falam desta maneira e isso não os escandaliza, é porque todos assumimos que a Igreja continua a ser uma questão do clero. Isto é, os protagonistas e os responsáveis na Igreja são (e continuarão a ser) os que sempre o foram: os bispos e os sacerdotes. Os restantes, os leigos, são (e continuarão a ser) aquilo que sempre foram a vida toda: a clientela do clero. Ao povo sempre se lhe disse que «todos somos igreja», quando se trata de colaborar economicamente numa colecta, mas quando estão em causa decisões importantes ou decidir sobre assuntos sérios que digam respeito à Fé ou aos costumes dos cristãos já não somos todos igreja.

E, no entanto, por mais que isto possa surpreender algumas pessoas, o Concílio, precisamente no que diz respeito à Fé, chegou onde muitos nem sequer imaginam. E isto porquê? Porque, ao tratar do assunto da Fé no Povo cristão, a Constituição sobre a Igreja afirma que «a universalidade dos fiéis que têm a unção do Santo (cf. 1 Jo 2:20 e 27) não pode falar de moto próprio» (in credendo falli nequit) [LG 12,1]. Isto, literalmente, significa que o sujeito primeiro e fundamental da «infalibilidade» (é a isso que se refere a expressão falli nequit), «em matéria de Fé e costumes» (1.c), é a totalidade do povo cristão. Que ninguém se surpreenda com isto! Quando o Concílio Vaticano I definiu a infalibilidade do Papa, disse que o Romano Pontífice «tem o poder de infalibilidade que o Divino Redentor concedeu à sua Igreja» (ea infallibilitate pollere qua divinus Redemptor Ecclesiam suam… instructam esse voluit) (DS 3074). Por isso, têm toda a razão os teólogos quando dizem que «a Igreja, no seu conjunto, é o sujeito total da infalibilidade» (L. Scheffczyk) ou ainda quando afirmam que «não há mais do que um só sujeito de infalibilidade: a Igreja» (B. D. Dupuy). E sabemos bem que falar da Igreja é falar da totalidade do Povo de Deus. Portanto, a totalidade do povo cristão possui esse protagonismo em matéria de Fé, ou seja, o Povo de Deus é o sujeito primeiro e fundamental da infalibilidade. De modo que, se o Papa é infalível, é-o porque exprime a infalibilidade que reside em todo o Povo crente.

A partir de tudo o que está para trás, que Igreja podemos dizer que o Concílio quis? Como conclusões, podemos adiantar o seguinte:

1.                            O Concílio quis uma Igreja que seja entendível a partir da unidade misteriosa e radical que existe na Trindade Santíssima de Deus. Donde, o primeiro capítulo da Constituição sobre a Igreja se ter intitulado «O mistério da Igreja».
2.                            O Concílio quis uma Igreja que se entenda, antes de tudo, a partir da igualdade fundamental de todos os cristãos, já que, ainda que as três pessoas da Trindade Divina sejam distintas, se são entre si divinas, então, entre elas existe uma igualdade essencial.
3.                            O Concílio quis uma Igreja cuja igualdade se entenda a partir do Povo, já que a Igreja realiza em si o projecto de «Povo de Deus», o qual, desde o Antigo Testamento atá à plenitude dos tempos, é a expressão de como Deus quer realizar a salvação dos seres humanos. Trata-se, portanto, dum projecto que se realiza a partir da condição igualitária, solidária e fraterna do povo e não a partir da condição de superioridade dos que detêm o poder, dos notáveis da sociedade. Por isso, no Concílio, o capítulo do «Povo de Deus» é anteposto ao capítulo que trata da hierarquia.
4.                            O Concílio quis uma Igreja que surja e se torna visível de tal maneira que as pessoas se sintam atraídas para as coisas de Deus, pelo Evangelho de Jesus. Isto é, aquilo que toda a gente vê e palpa na Igreja deverá estar pensado e organizado de tal forma que os cidadãos normais e correntes percebam nisso algo que os leva a crer em Deus e, por isso, a sentirem-se vinculados a uma realidade última e definitiva que confira sentido pleno à vida. Por isso o Concílio afirmou que a Igreja é sacramento «da íntima união com Deus e da unidade de todo o género humano» [LG 1].
5.                            O Concílio quis uma Igreja na qual todos são, e se sintam, responsáveis na medida em que possam participar, e de facto participam, no que se pensa, naquilo que se diz e se decide. Porque todos os que pertencem a essa Igreja a sentem e a vivem como coisa sua, como algo que lhes concerne vivamente e com a qual se sentem comprometidos. Trata-se, portanto, duma Igreja em que todos, mulheres e homens, têm voz e são escutados. Uma Igreja, por isso, na qual o clero não concentra e muito menos monopoliza o poder de pensar, de dizer e de decidir. O «Povo de Deus» é, com efeito, um povo unido, no qual todos «participam» e todos realizam «obras várias e ofícios proveitosos para a renovação e uma mais ampla edificação da Igreja» [LG 12].


A conclusão que se deduz de tudo o que fica dito é que, quando a Igreja se organiza de maneira a que as coisas que acabo de indicar se tornem, no dia-a-dia, impossíveis de realizar, essa Igreja não é nem pode ser a Igreja que Deus quis. Repito: falo da prática concreta daquilo que se faz ou deixa de fazer na Igreja. Porque, em teoria, todos estamos de acordo com aquilo que o Concílio disse. Porém, o decisivo é tomar consciência de que, na Igreja, as coisas estão organizadas, de maneira que uma coisa é a teoria que se ensina e outra, bem distinta, é o que se faz na prática.

Ao dizer isto, estamos a pôr o dedo na ferida! Isto é, estamos a tocar no ponto-chave que explica porque é que o Concílio não se tornou vida na vida da Igreja e porquê se esqueceram e se perderam as esperanças que o Vaticano II despertou na Igreja. A questão determinante está em descobrir e compreender porquê, estando todos de acordo com o que disse o Concílio, na prática foi impossível realizá-lo. Isto, e precisamente isto, é o que muita gente, concretamente muitos «homens da Igreja», não conseguem compreender.

Por isso, qualquer pessoa que por um lado leia, desapaixonadamente, os Evangelhos e, por outro, repare no que é a vida e a organização da Igreja, logo logo se apercebe da distância que vai entre ambos e e, em determinadas coisas, de uma alarmante contradição.

Hoje sabemos que o centro da mensagem do Evangelho é o projecto do Reino de Deus que Jesus anunciou com as suas palavras e com a sua vida. O Concílio disse, com muita precisão e rigor, que Jesus, anunciando o Reino de Deus, «pôs em marcha» (initium fecit) aquilo que é a Igreja [LG 5,1]. Donde, a missão da Igreja deva ser «anunciar o Reino de Cristo e de Deus, estabelece-lo no meio das pessoas», de maneira que ela «constitua na terra o gérmen e o princípio deste Reino» [LG 5,2].

A Igreja, portanto, não é o Reino de Deus!

A Igreja é o começo, o sinal e a voz que anuncia aos povos que o projecto de Jesus – o Reino de Deus – está presente neste mundo, na nossa sociedade, na nossa cultura, no nosso meio. Mas, como irá, a Igreja, cumprir esta tarefa se, na prática, se organizou de tal modo que é impossível tornar em vida aquilo que é a sua razão de ser e a sua missão essencial? Eis o nó da questão – a questão da organização − que teremos de analisar e matizar cuidadosamente, se é que queremos realmente conhecer a Igreja que o Concílio quis.

José Maria Castillo [2002]


[1] Em Taizé, o Ir. Roger sempre falou da Igreja como «mistério de comunhão».[Nota do tradutor; pb]

11 de janeiro de 2012

JOÃO XXIII - AQUELE PAPA APRENDEU COM A HISTÓRIA...

Há 50 anos – Roma, 11 Out. 1962
Abertura Solene do Concílio Ecuménico Vaticano II


Pio XII, antecessor de João XXIII



O génio profético
de João XXIII


A ideia de convocar e celebrar um concílio ecuménico foi do Papa João XXIII – ocorreu-lhe a ele e somente a ele. Aliás, o Papa disse-o em público que tal lhe ocorrera subitamente. Não se tratou, portanto, de uma ideia premeditada, nem dum projecto calculista. Neste sentido, pode dizer-se que o Concílio não foi resultado de um processo de análise e de estudo, fruto de sisudas investigações. Pelo contrário, o Concílio foi um fruto inesperado de uma intuição profética. O próprio João XXIII o explicou assim, aquando do discurso de abertura, com a simplicidade e aparente ingenuidade que caracterizava aquele homem: foi tudo «um toque inesperado, um facho de luz do alto, uma grande suavidade nos olhos e no coração, mas, ao mesmo tempo, um fervor, um grande fervor que surpreendentemente alastrou por todo o mundo enquanto se esperava a celebração do concílio». Foi assim que João XXIII deu a entender que o primeiro a ficar surpreendido pela ideia de celebrar um concílio foi o próprio Papa que o haveria de convocar. Aquilo que ele pôs em marcha não foi uma iniciativa humana, puramente humana. Tratou-se de um inesperado impulso profético.

Este impulso foi visto de seguida como algo inteiramente novo e original, na medida em que representou uma mudança de posições radical naquilo que, até então, foram consideradas como «o normal» na Igreja. O dia 11 de Setembro de 1962, ou seja, um mês antes de se dar início aos trabalhos do Concílio, João XXIII dirigiu uma mensagem radiodifundida a todos os cristãos de todo o mundo. Nela, o Papa dizia que a finalidade do Concílio não era a de limitar-se a uma simples repetição de afirmações teológicas tradicionais, mas que deveria considerar como importante uma nova formulação da doutrina «nos moldes e nas proporções de um Magistério com carácter sobretudo pastoral». Portanto, a ideia do Papa não se centrava em repetir o já sabido, nem em defender as posições de sempre, nem sequer em formular novos dogmas ou verdades inquestionáveis. Por mais importante que tudo isso seja, nada disso preocupava ou interessava ao Papa João XXIII. A sua intenção era apresentar a Igreja de maneira que fosse uma verdadeira resposta às exigências da humanidade.

Ao adoptar esta postura de princípio, João XXIII dava início a um caminho novo na Igreja. Assim, inaugurava um novo estilo de ser Papa. Já não se tratava de se colocar na defensiva perante erros, nem de condenar ninguém. O que o Papa queria era que a Igreja dialogasse com o mundo e com a cultura do nosso tempo. Por isso, no discurso de abertura do Concílio, João XXIII disse que a Igreja, mantendo-se fiel à sua tradição multissecular, «deve olhar o presente, considerando as novas condições e formas de vida introduzidas pelo mundo moderno, as quais abriram novas vias para o apostolado católico». O Papa falava, pois, de «olhar o presente», das «novas condições» e das «novas formas de vida» e de como tudo isso tinha que interessar à Igreja; que a Igreja devia escutar isso e, por conseguinte, teria que o ter em conta na hora de falar e de actuar. Tinha-se passado do anátema ao «diálogo». Uma luz nova e uma brisa distinta haviam-se constituído, assim, no novo emblema da Igreja.

Mas a genialidade profética de João XXIII trazia consigo um outro aspecto que a Igreja nunca deveria esquecer. Aquele Papa pôs-se a olhar este mundo – um mundo que tinha sido tão agitado e, até, tão turbulento, no século XX – não com pessimismo e muito menos com rejeição, por mais maquilhada que fosse essa rejeição, como é usual nos profissionais da religião. Nada disso. No discurso de abertura do Concílio, João XXIII denunciou os «profetas da desgraça que passam a vida a anunciar nefandos acontecimentos como se o fim dos tempos estivesse iminente». Com estas palavras, o Papa referia-se aos «que, nos tempos modernos, não vêem outra coisa senão prevaricação e ruína». São os que «passam a vida a dizer que a nossa hora, comparativamente ao passado, está pior e assim comportam-se como aqueles que nada têm a aprender com a História». Assim, desde os primeiros momentos, o Concílio iniciou os seus trabalhos com um espírito de optimismo diante do mundo e da vida, diante da cultura e dos acontecimentos do tempo presente. Desta forma a Igreja adoptava uma atitude nova diante face à cultura da modernidade, aquela mesma cultura que caracterizava o nosso mundo nos últimos séculos. Como também poderia ser consequente, no pós-concílio, com a cultura da pos-modernidade, sobretudo nos últimos vinte anos.

É bem provável que muita gente não se tenha ainda dado conta da surpreendente novidade que realmente significou esta postura ou, sequer, esta posição global do Concílio. Para fazer uma ideia de tudo o que isto pressupôs, é necessário recordar o conflito que, desde o século XVIII, a Igreja vinha arrastando no que diz respeito às suas relações com a modernidade. A Ilustração (no campo das ideias) e a Revolução Francesa (no que à política diz respeito) haviam sido traumatizantes para a religião em geral e para a Igreja em concreto. A partir desse momento, a Igreja vira que tinha perdido a posição central que, até então, ocupara no mundo ocidental. Porque, segundo as convicções da modernidade, a religião não podia continuar a tutelar, mandar e proibir o que as pessoas pensavam e aquilo que os governantes faziam ou deixavam de fazer. Os homens da Igreja perceberam, então, que tinham de reconstruir a ordem perdida. E, para isso, nada melhor do que as ideias do catolicismo mais tradicional. Tornou-se programática a afirmação de Lamennais: «De que se trata? De reconstruir a sociedade política com a ajuda da sociedade religiosa, o que consiste na união dos espíritos através da obediência ao mesmo poder». Este poder, consoante se pensava nos ambientes eclesiásticos, era o poder do Papa.

Por isso, quando, em 1864, Pio IX editou o Syllabus, isto é, a Colecção dos Erros que a Igreja condenava, entre esses erros estava que «a razão humana se pode equiparar à própria religião». Esta condenação acarretava que a filosofia se devia situar num plano inferior à teologia (nº 8). Isto significava que a racionalidade humana tinha que estar submetida à fé. Ora, era evidente que, como a partir da Ilustração as ideias da modernidade nunca aceitaram tal postura, as autoridades eclesiásticas andaram (demasiadas vezes) à pancada com tudo aquilo que, para o mundo eclesial, representava o «mundo moderno» e suas pretensões de liberdade e de autonomia. Neste sentido, é chocante a última afirmação do Syllabus de Pio IX: «O Papa não pode nem deve reconciliar-se com o progresso e com a modernidade» (cum recenti civilitate) (nº 80).



S. Tomás de Aquino


Esta maneira de pensar manteve-se, de modo mais ou menos dissimulado nos ambientes eclesiásticos, durante o século XX. O Papa Pio XII, o antecessor imediato de João XXIII, continuava a defender o carácter histórico dos três primeiros capítulos do Génesis (Carta de 16-01-1948) e condenando uma série de erros filosóficos, por exemplo, o existencialismo, na Encíclica Humani Generis (1950). Na mesma encíclica impunha a filosofia de S. Tomás de Aquino como a única válida para as faculdades de estudos eclesiásticos e para os seminários. Ou seja, continuava-se a pensar que a autoridade eclesiástica, na medida em que é a intérprete do dom divino da revelação, tem o poder e o dever de ditame sobre a razão humana em matéria do que é verdadeiro e do que é falso. Tal passava-se não apenas em relação a assuntos religiosos, mas também em outros âmbitos, tais como a filosofia. Naturalmente, uma instituição que assim se situa face ao mundo, dificilmente pode estabelecer qualquer diálogo com a cultura que é aceite como usual nos tempos em que vivemos. É aqui que radica a dificuldade maior que a Igreja, nos últimos séculos, teve para se presentificar à sociedade.

Colocadas as coisas assim, compreende-se, sem grande dificuldade, a enorme novidade que representou a postura de João XXIII quando afirmou que não se tratava de condenar nada nem ninguém, mas de olhar com simpatia, com aceitação e em atitude de diálogo o mundo que nos tocou em sorte viver. Nisto consistiu a genialidade profética do Papa que teve a feliz inspiração de convocar um concílio para situar a Igreja, não frente ao mundo numa atitude de censura e de condenação, mas numa vontade de sincero diálogo com a sociedade e com a cultura actuais.

O problema é que, uma vez terminado o Concílio, as autoridades eclesiásticas deram, inúmeras vezes, sinais de quererem continuar a alimentar as ideias clericais do século XIX. Não segundo os mesmos moldes anteriores, bem entendido, mas, ao cabo e ao rabo, segundo ideias que justificavam o ideal de uma sociedade e cultura em que o centro é ocupado pela religião, como autoridade suprema e como ponto de referência de tudo o mais. Claro que hoje já não se diz, obviamente, que a fé tem o direito e o dever de ditar aquilo que a razão deve ou não deve pensar. Mas diz-se, por exemplo, que o cristianismo realizou «a síntese entre razão, fé e vida». Mesmo para aqueles que nada saibam da história do cristianismo, mesmo esses estão cientes dos conflitos que existiram entre as doutrinas eclesiásticas e os progressos da ciência, da liberdade e dos direitos humanos. É supérfluo recordar aqui histórias do passado que toda a gente retém ainda na memória, já que o importante, hoje, é recuperar a genialidade profética daquele que foi Papa: João XXIII.

José Maria Castillo [2002]

10 de janeiro de 2012

HIERARQUIA, SEDE DO DIREITO, DA AUTORIDADE E DO PODER?

Há 50 anos aconteceu a 1ª Sessão do Concílio Ecuménico Vaticano II


A Igreja
que o Concílio não quis


A 'Cúria', o Concílio Vaticano II e a gestão do poder dentro da Igreja Católica

O papa João XXIII anunciou a sua intenção de convocar um concílio no dia 25 de Janeiro de 1959. Até à abertura solene do mesmo, a 11 de Outubro de 1962, passaram-se mais de três anos e meio. Ao longo desses largos três anos, trabalhou-se intensamente na preparação desse grande acontecimento que se avizinhava. Organizaram-se comissões de estudo para elaborar os documentos que, nas sessões conciliares, seriam tema de debate com vistas à redacção dos textos definitivos.

Uma dessas comissões ficou encarregada de preparar o Esquema da Constituição Dogmática da Igreja. A comissão era formada por nove teólogos que, por razões as mais diversas, eram homens vinculados ao Santo Ofício, aquilo que hoje se denomina Congregação para a Doutrina da Fé. Importa dizer que o Esquema que a dita comissão preparou foi rejeitado pelo Concílio. Assim, conhecendo o conteúdo do rejeitado Esquema ficamos a saber que modelo de Igreja o Concílio também rejeitou. Ou seja, conhecendo as ideias do rejeitado Esquema ficamos a saber aquilo que o Concílio não quis dizer sobre a Igreja, ainda que tal não signifique que tudo o que o Esquema contivesse fosse falso. O que se pode concluir é que a maneira de entender a Igreja plasmada no Esquema não representava a Igreja que o Concílio desejava. Isto, sim, pode ser afirmado com absoluta certeza.

Portanto, a pergunta que se coloca consiste em saber o que é que os teólogos, que elaboraram o Esquema rejeitado, pretendiam. Pois bem, a resposta a esta pergunta é muito clara, já que os peritos que analisaram cuidadosamente o conteúdo do Esquema estão de acordo em que a preocupação fundamental que se expressava naquele documento tinha a ver com a afirmação da autoridade da Igreja e o significado salvífico que o aparelho institucional da mesma tem. Dito de outro modo: pretendia-se apresentar a Igreja como uma instituição com duas características determinantes: a autoritativa e a jurídica. O Concílio, ao rejeitar esta maneira de ver a Igreja não estava a dizer que não fosse necessária uma autoridade para governar a Igreja e um direito (ou uma legislação) que regulasse a forma de governar. O que pretendia dizer era que o determinante e o específico, na Igreja, não é nem o autoritativo, nem o jurídico.

Na medida em que a preocupação fundamental dos teólogos que elaboraram o Esquema rejeitado pelo Concílio era o que acabo de indicar, no tal Esquema trataram de representar uma natureza de Igreja em que o místico e o jurídico se identificavam, em que se misturavam a Igreja da caridade e a sociedade juridicamente organizada. O que na realidade pretendia, o Esquema, era afirmar a natureza societária da Igreja instituída por Cristo através da hierarquia eclesiástica. Mas, claro está, a partir do momento em que se entendia e se apresentava assim a Igreja, a consequência inevitável era que, pela própria natureza, a Igreja tornava-se uma sociedade «desigual», na qual uns quantos «se submetem a outros quantos», os leigos se submetem aos clérigos, os súbditos se submetem aos que mandam - para citar as próprias palavras do Esquema. Por outro lado, se a natureza da Igreja se identifica com a sua constituição hierárquica e jurídica, então estamos diante do facto de que somente a Igreja Católica Romana tem o direito de ser chamada «Igreja». Pela simples razão de, somente na Igreja Católica Romana, se encontrar plenamente realizada a constituição hierárquica e jurídica que o Esquema propunha. Em concreto, isto significava que, qualquer tentativa de diálogo com outras igrejas cristãs, ficava à partida bloqueada. De facto, no capítulo onze do Esquema, ao tratar do ecumenismo, a intenção fundamental do capítulo era negar qualquer valor salvífico às comunidades separadas. Se tal posicionamento tivesse ido avante, a divisão da Igreja teria sido consolidada e, provavelmente, essa divisão teria sido estabelecida de modo irreversível, isto é, para sempre.

Porém, o que havia de mais significativo, no Esquema, era a doutrina sobre o episcopado. Como já se disse, neste ponto colocava-se de modo manifesto um dos pontos-chave para a afirmação da eclesiologia «jurídica» e, por conseguinte, para a marginalização da eclesiologia de «comunhão». Ou seja, o que se pretendia a todo o custo era uma Igreja baseada na autoridade, no direito, nas leis para lá duma Igreja que tivesse como fundamento a união das pessoas e a experiência de comunhão com Jesus e o seu Evangelho. Não se negava estes últimos, nem tal poderia ser - pois como se poderia renunciar a viver em comunhão com Jesus e com o Evangelho? O que o Esquema reflectia era uma marcada preferência por acentuar a importância insubstituível da autoridade e do poder da Igreja, sublinhando logicamente a inapelável necessidade de submissão às leis estabelecidas, isto é, ao jurídico.

Donde a preocupação insistente em afirmar a subordinação dos bispos (quanto aos seus poderes em si, bem como no exercício dos seus poderes) ao poder do Papa. O argumento teológico que se aduzia, para que tudo ficasse firme e bem firme, consistia em dizer que o Papa é a fonte de toda a jurisdição na Igreja. Isto é, o poder de governar e mandar com autoridade  recebem-no, os Bispos (isto segundo a opinião dos que redigiram o Esquema), não do sacramento mediante o qual são «ordenados» como Bispos, mas por delegação do Papa. O mesmo é dizer que, o que os Bispos têm que fazer (e, portanto, todo o povo cristão que os bispos governam) é submeter-se e em tudo obedecer ao Papa, o qual é a fonte e a expressão da vontade divina da Igreja. Ora, claro está: no momento em que as coisas fossem colocadas assim, a estrutura e a própria constituição da Igreja, bem como a relação do Papa com os Bispos era comparável a uma dialéctica de poderes, mais do que com uma comunhão no serviço às pessoas, em geral, e ao povo de Deus, em particular.

É evidente a todos que, se tal maneira de ver a Igreja tivesse ido avante, a Igreja de Jesus Cristo seria vista aos olhos do mundo como uma instituição na qual se gere o poder e, até, onde se rivaliza com o poder supremo (posto que se trata do poder divino). No entanto, a Igreja nunca seria a comunidade dos que tentam viver do modo como Jesus viveu. Mais adiante explicarei como e até que ponto (não obstante o Concílio) acabou por ficar de pé algo disso e como algumas dessas ideias ainda continuam presentes na Igreja.

A consequência lógica deste modo de compreender e apresentar a Igreja teria sido a afirmação vigorosa do papel do poder eclesiástico e a importância que tem o poder eclesiástico. A este assunto estava dedicado o capítulo oitavo do Esquema. A intenção fundamental desse capítulo era prática e concreta: tratava-se de reafirmar a autoridade do magistério, principalmente o magistério ordenado do Papa e dos Bispos, de modo que isso ficasse bem vincado face a todos aqueles que pretendiam desvalorizar a autoridade magisterial da Igreja. Tal finalidade era conseguida ao vincar-se muito bem a distinção entre a Igreja «docente» (a que ensina) e a Igreja «discente» (a que aprende). Na Igreja haveria uns poucos que ensinam, pois são os que sabem e têm a verdade (os Bispos e os sacerdotes seus colaboradores) e haveria outros, a maioria, que são os que aprendem e se submetem àquilo que se lhes diz (os leigos). Em suma, era a ideia que Pio X tinha afirmado com vigor na sua encíclica Vehementer nos, dos idos de 1906: «Na Hierarquia reside todo o direito e toda a autoridade necessárias para promover e dirigir a todos os membros da sociedade. Quanto ao povo, não tem outro direito senão o de deixar-se conduzir e seguir docilmente os seus pastores».

Mas, até, no que diz respeito aos que mandam e ensinam, nem todos estão à mesma altura, nem no mesmo ranking. Concretamente, todo o capítulo oitavo do Esquema tendia a antepor o magistério papal ao episcopal. O texto dizia literalmente: a função de ensinar «é exercida em primeiro lugar pelo Pontífice Romano, pois é ele que representa a própria pessoa do divino Mestre para toda a Igreja…; donde o Romano Pontífice é o supremo mestre da verdade para toda a Igreja católica e a ele pertence principalmente o ofício e o direito de custodiar integramente, de defender e de propor infalivelmente a doutrina da salvação para todos os fiéis cristãos». O problema que este texto apresentava não está na afirmação da infalibilidade do Papa, mas por o afirmar sem, ao mesmo tempo, dizer que também, na Igreja, o conjunto dos Bispos (o que, depois do Concílio, se designou por «Colégio Episcopal») é sujeito de infalibilidade. Assim se confirma a denunciada tendência do Esquema para destacar os poderes e a autoridade magisterial do Papa para lá de qualquer outra autoridade, sem ter na devida conta a autoridade que também têm os Bispos e, na base, também tem o sensus fidei, ou seja, o comum ‘sentido da fé’ que o conjunto dos crentes têm e acerca do qual o Concílio também disse que é sujeito de infalibilidade na Igreja.

Em resumo, todo o capítulo acerca do poder e da autoridade da Igreja estava construído em função duma postura polémica acerca da autoridade eclesiástica erguida contra as ideias anti-autoritárias, carismáticas ou democráticas, muito vivas durante a década de sessenta, na maior parte do mundo.

Por último, o capítulo nove do Esquema tratava das relações entre a Igreja e o Estado afirmando (uma vez mais) que a Igreja é uma «sociedade perfeita». O capítulo defendia também que o Estado tinha a obrigação de não impedir que a Igreja ensinasse a sua doutrina e, para além disso, o próprio Estado devia eliminar os obstáculos e facilitar, por todos os meios, o exercício da vida cristã.

Em jeito de conclusão, pode dizer-se que a estrutura determinante do Esquema estava pensada a partir da doutrina do magistério eclesiástico, sobretudo, um tipo de magistério que ia desde meados do século XIX até às vésperas do Concílio. Na verdade, o que aquele texto citava eram encíclicas e discursos papais, em quanto que a documentação bíblica e o ensino dos grandes teólogos, quer antigos, quer modernos, primavam pela ausência. Donde, a Igreja que resultaria daquele primeiro Esquema seria uma instituição cimentada sobre dois grandes pilares: o poder e a lei. Isto é, o poder (sobretudo, o poder papal) que actua na Igreja e no mundo através do Direito e leis às quais todos os fiéis têm que se submeter. Dito de maneira muito resumida, era nisto que consistia a estrutura à qual se veio chamar Eclesiologia Jurídica. A preocupação fundamental dos redactores do Esquema fora a de chamar a atenção para o significado salvífico e o valor divino do aparelho institucional. Era nisto que consistia, como alguém muito bem disse, «o horizonte do Esquema».

Pois bem, se algo se pode afirmar com total segurança é que esta maneira de entender e de realizar aquilo que a Igreja é não foi aceite pelo Concílio. O Vaticano II afirmou, obviamente, a razão de ser e a importância da estrutura hierárquica da Igreja, mas essa estrutura, nos documentos definitivos, acabou por ficar dependente de algo que lhe é prévia e, por tanto, muito mais fundamental para ela mesma. Porque, previamente a todo o poder e a toda a lei, prévia a qualquer diferença e a qualquer classificação, está o que é comum a todos na Igreja, que é aquilo que nos une todos a ela. Isto é, antes da Eclesiologia Jurídica está a Eclesiologia de comunhão, que é o que dá o verdadeiro sentido, significado e alcance ao próprio ser da Igreja e a todo o tipo de actuação da Igreja neste mundo.

Não lhe faltava razão ao cardeal de Colónia, J. Doepfner, quando (nos documentos preparatórios do Concílio) disse, a propósito da função magisterial da hierarquia: «Há expectativa quanto a uma explicação paterna e pastoral acerca de como este tão grave e alto poder de ensinar se articula com a natureza da Igreja e com o seu destino de salvação. Bem como serve ele, directa e eficazmente, o bem dos homens, sejam católicos ou não católicos». Por isso, concluía o cardeal Doepfner, o que faz falta é insistir no sentido profético do magistério da Igreja.

José Maria Castillo [2002]




CÚRIA ROMANA – PROTOCOLO RELIGIOSO

A Cúria Romana é composta por um vasto conjunto de Instituições que apoiam Sua Santidade, em várias actividades, como Chefe da Igreja Católica.
a) Secretaria de Estado (“Secretaria Status”): trata dos assuntos gerais e das relações com outros Estados.
A sua origem remonta ao século XV e à “Constituição Apostólica Non Debet Reprehensibile”, que data de 31 de Dezembro de 1487, quando foi criada a Secretaria Apostólica. Actualmente, a Secretaria de Estado é presidida por um Cardeal: Cardeal Secretário de Estado. Este é o primeiro colaborador de Sua Santidade no Governo da Igreja. Pode ser considerado o expoente máximo da actividade diplomática e política da Santa Sé, podendo representar o Santo Padre.
b) Congregações: composta por diversas secções que se encarregam do tratamento de assuntos da Igreja: Congregação para a Doutrina da Fé; para os Bispos; para o Clero; para a Educação Católica; para as Igrejas Orientais; para as Causas dos Santos; para a Evangelização dos Povos; para os Institutos de Vida Consagrada e Sociedades de Vida Apostólica; para o Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos;
c) Conselhos Pontifícios compostos pelos dicastérios: Secretaria de Estado, Congregações, Tribunais Eclesiásticos, Conselhos, Ofícios, Comissões e Comités;
d) Tribunais: onde são julgados processos relativos ao Direito Canónico: Penitenciaria Apostólica, Supremo Tribunal de Assinatura Apostólica e Tribunal da Rota Romana;.
e) Guarda Suíça: é o exército de pequena dimensão do Estado do Vaticano;
f) Comissões Pontifícias para: a América Latina; Ecclesia Dei; Bens Culturais da Igreja; Arqueologia Sacra; Bíblica; Teológica Internacional; Interdicasterial para o Catecismo da Igreja Católica e, por fim, para as Relações Religiosas com o Judaísmo;
g) Academias Pontifícias: para a Vida; Ciências; Eclesiástica; Cultorum Martyrum e, por fim, das Ciências Sociais.
h) Pontifícios Comités: para os Congressos Eucarísticos Internacionais e para as Ciências Históricas.
Fonte: http://www.vatican.va
Susana de Salazar Casanova



6 de janeiro de 2012

REIS MAGOS E INCULTURAÇÃO



Carta às Irmãs e Irmãos da comunidade de Mateus,

Quero conversar com vocês como se estivéssemos uns diante dos outros e vocês fossem conterrâneos deste final de século conturbado e tão carente de esperanças. No começo, pensei em escrever uma carta pessoal a Mateus, mas nenhum livro da Bíblia é de cunho somente individual. Além disso, embora desde os tempos mais antigos todos atribuam a Mateus a honra de ser o redator deste livro, nem ele assinou nem chama o texto de Evangelho (como Marcos inicia dizendo: "Início do Evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus"). Então, escrevo a vocês da comunidade, que participaram da experiência que gerou o texto de Mateus.
(...)
Ao contar a visita dos magos a Jesus Menino, vocês não pretendiam narrar um relato histórico ou um fato jornalístico. Quiseram significar o encontro de Jesus com os outros povos e culturas. Fizeram isso comentando textos bíblicos como Isaías 60, o Salmo 72 e a profecia de Balaão (Nm 22-24). Vocês os comentam como os rabinos faziam, contando histórias (midrash), e nos presen­tearam esse relato tão bonito.

O poema do discípulo de Isaías (Is 60) e, talvez, mesmo o Salmo 72 vêm de uma época na qual Jerusalém estava sendo reconstruí­da. Os recursos eram poucos e, em comparação ao que era antes de ser destruída pelos Babilônios, era uma aldeia. O profeta vê o sol nascer sobre a cidade e proclama a promessa de Deus de que, um dia, Jerusalém será luminosa e cheia de glória e os reis das nações a ela acorrerão trazendo presentes. Num contexto de sofrimento e de revalorização da identidade do povo pobre, aquela visão nada tinha de etnocentrismo. Era universalista. Aplicando essa profecia aos magos que vêm homenagear a criança pobre que nasceu em Belém, vocês a tornam mais universal ainda.

Embora não tenham dito que os magos eram reis e santos, como a tradição soube acrescentar, vocês contaram que eles gostavam das estrelas e vieram de longe, do oriente, atrás de uma estrela e em busca do Rei dos judeus que acabara de nascer neste mundo.

Com esse novo comentário narrativo de textos bíblicos (mídrash), desde o início do Evangelho, vocês associam as culturas e religiões diferentes à busca de Deus, ao reconhecimento de Jesus como "Rei dos Judeus" e ao acolhimento do Reino de Deus (ou dos céus, como vocês o chamam).

Na cultura judaica na qual a comunidade estava inserida, não deve ter sido fácil para vocês reconhecerem que até a astrologia e a interpretação dos sonhos podem conduzir pessoas como os magos ao Senhor. (Chouraqui chama os magos de "astrólogos''). Na região da Síria e da Ásia Menor era praticada a religião do deus Mitra. Era um sincretismo de antigos cultos ao sol. Os fiéis de Mitra contavam que o seu deus nasceu numa caverna na noite de 25 de Dezembro (solstício do inverno e festa do sol que renasce do frio e da escuri­dão das noites cada vez mais longas). Aliás, por acaso, os sacerdotes de Mitra se chamavam "magos", porque eram homens que lidavam com os astros e com os mistérios da vida.

Será que, ao contar a bela história dos magos que vieram a Belém adorar o menino Jesus, vocês quiseram assumir algo da história de Mitra e transpô-la para o contexto cristão? Hoje, falamos muito de inculturação. Mas ainda há muitos bispos e pastores que têm preconceito contra sincretismo (= coexistência de padrões religiosos diferentes convivendo em paz entre si). Será que, nessa história, vocês da comunidade de Mateus queriam nos ensinar que há um tipo de sincretismo que é válido e compreensível?


Marcelo Barros (Teólogo, Brasil)
CEBI