teologia para leigos

11 de janeiro de 2012

JOÃO XXIII - AQUELE PAPA APRENDEU COM A HISTÓRIA...

Há 50 anos – Roma, 11 Out. 1962
Abertura Solene do Concílio Ecuménico Vaticano II


Pio XII, antecessor de João XXIII



O génio profético
de João XXIII


A ideia de convocar e celebrar um concílio ecuménico foi do Papa João XXIII – ocorreu-lhe a ele e somente a ele. Aliás, o Papa disse-o em público que tal lhe ocorrera subitamente. Não se tratou, portanto, de uma ideia premeditada, nem dum projecto calculista. Neste sentido, pode dizer-se que o Concílio não foi resultado de um processo de análise e de estudo, fruto de sisudas investigações. Pelo contrário, o Concílio foi um fruto inesperado de uma intuição profética. O próprio João XXIII o explicou assim, aquando do discurso de abertura, com a simplicidade e aparente ingenuidade que caracterizava aquele homem: foi tudo «um toque inesperado, um facho de luz do alto, uma grande suavidade nos olhos e no coração, mas, ao mesmo tempo, um fervor, um grande fervor que surpreendentemente alastrou por todo o mundo enquanto se esperava a celebração do concílio». Foi assim que João XXIII deu a entender que o primeiro a ficar surpreendido pela ideia de celebrar um concílio foi o próprio Papa que o haveria de convocar. Aquilo que ele pôs em marcha não foi uma iniciativa humana, puramente humana. Tratou-se de um inesperado impulso profético.

Este impulso foi visto de seguida como algo inteiramente novo e original, na medida em que representou uma mudança de posições radical naquilo que, até então, foram consideradas como «o normal» na Igreja. O dia 11 de Setembro de 1962, ou seja, um mês antes de se dar início aos trabalhos do Concílio, João XXIII dirigiu uma mensagem radiodifundida a todos os cristãos de todo o mundo. Nela, o Papa dizia que a finalidade do Concílio não era a de limitar-se a uma simples repetição de afirmações teológicas tradicionais, mas que deveria considerar como importante uma nova formulação da doutrina «nos moldes e nas proporções de um Magistério com carácter sobretudo pastoral». Portanto, a ideia do Papa não se centrava em repetir o já sabido, nem em defender as posições de sempre, nem sequer em formular novos dogmas ou verdades inquestionáveis. Por mais importante que tudo isso seja, nada disso preocupava ou interessava ao Papa João XXIII. A sua intenção era apresentar a Igreja de maneira que fosse uma verdadeira resposta às exigências da humanidade.

Ao adoptar esta postura de princípio, João XXIII dava início a um caminho novo na Igreja. Assim, inaugurava um novo estilo de ser Papa. Já não se tratava de se colocar na defensiva perante erros, nem de condenar ninguém. O que o Papa queria era que a Igreja dialogasse com o mundo e com a cultura do nosso tempo. Por isso, no discurso de abertura do Concílio, João XXIII disse que a Igreja, mantendo-se fiel à sua tradição multissecular, «deve olhar o presente, considerando as novas condições e formas de vida introduzidas pelo mundo moderno, as quais abriram novas vias para o apostolado católico». O Papa falava, pois, de «olhar o presente», das «novas condições» e das «novas formas de vida» e de como tudo isso tinha que interessar à Igreja; que a Igreja devia escutar isso e, por conseguinte, teria que o ter em conta na hora de falar e de actuar. Tinha-se passado do anátema ao «diálogo». Uma luz nova e uma brisa distinta haviam-se constituído, assim, no novo emblema da Igreja.

Mas a genialidade profética de João XXIII trazia consigo um outro aspecto que a Igreja nunca deveria esquecer. Aquele Papa pôs-se a olhar este mundo – um mundo que tinha sido tão agitado e, até, tão turbulento, no século XX – não com pessimismo e muito menos com rejeição, por mais maquilhada que fosse essa rejeição, como é usual nos profissionais da religião. Nada disso. No discurso de abertura do Concílio, João XXIII denunciou os «profetas da desgraça que passam a vida a anunciar nefandos acontecimentos como se o fim dos tempos estivesse iminente». Com estas palavras, o Papa referia-se aos «que, nos tempos modernos, não vêem outra coisa senão prevaricação e ruína». São os que «passam a vida a dizer que a nossa hora, comparativamente ao passado, está pior e assim comportam-se como aqueles que nada têm a aprender com a História». Assim, desde os primeiros momentos, o Concílio iniciou os seus trabalhos com um espírito de optimismo diante do mundo e da vida, diante da cultura e dos acontecimentos do tempo presente. Desta forma a Igreja adoptava uma atitude nova diante face à cultura da modernidade, aquela mesma cultura que caracterizava o nosso mundo nos últimos séculos. Como também poderia ser consequente, no pós-concílio, com a cultura da pos-modernidade, sobretudo nos últimos vinte anos.

É bem provável que muita gente não se tenha ainda dado conta da surpreendente novidade que realmente significou esta postura ou, sequer, esta posição global do Concílio. Para fazer uma ideia de tudo o que isto pressupôs, é necessário recordar o conflito que, desde o século XVIII, a Igreja vinha arrastando no que diz respeito às suas relações com a modernidade. A Ilustração (no campo das ideias) e a Revolução Francesa (no que à política diz respeito) haviam sido traumatizantes para a religião em geral e para a Igreja em concreto. A partir desse momento, a Igreja vira que tinha perdido a posição central que, até então, ocupara no mundo ocidental. Porque, segundo as convicções da modernidade, a religião não podia continuar a tutelar, mandar e proibir o que as pessoas pensavam e aquilo que os governantes faziam ou deixavam de fazer. Os homens da Igreja perceberam, então, que tinham de reconstruir a ordem perdida. E, para isso, nada melhor do que as ideias do catolicismo mais tradicional. Tornou-se programática a afirmação de Lamennais: «De que se trata? De reconstruir a sociedade política com a ajuda da sociedade religiosa, o que consiste na união dos espíritos através da obediência ao mesmo poder». Este poder, consoante se pensava nos ambientes eclesiásticos, era o poder do Papa.

Por isso, quando, em 1864, Pio IX editou o Syllabus, isto é, a Colecção dos Erros que a Igreja condenava, entre esses erros estava que «a razão humana se pode equiparar à própria religião». Esta condenação acarretava que a filosofia se devia situar num plano inferior à teologia (nº 8). Isto significava que a racionalidade humana tinha que estar submetida à fé. Ora, era evidente que, como a partir da Ilustração as ideias da modernidade nunca aceitaram tal postura, as autoridades eclesiásticas andaram (demasiadas vezes) à pancada com tudo aquilo que, para o mundo eclesial, representava o «mundo moderno» e suas pretensões de liberdade e de autonomia. Neste sentido, é chocante a última afirmação do Syllabus de Pio IX: «O Papa não pode nem deve reconciliar-se com o progresso e com a modernidade» (cum recenti civilitate) (nº 80).



S. Tomás de Aquino


Esta maneira de pensar manteve-se, de modo mais ou menos dissimulado nos ambientes eclesiásticos, durante o século XX. O Papa Pio XII, o antecessor imediato de João XXIII, continuava a defender o carácter histórico dos três primeiros capítulos do Génesis (Carta de 16-01-1948) e condenando uma série de erros filosóficos, por exemplo, o existencialismo, na Encíclica Humani Generis (1950). Na mesma encíclica impunha a filosofia de S. Tomás de Aquino como a única válida para as faculdades de estudos eclesiásticos e para os seminários. Ou seja, continuava-se a pensar que a autoridade eclesiástica, na medida em que é a intérprete do dom divino da revelação, tem o poder e o dever de ditame sobre a razão humana em matéria do que é verdadeiro e do que é falso. Tal passava-se não apenas em relação a assuntos religiosos, mas também em outros âmbitos, tais como a filosofia. Naturalmente, uma instituição que assim se situa face ao mundo, dificilmente pode estabelecer qualquer diálogo com a cultura que é aceite como usual nos tempos em que vivemos. É aqui que radica a dificuldade maior que a Igreja, nos últimos séculos, teve para se presentificar à sociedade.

Colocadas as coisas assim, compreende-se, sem grande dificuldade, a enorme novidade que representou a postura de João XXIII quando afirmou que não se tratava de condenar nada nem ninguém, mas de olhar com simpatia, com aceitação e em atitude de diálogo o mundo que nos tocou em sorte viver. Nisto consistiu a genialidade profética do Papa que teve a feliz inspiração de convocar um concílio para situar a Igreja, não frente ao mundo numa atitude de censura e de condenação, mas numa vontade de sincero diálogo com a sociedade e com a cultura actuais.

O problema é que, uma vez terminado o Concílio, as autoridades eclesiásticas deram, inúmeras vezes, sinais de quererem continuar a alimentar as ideias clericais do século XIX. Não segundo os mesmos moldes anteriores, bem entendido, mas, ao cabo e ao rabo, segundo ideias que justificavam o ideal de uma sociedade e cultura em que o centro é ocupado pela religião, como autoridade suprema e como ponto de referência de tudo o mais. Claro que hoje já não se diz, obviamente, que a fé tem o direito e o dever de ditar aquilo que a razão deve ou não deve pensar. Mas diz-se, por exemplo, que o cristianismo realizou «a síntese entre razão, fé e vida». Mesmo para aqueles que nada saibam da história do cristianismo, mesmo esses estão cientes dos conflitos que existiram entre as doutrinas eclesiásticas e os progressos da ciência, da liberdade e dos direitos humanos. É supérfluo recordar aqui histórias do passado que toda a gente retém ainda na memória, já que o importante, hoje, é recuperar a genialidade profética daquele que foi Papa: João XXIII.

José Maria Castillo [2002]

10 de janeiro de 2012

HIERARQUIA, SEDE DO DIREITO, DA AUTORIDADE E DO PODER?

Há 50 anos aconteceu a 1ª Sessão do Concílio Ecuménico Vaticano II


A Igreja
que o Concílio não quis


A 'Cúria', o Concílio Vaticano II e a gestão do poder dentro da Igreja Católica

O papa João XXIII anunciou a sua intenção de convocar um concílio no dia 25 de Janeiro de 1959. Até à abertura solene do mesmo, a 11 de Outubro de 1962, passaram-se mais de três anos e meio. Ao longo desses largos três anos, trabalhou-se intensamente na preparação desse grande acontecimento que se avizinhava. Organizaram-se comissões de estudo para elaborar os documentos que, nas sessões conciliares, seriam tema de debate com vistas à redacção dos textos definitivos.

Uma dessas comissões ficou encarregada de preparar o Esquema da Constituição Dogmática da Igreja. A comissão era formada por nove teólogos que, por razões as mais diversas, eram homens vinculados ao Santo Ofício, aquilo que hoje se denomina Congregação para a Doutrina da Fé. Importa dizer que o Esquema que a dita comissão preparou foi rejeitado pelo Concílio. Assim, conhecendo o conteúdo do rejeitado Esquema ficamos a saber que modelo de Igreja o Concílio também rejeitou. Ou seja, conhecendo as ideias do rejeitado Esquema ficamos a saber aquilo que o Concílio não quis dizer sobre a Igreja, ainda que tal não signifique que tudo o que o Esquema contivesse fosse falso. O que se pode concluir é que a maneira de entender a Igreja plasmada no Esquema não representava a Igreja que o Concílio desejava. Isto, sim, pode ser afirmado com absoluta certeza.

Portanto, a pergunta que se coloca consiste em saber o que é que os teólogos, que elaboraram o Esquema rejeitado, pretendiam. Pois bem, a resposta a esta pergunta é muito clara, já que os peritos que analisaram cuidadosamente o conteúdo do Esquema estão de acordo em que a preocupação fundamental que se expressava naquele documento tinha a ver com a afirmação da autoridade da Igreja e o significado salvífico que o aparelho institucional da mesma tem. Dito de outro modo: pretendia-se apresentar a Igreja como uma instituição com duas características determinantes: a autoritativa e a jurídica. O Concílio, ao rejeitar esta maneira de ver a Igreja não estava a dizer que não fosse necessária uma autoridade para governar a Igreja e um direito (ou uma legislação) que regulasse a forma de governar. O que pretendia dizer era que o determinante e o específico, na Igreja, não é nem o autoritativo, nem o jurídico.

Na medida em que a preocupação fundamental dos teólogos que elaboraram o Esquema rejeitado pelo Concílio era o que acabo de indicar, no tal Esquema trataram de representar uma natureza de Igreja em que o místico e o jurídico se identificavam, em que se misturavam a Igreja da caridade e a sociedade juridicamente organizada. O que na realidade pretendia, o Esquema, era afirmar a natureza societária da Igreja instituída por Cristo através da hierarquia eclesiástica. Mas, claro está, a partir do momento em que se entendia e se apresentava assim a Igreja, a consequência inevitável era que, pela própria natureza, a Igreja tornava-se uma sociedade «desigual», na qual uns quantos «se submetem a outros quantos», os leigos se submetem aos clérigos, os súbditos se submetem aos que mandam - para citar as próprias palavras do Esquema. Por outro lado, se a natureza da Igreja se identifica com a sua constituição hierárquica e jurídica, então estamos diante do facto de que somente a Igreja Católica Romana tem o direito de ser chamada «Igreja». Pela simples razão de, somente na Igreja Católica Romana, se encontrar plenamente realizada a constituição hierárquica e jurídica que o Esquema propunha. Em concreto, isto significava que, qualquer tentativa de diálogo com outras igrejas cristãs, ficava à partida bloqueada. De facto, no capítulo onze do Esquema, ao tratar do ecumenismo, a intenção fundamental do capítulo era negar qualquer valor salvífico às comunidades separadas. Se tal posicionamento tivesse ido avante, a divisão da Igreja teria sido consolidada e, provavelmente, essa divisão teria sido estabelecida de modo irreversível, isto é, para sempre.

Porém, o que havia de mais significativo, no Esquema, era a doutrina sobre o episcopado. Como já se disse, neste ponto colocava-se de modo manifesto um dos pontos-chave para a afirmação da eclesiologia «jurídica» e, por conseguinte, para a marginalização da eclesiologia de «comunhão». Ou seja, o que se pretendia a todo o custo era uma Igreja baseada na autoridade, no direito, nas leis para lá duma Igreja que tivesse como fundamento a união das pessoas e a experiência de comunhão com Jesus e o seu Evangelho. Não se negava estes últimos, nem tal poderia ser - pois como se poderia renunciar a viver em comunhão com Jesus e com o Evangelho? O que o Esquema reflectia era uma marcada preferência por acentuar a importância insubstituível da autoridade e do poder da Igreja, sublinhando logicamente a inapelável necessidade de submissão às leis estabelecidas, isto é, ao jurídico.

Donde a preocupação insistente em afirmar a subordinação dos bispos (quanto aos seus poderes em si, bem como no exercício dos seus poderes) ao poder do Papa. O argumento teológico que se aduzia, para que tudo ficasse firme e bem firme, consistia em dizer que o Papa é a fonte de toda a jurisdição na Igreja. Isto é, o poder de governar e mandar com autoridade  recebem-no, os Bispos (isto segundo a opinião dos que redigiram o Esquema), não do sacramento mediante o qual são «ordenados» como Bispos, mas por delegação do Papa. O mesmo é dizer que, o que os Bispos têm que fazer (e, portanto, todo o povo cristão que os bispos governam) é submeter-se e em tudo obedecer ao Papa, o qual é a fonte e a expressão da vontade divina da Igreja. Ora, claro está: no momento em que as coisas fossem colocadas assim, a estrutura e a própria constituição da Igreja, bem como a relação do Papa com os Bispos era comparável a uma dialéctica de poderes, mais do que com uma comunhão no serviço às pessoas, em geral, e ao povo de Deus, em particular.

É evidente a todos que, se tal maneira de ver a Igreja tivesse ido avante, a Igreja de Jesus Cristo seria vista aos olhos do mundo como uma instituição na qual se gere o poder e, até, onde se rivaliza com o poder supremo (posto que se trata do poder divino). No entanto, a Igreja nunca seria a comunidade dos que tentam viver do modo como Jesus viveu. Mais adiante explicarei como e até que ponto (não obstante o Concílio) acabou por ficar de pé algo disso e como algumas dessas ideias ainda continuam presentes na Igreja.

A consequência lógica deste modo de compreender e apresentar a Igreja teria sido a afirmação vigorosa do papel do poder eclesiástico e a importância que tem o poder eclesiástico. A este assunto estava dedicado o capítulo oitavo do Esquema. A intenção fundamental desse capítulo era prática e concreta: tratava-se de reafirmar a autoridade do magistério, principalmente o magistério ordenado do Papa e dos Bispos, de modo que isso ficasse bem vincado face a todos aqueles que pretendiam desvalorizar a autoridade magisterial da Igreja. Tal finalidade era conseguida ao vincar-se muito bem a distinção entre a Igreja «docente» (a que ensina) e a Igreja «discente» (a que aprende). Na Igreja haveria uns poucos que ensinam, pois são os que sabem e têm a verdade (os Bispos e os sacerdotes seus colaboradores) e haveria outros, a maioria, que são os que aprendem e se submetem àquilo que se lhes diz (os leigos). Em suma, era a ideia que Pio X tinha afirmado com vigor na sua encíclica Vehementer nos, dos idos de 1906: «Na Hierarquia reside todo o direito e toda a autoridade necessárias para promover e dirigir a todos os membros da sociedade. Quanto ao povo, não tem outro direito senão o de deixar-se conduzir e seguir docilmente os seus pastores».

Mas, até, no que diz respeito aos que mandam e ensinam, nem todos estão à mesma altura, nem no mesmo ranking. Concretamente, todo o capítulo oitavo do Esquema tendia a antepor o magistério papal ao episcopal. O texto dizia literalmente: a função de ensinar «é exercida em primeiro lugar pelo Pontífice Romano, pois é ele que representa a própria pessoa do divino Mestre para toda a Igreja…; donde o Romano Pontífice é o supremo mestre da verdade para toda a Igreja católica e a ele pertence principalmente o ofício e o direito de custodiar integramente, de defender e de propor infalivelmente a doutrina da salvação para todos os fiéis cristãos». O problema que este texto apresentava não está na afirmação da infalibilidade do Papa, mas por o afirmar sem, ao mesmo tempo, dizer que também, na Igreja, o conjunto dos Bispos (o que, depois do Concílio, se designou por «Colégio Episcopal») é sujeito de infalibilidade. Assim se confirma a denunciada tendência do Esquema para destacar os poderes e a autoridade magisterial do Papa para lá de qualquer outra autoridade, sem ter na devida conta a autoridade que também têm os Bispos e, na base, também tem o sensus fidei, ou seja, o comum ‘sentido da fé’ que o conjunto dos crentes têm e acerca do qual o Concílio também disse que é sujeito de infalibilidade na Igreja.

Em resumo, todo o capítulo acerca do poder e da autoridade da Igreja estava construído em função duma postura polémica acerca da autoridade eclesiástica erguida contra as ideias anti-autoritárias, carismáticas ou democráticas, muito vivas durante a década de sessenta, na maior parte do mundo.

Por último, o capítulo nove do Esquema tratava das relações entre a Igreja e o Estado afirmando (uma vez mais) que a Igreja é uma «sociedade perfeita». O capítulo defendia também que o Estado tinha a obrigação de não impedir que a Igreja ensinasse a sua doutrina e, para além disso, o próprio Estado devia eliminar os obstáculos e facilitar, por todos os meios, o exercício da vida cristã.

Em jeito de conclusão, pode dizer-se que a estrutura determinante do Esquema estava pensada a partir da doutrina do magistério eclesiástico, sobretudo, um tipo de magistério que ia desde meados do século XIX até às vésperas do Concílio. Na verdade, o que aquele texto citava eram encíclicas e discursos papais, em quanto que a documentação bíblica e o ensino dos grandes teólogos, quer antigos, quer modernos, primavam pela ausência. Donde, a Igreja que resultaria daquele primeiro Esquema seria uma instituição cimentada sobre dois grandes pilares: o poder e a lei. Isto é, o poder (sobretudo, o poder papal) que actua na Igreja e no mundo através do Direito e leis às quais todos os fiéis têm que se submeter. Dito de maneira muito resumida, era nisto que consistia a estrutura à qual se veio chamar Eclesiologia Jurídica. A preocupação fundamental dos redactores do Esquema fora a de chamar a atenção para o significado salvífico e o valor divino do aparelho institucional. Era nisto que consistia, como alguém muito bem disse, «o horizonte do Esquema».

Pois bem, se algo se pode afirmar com total segurança é que esta maneira de entender e de realizar aquilo que a Igreja é não foi aceite pelo Concílio. O Vaticano II afirmou, obviamente, a razão de ser e a importância da estrutura hierárquica da Igreja, mas essa estrutura, nos documentos definitivos, acabou por ficar dependente de algo que lhe é prévia e, por tanto, muito mais fundamental para ela mesma. Porque, previamente a todo o poder e a toda a lei, prévia a qualquer diferença e a qualquer classificação, está o que é comum a todos na Igreja, que é aquilo que nos une todos a ela. Isto é, antes da Eclesiologia Jurídica está a Eclesiologia de comunhão, que é o que dá o verdadeiro sentido, significado e alcance ao próprio ser da Igreja e a todo o tipo de actuação da Igreja neste mundo.

Não lhe faltava razão ao cardeal de Colónia, J. Doepfner, quando (nos documentos preparatórios do Concílio) disse, a propósito da função magisterial da hierarquia: «Há expectativa quanto a uma explicação paterna e pastoral acerca de como este tão grave e alto poder de ensinar se articula com a natureza da Igreja e com o seu destino de salvação. Bem como serve ele, directa e eficazmente, o bem dos homens, sejam católicos ou não católicos». Por isso, concluía o cardeal Doepfner, o que faz falta é insistir no sentido profético do magistério da Igreja.

José Maria Castillo [2002]




CÚRIA ROMANA – PROTOCOLO RELIGIOSO

A Cúria Romana é composta por um vasto conjunto de Instituições que apoiam Sua Santidade, em várias actividades, como Chefe da Igreja Católica.
a) Secretaria de Estado (“Secretaria Status”): trata dos assuntos gerais e das relações com outros Estados.
A sua origem remonta ao século XV e à “Constituição Apostólica Non Debet Reprehensibile”, que data de 31 de Dezembro de 1487, quando foi criada a Secretaria Apostólica. Actualmente, a Secretaria de Estado é presidida por um Cardeal: Cardeal Secretário de Estado. Este é o primeiro colaborador de Sua Santidade no Governo da Igreja. Pode ser considerado o expoente máximo da actividade diplomática e política da Santa Sé, podendo representar o Santo Padre.
b) Congregações: composta por diversas secções que se encarregam do tratamento de assuntos da Igreja: Congregação para a Doutrina da Fé; para os Bispos; para o Clero; para a Educação Católica; para as Igrejas Orientais; para as Causas dos Santos; para a Evangelização dos Povos; para os Institutos de Vida Consagrada e Sociedades de Vida Apostólica; para o Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos;
c) Conselhos Pontifícios compostos pelos dicastérios: Secretaria de Estado, Congregações, Tribunais Eclesiásticos, Conselhos, Ofícios, Comissões e Comités;
d) Tribunais: onde são julgados processos relativos ao Direito Canónico: Penitenciaria Apostólica, Supremo Tribunal de Assinatura Apostólica e Tribunal da Rota Romana;.
e) Guarda Suíça: é o exército de pequena dimensão do Estado do Vaticano;
f) Comissões Pontifícias para: a América Latina; Ecclesia Dei; Bens Culturais da Igreja; Arqueologia Sacra; Bíblica; Teológica Internacional; Interdicasterial para o Catecismo da Igreja Católica e, por fim, para as Relações Religiosas com o Judaísmo;
g) Academias Pontifícias: para a Vida; Ciências; Eclesiástica; Cultorum Martyrum e, por fim, das Ciências Sociais.
h) Pontifícios Comités: para os Congressos Eucarísticos Internacionais e para as Ciências Históricas.
Fonte: http://www.vatican.va
Susana de Salazar Casanova



6 de janeiro de 2012

REIS MAGOS E INCULTURAÇÃO



Carta às Irmãs e Irmãos da comunidade de Mateus,

Quero conversar com vocês como se estivéssemos uns diante dos outros e vocês fossem conterrâneos deste final de século conturbado e tão carente de esperanças. No começo, pensei em escrever uma carta pessoal a Mateus, mas nenhum livro da Bíblia é de cunho somente individual. Além disso, embora desde os tempos mais antigos todos atribuam a Mateus a honra de ser o redator deste livro, nem ele assinou nem chama o texto de Evangelho (como Marcos inicia dizendo: "Início do Evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus"). Então, escrevo a vocês da comunidade, que participaram da experiência que gerou o texto de Mateus.
(...)
Ao contar a visita dos magos a Jesus Menino, vocês não pretendiam narrar um relato histórico ou um fato jornalístico. Quiseram significar o encontro de Jesus com os outros povos e culturas. Fizeram isso comentando textos bíblicos como Isaías 60, o Salmo 72 e a profecia de Balaão (Nm 22-24). Vocês os comentam como os rabinos faziam, contando histórias (midrash), e nos presen­tearam esse relato tão bonito.

O poema do discípulo de Isaías (Is 60) e, talvez, mesmo o Salmo 72 vêm de uma época na qual Jerusalém estava sendo reconstruí­da. Os recursos eram poucos e, em comparação ao que era antes de ser destruída pelos Babilônios, era uma aldeia. O profeta vê o sol nascer sobre a cidade e proclama a promessa de Deus de que, um dia, Jerusalém será luminosa e cheia de glória e os reis das nações a ela acorrerão trazendo presentes. Num contexto de sofrimento e de revalorização da identidade do povo pobre, aquela visão nada tinha de etnocentrismo. Era universalista. Aplicando essa profecia aos magos que vêm homenagear a criança pobre que nasceu em Belém, vocês a tornam mais universal ainda.

Embora não tenham dito que os magos eram reis e santos, como a tradição soube acrescentar, vocês contaram que eles gostavam das estrelas e vieram de longe, do oriente, atrás de uma estrela e em busca do Rei dos judeus que acabara de nascer neste mundo.

Com esse novo comentário narrativo de textos bíblicos (mídrash), desde o início do Evangelho, vocês associam as culturas e religiões diferentes à busca de Deus, ao reconhecimento de Jesus como "Rei dos Judeus" e ao acolhimento do Reino de Deus (ou dos céus, como vocês o chamam).

Na cultura judaica na qual a comunidade estava inserida, não deve ter sido fácil para vocês reconhecerem que até a astrologia e a interpretação dos sonhos podem conduzir pessoas como os magos ao Senhor. (Chouraqui chama os magos de "astrólogos''). Na região da Síria e da Ásia Menor era praticada a religião do deus Mitra. Era um sincretismo de antigos cultos ao sol. Os fiéis de Mitra contavam que o seu deus nasceu numa caverna na noite de 25 de Dezembro (solstício do inverno e festa do sol que renasce do frio e da escuri­dão das noites cada vez mais longas). Aliás, por acaso, os sacerdotes de Mitra se chamavam "magos", porque eram homens que lidavam com os astros e com os mistérios da vida.

Será que, ao contar a bela história dos magos que vieram a Belém adorar o menino Jesus, vocês quiseram assumir algo da história de Mitra e transpô-la para o contexto cristão? Hoje, falamos muito de inculturação. Mas ainda há muitos bispos e pastores que têm preconceito contra sincretismo (= coexistência de padrões religiosos diferentes convivendo em paz entre si). Será que, nessa história, vocês da comunidade de Mateus queriam nos ensinar que há um tipo de sincretismo que é válido e compreensível?


Marcelo Barros (Teólogo, Brasil)
CEBI

5 de janeiro de 2012

ESTADO DO VATICANO - QUE FAZER DESTA 'COISA'?

Há 50 anos abriu oficialmente o Concílio Ecuménico Vaticano II


Urbi et Orbi
Um programa de reforma do papado


Por uma Igreja nazarena, serva e evangélica



Diz a Tradição que o Papa deve falar para a sua diocese de Roma (Urbi) e para o mundo inteiro (Orbi).

Seguindo uma temática que vem sendo discutida há tempos, também quero deixar alguns traços do que poderá ser o Papa, bispo católico de Roma, para a sua cidade e para o mundo, no século XXI.

Venho tratando deste tema com certa frequência, não só no blogEl blog de X. Pikaza», in blogs de ‘Periodista Digital’], mas também em vários livros, tais como «Sistema, Libertad, Iglesia» e «Presente y Futuro de los Papas» [Trotta, Madrid, 2001 & 2006, respectivamente]. Não se trata de uma proposta definitiva, mas, antes, de um decálogo de indicações básicas para continuar no Caminho [Act 19:9.23], após os vinte séculos de cristianismo. Porque creio que é importante o ministério da unidade do Papado para a igreja (urbi) e para o mundo (orbi), proponho este decálogo de reforma.


1. Graças a Deus

Graças a Deus, o papado, como instituição, surgiu na sequência de instituições e elementos do Novo Testamento, especialmente, do Evangelho de Mateus, mas também a partir da própria dinâmica da igreja cristã, tendo o Império Romano como pano de fundo da História do Ocidente. Creio que o desenvolvimento do papado responde não só à causalidade da história e à luta pelo poder que sempre se estabelece em todas as instituições, mas a um impulso rumo à unidade e à solidariedade que vem a partir do evangelho.

Por isso penso que o papado é uma instituição positiva, ainda que deva purificar-se, elevar-se e adaptar-se, quer à realidade cristã, quer ao mundo presente, do seguinte modo.


2. Abandonar o poder político, regressar ao século VIII

A meados do séc. VIII, Pepino, o Breve (pai de Carlos Magno), a quem o Papa coroou como Imperador de Roma no ano 800, criou os «Estados do Vaticano» (que até hoje duram), de modo a garantir autonomia política, social e religiosa dos papas, num mundo conflituoso (oriente e ocidente) e ameaçado por duras pressões militares por parte de ostrogodos, lombardos e senhores indómitos das imediações de Roma.

Passados quase 1300 anos, o Estado do Vaticano deixou de fazer sentido. Penso que o Papa deve abandonar, sem contrapartidas políticas, o seu poder de soberano como Chefe de Estado, para passar a situar a sua autoridade moral e religiosa no plano estrito do evangelho. Não se trata de abandonar a autoridade, mas de abandonar um tipo de autoridade vinculada ao poder político para passar a ser autoridade, não só moral, mas religiosa, e, sobretudo, evangélica.

A experiência dos treze séculos de poder político deve servir para aprender com e superar os erros antigos, deve servir para expressar e irradiar um tipo elevado de humanidade, na linha de Jesus, a qual é busca de humanidade (o Filho do Homem), experiência do Reino. Já é tempo de, neste campo, dar início a uma grande mutação.


3. Unidade na diversidade, para lá do séc. XI

Antes de mais nada e ao longo de muito séculos, o Papa foi o Bispo da Gloriosa Roma, sede que conserva a memória de Pedro e Paulo e que é centro de referência das diversas sedes cristãs. No séc. XI, por exigências históricas, tentando sair duma muito dura crise ‘de vida ou de morte’ e reformando-se a si mesmo através da Reforma Gregoriana, o Papa quis impor um tipo de unidade às igrejas. No seu tempo, essa reforma foi positiva – hoje tem de se realizar em outros moldes.

Actualmente, o bispo de Roma deve recuperar o seu impulso apostólico de comunhão, deixando às Igrejas liberdade para encontrar o seu caminho cristão, potenciando a comunhão entre elas. Nesta linha, é preciso superar as pressões e tensões que levaram ao cisma cristão entre oriente e ocidente.

A unidade da Igreja ocidental foi conseguida, no séc. XI, à custa do direito, do pleno poder papal e de imposição religiosa. Para o ocidente foi um caminho bom, mas o papado perdeu a sua comunhão com o oriente… A nova unidade, que agora se busca, na linha do evangelho, deve ser união na diversidade, recuperando a inicial função de Pedro na Igreja. Não negamos o que teve valor, mas importa elevar o nível, encontrar formas de comunhão para todos os homens e povos, na linha duma humanidade evangélica. Trata-se, portanto, de inventar um papado distinto.


4. Deixar o Vaticano, regressar ao séc. XVI

Um dos ‘sinais’ e motivo para a Reforma Protestante foi o facto de os Papas quererem construir os admiráveis complexos da Basílica e os Palácios do Vaticano, os quais demoraram mais de dois séculos para se concluírem… Um sinal para os tempos de hoje seria abandonar esses palácios, não pelas condições de vida aí, mas porque representam uma história que tem que ser recriada. Deveriam trasladarem-se para um organismo internacional, tais como a UNESCO, com fins culturais e de memória histórica. Ali ficariam os livros e arquivos, toda uma história de quase mil anos de papado que, hoje, tem que ser diferente.

Nesta linha, é preciso retomar os bons impulsos da Reforma Protestante, mas ‘em chave’ de unidade e comunhão, todos volvendo à raiz do Cristianismo, à «Justificação» pela Fé e pelo amor, pela unidade das Igrejas e pela liberdade de consciência de cada crente.

Pelo que, os palácios do Vaticano (incluindo a própria Basílica), deveriam converter-se em «museu cristão» e museu da humanidade. O Louvre é museu, Versailles é museu… Museu há-de ser o Vaticano, museu ao serviço da experiência religiosa e cristã ao longo da história, quiçá, sob a autoridade da Unesco. O Papa já não necessita desses «palácios» (onde, por outro lado, se vive pior do que em outros aposentos mais simples e mais actualizados).


5. Bispo de Roma

O Papa devia ser, e de novo, radicalmente, o Bispo de Roma, exemplo e lugar de referência para as igrejas, autoridade moral, deixando que as diversas igrejas sejam o que quiserem e poderem ser, ainda que em comunhão, em chave de ‘comunidades em rede’. A imensa maioria dos «poderes» papais, que estão centralizados em Roma, são, hoje, inúteis, já que entramos na era da «cultura da rede» mediática e humana [«cultura da net»] sem um comando unificado, coisa que antes era necessária. Nesta nova rede de igrejas, o Bispo de Roma pode e deve ser muito importante, mas como irmão entre irmãos, não como pai e mestre de outras igrejas.

Neste contexto, a Cúria do Vaticano deve «emagrecer» até desaparecer…

Certamente, os «documentos» do Vaticano devem permanecer, ser guardados, estudados, etc. Porém, o Vaticano já não tem que produzir mais «documentos» destinados às igrejas, sendo elas quem deve fazer caminho, coordenadas entre si de uma forma nova. É para isso que estamos numa era de «redes» informáticas, de comunicação e de busca comum as quais melhor respondem ao evangelho, muito mais do que o centralismo de Roma.

Neste momento, a grande tarefa do papa consiste em aprender a ser Bispo de Roma, facto que está perdido no esquecimento há séculos. Sem o contacto com as pessoas das praças e dos bairros de Roma não se pode ser Bispo, nem Papa. Esse contacto não pode ser um acidente. Ele é a verdade basilar da vida cristã. E o Papa tem que ser um cristão exemplar.


6. Deixar que as igrejas o sejam

Que as igrejas sejam elas mesmas, que explorem, que caminhem, sob o dinamismo do evangelho! Porque aquilo que unifica as igrejas não é o Papa, nem o Código [de Direito Canónico], mas Jesus Cristo, realidade presente como Pão (eucaristia) e como Palavra (capacidade de escutar a voz de Deus). Assim passaremos da Unidade Sagrada de tipo unitário à Comunhão ou Sinfonia da Igreja. Este século XXI há-de ser o momento da confiança nas novas e nas antigas igrejas. Testemunha e promotor desta confiança terá que ser o Bispo de Roma, dada a sua importância na história das igrejas. Claro que isto significa que a instituição dos cardeais deve desaparecer, nos moldes que ela tem actualmente.

Que o Bispo de Roma seja um bom bispo, que nele as outras igrejas tenham e coloquem a sua confiança e para ele dirijam os olhos, numa linha de caminho humano partilhado, em linha evangélica. É por isso que o bispo de Roma tem que ser eleito pela igreja de Roma, ainda que em comunhão com as outras igrejas.

Este terá de ser «um salto em direcção à confiança». Foi este o salto que Pedro e Paulo deram quando vieram para Roma, que era o centro do mundo do seu tempo. Um salto rumo ao futuro da transformação humana, em linha de evangelho – este terá que ser o gesto supremo dos Papas.


7. Aguardar o carisma profético

A grande Reforma da Igreja, em linha evangélica, não se pode programar!
Ela não acontece por imposição ou decreto, por documento ou código, mas através do espírito profético. Por isso, a transformação cristã das igrejas há-de ser obra da própria criatividade profética da Igreja. Encontramo-nos num momento privilegiado, por várias razões:

a)                           Acesso das mulheres, pela sua palavra e criatividade cristã, a todos os planos da vida eclesial, desde os ministérios à teologia.
b)                           Acesso de outras culturas… Eis o momento de criação de um cristianismo asiático, africano, americano e oriental.
c)                            Acesso à modernidade integral, não em linha de pura adaptação, mas de transformação. Não se trata dos Papas virarem modernos, mas de, entrando a sério no coração da modernidade, a transformarem a partir do Espírito de Cristo.

Contudo, não se pode determinar de antemão o que será a reforma das igrejas, mas, apenas, que ela deve surgir do dinamismo do evangelho como um impulso de vida, como experiência de oração, como abertura para o mistério da humanidade em comunhão com as diversas grandes religiões.


8. Por Cristo, abertura ao mistério da vida

A igreja cristã quer ser testemunha de abertura ao mistério de Deus, por Cristo. Este é o momento apropriado para deixar que as igrejas e as pessoas cristãs se deixem de novo emocionar pela Palavra e pela Vida de Jesus na Sua condição de revelador do Pai e Fonte do Espírito Santo. A Igreja não é um fim em si mesma, é testemunho do Reino de Deus, isto é, da Nova Humanidade.

Isso significa que as instituições devem permanecer na sombra, de um modo especial o Papado, para que emerja a Nova Humanidade, isto é, o Reino de Deus, cujos características Jesus assinalou com a entrega da sua própria vida. Donde, o que importa não é a «reforma canónica» do Vaticano ou do Papa, mas a reforma orante dos cristãos (na linha de Teresa de Jesus) ou a reforma da vida, em chave de confiança e entrega (como Francisco de Assis). Regressar a Cristo e, por Cristo, ao Deus da Vida – esse é o princípio de qualquer reforma.

Não há reforma do papado sem reforma das igrejas. Por isso, o bispo de Roma, conjuntamente com outros bispos e com outros líderes cristãos, há-de manter olho vivo, escutando os sinais dos tempos e o sopro de transformações evangélicas que ora começam, mas a partir da base, a partir da raiz da humanidade, para, assim, aprender e, logo, se colocar em marcha.


9. Um tempo de transição, não de abandono

Disse que o Papa deve recuar a posições anteriores ao séc. XVI (sem Vaticano), ao séc. XI (sem centralismo), ao séc. VIII (sem Estados Pontifícios), mas isso não pode ser um simples abandono. Queimar todos os papéis, deixar todas as funções e … abandonar os seis mil milhões de católicos e os seis mil milhões de crentes do mundo inteiro à intempérie? Nada disso.

O Papado tem uma responsabilidade histórica imensa. Não pode «abandonar» sem mais (em certo sentido acarretaria o caos…), mas deve ir moderando e modelando momentos de transição, que, a meu ver, já começaram. Não se trata de se «deixar» para que tudo se perda, mas de «ir deixando» para que outros ocupem de uma maneira outra, segundo um caminho que seja para todos, com outras formas de unidade e comunhão, mais próximas do evangelho.

Este poderia ser o último serviço do Papado nesta «antiga era» em que nos encontramos. Colocar o seu imenso potencial de «unidade» ao serviço da reforma da Igreja. Nesse sentido, o facto do Papa ter um imenso poder pode ser uma providência de Deus, desde que o ponha ao serviço da liberdade dos cristãos e das igrejas, sem medo da liberdade, sem medo da presença de Cristo nas comunidades cristãs e no mundo.


10. Um futuro nas mãos de Deus, isto é, da Nova Humanidade

Segundo o princípio da Encarnação, Deus revela-se no humano (Concílio de Calcedónia, 451 dC). Este caminho de recriação do Papado não é para negar a unidade, mas para criar uma Unidade de Comunhão. Estes poderão ser alguns dos seus traços característicos:

a)    Deve ser um tempo «conciliar», isto é, de conciliação
b)    Deve ser um caminho de «alianças», isto é, de comunhão na vida, no pão e no vinho, isto é, na eucaristia
c)     Deve ser um caminho de evangelização dos pobres, dos últimos do mundo, não a partir das culturas triunfantes, mas a partir do sofrimento do mundo
d)    Deve ser um tempo de «cruz», de saber sofrer, não por masoquismo, mas segundo a criação pascal
e)    Deve ser um tempo de criação profética nas mãos do Espírito de Deus…


Xabier Pikaza
11 Set 2011


4 de janeiro de 2012

VOTOS DE FELIZ ANO NOVO


«Venha o teu Reino» - votos de Jesus para sempre…

 

 

 

 

 

Para um ano novo mais feliz

 

O desejo é uma palavra mágica. Quando desejamos com força interior, emitimos uma energia misteriosa que nos impulsiona para o compromisso de realizarmos aquilo que desejamos. Isso pode ter consequências concretas para as pessoas e para o mundo. Nesses dias, há quem diga aos amigos e amigas "feliz ano novo" como mera formalidade. Entretanto, o mundo e nosso continente necessitam muito de que 2012 seja um ano mais feliz e de paz para cada um de nós e para nossa pátria grande. Por isso, quem almeja de coração os melhores votos de ano novo precisa saber como transformar o seu desejo em caminho positivo que construa um futuro novo e melhor.

Quando eu era menino, as pessoas acreditavam muito no poder do olhar. Diziam que existe o olhar bom que emite energia positiva e existe o mau olhado que provoca problemas. As vizinhas gostavam de contar histórias de uma visita que receberam. A mulher gostou da planta ornamental que havia no terraço da casa. Olhou-a com inveja. No dia seguinte, a planta que estava viçosa e florescente, amanheceu seca e murcha.

As antigas culturas e religiões crêem na força da palavra. Em algumas religiões, as palavras curam ou, ao contrário, podem matar. Na Bíblia, vários salmos pedem a Deus que nos proteja das pessoas que, com sua palavra, podem provocar males como doenças e tragédias ecológicas (Cf. Sl 6, 39, etc). Essa cultura de pessoas que amaldiçoam vinha de Sumer, onde havia rituais de Shurpu, maldições comuns em algumas culturas populares que não tinham outra força além da palavra.

No tempo da escravidão, um senhor de engenho mandava dizer a um escravo que, naquela noite mandasse a sua filha de menor idade à casa grande. O negro já sabia quais as intenções do senhor. Ele não tinha outro recurso do que a ameaça de uma maldição, principalmente se o senhor acreditasse que o despacho lhe faria mal. De fato, a própria Bíblia diz que a maldição de um empobrecido é ouvida e atendida por Deus (Cf. Eclo 4, 6). No Novo Testamento, a carta de Pedro insiste que temos a vocação de abençoar e não de maldizer. Somos chamados para invocar o bem sobre as pessoas e o universo (1 Pd 3, 9).

 A palavra é eficaz quando nasce no mais profundo do coração e é precedida pela prática da vida.

A Bíblia diz que é como uma espada de dois gumes que penetra até as entranhas (Hb 4). Isaías compara a palavra de Deus com a chuva que cai, molha a terra. E não volta ao céu sem ter cumprido sua missão de fecundar e produzir o grão (Is 55). O Mahatma Gandhi ensinava: "Comece por você mesmo a mudança que deseja para o mundo".

Somente pelo fato de desejar, não temos a força para transformar organizações e sistemas do mundo, mas podemos sim colaborar para que se façam as condições necessárias para que elas mudem.

Então, que você expresse para os seus e para todos o desejo de um feliz ano novo, solidário e renovador. Então se através de um verdadeiro compromisso social, tornarão verdadeiras em sua vida, as palavras de uma antiga bênção irlandesa:

"O vento sopre suave em teus ombros. Que o sol brilhe suavemente sobre o teu rosto, as chuvas caiam serenas onde vives. E até que eu te encontre de novo, Deus te guarde na palma de sua mão".

Marcelo Barros, monge Beneditino e escritor.

29 de dezembro de 2011
por Adital