teologia para leigos

2 de janeiro de 2012

UM DESEMPREGADO É UM OPORTUNISTA


«Em que país vivem os nossos Governantes?»: no CONFORTO da MENTIRA...

Zonas de conforto

TAXA DE DESEMPREGO E TAXA DE RSI – Gráfico da Evolução (RSI a azul; DESEMPREGO a vermelho)
 



Recentemente, quando a OCDE anunciava que a taxa de desemprego em Portugal atingia os 12,9% (o quarto valor mais elevado no conjunto de países que fazem parte da organização) e o governo tratava de proceder a restrições adicionais no acesso ao subsídio de desemprego, o presidente da CIP, António Saraiva, entendeu por bem fazer este comentário notável  (ver a partir do minuto 18 e 38 seg.):

«há que retirar as pessoas, algumas delas estão desempregadas e estão em zonas de conforto. Preferem manter-se no subsídio de desemprego, porque vão tendo economias paralelas, o chamado "gancho". Vamos ter que lhes causar aí algum desconforto... Enfim, minorando tempos, minorando valores, porque se as pessoas tiverem um valor de subsídio de desemprego igual àquilo que se lhes possa oferecer em termos de emprego, admito - e isso acontece hoje lamentavelmente - algumas franjas vão-se mantendo desempregadas, vão encontrando formas para se manter com o subsídio de desemprego e isso é insustentável e perverso».

No post anterior,  João Rodrigues  assinalou bem o que têm significado: a destruição massiva de postos de trabalho ao longo da última década (a um ritmo que se intensificou de forma dramática após os primeiros impactos da crise financeira sobre os Estados e as economias, em 2008); as sucessivas reformas liberais da legislação do trabalho; a perda de salários e de poder de compra e a violenta redução das indemnizações por despedimento.

A este cenário dantesco de fragilização crescente do emprego, da própria economia e das condições de vida, acresce a erosão deliberada dos serviços públicos e de uma importante almofada social - o Rendimento Social de Inserção - que até à aprovação do PEC 1 (que dá início ao paradigma austeritário) acompanhava a evolução do desemprego, permitindo minorar os seus impactos (clicar no link do gráfico acima).






O 'nicho do conforto' em S. Nicolau [T1]_Porto Histórico: 210,00 euros/mês

 Perante este quadro insustentável de degradação económica e social, a que «zonas de conforto» pretende exactamente referir-se António Saraiva?

Não deveria antes pronunciar-se sobre a «zona de conforto» em que preguiçosamente vive um patronato medíocre e incompetente, que não é capaz de equacionar os desafios de competitividade da economia portuguesa a não ser pela compressão total dos custos do trabalho?

Ou debruçar-se sobre a «zona de conforto» em que vive um governo inútil, cuja única estratégia de emprego que tem para apresentar aos portugueses consiste no incentivo à emigração?

Nuno Serra
‘Ladrões de Bicicletas’ (blog)

31 de dezembro de 2011

COMO SE ADQUIRE A CONSCIÊNCIA?

2011-2012

E quem mandou este homem bater, esta Noite, à minha porta?

processo duma conversão




Georges Rouault_Flores




Diário

[31 Dez, à tarde]

«Não sei quem escreveu que vivemos em adeus e despedidas. Andamos de mala aviada, prontos a partir não importa para onde. Partir… E vamo-nos desligando das coisas que nos prendiam: as casas, os móveis, os quadros, os livros. Nesta renúncia (que só por ser forçada não tem especial mérito) acabaremos talvez por ser homens livres. Desprendidos das coisas que nos tiranizavam o coração, vamos adquirindo consciência da nossa condição de peregrinos para quem tudo – objectos e lugares, todas essas bugigangas que nos distraem da nossa essencial nudez – é provisória. Não ter nada de nosso senão a vida, ela mesma tão efémera…»

[31 Dez, à meia-noite]

«Bate-nos um homem à porta e diz-nos: «-Tenho sete filhos e quatro contos na gaveta. Não peço dinheiro emprestado, mas trabalho – qualquer que ele seja.» E carregamos o peso de mais esta cruz sobre os ombros cansados


[extracto de ‘Diário Quase Completo’, de João Bigotte Chorão, INCM, Biblioteca de Autores Portugueses, ISBN 972-27-1078-8, p. 260]



Poema para o Ano Novo

E descarnado
vai este tronco ardendo já
num outro fogo

28 de dezembro de 2011

OS CÓDIGOS MORAIS SÃO IMPRESCINDÍVEIS AO PODER 1/2

Subitamente irrompeu, em Portugal, o ódio ao Utente do RSI! Anos atrás existia o ódio às ‘lojas dos 300’geridas por portugueses. Depois veio  o ódio ao pequeno comerciante chinês - estes foram/são a causa da crise de tudo! Agora é o próprio Governo de Direita que dispara contra as chamadas camadas sociais corporativistas anichadas (quais oportunistas) nas ‘zonas de conforto’ social

Em tão poucas semanas, Portugal virou uma destilaria de ódio!, de Códigos Morais de Pacotilha, armas para uso populista fáceis de manusear, marketing chantagista [ex.: 'vivemos TODOS - o país viveu acima das suas posses'; 'os subsídios do Estado precisam de ser merecidos e retribuídos à sociedade através de trabalho à comunidade'; 'não há almoços grátis'; 'o tempo dos empregos para toda uma vida, esse tempo morreu, não volta mais - temos que nos convencer disso'; etc.]. Assiste-se à «moralização da política» de um modo tão obsessivo e culpabilizante, que faz lembrar os tempos dos anos 50 em que a Moral Católica era o único ‘metro-padrão’ dos costumes e do pensamento, a catalogar e a segregar exclusão social. Na raiz de tudo, o temor, o medo vertido em Código Moral securizante.

Zé dos Talks

A narrativa moral psicologizante…

Vídeo_A génese da Crise económico-financeira

 


Em Dezembro passado, a convite da Associação Prado, participei na primeira edição dos Zé dos Talks[1], uma versão lusa dos FredTalks[2]. Fica a cima o vídeo peculiar da sessão (o som de início é mau, mas depois melhora).


Ricardo Paes Mamede
28 Março 2012

Mas, afinal, como/para quê se fabricam os Códigos Morais?

«Cada código moral constitui a expressão do modo como um grupo, que se assume como líder numa sociedade, entende conveniente para si próprio que a maioria se comporte; fica claro que a moral é uma forma de gestão por objectivos» [Oliver Thomson]


Igreja da SS. Trindade_Fátima [pavimento]

1/2

1.A Génese da Moral

Em 1705, Bernard Mandeville, médico londrino de ascendência francesa, mas nascido e criado na Holanda, escreveu um poema notável intitulado «A Colmeia Rabugenta», subsequentemente republicado com o título «A Fábula das Abelhas». Nesta fábula, a colmeia prospera, feliz e poderosa, desde que as abelhas individuais sejam gananciosas, ambiciosas e corruptas mas, quando as abelhas se convertem a uma moralidade menos egoísta, o seu império começa a desabar. As abelhas…

Dentro de uma árvore oca e entradas
Com satisfação e sinceridade abençoadas

Mandeville não foi o primeiro nem seria o último filósofo a chamar a atenção para a diferença entre moral individual e nacional mas, provavelmente, ninguém usou de tal acutilância e simplicidade para sublinhar os objectivos alternativos dos sistemas morais concebidos pelo homem.

O século actual tem assistido a um afastamento gradual e mundial dos códigos das grandes religiões, não raro sem filosofias firmes ou bem definidas para as substituir. (…) Embora existam fundamentalistas, oriundos ma maioria das religiões, a defender a origem divina dos seus códigos, é correcto, na actualidade, dizer que uma vasta maioria reconhece esses códigos morais como sendo concebidos pelo homem: são normas de comportamento pensadas por grupos ou indivíduos, destinadas a tornar a existência mais agradável para a maioria da população.

Esta artificialidade implícita não significa que a moral seja algo não natural, nem que o Homem sem código moral seja necessariamente mau. Afinal, encontramos sinais de comportamento moral nos animais. (…) Hebb observou que «se um chimpanzé estiver a comer e vir outro chimpanzé a pedir comida, sente-se condicionado a prescindir de parte da sua, embora mostre sinais claros de raiva e irritação». (…) No tempo do homem primitivo, havia sinais incipientes de que cada sociedade desenvolvera o seu próprio código moral. Diz-nos Redfield: «Cada sociedade pré-civilizada apoiava-se em conceitos éticos não verbalizados, mas continuamente realizados.» (…)

Num comentário ao instinto do operário do século XX, Richard Hoggart salientou: «”Eu cá gosto de coisas justas” poderá ser um guia suficiente para o cosmos e poderá ser hipócrita mas, dito com sinceridade por um homem de meia-idade após uma vida difícil, pode representar um triunfo considerável sobre circunstâncias adversas.»

Estas são as características básicas do comportamento moral, aquilo a que G.K. Chesterton chamou «as certezas tolas da existência». Ou, nas palavras de Anthony Storr: «Pode depreender-se que, desde o princípio da vida, existe um impulso de realização pessoal, de busca de identidade própria, enquanto pessoa, e que esta é uma força tão poderosa quanto o próprio sexo.» (…)

Sherrongton observou que «a biologia apregoa o indivíduo por si próprio» mas o «altruísmo […] parece, até à data, o produto mais nobre da Natureza».

Todavia, filósofos e teólogos têm, por vezes, preferido uma visão pessimista do homem enquanto ser naturalmente imoral ou, na melhor das hipóteses, amoral. Santo Agostinho de Hipona foi pioneiro no conceito de pecado original (graças, talvez, a uma juventude bastante devassa) e Espinosa um dos muitos que seguiram uma orientação semelhante: «Se os homens nascessem livres não teriam, desde que permanecessem livres, concepção absolutamente nenhuma de bem e de mal». (…)

Em sociedades mais amplas, encontramos ainda toda uma série de subsistemas morais, códigos diferenciados para guerreiros, sacerdotes, mães e inúmeros pequenos grupos. Numa comunidade normal existe, não só, um conjunto principal de normas amplamente aceites para toda a nação, ou para um grupo de nações, como também códigos comerciais, códigos hospitalares, códigos escolares, códigos militares, códigos sindicais, códigos desportivos, até códigos criminais.

Do mesmo modo, parece óbvio o facto de os códigos morais não apenas variarem como, também, terem durações inerentes; a sua popularidade e credibilidade primeiro crescem e depois diminuem. Por vezes, até podem ser rejuvenescidos por pensamentos novos, podem desaparecer e depois regressar - têm uma espécie de ciclo de vida - e, enquanto se desvanecem, as pessoas vivem aquilo a que normalmente se chama ‘crise moral’. E.H. Carr descreve esta falta de orientação do seguinte modo: «Quando perdemos as fórmulas confortáveis que, até então, nos têm norteado entre as complexidades da existência, sentimo-nos afogar num mar de factos, até voltarmos a encontrar pé ou aprendermos a nadar.»


2.As Causas das Diferenças Morais

Já esclarecemos que diferentes tipos de pressões externas ajudam a forjar diferentes tipos de moral. Para citar alguns exemplos extremos, oriundos de zonas de ambiente hostil, o código moral da tribo Tugue na Índia considerava uma virtude o assassínio por estrangulamento de homens que não fossem Tugues (mas não de mulheres). (…) Na Alemanha pós-Depressão, foram vários os oficiais seniores das SS promovidos pela sua contribuição para o genocídio. É surpreendente que a violência tenha sido tantas vezes exaltada pelos códigos morais, mas, tal facto, poderá ser o resultado de pressões populares e de uma sociedade violenta, em que a esperança de vida é curta ou onde a própria vida tem menos valor do que outras considerações.

No seu todo, a História demonstra que as definições de hábitos bons e maus têm sido substancialmente díspares em situações diferentes, mas, em cada exemplo, a pressão sobre o indivíduo traduz-se na prossecução da ética do seu próprio povo, independentemente do modo como essa mesma ética possa ser comparada com outras morais aceites de forma mais generalizada. Diz-nos R.S. Peters que o «homem é um animal obediente a regras». Porém, as regras mudam consoante as pressões, ambições e ideias daqueles que as inventam e que têm de convencer os outros a obedecer-lhes, donde a máxima de Stevenson: «Moral é persuasão E a persuasão sai facilitada porque a maior parte das pessoas não quer pensar pela sua cabeça. Eis um comentário de Edward de Bono: «O objectivo é parar de pensar. Em suma, as pessoas detestam ter de pensar e tomar decisões, porque isso é mentalmente cansativo. Existe uma preferência fundamental por processos decisórios automáticos, baseados em padrões.» A liberdade de tomar decisões é um fardo doloroso, como foi salientado por Bergson, Jean-Paul Sartre e os existencialistas. Por conseguinte, os códigos de moral de pacotilha, que anulam esta dor, são deveras convenientes, desejáveis e úteis. Na fórmula de W.R. Whyte, «Valores bons são valores que permitem aos grupos interagirem, com benevolência, entre si e aos indivíduos uns com os outros.» Porém, e dado que os ambientes sociais se alteram, a natureza dos valores e da benevolência também se altera. A posição de Westermarck, «Os conceitos morais prendem-se com a indústria e a sociedade: o certo e o errado não são naturais, inatos nem intuitivos, apenas implantados por pressões sociais […]», pode ser comparada à análise de Karl Marx: «A fábrica braçal cria uma sociedade com um senhor feudal, a fábrica a vapor cria uma sociedade com um capitalista industrial.»

Por conseguinte, os códigos morais tendem a remeter para as sociedades onde crescem e, embora possa existir uma norma absoluta, as opiniões sobre o certo e o errado têm variado consideravelmente. São vários os factores reconhecíveis neste processo que vale a pena aflorar.

O primeiro prende-se com circunstâncias económicas, a disponibilidade de alimentos e outros meios de sustento. (…) Uma escassez induz partilha, racionamento cooperativo (o que faz da abstinência uma virtude), cultiva a moral da conservação e encoraja a distribuição equitativa, mesmo entre os elementos mais fracos de uma sociedade. Mas pode induzir o efeito contrário: pânico, açambarcamento, elitismo material. (…) Num certo tipo de código, a pobreza não é nenhuma desgraça, noutro já o é. No primeiro, a mendicidade até pode ser respeitável, no segundo é o prestígio que recompensa a riqueza e a ostentação. No primeiro, o altruísmo poderá ser recompensado no além, no segundo é considerado uma imbecilidade.

Por outro lado, uma superabundância relativa de bens materiais tende a fomentar o desperdício, a desencorajar a conservação, a menosprezar a partilha, a conferir, em contrapartida, respeitabilidade moral ao excesso de indulgência e a encorajar a desigualdade de distribuição e exploração. (…)

Sempre existiram contrastes, nesta matéria. O Romano da República orgulhava-se de comer com frugalidade, o Herói cómico da Roma Imperial, Trimalquião, obrigou-se a vomitar para comer mais. Maomé, Buda, Lao Tzu e Sócrates pregavam a temperança dos apetites. Na Renascença, na Restauração, na década «marota iniciada em 1890, nos alegres anos 20», do século XX, tais entidades teriam sido desmancha-prazeres, pelo menos nos estratos superiores da sociedade, onde o valor dado ao conforto material levou Loelia, Duquesa de Westminster, a afirmar: «Quem for visto num autocarro depois dos trinta anos de idade é um vencido da vida.»


O segundo maior factor causal, no que diz respeito à criação de atitudes morais, é a natureza do poder numa sociedade. Esta faz variar a moral se se trata de uma época cavaleiresca, se de infantaria com arco, com escudo e espada (esta, estimulando o igualitarismo grego, a disciplina rigorosa e o ethos de discrição, a diluição das barreiras, etc.), se de pirataria de alto mar (a valentia corsária selvagem). (…) Quem detém os cordões da bolsa utiliza-a para ajudar a instilar o tipo de ética passível de manter essa riqueza. Deste modo, o algodão fez da escravatura, na América, uma virtude e o petróleo fez da velocidade igualmente uma virtude. (…) Uma comunidade camponesa produz uma moral com ênfase na família nuclear enquanto unidade de produção, ao passo que uma economia baseada em oficinas domésticas salienta o papel da maternidade e da geração de crianças produtivas; o comércio tem produzido a moral burguesa da frugalidade; uma economia altamente tecnológica produz uma ética com a tónica na competitividade acentuada; uma economia orientada para o consumidor encoraja uma ética de indulgência dos sentidos que faça da vaidade pessoal uma virtude. (...)

A quarta área de pressão sobre o desenvolvimento da moral é a natureza do poder político. A monarquia tende a exigir obediência, reverência, lealdade, devoção cega e estratificação social da recompensa. Bismarck definiu as virtudes prussianas: «honra, lealdade, obediência e bravura, as quais moldam o exército, desde o corpo de oficiais até ao mais jovem recruta».

A quinta condicionante moral é o preconceito ou a tradição, os vestígios da moral das duas gerações anteriores legados à seguinte geração. Sentimentos raciais, superioridades de classe ou de outra ordem genética, orgulho na cor, na casta ou na crença, tendem a ser inculcadas desde tenra idade, pelo que são prontamente transmitidos de geração em geração. Veja-se os Protestantes do Ulster, os Sikhs de Bengala e os Xiitas palestinianos - todos herdaram gerações de paranóia.

Como já vimos, dado que cada código moral constitui a expressão do modo como um grupo, que se assume como líder numa sociedade, entende conveniente para si próprio que a maioria se comporte, fica claro que a moral é uma forma de gestão por objectivos. (…) Assim sendo, um código moral pode ser definido enquanto sistema de padrões éticos pelo qual determinada sociedade controla o comportamento dos seus indivíduos e os motiva para atingirem os seus objectivos. Trata-se de um processo de controlo psicológico de grupo que, geralmente, constitui um quadro de manipulação muito mais amplo, representado pelo código legal dessa mesma sociedade. Quem se rebele contra o código será considerado imoral (…)

A moral tem predilecção por absolutos, preferência por ‘pretos e brancos’ recusando os vários tons de cinzento. Esta predilecção decorre, naturalmente, da necessidade de maior clareza e simplicidade em normas intransigentes. Donde os numerosos «nãos» dos dez mandamentos serem a espinha dorsal da sua simplicidade e convicção.

(continua)

Oliver Thomson, História do Pecado, ed. Guerra e Paz, Out 2010 ISBN 978-989-8174-86-4 (excertos).

27 de dezembro de 2011

OS CÓDIGOS MORAIS SÃO IMPRESCINDÍVEIS AO PODER 2/2


2/2

3.Formação Moral – Propaganda

Foi Robert Owen, o pioneiro da melhoria nas condições de trabalho de New Lanark, quem observou que «o carácter do homem é feito para ele e não por ele» e que, por conseguinte, os padrões morais comunais são uma faceta da persuasão em massa.

Registam-se seis principais técnicas de formação moral.

Uma das mais antigas, e se calhar ainda a mais importante de todas, é a imitação de heróis e heroínas. Cada sociedade tende a produzir o seu próprio bloco de modelos, reais ou fictícios, os quais se tornam no foco da mimese comportamental. A Idade Média teve os seus neuf pieux, de entre os quais, Aníbal, Alexandre Magno, Carlos Magno e, claro, o rei Artur. Depois, Cristo, Buda e Maomé, a Virgem Maria, São Francisco, Florence Nightingale, George Washinton, Lenine, Mao e por aí diante, num sem fim de personagens que a história sempre cria. Um santo tinha que ser um espectáculo ou um criador de imagens, tal como o herói tinha que ser maior do que a vida.

A segunda maior técnica de formação moral é o recurso ao ritual, o qual engloba o princípio pavloviano da habituação, o cubo de açúcar paliativo no final de cada truquezinho altruísta, que cresce até se transformar num arsenal permanente de reacções morais predeterminadas a dadas situações.(…) - comer com faca e garfo, ceder o lugar a uma idosa no autocarro, tirar o chapéu, o peregrinar (reforço das normas grupais), o rezar o terço (aliando a repetição verbal a um acto físico), etc. etc.

A terceira é a criação de metas e prémios, medalhas e certificados, símbolos perenes de desempenho que proporcionam níveis bastante mesquinhos, mas eficazes, de satisfação.

A quarta, a utilização da embalagem perfeita sob a forma de mnemónica: os dez mandamentos, os oito caminhos budistas para o céu e as dez depravações, os sete pecados capitais da Idade Média, os cinco valores dos Sikhs todos começados com ‘K’, os cinco ‘M’ do Tantra indiano. A redução dos ensinamentos éticos a fórmulas curtas e de fácil memorização é uma componente fulcral da propaganda e da formação moral comunal: Santo Agostinho e São Bernardo usavam rimas para sublinhar passos importantes nos seus sermões.

Talvez a maior ferramenta da moral didáctica tenda a ser a parábola (…) À medida que a sociedade se desenvolve, a parábola é transmutada em mito (…) – a fidelidade de guerreiros leais, o altruísmo das mães, a vaidade dos ricos, a crueldade dos senhores, a bondade dos camponeses, os perigos de ofender a natureza e assim por diante. Cada sociedade cria um grande herói tomba-gigantes ou mata-monstros como Perseu ou São Jorge. A maior parte delas teve salvadores que se sacrificaram.

Joseph Campbell descreveu a função social da mitologia como aquela que estabelece «sistemas de sentimentos», modelos comportamentais para todas as ocasiões. Muito do esforço criativo que é produzido pelos novos mitos de cada geração, mais do que didáctico, é um desejo subconsciente de racionalizar atitudes morais já assumidas e de as integrar na mobília psicológica dos próprios criadores seus pares, e - chegado o tempo - dos seus descendentes.

É em parte devido a este processo que, atitudes morais consideradas por muitas sociedades completamente desumanas e cruéis, são racionalizadas como novas tradições. Deste modo, a antipatia invejosa para com os pequenos comerciantes judeus transformou-se em castigo justificado pela crucifixão de Cristo, a preocupação com o carreirismo eclesiástico transformou-se na perseguição competitiva aos hereges.

Numa direcção oposta, o medo da fome perverteu-se na necessidade de sacrifício humano, o medo de uma morte solitária perverteu-se enterrando vivas as viúvas na Índia, o medo de uma futura adversidade converteu-se na necessidade de denunciar bebés fracos à nascença.(...)
(fim)

Oliver Thomson, História do Pecado, ed. Guerra e Paz, Out 2010 ISBN 978-989-8174-86-4 (excertos)

25 de dezembro de 2011

NATAL E FÉ DE INFANTÁRIO

 


«Se não vos firmardes
não sereis firmes!» [Isaías 7:9b]
ou os perigos duma “Fé de infantário”







«Esta noite, Art tinha como destino um pequeno país à beira-mar. Gostava de descer a sentir o cheiro salgado, e, talvez por isso, sentia um entusiasmo adolescente quando iniciou a viagem.

«Mas cá em baixo, Art pôs-se a pensar que tudo tinha sido um desencontro, que tinha confundido a noite inconfundível e acabado por vir numa qualquer noite de um inverno frio

[Rosa Alice Branco, “A artrose das renas”, in «Minicontos (quase) de Natal», JORNAL DAS LETRAS, 14-27 DEZ 2011, p.10]




Não dê

Neste Natal
não dê dinheiro a um pobre
Habitua-o mal
Não dê comida a um pobre
Habitua-o mal
Não dê de beber a um pobre
Ele vai gastar tudo em vinho
Não dê guarida a um pobre
Ele gosta mesmo é de chão
Não dê livros a um pobre
Ele queima-os para se aquecer
Não dê carinho a um pobre
Ele estranha e fica nervoso
Não diga bom dia a um pobre
Dá-lhe falsas esperanças
Não dê saúde a um pobre
É uma despesa inútil

Se quer dar-lhe mesmo
alguma coisa
[porque enfim está no espírito de natal e você é uma alma piedosa]
Dê-lhe porrada.
Vai ver é o que ele gosta
É o que ele está habituado
E os pobres já sabemos como é
os pobres (coitados) não são
muito de mudança não.

Rui Zink

[in «Minicontos (quase) de Natal», JORNAL DAS LETRAS, 14-27 DEZ 2011, p.10]






No Advento disseram-me: «Todos estamos à espera. Espera também!». Alimentaram-me a expectativa: que nos seria dado um Menino! «Espera e verás!», diziam-me.

Não me entusiasmei muito, diga-se. Essa história já era velha, para mim.

Um Rei muito bazófias - na escola primária tinham-me contado isso mesmo, a propósito dum outro rei, D. Sebastião…-, um Rei, ‘com a mania que era rei’, tentou convencer toda a gente disso: que esperássemos, que viria, sim!, que não demoraria a surgir um Menino, «luz das nações» blá blá… blá blá… blá blá…, que não tardaria! Era uma questão de semanas.

Para mim sempre me pareceu que essa história era uma ‘história adventicial’… muito mal contada.

Afinal, eu estava enganado. Já não é a primeira vez que erro gravemente no meu percurso de vida… e isso é triste. Houve, de facto, um Rei tal e qual – chamava-se Acaz [2Rs 16] – e o menino afinal existia mesmo e viera ao mundo sim senhor: era seu filho Ezequias! [2Rs 18] E a Virgem era de carne e osso e ancas e mamas e devia ser muito bela, saudável, robusta, boa cozinheira e cuidadosa com a alimentação do Menino [a fiar no que os livros sagrados nos contamIsaías 7:14-15].

Fiquei perturbado!
Fui confirmar aos Livros. E que vejo eu?!

Num livro [Mateus 2:10], o protagonista é A Estrela do Oriente!
Num outro livro [Lucas 2:8.17], os protagonistas são Os Pastores!

Um Deus-Menino, nuzinho, rechonchudinho e sorridente… ‘ficara na sombra’!

Afinal, Mateus [2:2] refere um adulto, fala d’o Rei dos Judeus e Lucas [2:42-43.46-47.49] fala de um «menino» já adulto (v.42) «sentado entre os doutores, a ouvi-los e a fazer-lhes perguntas» e a enrascá-los… com «a sua inteligência e as suas respostas» (v.46-47)

Nem nenhum Deus-Menino bebezinho sorridente com coroa e ceptro, nem Pediatria como profissão! E, por este caminho, nem regueifas Miluvit nas coxinhas do bebé salvador do mundo… onde ir beijar nesta «noite feliz, noite de luz, ó Jesus»!

Fico, entretanto, com duas questões-não-pediátricas: que significado tem ‘A Estrela’? E que significado tem ‘Os Pastores’? Está aí alguém? Está aí alguém que me ajude?

E fruto desse engano histórico e perigoso – Atenção: este Rei Acaz ‘mancava das duas pernas’ como certo Primeiro Ministro, ou seja, vivia como um tolo no meio da ponte, sempre hesitante quanto a alianças, se com Merkel se com os Bispos…; Isaías 7:2 – fruto destes enganos tolos andámos TODOS às prendas, enganando todo um mês a ver se o subsídio de Natal esticava… “importando mais que exportando”!

Ironia do destino!
Nem existe Deus-Menino algum… nem combatemos a Crise!

Mais uma vez, «confundimos a Noite inconfundível» (RAB) e extraviamo-nos na montanha escura, nevada e sem trilhos firmes guiados por uma «fé de infantário»…
 
Afinal de contas, onde está esse Rei que só aos poderosos «perturba»? [Mateus 2:3] (EU também quero saber…)



«Neste Natal
não diga bom dia a um pobre.
Dá-lhe falsas esperanças…» [RZ]




«É pelo exterior, é por aquilo que a Igreja mostra aos olhos dos homens que estes a passam a conhecer e, através dela, são ou serão conduzidos ao Evangelho, a Deus. Ou, pelo contrário, são afastados, repelidos ou ainda levados a encaminharem-se para um tipo de religião mais material, para um sistema no qual preponderem mais propriamente comportamentos sociológicos  do que uma religião pessoal com todas as exigências espirituais que isso comporta.

«Quanto a isto, tudo o que torna a Igreja visível no concreto, tudo aquilo através do qual as pessoas tomam contacto com ela, da mesmíssima forma como acontece na nossa relação com os outros - por exemplo, a importância do rosto, do olhar, das formas e das roupas - é duma extrema importância; a forma dum recado, dum simples anúncio, dum boletim paroquial ou ainda o tipo de ornamentação ou duma celebração…, o aspecto exterior dum padre, o seu trato, a sua linguagem, o seu estilo de vida ou o das religiosas, o das pessoas da Igreja: tudo elementos sem importância, quotidianos, mas significativos e até decisivos da visibilidade da Igreja como parábola do Reino de Deus ou como sacramento do Evangelho».

Yves Congar, Pour une Église servante et pauvre, 1963, p. 107-108, citado em «Fidèle à l’avenir – à l’écoute du Cardinal Congar», Frère Émile, de Taizé, Les Presses de Taizé, 2011, ISBN 978-2-85040-309-5.

24 de dezembro de 2011

POEMA NATALÍCIO

Natal 2011






POEMA PARA O PRESÉPIO



-Um chá?!

-Um chá é breve!

-Entra!

-Faz de conta que estás em tua casa...


O renovo – Deus adira o amar ao perdoar



pb\

PS: 'Convite a 4 vozes' das 4 personagens... para mim, para ti, para nós, para todos.