teologia para leigos

25 de dezembro de 2011

NATAL E FÉ DE INFANTÁRIO

 


«Se não vos firmardes
não sereis firmes!» [Isaías 7:9b]
ou os perigos duma “Fé de infantário”







«Esta noite, Art tinha como destino um pequeno país à beira-mar. Gostava de descer a sentir o cheiro salgado, e, talvez por isso, sentia um entusiasmo adolescente quando iniciou a viagem.

«Mas cá em baixo, Art pôs-se a pensar que tudo tinha sido um desencontro, que tinha confundido a noite inconfundível e acabado por vir numa qualquer noite de um inverno frio

[Rosa Alice Branco, “A artrose das renas”, in «Minicontos (quase) de Natal», JORNAL DAS LETRAS, 14-27 DEZ 2011, p.10]




Não dê

Neste Natal
não dê dinheiro a um pobre
Habitua-o mal
Não dê comida a um pobre
Habitua-o mal
Não dê de beber a um pobre
Ele vai gastar tudo em vinho
Não dê guarida a um pobre
Ele gosta mesmo é de chão
Não dê livros a um pobre
Ele queima-os para se aquecer
Não dê carinho a um pobre
Ele estranha e fica nervoso
Não diga bom dia a um pobre
Dá-lhe falsas esperanças
Não dê saúde a um pobre
É uma despesa inútil

Se quer dar-lhe mesmo
alguma coisa
[porque enfim está no espírito de natal e você é uma alma piedosa]
Dê-lhe porrada.
Vai ver é o que ele gosta
É o que ele está habituado
E os pobres já sabemos como é
os pobres (coitados) não são
muito de mudança não.

Rui Zink

[in «Minicontos (quase) de Natal», JORNAL DAS LETRAS, 14-27 DEZ 2011, p.10]






No Advento disseram-me: «Todos estamos à espera. Espera também!». Alimentaram-me a expectativa: que nos seria dado um Menino! «Espera e verás!», diziam-me.

Não me entusiasmei muito, diga-se. Essa história já era velha, para mim.

Um Rei muito bazófias - na escola primária tinham-me contado isso mesmo, a propósito dum outro rei, D. Sebastião…-, um Rei, ‘com a mania que era rei’, tentou convencer toda a gente disso: que esperássemos, que viria, sim!, que não demoraria a surgir um Menino, «luz das nações» blá blá… blá blá… blá blá…, que não tardaria! Era uma questão de semanas.

Para mim sempre me pareceu que essa história era uma ‘história adventicial’… muito mal contada.

Afinal, eu estava enganado. Já não é a primeira vez que erro gravemente no meu percurso de vida… e isso é triste. Houve, de facto, um Rei tal e qual – chamava-se Acaz [2Rs 16] – e o menino afinal existia mesmo e viera ao mundo sim senhor: era seu filho Ezequias! [2Rs 18] E a Virgem era de carne e osso e ancas e mamas e devia ser muito bela, saudável, robusta, boa cozinheira e cuidadosa com a alimentação do Menino [a fiar no que os livros sagrados nos contamIsaías 7:14-15].

Fiquei perturbado!
Fui confirmar aos Livros. E que vejo eu?!

Num livro [Mateus 2:10], o protagonista é A Estrela do Oriente!
Num outro livro [Lucas 2:8.17], os protagonistas são Os Pastores!

Um Deus-Menino, nuzinho, rechonchudinho e sorridente… ‘ficara na sombra’!

Afinal, Mateus [2:2] refere um adulto, fala d’o Rei dos Judeus e Lucas [2:42-43.46-47.49] fala de um «menino» já adulto (v.42) «sentado entre os doutores, a ouvi-los e a fazer-lhes perguntas» e a enrascá-los… com «a sua inteligência e as suas respostas» (v.46-47)

Nem nenhum Deus-Menino bebezinho sorridente com coroa e ceptro, nem Pediatria como profissão! E, por este caminho, nem regueifas Miluvit nas coxinhas do bebé salvador do mundo… onde ir beijar nesta «noite feliz, noite de luz, ó Jesus»!

Fico, entretanto, com duas questões-não-pediátricas: que significado tem ‘A Estrela’? E que significado tem ‘Os Pastores’? Está aí alguém? Está aí alguém que me ajude?

E fruto desse engano histórico e perigoso – Atenção: este Rei Acaz ‘mancava das duas pernas’ como certo Primeiro Ministro, ou seja, vivia como um tolo no meio da ponte, sempre hesitante quanto a alianças, se com Merkel se com os Bispos…; Isaías 7:2 – fruto destes enganos tolos andámos TODOS às prendas, enganando todo um mês a ver se o subsídio de Natal esticava… “importando mais que exportando”!

Ironia do destino!
Nem existe Deus-Menino algum… nem combatemos a Crise!

Mais uma vez, «confundimos a Noite inconfundível» (RAB) e extraviamo-nos na montanha escura, nevada e sem trilhos firmes guiados por uma «fé de infantário»…
 
Afinal de contas, onde está esse Rei que só aos poderosos «perturba»? [Mateus 2:3] (EU também quero saber…)



«Neste Natal
não diga bom dia a um pobre.
Dá-lhe falsas esperanças…» [RZ]




«É pelo exterior, é por aquilo que a Igreja mostra aos olhos dos homens que estes a passam a conhecer e, através dela, são ou serão conduzidos ao Evangelho, a Deus. Ou, pelo contrário, são afastados, repelidos ou ainda levados a encaminharem-se para um tipo de religião mais material, para um sistema no qual preponderem mais propriamente comportamentos sociológicos  do que uma religião pessoal com todas as exigências espirituais que isso comporta.

«Quanto a isto, tudo o que torna a Igreja visível no concreto, tudo aquilo através do qual as pessoas tomam contacto com ela, da mesmíssima forma como acontece na nossa relação com os outros - por exemplo, a importância do rosto, do olhar, das formas e das roupas - é duma extrema importância; a forma dum recado, dum simples anúncio, dum boletim paroquial ou ainda o tipo de ornamentação ou duma celebração…, o aspecto exterior dum padre, o seu trato, a sua linguagem, o seu estilo de vida ou o das religiosas, o das pessoas da Igreja: tudo elementos sem importância, quotidianos, mas significativos e até decisivos da visibilidade da Igreja como parábola do Reino de Deus ou como sacramento do Evangelho».

Yves Congar, Pour une Église servante et pauvre, 1963, p. 107-108, citado em «Fidèle à l’avenir – à l’écoute du Cardinal Congar», Frère Émile, de Taizé, Les Presses de Taizé, 2011, ISBN 978-2-85040-309-5.

24 de dezembro de 2011

POEMA NATALÍCIO

Natal 2011






POEMA PARA O PRESÉPIO



-Um chá?!

-Um chá é breve!

-Entra!

-Faz de conta que estás em tua casa...


O renovo – Deus adira o amar ao perdoar



pb\

PS: 'Convite a 4 vozes' das 4 personagens... para mim, para ti, para nós, para todos.

22 de dezembro de 2011

CONTO DE NATAL

Conto de Natal para um tempo cravejado de medos…




A estrelinha lilás


Esta noite sonhei que começara a chover muito. O barco onde íamos meteu água e o céu lançava sobre as nossas cabeças faíscas agudas – um dos nossos amigos morreu e nós morríamos de medo.

De repente, um como nós ergueu-se, abriu os braços e gritou como um trovão: − Não temais! A tempestade acalmou, a maldade do mar desapareceu, o céu abriu-se de azul e sol e todos nos sentimos muito pequeninos diante de tamanho milagre. Ao canto da barcaça um velho de barbas brancas resmungou: Será ele?

Ao fim de alguns dias de viagem em cima das águas chegamos a uma terra igual a tantas outras. Dois homens esperavam-nos na praia.
Ei! Tu aí… Anda connosco. Depressa! Eram soldados e apontavam para o rapaz que tinha aberto os braços e gritado não temais. O rapaz, que devia ter perto de 18 anos de idade – cabelos compridos, barba muito preta, sedosa, rente à pele e olhos cheios de vida – foi metido numa prisão. Passou lá três dias de fome e três noites de frio, com um tronco bem amarrado às costas.

Ao fim de três dias e três noites foi levado à presença do Imperador que lhe disse: Ouvi dizer que não tens medo!? O rapaz abanou a cabeça que sim que sim. O Imperador repetiu três vezes com força: – A quem não tiver medo eu mando-o abrir os braços e amarro-o com cordas a um madeiro. Ouviste bem? O rapaz arregalou os olhos e voltou a abanar a cabeça três vezes. – Tirem-lhe o carrego! Agora ele vai ver do que a casa gasta para se fazer homem. Agora ele terá de aprender por si mesmo a ter tino, a ter respeitinho! Sobretudo, a temer o medo…

Agora vai! – concluiu o Imperador. E deu ordem aos soldados para o libertarem. O menino foi à vida, mas nem assim conseguiu sentir as pernas a tremer. Às vezes, punha duas velhas latas de azeitonas de borco e, por cima, tábuas podres a fazer de pranchas. Pinchava, pinchava, abanava-as, quase que era atirado ao chão, mas nunca as partira, nem sequer tinha conseguido arrepiar-se. Apesar da idade, parecia uma criança nascida para envergonhar os pais. Depois, subiu a uma torre muito alta, andou às voltas lá em cima, pôs-se em biquinhos de pés mesmo na pontinha mais alta do pináculo! Abriu os braços, baloiçou-se para a frente e para trás, mas as vertigens não apareceram. Apenas uma brisa suave no rosto! Ele, que sempre se sentira o maior do mundo, nesse dia, triste como a noite por não ser capaz de fabricar medo, decidiu desistir e partir para uma terra que fosse a sério, uma terra onde não tivesse que pensar muito para ter medo a sério. Gostava de desafiar perigos como quem brinca e, ali, naquela terra vulgar, nada… − era tudo uma seca, até para se ter medo:-(

Mas mal pôs o pé na areia da praia para de novo embarcar, surgiu uma multidão aos gritos: Eia! Escuta! Espera um pouco! O rapaz virou-se para trás. – Desde que chegaste aqui não nos cansamos de te espiar. Vimos tudo. Vimos tudo o que andaste a fazer. E até vimos que tu és destemido! Não fiques assim. Não desanimes. Não embarques. Afasta a tua tristeza. Volta para trás que nós damos-te um pouco do nosso medo – temos tanto para dar… e assim serás um poucochinho feliz junto de nós.

O rapaz disse: Vocês devem estar loucos! Vocês são capazes de me dar de presente um pedaço do vosso medo?!!! E assim, de graça, sem nada em troca?!!! Vocês só podem estar mesmo meio loucos de medo…!!! E decidiu ficar. Aquela gente parecia generosa. E, à medida que iam todos caminhando para a cidade, cada um punha-lhe às costas o seu próprio tronco de madeira, coisa que ele aceitou com a alegre leveza dum espírito destemido. Finalmente vou ser capaz de ser feliz nesta terra de medricas! E tudo à custa destes pobres patetas bondosos. Já começo a sentir um cheirinho a felicidade De facto – pensou o rapaz dos olhos faiscantes e barbas sedosas – as pessoas quando andam esmagadas de terror quase que encostam o queixo à biqueira dos sapatos. Mas ele, que era jovem e fortalhaças, caminhava de costas erguidas e até conseguia brincar com os mais pequenitos. Um dia, para espanto de muitos, viram-no com os troncos pesados às costas a saltar ao eixo com a canalha. E não é que ele os vencia a todos…

E assim, aos poucos e poucos, as pessoas daquela cidade começaram também a carregá-lo com seus troncos de estimação que tinham lá pelos cantos, em casa, reserva para quando sentissem raiva. Aos poucos, o rapaz de músculos fortes e rosto vincado, já carregava quase todos os troncos dos habitantes daquela cidade. Havia quem dissesse que quantos mais troncos lhe amarrassem às costas, mais feliz ele se sentia (o que muito me custa a crer… mas que ele há loucos, lá isso os há…).

Passou três anos ali, na cidade de medo. O ar era, agora, mais leve nas ruas e nas casas. Os pássaros cantavam mais e melhor, muitos fugiam das gaiolas e os patetas dos adultos achavam-lhe graça! Os homens assobiavam nos campos, dependuravam hortelã na orelha. As mulheres perfumavam a casa, escolhiam vestidos e voltavam a perder-se nas conversas!

Ao fim de três anos ou três milénios, os soldados – aqueles antipáticos que nem lhe haviam ofertado um só tronco sequer! – procuraram-no para lhe anunciar a notícia.
– O Imperador manda dizer:  Sei que és um medricas! Sei que andas carregado de medo, carregado dos medos de quase todos nós. Como prémio pela tua vontade em querer ser cidadão desta província a medo inteiro, mando que te seja oferecido um palácio de grades com vistas para a cidade! De lá poderás contemplar as belas vistas de todo o meu império de gente temorária que me saúda e me mede a medo o ano inteiro.




O rapaz deu pinchos de contente!
Indicaram-lhe o caminho – a via mais íngreme –, até que chegaram ao cimo dum monte alto. O rapaz subira aquela incrível encosta com uma perna às costas. (chegados aqui, temos que reconhecer que esta história é tão tola como o rapaz, porque com milhares de troncos às costas, o rapaz, apesar de ser um fortalhaças, seguramente já não conseguiria arranjar espaço para a sua perna… bom; adiante…) O rapaz subira, então, a encosta com as duas pernas às costas e os braços bem abertos! Ah, valente - assim é que é!

De facto, lá de cima, as vistas eram soberbas! A cidade parecia uma montagem de legos! Apetecia ser menino de novo, menino de condomínio aberto…

Lá em baixo, os palácios, as ágoras, os templos, as avenidas, os obeliscos, o rio como uma cobra, às vezes com rápidos, um tufo de verdura aqui, outro acolá. À esquerda, camelos em fila sobre o pente das dunas. À direita, a praia e, partindo dela como uma saia larga, um soberbo mar azul sem ondas e sem fim, um mar de nadar e chorar por mais de mansidão. O horizonte era tudo e tudo era horizonte e, daquele ponto alto e amplo, os olhos tinham a grandeza dum sonho de rei. Melhor: a grandeza dum sonho de Príncipe, dum Filho de Rei!

Era demais! O seu coração estourava de felicidade! Não era possível ser mais feliz! Ali, de facto, do alto do mundo, ainda era mais completamente impossível que alguém tivesse um pingo sequer de medo. Naquele momento, era o rapaz mais feliz sem nada ter feito para o merecer! Devia uma visita ao Grande Imperador por tanta bondade generosa… mesmo que com as costas ajoujadas de troncos maciços.

Saltou tanto, tanto, de felicidade, que se atirou aos soldados para os abraçar. Mas… não conseguiu, pois tinha os braços amarrados aos troncos por cordas – ele não podia defraudar a confiança que a multidão tinha depositado nele. Nunca iria deixar cair ao chão os troncos dos outros que tanto o incentivaram a ser um poucochinho feliz com eles.

Paciência. Não abraçara os soldados, mas, em vez disso, pensou: «Posso ensaiar uma brincadeira de roda para os reverenciar!». Tentando aumentar ainda mais a sua cota de medo, pensou: «Que tal se andasse à roda até ficar tonto?!» Desatou, então, a girar em círculos, a girar em círculos, a girar em círculos, em círculos, tão rápidos, tão velozes, tão velozes que… oh surpresa das surpresas!, começou a levantar voo… de braços abertos… como se fosse uma libelinha azul! Uma espécie de menino-helicóptero!!! J [muitos risos patetas…] carregado com os troncos sagrados do medo de todo o mundo.

E elevou-se … disparado pelos ares… tão alto, tão alto, tão alto…, que rapidamente se tornou apenas um pontinho bem lá no longínquo céu, tão longe e tão alto, que mais parecia uma estrelinha lilás no imenso universo do amor de Deus.

Cá em baixo, na Terra, uma tremenda ovação!


Tudo isto aconteceu há muitos anos, no tempo em que Jesus por cá andou.
Mas ainda hoje, em Nazaré, as mães, para entreterem os filhos na hora da sopa, chamam todos os meninos da aldeia, pedem-lhes para darem as mãos e fazerem um círculo. Depois contam-lhes a história do menino de medo que não tinha medo de nada, nem do Imperador!, e que mandara pelo ar todos os carregos! No fim da história, para alegria das mães, os meninos pedem mais sopa!, sem nunca deixarem de andar à roda de mãos dadas, braços bem abertos, com um raminho de amendoeira verde preso às costas por um alfinete.

Vocês acreditam que se vence o medo fazendo de conta que somos amigos… do medo? Acham mesmo? Também há quem diga que isso só resulta se dermos as mãos uns aos outros sem nunca desviar o olhar d’ aquele pontinho lilás, muito alto! que há no céu estrelado de todos os nossos sonhos.

E tu que achas? Quando fores dormir, experimenta. Vais ver que, com um raminho de amendoeira bem apertado na tua mão pequenina, consegues voar acima de todos os medos, mesmo que o teu peito aperte um poucochinho.



Bons sonhos… de NATAL!

 

[Ilustrações retiradas de ‘BÍBLIA INFANTIL’, Bethan James & Yorgos Sgouros, Ed. Babel, babel@babel.pt Av. António Augusto de Aguiar, 148 – 6º, 1069-019 Lisboa, T.: 21.3801.100 Fax: 21.3865.396]
Dez_2011
[Existe uma versão para os «mais crescidos», contra pedido por E-mail: paulobateira@gmail.com]

20 de dezembro de 2011

FÁBULAS E ARGUMENTÁRIO NEO-LIBERAIS

«O projecto de reforço sistemático do poder económico e político das classes dominantes não assenta apenas em políticas e práticas, mas também na produção de supostas verdades que vão permeando o senso comum e assegurando a aquiescência dos dominados. Apesar das suas inconsistências intrínsecas, da sua falta de correspondência com a realidade e do facto de terem sido desmentidas noutros contextos, muitas dessas ideias continuam vivas e operantes no Portugal contemporâneo.»



Os neo-liberais - perversidade cínica...



As sete vidas
do argumentário neo-liberal


«Os gastos do Estado estrangulam a economia e a sua redução é necessária para o crescimento económico.

Não se deve taxar mais os ricos, pois deixariam de produzir riqueza e todos ficariam a perder.

Não se pode taxar mais os rendimentos do capital, senão este fugirá para outros países.

A raiz do problema está nos privilégios excessivos dos trabalhadores em geral, ou de alguns grupos de trabalhadores.

Ainda assim, estamos todos no mesmo barco − e não há alternativa às políticas em curso.[…]

Estes são alguns dos elementos mais centrais do argumentário neo-liberal, recuperados vezes sem conta nos mais diversos contextos. Trata-se, por outras palavras, da dimensão discursiva do neo-liberalismo − um projecto global que remonta à década de 1970 e que visa reforçar sistematicamente o poder económico e político das classes dominantes através da erosão dos salários directos e indirectos, da fragilização da capacidade política dos trabalhadores e da mercadorização de um conjunto crescente de domínios sociais.

É um projecto que tem de ser considerado particularmente bem sucedido nos seus próprios termos: da década de 1980 para cá, a parcela dos rendimentos apropriada pelos percentis superiores da distribuição do rendimento tem crescido de forma imparável na generalidade das sociedades capitalistas avançadas, em paralelo com (e graças à) implementação de um conjunto de medidas que têm assegurado a precarização dos vínculos laborais, a privatização de sectores anteriormente sob controlo público, desregulamentação da actividade económica e, de uma forma geral, a progressiva eliminação dos mecanismos limitadores da desigualdade[1].[…]

O poder performativo do discurso neo-liberal não advém da sua superioridade em termos de validade interna ou de adequação à realidade, mas da sua capacidade de moldar a visão do mundo dos grupos dominados de modo a que estes encarem como inevitáveis (ou até desejáveis) as transformações sociais e políticas que reforçam as relações de desigualdade e de dominação a que estão sujeitos.

Assim, e de uma forma geral, o argumentário neo-liberal é constituído por um conjunto de proposições, de maior ou menor sofisticação, que têm em comum o facto de postularem a impossibilidade ou a indesejabilidade das opções políticas progressistas, a inevitabilidade das transformações sociais conducentes a ganhos para as classes dominantes e a rejeição (senão mesmo a erradicação) das subjectividades colectivas dos dominados.[…]


Fábulas fiscais

No argumentário neo-liberal, as opções em matéria de política fiscal têm um lugar muito importante (…). O desencorajamento da adopção de políticas fiscais mais progressivas e progressistas é habitualmente feito, na linha do que já foi indicado, através de dois tipos de argumentos: o da indesejabilidade e o da impossibilidade.

O primeiro, a indesejabilidade, assenta no postulado segundo o qual a riqueza e o rendimento, à imagem de uma bebida vertida sobre uma pirâmide de copos, «escorreriam para baixo» (trickle down) através da procura associada ao consumo e ao investimento dos mais ricos. (…) Em Portugal, não precisamos de recuar muito no tempo para recordar afirmações explicitamente nesta linha, proferidas sem grande pudor: «deixe lá o rico comprar o iate, não lhe tire o dinheiro antes de ele comprar o iate, porque aí tira postos de trabalho àqueles que construíram o iate», afirmava Manuela Ferreira Leite em 2009[2]. Claro que, em termos rigorosos, a questão dos multiplicadores de rendimento e emprego associados à despesa dos diversos escalões de rendimento depende, de forma inversa, da respectiva propensão para a poupança (sendo que, na maior parte dos contextos, é entre os escalões mais pobres que a despesa está associada a um maior efeito multiplicador). A preferência neo-liberal pelos impostos indirectos (pretensamente mais justos) esconde, assim uma opção que, além de socialmente regressiva, é também mais contraccionista.

Por sua vez, o argumento da impossibilidade assenta principalmente no postulado segundo o qual os indivíduos suspenderão ou reduzirão a sua actividade se adicionalmente tributados, tendo como consequência que, aumentos da taxa marginal de imposto, implicarão uma redução da receita fiscal total. Esta ideia, graficamente representada através da chamada curva de Laffer, desaconselharia, por isso, o aumento da tributação sobre os mais ricos, sob pena de todos ficarem a perder. Sucede que essa possibilidade teórica tem muito pouca sustentação empírica: segundo o New Palgrave Dictionary of Economics, nos estudos empíricos realizados sobre esta matéria, o nível a partir do qual o aumento da taxa de imposto sobre o rendimento está associado a uma redução da receita é, em média, próximo dos 70% − bem acima do praticado em qualquer país.

Uma outra versão do argumento da impossibilidade é o que assenta na pretensa hiper-mobilidade do capital, segundo a qual a globalização dos fluxos financeiros teria como consequência que qualquer tentativa de tributar adicionalmente os rendimentos do capital fizesse com que este imediatamente rumasse a outras paragens, com consequências negativas para o investimento e o emprego. Este argumento, diversas vezes aduzido para justificar a muito assimétrica penalização dos rendimentos do trabalho face aos do capital no contexto da austeridade actual em Portugal, assenta numa falácia: a ideia de que todo o capital é igualmente desmaterializado. Se é verdade que o capital financeiro de carácter especulativo (cujos benefícios para as economias receptoras são particularmente discutíveis) é efectivamente hiper-móvel, o mesmo não sucede com a generalidade do capital produtivo: as grande empresas de distribuição portuguesas, por exemplo, por mais que comecem a aventurar-se em mercados exteriores, dependem do seu domínio do mercado nacional, do seu investimento imobilizado e da sua capacidade de influência em Portugal − e não se volatilizarão se adicionalmente tributadas…

Em matéria de política fiscal, o reverso da medalha da tributação é a despesa pública (…), a ineficácia da despesa pública na sustentação da procura e, por essa via, da actividade económica: tal como as famílias − dizem-nos −, o Estado deve gastar menos durante as recessões. A falácia de (…) que a redução da despesa pública permite libertar as forças vivas da economia, permanece como um zumbi, entre nós[3].


Dividir para iludir, numa política sem alternativas

«A sociedade não existe − apenas existem indivíduos e famílias.» A famosa frase de Margaret Thatcher é todo um programa: a erradicação das subjectividades colectivas acima das famílias e abaixo da nação.

Dividir os trabalhadores e as classes populares para ocultar e reforçar as relações de dominação é um aspecto fundamental da agenda e do argumentário neo-liberais e está hoje particularmente presente entre nós: desde a suposta diferença entre Portugal e a «laxista» Grécia à mistificação dos conflitos de interesse como sendo, na sua essência, geracionais, ou à promoção da culpabilização mútua entre funcionários públicos e trabalhadores do sector privado. A competitividade (…) é apresentada como dependendo exclusivamente dos salários; e daí a imputar a falta de competitividade aos privilégios excessivos de certos grupos de trabalhadores é apenas um passo.[…]

Entre pretensas inevitabilidades e impossibilidades, o neo-liberalismo nega a sua própria existência enquanto projecto político e social, alegando uma suposta gestão apolítica das sociedades e recusando o nexo directo entre as suas acções e o aumento da exploração e da desigualdade. Do discurso à prática, trata-se de um veneno poderoso. Porém, existem antídotos para ele − urge tomá-los em doses reforçadas.


Alexandre Abreu
Doutorando em Economia na School of Oriental and African Studies (SOAS) e co-autor do blogue Ladrões de Bicicletas.

[Le Monde Diplomatique, edição portuguesa, Dezembro 2011, p.2]


[1] George Irvin, Super Rich: The Rise of Inequality in Britain and the United States, Polity, Cambridge, 2008.
[2] Jornal i-on line, 29 de Julho de 2009. www1.ionline.pt/conteudo/15673manuela-ferreira-leite-não-aceita-perseguicao-social-dos-ricos
[3] John Quiggin, Zombie Economics: How Dead Ideas Still Walk Among Us, Princeton University Press, Princeton, 2010.