teologia para leigos

22 de dezembro de 2011

CONTO DE NATAL

Conto de Natal para um tempo cravejado de medos…




A estrelinha lilás


Esta noite sonhei que começara a chover muito. O barco onde íamos meteu água e o céu lançava sobre as nossas cabeças faíscas agudas – um dos nossos amigos morreu e nós morríamos de medo.

De repente, um como nós ergueu-se, abriu os braços e gritou como um trovão: − Não temais! A tempestade acalmou, a maldade do mar desapareceu, o céu abriu-se de azul e sol e todos nos sentimos muito pequeninos diante de tamanho milagre. Ao canto da barcaça um velho de barbas brancas resmungou: Será ele?

Ao fim de alguns dias de viagem em cima das águas chegamos a uma terra igual a tantas outras. Dois homens esperavam-nos na praia.
Ei! Tu aí… Anda connosco. Depressa! Eram soldados e apontavam para o rapaz que tinha aberto os braços e gritado não temais. O rapaz, que devia ter perto de 18 anos de idade – cabelos compridos, barba muito preta, sedosa, rente à pele e olhos cheios de vida – foi metido numa prisão. Passou lá três dias de fome e três noites de frio, com um tronco bem amarrado às costas.

Ao fim de três dias e três noites foi levado à presença do Imperador que lhe disse: Ouvi dizer que não tens medo!? O rapaz abanou a cabeça que sim que sim. O Imperador repetiu três vezes com força: – A quem não tiver medo eu mando-o abrir os braços e amarro-o com cordas a um madeiro. Ouviste bem? O rapaz arregalou os olhos e voltou a abanar a cabeça três vezes. – Tirem-lhe o carrego! Agora ele vai ver do que a casa gasta para se fazer homem. Agora ele terá de aprender por si mesmo a ter tino, a ter respeitinho! Sobretudo, a temer o medo…

Agora vai! – concluiu o Imperador. E deu ordem aos soldados para o libertarem. O menino foi à vida, mas nem assim conseguiu sentir as pernas a tremer. Às vezes, punha duas velhas latas de azeitonas de borco e, por cima, tábuas podres a fazer de pranchas. Pinchava, pinchava, abanava-as, quase que era atirado ao chão, mas nunca as partira, nem sequer tinha conseguido arrepiar-se. Apesar da idade, parecia uma criança nascida para envergonhar os pais. Depois, subiu a uma torre muito alta, andou às voltas lá em cima, pôs-se em biquinhos de pés mesmo na pontinha mais alta do pináculo! Abriu os braços, baloiçou-se para a frente e para trás, mas as vertigens não apareceram. Apenas uma brisa suave no rosto! Ele, que sempre se sentira o maior do mundo, nesse dia, triste como a noite por não ser capaz de fabricar medo, decidiu desistir e partir para uma terra que fosse a sério, uma terra onde não tivesse que pensar muito para ter medo a sério. Gostava de desafiar perigos como quem brinca e, ali, naquela terra vulgar, nada… − era tudo uma seca, até para se ter medo:-(

Mas mal pôs o pé na areia da praia para de novo embarcar, surgiu uma multidão aos gritos: Eia! Escuta! Espera um pouco! O rapaz virou-se para trás. – Desde que chegaste aqui não nos cansamos de te espiar. Vimos tudo. Vimos tudo o que andaste a fazer. E até vimos que tu és destemido! Não fiques assim. Não desanimes. Não embarques. Afasta a tua tristeza. Volta para trás que nós damos-te um pouco do nosso medo – temos tanto para dar… e assim serás um poucochinho feliz junto de nós.

O rapaz disse: Vocês devem estar loucos! Vocês são capazes de me dar de presente um pedaço do vosso medo?!!! E assim, de graça, sem nada em troca?!!! Vocês só podem estar mesmo meio loucos de medo…!!! E decidiu ficar. Aquela gente parecia generosa. E, à medida que iam todos caminhando para a cidade, cada um punha-lhe às costas o seu próprio tronco de madeira, coisa que ele aceitou com a alegre leveza dum espírito destemido. Finalmente vou ser capaz de ser feliz nesta terra de medricas! E tudo à custa destes pobres patetas bondosos. Já começo a sentir um cheirinho a felicidade De facto – pensou o rapaz dos olhos faiscantes e barbas sedosas – as pessoas quando andam esmagadas de terror quase que encostam o queixo à biqueira dos sapatos. Mas ele, que era jovem e fortalhaças, caminhava de costas erguidas e até conseguia brincar com os mais pequenitos. Um dia, para espanto de muitos, viram-no com os troncos pesados às costas a saltar ao eixo com a canalha. E não é que ele os vencia a todos…

E assim, aos poucos e poucos, as pessoas daquela cidade começaram também a carregá-lo com seus troncos de estimação que tinham lá pelos cantos, em casa, reserva para quando sentissem raiva. Aos poucos, o rapaz de músculos fortes e rosto vincado, já carregava quase todos os troncos dos habitantes daquela cidade. Havia quem dissesse que quantos mais troncos lhe amarrassem às costas, mais feliz ele se sentia (o que muito me custa a crer… mas que ele há loucos, lá isso os há…).

Passou três anos ali, na cidade de medo. O ar era, agora, mais leve nas ruas e nas casas. Os pássaros cantavam mais e melhor, muitos fugiam das gaiolas e os patetas dos adultos achavam-lhe graça! Os homens assobiavam nos campos, dependuravam hortelã na orelha. As mulheres perfumavam a casa, escolhiam vestidos e voltavam a perder-se nas conversas!

Ao fim de três anos ou três milénios, os soldados – aqueles antipáticos que nem lhe haviam ofertado um só tronco sequer! – procuraram-no para lhe anunciar a notícia.
– O Imperador manda dizer:  Sei que és um medricas! Sei que andas carregado de medo, carregado dos medos de quase todos nós. Como prémio pela tua vontade em querer ser cidadão desta província a medo inteiro, mando que te seja oferecido um palácio de grades com vistas para a cidade! De lá poderás contemplar as belas vistas de todo o meu império de gente temorária que me saúda e me mede a medo o ano inteiro.




O rapaz deu pinchos de contente!
Indicaram-lhe o caminho – a via mais íngreme –, até que chegaram ao cimo dum monte alto. O rapaz subira aquela incrível encosta com uma perna às costas. (chegados aqui, temos que reconhecer que esta história é tão tola como o rapaz, porque com milhares de troncos às costas, o rapaz, apesar de ser um fortalhaças, seguramente já não conseguiria arranjar espaço para a sua perna… bom; adiante…) O rapaz subira, então, a encosta com as duas pernas às costas e os braços bem abertos! Ah, valente - assim é que é!

De facto, lá de cima, as vistas eram soberbas! A cidade parecia uma montagem de legos! Apetecia ser menino de novo, menino de condomínio aberto…

Lá em baixo, os palácios, as ágoras, os templos, as avenidas, os obeliscos, o rio como uma cobra, às vezes com rápidos, um tufo de verdura aqui, outro acolá. À esquerda, camelos em fila sobre o pente das dunas. À direita, a praia e, partindo dela como uma saia larga, um soberbo mar azul sem ondas e sem fim, um mar de nadar e chorar por mais de mansidão. O horizonte era tudo e tudo era horizonte e, daquele ponto alto e amplo, os olhos tinham a grandeza dum sonho de rei. Melhor: a grandeza dum sonho de Príncipe, dum Filho de Rei!

Era demais! O seu coração estourava de felicidade! Não era possível ser mais feliz! Ali, de facto, do alto do mundo, ainda era mais completamente impossível que alguém tivesse um pingo sequer de medo. Naquele momento, era o rapaz mais feliz sem nada ter feito para o merecer! Devia uma visita ao Grande Imperador por tanta bondade generosa… mesmo que com as costas ajoujadas de troncos maciços.

Saltou tanto, tanto, de felicidade, que se atirou aos soldados para os abraçar. Mas… não conseguiu, pois tinha os braços amarrados aos troncos por cordas – ele não podia defraudar a confiança que a multidão tinha depositado nele. Nunca iria deixar cair ao chão os troncos dos outros que tanto o incentivaram a ser um poucochinho feliz com eles.

Paciência. Não abraçara os soldados, mas, em vez disso, pensou: «Posso ensaiar uma brincadeira de roda para os reverenciar!». Tentando aumentar ainda mais a sua cota de medo, pensou: «Que tal se andasse à roda até ficar tonto?!» Desatou, então, a girar em círculos, a girar em círculos, a girar em círculos, em círculos, tão rápidos, tão velozes, tão velozes que… oh surpresa das surpresas!, começou a levantar voo… de braços abertos… como se fosse uma libelinha azul! Uma espécie de menino-helicóptero!!! J [muitos risos patetas…] carregado com os troncos sagrados do medo de todo o mundo.

E elevou-se … disparado pelos ares… tão alto, tão alto, tão alto…, que rapidamente se tornou apenas um pontinho bem lá no longínquo céu, tão longe e tão alto, que mais parecia uma estrelinha lilás no imenso universo do amor de Deus.

Cá em baixo, na Terra, uma tremenda ovação!


Tudo isto aconteceu há muitos anos, no tempo em que Jesus por cá andou.
Mas ainda hoje, em Nazaré, as mães, para entreterem os filhos na hora da sopa, chamam todos os meninos da aldeia, pedem-lhes para darem as mãos e fazerem um círculo. Depois contam-lhes a história do menino de medo que não tinha medo de nada, nem do Imperador!, e que mandara pelo ar todos os carregos! No fim da história, para alegria das mães, os meninos pedem mais sopa!, sem nunca deixarem de andar à roda de mãos dadas, braços bem abertos, com um raminho de amendoeira verde preso às costas por um alfinete.

Vocês acreditam que se vence o medo fazendo de conta que somos amigos… do medo? Acham mesmo? Também há quem diga que isso só resulta se dermos as mãos uns aos outros sem nunca desviar o olhar d’ aquele pontinho lilás, muito alto! que há no céu estrelado de todos os nossos sonhos.

E tu que achas? Quando fores dormir, experimenta. Vais ver que, com um raminho de amendoeira bem apertado na tua mão pequenina, consegues voar acima de todos os medos, mesmo que o teu peito aperte um poucochinho.



Bons sonhos… de NATAL!

 

[Ilustrações retiradas de ‘BÍBLIA INFANTIL’, Bethan James & Yorgos Sgouros, Ed. Babel, babel@babel.pt Av. António Augusto de Aguiar, 148 – 6º, 1069-019 Lisboa, T.: 21.3801.100 Fax: 21.3865.396]
Dez_2011
[Existe uma versão para os «mais crescidos», contra pedido por E-mail: paulobateira@gmail.com]

20 de dezembro de 2011

FÁBULAS E ARGUMENTÁRIO NEO-LIBERAIS

«O projecto de reforço sistemático do poder económico e político das classes dominantes não assenta apenas em políticas e práticas, mas também na produção de supostas verdades que vão permeando o senso comum e assegurando a aquiescência dos dominados. Apesar das suas inconsistências intrínsecas, da sua falta de correspondência com a realidade e do facto de terem sido desmentidas noutros contextos, muitas dessas ideias continuam vivas e operantes no Portugal contemporâneo.»



Os neo-liberais - perversidade cínica...



As sete vidas
do argumentário neo-liberal


«Os gastos do Estado estrangulam a economia e a sua redução é necessária para o crescimento económico.

Não se deve taxar mais os ricos, pois deixariam de produzir riqueza e todos ficariam a perder.

Não se pode taxar mais os rendimentos do capital, senão este fugirá para outros países.

A raiz do problema está nos privilégios excessivos dos trabalhadores em geral, ou de alguns grupos de trabalhadores.

Ainda assim, estamos todos no mesmo barco − e não há alternativa às políticas em curso.[…]

Estes são alguns dos elementos mais centrais do argumentário neo-liberal, recuperados vezes sem conta nos mais diversos contextos. Trata-se, por outras palavras, da dimensão discursiva do neo-liberalismo − um projecto global que remonta à década de 1970 e que visa reforçar sistematicamente o poder económico e político das classes dominantes através da erosão dos salários directos e indirectos, da fragilização da capacidade política dos trabalhadores e da mercadorização de um conjunto crescente de domínios sociais.

É um projecto que tem de ser considerado particularmente bem sucedido nos seus próprios termos: da década de 1980 para cá, a parcela dos rendimentos apropriada pelos percentis superiores da distribuição do rendimento tem crescido de forma imparável na generalidade das sociedades capitalistas avançadas, em paralelo com (e graças à) implementação de um conjunto de medidas que têm assegurado a precarização dos vínculos laborais, a privatização de sectores anteriormente sob controlo público, desregulamentação da actividade económica e, de uma forma geral, a progressiva eliminação dos mecanismos limitadores da desigualdade[1].[…]

O poder performativo do discurso neo-liberal não advém da sua superioridade em termos de validade interna ou de adequação à realidade, mas da sua capacidade de moldar a visão do mundo dos grupos dominados de modo a que estes encarem como inevitáveis (ou até desejáveis) as transformações sociais e políticas que reforçam as relações de desigualdade e de dominação a que estão sujeitos.

Assim, e de uma forma geral, o argumentário neo-liberal é constituído por um conjunto de proposições, de maior ou menor sofisticação, que têm em comum o facto de postularem a impossibilidade ou a indesejabilidade das opções políticas progressistas, a inevitabilidade das transformações sociais conducentes a ganhos para as classes dominantes e a rejeição (senão mesmo a erradicação) das subjectividades colectivas dos dominados.[…]


Fábulas fiscais

No argumentário neo-liberal, as opções em matéria de política fiscal têm um lugar muito importante (…). O desencorajamento da adopção de políticas fiscais mais progressivas e progressistas é habitualmente feito, na linha do que já foi indicado, através de dois tipos de argumentos: o da indesejabilidade e o da impossibilidade.

O primeiro, a indesejabilidade, assenta no postulado segundo o qual a riqueza e o rendimento, à imagem de uma bebida vertida sobre uma pirâmide de copos, «escorreriam para baixo» (trickle down) através da procura associada ao consumo e ao investimento dos mais ricos. (…) Em Portugal, não precisamos de recuar muito no tempo para recordar afirmações explicitamente nesta linha, proferidas sem grande pudor: «deixe lá o rico comprar o iate, não lhe tire o dinheiro antes de ele comprar o iate, porque aí tira postos de trabalho àqueles que construíram o iate», afirmava Manuela Ferreira Leite em 2009[2]. Claro que, em termos rigorosos, a questão dos multiplicadores de rendimento e emprego associados à despesa dos diversos escalões de rendimento depende, de forma inversa, da respectiva propensão para a poupança (sendo que, na maior parte dos contextos, é entre os escalões mais pobres que a despesa está associada a um maior efeito multiplicador). A preferência neo-liberal pelos impostos indirectos (pretensamente mais justos) esconde, assim uma opção que, além de socialmente regressiva, é também mais contraccionista.

Por sua vez, o argumento da impossibilidade assenta principalmente no postulado segundo o qual os indivíduos suspenderão ou reduzirão a sua actividade se adicionalmente tributados, tendo como consequência que, aumentos da taxa marginal de imposto, implicarão uma redução da receita fiscal total. Esta ideia, graficamente representada através da chamada curva de Laffer, desaconselharia, por isso, o aumento da tributação sobre os mais ricos, sob pena de todos ficarem a perder. Sucede que essa possibilidade teórica tem muito pouca sustentação empírica: segundo o New Palgrave Dictionary of Economics, nos estudos empíricos realizados sobre esta matéria, o nível a partir do qual o aumento da taxa de imposto sobre o rendimento está associado a uma redução da receita é, em média, próximo dos 70% − bem acima do praticado em qualquer país.

Uma outra versão do argumento da impossibilidade é o que assenta na pretensa hiper-mobilidade do capital, segundo a qual a globalização dos fluxos financeiros teria como consequência que qualquer tentativa de tributar adicionalmente os rendimentos do capital fizesse com que este imediatamente rumasse a outras paragens, com consequências negativas para o investimento e o emprego. Este argumento, diversas vezes aduzido para justificar a muito assimétrica penalização dos rendimentos do trabalho face aos do capital no contexto da austeridade actual em Portugal, assenta numa falácia: a ideia de que todo o capital é igualmente desmaterializado. Se é verdade que o capital financeiro de carácter especulativo (cujos benefícios para as economias receptoras são particularmente discutíveis) é efectivamente hiper-móvel, o mesmo não sucede com a generalidade do capital produtivo: as grande empresas de distribuição portuguesas, por exemplo, por mais que comecem a aventurar-se em mercados exteriores, dependem do seu domínio do mercado nacional, do seu investimento imobilizado e da sua capacidade de influência em Portugal − e não se volatilizarão se adicionalmente tributadas…

Em matéria de política fiscal, o reverso da medalha da tributação é a despesa pública (…), a ineficácia da despesa pública na sustentação da procura e, por essa via, da actividade económica: tal como as famílias − dizem-nos −, o Estado deve gastar menos durante as recessões. A falácia de (…) que a redução da despesa pública permite libertar as forças vivas da economia, permanece como um zumbi, entre nós[3].


Dividir para iludir, numa política sem alternativas

«A sociedade não existe − apenas existem indivíduos e famílias.» A famosa frase de Margaret Thatcher é todo um programa: a erradicação das subjectividades colectivas acima das famílias e abaixo da nação.

Dividir os trabalhadores e as classes populares para ocultar e reforçar as relações de dominação é um aspecto fundamental da agenda e do argumentário neo-liberais e está hoje particularmente presente entre nós: desde a suposta diferença entre Portugal e a «laxista» Grécia à mistificação dos conflitos de interesse como sendo, na sua essência, geracionais, ou à promoção da culpabilização mútua entre funcionários públicos e trabalhadores do sector privado. A competitividade (…) é apresentada como dependendo exclusivamente dos salários; e daí a imputar a falta de competitividade aos privilégios excessivos de certos grupos de trabalhadores é apenas um passo.[…]

Entre pretensas inevitabilidades e impossibilidades, o neo-liberalismo nega a sua própria existência enquanto projecto político e social, alegando uma suposta gestão apolítica das sociedades e recusando o nexo directo entre as suas acções e o aumento da exploração e da desigualdade. Do discurso à prática, trata-se de um veneno poderoso. Porém, existem antídotos para ele − urge tomá-los em doses reforçadas.


Alexandre Abreu
Doutorando em Economia na School of Oriental and African Studies (SOAS) e co-autor do blogue Ladrões de Bicicletas.

[Le Monde Diplomatique, edição portuguesa, Dezembro 2011, p.2]


[1] George Irvin, Super Rich: The Rise of Inequality in Britain and the United States, Polity, Cambridge, 2008.
[2] Jornal i-on line, 29 de Julho de 2009. www1.ionline.pt/conteudo/15673manuela-ferreira-leite-não-aceita-perseguicao-social-dos-ricos
[3] John Quiggin, Zombie Economics: How Dead Ideas Still Walk Among Us, Princeton University Press, Princeton, 2010.

RAZÕES PARA A AUSTERIDADE - UMA CRUELDADE CIENTÍFICA

!Portugal caminha a passos largos para esta situação… Prestem bem atenção!





«Combinando a força do tempo e o peso do fatalismo, as crises longas banalizam, a pouco e pouco, o que geralmente é da ordem do inacreditável. É dessa forma que nos acostumamos a que investidores demitam governos ou que à amputação dos orçamentos públicos se siga a descida dos salários. Os dirigentes explicam que é para evitar o pior. Mas será que eles ainda controlam a máquina, quando surge o espectro de uma nova recessão mundial? Sob a pressão dos mercados financeiros e das correias de transmissão políticas, algumas empresas europeias começam a desconjuntar-se, como na Grécia. Ignorando as exortações a «corrigir os excessos do sistema» e a desembaraçar o (bom) capitalismo das (más) influências da finança, qualquer pessoa sente que há um ciclo que está a fechar-se.»






OS GREGOS COM A FACA NA GARGANTA


«Tu não sabes o que te espera amanhã quando acordares
Não há uma única pessoa, que tenhamos encontrado em Atenas, Salónica ou qualquer outro lado, que não tenha, num momento ou noutro, dito esta frase.
Na Grécia, a obsessão face ao dia seguinte é entendida como uma prisão que fecha cada um na incerteza de uma existência individual e colectiva ameaçada de destruição iminente. No entanto, este país que tem uma história atormentada, não está a passar a sua primeira provação. Os gregos vêem-se como um povo dotado de uma inteligência especial, de um carácter forte, sobretudo na adversidade. «Tivemos sempre períodos difíceis; safamo-nos sempre. Mas agora tiraram-nos a esperança», suspira a gerente de uma pequena empresa.

Ao mesmo tempo que os programas de austeridade se sucedem, há leis, decretos e circulares que põem em causa as normas sociais, económicas e administrativas do país.

A cada dia, tudo muda. O que ainda ontem era verdade, hoje já não o é, e amanhã não sabemos. Os administrados submetem-se a uma burocracia cada vez mais minuciosa, kafkiana, com regras incompreensíveis e sempre em alteração. «As pessoas querem agir em conformidade com a lei», explica uma empregada da Câmara de Cíclades às suas colegas. «Mas nós não sabemos o que lhes dizer, nós não temos os pormenores das medidas!» Um homem teve de pagar 200 euros e apresentar 13 documentos e o bilhete de identidade para conseguir a renovação da carta de condução. Alguns empregados do sector público opõem uma resistência passiva. «Cortam-lhes os salários, então eles não trabalham mais. Quando tu chamas a polícia para dares conta de algo que se está a passar, esta responde-te: “O problema é teu, desenrasca-te”», conta um engenheiro da marinha mercante na reforma, muito revoltado contra o governo. As tensões exacerbam-se. Regista-se um evidente aumento da violência intra-familiar, dos roubos e dos homicídios[1].

Por um lado, os salários diminuem (entre 35 e 40% em certos sectores); por outro, são constantemente criados novos impostos, por vezes, com efeitos retroactivos até ao início do ano civil, alguns retidos na fonte, outros não. Tal representa uma diminuição efectiva dos rendimentos, a qual muitas vezes ultrapassa os 50%. Entre as últimas taxas inventadas figuram, desde o Verão passado, um imposto de solidariedade (de 1% a 4% dos rendimentos anuais), uma taxa sobre o petróleo e o gás natural que os contribuintes têm de pagar e que acresce ao seu consumo de energia, a diminuição do primeiro escalão do imposto sobre os rendimentos que passou de 5000 para 2000 euros anuais, uma taxa fundiária de 0,50 a 20 euros por metro quadrado incluída na factura da electricidade e pagável em duas ou três vezes sob ameaça do corte de energia eléctrica e de multas.

No princípio de Novembro, nem os reformados, nem os assalariados (do público e do privado) sabiam o que iriam receber no final do mês. É corrente trabalhar sem ser pago. Nas empresas e nos serviços públicos em vias de «saneamento» foi aplicado um plano drástico de redução de efectivos. Até 2015, 120 mil assalariados com mais de 53 anos serão postos na «reserva». A ‘reserva’ é a antecâmara da reforma forçada dos funcionários públicos que tenham cumprido 33 anos de serviço: estes são enviados para casa e não recebem mais do que 60% do seu salário base. Dentro em breve, um grande número de funcionários públicos aposentados à força não terá mais do que um rendimento de miséria, tal como nos explicava um grupo de antigos maquinistas com 50 e mais anos. Reconvertidos, no quadro de um processo de mobilidade «voluntária»[2], em vigilantes de museus, eles anteriormente recebiam 1800 a 200 euros por mês, um salário relativamente confortável na Grécia: doravante o seu salário oscilará entre 1100 e 1300 euros e para os «reservistas» ficará limitado a 600 euros. E, mesmo assim, eles poderão perder esse salário caso tentem desenvencilhar-se tendo um outro emprego remunerado: tal é-lhes formalmente proibido − e as autoridades não hesitam, em aplicar a sanção.

A compressão dos salários criou uma «situação selvagem», como confidencia uma moradora de Salónica, que acrescenta: «Já não pago as minhas contas, reduzi as minhas compras, as lojas fecham, o desemprego aumenta»… Em Maio, a taxa oficial de desemprego − provavelmente, muito inferior à taxa real − era de 16,6% (e de 40% nos jovens), ou seja, dez pontos mais elevada do que em 2008.

Cataclísmica, a crise económica, social e política tem consequências alarmantes na saúde pública. Os orçamentos dos hospitais e dos centros de saúde públicos foram, em média, cortados em 40%. Mas a afluência às urgências aumenta e, simultaneamente, as taxas de não-recurso aos serviços médicos também aumentam. Muitas das pessoas entrevistadas contam que os medicamentos não são, ou em breve deixarão de ser, distribuídos. «O meu pai», indigna-se uma jornalista, «tem doença de Parkinson; os seus medicamentos custam 500 euros por mês. A farmácia comunicou-lhe que em breve não os poderá entregar porque a Segurança Social não os reembolsa». […]

Nenhum país resistiria a um choque destes. E a Grécia ainda menos do que os outros: não está preparada para enfrentar as consequências sociais e sanitárias da austeridade que lhe impõem, com uma «crueldade científica»[3], as elites transnacionais e nacionais. O país não teve o tempo nem os meios para desenvolver um sistema de protecção social bem conseguido e as redes existentes estão a ser rasgadas. […]

Críticos de si próprios e do seu país, ainda que orgulhosos, os gregos nunca foram ingénuos. Mas encontram-se despojados de meios.

Que modelo de sociedade é que uma população até agora «essencialmente incapaz de constituir uma comunidade política»[4], segundo a expressão de Cornelius Castoriadis, pode imaginar? […]

Depois de terem pensado que se tinham desembaraçado dos seus dirigentes[5], os gregos arriscam-se a deixar de saber contra quem se hão-de sublevar. «Não há inimigo», nota Lainas. «O governo é abstracto, é essa a sua força. FEEF! [6] O inimigo pode ser abstracto, mas a infelicidade é real. Eles roubam-te a vida. Eles privam-me de futuro.»

Noëlle Burgi

Investigadora do Centro Europeu de Sociologia e de Ciência Política Paris-Sorbonne, Centro Nacional de Investigação Científica (CNRS).

[parte de Artigo publicado em Le Monde Diplomatique, edição portuguesa, Dezembro 2011, p.5]




[1]  «Os casos de violência intra-familiar triplicaram», I Simerini, Nicósia, 16:III:2011; «Aumento dos maus-tratos contra as crianças e do risco de pobreza infantil» http://www.tvxs.gr/, 15 de Abril 2011.
[2] Em vias de privatização, a companhia de caminhos-de-ferro organizou este processo no âmbito de um plano de redução dos efectivos.
[3] Expressão de Karl Polanyi, La Grande Transformation, Gallimard, Paris, 1983 [1944].
[4] Cornelius Castoriadis, «Nous sommes responsables de notre histoire», em Le Mouvement grec pour la démocratie directe, Lieux Communs, 2011.
[5] Após a Guerra da Independência (1821-1830), o Tratado de Londres impôs uma monarquia à Grécia. Otto von Wittelsbach, príncipe da Baviera, foi escolhido como primeiro rei (com o nome de Otto I) pelas grandes potências europeias (França, Rússia, Grã-Bretanha). Estas mantiveram-se como força de intervenção constante.
[6] FEEF - Fundo Europeu de Estabilidade Financeira.

19 de dezembro de 2011

ALEMANHA - COVEIRA DE 50 ANOS DE ESTADO SOCIAL





Austeridade sem fim e sem fundo

Já muita gente o disse e é uma verdade indesmentível: a Europa está numa situação decisiva em que estão à sua frente decisões sobre caminhos que condicionarão o futuro de todo o projecto europeu.

Tal como eu os vejo – e com risco de simplificar exageradamente a questão – esses caminhos podem agrupar-se em duas grandes alternativas: (1) ou caminhamos para uma Europa dominada pelas teses alemãs da austeridade permanente, a incidir em particular sobre os países do Sul do continente; (2) ou reencontramos o caminho para uma Europa de todos, estados e cidadãos, que se atribua a si própria, como prioridades, a criação de empregos e a preservação e aperfeiçoamento do modelo social europeu.

Convém, em primeiro lugar, salientar que estas duas Europas ou, se quiser, estes dois caminhos, são incompatíveis entre si.

A predominância das teses alemãs irá, em última análise, destruir a própria paz na Europa, afundando um trabalho de mais de cinquenta anos em prol de esbatimento pela negociação e cedências mútuas. Como irá, a prazo porventura ainda mais breve, destruir o modelo social europeu e criar as condições propícias à emergência da pseudo-soluções fascizantes com consequências imprevisíveis sobre tudo o que tem constituído a moderna civilização europeia.

Pelo que fica dito, o segundo aspecto que interessava salientar tornou-se óbvio: é que rejeito as teses alemãs e faço-o sem qualquer reserva. Mais: julgo que essa rejeição é necessária ainda que possa trazer no imediato algumas perturbações.

Mas para se rejeitar o primeiro caminho é necessário ter uma noção mais clara sobre se o segundo caminho é efectivamente possível e quais as condições que deverão ser asseguradas para que ele se torne viável.

É o que faremos de seguida.»(…)

João Ferreira do Amaral
Economista, Professor catedrático do ISEG-UTL

CONTINUA:

A ALTERNATIVA
O COMÉRCIO MUNDIAL
AS QUESTÕES FINANCEIRAS
AS QUESTÕES MONETÁRIAS

[Excerto de «Os dois caminhos – Austeridade sem fim e sem fundo», in Le Monde Diplomatique, edição portuguesa, Dezembro 2011, p.24]