teologia para leigos

16 de dezembro de 2011

CRISTÃO AFIRMA: «ESTADO NÃO TEM VOCAÇÃO SOCIAL»


«concentrados e enlatados sociais_PMS’s…»


O 'Estado Social na linha' segundo Pedro Mota Soares...



“O Estado não tem vocação para gerir instituições sociais” [Pedro Mota Soares, «Ministro da Solidariedade e Segurança Social…»]

Por António Ribeiro Ferreira e Rosa Ramos
publicado em 15 Dez 2011
Jornal i-on line



Ministro da Solidariedade e Segurança Social há poucos meses, Pedro Mota Soares entrou no edifício da Praça de Londres com o país a atravessar um enorme crise económica e social. O tempo é pouco e o Memorando da troika exigente. A sua primeira grande medida foi o Plano de Emergência Social, mas vêm aí grandes e profundas reformas. A primeira é o Estado sair da gestão de instituições sociais. A segunda é o plafonamento das pensões.


(…)Tem a noção de que existem, neste momento, pessoas completamente irrecuperáveis no mercado de trabalho?
Mesmo nas alturas de maior dificuldade temos de ter a capacidade de encontrar soluções imaginativas. Temos falado muito no estímulo ao auto-empreendedorismo e na criação de um plano nacional de microcrédito. Estamos a trabalhar nisso, porque sabemos que é difícil para muitas pessoas regressarem ao mercado trabalho, ou pelas suas habilitações ou por causa da idade. Penso que antes de tudo teremos de apoiar o auto-emprego. As instituições sociais poderão ter aqui um papel importante a desempenhar, criando emprego. E também se poderá alargar essa responsabilidade social às pequenas e médias empresas. É importante que as pessoas não fiquem muito tempo fora do mercado de trabalho e que possamos capacitá-las. Estamos a tentar estimular medidas nesse sentido, encontrando um conjunto de apoios públicos.(…)


Em tempo de austeridade, onde é possível ir buscar essas verbas?
Às verbas da acção social, naturalmente. Nós conseguimos, este ano, e ao contrário do que aconteceu o ano passado, fazer crescer a verba da acção social no Orçamento do Estado. Estamos a falar de um crescimento de 16%, qualquer coisa como 254 milhões de euros. E isto porque tivemos a coragem de cortar em áreas que não nos parecem essenciais. Só na Segurança Social (SS) cortámos, na área administrativa, 14% e reduzimos 51% das estruturas e 22% dos cargos dirigentes. Estamos a falar de uma redução de 356 cargos dirigentes em todo o país. Isto sem afectar a nossa capacidade de resposta. Acreditamos que é possível gastar menos dinheiro diminuindo a ineficácia, a burocracia e em alguns casos a duplicação de estruturas para alocarmos mais verbas à acção social.


O governo ainda não explicou, no que diz respeito à redução de quadros dirigentes e intermédios, para onde foram ou irão as pessoas. No seu ministério, o corte implicou a saída de funcionários para o quadro de mobilidade ou mesmo a saída do Estado?
Temos situações muito diferentes. Parte destas pessoas deixaram de estar nos quadros dirigentes e regressaram à sua função de origem. E nós, muitas vezes, até precisamos de aumentar o número de técnicos no terreno ou nos serviços locais. Outras pessoas saíram para a reforma porque atingiram a idade. Houve outros casos de funcionários que voltaram à sua função privada, de onde tinham vindo. Esta redução foi importantíssima. E também cortámos nos consumos intermédios: despesas, estadias, deslocações, pareceres, estudos. Coisas que neste momento poderão não ser tão essenciais. É preciso garantir que não faltam verbas na acção social e na ajuda às famílias e às instituições.


Quando o CDS estava na oposição criticava o rendimento social de inserção (RSI). Agora considera que a sua existência se justifica?
No RSI é preciso separar o trigo do joio de forma muito rigorosa. Temos de perceber que um euro mal atribuído numa prestação social – ou por falta de fiscalização, ou por falta de rigor, ou porque há abuso ou fraude – implica retirar verbas a quem realmente mais precisa. Numa sociedade altruísta e generosa como a portuguesa, ninguém quer que ninguém fique para trás. É uma obrigação de equidade social garantir que as verbas chegam verdadeiramente a quem delas precisa. Nesse sentido, queremos introduzir algumas regras em matéria de atribuição do RSI que passam por coisas tão simples como incutir nas pessoas a noção de que têm direitos, mas também têm obrigações: os cuidados com a educação e a saúde dos filhos, a procura activa de emprego ou a disponibilidade, no caso de pessoas que têm capacidade e idade para trabalhar, para prestarem trabalho socialmente necessário. Queremos garantir que ninguém recebe uma prestação social sem contratualizar com o Estado um conjunto de obrigações. Os últimos números do RSI dizem-nos que há menos pessoas a receber a prestação, mas o valor médio, nalguns casos, até subiu. Isto significa que estamos a fazer bem o caminho de atribuir o subsídio a quem dele efectivamente precisa.


Face à actual situação económica não será necessário cortar mais subsídios?
Muitas das coisas que o governo tem de fazer não são uma questão de opinião, são uma questão de obrigação. O Estado tem de respeitar os seus compromissos internos e externos. Assinou-se um Memorando de entendimento com a troika em que nos comprometemos a um conjunto de obrigações de forma a termos verbas suficientes para garantir o pagamento dos salários, das pensões e das prestações sociais. Por isso, muitas das medidas que precisamos de tomar são uma questão de obrigação. Há evidentemente uma margem de manobra, apesar de curta. E é dentro dessa margem que se prova a consciência social deste governo. Nesse sentido, conseguimos, por exemplo, aumentar as pensões sociais e rurais, que abrangem cerca de um milhão de portugueses – apesar de no Memorando de entendimento estar previsto que não houvesse uma progressão das reformas. Outro exemplo: não foi por opção que o governo teve de aumentar o IVA na energia, mas estava previsto no Memorando. Mesmo assim, mitigámos esse aumento junto das famílias mais carenciadas criando um desconto social. Outro aspecto que corrigimos foi a obrigação de sujeitar as instituições sociais ao pagamento de IRC, porque se isso acontecesse a esmagadora maioria fecharia as portas.


Tem falado muito em economia social, mas a verdade é que muitas instituições estão em dificuldades e a desempregar pessoas. Tem noção disso?
A sustentabilidade das instituições sociais preocupa-nos muito. Percebemos que seria fundamental ter, junto do Plano de Emergência Social, um verdadeiro fundo de emergência. Por isso estamos a mudar o que existia no Fundo de Socorro Social, garantindo que passe a ser verdadeiramente um fundo de emergência para as instituições. Até aqui era muitas vezes usado para se fazer eventos, seminários, conferências, estudos e atribuir viaturas a instituições. Nós queremos que passe a servir para garantir o equilíbrio financeiro das instituições em dificuldades. Recebemos um fundo esgotado, mas já conseguimos alocar-lhe 10 milhões de euros. E também estamos a trabalhar numa linha de crédito para as instituições sociais, de cerca de 50 milhões de euros, para que possam transformar as dívidas de curto prazo em dívidas de médio e longo prazo.


Muitas dessas instituições endividaram-se para responder a exigências do próprio Estado.
Temos trabalhado directamente com as instituições para garantir que as regras que o Estado lhes impõe em termos de qualidade e segurança têm alguma sensatez. Uma das primeiras medidas que tomámos quando chegámos ao governo foi criar uma portaria que permitiu potenciar em cerca de 20 mil lugares a respostas das creches. Isto porque percebemos que era possível aligeirar as regras e aumentar a capacidade de resposta sem pôr em risco a segurança. Agora queremos fazer o mesmo ao nível da resposta às pessoas mais idosas, no que toca aos lares e ao apoio domiciliário.


Também tomou medidas para que a fiscalização numa IPSS não fosse tão rígida como num restaurante. Qual tem sido a resposta da ASAE?
Muito positiva. Para tudo é preciso sentar as pessoas à mesma mesa e falar de forma aberta. Não fazia sentido que a ASAE tivesse o mesmo grau de exigência. A economia social representa 5,5% do PIB nacional. É um valor relevante e que merece ser estimulado. E é um sector com grande potencial, mesmo em alturas de crise: não se deslocaliza, os apoios que dermos ficam dentro do país, tem uma importância grande na substituição de importações. Além disso, as instituições sociais relacionam-se de perto com as economias locais, estimulando-as e dando emprego a pessoas com dificuldade em ingressar no mercado de trabalho. É crescentemente importante estimular esta economia. Contamos, até ao final do ano, ter fechado um protocolo com as instituições que seja uma mudança de paradigma na relação que têm com o Estado.


Tenciona actualizar, no próximo ano, o valor das transferências do Estado para as instituições sociais?
Neste momento estamos a negociar esse e outros pontos com as instituições e julgo que será importante respeitar as mesas negociais.



Que acha das «soluções imaginativas» de Pedro Mota Soares...?



Os seis anos de governação socialista ficaram marcados por alguma tensão na relação com estas instituições. Havia uma ideologia no sentido de o Estado fazer concorrência em matéria de respostas sociais. A política deste governo é acabar com a construção de equipamentos e dar completa iniciativa às organizações sociais?
Penso, sinceramente, que o Estado não tem vocação para dirigir instituições sociais. Há uns meses fui visitar uma instituição em que um funcionário com uma função muito útil se reformou há já dois anos e ainda não foi substituído por causa das alterações do anterior governo ao nível da abertura de concursos e contratações. Compreendemos cada vez mais que o Estado tem muitas dificuldades na gestão directa destes equipamentos. É por isso que queremos fazer, muito rapidamente, a transferência dos equipamentos que ainda estão na tutela da SS para o sector social. Entendo que quando contratualizamos conseguimos gerir melhor e até com menos recursos.



Assim sendo, o Estado não vai investir mais dinheiro na construção de novos equipamentos sociais?
Não faz sentido. O que é preciso é maximizar o que temos no país e aumentar a capacidade de resposta dentro do que já há. Naturalmente que ainda existem áreas em que a resposta não chega e queremos continuar a investir, mas em conjunto com as instituições sociais.


Instituições como a Cáritas, o Banco Alimentar e até as próprias autarquias têm falado num aumento do número de pessoas que recorrem à ajuda alimentar. É previsível que a procura aumente ainda mais em 2012?
No Plano de Emergência Social existe uma medida que visa garantir às pessoas que não têm o que comer o acesso a duas refeições por dia. Estamos muito centrados em encontrar respostas. Sabemos que o perfil das pessoas que recorrem às cantinas sociais e aos bancos alimentares mudou. Há cada vez mais uma pobreza envergonhada. Muitas pessoas têm dificuldade em recorrer aos serviços oficiais do Estado. E nós até conseguimos prolongar, com o Ministério da Agricultura, o Programa de Assistência Nacional aos Carenciados que estava previsto terminar em 2012. Contudo, seria um contra-senso acabar com um programa destes numa altura em que a fome está a aumentar. Também aqui as instituições sociais têm um papel importante.(…)


O sistema de concertação social não estará mais do que esgotado?
Sou um grande defensor da concertação social. É um sistema muito importante que não ponho em causa. Há medidas que faz todo o sentido discutir com os parceiros sociais.


Voltando às pensões, está previsto que o governo avance com o plafonamento?
Temos de dar às gerações mais novas capacidade de escolha. Parece-nos importante que se mantenha a base do sistema público. Isso, para nós, é absolutamente essencial: até um determinado limite, as pessoas devem descontar para o sistema público. A partir desse limite, deve existir capacidade de opção entre um sistema público, um sistema mutualista e sistemas que não sejam públicos. Isto só fará sentido para as gerações mais novas e todas estas reformas querem-se participadas e discutidas de maneira que haja uma transição suave e sem rupturas, mas que garanta a sustentabilidade do sistema da SS.(…)


É possível que Portugal cumpra o défice estrutural de 0,5% estabelecido em Bruxelas? Nunca atingimos esse valor.
Em 2012 poderemos ter algo perfeitamente histórico em Portugal: um saldo primário positivo. O Estado vai gastar menos do que recebe, se se retirarem das contas os juros da dívida.(…)


Justifica-se um referendo sobre a presença de Portugal na Europa?
Os referendos devem surgir de dentro da sociedade civil. E não vejo essa questão surgir com força na sociedade portuguesa. Os portugueses percebem hoje a importância de estarmos inseridos na zona euro. Com todos os desafios que isso nos apresenta, mas também com todas as oportunidades que nos traz.



10 de dezembro de 2011

O AMOR CONJUGAL

«Até que o amor nos separe»_ J. Gameiro


José Gameiro
Até que o amor nos separe


- o que ela pensa, o que ele nunca diz, as feridas dos dois e aquilo que os une


Áudio [TSF, «Pessoal e Transmissível» -  Carlos Vaz Marques; 25 Out 2011]



A Maria e o Manel, já adultos e com filhos, mantêm uma relação próxima com os pais.

Os dois souberam atravessar as crises da sua relação mantendo, face à família de origem, uma imagem positiva e, sobretudo, nunca dificultando uma futura relação se o casal se recompusesse.

A Maria fala com a mãe sobre o «mistério da fidelidade», tentando perceber, sem ter resposta, como se gerem as atracões que cada um vai tendo ao longo da vida.

O Manel, que já perdeu o pai e que aceitou ajudá-lo a morrer quando chegou perto do fim, recorda que o pai lhe disse que uma parte importante da vida depende de nós próprios.

Nem sempre os adultos têm facilidade em regular a relação com os pais. Ou porque eles são muito intrusivos e opinam sobre tudo, não respeitando a autonomia do casal, ou porque são muito distantes e não opinam nos momentos decisivos ou no dia-a-dia quando as crianças são pequenas.

Os adultos/filhos/casais mais estáveis que tenho encontrado têm – isto não é uma regra… – uma relação de proximidade não fusional com as famílias de origem.

Este padrão implica que se filtre muitas vezes sentimentos, frases, desabafos, de cada um em relação aos pais do outro. O marido pode dizer à mulher «que grande seca ter de ir jantar com os teus pais», mas não é suposto que ela lhes vá dizer. Até porque é um desabafo sem consequências, já que ele acaba por ir…

Há casais em que a autonomia de cada um para estar a sós com a família é nula. Qualquer ausência é interpretada como uma afronta ou pelo menos como uma quebra de solidariedade conjugal, esquecendo que a relação com a família do outro pode ser uma excelente relação, mas está a milhas do vínculo biológico.



«Até que o amor nos separe»

Quantas vezes um dos elementos do casal desabafa em relação à sua família e só espera ser ouvido e não ter resposta que acirre os conflitos?

Ao contrário do que pensa, o ciúme conjugal não é apenas em relação a outros exteriores ao casal, mas também à família de origem, que ocupa demasiado espaço na relação.

Nos casais que procuram terapia e em que, além dos seus problemas internos, têm dificuldades/cortes com a família do outro, o prognóstico é muito mais negativo.


José Gameiro, Até que o amor nos separe


[O ‘Diário’ do Manel e o ‘Diário’ da Maria editados, com comentários intercalados pelo terapeuta conjugal]


Ed. Matéria-Prima, 2011, 2ª Edç.
ISBN 978-989-8461-17-9,
Tel.: 213.563.284
[distribuição: PORTO EDITORA]



«Até que o amor nos separe»


A família de Jesus (Mc 3,31-35; Lc 8,19-21) - Estava Ele ainda a falar à multidão, quando apareceram sua mãe e seus irmãos, que, do lado de fora, procuravam falar-lhe. Disse-lhe alguém: «A tua mãe e os teus irmãos estão lá fora e querem falar-te.» Jesus respondeu ao que lhe falara: «Quem é a minha mãe e quem são os meus irmãos?» E, indicando com a mão os discípulos, acrescentou: «Aí estão minha mãe e meus irmãos; pois, todo aquele que fizer a vontade de meu Paique está no Céu, esse é que é meu irmão, minha irmã e minha mãe.»

Receios dos familiares de Jesus - Tendo Jesus chegado a casa, de novo a multidão acorreu, de tal maneira que nem podiam comer. E quando os seus familiares ouviram isto, saíram a ter mão nele, pois diziam: «Está fora de si!» («enlouqueceu»)




«Até que o amor nos separe»

Jesus entre os doutores - Os pais de Jesus iam todos os anos a Jerusalém, pela festa da Páscoa. Quando Ele chegou aos doze anos, subiram até lá, segundo o costume da festa. Terminados esses dias, regressaram a casa e o menino ficou em Jerusalém, sem que os pais o soubessem. Pensando que Ele se encontrava na caravana, fizeram um dia de viagem e começaram a procurá-lo entre os parentes e conhecidos. Não o tendo encontrado, voltaram a Jerusalém, à sua procura. Três dias depois, encontraram-no no templo, sentado entre os doutores, a ouvi-los e a fazer-lhes perguntas.»

6 de dezembro de 2011

É O QUE FAZES E NÃO O QUE DIZES QUE CONTA


Nos 80 anos de frei Carlos, em defesa da «flor sem defesa»…


frei Carlos, oc


«Não é a Teoria, mas a Prática que vale…»

«Um dos motivos que dificultam a nossa compreensão da narração do paraíso e do pecado de Adão e Eva é a nossa tendência de teoretizar sobre as coisas. Esta tendência não provém da Bíblia, mas da nossa formação teorico-intelectual. Com esta mentalidade reflectimos sobre o mal, procurando as suas causas e o sentido da sua existência. Inconscientemente, atribuímos ao autor da narração sobre o pecado de Adão e Eva a mesma mentalidade e preocupação. Por causa disso, erramos.

«Na Bíblia, não se reflecte sobre o Mal, mas quer-se combater o Mal. Se existe alguma reflexão, ela é feita em vista do combate a ser travado.

«O Mal é examinado e analisado, não com mentalidade teórica, mas com mentalidade prática, isto é, em vista da sua eliminação e em vista da transformação ou conversão do mundo e dos homens.

«Se a Bíblia aponta a origem do Mal ou o pecado original, ela o faz não para saber como o Mal entrou, mas para saber como o Mal pode sair. Ou seja, ela o faz para indicar aquele ponto nevrálgico de onde é possível partir para uma acção positiva em contrário.»

[‘Paraíso terrestre – Saudade ou Esperança?’, frei Carlos Mesters, carmelita,  Ed. Vozes, 5ª Edição, p. 63-64]



frei Carlos Mesters, oc, «flor sem defesa»...



2 Vídeos


Carlos Mesters 80 anos - CEBI.wmv




«UM PÉ NA BÍBLIA E OUTRO NO CHÃO…»





frei Carlos, «um pé no chão...»


Carta para o blog «Carlos Mesters 80 Anos»
in «Aprendi com Mesters»




Flor sem defesa
Paulo Bateira
Porto/Portugal [paulobateira@gmail.com]


«Sou médico, tenho 58 anos e pai (viúvo) de três filhos. Nesta minha vida, tive a sorte de conhecer, aos 23 anos, um livrinho “Paraíso terrestre: saudade ou esperança?” [Carlos Mesters, Ed. Vozes, 5ª ed.] que me surpreendeu muito. É certo que militava, há anos, na Acção Católica, aqui em Portugal. Mas, este livrinho, conjuntamente com a paixão entusiasmante dum amigo (António Matos Ferreira - Lisboa,) e o jeito muito especial de congregar dum padre que vivia com gente pobre (e ainda vive; pe. Leonel Oliveira - Porto) me ajudaram a perceber, de modo vivo - como peixe acabado de pescar, palpitante - para que serve a Bíblia: iluminar e interrogar o sentido do nosso caminhar, HOJE! Quantas vezes já reli a Introdução a «Deus, onde estás?»? ‘Bíblia: janela e espelho’ – e por esta ordem.

«Hoje (como antes), começo sempre pela Vida (próxima e distante), procuro o Espírito que nela há. Depois, alargo o horizonte (sociologia, economia política, etc.) – enquadro e aprofundo o que está a acontecer: opinião mais fundamentada e não populista, que ajude verdadeiramente o povo. De seguida, tento os paralelos dentro da grande aventura da Bíblia: esquadrinho os textos até que o Espírito salte fora, como peixe quando pica na cana. É então que tudo começa a fazer sentido!

«Para mim, a Bíblia do jeito de frei Carlos Mesters, vem em segundo ou terceiro lugar. Mas, surpreendentemente, vem para ficar: como sal e segredo, como seiva, húmus e raiz, como refrão de canção para o banho da manhã. Só frei Carlos me ensinou que a vida pode ser abundância, mas abundância enterrada (na vida) que exige enxada e braço forte, mas também faro de melro em busca de minhoca, paciência de vedor, um fio de luz entrando na pior choça. Só lamento que, aos poucos, as livrarias portuguesas tenham virado as costas às edições brasileiras: é triste ver a torneira fechar ou secar. Como desejaria, eu, poder ter um exemplar de “Flor sem Defesa”… Aqui, já ninguém vende livros de aí. E a falta de chocolate e café que isso nos faz…

«PARABÉNS, frei Carlos, perfumada e doce esteva dos nossos montes, o meu primeiro pedagogo. PARABÉNS!»


5 de dezembro de 2011

A ESMOLA HUMILHA; CRISTÃO É O QUE PARTILHA


Entrevista: Padre Jardim Moreira [Porto]



Padre Jardim Moreira_Porto



"A igreja não é uma sucursal do Estado"

 

É um padre que não se cansa de remar contra a corrente. Luta por um plano de erradicação da pobreza que vá além do assistencialismo e da esmola. Pretende a participação da sociedade civil e do próprio excluído na busca de uma solução. Faz duras críticas à Igreja por esta não partilhar os seus bens e demonstra como a associação Igreja-Estado nas IPSS pode ser perversa

Há 20 anos que o Padre Jardim Moreira, 69 anos, preside à EAPN Portugal, Rede Europeia Anti-Pobreza. E há cerca de 40 anos é pároco em duas das mais pobres freguesias do Porto: S. Nicolau e Vitória. Aqui tem a gestão de 7 centros sociais, tendo "inventado" para alguns um sistema de "apadrinhamento", de modo a reunir financiadores da sociedade civil e voluntários. Deste modo, consegue acolher crianças dos seis aos dez anos, que não estão abrangidas por qualquer acordo com o centro regional de Segurança Social.
Quanto à EAPN Portugal, conta já com 18 núcleos distritais e ganhou, em 2010, o prémio dos Direitos Humanos atribuído pela Assembleia da República pelo trabalho desenvolvido. São vários os grupos a trabalhar com populações excluídas, de onde resultam políticas orientadoras para as instâncias decisoras.

Porque é que se meteu nestas coisas?  
Tinha pedido ao Bispo que me desse uma zona pobre e descristianizada. Ele deu-me o pior que tinha: S. Nicolau, primeiro, e Vitória, depois. Na altura, para ir à ribeira tinha de ir escoltado. Corria o risco de me darem um empurrão e deitarem-me ao rio! Pus-me a pensar: estou todo entusiasmado com a renovação teológica do Vaticano II mas ninguém quer ouvir. Não vale a pena. Comecei a estar mais atento às escrituras e conclui: a fé sem obras é morta, não vale a pena. Então, há que ir ao encontro das pessoas e começar a fazer o levantamento sociológico. Quais são os grandes problemas desta gente? os idosos e as crianças abandonadas...


Qual é o seu objetivo?
O mais importante é que se assuma a partilha e a corresponsabilidade para a construção de uma nova sociedade, fraterna e mais justa. É esta consciência, lenta e progressiva, de que temos de mudar de mentalidade, de assumir uma corresponsabilidade e construir também a nossa própria segurança. Porque a segurança dos outros e dos pobres é também a nossa segurança.
O Cristo que a Igreja celebra e adora no altar é o mesmo que está esfarrapado na rua ou na criança abandonada a jogar à bola. É preciso não desvirtuar isto. "Tudo que fizeres ao teu irmão mais pequenino e mais pobre é a mim que o fazes". A fé cristã não pode deixar de identificar o Cristo místico, do altar, com o Cristo real, humano, vítima de situações da sociedade em que está inserido. A minha postura é a de servir, com a consciência de que sirvo a Deus servindo os irmãos.
Sei que muitos dizem: "eh pá, você tem menos devoções na igreja". Mas onde está a Igreja? A Igreja é a casa ou são as pessoas? São as pessoas. O templo vivo de Deus são as pessoas. Vamos fazer devoções a quem? Ao gato? Ou cuidar das pessoas diretamente e tratá-las?


"O assistencialismo humilha aqueles que recebem"


Não gosta das políticas assistencialistas...
O Papa diz - e eu gosto muito de o citar - que a luta contra a pobreza supõe a aplicação do princípio da subsidiariedade, isto é, a participação dos mais pobres na sua própria solução. E que o assistencialismo humilha aqueles que recebem as ofertas. Porque todos os dias têm de estender a mão para receber. Portanto, é preciso criar condições para a pessoa assumir, criar, crescer na sua dignidade e viver integrado numa sociedade. Isto é que é a luta contra a pobreza.
É aqui que está o nó da questão. Admito que em momentos de crise se possa aceitar almofadas para que se evite violência. E as pessoas que têm fome não morram de fome. Mas essa não é a solução para que se saia da miséria e desemprego. Mesmo vindo na forma de emergência social...
A Igreja tem a missão de amar o seu semelhante, como Cristo nos ama a nós. O amor aos outros é de partilha, não é de dar esmola. O cristão não está chamado a dar esmolas. O cristão está chamado a partilhar: quem tem duas túnicas, dê uma a quem não tem, quem tem casa, dê casa a quem não tem. Há aqui uma partilha efetiva. Donde, a Igreja não pode ficar sob a proteção do Estado e do dinheiro que recebe do Estado para os seus centros sociais ou de outras instituições ou até para a caritas, ignorando a sua missão de identidade fundamental da sua credibilidade. A igreja não é uma sucursal do Estado.

 
Diz isso por causa das IPSS?
Sabe que se fala muito de IPSS ou de centros sociais paroquiais. A gente faz um acordo com o Estado e ele dá-nos uma verba para executar determinada função. Tem de prestar contas e se não fizer é penalizado e excluído. Por outro lado, a Igreja administra tudo isto a preço zero, o que quer dizer que as políticas sociais do Estado são muito mais baratas. As organizações do terceiro setor - economia social, nem é Estado, nem é Mercado - são constituídas pela sociedade civil, que se cotiza e desenvolve ações sociais sem fins lucrativos. Diga-me onde isto existe em Portugal? Existe muito pouco, talvez nalgum setor da Gulbenkian, do Montepio...


E porquê?
A conclusão a que se pode chegar é a de que a economia social são na prática, e na sua maioria, apenas instituições para-públicas. Isto é, pagas pelo erário público para realizar as políticas sociais do estado. Vê a escandaleira que isso é? 

Por estarem sobretudo organizadas em IPSS e receberem dinheiro do Estado e não da comunidade?
Exato. Raramente a igreja se organiza com os seus próprios bens para exercer ação social sem fins lucrativos.


"Não chega dar o euro"


O que está a dizer é que a Igreja, se quisesse, tinha fundos suficientes para fazer coisas desse tipo, autónomas?
A Igreja se quiser assumir a sua condição fraterna tem de os ter, tem de os partilhar. E a Igreja não o faz. E às vezes investem não sei se na parte mais importante da sua missão. Estive recentemente em Boston, onde a Igreja investe essencialmente em casas para dar respostas sociais. Isto é que é a Igreja, o resto é conversa. E aqui, o que acontece? Se aparece um padre louco, como eu, que partiu do zero, e tenho a obra que tenho... a Igreja não me apoiou, calou-se.

Mas podia ter apoiado?
Tinha a obrigação de... Numa zona tão problemática e tão desumanizada era aqui que deveria pôr o enfoque de uma resposta estruturada e organizada. Nós somos simplesmente egoístas. Há um centro social para Miragaia, outro para S. Nicolau, outro para a Vitória, para a Sé... técnicos é aos montes.... E depois não se consegue articular nem organizar, porque temos um sistema completamente anacrónico.

Qual seria a alternativa?
Ter uma visão aberta, de trabalho em parceria. Podíamos trabalhar em conjunto e fazer um trabalho articulado. Diminuiríamos custos e rentabilizávamos respostas. Vamos ter que mudar, porque a continuar assim o dinheiro não chega. Vão fechar muitas instituições por não terem dinheiro para pagar as dívidas. Aqueles que não têm dívidas podem rentabilizar, mudando o esquema estrutural de presença no meio e inventar as respostas. Temos de mudar de estrutura, mentalidade, objetivos, da forma de intervir, em que a pessoa seja, desde a mais tenra idade à paz terminal, o valor máximo de uma sociedade a atingir e a respeitar. Temos de mudar a mentalidade. Não chega dar o euro. Muitas vezes, a resposta social do vizinho é mais útil do que um euro.

Como distingue uma ação de assistencialismo puro e de caridade da tal partilha que diz dever existir?
Há duas coisas. Primeiro, se é da igreja tem de se organizar por amor, não pode ser por outro motivo. Por amor partilha o bem com os que não o têm. Pode não ser dinheiro nem alimentação. Pode ser a habitação, pode ser o esforço de se arranjar um emprego. Tem de ser a partilha do problema, assumir o problema dos outros como seu.







"Os pobres também gostam de roupa nova"



Mas quando alguém compra comida no supermercado para deixar no banco alimentar contra a fome de certa forma está a partilhar. E quando dão roupas que já não usam também...
(risos) Quando dão roupas que não usam geralmente fazem uma limpeza à casa e ficam livres dos tarecos que já não gostam. Costumo dizer que os pobres também gostam de roupa nova. Essa é que é a partilha. Um cristão deve usar, se calhar, mais um ano a roupa velha e dar uma nova. Porque os outros também gostam de um fato novo. É isso que uma mãe faria aos filhos, deixaria de comprar um fato novo para comprar um novo para os seus filhos. Isto é por amor. Se não for por amor, não se atinge o cristianismo, nem a essência da fé.
Dar de comer no banco da fome é uma partilha só para matar a fome. Não é responsabilizante do doador. A pessoa pagou o litro de leite e pensa que já fez a sua boa ação. Eu costumo ridicularizar dizendo: "dê o euro". Mas isto não é de "dar o euro". Isto é de partilhar a sorte do meu semelhante. É outra coisa.
Claro que a sociedade civil faz isto, e faz bem. Não vamos dizer que faz mal. Mas temos de ir mais longe. Essa é apenas uma das possíveis vertentes, a mais simples e a mais cómoda.

O que pode alterar a vida das pessoas?
É construirmos entre nós, cristãos, formas concretas onde eu partilhe daquilo que me faz falta, e não dê apenas o que me sobra. Temos de ver qual o diagnóstico e que condições são necessárias para que aquela pessoa possa sair da situação de desumanidade ou de injustiça em que está mergulhada, e se torne uma pessoa ativa e construtora na vida social. Que possa ganhar o seu sustento sem precisar de o mendigar. Não podemos criar um país de mendicidade.
Não concordo que uma política social se baseie na subsídio dependência. Isto é um país que vai à ruína. Estamos lá de qualquer forma. Querer continuar a responder com um sistema que mantem a pessoa na dependência não só desrespeita a sua dignidade, como as humilha. Porque obriga a estender a mão todos os dias, em vez de lhe dar condições para poder sair da sua situação. Temos cabecinha, imaginação e criatividade para arranjar respostas novas.

Quais?  
Dar formação as mães solteiras e monoparentais e ensiná-las a administrar o dinheiro, por exemplo. Não sabem. Vi isso nos Estados Unidos... ajudar a perceber onde o dinheiro é bem ou mal gasto, para ao fim de uns meses poder sobreviver. É preciso ensinar as pessoas a não gastar só dinheiro no tabaco, no café, no lanche. Podem fazer o pequeno-almoço em casa, reduzir o tabaco... Há que reduzir. É preciso saber gerir o pouco que se tem.



"A sociedade civil foi desresponsabilizada"


Essa não é uma função que devia estar remetida ao estado, já que pagamos impostos?
(risos) Vou ser mais uma vez crítico. O Estado, a partir do 25 de Abril, entregou isto à Igreja. A Igreja estava acusada de estar com o regime, portanto, tinha de encontrar uma alternativa para estar com os pobres. E aceitou, de bom grado, a proposta de contratualizar com o governo fazer ação social barata. Um euro na mão de uma IPSS produz muito mais do que na mão de outros. Ora bem, há aqui uma certa promiscuidade. Isto é, a Igreja assume como sua a ação social que realiza e o Estado está tranquilo porque realiza as políticas sociais através das IPSS. Mas a verdade é esta: a sociedade civil foi desresponsabilizada da sua tarefa e - ainda pior, no meu entender - foi que o governo tornou-se demasiado tutelar, dominador e prepotente, indo até ao controle de todas as Igrejas, até da educação privada e cristã; e a Igreja também se deixou ficar, porque aparentemente tem instituições sociais onde o senhor padre preside. Mas o facto de presidir não quer dizer que pratique o Evangelho... Pode não praticar, porque não é a expressão da vida cristã da sua comunidade.
A pobreza tem causas estruturais. Desde o 25 Abril até hoje já passaram vários governos e sempre mantiveram os 20% de pobres no país. Quer dizer que as várias políticas que se aplicaram na ação social não foram capazes de alterar a fonte geradora da pobreza.
A pobreza resolve-se com subsídios!? A luta contra a pobreza é o desenvolvimento integral da pessoa humana até à sua participação ativa na sociedade de que faz parte, por direito e não por favor. Ando nisto há 20 anos, sabe...e isto custa-me. 


Qual a sua maior frustração?
Saber que tenho proposto aos sucessivos governos que é preciso um plano nacional que analise, articule e reduza custos... Gasta-se milhões e milhões de euros nos projetos de luta contra a pobreza e se pedir uma avaliação disso tudo não há. Se pedir um resultado de um projeto não tem. Quer dizer que andamos aí a servir dinheiro no tempo das vacas gordas sem termos feito nenhum projeto que tenha hoje continuidade, ou que possa ter. Isto é de uma irresponsabilidade...  foi uma forma de calar os pobres, ou os amigos, porque há instituições construídas de raiz, caríssimas, que estão fechadas porque não têm utentes. 


Quais?
Quais, não posso dizer.



3 Dez 2011
’Visão’ [texto de: Cesaltina Pinto]



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