teologia para leigos

26 de novembro de 2011

DEUS ESTÁ DO LADO DE LÁZARO E NÃO DO RICO GLUTÃO


Fim-do-mês_RSI_Utentes



Parábola
do homem rico e glutão
e
do pobre Lázaro [=’Deus-ajuda’]
(Lucas 16:19-31)



§ «Havia um homem rico  que se vestia de púrpura e linho fino e fazia todos os dias esplêndidos banquetes.» Tratar-se-ia dum publicano? Existe um relato, ao qual provavelmente Jesus se ligou, que descreve a “estória do rico publicano Bar Ma’jan e do pobre escriba” que se encontra no Talmud palestinense. O rico publicano Bar Mar’jan morreu e teve um funeral solene – toda a cidade parou, porque toda a gente queria acompanhá-lo na sua última viagem. Ao mesmo tempo morreu um piedoso escriba e ninguém teve notícias do seu sepultamento. Como pode Deus ser tão injusto a ponto de permitir isto? A resposta fez-se ouvir: Bar Ma’jan, longe de levar uma vida piedosa, tinha feito uma só vez uma boa obra e, aquando dela, fora surpreendido pela morte. Uma vez que é ‘a hora da morte’ que decide, e a boa obra já não poderia ser mais revogada (fora feita), estava, assim, aberta a porta para que Deus o recompensasse permitindo um magnífico cortejo fúnebre. E qual tinha sido a boa obra do publicano que se tornara rico ao longo da vida? Tinha organizado um banquete de festa para os membros do Conselho (Sinédrio), que, porém, não compareceram. O 'Homem rico' da Parábola que Jesus conta era/fora de facto 'um Publicano', um Alto Funcionário dos Impostos, uma espécie de «pato bravo», como um «novo rico», como um desses muitos portugueses que se aproveitaram das crises civilizacionais para «fazer negócio» - um de entre muitos espertalhuços… com faro para o dinheiro e jeito para arriscar (na Bolsa...). Um de entre muitos dos pseudo-intitulados «casos de sucesso»… 

§ «Um pobre, chamado Lázaro, jazia ao seu portão, coberto de chagas».  Era um proscrito pela ‘justiça judaica’, ou seja, aos olhos da teologia dos fariseus, um excluído dos favores de Yahvé. Se estava naquele estado, ‘alguma teria feito’… Não é impunemente que se cai na desgraça absoluta: muito provavelmente, tratar-se-ia de alguém que desleixara ou, até mesmo, menosprezava a Thora, os mandamento de Deus e a prática dos preceitos religiosos. Em suma, uma pessoa desprezível, um ímpio, um ‘ateu’, um revoltoso ou um malfeitor qualquer, um «transviado», que circula por «maus caminhos» (Salmo 125:5 - «Mas, àqueles que se desviam por caminhos tortuosos, o Senhor dará a sorte dos malfeitores.»); pessoa que não vai à Missa, alguém sem religião e sem Deus, um agnóstico. Tudo aponta para que fosse um «malvado», alguém asqueroso aos olhos do «mundo bem comportado», alguém que cheirava mal… uma geografia estrangeira aos muros territoriais da nossa paróquia!

Curiosamente, esta figura – Lázaro – está pintada com traços que fazem lembrar o Cântico 4º do Servo de Yahvé (Profeta Isaías 53)


Sem figura nem beleza.
Vimo-lo sem aspecto atraente,
desprezado e abandonado pelos homens,
como alguém cheio de dores,
habituado ao sofrimento,
diante do qual se tapa o rosto,
Menosprezado e desconsiderado.(…)

Nós o reputávamos como um leproso,
ferido por Deus e humilhado.
Mas foi ferido por causa dos nossos crimes,
esmagado por causa das nossas iniquidades.
O castigo que nos salva caiu sobre ele,
fomos curados pelas suas chagas.
Todos nós andávamos desgarrados
como ovelhas perdidas,
cada um seguindo o seu caminho.

Mas o Senhor carregou sobre ele todos os nossos crimes.
Foi maltratado, mas humilhou-se e não abriu a boca,(…)

Quem é que se preocupou com o seu destino?
Foi suprimido da terra dos vivos,(…)

Foi-lhe dada sepultura entre os ímpios,
e uma tumba entre os malfeitores,
embora não tenha cometido crime algum,
nem praticado qualquer fraude.
Mas aprouve ao Senhor esmagá-lo com sofrimento,
para que a sua vida fosse um sacrifício de reparação.


Lázaro com as cores dum malfeitor, dum «aniquilado», dum «esmagado» (=’esvaziado’ é pobre tradução) (‘kenótico’, Filipenses 2:7ss). Mais tarde (Hebreus 2:17-18), Jesus seria apresentado como mais uma vítima injustiçada e «esmagado pelo sofrimento» dos outros. Os fariseus, ao ouvirem esta história/parábola da boca de Jesus começaram a sentir de que lado «o Deus de Jesus» se estava a querer posicionar… Nós, cristãos, ao ouvirmos agora estes relatos – Parábola e Isaías – fazemos de imediato curto-circuito entre «a sorte» de Lázaro, «a sorte» do Servo de Yahvé e «a sorte» de Jesus de Nazaré: o «esmagamento kenótico», um fim miserável e ignominioso aos olhos dos religiosos e dos piedosos do tempo de Jesus! Também a teologia, à época, o confirmava ideologicamente: «o enforcado é uma maldição de Deus» (Dt 21:23) – será maldito, diante de Deus, o homem pendente do madeiro! Jesus acabaria, igualmente, dependurado dum madeiro (Cruz), semelhante aos revoltosos da Galileia, malfeitores, maltrapilhos e marginais miseráveis do seu tempo, como um rejeitado (pela hierarquia oficial), um excluído da Salvação oficial...

A situação de Lázaro era a de um proscrito. Para malfeitores e sediciosos é que o Madeiro, (com forma de Cruz ou não), foi criado pelo Império Romano. A Cruz, ou «madeiro», assentaria como uma luva, também, a Jesus: Jesus fora condenado como um revolucionário, um sedicioso, um perigoso marginal,  um malfeitor. Lázaro (e Jesus que, nesta Parábola, com ele se identifica)  representa todos os marginais do nosso tempo: arrumadores de carros, drogados, prostitutas, pequenos larápios, vadios, bêbedos, meninos sem família, ‘romes’ (romenos, vulgo ‘ciganada’), etc. Jesus, durante a sua actividade pública, virá a ser ouvido, acolhido e seguido por essa «escumalha»; Jesus seguirá um mapa outro, fora do tom, precisamente o daqueles a quem os ideólogos de David Cameron gostariam de «matar à mocada como se faz às focas bebés» [«The Politics of Envy was Bound to End Up in Flames», 12 Agosto 2011, www.daily-mail.co.uk].(cf. 15 Nov 2011, «A SALA DE CIMA», http://asaladecima.blogspot.com/). Curiosamente, Jesus não era seguido pelos «simples», pelos «pobres», pelos mal-remediados: Jesus era seguido pelos ‘ochlos’, pela ‘escumalha’ mesmo… por aqueles que não tinham ‘nem eira nem beira’, pelos que tinham caído na valeta, pelos ‘sem-abrigo’! Jesus não andava metido em IPSS’s… de mão estendida ao Poder Político a pedir subsídios para remendar a situação! Jesus denunciava a situação – por isso o decidiram matar. (Lucas 4:29)


§ «Bem desejava ele – o homem rico –  saciar-se com o que lançavam para debaixo da mesa do rico; mas eram os cães (!!!???) que vinham lamber-lhe as chagas.» Ora a expressão «cães» era a expressão usada pelos judeus ciosos da sua filifiação divina para sinalizar os não-judeus, os pagãos, os rejeitados por Yahvé. A mulher «era gentia, siro-fenícia de origem, e pedia-lhe que expulsasse da filha o demónio. Ele respondeu: «Deixa que os filhos comam primeiro, pois não está bem tomar o pão dos filhos para o lançar aos cães.» [Marcos 7:26-27] Mais uma vez temos a oposição entre «os crentes» e os «não-crentes» - os «não-crentes» são estigmatizados com expressões humilhantes. Ainda hoje o fazemos: os utentes do RSI são «preguiçosos», «parasitas sociais», «oportunistas», «gastadores», «irresponsáveis», «desenvergonhados»… por isso «devem pagar o subsídio social com trabalho social à comunidade» (como se não fosse mais que justo o direito a ajuda social pelo estado de exclusão social a que o sistema neoliberal os sujeita…). Que as classes ricas «lancem comida boa para debaixo da mesa», ou seja, esbanjem e fujam ao fisco (que chega a ser 58 vezes mais do que o valor das fraudes sociais…), nada disso escandaliza!


§ «Ora, o pobre morreu e foi levado pelos anjos ao seio de Abraão». Nem direito teve a honras fúnebres…. Mas foi colocado «à direita do pai», – Mc 16:19; Act 7:55; Rom 8:34 – e, então sim, teve direito a lugar de honra no Banquete do Reino.

§ «Morreu também o rico e foi sepultado». Funeral com honra, pompa e luxo!

 § «Na morada dos mortos, achando-se em tormentos, ergueu os olhos e viu, de longe, Abraão e também Lázaro no seu seio.» Curiosa inversão das relações sociais… Rico na terra/pobre em Deus; Pobre na terra/rico em Deus… ‘Deus’ é o Deus dos abandonados… - Deus não está do lado daqueles a quem lhe corre bem a vida, Deus não abençoa ‘o sistema’ que produz pobres e explora o povo humilde…

§ «Então, ergueu a voz e disse: ‘Pai Abraão,». O rico, usando a expressão Pai!, apela para a sua condição de ‘baptizado’, de pessoa íntima na Fé, de «homem religioso», cumpridor das NORMAS religiosas, apela para a condição de quem «está dentro da igreja» e que não é nenhum excomungado! Recorda a Deus que ‘deve estar equivocado’

(MATEUS 3 - Apelo de João à conversão (Mc 1,7-8; Lc 3,7-9.15-18; Jo 1,24-28) - 7Vendo, porém, que muitos fariseus e saduceus vinham ao seu baptismo, disse-lhes: «Raça de víboras, quem vos ensinou a fugir da cólera que está para vir?   8Produzi, pois, frutos dignos de conversão 9e não vos iludais a vós mesmos, dizendo: ‘Temos por pai a Abraão!’ Pois, digo-vos: Deus pode suscitar, destas pedras, filhos de Abraão. 10O machado já está posto à raiz das árvores, e toda a árvore que não dá bom fruto é cortada e lançada no fogo.)

Aqui, o homem rico «puxa dos galões»… (para ter direitos a segurar no palio, a exercer mordomias na paróquia, etc). Fez como certas pessoas que, pelo facto de serem zeladoras seculares de ‘coisas e loisas’ se acham com direitos de supremacia… e a regalias.

§ «tem misericórdia de mim e envia Lázaro para molhar em água a ponta de um dedo e refrescar-me a língua, porque estou atormentado nestas chamas.» «Abraão respondeu-lhe: ‘Filho,». (Curioso como Deus não o abandona… Trata-o carinhosamente por FILHO!!! Deus ama a todos por igual!!!, sobretudo os desesperados) «Lembra-te de que recebeste os teus bens em vida, enquanto Lázaro recebeu somente males. Agora, ele é consolado, enquanto tu és atormentado.» Para o Deus de Jesus de Nazaré, a inversão das posições significa que Deus não permite que se use a «religião» para anestesiar a consciência do Povo, para «lavar os pecados» antes da hora da morte. Chamar o Sr. Abade à hora da morte não vai mudar em nada o essencial! E o essencial é a única vida que existe – a vida terrena! No Cristianismo não há «vida para além da morte»: só há uma vida – esta de aqui de baixo! É aqui que tudo se joga (ou não joga…). O texto parece dizer «o que está feito, feito está» - é tarde demais para fazer seja o que for. É por isso que ninguém ressuscita depois de morto - «vamos ressuscitando desde que nascemos»… Os que foram humildes, leais, justos, mesmo que desprovidos de uma consciência cristã esclarecida ou convicta, esses ressuscitarão sempre, pois Deus não pode esquecer-se de nenhuma ovelha sua. Não precisamos de pedir misericórdia nenhuma a Deus – Ele sabe bem o que tem a fazer… Seria presunção nossa também «puxarmos dos galões».

§ «Além disso, entre nós e vós há um grande abismo de modo que, se alguém pretendesse passar daqui para junto de vós, não poderia fazê-lo, nem tão-pouco vir daí para junto de nós.’» Impressiona a irrevogabilidade das decisões divinas! Soa a ‘justiça justiceira’, mas não é. Apenas quer dizer isto: só as NORMAS religiosas … não bastam… não chegam para convencer Deus, não chegam para fazer Metanoia/«converter», para «mudar de vida como deve ser»… Como que o texto nos quer dizer que o Mal não habita o ‘meio divino’ (Theillard de Chardin), logo não pertence ao Reino de Deus, logo Deus não pode fazer nada, logo mora na terra dos homens e aí e só aí deve ser administrado e gerido. Deus «passa a bola» do Mal ao homem. Deus não tem poder sobre o Mal. De nada nos vale «comercializar» com Deus em matéria do que quer que seja… Jesus não estabelece pactos com o Mal, não negoceia. Por exemplo: é claro que Jesus desconhece a «teologia do Purgatório»…, face e rosto da concessão, em que se negoceia, se compara, pesa e mede o Mal de cada um consoante… (sabe-se lá o quê..). Isso, os negócios acerca do futuro da Alma no Além, pertence à Religião em geral, à Egípcia, em particular, à Grega, etc.   Com Deus, o comércio (intenções e súplicas, etc.) está proibido. Súplicas a Deus é sinal de pouca Fé ou «falsa-fé»! Súplicas a Deus-Pai é sinal de «falta de intimidade» com Deus-Pai!

§ «O rico insistiu: ‘Peço-te, pai Abraão, que envies Lázaro à casa do meu pai,». É óbvio: o rico nem por sombras se quer converter e mudar de vida…! Faz orelhas moucas ao que está em causa (que é ele e o seu comportamento em vida…), faz-se despercebido e muda a agulha da conversa: «pois tenho cinco irmãos; que os previna, a fim de que não venham também para este lugar de tormento.’» O homem-rico tenta encontrar uma maneira de fazer chegar à restante família, ou seja, aos curadores da fortuna, os truques para que a família se salve INDEPENDENTEMENTE da vida gananciosa que leva, para que a sua família, após a morte, CONTINUE A USUFRUIR DE PAZ E CONFORTO como sempre usufruiu na terra. É muita lata! Abraão (que aqui representa Deus), responde-lhe: ‘Nã, nã... Nada feito!’ O Homem Rico sente-se enjaulado. Tal como “Lázaro-a-recibos-verdes-e-precário” durante toda a vida - as portas todas trancadas – assim se sente agora o homem rico. De cabeça perdida, busca todas as hipóteses, desde que não se toque na fortuna!

«Tenho 5 irmãos» (v.27). «Lugar de tormento» (v. 28). O algarismo «5» pode ser lido como referência à Lei de Moisés (que tinha 5 livros: Génesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronómio – Penta-teuco), à Thora, à religião por oposição à teologia de Jesus. Jesus quer dizer que «viver na Antiga Aliança» nesta terra é «um lugar de tormento» eterno... Noutro lugar dirá que «o meu jugo é leve», referência explícita às mais de 700 Obrigações decorrentes da Lei de Moisés, que um judeu piedoso deveria cumprir. Nós cristãos traduzimos isto assim: uma Fé que decorra de «obrigações» é uma Religião e nunca uma Aposta/Fé no Espírito de Jesus. S. Paulo dirá: «onde está o Espírito (de Jesus) está a Liberdade» e não as obrigações ou as Obras a cumprir. Os Fariseus que escutaram esta Parábola deviam ter as orelhas a ferver… Uma Fé contaminada (sobretudo, pela avareza e pelo cobiça do dinheiro – Lucas 16:14) bloqueia o Poder Libertador de Deus e já não é Fé: é um tormento, uma angústia constante, um sobressalto (‘Ai as minhas pratas!’ ‘Ai os meus anéis de heranças!’ ‘Ai o recheio da casa!’).

Viver no Antigo Testamento (AT), «viver no seio dos 5 irmãos», é viver atormentado por:

-Medo dum Deus justiceiro, dum Deus que impõe Rituais a cumprir e Obras a realizar;

-Medo de perder a segurança que a Fortuna (o dinheiro, Mamon) confere.


(Reparem: «Religião» e «dinheiro» sempre andaram de mãos dadas... Jesus vem denunciar essa nefanda Aliança!)

 
No fundo, viver no AT é ter medo d«o Reino de Deus e da sua Justiça»! (Mt 6:33) É viver em pânico...

Viver em Jesus é nada temer...


§ «Disse-lhe Abraão: ‘Têm Moisés e os Profetas; que os oiçam!’ 30Replicou-lhe ele: ‘Não, pai Abraão; se algum dos mortos for ter com eles, hão-de arrepender-se.’ 31Abraão respondeu-lhe: ‘Se não dão ouvidos a Moisés e aos Profetas, tão-pouco se deixarão convencer, se alguém ressuscitar dentre os mortos.’»



Grafitti_Raúl Dória_Porto

 

A Salvação no contexto helenístico [Lc 22:25] baseava-se em:

  • Poder Imperial que salva através dos «benfeitores», dos poderosos, dos Imperadores, dos ‘Bill Gates Foundation’ que concedem «migalhas» (ex.: Fundações António da Mota e Cia…);

  • Alienação Religiosa – através das «religiões dos mistérios» e «iniciação» como fuga da angústia e do medo «vulgares»; e  através das religiões do grandioso, do êxtase, do maravilhoso, do surpreendente, do epidérmico, da quantidade que corta a respiração, religiões do espectáculo! A religião do esotérico!



O Homem Rico pedia «um sinal» desse tipo – grandioso, que se impusesse de per si! Deus recusa, tal como Jesus já havia recusado a «religião do espectáculo» nas Tentações do Deserto (Lucas 4:9 - «Em seguida, conduziu-o a Jerusalém, colocou-o sobre o pináculo do templo e disse-lhe: “Se és Filho de Deus, atira-te daqui abaixo, pois está escrito: Aos seus anjos dará ordens a teu respeito, a fim de que eles te guardem; e também: Hão-de levar-te nas suas mãos, com receio de que firas o teu pé nalguma pedra.”»). Para Jesus, a Fé é a adesão a um projecto humano, libertador e total. E isso passa pela proximidade, exige vizinhança de vidas, envolvência, coisas do dia-a-dia muito simples, afinal.


Existem 2 «opressões», duas maneiras de partir a espinha a um Povo:

Espremendo-o, pagando-lhe mal e carregando-o com trabalhos pesados (=trabalho precário & baixos salários não fazem greve…)

e

Convencendo-o de que não há alternativa (=papel da Religião, da Ideologia, «vivemos acima das nossas posses, agora tem que ser a doer», sofrendo ganhamos a vida eterna).

Deus opõe-se (1) ao Poder Economico-político injusto e (2) ao Poder Religioso da ideologia!

Nesta Parábola estão bem claro estas duas coisas.

E mais.
Não esperar que o Messias venha fazer aquilo que só nós mesmos temos/devemos fazer.

Não confiar na Salvação a partir do Poder Político e Financeiro, do Sagrado, da Religião, do Poder Miraculoso de Deus ou do Sacerdote, a partir apenas duma relação espiritualizada e piedosa com Deus – a Libertação de Jesus passa pela assunção das causas dos desprezados, dos «sem vez nem voz» como sendo as nossas únicas causas.

Jesus aponta para «Moisés e os Profetas», que o mesmo é dizer, «para os Profetas», pois Moisés é visto, também, como um Profeta... (cf. o final do Livro do Deuteronómio).
Aos Profetas incumbe-lhes apontar as Causas do Mal e os Culpados pelo Mal - o 'evangelho de Jesus' assume, também, essa tarefa salvífica - DENUNCIAR e ANUNCIAR!, e nunca remediar o Mal...
Aos «5 irmãos» só lhes resta uma coisa: «vender tudo o que têm (que foi saque aos trabalhadores), entregar aos pobres (isso mesmo) e seguir a Jesus». A nós – que somos a réplica desses 5 irmãos AINDA VIVOS! – não nos resta nada de diferente.

Não percamos tempo com manipulações espirituais. Deus nunca há-de cair nas nossas esparrelas…

Só um rosto nos revela nós a nós!
Busquemos rostos. Já. Aqui. Agora.
É que, depois, poderá ser tarde demais… «É sempre tarde demais».

A Bíblia nunca remete para o Além, mas sempre para o Aquém!
É no Aquém que se vive o Além...

pb\

25 de novembro de 2011

«Pátria madrasta, País padrasto», AQUI NÃO TENHO FUTURO


Exp. de ANSELM KIEFER_Berlim_2011



Jovens, fora daqui!


Estamos perto dos mortos. Não por irmos
abrindo os olhos para onde estão,
mas porque ver é um país vizinho
de se terem os vasos da visão
tão devagar ido
que, agora, a transparência é um portão.

Está todo aberto a um lugar de vidro
em que a ternura esqueceu o coração.

Fernando Echevarría, Sobre os mortos



Uma televisão esteve a fazer perguntas a jovens portugueses. Os jovens portugueses foram unânimes: estão fartos de verem os seus sonhos e ambições espezinhados, não se resignam a esta desordem política que lhes interdita acesso ao bem-estar e à felicidade, e que eliminou do horizonte humano qualquer expressão de justiça.

Uma rapariga, por sinal muito bonita e de frase curtida em leituras e decisões, preparava-se para abandonar o País e viajar até onde as suas faculdades fossem reconhecidas e estimadas.

Mas vais voltar um dia?», perguntou-lhe afobada a jornalista.
Nunca mais! Aqui não tenho futuro

A luz, na televisão, era mais clara e o rosto da rapariga atingiu uma inesperada dureza. Talvez o desprendimento de quem tem o sentimento de não ser desejada.

Foi esse alheamento que me impressionou.

De repente, na afirmação «Aqui não tenho futuro!» deixara de residir a ternura e a intimidade, e passara a descoberto a factura de uma nova sabedoria, que me era estranha e, até, um pouco incómoda.

Na mesma reportagem, a informação, crua e grave, de que centenas de médicos e enfermeiros, por igual jovens, competentes e de confuso destino português, estavam de malas aviadas para se fixar no estrangeiro. Uma dessas, agora de abalada, demonstrou o seu desgosto com uma pequena frase: «Que havemos de fazer?»

Estes rapazes e raparigas são disputados em toda a Europa, e o interesse por eles, pela qualidade do seu trabalho, da sua devoção e da sua humanidade chegam à Austrália e à Nova Zelândia. Parece que o velho problema do mal na História renasce com a razão do Estado e a sua falta de ética da responsabilidade. O Estado, de certa forma corporizado no Governo, utiliza como meio específico a força da exclusão, da indiferença e do abandono, por detrás da qual se perfila a violência. As coisas complicam-se ainda mais se, noutra perspectiva, substituirmos a bondade pela grosseria.

E recordo aquele membro do Governo (cujo nome desejo colocar à margem deste texto, desejadamente asseado) que incentivou os jovens portugueses a abandonar o País, violando, descaradamente, a palavra dada de respeito pela Constituição e pelos outros.

Perdemos a nossa gente nova porque estamos a ser friamente enganados por uma clique amoral, incompetente e inchada de soberba. Há qualquer coisa de infame numa política que não coincide com a justiça e com a procura do bem-estar das populações.

A ilustração desta indignação vemo-la todos os dias e atinge proporções insanas quando a juventude é assim dizimada por um Governo que a despreza ao ponto de a expulsar.

«Pátria madrasta, País padrasto», conclui João de Barros, o das Décadas, numa frase tão lacónica como excruciante.

«Aqui não tenho futuro!» A frase possui a amplitude de um desígnio e o ferrete de uma insuportável amargura.

Baptista-Bastos, Escritor

«Diário de Notícias», 23 Nov 2011, p. 11


PS: Baptista-Bastos refere-se a uma Reportagem sobre uma Feira, em Lisboa, de oferta de empregos, no estrangeiro, para jovens licenciados portugueses, organizada por países estrangeiros… Eu vi a Reportagem – foi tal e qual assim!


24 de novembro de 2011

PARA QUÊ FAZER GREVES...?

«De maneiras que...»_R. Miguel Bombarda_Porto


Greve Geral


Tenho a maior dificuldade em perceber quais as vantagens de uma greve geral num país falido.

Nas presentes circunstâncias, com a greve geral, as reivindicações não são atendidas. O desemprego não diminui. A produção não aumenta. A legitimidade democrática das instituições não se altera. A crise não se resolve. Ninguém lucra absolutamente nada com ela, a começar pelos participantes. A situação em que se encontram ficará rigorosamente na mesma, se não piorar como é mais provável.


«Comédia da noite...»_'com Vasco Graça Moura'...no papel principal


No tempo de Marx, o enriquecimento crescente dos patrões podia ser visto como correlativo da pauperização crescente e acelerada da exploração dos trabalhadores. O alvo clássico de uma greve é, por definição, a entidade patronal que, comprando a força de trabalho alheia, acumula mais-valias à custa do esforço de cada um daqueles que a prestam. Trata-se, portanto, de impedir o capital de ter a sua esperada e fundamental rentabilidade.



Rua do Carregal_Porto


Nos últimos 150 anos as coisas mudaram muito.

O estatuto dos trabalhadores no século XXI não é, nem de perto nem de longe, comparável ao que era no século XIX. Já não é por essa via que, de diferenças quantitativas, se passa a diferenças qualitativas, mesmo numa situação de escassez e desigualdades gritantes como a de hoje.

Actualmente, que se saiba (…)

Nos tempos que correm e numa situação como a nossa, a greve como instrumento de luta, torna-se inócua e sai cara demais a toda a gente.(…)

Se os contribuintes resolvessem, por sua vez, fazer greve geral aos impostos, então até as greves gerais iriam por água a baixo…

VASCO GRAÇA MOURA, escritor
jornal «Diário de Notícias», 23 Nov 2011, p.54

(dá vontade de chorar…)



24 Nov 2011



VIVA A GREVE GERAL SOLIDÁRIA!

23 de novembro de 2011

«DESGLOBALIZAÇÃO», UM PROJECTO DE RUPTURA

«Até quando_Frédéric Lordon


Equilibradas sobre o fio da dívida pública, as economias ocidentais pulam de crise em crise. Cúpulas em que se decide a sorte de um país são rotina para os políticos, que, há três anos, assumem um papel de pronto-socorro das finanças. Mas um outro caminho tem sido aberto - quem tem medo da desglobalização?



Frédéric Lordon



A desglobalização e os seus inimigos



No início, as coisas eram simples: havia a razão, que andava em círculos, e a insanidade.

Os racionais estabeleceram que a globalização era a realização da felicidade, e todos aqueles que não tivessem o bom gosto de acreditar nisso deviam ser encarcerado. Por duas décadas, essa “razão” impediu metodicamente qualquer debate, concordando em abrir-se apenas quando sobreveio o espetáculo da maior crise do capitalismo.

Os terríveis efeitos da mega-austeridade europeia se farão sentir realmente na França a partir do primeiro semestre de 2012.

No cruzamento entre delírio financeiro, política econômica tutelada pelo mercado e deslocalizações que prosseguem durante a crise, a globalização promete mostrar-se em seus mais ofuscantes trajes: desemprego, precariedade, desigualdade, perda da soberania popular. A liberalização financeira e o poder acionário, a construção da Europa com base na escolha deliberada de expor a política econômica à disciplina do mercado financeiro, a concorrência livre e leal são todas aquelas coisas intocáveis que devem ser ditas (contra o inferno das que não devem ser ditas) para poder continuar apertando a mão do ministro, ser convidado para falar na televisão, ser consultado pelos partidos (de esquerda e direita) – em uma palavra, ser amado pelas instituições. Um pesadelo espetacular.

Mas eis a crise que arrasa tudo. “Não falar no assunto” era possível até a globalização se transformar num pesadelo espetacular de grande público. Até então se podia aliviar a situação dos pobres por meio de processos exclusivamente internos, cuidando para permanecer dentro do “quadro”, sem questionar nada. As palavras de ordem são reforma tributária (certamente útil) e, acima de tudo, e-du-ca-ção! Seriam ‘educados’ os “sem oportunidade” – para torná-los “competitivos por cima”.

Ah! A educação, a economia do conhecimento, a knowledge-based economy, que é a alegria da Comissão Europeia: desculpa perfeita para responsabilizar os “idiotas” por sua inempregabilidade, sem ter de mencionar as causas estruturais que destroem o emprego.

Mas eis que se torna difícil não falar dos danos ligados às “coisas estruturais”, conhecidas com o nome de globalização, pois eles eram toleráveis enquanto silenciosos, mas de repente tiveram o mau gosto de emergir com estrondo. Claro que há um esforço em manter alguns dos velhos argumentos, como a tese da “tecnologia”, que imputa à produtividade gerada pela tecnologia, e não à globalização, as perdas de emprego e a desigualdade:

1 Apenas os bem-educados sabem lidar com o computador, ficando com os empregos reservados aos competentes – quanto aos outros, sinto muito... Sim, sem dúvida a China acabará desenvolvendo instituições salariais maduras adequadas à solvência de um mercado interno e, de grande exportadora, tornar-se-á nossa grande cliente – mas, quando exatamente? Em dez anos? Quinze? Qual é a solução até lá? Ou continuamos no ‘a-paciência-vai-recompensar’? E se, do mesmo modo como a China a 150 euros tornou-se vítima da deslocalização para o Vietnã a 75 euros, a globalização der um salto para o continente africano – ainda inteiramente disponível para se integrar ao sistema! – e quebrar todos os preços? Mais um último bocadinho de paciência de meio século para que a África complete seu percurso? É claro que o presente desastre perturba os velhos amigos da globalização que se esforçam para encontrar “falhas”. Mas apenas o mínimo, e conforme os eventos em curso permitem, para permanecer no centro de gravidade do discurso legítimo – por exemplo, mostrando-se firmes, pelo menos em palavras, em relação às finanças – e desse modo continuar “na cena”. Até Lawrence Summers, ex-conselheiro econômico de Barack Obama e papa da desregulamentação da era Clinton (1993-2001), admite que os trabalhadores norte-americanos têm “bons motivos” para acreditar que “o que é bom para a economia global pode não ser bom para eles”...

2 As rachaduras do sistema e as repetidas bofetadas da realidade acabaram abrindo brechas, pelas quais os argumentos por muito tempo proibidos conseguem emergir. A palavra “desglobalização”, cuja paternidade se convencionou atribuir ao economista filipino Walden Bello,

3 tomou logicamente o significado de um horizonte político desejável para todas as cóleras sociais que a globalização não cessa de produzir. Porque, no fim das contas, as coisas são muito simples: se foi tão fácil chegar a um acordo para chamar de “globalização” a configuração presente do capitalismo, então também deve ser fácil entender por “desglobalização” a afirmação de um projeto de ruptura com essa ordem.








Debate tenso na esquerda

É precisamente nesse ponto que o debate fica tenso na esquerda. Estavamos longe de imaginar membros do conselho científico da Associação pela Tributação das Transações Financeiras e Ação Cidadã (Attac) alarmados com a circulação do tema da desglobalização.

4 É de espantar essa contribuição de parte da esquerda crítica – talvez involuntária, mas de qualquer modo objetivamente constituída – às piores distorções da desglobalização. Embora a configuração fordista do capitalismo pós-guerra tenha tudo da desglobalização, não encontramos ali nem arames farpados, nem postos de vigilância, nem economias hermeticamente fechadas, nem projetos de autossuficiência. O que temos é a terrível enfermidade do pensamento do terceiro excluído, ignorando que pode haver nações e laços entre as nações.

Não consta que o período 1945-1985 tenha ignorado o comércio exterior; sem dúvida o comércio internacional era menos desenvolvido do que hoje. Também não consta que um regime de comércio protecionista trará a guerra que nos promete Pascal Lamy a cada vez que se sugere não sacrificar tudo ao livre-comércio – e, catastrófica convergência retórica, eis que certos altermundialistas decidem declarar que os direitos aduaneiros “alimenta[ria]m a xenofobia e o nacionalismo”,

5 ou seja, por acaso concordam com P. Lamy. Também não consta que o princípio nacional tenha sido abolido, mesmo no mundo supostamente globalizado, pois – atenção, liberais e altermundialistas! – ainda existem nações! Há a China e os Estados Unidos, que estranhamente nunca vêem questionados nem seu nacionalismo, nem suas reivindicações de soberania. Eles dariam muita risada se fossem convidados a se fundir em grandes blocos. Seria excelente, aliás, recordar que o “horror nacional-protecionista” fordista foi uma época, embora certamente imperfeita, de pleno emprego, crescimento (sem consciência ambiental, é verdade) e paz entre os países avançados (embora apenas relativa, mas ainda assim...).

 Também não consta que as relações entre as nações devam ser concebidas exclusivamente sob a perspectiva da mercadoria, e ficamos pasmados com a força do detergente liberal para promover tal lavagem dos entendimentos a ponto de fazer esquecer que colocar algum limite à circulação de contêineres e capitais não impede de modo algum a grande circulação de obras, estudantes, artistas, pesquisadores, turistas, como se a circulação mercantil fosse o único medidor do grau de abertura das nações! Mas podemos dizer que a Attac logo abandonou seu primeiro rótulo de “antiglobalização”, precisamente por se redefinir como “altermundialista”. Talvez esteja aí o divisor de águas teórico, como indica sua recorrente obsessão em ver “um conflito de classes transformado em conflito de nações”.

 Embora partindo de uma questão profunda, esse enunciado está fadado à inanidade, se acha que pode negar o fato nacional – ou melhor, os fatos – e os antagonismos que quase inevitavelmente se seguem, que não podem ser compreendidos como “guerra” e negação absoluta de relações de cooperação que poderiam ser estabelecidas de outro modo. A não ser que se queira continuar perseguindo a quimera de uma humanidade completamente reconciliada, teremos de nos habituar à ideia de que a comunidade humana em sentido amplo é necessariamente atravessada por antagonismos, e que alguns deles se estabelecem de acordo com o traçado das nações.

Pode-se observar que os trabalhadores chineses e os trabalhadores franceses estão na mesma relação de antagonismo de classe diante de “seu” capital, mas nem por isso as estruturas da globalização econômica deixam de colocá-los também e objetivamente em uma relação de antagonismo mútuo. Apelar à solidariedade de classe franco-chinesa procede de um universalismo abstrato que ignora dados estruturais concretos e seu poder de configurar conflitos objetivos.

Em vez de construir castelos de ar sobre “essências” (a “essência” do proletariado ou a “essência” da luta de classes) que produzem apenas efeitos improváveis, seria melhor pensar em refazer as estruturas reais que determinam as múltiplas relações entre os diversos grupos sociais, como Marx já criticava nos “jovens hegelianos de esquerda”.

Em alguns países, as estruturas das finanças acionárias e das aposentadorias capitalizadas colocam objetivamente em conflito diversas frações da própria classe trabalhadora: pensionistas (interessados na rentabilidade financeira) contra funcionários (dos quais é extraída a contribuição), aposentados de um centro de produção contra funcionários-acionistas do mesmo grupo etc. É absolutamente inútil pedir a toda essa gente solidariedades de classe abstratas contra as estruturas que as destroem concretamente e configuram objetivamente seus interesses sob relações antagônicas. Mas seria útil refazer as estruturas (destruir as finanças acionárias, promover incessantemente a distribuição) para fazer prevalecer uma gramática de antagonismo sobre outra.

As actuais estruturas de livre-comércio e circulação dos investimentos diretos interditam as solidariedades possíveis entre trabalhadores franceses e chineses. Esse é o paradoxo não percebido pelos “globalizadores”, liberais e altermundialistas. Ao contrário do que muito se diz, um protecionismo razoável e negociado não prejudica os interesses dos trabalhadores dos países emergentes, podendo permitir que eles passem, sem o incentivo de focar tudo na exportação, a regimes de crescimento mais autocentrados, atraindo funcionalmente a extensão e a estabilização dos rendimentos salariais. Somente quando os trabalhadores desenvolverem solidariedades transversais (transnacionais) é que farão prevalecer a gramática classista sobre a nacionalista.

Assim como a “concorrência justa” não passa de um protecionismo disfarçado (e da pior espécie),

6 pode ser que, ao contrário do que crêem alguns altermundialistas, formas de protecionismo transparentes e racionalmente negociadas tenham boas propriedades cooperativas, gerenciando possibilidades de desenvolvimento autônomo, embora (razoavelmente) interativos, e criando as condições concretas das solidariedades transnacionais de classe.

Mas a questão da desglobalização não se esgota em absoluto na do protecionismo. O problema fundamental é político: o da soberania e de suas circunscrições possíveis

7 – que absolutamente não se limitam ao âmbito das atuais nações. Dado fundamental da vida dos povos, a soberania é ignorada por todos os defensores da globalização, como revela o emaranhado conceito de “governança”. “O problema central é o da governança mundial”, repete Daniel Cohen.

8 Não! O problema central é o da constituição de entidades políticas autenticamente soberanas, as únicas dotadas da força capaz de se opor à força do capital. Se houvesse então um único princípio geral para governar o debate sobre a globalização, poderia ser este: não podemos deixar os povos por muito tempo sem soluções de soberania.

A globalização promove a concorrência entre economias de padrões salariais abissalmente diferentes; a permanente ameaça de deslocalização; a restrição acionária impondo rentabilidades financeiras ilimitadas, de modo que sua combinação opera uma compressão constante dos rendimentos salariais; o consequente desenvolvimento do endividamento crônico das famílias; a absoluta licença às finanças para desenvolver operações especulativas desestabilizadoras ou, em falta disso, operações a partir da dívida das famílias (como no caso dos subprimes); a colocação dos poderes públicos na condição de reféns, devendo socorrer instituições financeiras surpreendidas pelas crises recorrentes; a imposição dos custos macroeconômicos dessas crises aos desempregados, de seu custo às finanças públicas sustentadas pelos contribuintes, usuários, funcionários e pensionistas; a espoliação dos cidadãos de qualquer influência sobre a política econômica, agora definida apenas segundo os desejos dos credores internacionais, não importa quanto isso custe ao corpo social; e a entrega da política monetária a uma instituição independente fora do alcance de qualquer controle político.

Daí que se declarar favorável à desglobalização é simplesmente, de maneira geral, declarar não querer nada disso!

Frédéric Lordon

Economista, autor de «Jusqu'à quand? L'éternel retour de la crise financière» (Até quando? O eterno retorno da crise financeira), Raisons d'Agir, Paris, 2008

Le Monde Diplomatique, ed. brasileira, 30:IX:2011

PS: A 23 Out 2011, neste blog, o 6º de oito textos "POR ONDE COMEÇAR?", denominado «SAIR DA CRISE - POR ONDE COMEÇAR?», de Jean-Marie Harribey aborda esta polémica. 




EM DEFESA DA DIGNIDADE, DO TRABALHO E DO ESTADO SOCIAL


128 cientistas sociais

 

 

Largo Moinho de Vento_PORTO

 

Em Defesa da Dignidade, do Trabalho e do Estado Social,

Apoiamos a Greve Geral

O último ano tem sido marcado por uma catadupa de decisões políticas atentatórias das condições de vida dos cidadãos e dos serviços e apoios sociais arduamente conquistados ao longo da história, criando uma situação que é tão mais gravosa quanto ocorre num quadro de progressivo desemprego e recessão económica.

É o caso dos cortes unilaterais nos salários dos trabalhadores do Estado, da apropriação fiscal de grande parte do subsídio de Natal dos trabalhadores e pensionistas, do corte dos subsídios de Natal e de férias dos trabalhadores do sector público e dos pensionistas que, tal como o aumento do horário laboral no sector privado, estão previstos para o próximo ano, da substancial diminuição do financiamento ao Serviço Nacional de Saúde e à educação pública, ou da restrição do acesso ao subsídio de desemprego e a outras prestações sociais.

No entanto, estas opções políticas não se limitam a agravar as condições de vida dos trabalhadores, pensionistas e suas famílias, fazendo até perigar a própria subsistência de muitos deles em condições minimamente dignas.

Essas decisões são tomadas em nome do reequilíbrio das contas públicas e da necessidade de servir a dívida. No entanto, devido à recessão que já provocam e irão aprofundar, não permitirão sequer atingir esses objectivos. Dessa forma, ao sofrimento imposto a milhões de pessoas e à injustiça na repartição dos custos, vem somar-se a consciência da inutilidade de tais sacrifícios.

Mais ainda, as medidas tomadas no âmbito das políticas de “ajustamento” constituem uma brutal subversão do contrato social que permitiu à Europa libertar-se, após a II Guerra Mundial, da endémica incerteza e insegurança de vida dos seus cidadãos e, com base nisso, assegurar vivências mais dignas, uma maior equidade e níveis de paz social e segurança colectiva sem paralelo na sua história.

Ao subverterem a credibilidade e a segurança jurídica da contratação laboral e sua negociação, ao esvaziarem e restringirem os elementos de Estado Social implementados no país (pondo com isso em causa o acesso dos cidadãos à saúde, à educação e a um grau razoável e expectável de segurança no emprego, na doença, no desemprego e na velhice), essas opções políticas, apresentadas como se de inevitabilidades se tratasse, reforçam as desigualdades e injustiças sociais, abandonam os cidadãos mais directamente atingidos pela crise, e criam as condições para que a dignidade humana, os direitos de cidadania e a segurança colectiva sejam ameaçados pela generalização da incerteza, do desespero e da ausência de alternativas.

Por essas razões, os cientistas sociais signatários reafirmam que os princípios e garantias do Estado Social e da negociação consequente dos termos de trabalho não são luxos apenas viáveis em conjunturas de crescimento económico, mas sim condições básicas da dignidade e da existência colectiva, que se torna ainda mais imprescindível salvaguardar em tempos de crise. São, para além disso, elementos essenciais de qualquer estratégia credível para ultrapassar a crise e relançar o crescimento económico.

Num quadro de fortes limitações orçamentais, esse imperativo societal requer a reversão das crescentes assimetrias na distribuição de riqueza entre capital e trabalho, designadamente através da utilização de uma substancial e mais equitativa tributação dos lucros e mais-valias como fonte do reforço de financiamento dos serviços e prestações sociais.

Sendo as opções governativas em curso (e em particular a proposta de OGE 2012) contrárias a estas necessidades e atentatórias da dignidade humana e da segurança colectiva, os cientistas sociais signatários apoiam a Greve Geral convocada pela CGTP-IN e a UGT para o próximo dia 24 de Novembro, apelando aos seus concidadãos para que a ela adiram.

Tratando-se embora de uma acção a nível nacional, os signatários saúdam também esta Greve Geral como um momento do combate europeu contra as políticas de austeridade e de regressão social, a favor de mudanças na política europeia que coloquem no centro os cidadãos, o crescimento económico, o desenvolvimento e a defesa da Europa Social e da democracia.

(Apelo à adesão à Greve Geral de 24 de Novembro, subscrito por 128 cientistas sociais portugueses ou a trabalhar em e sobre Portugal.)

Alexandre Abreu (post de)