teologia para leigos

24 de novembro de 2011

PARA QUÊ FAZER GREVES...?

«De maneiras que...»_R. Miguel Bombarda_Porto


Greve Geral


Tenho a maior dificuldade em perceber quais as vantagens de uma greve geral num país falido.

Nas presentes circunstâncias, com a greve geral, as reivindicações não são atendidas. O desemprego não diminui. A produção não aumenta. A legitimidade democrática das instituições não se altera. A crise não se resolve. Ninguém lucra absolutamente nada com ela, a começar pelos participantes. A situação em que se encontram ficará rigorosamente na mesma, se não piorar como é mais provável.


«Comédia da noite...»_'com Vasco Graça Moura'...no papel principal


No tempo de Marx, o enriquecimento crescente dos patrões podia ser visto como correlativo da pauperização crescente e acelerada da exploração dos trabalhadores. O alvo clássico de uma greve é, por definição, a entidade patronal que, comprando a força de trabalho alheia, acumula mais-valias à custa do esforço de cada um daqueles que a prestam. Trata-se, portanto, de impedir o capital de ter a sua esperada e fundamental rentabilidade.



Rua do Carregal_Porto


Nos últimos 150 anos as coisas mudaram muito.

O estatuto dos trabalhadores no século XXI não é, nem de perto nem de longe, comparável ao que era no século XIX. Já não é por essa via que, de diferenças quantitativas, se passa a diferenças qualitativas, mesmo numa situação de escassez e desigualdades gritantes como a de hoje.

Actualmente, que se saiba (…)

Nos tempos que correm e numa situação como a nossa, a greve como instrumento de luta, torna-se inócua e sai cara demais a toda a gente.(…)

Se os contribuintes resolvessem, por sua vez, fazer greve geral aos impostos, então até as greves gerais iriam por água a baixo…

VASCO GRAÇA MOURA, escritor
jornal «Diário de Notícias», 23 Nov 2011, p.54

(dá vontade de chorar…)



24 Nov 2011



VIVA A GREVE GERAL SOLIDÁRIA!

23 de novembro de 2011

«DESGLOBALIZAÇÃO», UM PROJECTO DE RUPTURA

«Até quando_Frédéric Lordon


Equilibradas sobre o fio da dívida pública, as economias ocidentais pulam de crise em crise. Cúpulas em que se decide a sorte de um país são rotina para os políticos, que, há três anos, assumem um papel de pronto-socorro das finanças. Mas um outro caminho tem sido aberto - quem tem medo da desglobalização?



Frédéric Lordon



A desglobalização e os seus inimigos



No início, as coisas eram simples: havia a razão, que andava em círculos, e a insanidade.

Os racionais estabeleceram que a globalização era a realização da felicidade, e todos aqueles que não tivessem o bom gosto de acreditar nisso deviam ser encarcerado. Por duas décadas, essa “razão” impediu metodicamente qualquer debate, concordando em abrir-se apenas quando sobreveio o espetáculo da maior crise do capitalismo.

Os terríveis efeitos da mega-austeridade europeia se farão sentir realmente na França a partir do primeiro semestre de 2012.

No cruzamento entre delírio financeiro, política econômica tutelada pelo mercado e deslocalizações que prosseguem durante a crise, a globalização promete mostrar-se em seus mais ofuscantes trajes: desemprego, precariedade, desigualdade, perda da soberania popular. A liberalização financeira e o poder acionário, a construção da Europa com base na escolha deliberada de expor a política econômica à disciplina do mercado financeiro, a concorrência livre e leal são todas aquelas coisas intocáveis que devem ser ditas (contra o inferno das que não devem ser ditas) para poder continuar apertando a mão do ministro, ser convidado para falar na televisão, ser consultado pelos partidos (de esquerda e direita) – em uma palavra, ser amado pelas instituições. Um pesadelo espetacular.

Mas eis a crise que arrasa tudo. “Não falar no assunto” era possível até a globalização se transformar num pesadelo espetacular de grande público. Até então se podia aliviar a situação dos pobres por meio de processos exclusivamente internos, cuidando para permanecer dentro do “quadro”, sem questionar nada. As palavras de ordem são reforma tributária (certamente útil) e, acima de tudo, e-du-ca-ção! Seriam ‘educados’ os “sem oportunidade” – para torná-los “competitivos por cima”.

Ah! A educação, a economia do conhecimento, a knowledge-based economy, que é a alegria da Comissão Europeia: desculpa perfeita para responsabilizar os “idiotas” por sua inempregabilidade, sem ter de mencionar as causas estruturais que destroem o emprego.

Mas eis que se torna difícil não falar dos danos ligados às “coisas estruturais”, conhecidas com o nome de globalização, pois eles eram toleráveis enquanto silenciosos, mas de repente tiveram o mau gosto de emergir com estrondo. Claro que há um esforço em manter alguns dos velhos argumentos, como a tese da “tecnologia”, que imputa à produtividade gerada pela tecnologia, e não à globalização, as perdas de emprego e a desigualdade:

1 Apenas os bem-educados sabem lidar com o computador, ficando com os empregos reservados aos competentes – quanto aos outros, sinto muito... Sim, sem dúvida a China acabará desenvolvendo instituições salariais maduras adequadas à solvência de um mercado interno e, de grande exportadora, tornar-se-á nossa grande cliente – mas, quando exatamente? Em dez anos? Quinze? Qual é a solução até lá? Ou continuamos no ‘a-paciência-vai-recompensar’? E se, do mesmo modo como a China a 150 euros tornou-se vítima da deslocalização para o Vietnã a 75 euros, a globalização der um salto para o continente africano – ainda inteiramente disponível para se integrar ao sistema! – e quebrar todos os preços? Mais um último bocadinho de paciência de meio século para que a África complete seu percurso? É claro que o presente desastre perturba os velhos amigos da globalização que se esforçam para encontrar “falhas”. Mas apenas o mínimo, e conforme os eventos em curso permitem, para permanecer no centro de gravidade do discurso legítimo – por exemplo, mostrando-se firmes, pelo menos em palavras, em relação às finanças – e desse modo continuar “na cena”. Até Lawrence Summers, ex-conselheiro econômico de Barack Obama e papa da desregulamentação da era Clinton (1993-2001), admite que os trabalhadores norte-americanos têm “bons motivos” para acreditar que “o que é bom para a economia global pode não ser bom para eles”...

2 As rachaduras do sistema e as repetidas bofetadas da realidade acabaram abrindo brechas, pelas quais os argumentos por muito tempo proibidos conseguem emergir. A palavra “desglobalização”, cuja paternidade se convencionou atribuir ao economista filipino Walden Bello,

3 tomou logicamente o significado de um horizonte político desejável para todas as cóleras sociais que a globalização não cessa de produzir. Porque, no fim das contas, as coisas são muito simples: se foi tão fácil chegar a um acordo para chamar de “globalização” a configuração presente do capitalismo, então também deve ser fácil entender por “desglobalização” a afirmação de um projeto de ruptura com essa ordem.








Debate tenso na esquerda

É precisamente nesse ponto que o debate fica tenso na esquerda. Estavamos longe de imaginar membros do conselho científico da Associação pela Tributação das Transações Financeiras e Ação Cidadã (Attac) alarmados com a circulação do tema da desglobalização.

4 É de espantar essa contribuição de parte da esquerda crítica – talvez involuntária, mas de qualquer modo objetivamente constituída – às piores distorções da desglobalização. Embora a configuração fordista do capitalismo pós-guerra tenha tudo da desglobalização, não encontramos ali nem arames farpados, nem postos de vigilância, nem economias hermeticamente fechadas, nem projetos de autossuficiência. O que temos é a terrível enfermidade do pensamento do terceiro excluído, ignorando que pode haver nações e laços entre as nações.

Não consta que o período 1945-1985 tenha ignorado o comércio exterior; sem dúvida o comércio internacional era menos desenvolvido do que hoje. Também não consta que um regime de comércio protecionista trará a guerra que nos promete Pascal Lamy a cada vez que se sugere não sacrificar tudo ao livre-comércio – e, catastrófica convergência retórica, eis que certos altermundialistas decidem declarar que os direitos aduaneiros “alimenta[ria]m a xenofobia e o nacionalismo”,

5 ou seja, por acaso concordam com P. Lamy. Também não consta que o princípio nacional tenha sido abolido, mesmo no mundo supostamente globalizado, pois – atenção, liberais e altermundialistas! – ainda existem nações! Há a China e os Estados Unidos, que estranhamente nunca vêem questionados nem seu nacionalismo, nem suas reivindicações de soberania. Eles dariam muita risada se fossem convidados a se fundir em grandes blocos. Seria excelente, aliás, recordar que o “horror nacional-protecionista” fordista foi uma época, embora certamente imperfeita, de pleno emprego, crescimento (sem consciência ambiental, é verdade) e paz entre os países avançados (embora apenas relativa, mas ainda assim...).

 Também não consta que as relações entre as nações devam ser concebidas exclusivamente sob a perspectiva da mercadoria, e ficamos pasmados com a força do detergente liberal para promover tal lavagem dos entendimentos a ponto de fazer esquecer que colocar algum limite à circulação de contêineres e capitais não impede de modo algum a grande circulação de obras, estudantes, artistas, pesquisadores, turistas, como se a circulação mercantil fosse o único medidor do grau de abertura das nações! Mas podemos dizer que a Attac logo abandonou seu primeiro rótulo de “antiglobalização”, precisamente por se redefinir como “altermundialista”. Talvez esteja aí o divisor de águas teórico, como indica sua recorrente obsessão em ver “um conflito de classes transformado em conflito de nações”.

 Embora partindo de uma questão profunda, esse enunciado está fadado à inanidade, se acha que pode negar o fato nacional – ou melhor, os fatos – e os antagonismos que quase inevitavelmente se seguem, que não podem ser compreendidos como “guerra” e negação absoluta de relações de cooperação que poderiam ser estabelecidas de outro modo. A não ser que se queira continuar perseguindo a quimera de uma humanidade completamente reconciliada, teremos de nos habituar à ideia de que a comunidade humana em sentido amplo é necessariamente atravessada por antagonismos, e que alguns deles se estabelecem de acordo com o traçado das nações.

Pode-se observar que os trabalhadores chineses e os trabalhadores franceses estão na mesma relação de antagonismo de classe diante de “seu” capital, mas nem por isso as estruturas da globalização econômica deixam de colocá-los também e objetivamente em uma relação de antagonismo mútuo. Apelar à solidariedade de classe franco-chinesa procede de um universalismo abstrato que ignora dados estruturais concretos e seu poder de configurar conflitos objetivos.

Em vez de construir castelos de ar sobre “essências” (a “essência” do proletariado ou a “essência” da luta de classes) que produzem apenas efeitos improváveis, seria melhor pensar em refazer as estruturas reais que determinam as múltiplas relações entre os diversos grupos sociais, como Marx já criticava nos “jovens hegelianos de esquerda”.

Em alguns países, as estruturas das finanças acionárias e das aposentadorias capitalizadas colocam objetivamente em conflito diversas frações da própria classe trabalhadora: pensionistas (interessados na rentabilidade financeira) contra funcionários (dos quais é extraída a contribuição), aposentados de um centro de produção contra funcionários-acionistas do mesmo grupo etc. É absolutamente inútil pedir a toda essa gente solidariedades de classe abstratas contra as estruturas que as destroem concretamente e configuram objetivamente seus interesses sob relações antagônicas. Mas seria útil refazer as estruturas (destruir as finanças acionárias, promover incessantemente a distribuição) para fazer prevalecer uma gramática de antagonismo sobre outra.

As actuais estruturas de livre-comércio e circulação dos investimentos diretos interditam as solidariedades possíveis entre trabalhadores franceses e chineses. Esse é o paradoxo não percebido pelos “globalizadores”, liberais e altermundialistas. Ao contrário do que muito se diz, um protecionismo razoável e negociado não prejudica os interesses dos trabalhadores dos países emergentes, podendo permitir que eles passem, sem o incentivo de focar tudo na exportação, a regimes de crescimento mais autocentrados, atraindo funcionalmente a extensão e a estabilização dos rendimentos salariais. Somente quando os trabalhadores desenvolverem solidariedades transversais (transnacionais) é que farão prevalecer a gramática classista sobre a nacionalista.

Assim como a “concorrência justa” não passa de um protecionismo disfarçado (e da pior espécie),

6 pode ser que, ao contrário do que crêem alguns altermundialistas, formas de protecionismo transparentes e racionalmente negociadas tenham boas propriedades cooperativas, gerenciando possibilidades de desenvolvimento autônomo, embora (razoavelmente) interativos, e criando as condições concretas das solidariedades transnacionais de classe.

Mas a questão da desglobalização não se esgota em absoluto na do protecionismo. O problema fundamental é político: o da soberania e de suas circunscrições possíveis

7 – que absolutamente não se limitam ao âmbito das atuais nações. Dado fundamental da vida dos povos, a soberania é ignorada por todos os defensores da globalização, como revela o emaranhado conceito de “governança”. “O problema central é o da governança mundial”, repete Daniel Cohen.

8 Não! O problema central é o da constituição de entidades políticas autenticamente soberanas, as únicas dotadas da força capaz de se opor à força do capital. Se houvesse então um único princípio geral para governar o debate sobre a globalização, poderia ser este: não podemos deixar os povos por muito tempo sem soluções de soberania.

A globalização promove a concorrência entre economias de padrões salariais abissalmente diferentes; a permanente ameaça de deslocalização; a restrição acionária impondo rentabilidades financeiras ilimitadas, de modo que sua combinação opera uma compressão constante dos rendimentos salariais; o consequente desenvolvimento do endividamento crônico das famílias; a absoluta licença às finanças para desenvolver operações especulativas desestabilizadoras ou, em falta disso, operações a partir da dívida das famílias (como no caso dos subprimes); a colocação dos poderes públicos na condição de reféns, devendo socorrer instituições financeiras surpreendidas pelas crises recorrentes; a imposição dos custos macroeconômicos dessas crises aos desempregados, de seu custo às finanças públicas sustentadas pelos contribuintes, usuários, funcionários e pensionistas; a espoliação dos cidadãos de qualquer influência sobre a política econômica, agora definida apenas segundo os desejos dos credores internacionais, não importa quanto isso custe ao corpo social; e a entrega da política monetária a uma instituição independente fora do alcance de qualquer controle político.

Daí que se declarar favorável à desglobalização é simplesmente, de maneira geral, declarar não querer nada disso!

Frédéric Lordon

Economista, autor de «Jusqu'à quand? L'éternel retour de la crise financière» (Até quando? O eterno retorno da crise financeira), Raisons d'Agir, Paris, 2008

Le Monde Diplomatique, ed. brasileira, 30:IX:2011

PS: A 23 Out 2011, neste blog, o 6º de oito textos "POR ONDE COMEÇAR?", denominado «SAIR DA CRISE - POR ONDE COMEÇAR?», de Jean-Marie Harribey aborda esta polémica. 




EM DEFESA DA DIGNIDADE, DO TRABALHO E DO ESTADO SOCIAL


128 cientistas sociais

 

 

Largo Moinho de Vento_PORTO

 

Em Defesa da Dignidade, do Trabalho e do Estado Social,

Apoiamos a Greve Geral

O último ano tem sido marcado por uma catadupa de decisões políticas atentatórias das condições de vida dos cidadãos e dos serviços e apoios sociais arduamente conquistados ao longo da história, criando uma situação que é tão mais gravosa quanto ocorre num quadro de progressivo desemprego e recessão económica.

É o caso dos cortes unilaterais nos salários dos trabalhadores do Estado, da apropriação fiscal de grande parte do subsídio de Natal dos trabalhadores e pensionistas, do corte dos subsídios de Natal e de férias dos trabalhadores do sector público e dos pensionistas que, tal como o aumento do horário laboral no sector privado, estão previstos para o próximo ano, da substancial diminuição do financiamento ao Serviço Nacional de Saúde e à educação pública, ou da restrição do acesso ao subsídio de desemprego e a outras prestações sociais.

No entanto, estas opções políticas não se limitam a agravar as condições de vida dos trabalhadores, pensionistas e suas famílias, fazendo até perigar a própria subsistência de muitos deles em condições minimamente dignas.

Essas decisões são tomadas em nome do reequilíbrio das contas públicas e da necessidade de servir a dívida. No entanto, devido à recessão que já provocam e irão aprofundar, não permitirão sequer atingir esses objectivos. Dessa forma, ao sofrimento imposto a milhões de pessoas e à injustiça na repartição dos custos, vem somar-se a consciência da inutilidade de tais sacrifícios.

Mais ainda, as medidas tomadas no âmbito das políticas de “ajustamento” constituem uma brutal subversão do contrato social que permitiu à Europa libertar-se, após a II Guerra Mundial, da endémica incerteza e insegurança de vida dos seus cidadãos e, com base nisso, assegurar vivências mais dignas, uma maior equidade e níveis de paz social e segurança colectiva sem paralelo na sua história.

Ao subverterem a credibilidade e a segurança jurídica da contratação laboral e sua negociação, ao esvaziarem e restringirem os elementos de Estado Social implementados no país (pondo com isso em causa o acesso dos cidadãos à saúde, à educação e a um grau razoável e expectável de segurança no emprego, na doença, no desemprego e na velhice), essas opções políticas, apresentadas como se de inevitabilidades se tratasse, reforçam as desigualdades e injustiças sociais, abandonam os cidadãos mais directamente atingidos pela crise, e criam as condições para que a dignidade humana, os direitos de cidadania e a segurança colectiva sejam ameaçados pela generalização da incerteza, do desespero e da ausência de alternativas.

Por essas razões, os cientistas sociais signatários reafirmam que os princípios e garantias do Estado Social e da negociação consequente dos termos de trabalho não são luxos apenas viáveis em conjunturas de crescimento económico, mas sim condições básicas da dignidade e da existência colectiva, que se torna ainda mais imprescindível salvaguardar em tempos de crise. São, para além disso, elementos essenciais de qualquer estratégia credível para ultrapassar a crise e relançar o crescimento económico.

Num quadro de fortes limitações orçamentais, esse imperativo societal requer a reversão das crescentes assimetrias na distribuição de riqueza entre capital e trabalho, designadamente através da utilização de uma substancial e mais equitativa tributação dos lucros e mais-valias como fonte do reforço de financiamento dos serviços e prestações sociais.

Sendo as opções governativas em curso (e em particular a proposta de OGE 2012) contrárias a estas necessidades e atentatórias da dignidade humana e da segurança colectiva, os cientistas sociais signatários apoiam a Greve Geral convocada pela CGTP-IN e a UGT para o próximo dia 24 de Novembro, apelando aos seus concidadãos para que a ela adiram.

Tratando-se embora de uma acção a nível nacional, os signatários saúdam também esta Greve Geral como um momento do combate europeu contra as políticas de austeridade e de regressão social, a favor de mudanças na política europeia que coloquem no centro os cidadãos, o crescimento económico, o desenvolvimento e a defesa da Europa Social e da democracia.

(Apelo à adesão à Greve Geral de 24 de Novembro, subscrito por 128 cientistas sociais portugueses ou a trabalhar em e sobre Portugal.)

Alexandre Abreu (post de)





EXTREMISMOS AVANÇAM NA U.E. - DANI RODRIK


Dani Rodrik_Prof. da Universidade de Harvard


O próximo pesadelo da Europa



[Jornal «PÚBLICO», 10.11.2011]

Como se as ramificações económicas de um total incumprimento por parte da Grécia não fossem já suficientemente aterrorizantes, as consequências políticas poderiam ser muito piores.

Uma dissolução caótica da zona euro causaria danos irreparáveis ao projecto de integração europeia, o pilar central da estabilidade política na Europa desde a Segunda Guerra Mundial. Seria desestabilizar não só a periferia europeia altamente endividada, mas também países centrais como a França e a Alemanha, que foram os arquitectos desse projecto.

O cenário de pesadelo seria também uma vitória para o extremismo político ao estilo dos anos 1930. O fascismo, o nazismo e o comunismo eram filhos de uma chicotada contra a globalização, que vinha crescendo desde o final do século XIX, alimentando-se das ansiedades de grupos que se sentiam marginalizados e ameaçados pelas forças de mercado em expansão e pelas elites cosmopolitas.

O comércio livre e o padrão-ouro tinham exigido relegar para segundo plano prioridades internas tais como a reforma social, construção da nação e a reafirmação cultural. A crise económica e o fracasso da cooperação internacional comprometeram não só a globalização, mas também as elites que apoiavam a ordem existente. Como escreveu o meu colega de Harvard, Jeff Frieden, foi assim que se abriu caminho para duas formas distintas de extremismo. Confrontados com a escolha entre equidade e integração económica, os comunistas escolheram a reforma social radical e a auto-suficiência económica. Confrontados com a escolha entre afirmação nacional e globalismo, os fascistas, os nazistas e os nacionalistas e escolheram a construção da nação.

Felizmente, o fascismo, o comunismo e outras formas de ditaduras encontram-se hoje ultrapassados. Mas, existem tensões semelhantes entre integração económica e política local que estão, há muito tempo, latentes. O mercado único europeu tomou forma de uma maneira muito mais rápida do que o fez a comunidade política Europeia; a integração económica sobrepôs-se à integração política. Daqui resulta que as preocupações crescentes sobre a erosão da segurança económica, estabilidade social e identidade cultural não podiam ser tratadas através dos canais políticos tradicionais.

As estruturas políticas nacionais tornaram-se demasiado limitadas para oferecer soluções eficazes, enquanto as instituições europeias continuam demasiado fracas para exigir lealdade. A extrema-direita é quem mais tem beneficiado com o fracasso dos centristas. Na Finlândia, o até então desconhecido partido Verdadeiros Finlandeses (True Finns) aproveitou o ressentimento em torno do resgate da zona euro para ser o terceiro mais votado nas eleições gerais de Abril. Na Holanda, o Partido para a Liberdade, de Geert Wilders, exerce poder suficiente para ser um elemento decisivo, sem o seu apoio, o governo de minoria liberal fracassaria. Em França, a Frente Nacional, que ficou em segundo lugar nas eleições presidenciais de 2002, foi revitalizada com Marine Le Pen. A repercussão disto não está confinada aos membros da zona euro. Na Escandinávia, os Democratas da Suécia, um partido com raízes neonazis, entrou para o Parlamento no ano passado com cerca de 6% dos votos populares. Na Grã-Bretanha, uma sondagem recente indicou que mais de dois terços dos conservadores querem que a Grã-Bretanha saia da União Europeia.

Os movimentos políticos de extrema-direita são tradicionalmente alimentados pelo sentimento de anti-imigração. Mas os resgates da Grécia, Irlanda, Portugal, e outros, em conjunto com os problemas do euro, deram-lhes novo alento. O seu eurocepticismo parece, decerto, justificado pelos acontecimentos. Quando, recentemente, perguntaram a Marine Le Pen se iria retirar-se unilateralmente do euro, ela respondeu com confiança: "Quando eu for presidente, dentro de alguns meses, a zona euro provavelmente não existirá."

Tal como nos anos 30, o fracasso da cooperação internacional agravou a incapacidade dos políticos centristas de dar uma resposta adequada às exigências económicas, sociais e culturais dos seus constituintes internos. O projecto europeu e a zona euro definiram os termos do debate, de tal forma que, com a zona euro em farrapos, a legitimidade dessas elites irá receber um golpe ainda mais grave. Os políticos centristas da Europa empenharam-se numa estratégia de "mais Europa" demasiado rápida para aliviar as ansiedades locais, embora não suficientemente rápida para criar uma comunidade política real em toda a Europa. Mantiveram-se durante demasiado tempo num caminho intermediário que é instável e afectado por tensões.

Apegando-se a uma visão da Europa que se mostrou inviável, as elites centristas da Europa estão a pôr em risco a própria ideia de uma Europa unificada. Do ponto de vista económico, a opção menos negativa passa por garantir que os inevitáveis incumprimentos e saídas da zona euro decorram da forma mais ordeira e coordenada possível. Também ao nível político é necessária uma verificação semelhante da realidade. O que a actual crise exige é uma reorientação explícita, longe de obrigações financeiras externas e austeridade relativamente às preocupações e aspirações nacionais.

Tal como as economias nacionais saudáveis são o melhor garante de uma economia mundial aberta, as políticas nacionais saudáveis são o melhor garante de uma ordem internacional estável. O desafio consiste em desenvolver uma nova narrativa política, com ênfase nos interesses e valores nacionais, sem conotações de nativismo nem de xenofobia.

Se as elites centristas não estiverem à altura da tarefa, os representantes da extrema-direita preencherão, de boa vontade, o vazio, sem a moderação. É por isso que o primeiro-ministro demissionário da Grécia, George Papandreou, teve a ideia certa com a sua proposta fracassada de convocar um referendo. Esta medida foi uma tentativa tardia de reconhecer a primazia da política interna, mesmo que os investidores a considerassem que isso, nas palavras de um editor do Financial Times, era "brincar com o fogo."

Descartar o referendo significa, simplesmente, adiar o "dia do julgamento" e aumentar o derradeiro preço a pagar pela nova liderança da Grécia.

Hoje, já não se trata de saber se a política se vai tornar mais populista e menos internacionalista, mas sim de perceber se as consequências dessa mudança podem ser geridas sem a situação ficar feia. Na política da Europa, tal como na sua economia, parece que não há boas opções – apenas soluções menos más.

Dani Rodrik, Professor da Universidade de Harvard