teologia para leigos

20 de novembro de 2011

PERDÃO DA DÍVIDA GREGA - UM EMBUSTE


NO REINO DO NARIZ DO PINÓQUIO…

Algumas razões
para os gregos votarem "não"


'Grupo Anti-Globalização'_Alemanha


A mistificação em torno do
alegado "perdão" da dívida grega é extraordinária…

Primeiro, qualquer notícia de Telejornal anuncia triunfalmente um perdão da dívida em 50%. Estamos já fartos de saber que não é o caso. No entanto, de forma aparentemente mais honesta, somos informados pela imprensa que se trata de um perdão da dívida privada em 50%, no valor de 100 mil milhões de euros.

Felizmente, há quem faça o trabalho de casa, neste caso o Financial Times,[FT], e tente perceber melhor os contornos do acordo.

Segundo o FT, existem duas contrapartidas previstas neste acordo:

Um mecanismo de compensação (que erradamente pensei ser europeu e que ninguém sabe como vai funcionar) no valor de 30 mil milhões de euros para os credores estrangeiros. Estes 30 mil milhões são emprestados pela troika e por isso contam como endividamento grego;

Um outro pacote de 30 mil milhões de euros para recapitalizar a banca grega, de forma a compensar os efeitos do... perdão à dívida. De repente, os 50% já não o são. Substitui-se, na verdade, dívida privada por dívida "oficial", da troika, cujo estatuto legal é "blindado".

Finalmente, a imprensa continua a anunciar a redução da dívida para 120% do PIB em 2020, o que, como já aqui assinalei, assenta em pressupostos inverosímeis.

E que tal olhar para o "nada-secreto" documento da troika e observar o impacto imediato, no todo da dívida pública grega, deste anunciado perdão?


NUNO TELES
2 NOV 2011
LADRÕES DE BICICLETAS


Vídeo:



15 de novembro de 2011

«matá-los à mocada, como as focas bebés», AOS AMOTINADOS LONDRINOS

 MOTINS URBANOS, DESPREZO DE CLASSE



Tottenham_Agosto_2011

 
A ordem moral
britânica contra a «escumalha»


Alguns meses antes das eleições legislativas de Maio de 2011, o deputado trabalhista Stephen Pound considerava o eleitorado inglês menos preocupado com um eventual regresso ao poder dos conservadores do que com uma outra perspectiva: o receio, «quase físico», de ver «um Lumpen-proletariado vestido com imensa bijutaria espalhafatosa bater à sua porta e devorar as suas jovens filhas aos pares». Mesmo num período de relativa tranquilidade, um certo desprezo aflora à superfície das relações sociais do Reino Unido, uma das sociedades mais desiguais do mundo. Bastaram algumas noites de motins e pilhagens, no mês de Agosto, para que esse desprezo latente rebentasse à luz do dia.

As ruas inglesas recuperaram a calma, mas a agitação apoderou-se dos editoriais, das contas do Twitter e dos discursos dos responsáveis políticos. De forma incansável, um adjectivo, «feral» («selvagem»), associa-se ao tema dos amotinados, descritos sem pruridos como «ratazanas» [BBC News, 9 Agosto 2011; Daily Telegraph, 10 Agosto 2011; Daily Mail, 11 Agosto 2011]. Richard Littlejohn, jornalista do Daily Mail, chegou a avançar uma solução para se desembaraçar da «matilha de órfãos selvagens que assombram os bairros desfavorecidos»: «matá-los à mocada, como as focas bebés» [«The Politics of Envy was Bound to End Up in Flames», 12 Agosto 2011, http://www.daily-mail.co.uk/] .

Desde há anos que os comentadores se dedicavam a documentar a estupidez do «subproletariado» britânico; a partir de agora, eles descrevem-no como infestado por animais ameaçadores.


O primeiro-ministro conservador David Cameron, influenciado por análises desse tipo e por uma (compreensível) atmosfera de cólera e de pavor, sugeriu que as pessoas, dadas como culpadas de participação nos motins e nas pilhagens, sejam expulsas das suas habitações sociais e privadas dos seus apoios sociais. Uma mensagem límpida: se vocês são pobres e cometerem um crime, serão punidos duas vezes.

Com esta febre a levar à histeria, e a histeria ao absurdo, foram decretadas as mais despropositadas penas em processos expeditos: «Uma mãe de dois filhos não implicada nos tumultos, acaba de ser condenada a cinco meses de prisão por ter aceite uns calções provenientes de uma loja pilhada», postava a conta Twitter da polícia da cidade de Manchester, antes de a mensagem ser retirada. Uma pena de quatro anos − superior à aplicada em alguns assassinatos − foi infligida a dois jovens por terem tentado organizar, através do Facebook, um motim que nunca aconteceu.

Nos dias que se seguiram aos episódios de violência, a sociedade inglesa assemelhava-se à dos «animais doentes com peste» descrita por Jean da La Fontainte (1621-1695). Em 2009, o «escândalo das despesas» revelou que um grande número de parlamentares rapinava o dinheiro público. Mas só três deputados foram presos. Alguns tinham facturado aos contribuintes o mesmo tipo de ecrãs plasma que foram furtados nas pilhagens. Dado como culpado por ter obtido o reembolso de 8750 libras esterlinas (cerca de 10 mil euros) por uma televisão Bang & Olufsen, o deputado trabalhista Gerald Kaufman teve simplesmente de devolver o dinheiro. Por seu lado, Nicolas Robinson, um homem de 23 anos sem cadastro, vai passar seis meses na prisão: durante um motim, roubou água mineral no valor de 3,50 libras (cerca de 3,70 euros). Tudo depende de se ser poderoso ou miserável…







Pobres contra pobres

David Cameron começou por surpreender no discurso que fez a 15 de Agosto último. Os recentes acontecimentos, afirmou, «constituem um sinal de alarme para o nosso país: acabam de nos explodir na cara problemas sociais que estavam em incubação desde há décadas.» Será que os conservadores estavam a querer defender teses progressistas e a convidar a que fossem tomadas em consideração as raízes socioeconómicas dos motins? Não exactamente. Os «problemas sociais» que o primeiro-ministro identificava prometendo ter «a coragem de os enfrentar», resumiam-se a «um lento desmoronamento moral»: «Fihos sem pais, escolas sem disciplina e recompensas sem esforço».[1] Promover a lógica segundo a qual a pobreza decorreria de problemas comportamentais, de falhas (ou mesmo de escolhas) individuais constitui uma boa forma de legitimar o projecto conservador de corte dos orçamentos ligados à protecção social. Uma das mais contestadas propostas do governo consistiu em limitar o apoio à habitação, concedido principalmente a trabalhadores pobres. (…)

No Reino Unido, como noutros lugares, o desprezo e a intolerância suscitam a mais das vezes o opróbrio geral! (…) É a época em que os jornalistas e os dirigentes políticos de todos os quadrantes explicam que «a partir de agora fazemos todos parte da classe média». Todos, com excepção de um grupo que se situa no fundo da escala social. O suposto aburguesamento dos operários teria, na realidade, feito aparecer, como que por decantação, um refugo supérfluo. «Aquilo a que chamávamos as respeitáveis classes operárias, praticamente desapareceu», afirmava em 2007 o jornalista Simon Heffer. «Em geral, aqueles que dantes os sociólogos identificavam como “os trabalhadores” não fazem nada: vivem do Estado-providência»[2]

Raros são aqueles que, no seio da elite britânica, se preocupam tão pouco em disfarçar o seu discurso: tão raros como os que não partilham esta análise. Retomando as teorias do libertário norte-americano Charles Murray[3], a direita assegura que as pessoas que não integraram a classe média são excrescências «naturais» de mães solteiras. O New Labor de Tony Blair preferia qualificá-los como «excluídos». Sublinhando sempre, como Mathew Taylor, antigo director de estratégia de Tony Blair, que o conceito implica «que a pessoa se exclua a si própria, que a sua condição social se veja reproduzida pelo seu comportamento individual».

Uma evolução destas (pessoas) constitui uma vitória para a antiga primeira-ministra Margaret Thaetcher, instigadora da contra-revolução liberal no Reino Unido. Em 1978, seis meses antes da sua vitória, declarava: «Na verdade, a pobreza extrema desapareceu deste país». Se ela perdurava, aqui e acolá, era às vezes «porque algumas pessoas não sabem seguir um orçamento[4] (…) mas sobretudo porque o que persiste são os defeitos individuais».

Assistimos, então, à consolidação do consenso político segundo o qual toda a gente deve tender para a incorporação na classe média, mesmo que tenha de se punir os que «recusem» fazê-lo. Um trabalho de sapa desagrega os antigos pilares da identidade operária britânica: indústrias que faziam viver cidades inteiras, como por exemplo as docas ou as minas; instituições, como os sindicatos ou os investidores sociais; e certos valores, como o da solidariedade, desde então preterida em favor do individualismo.

A primeira consequência deste assalto é a modificação da forma como se olha para as classes populares. Num estudo da consultora Britain Thinks publicado em 2011, 71% das pessoas inquiridas descrevia-se como pertencendo às classes médias. «Desde o final dos anos 80 que coloco a mesma questão, que se prende com a identidade social», nota Deborah Mattinson, responsável pelo estudo. «Ora, desde há pouco tempo, a categoria “classes populares” parece representar um insulto, tal como outros termos como por exemplo ‘chav’»[5], mesmo para pessoas para quem a única categoria apropriada seria “classes populares”, mas que já não desejam ser associadas a uma categoria vista como desvalorizadora quando comparada com essa outra, mais gratificante, de “classes médias”.

No momento em que também a esquerda neotrabalhista abandona a ideia de que a pobreza e o desemprego resultam do sistema capitalista, surge um sentimento de culpa entre as vítimas do modelo económico vigente. Para elas, já não se trata de mudar as suas condições de vida, mas de lhes escapar.

No entanto, ninguém sugere que as classes populares não tenham evoluído. Em 1979, mais de 7 milhões de pessoas trabalhavam no sector industrial: hoje não são mais do que 2,5 milhões. Desde essa altura, encontramos menos trabalhadores nas minas e na grande indústria do que em call centers, supermercados ou escritórios. As tarefas são mais «limpas», menos físicas e podem ser executadas por mulheres. Mas os empregos são mais precários, menos prestigiosos e (ainda) mais mal pagos. Após três décadas de liberalização das leis sobre o trabalho, perto de 1,5 milhões de pessoas têm de se contentar com um trabalho a meio tempo. Um número equivalente de trabalhadores temporários pode ser despedido em menos de uma hora, sem qualquer indemnização. E não têm direito a férias pagas.



desempregados...



Em 2009, um estudo da Fundação Prince’s Trust estabeleceu que os jovens no desemprego eram mais susceptíveis do que os outros a sofrerem de ansiedade, de depressão ou de manifestarem comportamentos suicidas. Em Tottenham, onde os motins começaram, há 34 pedidos de emprego por cada oferta de trabalho. A imensa maioria das pessoas intimadas tem menos de 24 anos e está no desemprego. Será mesmo de espantar que esta população − que se considera sem futuro por não ter um emprego a conservar, nem uma carreira a construir − se tenha mais facilmente envolvido nos motins de Agosto passado do que a dos bairros ricos?

A pobreza e o desemprego não conduzem mecanicamente à pilhagem, mas basta uma minoria para mergulhar um bairro no caos.

Longe de constituírem o levantamento político dos pobres e dos deserdados que alguns esperavam, os motins de Agosto fizeram as suas principais vítimas entre os mais desprotegidos. Pobres contra pobres: uma divisão útil ao poder conservador, que não perde nenhuma oportunidade de a explorar. As «revelações» da imprensa sensacionalista relativas a «esses imigrantes que vivem no luxo»[6] estimulam seguramente o ressentimento de uma parte dos 5 milhões de pessoas que esperam com impaciência nas listas de espera da habitação social.

Da mesma forma, os «dossiês especiais» sobre as fraudes nos subsídios atiçam as brasas da cólera de todos os que se contentam com os mínimos sociais − mesmo que a fraude nas prestações sociais esteja avaliada em 1,2 milhões de libras por ano (cerca de 1,4 mil milhões de euros) e custe cinquenta e oito vezes menos, aos contribuintes, do que a evasão fiscal. (O ministro Pedro Mota Soares, do CDS-PP, anunciou hoje que «vai moralizar o Rendimento Social de Inserção diminuindo-o em 70 milhões de euros»... para poder dar um pouco mais aos Reformados com pensões de miséria - reformados, esses, que são a sua «base de apoio eleitoral» - acicatando, assim, o ódio entre pobres; ao mesmo tempo que anunciou que vai contratar dezenas de fiscais a mais para policiar os utentes do RSI... Já um Secretário de Estado havia, outrora, dito que iria contratar «fiscais» para fiscalizar os cafés por não passarem facturas...)

Os motins terão contribuído para a fragmentação das classes populares. Nestes tempos de descalabro financeiro, não é indiferente dirigir o olhar dos pobres para os seus vizinhos ainda mais pobres, em vez de o dirigir para as remunerações pagas aos membros dos conselhos de administração. Estas aumentaram 55% em 2010.

Owen Jones

Autor de: «Chavs. The Demonization of the Working Class», Verso, Londres, 2011.

in Le Monde Diplomatique (ed. em português), Setembro 2011, p. 21



[1] A MORALIZAÇÃO DA CRISE - Em Portugal foi este, igualmente, o discurso dominante do «Programa de Mário Crespo», com João Duque e Medina Carreira, na SIC-Notícias e que levou Nuno Crato (figurante habitual daquele Programa) ao poder… É este, ainda, o discurso dominante da Igreja católica em Portugal, também. Mal chegado ao poder, Nuno Crato esqueceu de imediato «a recompensa do esforço» … (entre outras coisas). [Nota do Editor deste blog]
[2] «We Pay to Have an Underclass», The Telegraph, Londres, 29 de Agosto de 2007.
3 in Rick Fantasia, «Sociologues contre pyromanes», Le Monde diplomatique, Fevereiro de 1998.
[4] Discurso de Isabel Jonet e de alguns acólitos da DECO que julgam que, instruindo os casais pobres a elaborar Folhas de cálculo-Excel com as despesas mensais, conseguem que eles se livrem da pobreza…
[5] ‘Chav’ sinónimo de ‘proleta’, ‘escumalha’ ou ‘criança’ (em linguagem rome), ‘jovem de origem popular que usa fato de treino’ [dicionário Collins], ‘anti-social’, ‘ignorante’, ‘consumidor de álcool’, etc. cf. The Independent, Londres, 20 de Março de 2011.
[6] Os nossos sentimentos mais baixos, como p. ex., a inveja: lembremo-nos dos comentários feitos aos utentes do Rendimento Mínimo que «tomavam o pequeno-almoço no Bar» enquanto nós, os bem empregados, o tomamos em casa antes de sair… [Nota do Editor deste blog]

14 de novembro de 2011

OS BENS ESSENCIAIS (ÁGUA, SOLO, ETC.) SÃO COMERCIÁVEIS?

Há realidades sagradas: o ar, a água, a luz, «o pão de cada dia» para todos, um tecto, a instrução, um ambiente harmonioso, a informação, a dignidade, a liberdade democrática, a fruição, a liberdade religiosa, a sexualidade, a solidariedade, a responsabilidade, a posse universal do solo – são realidades «cavalgadas» por Deus, são de Deus, são bens universais tal como Deus é universal. Há que enxotar, delas, Mamon para longe… «Não é possível montar os dois cavalos ao mesmo tempo» [Mt 6:24; Lc 16:13]

Os Mercados Financeiros têm de ser sujeitados, pela força, a políticas justas, e não o contrário... «À força», porque entre ambos «há um grande abismo» [Lc 16:26], entre ambos existem fetiches insuspeitadamente fortes – ex.: «o mercado requer uma boa medida de violência exterior ao seu âmbito para que estabeleça e mantenha as condições do seu funcionamento».

Mas Jesus disse: ‘O Sábado foi feito para o Homem’ e não o contrário… [Mc 2:27]. «O Sábado» - Jesus tinha uma noção sistémica muito clara (e nunca somente psicologizante, cordial ou egotista) do Reino.



trigo nos EUA



O «capital» é o Real das nossas vidas
A irracionalidade global do capitalismo



milho em África
 

Eis o que devemos responder aos que rejeitam qualquer tentativa de pôr em questão os fundamentos da ordem democrático-liberal capitalista considerando que essas tentativas são perigosamente utópicas: é com as consequências dessa mesma ordem que nos confrontamos na crise actual. Embora o liberalismo se apresente como o anti-utopismo encarnado, e o triunfo do neoliberalismo como sinal de que deixámos para trás os projectos utópicos responsáveis pelos horrores totalitários do século XX, torna-se hoje claro que a verdadeira época utópica foi a feliz época clintoniana de 90, com a sua crença em que atingiríamos o «fim da História» e em que a humanidade descobriria, enfim, a fórmula óptima da ordem económica e social.

Mas a experiência mostra-nos que o mercado não é um mecanismo benigno que funciona melhor quando o abandonamos aos seus próprios automatismos: o mercado requer uma boa medida de violência exterior ao seu âmbito para que estabeleça e mantenha as condições do seu funcionamento.

A derrocada financeira em curso demonstra como é difícil desbravar o espesso emaranhado das premissas utópicas que determinam os nossos actos. Como Alain Badiou sucintamente afirma:

«O cidadão comum terá de «compreender» que é completamente impossível «tapar o buraco» da segurança social, mas que é preciso colmatar sem olhar a despesas o «buraco» financeiro de biliões que ameaça os bancos? Teremos de aprovar ‘com um ar grave e sério’ que ninguém pense na possibilidade de nacionalizar uma fábrica que a concorrência pôs em dificuldades e na qual trabalham milhares de operários, mas que a nacionalização se impõe como uma evidência no caso de um banco que a especulação levou à bancarrota? De quel réel cette crise est-elle le spectacle?», Le Monde, 18 Outubro 2008]


Podemos, a partir daqui, generalizar a ideia: embora reconhecêssemos sempre a urgência dos problemas enquanto combatíamos a SIDA, a fome, a escassez da água, o aquecimento global, etc., parecia haver sempre um tempo para reflectir, para adiar decisões (recorde-se como a principal conclusão da última cimeira de dirigentes mundiais em Bali, apregoada como uma vitória, foi que, dentro de dois anos, voltariam a encontrar-se para continuar as conversações…). Mas, com a derrocada financeira, a urgência de agir foi incondicional e foram efectivamente disponibilizados de um momento para o outro montantes de proporções inconcebíveis. Salvar as espécies ameaçadas, salvar o planeta do aquecimento global, salvar os doentes da SIDA e as pessoas que morrem por falta de meios que lhes dêem acesso a tratamentos dispendiosos, salvar crianças famintas… enfim, tudo isso pode esperar um momento mais. O apelo «Temos de salvar os bancos!», em contrapartida, impõe-se como um imperativo incondicional à acção imediata.

O pânico (nos EUA) foi tão absoluto que se estabeleceu instantaneamente uma unidade transnacional e não-partidária, e todos os desentendimentos entre os dirigentes mundiais foram postos de parte por um momento a fim de se evitar a catástrofe. Mas o que esta cooperação «supra-partidária» dos dois partidos americanos significava era que os próprios procedimentos democráticos tinham, de facto, sido suspensos: não havia tempo para um debate como devia ser, e os que se opuseram ao plano do Congresso foram rapidamente obrigados a ceder perante a maioria. Bush, McCain e Obama reuniram de urgência, explicando logo a seguir a uma assembleia estupefacta que pura e simplesmente não havia tempo para discussões: estávamos numa situação de emergência e as coisas tinham de ser feitas o mais depressa possível… Por fim, não esqueçamos que os fundos mobilizados, e que eram de uma envergadura sublime, não serviram para a resolução deste ou daquele problema «real» ou concreto, mas essencialmente para restabelecer a confiança nos mercados − ou seja, serviram somente para agir sobre as crenças das pessoas!

Será necessária alguma prova mais de que o Capital é o Real das nossas vidas, um Real cujos imperativos são muito mais absolutos do que as exigências mais urgentes da nossa realidade social e natural? Foi Joseph Brodsky quem elucidou com perspicácia a solução adequada no que se refere à busca desse misterioso «quinto elemento», o ingrediente mais essencial da nossa realidade: «Ao lado do ar, da terra, da água e do fogo, o dinheiro é a quinta força natural que um ser humano as mais das vezes tem de ter em conta» [Joseph Brodsky, Less Than One: Selected Essays, Nova Iorque, Farrar Strauss and Giroux, 1986, p. 157] Se tivéssemos alguma dúvida a este respeito, um rápido relance sobre a recente crise financeira seria mais do que suficiente para a dissipar.

Em finais de 2008, uma equipa de investigadores, que estudava as tendências epidémicas da tuberculose na Europa de Leste ao longo das décadas mais recentes, tornou públicos os seus principais resultados. Depois de terem analisado dados relativos a mais de 20 Estados, os investigadores de Cambridge e Yale estabeleceram uma correlação clara entre os empréstimos concedidos a esses Estados pelo FMI e o aumento de casos de tuberculose: após o termo dos empréstimos, a epidemia de tuberculose começa a regredir. A explicação dessa correlação aparentemente extravagante é simples: a condição dos empréstimos concedidos é a introdução, pelos Estados que os obtêm, duma «disciplina financeira» − ou seja, a redução da despesa pública − e a primeira vítima das medidas destinadas ao restabelecimento da «saúde financeira» é a própria saúde, a despesa pública com os serviços de saúde. Abre-se, então, o campo que permite aos ocidentais humanitários denunciarem o estado catastrófico dos serviços médicos nos países em causa, oferecendo-lhes o seu auxílio sob a forma de beneficência.

A derrocada financeira tornou impossível que continuasse a ser ignorada a irracionalidade global do capitalismo. Comparem-se os 700 biliões de dólares dispendidos pelos EUA para a estabilização do sistema bancário com o facto de, dos 22 biliões de dólares prometidos pelas nações mais ricas a título de auxílio a prestar às mais pobres, só 2,2 biliões terem sido até ao momento disponibilizados. A culpa da crise alimentar não pode ser imputada aos suspeitos do costume − ou seja, à corrupção, à ineficácia e ao intervencionismo dos Estados do Terceiro Mundo − pelo contrário, está directamente ligada à globalização agrícola, como o próprio Bill Clinton em pessoa deixou claro, nos seus comentários sobre a crise, numa reunião das Nações Unidas, celebrada para assinalar o Dia Mundial da Alimentação, objecto de uma comunicação significativamente noticiada sob o título: «Falseámos o Problema da Alimentação Global». [Associated Press, 23 Outubro 2008] O fulcro do discurso de Clinton foi o reconhecimento de que a presente crise mostra como «falseámos os dados do problema, e eu próprio o fiz durante a minha presidência», encarando as culturas como mercadorias e não como um recurso manifestamente vital para as populações pobres.




poço em Natwarghad (Índia)_2003_a água é um bem universal... raro!


Clinton foi extremamente preciso em atribuir as culpas, não a Estados ou governos isolados, mas às políticas ocidentais de longo prazo impostas pelos EUA e pela União Europeia, e aplicadas durante décadas pelo Banco Mundial, pelo FMI e outras instituições internacionais. As políticas em causa pressionaram os países africanos e asiáticos a conceder subsídios governamentais para fertilizantes, sementes mais produtivas e outros meios agrícolas, favorecendo assim a exploração das melhores terras em vista da exportação e aniquilando, ao mesmo tempo, a capacidade de auto-suficiência, em matéria de produção alimentar, dos países implicados. O resultado destes «ajustamentos estruturais» foi a integração da agricultura local na economia global: à medida que cresciam as exportações das suas colheitas, os países que as exportavam viam-se obrigados a recorrer cada vez mais à importação de bens alimentares, enquanto os camponeses, expulsos das suas terras, eram forçados a instalar-se em bairros miseráveis e a trabalhar nas oficinas, como sub-contratados, os únicos locais que lhes oferecia um posto de trabalho. Deste modo, muitas regiões são mantidas num estado de dependência pós-colonial, tornando-se cada vez mais vulneráveis às flutuações do mercado: nos últimos anos a subida espectacular dos preços dos cereais (causada igualmente pela sua utilização como biocombustíveis, em vez de como ‘bens alimentares’) tem sido causa de cenários de fome em vários países, do Haiti à Etiópia (veja-se o caso de Moçambique).

No período recente, as estratégias deste tipo tornaram-se mais sistemáticas e diversificadas: grandes empresas internacionais, em parceria com os governos, procuram hoje compensar a penúria de terras aráveis dos países onde estão sediadas através da implantação de enormes unidades de agricultura industrial no exterior. [Vivienne Walt, «The breadbasket of South Korea: Madagascar», Time, 23 Novembro de 2008] Por exemplo, em Novembro de 2008, a Daewoo Logistics, na Coreia do Sul, anunciava que concluíra com Madagáscar um arrendamento por noventa e nove anos de cerca de trezentos mil hectares de savana, equivalendo a quase metade das terras aráveis da ilha. A Daewoo planeia dedicar mais de três quartas partes das terras arrendadas ao cultivo do milho, usando a restante área para a produção de óleo de palma, um produto da maior importância no mercado global dos biocombustíveis. Mas esta parte é apenas a porção emersa do iceberg: várias firmas europeias, nos últimos dois anos, adquiriram também direitos que lhes permitem usar vastas áreas de terra para produções agro-alimentares e de biocombustíveis − tal é, entre outros, o caso da companhia britânica Sun Biofuels, que explora, com os referidos propósitos, plantações na Etiópia, em Moçambique e na Tanzânia. O solo fértil de África atrai, do mesmo modo, certos países do Golfo Pérsico (ricos em petróleo), que, contando com grandes extensões desérticas, se vêem obrigados a importar a maior parte dos seus géneros alimentares. A verdade é que, embora Estados tão ricos possam pagar sem problemas as importações de bens agrícolas de consumo, os sobressaltos dos mercados globais dos produtos alimentares têm vindo a intensificar as suas preocupações quanto a garantirem fontes de provisões seguras.

Mas, qual é, então, o incentivo que move a outra parte, constituída por países africanos assediados pela fome, cujos agricultores não dispõem das ferramentas necessárias, nem de infra-estruturas − fertilizantes, combustíveis e transportes − que lhes permitiria uma produção eficaz e a colocação das suas colheitas no mercado? Os porta-vozes da Daewoo afirmam que o acordo celebrado beneficiará também Madagáscar, não só porque as terras arrendadas não estavam a ser utilizadas, mas também porque:


«…embora a Daewoo tencione exportar o rendimento da terra, … tenciona investir cerca de 6 biliões de dólares ao longo dos próximos 20 anos na construção das instalações portuárias, estradas, centrais produtoras de energia, sistemas de irrigação, cujo conjunto é necessário ao desenvolvimento da sua actividade na ilha, criando assim milhares de postos de trabalho que acolherão muitos desempregados do país. Os empregos criados ajudarão a população de Madagáscar a poder dispor do dinheiro de que precisa para comprar géneros alimentares, ainda que estes tenham de ser importados[ibidem]


O círculo da subordinação pós-colonial volta a fechar-se, e a dependência alimentar só pode tender para se exacerbar.

Não estaremos assim a aproximarmo-nos de um estado global em que a potencial escassez de três recursos materiais de importância fundamental (petróleo, água e bens alimentares) se tornará o factor determinante da política internacional? Não será a escassez alimentar − que se torna visível em crises (por enquanto) esporádicas que têm lugar aqui e ali − um dos sinais dum apocalipse a caminho? Embora as manifestações da escassez sejam sobre-determinadas por múltiplos factores (a procura crescente em Estados que se desenvolvem rapidamente como a Índia e a China; as colheitas afectadas por alterações de ordem ecológica; a utilização de grandes fracções das terras aráveis de países do Terceiro Mundo para produções destinadas à exportação; a utilização determinada pelo mercado de cereais para fins não alimentares como a produção de combustível), parece evidente que estamos, aqui, não perante um problema que diz respeito ao curto prazo e que pode ser resolvido por meio duma regulação adequada do mercado, mas antes na presença de sinais que indicam um problema a longo prazo impossível de se solucionar através dos meios ao alcance de uma economia de mercado. Alguns apologistas da nova ordem mundial assinalam que a escassez alimentar é por si só um indicador de progresso material − ou seja, indicador do facto de que as populações dos países do Terceiro Mundo (que conhecem um rápido processo de desenvolvimento) ganham melhor e por isso se permitem alimentar-se melhor. Todavia, o problema é que esta nova procura alimentar atira milhões de seres humanos para situações de fome nos países que não conhecem um crescimento económico semelhante.

Não poderemos dizer o mesmo acerca da crise energética que se anuncia e das dificuldades de provisão de água das populações?

Se quisermos enfrentar adequadamente estes problemas, será necessário inventarmos novas formas de acção colectiva a uma escala alargada − nem as formas estabelecidas de intervenção do Estado, nem as muito gabadas formas de auto-organização local poderão encarregar-se de levar a cabo a tarefa. Se os mesmos problemas não forem resolvidos de uma maneira ou de outra, o cenário mais provável será uma nova era de apartheid, fazendo com que certas áreas protegidas do mundo gozem de abundância de água, alimentação e energia, isoladas face a um «exterior» caótico caracterizado pelo caos generalizado, pela fome e pelas guerras permanentes. Que deveriam fazer as populações do Haiti e de outras regiões vítimas de condições extremas de privação? Não terão todo o direito de recorrer à revolta por meios violentos? O comunismo está, uma vez mais, às portas da cidade.
Clinton tem razão quando diz que «a produção alimentar não é uma mercadoria como as outras. Devemos regressar a uma política visando um máximo de auto-suficiência alimentar. É uma loucura pensar que podemos desenvolver esta ou aquela região do mundo sem aumentarmos a sua capacidade de se alimentar pelos seus próprios meios Mas é necessário acrescentar, a este propósito, pelo menos dois pontos.

Primeiro, como já antes observamos a propósito do Mali, embora impondo a globalização da agricultura aos países do Terceiro Mundo, os países ocidentais desenvolvidos cuidam ao máximo de manter a sua própria auto-suficiência alimentar mediante os apoios que concedem aos seus agricultores, etc. (Lembremo-nos que os apoios financeiros concedidos aos agricultores representam mais de metade do total do orçamento da União Europeia, o que mostra bem como o Ocidente nunca abandonou a «política da máxima auto-suficiência alimentar»).

Segundo ponto, deveríamos fazer ver que a lista dos produtos e serviços que, como a alimentação, não são «mercadorias como as outras» é muito mais vasta, incluindo não só a defesa (aspecto do qual todos os «patriotas» têm consciência), mas também, e sobretudo, a água, a energia, o meio ambiente enquanto tal, a cultura, a educação e a saúde

Neste domínio, quem decidirá das prioridades e como o fará, se tais decisões forem abandonadas ao mercado?

É aqui que temos de levantar, uma vez mais, a questão do comunismo.


Slavoj Zizec

in «DA TRAGÉDIA À FARSA» (parte do capítulo ‘De novo o comunismo’), Relógio d’Água editores, Out. 2010, pp.94-101. ISBN 978-989-641-196-1.



10 de novembro de 2011

ENDIVIDAMENTO DAS FAMÍLIAS PORTUGUESAS - UM MITO

O ENDIVIDAMENTO DAS FAMÍLIAS PORTUGUESAS
- um Mito Ideológico… ou de como as nossas reacções não passam de ‘caixa de ressonância’ dos tambores neo-liberais






«Temos vivido acima das nossas possibilidades?»


Faz hoje parte do senso comum a ideia de que todos os portugueses, sem excepção, andaram a viver acima das suas possibilidades.[1] (…)

A ideia de que andamos todos a viver acima das nossas possibilidades não só não é verdade, como não é inócua. Ela contribui, intencionalmente ou inadvertidamente, para a aceitação de que é chegada a hora de pagarmos a factura da nossa irresponsabilidade, individual e colectiva.

É certo que as famílias portuguesas se endividaram ao longo das duas últimas décadas e que este endividamento cresceu a um ritmo muito acelerado. Na última década, de um valor de cerca de 60% em 2000, medido em percentagem do Produto Interno Bruto (PIB), a dívida das famílias portuguesas atingiu, em 2010, o valor de 95%. Também é verdade que, no contexto da Zona Euro, estes valores só são superados pela Dinamarca (150%), Holanda (130%), Irlanda (120%) e Reino Unido (100%), sendo o valor médio para esta Zona de cerca de 65%.

O crédito total concedido às famílias é hoje superior ao crédito que as instituições financeiras concedem às empresas, o que traduz uma maior dependência da banca em relação a este segmento de mercado.[2] Embora a dívida das famílias portuguesas seja muito elevada quando medida em percentagem do PIB, o valor do crédito total concedido às famílias portuguesas corresponde a menos de metade do valor médio do crédito concedido na UE (União Europeia) [137.967 e 284.842 mil milhões de euros, respectivamente], o que equivale a uma dívida de 12.962 mil euros per capita (para uma média de 15.455 mil euros na UE dos 27 países).[3]

O endividamento das famílias portuguesas é o resultado das políticas monetárias e financeiras das duas últimas décadas que promoveram a desregulamentação do sistema financeiro português com vista à criação de uma união monetária entre países muito diferentes, da qual Portugal fez parte desde o início. Assistiu-se desde então à abolição de barreiras legais, o que tornou mais fácil a concessão de crédito por parte das instituições bancárias, e uma intensa inovação financeira que permitiu potenciar o nível de crédito para uma mesma captação de depósitos. Tudo isto num clima de forte concorrência que fomentou ainda mais a oferta de crédito, em particular no segmento do crédito à habitação. Verificou-se ainda uma acentuada descida das taxas de juro, o que tornou o crédito mais acessível a um conjunto mais vasto de famílias.

O endividamento está também directamente relacionado com a política habitacional pública, considerando que os empréstimos à habitação representam cerca de 80% do total da dívida das famílias. Com efeito, a política habitacional concentrou-se quase exclusivamente no apoio à compra ou construção de habitação própria, através de um sistema de crédito bonificado e de um conjunto de incentivos fiscais favoráveis (por exemplo, deduções fiscais das ‘contas poupança habitação’). E isto ocorreu num contexto de uma praticamente inexistente política pública de arrendamento, com escassez de casas para arrendar e, portanto, rendas elevadas para as casas disponíveis.[4] Segundo dados do Eurostat, cerca de 75% das famílias portuguesas são hoje proprietárias da habitação onde residem, um valor ligeiramente acima da média europeia. (…)



1. Crédito à habitação: grande peso, baixo risco

Além do contexto macroeconómico que contribuiu para o endividamento dos portugueses, importa analisar com algum detalhe o conteúdo e a distribuição da dívida, bem como a sua relação com a riqueza gerada no país.

Como já foi referido, cerca de 80% do crédito às famílias destina-se à aquisição ou construção de habitação própria. Este facto é relevante pois mitiga a gravidade do endividamento das famílias.

Em primeiro lugar, porque este tipo de crédito confere um baixo nível de risco: a dívida contraída pelas famílias está razoavelmente protegida pelo valor do imóvel, considerando que não se verificou em Portugal, como aconteceu noutros países, uma sobrevalorização dos preços da habitação. A esta segurança acrescem ainda as garantias pessoais prestadas pelos fiadores neste tipo de crédito.

Em segundo lugar, porque o peso dos encargos mensais das prestações dos empréstimos à habitação no rendimento mensal das famílias é relativamente reduzido em Portugal, quando comparado com outros países da Zona Euro.[5] De facto, a taxa de incumprimento relativa ao crédito à habitação é considerada baixa, situando-se na ordem dos 2% relativamente ao crédito contraído. Já o crédito ao consumo e outros fins, que representa apenas cerca de 20% do crédito pelas famílias, apresenta taxas de incumprimento na ordem dos 8%. Uma diferença que se explica pelo menor risco-associado face ao crédito à habitação, como já foi referido, pela importância da habitação na vida das famílias e pela maior vulnerabilidade dos devedores face às condições desfavoráveis destes empréstimos no pouco regulado segmento do crédito ao consumo.

É ainda de registar que o crédito mal-parado das famílias (total do crédito à habitação e crédito ao consumo e 'outros fins') se situa abaixo do crédito mal-parado das empresas (de acordo com o Banco de Portugal, 3% e 5%, respectivamente).


 

2. Só 40% das famílias, as de maiores rendimentos

Não só o endividamento das famílias portuguesas se concentra em empréstimos que representam um risco diminuto, como esta dívida se concentra em famílias que pertencem aos escalões de rendimento superior. De facto, segundo dados do Inquérito ao Património e Endividamento das Famílias, levado a cabo pelo Instituto Nacional de Estatística e pelo Banco de Portugal em 2006-2007, apenas cerca de 40% das famílias portuguesas participam no mercado da dívida, sendo que 30% das famílias participam no mercado do crédito à habitação e 10% participam apenas no mercado do crédito 'para outros fins'.[6]

Este inquérito revela que a dívida se concentra nos estratos de rendimento mais alto, em agregados jovens, com nível educacional elevado e cujo representante é trabalhador assalariado. Facilmente se constata que as características socioeconómicas das famílias endividadas estão relacionadas e reflectem as condições de procura e oferta do mercado de crédito.

Se, por um lado, são os agregados mais jovens e em início de vida que têm maior necessidade de recorrer ao crédito, por outro, também são os estratos com maior nível educacional, maior nível de rendimento e com uma situação estável no mercado de trabalho que acedem mais facilmente ao crédito.

Pode, então, concluir-se que, não só, mais de metade dos portugueses têm vivido exclusivamente com os seus recursos, como aqueles que recorrem ao crédito têm vivido de acordo com as suas possibilidades. (…)


O crescimento do peso da dívida das famílias no PIB (a que aludimos acima) também se deve ao abrandamento da actividade económica.[7]

E é hoje certo que as medidas de austeridade impostas pela UE e pelo FMI para os próximos três anos impossibilitarão qualquer recuperação económica nesse período.

A exigência de reequilíbrio das finanças públicas gerará inclusivamente uma recessão severa, podendo agravar os desequilíbrios financeiros do sector privado e, desta forma, contribuir para a fragilização dos próprios bancos, que até agora beneficiavam de um negócio com risco reduzido (o negócio do crédito à habitação).


Ana Cordeiro Santos

Economista, investigadora do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra.

in Le Monde Diplomatique, ed. portuguesa, Julho de 2011, p. 24.



[1] [Nota do Editor deste blog] Pelo que o discurso dominante oficial (sacrificial) conclui: ‘Teremos todos, agora, de pagar por isso…».
[2] ‘Relatório de Estabilidade Financeira’, Banco de Portugal, Maio de 2011.
[3] ‘European Credit Research Institute’ (dados de 2009).
[4] Maria Manuel L. Marques, Vítor Neves, Catarina Frade, Flora Lobo, Paula Pinto e Cristina Cruz, ‘O Endividamento dos Consumidores’, Almedina, Coimbra, 2000.
[5] Luísa Farinha, «O endividamento das famílias portuguesas: evidência recente com base nos resultados do IPEF 2006-2007», in ‘Relatório de Estabilidade Financeira 2007’, Banco de Portugal, Lisboa, 2007; e Eurostat, «Housing Conditions in rope in 2009», ‘Statistics in Focus’ 4/2011, European Union, 2011.
[6] Dados obtidos em Luísa Farinha, op. cit. Embora estes dados se refiram a 2006-7, tendo em conta que o endividamento das famílias abrandou nos últimos quatro anos, não é de esperar que a participação das famílias portuguesas no mercado de crédito tenha aumentado nos últimos anos. Ver ‘Relatório de Estabilidade Financeira’, Banco de Portugal, Maio de 2011.
[7] Se aferirmos o peso da dívida ao PIB, basta que o PIB baixe para que a percentagem da dívida suba… É óbvio! Ou seja, quanto mais recessão maior é a dívida, mesmo que ninguém contrate um único cêntimo a mais de crédito junto da Banca!!! [Nota do Editor deste blog]