teologia para leigos

8 de novembro de 2011

AS DESIGUALDADES SOCIAIS EXIGEM SEUS SACERDOTES 2/2

[os Telejornais «da Crise» têm-se afanosamente ocupado dos «casos de sucesso»: são inúmeros «os números de circo» que todos eles nos têm servido ao almoço e ao jantar. A mistificação, a divinização do exótico e do dejecto, a intoxicação neo-liberal, a Nova Religião, o «ópio do Povo» [Rui Reininho]... Alguns cristãos alimentam-se dessa fezada!]

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Não há ‘Sistema de Castas’ sem exclusão



«Intocáveis» - recolhendo o esterco...



 A este propósito, foi exemplar o conflito que opôs B. R. Ambedkar e Gandhi durante a década de 30. Embora Gandhi tenha sido o primeiro político hindu a advogar a plena integração dos Intocáveis [os párias, os sem-casta] e lhes tenha chamado «os filhos de Deus», via na sua desvalorização uma corrupção do sistema hindu original. O que Gandhi tinha em vista era antes uma ordem (formalmente) não hierárquica de castas no interior da qual cada indivíduo tivesse um lugar determinado: Gandhi sublinhava a importância do trabalho de recuperação dos lixos e celebrava os Intocáveis por cumprirem essa missão «sagrada».

É aqui que os Intocáveis ficam expostos à maior tentação ideológica: em termos que evocam a actual «política de identidade», Gandhi permitia-lhes «enamorarem-se de si próprios» na sua identidade humilhante, aceitarem o seu trabalho degradante como uma tarefa social nobre e necessária, verem inclusivamente na natureza degradante do seu trabalho um sinal do seu espírito de sacrifício, da sua disposição de assumirem uma tarefa suja em benefício da sociedade. Até mesmo a sua injunção mais «radical», recomendando que todos, sem exceptuar os brâmanes, limpassem os seus próprios excrementos, acaba por encobrir o verdadeiro problema, que, mais do que uma atitude individual, releva da natureza da organização global da sociedade.

(O mesmo risco ideológico intervém hoje, quando somos bombardeados de todos os lados com a injunção de reciclarmos o lixo que fazemos, de pormos as garrafas, os jornais velhos, etc., nos contentores apropriados. Deste modo, a culpa e a responsabilidade são personalizados: não é a organização global da economia que devemos incriminar, mas a nossa atitude subjectiva que devemos inflectir.)

Ora, a tarefa não é mudarmos a nossa personalidade interior, mas abolir a intocabilidade enquanto tal − ou seja, não um simples elemento do sistema, mas o próprio sistema que o engendra. Ao contrário de Gandhi, Ambedkar viu claramente que assim era, quando:

‘sublinhava a futilidade da mera abolição da intocabilidade, uma vez que, sendo esse mal produto de uma hierarquia social de certo tipo, era todo o sistema de castas que deveria ser eliminado: «Os sem-casta [Intocáveis] existirão enquanto as castas existirem.» … Gandhi, por seu lado, replicou que estavam aqui em causa os próprios fundamentos do hinduísmo, entendido este como uma civilização que, na sua forma original, ignorava efectivamente a hierarquia.’[1]

Embora Gandhi e Ambedkar se respeitassem mutuamente e tenham colaborado com frequência no combate pela dignidade dos Intocáveis, há um aspecto em que diferem irremediavelmente: trata-se da diferença entre a solução «orgânica» (que resolve o problema através do regresso à pureza do sistema original antes da sua corrupção) e a solução verdadeiramente radical (que identifica o problema como «sintoma» do conjunto do sistema − sintoma que só pode ser removido através da abolição do sistema no seu conjunto).[2] Ambedkar viu claramente como a estrutura das quatro castas não reúne quatro elementos pertencentes à mesma ordem: enquanto as primeiras três castas (sacerdotes, reis-guerreiros, mercadores-produtores) formam um Todo consistente, uma tríade orgânica, os intocáveis são, como o «modo de produção asiático», a «parte dos sem-parte», o elemento inconsistente no interior do sistema, que representa o lugar daquilo que o sistema enquanto tal exclui − e, nessa medida, os intocáveis representam a universalidade. Ou, como diz Ambedkar através dum hábil jogo de palavras: «Os sem-casta existirão enquanto existirem castas.» Enquanto existirem castas, existirá um elemento excedentário e excrementício de valor zero, que, embora fazendo formalmente parte do sistema, não tem lugar próprio no seu interior. Gandhi oblitera este paradoxo, como se fosse possível uma organização harmoniosa em termos de castas.

O paradoxo dos Intocáveis está no facto de serem duplamente marcados pela lógica excrementícia: não só lidam com a impureza dos excrementos, como o seu próprio estatuto formal no interior do corpo da sociedade é o do excremento.

É por isso que o paradoxo propriamente dialéctico é que, se quisermos romper com o sistema das castas, não basta transformarmos o estatuto dos intocáveis, elevando-os à condição de «filhos de deus» − o primeiro passo deverá ser precisamente o contrário: universalizar o seu estatuto excrementício ao conjunto da humanidade.

Martinho Lutero, abertamente, propôs uma identidade excrementícia semelhante para o homem: o homem é como um excremento divino, caído do ânus de Deus − e, com efeito, só no interior desta lógica protestante da identidade excrementícia do homem é que podemos formular o verdadeiro sentido da Encarnação.

 Na Igreja Ortodoxa, Cristo perde, em última análise, o seu estatuto excepcional: a sua própria idealização, a sua exaltação como nobre modelo, redu-lo a uma imagem ideal, uma figura a ser imitada (todos os homens têm o dever de se esforçar por serem Deus) − a imitatio Christi é uma fórmula mais ortodoxa do que católica.

No catolicismo, a lógica predominante é a de uma troca simbólica: os teólogos católicos gostam de ponderar com argumentos escolásticos de ordem jurídica de que modo pagou Cristo o preço pelos nossos pecados, etc. (…)

Estamos aqui perante aquilo a que nos poderíamos ironicamente referir como a posição teológico-cósmica proletária, cujo «juízo infinito» é a identidade do excesso e da universalidade: o excremento da terra é o sujeito universal.

(Este estatuto excrementício do homem é já assinalado pelo papel do sacrifício nos Vedas originais: através da substituição da vítima sacrificial aos humanos, o sacrifício dá testemunho do papel excêntrico e excepcional do homem na grande cadeia alimentar − parafraseando Lacan, o objecto sacrificial representa o homem para os outros membros «comuns» da cadeia alimentar.)


Eis uma passagem bastante surpreendente, senão abertamente chocante, das Memórias de Pablo Neruda, que se refere precisamente ao espaço excrementício invisível e ao que se pode descobrir através da sua experiência − o episódio descrito por Neruda teve lugar quando ele era cônsul do Chile no Sri Lanka (Ceilão):

“O meu bungalow solitário ficava longe de qualquer zona urbana. Depois de o ter arrendado, tentei descobrir onde ficava a retrete, sem conseguir dar com ela fosse onde fosse. De facto, não se encontrava perto do banho, mas nas traseiras da casa. Examinei-a com curiosidade. Era uma caixa de madeira com um buraco no meio, muito parecida com as peças do mesmo género que eu conheci no Chile rural da minha infância. Mas as nossas sanitas estavam colocadas por cima de um poço fundo ou de um regato. Aqui, o receptáculo era um simples balde de metal instalado por debaixo do buraco redondo.

O balde era limpo todas as manhãs mas eu não fazia a menor ideia de como desaparecia o seu conteúdo. Um dia, levantei-me mais cedo do que o costume, e fiquei desconcertado com o que vi.

Nas traseiras da casa, movendo-se como uma estátua sombria, vi entrar a mulher mais bela que alguma vez pudera ver em Ceilão, uma tamil da casta dos párias. Vestia um sari vermelho e dourado de pano barato. Trazia nos pés descalços pesadas argolas. Dois pequenos pontos vermelhos brilhavam em cada uma das suas narinas, duas contas de vidro, sem dúvida, mas que nela se diriam rubis.

Aproximou-se solenemente da latrina, sem sequer me relancear de passagem, não se dando ao trabalho de reconhecer a minha existência, e, a seguir, afastou-se e desapareceu, levando à cabeça aquele recipiente repugnante, deslocando-se com os passos de uma deusa.

Era tão maravilhosa que, esquecendo a humilde tarefa que desempenhava, eu não era capaz de a tirar do pensamento. Como um arisco animal da floresta, pertencia a uma outra espécie de existência, a um mundo diferente. Chamei-a, mas em vão. A partir desse momento, ponho de vez em quando uma oferenda no seu caminho: um pano de seda ou alguma fruta. Ela passa sem ouvir, nem olhar. Aquela ignóbil rotina transformou-se, devido à sua beleza sombria, na cerimónia prescrita de uma rainha indiferente.

Uma manhã, decidi-me a levar o caso até ao fim. Segurei-a com força pelo pulso e olhei-a nos olhos. Não havia língua que me permitisse falar com ela. Sem um sorriso, deixou-se conduzir e, pouco depois, estava nua na minha cama. A sua cintura delgada, as suas ancas cheias, as taças transbordantes dos seus seios faziam-na parecer uma dessas esculturas milenares que encontramos no sul da Índia. Era o encontro entre um homem e uma estátua. Ela conservou os olhos abertos o tempo todo, completamente sem reagir. Tinha razão ao desprezar-me. A experiência nunca mais se repetiu.”[3]

Neruda limita-se, depois, a passar a outros assuntos. Mas a passagem é notável e não pelos motivos mais óbvios: a descrição despudorada de uma violação, com os detalhes mais sujos discretamente silenciados («deixou-se conduzir e, pouco depois, estava nua na minha cama» − como ficou nua? É evidente que não foi ela a despir-se), a mitificação da passividade da vítima apresentada como indiferença divina, a falta da mais elementar decência ou vergonha por parte do narrador (se se sentia atraído pela rapariga, não o embaraçava saber que ela cheirava, via e manipulava os seus excrementos todas as manhãs?).

O seu traço mais digno de atenção é a divinização do excremento: uma deusa sublime aparece no preciso local onde os excrementos se escondem. Devemos considerar com a máxima seriedade a seguinte equação: elevar o Outro exótico à condição de uma divindade indiferente equivale estritamente a tratá-la como excrementos.

Slavoj Zizek


«Viver no Fim dos Tempos», Relógio d’Água, Junho 2011, pp. 44-48. ISBN 978-989-641-238-8.


[1] Christophe Jaffrelot, Dr Ambedkar and Untouchability, Nova Deli, Permanent Black, 2005, pp. 68-69.
[2] Não é este o formato do discurso do Ministro Mota Soares ao dizer que «os utentes do Subsídio de Desemprego devem procurar voltar o mais rápido possível ao mercado de trabalho [ao estado originário em que se encontravam antes de caírem no desemprego] para não se habituarem a subsídios…»? Donde a conclusão: «os subsídios devem ser muito baixos e de muito curta duração» para não fabricarem preguiçosos, nem alimentarem vícios… , afirmação produzida também por Isabel Jonet na TSF e na TV.[nota deste editor]
[3] Pablo Neruda, Memoirs, Nova Iorque, Farra, Strauss and Giroux, 2001, pp. 99-100. Devo o conhecimento deste texto a S. Anand, de Nova Deli.

6 de novembro de 2011

O LUTO E A MORTE

 Jesus disse-lhes:
«Desligai-o e deixai-o ir».” [Jo 11:44]

“Jesus disse-lhe: «Não me detenhas» [Jo 20:17]




túmulo de Elder Dionysios [Athos]




«Os dias do luto», vv.
[TSF, Manuel Villas-Boas]


«A Arte de Morrer», com Marie de Hennezel
[TSF, Carlos Vaz Marques]


4 de novembro de 2011

DEUS OU JESUS? «JESUS É SENHOR!»


«Jesus and his friend»_TAIZÉ


Deus ou Jesus?
«Jesus é Senhor»!


Deus não está no centro da pregação de Jesus de Nazaré, mas…
Jesus está no centro da minha Fé na Vida Humana Sem Fim, no centro da Ressurreição no Pai!

Jesus não se preocupou em «pregar Deus», em anunciar Deus, mas em manifestar a Sua preocupação pelo poder do anti-deus no mundo (Satanás= o “pecado programado”). Muitas vezes, Jesus denunciou a estreita ligação entre o “pecado programado” pelo homem e a justificação disso “em nome de Deus”. Ou seja, Deus foi denunciado, por Jesus, por estar a ser usado como “verdade” ao serviço do “poder” religioso-&-político (poder teocrático); ou seja, denunciou Deus ao serviço do “fundamentalismo”. Um simples exemplo: nunca o Vaticano advertiu (ou excomungou) um cristão (ou um teólogo) neo-liberal, mas fê-lo mais de uma vez para com cristãos e teólogos simpatizantes do marxismo… Isto também é pôr Deus ao serviço do fundamentalismo.

[a ‘unção de Betânia’ – Mt 26:6 - denuncia uma forma de fundamentalismo entre os discípulos… fenómeno que também pode ocorrer entre alguns cristãos ditos «de esquerda»]

1.Jesus não colocou no centro da sua actividade profética «a questão-Deus». Jesus não veio para «anunciar Deus». Jesus, antes de tudo, nunca se preocupou em saber se os seus seguidores ou os que O escutavam com atenção acreditavam que Deus existia. Jesus só se preocupou em saber se eles percebiam “de que jeito era o Deus que o inspirava” a Ele. Hoje, os políticos neo-liberais, defensores desse “pecado programado”, em seu ‘fundamentalismo económico’ sublinham que ele é, nas suas agruras, «inevitável». E acrescentam: «austeridade, sim, excepto para as camadas sociais mais pobres» - os neo-liberais [de David Cameron a Assunção Cristas, Isabel Jonet e Pedro Mota Soares] sempre se preocuparam com os pobres… Os «neo-liberais» não se escandalizam por haver pobres – eles precisam dos pobres para haver uma razoabilidade mínima para a austeridade selvagem. «Os pobres» são essenciais para que os neo-liberais subsistam como políticos «não cegos» e sem sensibilidade. Se não existissem «pobres» também não haveria «copo e prato», que são os símbolos encobridores, os bodes expiatórios diferidos e os referentes exteriores para a sua voracidade, rapina e iniquidade internas [Mt 23:23-25]. Se não existissem pobres deixaria de haver «religião» e neo-liberalismo… Para Jesus, pior do que ‘não se acreditar em Deus’ era, tal como no Antigo Testamento, acreditar em falsos deuses, ídolos. E porquê? Porque, - e Jesus sabia-o muito bem -  os ídolos (por serem cegos, surdos e mudos) são deuses compatíveis com jurar falso, mentir, assassinar – são compatíveis e necessários para “capturar Deus” [Os 4:1-2; Mt 23:22] e fazer com que Ele nos justifique a perfídia. A utilidade social da religião prende-se com a necessidade de justificar a rapina de bens e a propriedade privada dos bens só para alguns. Sem religião – com Deus à solta - seria a revolução de Deus! (foi o que começou a acontecer quando Jesus surgiu…) Dirão os neo-liberais: seria a desordem, o fim do mundo, a selva… O Poder cairia na rua! Seria a morte de Deus! Senão, vejamos.

Jesus e o sábado (Mt 12,1-8; Lc 6,1-5) - «Ora num dia de sábado, indo Jesus através das searas, os discípulos puseram-se a colher espigas pelo caminho. Os fariseus diziam-lhe: «Repara! Porque fazem eles ao sábado o que não é permitido?» Ele disse: «Nunca lestes o que fez David, quando teve necessidade e sentiu fome, ele e os que estavam com ele? Como entrou na casa de Deus, ao tempo do Sumo Sacerdote Abiatar, e comeu os pães da oferenda, que apenas aos sacerdotes era permitido comer, e também os deu aos que estavam com ele?» E disse-lhes: «O sábado foi feito para o homem e não o homem para o sábado. O Filho do Homem até do sábado é Senhor.» [Mc 2:23-28]

Para os fundamentalistas, com Deus à solta, é um forró… Não pode ser! Tem que haver regras! O culto e Deus não podem estar reféns das questões humanas e sociais! Há que delimitar bem os territórios – importa saber até onde vai o humano e onde começa o divino. Hoje deveríamos insinuar: não fica bem que os ‘padres’ venham para rua juntar-se aos manifestantes e indignadosque, ainda por cima, estragam o negócio religioso (da Catedral de S. Paulo, em Londres, p. ex.).

2.Ao mesmo tempo, tem que se dizer que Deus não enviou Jesus ao mundo, nem muito menos para falar d’Ele, dum “Deus, Todo-Poderoso”. Deus não enviou, sequer, Jesus ao mundo… Jesus não é o «enviado de Deus». Esta, «o enviado de Deus», é uma categoria filosófica (gnóstica) que esquece o essencial do evangelho de Jesus: Jesus pregou as Bem-aventuranças! [Mt 5; Lc 6:20]

Se Deus, que é omnisciente e imutável, envia Jesus como Seu mensageiro, será intolerável e inaceitável que o envie sabendo (porque Deus sabe antecipadamente tudo) que o envia para um matadouro – omnisciente que é… Ora, eu recuso uma linguagem sobre Deus que assente sobre uma teologia sacrificial e penal – Deus não pode ser indiferente ao destino e ao sofrimento humano de Jesus homem. Portanto, Jesus não é o enviado de Deus, porque a sê-lo seria um enviado pré formatado, contendo, trazendo consigo tudo o que Deus tem e é, o que implicaria que seria a humanidade a ter que encaixar no molde de Deus, na fôrma de Jesus, e não Jesus a rebaixar-se à condição humana e a encarnar para se colocar diante de Deus e correr o risco de ser ou não ser ressuscitado pelo Pai, já que nada de certo lhe fora dado de antemão. Se Jesus fosse o enviado de Deus, o que quer que acontecesse de novo depois desse envio teria apenas que ver com a humanidade e nada com «Jesus-Deus Enviado» – facto que a história do Jesus personagem histórico nega.

Jesus não foi, sequer, enviado a pregar as Bem-aventuranças em nome de Deus – Jesus, aos poucos, foi percebendo que o devia fazer por uma questão de coerência espiritual para com aquilo a que tinha chegado: «toda a justiça da Lei e o ensinamento dos Profetas» [Mt 5:10-12] estão aí contidos. Todas as expectativas messiânicas estão aí pragmatizadas! As Bem-aventuranças resumem a Sabedoria de Deus, aquilo a que Jesus chamou a «justiça do Reino de Deus» [Mt 6:33]. Nem o sábio rei Salomão chegara tão longe… [Mt 12:42; Lc 11:31]

Senão, vejamos: «O Senhor Jesus disse-lhe: “Vós, os fariseus, limpais o exterior(=culto a Deus) do copo e do prato, mas o vosso interior(=compaixão pela humanidade) está cheio de rapina e de maldade. Insensatos! Aquele que fez o exterior não fez também o interior? Antes, dai esmola(=compaixão pelo homem) do que possuís, e para vós tudo ficará limpo. Mas ai de vós, fariseus, que pagais o dízimo(=culto a Deus) da hortelã, da arruda e de todas as plantas e descurais a justiça(=compaixão pelo homem) e o amor de Deus(=culto a Deus na compaixão pela humanidade)!”» [Lc 11:39-42]

Deus «baixou à terra», Deus «desceu à terra», Deus «visitou o seu povo», «o verbo fez-se carne e veio habitar entre nós», «enviou o seu próprio Filho», são expressões que sempre nos ficaram no ouvido da catequese e da liturgia. Foram todas subalternizadas por Jesus: «Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome (em nome de Jesus) eu estarei no meio e vós». [Mt 18:20] Reunidos, é certo, «no oculto», quer dizer, sustidos no Mistério, mas em nome de Jesus: para Jesus, Deus é reunião de humanos! E «o teu Pai que está presente no oculto; e o teu Pai, que vê no oculto, há-de recompensar-te.» [Mt 6:18] – porque, ontologica, cultual e religiosamente, Deus é, essencialmente, ocultação, inacessibilidade, totalidade não-finita, imutabilidade!

Todas as religiões no-lo ensinam. Como disse A. Peteiro Freire, «não podemos pretender que uma religião tenha totalmente a verdade, nem encerrar Deus numa determinada religião. Temos de ‘deixar Deus ser Deus’». O Cardeal Carlo M. Martini também disse: «Não podemos fazer Deus católico». (citados por A. Borges, em ‘Religião e Diálogo Inter-religioso’, 2010) É por isso que é discutível «pedir» coisas a Deus, quando oramos. Jesus tem fundada razão ao afirmar:  «o vosso Pai celeste sabe do que necessitais antes de vós lho pedirdes.» [Mt 6:8]. Do ponto de vista ontológico e filosófico, Deus está a anos luz do Homem. O que leva S. Paulo a dizer sabiamente: basta-nos n’Ele «sermos e nos movermos»  [S.Paulo, Act 17:28 – discurso no areópago de Atenas], sem vã glória ou palavreado, na mudez do silêncio que nos junta, na luz do cântico que nos congregue, na metáfora do poema que transmuta a súplica. Só as palavras poderão estar a mais. «Na gaguez quase muda, de Deus só se pode balbuciar algo por cifras, imagens, metáforas, símbolos, afirmando e depois negando.» [Anselmo Borges] Até porque faz algum sentido a pergunta: «pode ou não atribuir-se a Deus carácter pessoal? Não há, de facto, o perigo de, assim, finitizar Deus?» [Anselmo Borges] Falar em «falar com Deus» é quase querer fazer do Mistério Absoluto um Tu acessível a um Eu, ou seja, um outro Eu como eu… o que é, em si, uma enorme pretensão assente na contradição das contradições.

A Deus nunca ninguém o viu com os olhos do espaço e do tempo, nunca ninguém o definiu de modo empírico, nunca ninguém o demonstrou (pela negativa ou pela positivia). Deus nunca «apareceu» a ninguém. «Nunca houve aparições de Deus ou de Nossa Senhora ou do Menino Jesus. Houve, sim, visões! Aparições, não [Andrés Torres Queiruga] «A Deus nunca ninguém o viu; se nos amarmos uns aos outros, Deus permanece em nós e o seu amor chegou à perfeição em nós. (…) Quem confessar que Jesus Cristo é o Filho de Deus, Deus permanece nele e ele em Deus. Nós conhecemos o amor que Deus nos tem, pois cremos nele [em Jesus]. Deus é amor, e quem permanece no amor permanece em Deus, e Deus nele.» [1 Jo 4:12ss]

3.Deus não deve ser a preocupação número um da nossa vida. Jesus é a nossa única ocupação! Porque, se partimos somente de Deus (dispensando o espírito de Jesus de Nazaré), ficamos sós e ainda mais sós, pois Deus é inacessível. Mas se partimos de Jesus de Nazaré, ficamos pelo menos juntos, reunidos, acompanhados, e não mais sós … [Mt 28:20 - «Eu estarei sempre convosco até ao fim dos tempos»]. Pelo menos, ficamos à espera, acrescentando sempre mais azeite à almotolia «até que o Senhor venha»! [Mt 25:13] Jesus é a única ocupação dos cristãos – seguindo-O, esperando-O. Não Deus.

Em resumo: reunidos em nome de Jesus de Nazaré! – eis a condição dos ‘seguidores de Jesus’ .

Acreditar que ‘Deus existe e que é o sentido último da minha vida’ obriga a responder à pergunta: ‘mas em que Deus é que acreditas?’, porque deuses há muitos… Os cristãos não são os que ‘acreditam que Deus existe’, os que acreditam que Deus ‘habita no nosso coração’, que ‘Deus é transcendência’, que é ‘Ser Supremo, Princípio e Fim’, etc. Os cristãos não são os que acreditam, mas são os que ‘seguem Jesus’ e que, n’Ele, no seu exemplo, no seu modo de viver, nos seus gestos e suas opções, no seu estilo e programa de vida, na sua completude e coerência enquanto um homem judeu diferente «vislumbram Deus». Em Jesus intui-se um «Deus radical e bom», um Deus ‘Abba, ho Pater[nas primeiras cópias do Novo Testamento, a invocação é bilingue: em aramaico e em grego; J. D. Crossan sugere que deve traduzir-se, não apenas como ‘paizinho’ – o que é infantilizador e simplista -, mas ‘Abba, O Pai’, modo de conciliar intimidade com densidade teológica]

«Jesus é Senhor» [1 Cor 12:3] é a primeira formulação de Fé, é o primeiro Credo tentado pelas primeiras comunidades. Para mim, ainda não houve melhor formulação desde esse tempo. Só lucraríamos em regressar a ele.

É grande a tentação de separar Jesus de Deus e Deus de Jesus e de fazer, de Jesus, um deus caído dos céus!

Na verdade, Deus não tropeça nas nuvens… para só parar cá em baixo. Assim, nós também, quando morrermos, não viajaremos lá para cima, para os braços de Deus! Não é no momento da nossa morte que, então, ressuscitamos - ao longo da nossa vida 'vamos ressuscitando' ou não... Há, depois, a 'ressurreição dos tempos finais', «quando Deus for tudo em todos». Como vemos, a nossa mente está conspurcada de categorias de outras épocas e teologias, que só atrapalham. S. Paulo ainda ‘ajudou mais à festa’ (Rom 8): «É por Ele que clamamos: ‘Abbá, ô Pai’!» e «não sabemos o que havemos de pedir para rezarmos como deve ser». De facto, S. Paulo só complicou! O acesso a Deus, hoje, a partir do S. Paulo de ontem tornou-se demasiado palavroso, labiríntico. Condenação, libertação, Lei, carne, Espírito, corpo morto, pecado, justiça, devedores, medo, filhos adoptivos, etc. são expressões de uma tentativa (apesar de tudo, fantástica) de in-culturação da Fé no mundo helénico, mas, hoje, a necessitar de reformulação conceptual.

É por tudo isto que anda muita gente aflita, porque não sabe «como rezar a Deus», «como receber as graças de Deus», «onde encontrar Deus», «como tornar Deus o centro da vida numa sociedade secularizada», porque ouviram dizer que precisam de procurar e achar «o Belo, o Bem e a Verdade» como "o santo & a senha" para chegarem até Deus, porque desesperam por não saberem «como anunciar Deus e a Verdade» e em que é que isso consiste. Eis a questão insistente do actual papado, eis a questão-central da ‘Nova Evangelização’ (que ainda ninguém percebeu o que quer dizer…), a qual também é a proposta dominante da Igreja Oficial para a espiritualidade a desenvolver em Portugal.


[Nota: veja a postura do teólogo da Teologia da Libertação]
«A difícil busca de auto-realização», por L. Boff


[que é feito do conceito REINO DE DEUS, Leonardo?]


E a resposta é tão simples: a partir da vida de Jesus, daquilo a que chamamos ‘o evangelho de Jesus’, podemos iniciar ‘o caminho’ do seguimento, o princípio dum ‘dinamismo novo’.

Se procurarmos a resposta, por exemplo, na ‘apresentação e saudação’ da Carta aos Romanos (S. Paulo) rapidamente ficamos empanturrados e enfastiados… Experimentem.

Mas se a procurarmos nos Evangelhos facilmente percebemos que, tal «como os outros Evangelhos, o de Mateus refere a vida e os ensinamentos de Jesus, mas de um modo próprio, explicitando a cristologia primitiva: em Jesus de Nazaré cumprem-se as profecias; (…) Ele é o Mestre por excelência que ensina com autoridade e interpreta o que a Lei e os Profetas afirmam acerca do Reino do Céu (= Reino de Deus). (…)

«Assim, no coração deste Evangelho o discípulo descobre Cristo ressuscitado, identificado com Jesus de Nazaré, o Filho de David e o Messias esperado, vivo e presente na comunidade eclesial [Bíblia da Difusora Bíblica, «Introdução ao Evangelho de Mateus»]

Os evangelhos, sobretudo os sinópticos, são a porta de acolhimento para uma vida com sentido humano concreto (=«obras de fé»).

Tiago (2:14ss), tal como Paulo, afirma-o sem peias: «De que aproveita, irmãos, que alguém diga que tem fé, se não tiver obras de fé? Acaso essa fé poderá salvá-lo? Se um irmão ou uma irmã estiverem nus e precisarem de alimento quotidiano, e um de vós lhes disser: «Ide em paz, tratai de vos aquecer e de matar a fome», mas não lhes dais o que é necessário ao corpo, de que lhes aproveitará? Assim também a fé: se ela não tiver obras, está completamente morta.»

E isto, mais uma vez, remete-nos para o evangelho de Jesus, o «qual andou de lugar em lugar, fazendo o bem e curando todos os que eram oprimidos pelo diabo, porque Deus estava com Ele. [Act 10:38] Os evangelhos são o umbral por excelência para uma vida activa com dimensão humanizante, onde Deus se esconde e se revela – onde Deus-Pai fala e se deixa ‘tocar’! [se deixa vislumbrar no seu Mistério de absolutez que Tomé, por fim, 'tocou'/entendeu - Jo 20:27]

A questão não é, pois, a Fé em Deus no mundo actual, mas o seguimento de Jesus hoje. É muito importante recordar o desafio (provocador?) do Apóstolo Tiago a respeito da «questão-Deus»: «Tu crês que há um só Deus? Fazes bem. Também o crêem os demónios, mas enchem-se de terror…» [Tg 2:19]

A questão não é «a questão-Deus», mas a «questão Jesus». A primeira é uma categoria ontológica, a segunda, antropo-teológica. Deus não é uma questão. Deus é questão, frequentemente, por razões débeis. Steve Jobs, fundador da Apple aceitou colocar «a questão de Deus» e da vida para além da morte quando já estava à beira da morte…

Esta questão de Steve Jobs não deixa de ser importante, mas muito mais importante que «a questão Deus» para quem está às portas morte é a questão «proximidade-de-irmão» - esse alguém com quem o frágil já compartilha confiança, esse é que é o Deus em que eu creio, o Bom Samaritano, aquele que me decifra a Lei que está escrita no coração de Deus. «Mestre, que hei-de fazer para possuir a vida eterna?» Disse-lhe Jesus: «Que está escrito na Lei? Como lês?» [Lc 10:25-26] E quando caímos na atitude da defensiva que consiste em tornar Deus uma «questão» (quando fazemos casuística: «E quem é o meu próximo?», blá-bláblá-blá…), Jesus conta a «Parábola das Fronteiras dissolutas do Amor» («Parábola do Bem Cuidar», a Parábola do Bom Samaritano) insistente tentativa de acentuar que o importante não é discorrer, argumentar, debater ou convencer, mas testemunhar realizando («faz isso e viverás», v. 28).

Há uma certa Igreja que aponta para aí - para essas situações existenciais terminais - todas as suas baterias. Não penso que devam ser desvalorizadas, mas, igualmente e por razões fortes , deve ser privilegiada a questão do «Jesus vivo na Comunidade reunida em Seu nome» – é que é a partir desta comunidade que, então, faz sentido emergir a mão conhecida para o apoio ao doente terminal, e não apenas uma espécie de «funcionário do sagrado» totalmente desconhecido daquele que está só e entregue à angústia do seu próprio fim. Pior: «funcionário» que, às vezes, nem a absolvição e a extrema-unção pode administrar… [como acontece com os diáconos]. A pergunta: «E quando te vimos doente ou na prisão, e fomos visitar-te?» [Mt 25:39] traz à luz da ‘vida em Deus’ a particularidade da não-institucionalização, da não formalização, da não ordenação da missão, da não intencionalidade, da liquidez insubstancial e não possessiva da salvação, características 'não obsessivas' que, por isso, só podem ser divinas, anti-eclesiásticas, dons que salvam.

Deus não pode ser «a questão obsessiva» em que se está a tornar para muitos cristãos portugueses.
O Credo não é a oração do cristão.

No entanto, - e porque ainda o fazemos no Credo - em que consiste afirmar «creio em Deus»? Josep Vives dá a sua resposta (ver abaixo).


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