teologia para leigos

3 de novembro de 2011

DUAS MANEIRAS DE CRER EM DEUS - O SEQUESTRO DE DEUS E DAS MASSAS

Manifestação_«CONTRA A AUSTERIDADE»


Crer a partir de


Jesus pregou as Bem-aventuranças a partir de uma situação bem concreta: a daquele que, «sendo rico, se fez pobre por nós»; a daquele que «se humilhou tomando a forma de servo…» E não as pregou no mesmo sentido a todos: para os ricos, tinham que soar como chicotadas que S. Lucas recolheu quando escreveu: «Ai de vós, ricos, porque já tendes vossa consolação!» Para os pobres tinha que ser aquela confortadora palavra de esperança que o próprio Lucas recolheu naquela cena inaugural de Nazaré: «Fui enviado para dar uma notícia aos pobres». [Lc 4:18b]


Os preâmbulos da Fé

A teologia tradicional havia elaborado uma doutrina subtil e precisa sobre a Fé e seus “preâmbulos”: como a Fé podia ser toda dom de Deus e toda livre responsabilidade dos homens; como podia ser ao mesmo tempo um acto racional e uma entrega ao que supera toda a razão humana… Longe de mim pôr em dúvida a legitimidade de tais colocações. Mas tenho a impressão de que, além disso, seria necessário falar de outro tipo de preâmbulos da Fé: daquilo que poderíamos chamar a situação existencial do crente. Porque não se pode crer da mesma forma a partir de qualquer situação, a Fé deverá ter inevitavelmente um ou outro carácter a até me atreveria a dizer que um ou outro conteúdo.

Efectivamente, crer em Deus não é admitir ou não admitir a existência lá, fora do mundo, de um ser de características especiais um pouco como se pode admitir ou não admitir a existência de Ovnis nos espaços siderais, o que, em última análise, não afectará muito a nossa vida concreta. Crer em Deus significa admitir um princípio último de inteligibilidade, de sentido e de valor do todo, incluindo a minha própria vida, de modo que eu me deixe determinar por ele em toda a minha existência e na avaliação e uso de tudo o que me cerca. Crer em Deus significa crer que existe um sentido e um valor absolutos na realidade e na vida: é crer num princípio de esperança e de bem-aventurança e entregar-se sem reservas, incondicionalmente, a ele.

Para dizê-lo em linguagem mais habitual nas tradições religiosas, crer em Deus significa crer que, apesar de todas as aparências contrárias, os indivíduos e a história em seu conjunto têm salvação. A figura de Deus acaba sempre sendo, para o homem à mercê de tantas contingências, a de um Avalista Absoluto, um Salvador.

Não vale a pena crer num Deus fundamento do ser, primeiro princípio e explicação da origem de tudo, se não é ao mesmo tempo fiador da história: fiador de que a história em geral, e a pequena história da minha própria vida em particular, devem ter valor e sentido, são algo que vale a pena ser vivido, e não uma absurda sucessão de frustrações, de horrores e desatinos. Não se pode crer em Deus mais do que como fonte de valor e de sentido do mundo em geral e da minha vida particular, e têm razão em declarar-se ateus os que não podem ver na vida mais do que frustração e absurdo. Crer em Deus poderia reduzir-se a crer no valor verdadeiramente absoluto da existência humana.


De onde se divisa Deus?

Com o que dissemos já fica insinuado por que não se pode crer igualmente em Deus – ou talvez não se possa crer no mesmo Deus – a partir de qualquer situação: é que nem de todas as situações se pode falar igualmente do sentido da vida. Aí estão os aproveitadores, os poderosos, os ricos, os que se propuseram como ideal de vida gozar do que conseguem arrebatar aos outros. Destes diz S. Paulo sem meias-palavras que «seu Deus é seu ventre» [Filipenses 3:19], isto é, o que permite satisfazer sua insaciável voracidade de possuir, de poder e de prazer, à custa de quem quer que seja. In God we trust: «Em Deus confiamos», escreveram sobre sua moeda os adoradores do dólar: é Deus que me permite conservar e aumentar a situação adquirida frente aos azares da fortuna ou às lutas dos demais homens, presumivelmente tão ávidos como eu mesmo. Neste ponto, Deus não pode ser outra coisa senão o fiador e suporte dos egoísmos particulares, e por isso há tantos deuses-ídolos como indivíduos egoístas.

Na outra face do mundo – «onde a cidade perde seu nome» – estão os desvalidos, os deserdados, os despojados, os que já não podem constatar que a sua vida tenha algum sentido, seja porque um acidente da sua sorte – doença, diminuição física ou mental, hostilidade ambiental – parece ter-lhes fechado os caminhos, seja porque os outros lhes arrebataram não só o que fazem, mas até mesmo o direito de ser. Também estes buscarão Deus como princípio de sentido: mas o seu Deus já não será o apoio para conservarem o que têm – porque não têm nada que valha a pena conservar –, e sim a força e a esperança que lhes faz descobrir um sentido em sua vida, mesmo com as limitações que não podem superar, ou que os impele a conquistar o que sem justiça nem razão lhes foi arrebatado.

Todos buscam em Deus protecção e salvação; mas para uns a salvação está em conservar e aumentar o que já têm, ao passo que, para outros, estará em viver sem o que não podem ter e em lutar por alcançar o que podem e deveriam ter.

Não se trata de demagogia fácil: trata-se de fidelidade a Deus mesmo, tal como se nos manifestou na tradição judeo-cristã. Nesta tradição, Deus não é um remédio, Objecto Abstracto (Ser Supremo, Absoluto, Necessário…), nem tampouco um Deus de coisas (dos astros, das forças naturais, dos fenómenos atmosféricos ou da fertilidade dos campos…). Estes eram os deuses dos Babilónios e dos Baal cananeus. O Deus de Israel foi, desde o início, um Deus de pessoas: o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacob. O Deus que se preocupa com os homens na sua situação concreta, e que por isso pode ser reconhecido por eles a partir da sua situação concreta, que se apresenta como garantia de valor e de sentido das suas vidas ou, na linguagem bíblica, como «promessa» de bênção e protecção. É o Deus que ouve os gemidos do seu povo, esmagado pela dura escravidão do Egipto e o incita e ajuda a libertar-se dela.

Sem demagogia, é preciso admitir que acontecem, inevitavelmente, duas maneiras de crer em Deus, duas concepções de Deus: para os auto-satisfeitos, espera-se que Deus seja o mantenedor do status quo: um Deus que ratifica o passado no presente – mesmo que seja um passado de injustiça – e o torna permanente, estável e duradouro. É o Deus da estabilidade, da ordem estabelecida. Para os desvalidos, Deus não pode ser apresentado como mantenedor de um status quo, pois fá-lo mais como promessa e garantia absoluta de um futuro novo e melhor. Deus não é só um confirmador do passado no presente, mas é antes de tudo um criador de futuro. (…) Deus é um Deus de esperança, e o que se espera d'Ele não é o que se encontra já predeterminado e já contido no passado, mas o novo, que pode ser criado no futuro. A partir da experiência do mal e da injustiça não se pode crer num Deus conservador: só se pode crer num Deus renovador e – não tenhamos medo das palavras – revolucionário. Este foi, exactamente, o Deus de Israel e o Deus de Jesus.


Um Deus de Justiça

Por agora não insistirei nesta contraposição entre um Deus conservador e um deus revolucionário, que a alguém possivelmente pareça impertinente ou mesma escandalosa. Passo a falar simplesmente do Deus de Justiça.

Neste ponto, a sensibilidade moderna assume uma postura decidida: ou Deus é justo, isto é, ama todos os homens e preocupa-se igualmente com todos eles, ou, pelo contrário, não há lugar para Deus. Um Deus injusto aparece como inadmissível. Pensar que eu posso estar tranquilo na minha capela dando graças à divina Providência porque aliviou a minha dor de dentes ou porque fez com que não me faltasse nada, e pensar que a mesma Providência não se preocupa de forma alguma com as crianças esqueléticas que morrem de fome no Biafra, ou com os camponeses que são mortos por interesses de uns poucos em El Salvador, é algo simplesmente inadmissível.

Se Deus existe, ele deve querer que todos os homens possam viver uma vida digna de homens. Se isto não se realiza é porque algo interferiu na vontade de Deus. Como é sabido, boa parte do ateísmo moderno provém da escolha desta última alternativa. Os crentes, pelo contrário, devem defender que as injustiças, as desigualdades, as opressões e abusos entre os homens são algo que não é, nem pode ser querido por Deus: são algo que talvez, em parte, possa ser atribuído às próprias limitações da condição do ser finito e, sobretudo, à vontade do homem contra Deus, que por isso mesmo é uma vontade ‘pecadora’.

A sensibilidade moderna, como já se disse, percebe isto lucidamente: mas não se trata de algo novo. Na Bíblia temo-lo superado de maneira insuperável: «reconhecer Yahvé», identificá-lo como Deus verdadeiro e autêntico ao lado dos deuses falsos ou ídolos, é comprovar que ele faz justiça, ao passo que os ídolos estão ao serviço dos interesses particulares dos seus devotos. Ele libertou o povo da escravidão do Egipto; ele protege a todo o momento o órfão, a viúva, o desvalido, o estrangeiro, aqueles que eram as possíveis vítimas da opressão naquele tipo de sociedade:

«Porque o Senhor, vosso Deus, é o Deus dos deuses e o Senhor dos senhores, o Deus supremo, forte e temível, que não faz distinção de pessoas nem se deixa corromper com presentes. Ele faz justiça ao órfão e à viúva, ama o estrangeiro e dá-lhe pão e vestuário. Amarás o estrangeiro, porque foste estrangeiro na terra do Egipto.» [Dt 10:17-19]

duas coisas a notar aqui.

Em primeiro lugar, o Deus verdadeiro não pode fazer acepção de pessoas, ama a todas da mesma forma, é simplesmente justo. Mas isto, paradoxalmente, leva à conclusão de que Deus jamais é neutro; pelo contrário, é sempre «parcial» e até mesmo «apaixonado» em favor da justiça. Não pode ficar indiferente enquanto os homens abusam dos fracos e esmagam os seus direitos: precisamente, porque ama todos por igual e não faz acepção de pessoas, quando alguém é injustamente oprimido, espoliado ou maltratado, Deus deve estar inexoravelmente a favor daquele que sofre injustiça e contra aquele que a comete.

Em segundo lugar, é preciso notar que a justiça de Deus da qual se fala é, na realidade, uma justiça que os homens devem fazer cumprir. Mais ainda, somente à medida que realizarem a justiça inter-humana querida por Yahvé, os homens poderão auto-denominar-se servos e fiéis de Yahvé. «Reconhecer Yahvé – crer em Yahvé – é praticar a justiça».

Se voltarmos agora ao tema sugerido pelo título inicial destas linhas, a saber, a possibilidade e as condições da Fé a partir da experiência do mal e da injustiça, poderíamos começar a sugerir algumas conclusões:

1.Aquele que experimenta o mal e a injustiça poderá crer em Deus se puder reconhecer que este mal e esta injustiça não são queridos por Deus.

2.Dificilmente reconhecerá isto se constatar que o mal e a injustiça são feitos ou fomentados por aqueles que dizem acreditar em Deus.

3.Pelo contrário, poderá ser induzido a crer se constatar que a Fé em Deus é força eficaz para a luta contra os males e contra as injustiças que se dão entre os homens.

4.Crer em Deus será, então, crer numa interpelação e numa exigência absoluta de justiça entre os homens.


As desculpas dos cristãos acomodados

Crer num Deus assim não é, precisamente, cómodo. De início, não é cómodo para aquele que pretende encontrar sentido para a sua vida numa situação de poder ou de prazer montada sobre a injustiça. Mas também não o é para aquele que, sentindo na sua carne a dilaceração da injustiça, se sente interpelado a empreender uma luta titânica contra a mesma. Yahvé não foi um Deus fácil, nem para o faraó, nem para os hebreus: para o primeiro, porque lhe tirou a mão-de-obra barata com que edificava a sua glória; para os segundos, porque os fez comprar a sua libertação à custa de um esforço duro e tenaz.

Por isso, não é de estranhar que todos busquem noutra parte, e não nesse apelo à justiça responsável, o Deus das suas crenças. São bem conhecidos os refúgios dos auto-satisfeitos:

O Deus da metafísica ou da cosmologia, Causa Primeira, Fundamento do Ser, Grande Arquitecto, Absoluto… (Tais deuses oferecem excelente e abundante pábulo à contemplação… e obrigam apenas a um profundo reconhecimento intelectual.) Ou então, o Deus do culto e do rito, que se contenta com incenso e cerimónias bem ordenadas, ou com as horas de tranquila quietude da cela. Ou então, o Deus da ortodoxia e da teologia justa e exacta… que também não obriga a mais do que medir bem as palavras sobre ele. Estes e outros podem ser os belos ídolos que constroem os que estão decididos a viver consolidados à custa do espólio, do suor e do sangue dos demais. Isto também não é novo: os profetas já trovejaram contra as mil formas de religião que pretendiam escamotear o seu património de justiça e de amor concreto ao irmão.

Mas não somente o insatisfeito injusto pretende buscar e encontrar Deus onde ele não está. Também aquele que sofre injustiça pode fazer o mesmo, numa tentativa de safar-se da tarefa, previsivelmente ingrata, de libertar-se a si mesmo e, assim, contribuir para a libertação de todos. A escravidão do Egipto pode parecer mais apetecível do que o longo caminhar pelo deserto. Pode-se ceder à tentação de exigir um mágico Deus libertador que exonere o homem de todo o esforço na construção de uma vida com sentido.

Esta pode ser a tentação máxima do homem que sofreu a injustiça: porque é que Deus não vem e não me tira desta situação? Ouve-se, como que o eco do Calvário: se é Filho de Deus, porque é que o seu Pai não vem e não o salva?

Custa muito compreender que toda a libertação que é simplesmente outorgada e imposta de fora, isto é, não assumida nem trabalhada pelo próprio homem a partir da sua liberdade e da sua responsabilidade, seja na verdade alienante e anuladora do mesmo homem como homem. Deus respeita e ama muito o homem para querer substitui-lo e anulá-lo. (…) Deus sabe que só é dom digno do homem o que se lhe oferece como tarefa para a sua liberdade e responsabilidade.

A partir da experiência da injustiça, pode ser muito fácil não querer crer em outro Deus a não ser no Deus mago, cujo reino seria um irresponsável e infantilizado reino do Eldourado.

E ainda deveríamos falar da tentação reducionista: a de querer confundir a justiça de Deus com qualquer realização mais ou menos mesquinha da nossa pobre justiça humana, que raramente chega a ser mais do que uma barganha de injustiças equilibradas e compensadas. O Reino de Deus não poderá ser nunca simplesmente identificado com qualquer realização sociopolítica concreta: é algo sempre utópico, escatológico, porque é absoluto. Mas nem por isso é menos real: é algo sempre eficaz e operante, ao mesmo tempo como impulso e como juízo de tudo quanto fazemos.


O sequestro de Deus e a apostasia das massas

(…) Muitos parecem continuar discutindo se o marxismo é ou não essencialmente ateu. O que parece claro é que Marx teve que definir-se como ateu, porque intuiu perfeitamente que Deus havia sido sequestrado pelos defensores de uma ordem injusta que ele, com todas as suas forças, queria derrotar. E assim continuamos. Os movimentos sociais continuarão sendo ateus enquanto os guardiões da religião não resgatarem Deus das mãos dos poderosos e mostrarem claramente que Deus, longe de ser o ópio com que aqueles acalmam o povo, é, pelo contrário, interpelação absoluta à igualdade fundamental e à justiça e, por fim, motor da mudança social num mundo estruturado injustamente. Somente assim se poderá acreditar em Deus a partir da experiência da injustiça.

Mas não nos enganemos. Então o princípio de Vincent Cosmão “quando Deus é apresentado como fiador da ordem estabelecida, o ateísmo converte-se em condição necessária para a mudança social” começará a funcionar inversamente: quando Deus se converter em interpelação absoluta à justiça e em motor de mudança social, os defensores da ordem injusta terão que converter-se efectivamente à justiça ou, pelo contrário, terão que ser declarados simplesmente ateus.


Crer é converter-se


Em resumo, «crer a partir de» é sempre um «converter-se a partir de».

 Para aquele que vive na experiência do mal e da injustiça, crer será converter-se, desde o desespero ou da apatia opiácea, à responsabilidade activa em favor da justiça, que surge e se afirma garantida por uma promessa que, por ser divina, deve ser indefectível.

Para os que vivem auto-satisfeitos à custa dos outros numa ordem injusta, crer em Deus será converter-se, a partir da sua satisfação, numa efectiva justiça e solidariedade que só se dará com renúncias efectivas e dolorosas.

Em última análise, talvez só se trate de cumprir as palavras de S. João: «Por este sinal sabemos que já O conhecemos: se cumprirmos os seus mandamentos. Quem diz que O conhece e não cumpre os seus mandamentos está mentindo e não há verdade nele». [1Jo 2:4]

Crer em Deus, reconhecê-lo como tal, é guardar os seus mandamentos, cada um a partir da sua situação. E mandamento de Deus não é outro senão amar como Ele ama, e nisto está toda a justiça.

Josep Vives

[Josep Vives, “CRER A PARTIR DE”, in: «Crer, só se pode crer em Deus. Em Deus só se pode crer – Ensaios sobre as imagens de Deus no mundo actual», José I. Gonzalez Faus & Josep Vives, Ed. Loyola, S. Paulo, Brasil, 1988]

30 de outubro de 2011

AUTORIDADE DA HIERARQUIA, DEMOCRACIA E DEUS

31º Domingo do Tempo Comum – o Domingo que «sugere» que arranquemos/rasguemos algumas páginas ao Código do Direito Canónico da Igreja Católica…





Como é possível ouvir Ler o Evangelho de hoje – este pedaço de Mateus 23:1-12 – e continuar a assistir a certas coisas como se nada fosse?

Vejamos.

À medida que vamos lendo, sem interrupções, o evangelho de Mateus, vamo-nos dando conta dum crescendo no conflito «de vida ou de morte» entre o sonho de Jesus (que Ele diz ser também «o sonho de Deus-Pai») e os projectos da Hierarquia religiosa do seu tempo. O cap. 18 dá-nos, a traços largos, como deve ser a «vida da Fé», a Vida Espiritual da Comunidade Cristã, mas no cap. 19 começa o enfrentamento que desembocará na morte, e morte ignominiosa de cruz (pelo meio há referência explícita à Paixão – «Jesus chamou os Doze à parte e disse-lhes: vamos subir a Jerusalém», 20:17).

Após «a derrota política do poder religioso de Jerusalém» [ano 70 d.C.], a religião oficial entra em desespero e busca denodadamente um futuro (para o judaísmo). Enceta-se um vivo debate público – os ânimos estão à flor da pele. Todos sabem que a exaltante experiência multi-secular da sua religião está prestes a acabar para sempre. O «padre» morreu, mandaram «fechar» a igreja e – suspeita-se! – todos tornar-se-ão «crentes em auto-gestão», crentes entregues a si próprios [vide: destruição do Templo e proibição do Sacerdócio em Jerusalém]. A Comunidade de Mateus entra também nesse debate, ao lado de muitos outros grupos.

Trata-se de entender este fortíssimo ataque verbal «de Jesus» contra escribas e fariseus. Stanton [«Origin and Purpose», 1906-8] interpreta-o como «recados para dentro» da Comunidade de Mateus. De facto, a Comunidade era uma miscelânea de pontos de vista judaicos que, à época, fervilhavam na Sinagoga de Antioquia. De facto, estava em questão a autoridade dentro da Comunidade. Neste domingo lemos, apenas, metade da narrativa – aquela que se dirige às multidões e aos discípulos (v.1).

De entre todos os versículos (que são 13), destaco apenas alguns.

O v.2 - «sentam-se na cátedra de Moisés» - não se refere à «função magistral» de interpretar as Escrituras. Jesus por mais de uma vez havia contestado a legitimidade da elite religiosa a esse respeito [9:10-13; 12:1-14; 15:1-20; 16:1-12; 15:13-14; 19:3-12; 21:33-34] – o ensino da elite religiosa carecia de autoridade: Mt 7:29! Não faria sentido Jesus «voltar à vaca fria»…

«Sentar-se» [M.A.Powell] significa «exercer a autoridade». Ou seja, o que está em causa é o modo «como se governa» a comunidade. Numa Comunidade teologicamente pobre (“analfabeta”), o que é colocado em julgamento é o seguinte:

(1º) O que é que a autoridade instituída na Comunidade faz (ou não fez) para que os crentes possam falar das razões do seu acreditar?

(2º) Como é que a autoridade instituída na Comunidade avalia, ao longo da sua caminhada, o crescimento da Fé dos seus crentes?

 Quando a autoridade (por exemplo, dum Padre) se alicerça no «seu» poder (poder que lhe é conferido por «um Código» do Direito Canónico), esse Padre fica ferido de morte pela condenação que Jesus faz no Evangelho deste domingo.

Em certos e determinados momentos de aceso debate público no seio da Comunidade (como era o caso da Comunidade Mateana em Antioquia, por volta do final do 1º século), invocar o poder outorgado por um Código ou puxar pelos galões de «Pai-da-comunidade» ou de «Teólogo-da-comunidade» ou de «Presbítero-Guia» é anti-evangélico - Jesus diz-nos que isso fere de morte a Comunidade cristã.[v.12]

Seria saudável que, de quando em vez, os crentes redigissem o «livro branco» acerca da autoridade (ou do autoritarismo) entre as suas gentes! Na verdade, Jesus quis que fossemos todos iguais («irmãos», v.8) e que não houvesse distinção de nível social, de poder de decisão ou de qualquer tipo de supremacia (musculada, psicológica, subtil ou subliminar…).

Jesus quer que a Comunidade seja uma democracia em construção, verdadeira, contínua: para isso, há que respeitar as Regras Democráticas básicas… Como passar à Comunhão atropelando a democracia?

Os v. 5-7 – «a fim de se tornarem notados… ocupam os primeiros lugares nos banquetes e nas sinagogas» – Vem-me à mente a muito recente Jornada de Assis «Peregrinos da Verdade, Peregrinos da Paz», protagonizada pelo Papa Bento XVI, e que juntou 300 líderes religiosos.

Entre o mediatismo e o pitoresco da viagem colectiva em comboio desde a estação do Vaticano até à Úmbria, em que na carruagem do Papa foi também Rowan Williams, arcebispo anglicano de Cantuária, o patriarca ortodoxo de Constantinopla Bartolomeu I e o rabino David Rosen; para lá das 11 intervenções «antes da do papa» (como minuciosamente sublinhou o jornalista); para lá da ausência do imã da mesquita Al-Azhar, do Cairo («depois das suas relações com o Vaticano terem gelado por causa dos coptas», citação do jornal «Público», 27:X:2011, p.16); para além do espectáculo público, muito valorizado por todos, apesar de, desta vez, terem aparecido juntos apenas para os discursos e para a fotografia (os diversos líderes acabaram, depois, por rezar separadamente, não vá o Papa ser acusado de «sincretismo religioso»; Papa que se havia distanciado deste tipo de iniciativas há 25 anos atrás…); para lá da recusa do actual Papa em aceitar o convite para o debate com os não-crentes na sua própria Itália; para lá de tudo isto (que se sente «arrancado a ferros»); para lá dos mais que referidos, pela imprensa, «ataques contra os cristãos em todo o mundo» (OSCE), fica a pergunta de G. Bush aquando dos ataques às Torres Gémeas, pergunta que também devia ser dos cristãos: «porque será que nos odeiam tanto?» Enquanto esta pergunta não for devidamente respondida, qualquer tentativa de «Diálogo Inter-religioso» não passará de mera propaganda ou tentativa de «converter os outros a nós».

Tenho sérias reservas face à expressão «Processo de Diálogo Inter-religioso», na medida em que me cheira a tentativa de exercício de supremacia do Catolicismo sobre as outras manifestações religiosas [as relações entre as Igrejas Reformadas e a Católica Romana que o diga…].

O trabalho de Aloysius Pieris, sj, na Ásia (Sri Lanka) e o do padre Andrés Torres Queiruga («Diálogo de las religiones», em Santiago de Compostela, Galiza) distanciam-se, à velocidade da luz, das propostas do Vaticano e são fonte preciosa para a radicalização da Fé dos cristãos.

Diz A. Torres Queiruga: «a experiência cristã não é propriedade dos cristãos. É dom do Deus comum que foi emergindo e configurando-se num certo ponto da comunidade religiosa humana, mas que está intrinsecamente destinado a toda a humanidade (…)».

E, o jesuíta Aloysius Pieiris, a propósito da sua experiência de construção de pequenos grupos à base de membros provenientes de várias confissões religiosas, a que ele chama «comunidades humanistas de base» anti-sincretistas, anti-pluralistas, mas simbióticas: «O que acontece nas comunidades humanistas de base é uma verdadeira simbiose de várias religiões. Todas elas, estimuladas pela postura própria de cada uma com respeito às aspirações libertadoras dos pobres, e em especial por respeito à sétima característica da sua religiosidade cósmica (a que atrás se fez referência), redescobrem-se e reformulam-se quanto à sua especificidade como resposta à postura das outras.

«O que trato aqui de definir como a singularidade cristã na experiência das comunidades humanistas de base reflecte ao mesmo tempo o processo e o resultado de uma simbiose. É sinal da nossa conversão à especificidade da nossa própria religião (o cristianismo) tal como nos é apontado pelos adeptos das outras religiões. Se se quiser, isto pode ser designado por «diálogo inter-religioso».



[ver:  http://asaladecima.blogspot.com/ a 11 de Outubro de 2011]



Pergunto-me: pugnar por «preceitos religiosos pesados e insuportáveis, carregar os ombros dos outros com eles» e ter «protagonismo mediático» (Mt 23:4-7) não será querer «engrandecer-se» (v.12 - «querer ser exaltado»)?

Tenho sérias reservas quanto a este tipo de Diálogo Inter-religioso. Porque, como Jesus nos diz hoje no Seu Evangelho, «o maior é o que serve» no anonimato dos sem-nome-fiscal e «sem-voz-nos-media»


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29 de outubro de 2011

O PROJECTO DO REINO DE DEUS É REVOLUCIONÁRIO - «A LEI DO AMOR»

[Quantas dimensões tem esta Lei Nova? Piedade, Esmolas, Prática de Rituais Religiosos, Afabilidade, Orações, Missas, Acolhimento, Denúncia, Enfrentamento, Despojamento, Humildade, … Haverá prioridades, escalonamento de valores, ou vale tudo o mesmo?]




Qual é o maior mandamento da Lei?

Vilar de Arca_Cinfães
 
A comunidade de Mateus apresenta Jesus ensinando o maior mandamento em um contexto no qual os fariseus novamente o procuram, a fim de pô-lo à prova (Mateus 22,34-40). Assim já haviam feito ao armarem, junto com os herodianos, uma cilada em torno do pagamento dos impostos ao império romano, para apanhá-lo por alguma palavra (Mateus 22,15).

Tanto os representantes da religião oficial (fariseus), bem como os do império (herodianos), já se haviam dado conta de quanto era perigoso, para seus sistemas, o jeito de Jesus propor o Reino do Pai.

Ainda mais, depois de ele ter também calado a boca dos saduceus (Mateus 22,34). Os saduceus eram o partido judaico mais poderoso naquele momento, uma vez que aglutinava os que controlavam a religião a partir do templo (sacerdotes) e os que detinham o poder sobre o comércio em Jerusalém (anciãos). O projeto do Reino de Deus é revolucionário face a todos os sistemas, seja aos de ontem, seja aos de hoje, grandes ou pequenos, dentro ou fora de nós.

Desta vez, os fariseus partem para cima de Jesus com uma nova armadilha: Mestre, qual é o maior mandamento da Lei? (Mateus 22,36). Então, Jesus faz a memória da centralidade do amor em toda Lei. Dessa forma, ao colocar no centro o amor a Deus e ao próximo, Jesus torna relativas todas as leis e as tradições. Elas somente estão conforme a vontade de Deus, caso tiverem como motivação primeira o amor. Assim, Jesus acusa os fariseus de traírem o projeto de Deus ao colocarem a letra acima do espírito da Lei. Incomodados pela acusação de Jesus, eles ficaram sem resposta e silenciaram. Porém, novamente se reuniram. Seria para preparar outra cilada? (Mateus 22,41). No entanto, agora é Jesus quem passa a desmascará-los, fazendo perguntas (Mateus 22,42) e acusações fortes contra os fariseus, incluindo também os doutores da Lei, os escribas (Mateus 23,1-36). Desse modo, ninguém podia responder-lhe nada. E a partir daquele dia, ninguém se atreveu a interrogá-lo (Mateus 22,46).

Jesus faz memória da Lei a fim de relativizá-la

Em que parte das Escrituras Jesus busca o espírito da Lei, o princípio do amor?

Para o primeiro mandamento, ele recorre a um dos livros da Lei judaica, o Deuteronômio (6,4-5): Amarás ao Senhor, teu Deus... É um amor intenso, isto é, com todo o nosso ser: coração, alma, força vital e mente.

 O segundo, ele o encontra em outro escrito do Pentateuco, o livro do Levítico (19,18): Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Também é um amor profundo, pois é amar o próximo tanto quanto amamos a nós próprios. Segundo Mateus 7,12, Jesus diz o mesmo em outras palavras: Tudo que desejais que as pessoas vos façam, fazei vós a elas. Pois esta é a Lei e os Profetas. Amar intensamente a Deus e o próximo é acolher de coração. É cuidar com corpo e com alma. É escutar com mente aberta. É solidariedade, força de vida...

O amor é o centro da vida nutrida em Deus, pois Deus é amor (1ª carta de João 4,8.16). Se andamos no caminho de Deus, vivemos o amor que gera vida, pois toda a Lei se resume neste único mandamento: ‘amarás o teu próximo como a ti mesmo' (Gálatas 5,14; Romanos 13,9). Portanto, o amor é o cumprimento perfeito da Lei (Romanos 13,10). Ao dizer que toda Lei e os Profetas dependem desses dois mandamentos (Mateus 22,40), Jesus torna todas as Escrituras relativas em relação ao amor. Somente este é absoluto.

 Os judeus mais piedosos haviam relacionado todas as leis do Pentateuco. Chegaram a catalogar 613 leis. Dessas, 365 eram proibições como, por exemplo, não matarás (Êxodo 20,13). E 248 eram leis afirmativas como lembra-te de santificar o dia de sábado (Êxodo 20,8). Uma quantidade tão grande de leis era difícil para o povo cumprir. De um lado, por não saber ler e, por isso, não conhecer toda a Lei em seus detalhes. De outro, por não ter, na luta pela sobrevivência diária, condições de cumprir a Lei em todos os seus pormenores.

 Segundo uma informação que encontramos no evangelho segundo João (7,47-49), os fariseus diziam que essa corja que ignora a Lei, são uns amaldiçoados. Isso revela que, para esses fariseus, as pessoas que não conhecem a Lei e, em consequência, não a cumprem são amaldiçoadas por Deus. E essa era a situação da maioria do povo pobre daquele tempo.

Apenas uma minoria se considerava abençoada por Deus pelo fato de saber e cumprir a Lei, bem como as tradições orais sobre o puro e o impuro. Ao dar valor relativo às inúmeras prescrições e ao colocar como único princípio o amor, Jesus abre a possibilidade aos pobres de também fazerem parte das bênçãos do Reino. Segundo os fariseus, por não conhecerem a Lei, estavam fora dessas bênçãos de Deus. Somente os fariseus se achavam poder ter direito a esse privilégio. Dessa forma, Jesus derruba os muros que impediam o acesso dos pobres ao Reino. E mais, alegra-se porque são justamente eles os que acolheram a Boa Nova, enquanto os que se achavam sábios e entendidos, porém, prisioneiros de inúmeras regrinhas, se fecharam ao projeto de Deus (Mateus 11,25). Assim, diante da dificuldade para cumprir tantas leis, Jesus propõe um caminho alternativo, o caminho do amor.



Caminhemos pela estrada do amor

O caminho do amor é um novo jeito de caminhar, é uma nova prática. Sua vivência não é algo abstrato, teórico, mas é um amor bem concreto. Antes de procurar um próximo para amar, importa tornar-se próximo através da solidariedade. É isso que a comunidade de Lucas nos quer lembrar ao acrescentar ao mandamento do amor a parábola do samaritano misericordioso (Lucas 10,29-37).

Ou, como recorda a comunidade de Mateus, ao insistir na prática da misericórdia: Vinde, benditos de meu Pai, recebei por herança o Reino preparado para vós desde a criação do mundo. Pois tive fome e destes-me de comer. Tive sede e destes-me de beber. Estava sem tecto e me acolhestes. Estive nu e me vestistes, doente e me visitastes, preso e viestes ver-me (Mateus 25,34-36).

 A comunidade de João, diferentemente de Mateus, Marcos e Lucas, não separa em dois o mandamento de Jesus. Vai mais fundo e identifica o amor a Deus com o amor ao próximo: Amai-vos uns aos outros. Como eu vos amei, assim também vós deveis amar-vos uns aos outros (João 13,34; 15,12.17). Se alguém disser: ‘amo a Deus', mas odeia o seu irmão, é mentiroso; pois quem não ama o seu irmão a quem vê, não poderá amar a Deus, a quem não vê (1ª carta de João 4,20).

Ó Deus de ternura e de bondade,
diante da crise em que os sistemas deste mundo se encontram,
permite-nos que teu amor nos conduza
na superação de todas as estruturas de morte
que ameaçam a vida no planeta e do planeta. Amém!

Ildo Bohn Gass, CEBI