teologia para leigos

20 de outubro de 2011

PARA SAIR DA CRISE 3/8

por onde começar?

 

3/8

 

 

A Aposta numa Estratégia de Desenvolvimento Local


por Manuela Silva


Resumo

As medidas da política económica em curso no País visam, prioritariamente, dois objectivos: garantir a confiança dos credores, estabelecendo limites ao endividamento do Estado e reduzindo o défice das contas públicas, sobretudo diminuindo a despesa; criar condições de maior competitividade do sector exportador, de modo a conseguir equilibrar a balança de transacções com o exterior.

Este tipo de medidas passa por redução significativa das remunerações do trabalho (na Administração Pública assim como, por efeito de arrastamento, nos demais sectores da economia), por cortes nos serviços de bem-estar social de provisão pública, por agravamento de impostos com incidência na diminuição do rendimento disponível das famílias cuja principal fonte de rendimento seja o trabalho.

Assim sendo, o programa do Governo, em sintonia com o Acordo estabelecido com a Troika, não esconde um cenário para os próximos anos de recessão económica com níveis de desemprego muito elevado. Um cenário que implicitamente incorpora a previsão de um forte agravamento da desigualdade e da pobreza.

Para que assim não suceda, há que articular a indispensável reconfiguração das instituições às escalas europeia e global com uma estratégia nacional de desenvolvimento sustentável que tenha na devida conta, entre outros, os seguintes vectores:

- uma aposta deliberada no
desenvolvimento local que tenha por destinatários e sujeitos as pessoas e a melhoria da respectiva qualidade de vida nos territórios em que vivem (refundação do conceito de crescimento e das respectivas medidas de desempenho);

- a procura da
valorização dos recursos locais (recursos naturais, culturais e humanos), envolvendo as Autarquias em projectos inovadores portadores de maior autonomia;

- o aproveitamento das sinergias da economia social local, qualificando os seus
quadros dirigentes e técnicos e melhorando os respectivos desempenhos.

- a criação de
instrumentos de financiamento local, nomeadamente no acesso ao crédito.



Arga de S. João

 
«Esta Comunicação inscreve-se no contexto mais vasto de uma reflexão que procura caminhos de futuro para a economia portuguesa. Tem por base o entendimento de que a orientação estratégica para a política económica, que está a ser implementada no País, não é a única possível e, no entender de muitos autores, está condenada ao fracasso, mesmo do ponto de vista dos seus objectivos nucleadores de contenção do endividamento e de prossecução do equilíbrio orçamental, como condições prévias para repor os mecanismos do mercado. (…)

 (as medidas de política económica em curso no País estão) «em consonância com uma ideologia e correspondente ciência económica, que isola a economia do seu contexto societal e político, desvinculando-a dos objectivos últimos a que deve subordinar-se; que confia aos mecanismos do mercado a função de regulação de todo o sistema; e que tende a esvaziar o papel do Estado na promoção activa de políticas de desenvolvimento e bem-estar colectivo.

«Para encontrar caminhos de futuro, importa começar por romper com este paradigma da ciência económica e com a sua centralidade em termos de orientação estratégica da política económica e procurar recolocar no centro da economia (empresarial e pública) os seus fins ou seja as pessoas e o seu bem-estar, a coesão social e a sustentabilidade ambiental. Ou seja: importa dirigir a ciência económica e a economia real para um objectivo de desenvolvimento humano sustentável. (…)



Dito isto, voltemos ao Portugal por dentro. Que caminhos para uma economia com futuro?


«É certo que, também em Portugal, se têm acumulado tremendos desequilíbrios na solvabilidade das empresas aqui sediadas e do próprio Estado, traduzidos em elevados patamares de endividamento. Concomitantemente, deparamo-nos, hoje, com perigosas e crescentes disfuncionalidades, em particular com um desemprego massivo, com um debilitado tecido produtivo, com necessidades básicas por satisfazer em largos estratos de população e regiões, com uma forte desigualdade na repartição do rendimento, com elevados níveis de pobreza crónica e de nova pobreza, a par de uma excessiva e mal conhecida acumulação de riqueza.

«Esquece-se, porém, que, em contrapartida, o País possui, hoje, uma população activa qualificada e dispõe de conhecimento científico e técnico de ponta; tem potencialidades de boa penetração em alguns mercados externos, com destaque para as grandes economias emergentes (Angola, China, Brasil, …), tem recursos naturais por aproveitar e desenvolver (recursos agrícolas, florestais, marinhos, culturais, organizacionais e patrimoniais); oferece potencialidades de melhor aproveitamento de energia renovável; dispõe de infra-estruturas de comunicação e transporte que podem ser mais valorizadas; existe uma boa rede de economia social que merece ser qualificada e reorientada para um maior desenvolvimento; etc.(…)

«A meu ver, é urgente, pois, que se defina, a nível nacional, uma tal estratégia de desenvolvimento, por muitas razões e, em particular, para que ela sirva de enquadramento às próprias medidas de equilíbrio das contas públicas, nas negociações com os credores.

«Com este propósito, defendo que, sem prejuízo das indispensáveis reformas a nível do enquadramento monetário europeu, há que fazer uma aposta consistente no desenvolvimento local, que tenha por destinatários e por sujeitos as pessoas e a melhoria da respectiva qualidade de vida.(…)

«Para tal há que identificar pessoas e instituições com capacidade de liderança, de modo a envolver as pessoas de um dado território em processos de desenvolvimento que tenham em conta as respectivas necessidades colectivas e os recursos actuais e potenciais existentes. É a nível local que não só se conhecem com maior rigor as necessidades, como melhor se podem definir as prioridades e também é a nível de proximidade que, com maior criatividade, se identificam recursos potenciais: recursos humanos e de conhecimento, mas também recursos naturais e de financiamento. Por exemplo, ninguém sabe ao certo qual o montante da poupança nacional não registada, mas certamente tal aforro existe e poderá ser aplicado em projectos locais, obviando às dificuldades de acesso ao crédito na presente conjuntura.

«A crise associada à globalização veio mostrar que já se terá ido longe demais nessa via e que a competitividade excessiva à escala mundial concorreu para a destruição de boa parte do tecido produtivo a nível local, gerou consumo excessivo e desperdício, alimentados pelo marketing e desajustados aos padrões de necessidades reais, bem como acelerou a destruição de recursos não renováveis. Há, por conseguinte, que travar esta deriva, procurando defender uma maior autonomia das diferentes comunidades em relação à produção de bens básicos, justamente através do fortalecimento da economia local.

«É um desafio que requer muita lucidez e empenho, nomeadamente por parte do poder autárquico, como também por parte das forças vivas locais e não dispensa uma opinião pública devidamente informada e consciencializada acerca da importância das suas escolhas individuais.

«Nada obsta a que um tal desenvolvimento seja desencadeado de modo espontâneo, a partir das lideranças locais (existem hoje experiências animadoras nesse sentido!), mas como processo de desenvolvimento de alcance nacional certamente ganharia maior envergadura se fosse possível contar com algum incentivo e enquadramento por parte do poder político e da Administração a nível central e beneficiar do devido aconselhamento técnico.

«Relacionado com esta perspectiva de um desenvolvimento a partir de baixo, está a necessária valorização dos recursos potenciais a nível local.

«Por exemplo, é inaceitável que permaneçam abandonadas terras de cultivo durante vários anos ou que regularmente se percam toneladas de produtos agrícolas, porque não encontram escoamento nos mercados nacionais que, por sua vez, se vão abastecer em longínquas paragens, onerando o preço dos produtos com custos de transporte e sacrificando o ambiente com desnecessário consumo energético. Algo está errado neste modo de funcionamento da economia. Por sua vez, os consumidores são sistematicamente induzidos a subestimar os produtos nacionais, ainda que ao arrepio dos seus verdadeiros interesses. O mesmo se pode dizer a propósito do leite e dos lacticínios, da pecuária, da pesca ou da indústria do mel.(…)

«Na perspectiva do desenvolvimento a partir de baixo, que venho defendendo, ganha particular relevo o aproveitamento das sinergias da economia social.

«Portugal dispõe de uma vasta rede de unidades orgânicas enquadráveis no conceito de economia social, solidária ou terceiro sector [ESS] (…)

«A economia social tem vindo, nas últimas décadas, a afirmar a sua capacidade de contribuir eficazmente para a solução dos novos problemas sociais gerados pela crise sistémica. Por outro lado, tem conseguido reforçar a sua posição como actor indispensável a um desenvolvimento económico sustentável, adequando os serviços às necessidades, valorizando as actividades económicas ao serviço das necessidades sociais, lutando por salários mais justos e por uma redistribuição mais justa da riqueza, corrigindo os desequilíbrios do mercado laboral e aprofundando e reforçando a democracia económica.

«Vários estudos demonstram que a economia social é um espaço que concorre, quer directamente, quer indirectamente, para um modelo de desenvolvimento social e económico mais equilibrado, contribuindo, a seu modo, para a regulação do sistema económico no seu conjunto.(…)

«Concretizando, podemos identificar os seguintes domínios em que o papel da economia social é particularmente relevante:
 
• a coesão social e o emprego;
• a criação e manutenção do tecido económico preenchendo espaços onde a economia mercantil ou pública não chega;
• a inovação social (respostas atempadas aos novos problemas sociais);
• o desenvolvimento local;
• a melhor distribuição de rendimento e riqueza;
• a criação e prestação de serviços de assistência social (como os serviços sociais, de saúde e segurança social);
• o desenvolvimento sustentável;
• o aumento da democracia e do envolvimento dos cidadãos;
• uma maior eficiência nas políticas públicas.

«Os princípios que inspiram a economia social constituem um antídoto necessário para ultrapassar a crise e fazer evoluir o capitalismo de mercado para um novo e mais avançado patamar, onde o capital assuma a sua função primordial de meio de produção ao serviço de bem comum.

«Embora sem a correspondente visibilidade e reconhecimento político e mediático, existe em Portugal um vasto, diversificado e disseminado tecido de economia social que, no seu todo, constitui um relevante recurso potencial. Há que valorizar este património, requalificá-lo quando necessário e integrá-lo em processos de desenvolvimento local ou mesmo dinamizá-lo, quando oportuno, para assumir papel motor do desenvolvimento local.» (…)

Manuela Silva é Professora do ISEG/UTL (aposentada). Membro da Rede “Economia com futuro”. Coordenadora do Grupo “Economia e Sociedade” da Comissão Nacional Justiça e Paz.

[Trata-se de parte da Conferência que a Profª Manuela Silva proferiu na Fundação Calouste Gulbenkian, durante o Simpósio «A Economia Portuguesa - Economia com Futuro», a 30 Set 2011]



19 de outubro de 2011

PARA SAIR DA CRISE 2/8

por onde começar?

 

2/8

 

 

«¿Economía para quien? ¿Economía para qué?

El tema del encuentro y de mi conferencia

por Elena Lasida








Economía con futuro: es para mí un acto de audacia llamar así un encuentro en plena crisis económica. Es ir contra corriente del sentimiento general: en vez de decir que la economía nos esta ahogando, se dice que le economía abre al futuro. En vez de ver la economía como una amenaza, se dice la economía como una promesa. Es un acto de fe, una expresión de deseo más que una descripción de la realidad. Y yo pienso que es fundamental, para encontrar soluciones a la crisis, de empezar por expresar una esperanza, una aspiración. No se trata de angelismo, sino todo lo contrario: hay que empezar por creer que el cambio es posible para hacerlo realidad. Gracias entonces por invitarnos a soñar futuro, no para escapar a la realidad, sino para poderla transformar. (…)

La economía social y solidaria se define a través de una multiplicidad de experiencias muy diferentes que buscan privilegiar la dimensión social y humana de la actividad económica. Dichas experiencias se desarrollan en todos los sectores de la economía: el comercio justo, el microcrédito, los sistemas de intercambio de bienes y servicios sin moneda o la creación de monedas paralelas, son algunos de los ejemplos más conocidos de este tipo de iniciativa.

De manera general se puede decir que la economía social y solidaria constituye una nueva manera de concebir la economía y su función en la sociedad. La definición clásica de la economía privilegia su función material referida a la capacidad de producir y distribuir los bienes necesarios de una población. La economía social y solidaria privilegia la dimensión social, y más precisamente la dimensión “societal” referida a la capacidad de generar relaciones que producen cohesión en la población y responden a un proyecto colectivo de sociedad. Al poner su atención en la “calidad” de les relaciones generadas a través de la actividad económica y no sólo en la “cantidad” de bienes producidos, la economía social y solidaria abre la posibilidad de una relación de alianza y no sólo de contrato al interior mismo de la economía.

El “comercio justo” puede servir de ejemplo para ilustrar cómo une relación de alianza puede tomar cuerpo en una relación económica. El principio del comercio justo reside en una relación comercial entre un pequeño productor de un país pobre y los consumidores de países ricos. El objetivo es permitir al productor de acceder al mercado internacional, garantizándole un precio “justo”, es decir un precio que le permite vivir dignamente y cubrir sus costos de producción.» (…)

El comercio justo constituye así una buena ilustración de cómo la economía puede ser un lugar de alianza y no sólo de contrato, lugar de confianza recíproca y no sólo de cálculo del interés individual, lugar dónde se construye la sociedad y no sólo lugar de satisfacción de necesidades personales. (…)

Una de las prácticas más desarrolladas de la economía social y solidaria es el microcrédito. Como su nombre lo indica, se trata de un crédito de pequeño monto, que permite a las personas que no pueden acceder al crédito bancario clásico, obtener un financiamiento para poner en marcha un proyecto productivo generador de ingresos. Los bancos en general otorgan créditos a partir de un cierto monto mínimo y sobretodo exigen garantías financieras que permiten cubrirse del riesgo de un eventual no reembolso. Esta práctica excluye del acceso al crédito a los sectores de la población más necesitados. La “promesa” de reembolso que hace la persona que recibe un préstamo se sitúa bien a nivel de la “garantía”. El microcrédito va a reemplazar la garantía financiera por un acompañamiento social que se realiza de manera colectiva o individual.


Economía, lugar de alianza y de promesa

A través de estos dos ejemplos no pretendo erigir la economía social y solidaria como modelo económico alternativo. Se trata simplemente de mostrar a través de la economía social y solidaria que la economía puede ser otra cosa que lo que se cree habitualmente. Lo que me parece interesante a valorizar de la economía social y solidaria [ESS] es por un lado su capacidad relacional y por otro su potencial innovador. Estas dos características corresponden a dos dimensiones propias del ser humano: ser social y capacidad creativa. La economía social y solidaria nos dice que la economía puede ser un lugar de relación y de creación, un lugar de alianza y de promesa, y nos desafía a transformar el sistema económico en ese sentido.

(La economía aparece a través de estos ejemplos como una promesa de alianza y como una alianza que genera promesa. Promesa de alianza, porque se trata de una economía dónde la reciprocidad es el principio regulador, donde la relación económica sirve para crear sociedad más que para satisfacer las necesidades individuales de cada persona. Alianza que genera promesa, porque libera la capacidad creativa de cada persona e invita a creer en un mejor posible. La economía social y solidaria es promesa de “otra economía”: dice que hay otra economía posible, pero que se debe aún inventar.)

Alianza y promesa no pretenden ser otra cosa que ilustraciones de otra forma de concebir la economía y de las relaciones que ella puede generar. Ni la alianza ni la promesa, ni el comercio justo ni el microcrédito, son propuestos como soluciones a la crisis actual. Son sólo ejemplos para mostrar que la economía, a través de la producción y la circulación de bienes y servicios, genera relaciones, y que según la forma que se le da a esas relaciones, se construye un cierto tipo de sociedad.

Economía para quien y para qué? Para crear relaciones que hagan que cada persona pueda sentir que ocupa un lugar en la sociedad y que tiene algo propio y único para aportar a un proyecto de vida en común. Es esta la economía con futuro en la que yo creo

Elena Lasida

[Trata-se de parte – menos de metade - da Conferência que Elena Lasida proferiu na Fundação Calouste Gulbenkian, durante o Simpósio «A Economia Portuguesa - Economia com Futuro», a 30 Set 2011]

18 de outubro de 2011

PARA SAIR DA CRISE 1/8

por onde começar?

1/8



[Pretende-se juntar duas ou três ideias a fim de começar um processo de busca e organização de uma «saída para a crise», o qual poderá muito bem ser apenas uma «busca contínua» e não apenas uma «simples saída» definitiva. Rejeita-se qualquer tipo de «regresso mimético ao passado». Os textos que se seguem são apenas a publicitação desse ziguezaguear em torno das questões nucleares. Deseja-se que vá no sentido de uma construção positiva que não absolutize um idílico ‘ponto-Zero’ qualquer, a partir do qual seria − então finalmente! − possível enterrar o capitalismo em que vivemos e começar tudo de novo. Na ordem do dia está o debate entre «local» versus «global», que divide os que se preocupam pelo «por onde começar?». Mas, antes disso, uma breve introdução − «A crise como oportunidade?» − que a enquadre]



A crise como oportunidade?








«Existe uma enorme inércia − a tirania do status quo (…) Só uma crise − real ou imaginada − produz a verdadeira mudança. Quando a crise ocorre, as decisões que são tomadas dependem das ideias que estão disponíveis. Estou convencido que esta é a nossa principal função: desenvolver alternativas às políticas existentes, mantê-las vivas e disponíveis até que o politicamente impossível se torne politicamente inevitável. [Milton Friedman, Capitalism and Freedom, The University of Chicago Press, Chicago, (1962), 2002, p. 14]



Talvez Milton Friedman tenha caído na armadilha de muitos intelectuais públicos, sobrestimando o papel das ideias económicas nas respostas políticas às crises, reais ou imaginadas, por oposição à força dos interesses, onde se inclui, por exemplo, a força militar de Pinochet no Chile, um dos primeiros laboratórios para as ideias da sua escola de Chicago. No entanto, os economistas têm de agir como se as palavras de Friedman fossem verdadeiras e apresentar diagnósticos, independentemente da sua maior ou menor plausibilidade política imediata, concentrando-se na sua validade, na sua capacidade para identificar os mecanismos e processos reais, na construção de argumentos que sobrevivam a um escrutínio plural e, assim, ofereçam a esperança de que as coisas podem melhorar para a maioria dos cidadãos, de que é possível forjar alternativas que, como defendia Keynes, conciliem pleno emprego, justiça social e amplas liberdades.

A intervenção externa da chamada troika confronta, hoje, o país com um quadro prolongado de recessão, com o aumento do desemprego e das desigualdades, acentuando-se a erosão de direitos sociais e laborais e instituindo-se uma liberticida economia do medo.

A intervenção externa confronta, também, os economistas com as suas responsabilidades na criação de uma economia cada vez menos civilizada, cada vez mais desligada das pessoas, da vida comum e de um sentido de progresso colectivo. Em geral, a profissão não se tem saído nada bem.

No espaço público, multiplicaram-se os apoios, mais ou menos explícitos, de economistas ao que designam por «ajuda externa». Só por manipulação ideológica ou por ignorância do que se tem passado por exemplo na Irlanda e na Grécia se pode usar tal expressão para caracterizar um violento plano de austeridade como contrapartida de empréstimos europeus e do Fundo Monetário Internacional a taxas de juro elevadas e que exaurem a economia para salvar os credores financeiros nacionais e internacionais.

A ansiedade revelada perante as dificuldades reais da nossa economia transforma-se, para esses economistas, num profundo dogmatismo guiado pela sujeição da sociedade, dos indivíduos e dos grupos sociais mais desfavorecidos a um programa económico ortodoxo, centrado num entendimento limitado e opressivo do que é a economia.

Esta posição maioritária dos economistas é consistente com o seu apoio à austeridade recessiva dos sucessivos Programas de Estabilidade e Crescimento [PEC’s] apresentados desde 2010, com os silêncios ensurdecedores face à crise financeira iniciada em 2007 ou com a adesão acrítica à subversão da integração europeia desde Maastricht, talvez a melhor expressão institucional da vitória política dessa engenharia social dedicada ao reforço do poder financeiro a que se deu o nome de liberalismo económico e que está na génese da tripla crise europeia: crise económica, crise da dívida soberana e crise bancária. Uma tripla crise que ocorre numa paisagem europeia marcada pelo aprofundamento das fracturas socioeconómicas e políticas entre o centro e as periferias, que a especulação sem freios só acentua, expondo as fragilidades de uma Zona Euro sem governo económico digno desse nome.

José Reis e João Rodrigues
in «PORTUGAL E A EUROPA EM CRISE – Para acabar com a economia de austeridade»,
Le Monde diplomatique & ACTUAL [Grupo Almedina], p.11-12
ISBN 978-989-694-021-8

16 de outubro de 2011

O «CIDADÃO DECENTE» É O QUE ROMPE


15_Out_99%_povo coragem…

«e a coragem venceu o medo…»



15_Out_99% - Praça da Batalha, Porto, 2011



ESTA JÁ É UMA VELHA HISTÓRIA…

1.«A situação entre a CDU/CSU e Os Verdes nos anos 90 era tão estúpida como a de Cafarnaum no tempo de Jesus.

«No dia 28 de Agosto de 1994, portanto, seis semanas antes das eleições para o Parlamento Federal de 1994, apresentei o livro de Joschka Fischer intitulado Risiko Deutschland, na representação do Estado de Hessen em Bona. Tinham sido a editora e ele próprio a pedir-me para eu fazer esta apresentação. Mas Fischer teve de fazer uma pequena vénia às cabeças de betão do seu próprio partido, exclamando perante as pessoas reunidas na sala: Isto não é uma reunião entre a CDU/CSU e Os Verdes. Houve muitas reacções críticas na direcção do grupo parlamentar de CDU/CSU. Dizia-se que não era suposto um dos políticos mais conhecidos da União apresentar livros de um adversário político. (…) O administrador do conselho Main-Taunus, Jochen Riebel, que viria a ser ministro de Estado no Governo do estado de Hessen, escreveu-me uma carta que acabava com a seguinte frase: Permita-me que lhe diga que alemães decentes não se portam assim.» (…)

«No final dos anos 90, a relação entre a CDU/CSU [União Democrata-Cristã/União Social-Cristã] e Os Verdes no Parlamento Federal alemão era parecida com a relação que existia entre judeus e cobradores de impostos no tempo de Jesus. Não havia diálogo entre os dois grupos parlamentares, quando muito, apenas alguns encontros secretos. (…) O que é típico para um comportamento farisaico é o afastamento entre a pretensão e a realidade

Vem isto a propósito das palavras de Abertura do padre Anselmo Borges, no Colóquio ‘IGREJA EM DIÁLOGO’, em Valadares, 8-9 Out 2011, sob o tema «Quem foi(é) Jesus Cristo?».

2.Não há dúvida que as necessidades materiais (incluindo seus derivados, a dignidade no trabalho, a propriedade justa e universal e o dinheiro particular) estão na raiz da política, levam à rotura de relações pessoais e ocupam igualmente o centro da polémica trazida por Jesus de Nazaré ao seu tempo.

Hoje, Outubro de 2011, em que «vemos claramente visto» [Luís de Camões] em que consiste o Inferno Economico-Político do Sistema Neo-Liberal em que estamos obrigados a sobreviver, convém (sobretudo os cristãos) voltar a ler aquelas palavras de Abertura do padre Anselmo Borges, no Colóquio de Valadares, em contexto de 15_Out_99%.




A Palavra saiu à rua...

     «Para os crentes, se Jesus não fosse o Cristo, não passava de mais um combatente bom pela Humanidade e um revolucionário crucificado. Há, porém, um outro perigo, mais subtil: o de se ficar apenas com o Cristo Senhor glorificado, esquecendo o Jesus histórico de Nazaré, e o que ele queria, e o que ele fez, numa mensagem e comportamento que o levaram à cruz.»

«Pergunta-se: e entre o nascimento e a morte na cruz, o que se passou? Não aconteceu nada? Ele não fez nada? Este é que pode ser e tem sido o grande esquecimento.

«Pensou-se então que bastava prestar-lhe culto -missas, procissões, adorações ao Santíssimo... -, sem a exigência de segui-lo no seu Evangelho do Reino de Deus, no que ele quis e fez com os pecadores, as mulheres, os estrangeiros, na relação com o dinheiro, com a política, os pobres,(…)»

«Quem lê o Evangelho e não vê que Jesus morreu contra os seus actuais representantes não sabe ler."





«Lactâncio descreve, assim, como no tempo de Jesus, eram feitas as Declarações dos bens sujeitos a impostos. "Os funcionários romanos das finanças apareciam por todo o lado e punham tudo em alvoroço… Ouvia-se por todo o lado os gritos daqueles que eram interrogados sob tortura e a cacetadas… Quando a dor vencia, as pessoas declaravam bens tributáveis que nem sequer existiam."» [Pinchas Lapide, ‘Ist die Bibel richtig übersetzt?’, Vol II, 56]

«Os cobradores de impostos eram as pessoas mais odiadas…».

«Um dia, quando Jesus chegou ao posto de cobrança, encontrou um cobrador chamado Levi. Jesus desafiou-o a segui-lo, o que ele fez. Antes de se desfazer de tudo e de se juntar a Jesus, ofereceu-lhe um grande banquete em sua casa [Lc 5:27-32]. Vieram os cobradores de impostos de toda a cidade e arredores, para se despedirem de Levi.» [esta narrativa arrepia...]


-«Alguém viu Jesus por aí...»



3.Esta história, portanto, já é muito velha. Velha e cheia de desafios («que ando eu a fazer? onde estou? com quê/quem ando comprometido? para que margem remo? qual o turvo das minhas águas? que sonhos habitam dentro de mim?»)!

Um cidadão «decente» é aquele que coloca a questão da «justa repartição da riqueza» acima das regras da boa-educação - isso exige muita coragem.

Hoje, a coragem volta a fazer muita falta… sobretudo para darmos o salto para «a outra margem»!

«Um mundo outro é possível!» [JIG Faus]

Aos Domingos, já não é mais possível continuarmos a «ler» o Evangelho sem a respectiva actualização prática a partir de exemplos concretos, sob pena do Medo continuar a reinar...

O 15_Out_99% não pode ficar retido do lado de fora da porta das Igrejas!


PS: As citações são de: ‘O QUE DIRIA JESUS HOJE’, por Heiner Geissler [1930-], que foi Juiz e ‘Ministro Federal da Juventude, da Família e da Saúde’ alemão. Casa das Letras, Abril 2005, ISBN 972-46-1596-0. Tradução, a partir  do alemão, do casal Teresa e Marian Toldy.

15 de outubro de 2011

ESPERAR CONTRA TODA A ESPERANÇA

«Como se sai disto?»




rua de Santa Catarina_Porto_Out_2011

enchendo esta Praça
"Inevitável... é a tua tia!"
Praça da Batalha_Porto
15_Out
esperar contra toda a esperança...

14 de outubro de 2011

JESUS DESMASCARA A RELIGIÃO LEGITIMADORA DO SISTEMA

para lá das «bocas políticas»… ou de como é triste quem não se enxerga [vide Bispo António Marto: «O bispo de Leiria-Fátima, D. António Marto, criticou o que chamou de “turbo-capitalismo financeiro, que muda toda a agenda política, económica e financeira da noite para o dia e não dá sequer a possibilidade aos governos de actualizar as medidas necessárias” para enfrentar a actual crise.», como se a Igreja Católica não fosse, ELA MESMA, um monstro financeiro, um agente económico-financeiro preso nas malhas dos Mercados [BPP] e dos offshore’s da Madeira… dos subsídios do Estado para tudo e para nada (até para «praticarem a caridade» através das IPSS's). Criticar e ‘ficar dentro’ do sistema preverso é pecado mortal - «Nem todo o que diz ‘Senhor, Senhor’…». Não bastam 'palavras', «bocas políticas», farpadas. Impõe-se a Opção Preferencial pelos Pobres [papa João Paulo II], gestos proféticos, DENÚNCIAS COERENTES válidas também «para dentro da Igreja». Pedir AJUDA AO PODER FINANCEIRO (à Banca corrupta) e exigir TRANSPARÊNCIA FINANCEIRA ao Estado, ao mesmo tempo que se oculta a contabilidade interna, é HIPOCRISIA... É preciso ter estômago para viver da «ganhunça» interna à custa de esmolas de gente tão carenciada e piedosa... Parafraseando alguém: «da Política e da Religião, ninguém sai de mãos limpas...»]






O que é de César a César... O que é mesmo de César?






Um plano bem armado: fazer Jesus cair na armadilha de suas próprias palavras! A cilada é introduzida por um elogio que é, ao mesmo tempo, reconhecimento de integridade: "Mestre, sabemos que és verdadeiro, que ensinas o caminho de Deus... que não consideras as pessoas pela aparência..." (v. 16). Depois do elogio, a pergunta: "É lícito ou não pagar o imposto a César?"

Em caso de resposta afirmativa, toda a pregação de Jesus cairia por terra diante do povo. A ocupação romana era o que havia de mais explorador, a transferência de impostos para Roma era elemento provocador de miséria e fome. Além disso, do ponto de vista religioso, pagar o imposto significava aceitar o culto ao imperador. Na própria moeda, podia-se ler: Tibério César, Filho do Divino Augusto. Por isso, os fariseus e a maioria do povo se opunham ao pagamento.

Por outro lado, se Jesus responde que não se deve pagar o tributo, é apanhado em atitude aberta de afronta ao império. Os próprios herodianos, favoráveis ao pagamento do tributo e a serviço dos romanos, ali estavam para o flagrante.

A resposta de Jesus desmascara qualquer religião fetichista e legitimadora do sistema, seja a divulgada pela propaganda imperialista, seja a alimentada pelas autoridades judaicas (no texto, representadas pelos fariseus). É possível que Jesus tenha tocado no coração do sistema religioso romano: o lucro proveniente da cobrança do tributo imposta às províncias conquistadas por Roma. Ao questionar o caráter divino do imperador, todo culto a ele prestado (leia-se: submissão, oferenda e pagamento do tributo) está deslegitimado.

Mas também está desautorizada e ridicularizada a prática de boa parte das lideranças judaicas, que mantinham duplo comportamento. Desejavam a expulsão dos dominadores,  ao mesmo tempo em que reproduziam a dominação ou usufruíam das benesses propiciadas pela ocupação, incluindo o sistema de cobrança do tributo: ainda que a maior parte dos impostos fosse repassada a Roma, as elites alimentavam seu luxo com o que retinham do montante arrecadado pelos malvistos cobradores de impostos. Se, por um lado, as autoridades judaicas se negavam a oferecer incenso ao divino César, por outro, eram beneficiadas com tal divinização.

Pagar ou devolver?

O texto de Mateus, seguindo a versão de Marcos (Mc 12,13), coloca juntos fariseus e herodianos. A narrativa de Lucas opta por classificá-los: "espiões que se fingiam de justos" (cf Lc 20,20). O interessante é que enquanto os falsos justos perguntam se é lícito ou não "pagar" (em grego, é o verbo dídomi) o tributo a César, Jesus responde com outra concepção de justiça: usa o mesmo verbo, mas acrescentando um prefixo (apo) que dá uma ênfase diferente: não se trata de pagar, mas de devolver, como pode ser traduzido o termo apodídomi.

Se na moeda está a imagem (literalmente a epígrafe) do seu proprietário, o dinheiro pertence ao opressor romano e é preciso devolver a ele. Como gosta de afirmar Gustavo Gutierrez, "se na pergunta dos fariseus está implícita a possibilidade de não pagar o tributo, também está a de ficar, nesse caso, com o dinheiro". Jesus supera o pretenso nacionalismo dos fariseus, vai à raiz: "é preciso erradicar toda dependência do dinheiro. Não basta romper com o domínio político estrangeiro, é necessário romper a opressão que nasce do apego ao dinheiro e de suas possibilidades de exploração dos demais" (O Deus da vida. São Paulo: Loyola, 1990. p. 87-88). [Cf. J.I. Gonzalez Faus, 'Jesus e o Dinheiro', Colóquio Igreja em Diálogo, Valadares, 2011]

Fazendo uso do imperativo, a comunidade de Mateus mantém enfática a resposta de Jesus: devolvam ao imperador o que lhe é devido; e, da mesma forma, a Deus o que é de Deus! No Sermão da Montanha, a comunidade já havia lembrado: Não se pode servir a dois senhores, não há como servir a Deus e ao dinheiro (Mateus 6,24). O culto a Deus não se coaduna com o culto a Mamon, aqui representado pelo sistema do império romano. 

Mas o que é mesmo de César? E o que é de Deus?

Neste "a César o que é de César e a Deus o que é de Deus" ainda cabe a pergunta: o que mais é de César e o que é de Deus?

Em terra ocupada, toda a população sabia que além do denário, também era de César o procurador da Judéia, nomeado pelo próprio imperador. Eram de César os exércitos invasores. "A César o que é de César" inclui, portanto, todo o anseio de libertação. O clássico texto de Marcos 5,1-20 já tinha descrito, através da imagem dos porcos lançando-se ao mar, o mesmo desejo: a legião (termo militar para designar uma corporação de soldados) volta pelo caminho de onde veio, o mar (pelo Mediterrâneo chegavam os exércitos de Cesar). Da mesma forma que no Êxodo o mar havia engolido os cavalos do faraó e a opressão do Egito foi vencida, a comunidade espera que os porcos do império sejam devolvidos ao mar. É o que pode também ser lido no "Devolvam a César o que é de César".

Em contrapartida, o que é que é mesmo de Deus? Conforme Levítico 25,23, a terra pertence a Deus, o povo é nela hóspede. Logo, não pode a terra ser tomada por outra divindade, o império romano. O povo, em última instância, é o "povo de Deus", com ele Deus fez aliança (Josué 24). A liberdade do povo é dom de Deus!



Santuário de Fátima - promiscuidade entre Evangelho e Mamon...

Cumprir a sugestão de Jesus pode-nos trazer riscos

Há que se repetir que o processo de divinização de Jesus feito pelas comunidades é implícita ou, até mesmo, explícita oposição à divinização do imperador. Isso nos permite afirmar que o movimento de Jesus, ou pelo menos a leitura que dele se fez na segunda metade do primeiro século, traz em si forte reação antiimperialista. E se reconhecemos que a teologia imperial romana era, de fato, o centro ideológico do poder imperial, seu coração teológico, devemos admitir também que a comunidade cristã entendeu que proclamar Jesus Cristo como filho de Deus significava deliberadamente negar a César o seu mais alto título.

Consequências viriam... Não por menos, tantas lideranças tiveram a mesma sorte de Jesus. A essa altura, só restaria mesmo a um camponês de periferia, já considerado blasfemo pelas autoridades religiosas de seu povo (Marcos 14,60-64), ser condenado como malfeitor (Lucas 23,33-34).



Queimódromo do Santuário de Fátima - membro do 'Consórcio Internacional de Santuários Marianos'...




Como o próprio Jesus, as comunidades experimentariam que não é simples "devolver a César o que é de César". O império não costuma aceitar.


Edmilson Schinelo é biblista popular e assessor do CEBI. Colaborou em publicações como Leitura Bíblica: a juventude mostra o caminho, Horizontes ainda que seja de noite e outras.