teologia para leigos

21 de setembro de 2011

A IGREJA DEVERÁ SER NAZARENA E NÃO DAVÍDICA

O mistério de Nazaré


Nazaré



Nos começos, os primeiros discípulos de Jesus foram identificados como «a seita dos nazarenos» [Act 24:5-6 «Nós verificámos que este homem (S. Paulo) é uma peste: fomenta discórdias entre todos os judeus do mundo inteiro e é cabecilha da seita dos Nazarenos. Até tentou profanar o Templo, e então, prendêmo-lo.»] e, só ao abrirem-se ao mundo helénico, para quem o nome Nazaré nada tinha a dizer, foram chamados «cristãos» [Act 11:25-26, «Então, Barnabé foi a Tarso procurar Saulo. Encontrou-o e levou-o para Antioquia. Durante um ano inteiro, mantiveram-se juntos nesta igreja e ensinaram muita gente. Foi em Antioquia que, pela primeira vez, os discípulos começaram a ser tratados pelo nome de «cristãos»].

Nazaré marcou toda a vida de Jesus. Até José, avisado em sonhos, retirou-se para a Galileia a fim de que se cumprisse o oráculo profético de que Jesus seria chamado «nazareno» [Mt 2:22b-23].

O que era e o que significava Nazaré para Jesus? E para nós, hoje?

Nazaré era um pequeno povoado na Galileia (entre 200 e 400 habitantes?) sem importância nenhuma, nunca citado no Antigo Testamento - casas de pedra ou de adobe, tecto de colmo misturado com barro, um pátio comum, piso de terra batida… Alguns dos seus habitantes viviam em furnas escavadas nas encostas. As casas podiam ter pátios comuns, compartilhados por várias famílias do mesmo clã. [como acontecia em algumas das nossas aldeias serranas do Montemuro e não só, facto que ainda hoje pode ser comprovado]

As investigações arqueológicas na Galileia do séc. I revelaram a existência de lagares de vinho, pedras de moinho para moer grão, mós de azeite… Digamos, era uma pobre aldeia de características rurais, sem ruas pavimentadas, nem edifícios públicos, sem inscrições, nem frescos decorativos, sem mosaicos nem artigos de luxo, como por exemplo, frascos de perfume, etc. [vide: E. A. Johnson, «Nuestra hermana de verdad»; Concilium 327 (Set. 2008), 11-19]

A população habitante tinha que pagar 90% dos seus lucros sob a forma de tributo a Roma [Mt 22:15-22 - O tributo a César (Mc 12,13-17; Lc 20,20-26) - «Então, os fariseus reuniram-se para combinar como o haviam de surpreender nas suas próprias palavras. Enviaram-lhe os seus discípulos, acompanhados dos partidários de Herodes, a dizer-lhe: «Mestre, sabemos que és sincero e que ensinas o caminho de Deus segundo a verdade, sem te deixares influenciar por ninguém, pois não olhas à condição das pessoas. Diz-nos, portanto, o teu parecer: É lícito ou não pagar o imposto a César?»]

Vivia-se numa situação de opressão e de violência política: no ano IV antes de Cristo, as legiões romanas sufocaram uma revolta de judeus, crucificaram cerca de 2000 homens nas cercanias de Jerusalém e pegaram fogo a Séforis, cidade sumptuosa que ficava a 10 km de Nazaré.

Jesus passou a maior parte da sua vida em Nazaré e Nazaré acabou por ser o seu apelido: Jesus é Jesus de Nazaré, ‘Jesus, o Nazareno’ [Mc 10:47; Mt 21:9-11; Jo 19:7]. Inclusivamente, na própria Cruz onde é morto, Jesus aparece com o título de ‘Jesus, o Nazareno, Rei dos Judeus’ [Jo 19:19].

Jesus foi nazareno: esta era a sua identidade.

Era um filho do povo, um como os outros, sem privilégios, sem títulos ou distinções, levava uma vida despretensiosa, sujeito aos seus pais [Lc 2:51] como filho dum carpinteiro, família de condição modesta [Lc 2:33], família que cumpria com as suas tradições religiosas [Lc 2:21-22.41]. Segundo o evangelista Lucas, Maria, a sua mãe, recebeu a mensagem do Anjo em Nazaré e em Nazaré o Espírito a cobriu com a sua sombra para engravidar de Jesus [Lc 1:26-38], fruto bendito do seu ventre [Lc 1:41].

Foi a partir deste ângulo de visão bem peculiar de Nazaré que Jesus se abriu ao mundo, a partir dum contexto provinciano, campesino, aldeão, não a partir dum ambiente urbano, de Jerusalém, mas a partir da periferia. Consciencializou-se a partir da condição de artesão e não a partir do ponto de vista dos latifundiários ou dos membros da classe sacerdotal. Foi iniciado na fé dos pais, apreendeu a piedade simples dos anawim, e, a partir daí, descobriu o Pai, o seu Pai [Lc 2:49].

A partir de Nazaré, Jesus viu de perto o sofrimento do seu povo, as injustiças, o desemprego, o abandono e a marginalidade a que estavam submetidos os enfermos, considerados impuros. Descobriu a prepotência dos ricos e o peso da ocupação romana, à base de elevados impostos. Viveu a condição de nazareno, suspeito e desprezível. Apercebeu-se de que a fé fora traída por um legalismo que impedia se descobrisse o rosto misericordioso do Pai. Mas, também, pode presenciar gestos de amor e solidariedade por parte de pessoas tidas como pecadoras e marginais. É todo este contexto que faz com que Jesus amadureça a sua vocação profética: que fazer para anunciar um Deus que salva, para anunciar o Reino de Deus?

Ainda que os profetas tivessem dito que o Messias seria chamado «Nazareno» [Mt 2:22b-23], os contemporâneos de Jesus afirmavam que, de Nazaré, não podia sair nenhum profeta [Jo 7:52]. E, quando Filipe encontra Natanael e lhe diz que encontraram aquele de quem Moisés e os profetas haviam escrito, Jesus de Nazaré, Natanael exclama com muita segurança: «De Nazaré poderá sair alguma coisa boa?» [Jo 1:46; o texto grego diz textualmente: «De Nazaré poderemos ter alguma coisa boa?»]

Mas, Nazaré não é somente um lugar geográfico – é um lugar teológico, um «estilo de vida»! [cf. J. Alvarez Calderón, «Nazaret: su significado para Jesus y para la Iglesia», Páginas 105 (Lima, Oct. 1990), 15-31]

A presença de Jesus em Nazaré não é casual, mas ela corresponde, por parte de Jesus, a uma opção por uma encarnação pobre (Kenótica). A Palavra fez-se carne nazarena: hoje diríamos, encarnou no mundo dos pobres, dos excluídos, dos insignificantes. A Palavra falou em dialecto galileu.

Jesus podia ter-se servido da sua ascendência davídica, mas nunca o fez. Denominou-se a si mesmo «o filho do homem», o que, ainda que possa ser referido a Daniel 7, em linguagem usual quer significar homem comum, homem vulgar. No evangelho de João, quando os guardas, enviados pelos sumos-sacerdotes e pelos fariseus, se dirigem ao horto para o prender e este lhes pergunta ‘a quem buscais?’, eles respondem: ‘A Jesus de Nazaré’. Então, Jesus confessa abertamente: «Eu Sou» [Jo 18:1-8] Jesus é o Nazareno, Jesus de Nazaré. Em Lucas, os discípulos de Emaús, quando pretendem explicar a um acompanhante estranho de quem estão a falar e porque estão tristes, começam a falar-lhe do que acontecera com Jesus o nazareno [Lc 24:13-19].

Em Nazaré, Jesus leva uma vida oculta, monótona, anónima, própria do filho do carpinteiro [Mt 13:55], ele próprio carpinteiro durante muitos anos [Mc 6:3]. Vive como a maioria da humanidade. A sua vida é vida de um ser humano que não se destaca, é um vizinho mais, um como muitos [ Flp 2:7 - «Tornando-se semelhante aos homens e sendo, ao manifestar-se, identificado como homem»], um número censitário, apenas. Aprendeu da universidade da vida. Retirou da vida campestre e do povo a maioria dos seus exemplos com que compôs as parábolas e os sermões: o joio e o trigo, o grão de mostarda, as aves e os lírios do campo; as raposas; as galinhas que protegem os pintainhos; os trabalhadores desempregados que esperam ser contratados; pessoas endividadas; os banquetes dos muito ricos que excluem os pobres; os casamentos populares; as crianças que tocam flauta nas praças para que outras brinquem; as mulheres que perdem moedas, amassam o pão com o fermento e remendam roupa velha; os pastores com as suas ovelhas; os filhos que resolvem abandonar a casa paterna e ir pelo mundo rebentar a fortuna herdada nas grandes cidades; pessoas que, de noite, batem à porta de vizinhos na urgência de algum pão; os criados que se emborracham na ausência do dono…

Em Nazaré, Jesus aprendeu a dureza da vida, uma vida de camponeses que semeiam, mas pouco colhem, que observam como o joio se mistura com o trigo, uma vida de homens que ‘dizem mas não fazem’, que preferem enterrar os seus talentos em vez de os pôr a render, que não são precavidos, mas estúpidos, que constroem celeiros ainda maiores sem pensar na sua pequenez, na sua própria morte, que se metem a edificar sem primeiro pararem para pensar se terão dinheiro para levar até ao fim a obra planeada. No entanto, em Nazaré, Jesus não fez apenas a experiência da desilusão, da amargura, mas sentiu, também, a proximidade do Pai que faz chover indiscriminadamente sobre bons e maus, que perdoa o filho pródigo, que vai no encalce da ovelha perdida, que faz com que a semente cresça, quer de noite, quer de dia.



Lago de Tiberíades [ao longe] ou Mar da Galileia


Esta proximidade filial para com o Pai, o Abba, experimentada em Nazaré, forneceu-lhe valentia profética para anunciar um Reino que não assentasse na riqueza, na honra, no poder, mas no esquecimento de si, no serviço desinteressado aos outros, especialmente aos pobres e aos excluídos. Um Reino de perdão, de confiança em Deus, que faz com que cada um não se apoie nos seus próprios meios, como os fariseus, mas que confie na intimíssima misericórdia do Pai de todos. [J.I. González Faus, «La “filosofía de la vida” de Jesus de Nazaret»: Terrae 76/4 (Abril 1988), 275-289]

Todas estas experiências, de cerca de 30 anos, serão o núcleo da sua pregação, da sua espiritualidade, do seu profetismo, das suas tensões com as autoridades religiosas e civis do seu tempo, das suas opiniões, da sua paixão e da sua morte de cruz.

Os quatro evangelistas mencionam Nazaré como o ponto de partida da sua vida pública: Jesus veio de Nazaré até ao rio Jordão para ser baptizado por João [Mc 1:9-11]. Depois do baptismo e das tentações, ao ouvir dizer que João Baptista havia sido preso, Jesus retira-se para a Galileia e, deixando Nazaré, vai para Cafarnaum, onde desenvolverá o seu ministério, para que se cumpra o oráculo de Isaías [Is 8:23-9:1] e para anunciar que o Reino de Deus está próximo [Mt 4:17]. Lucas liga, o Seu programa messiânico, a Nazaré, programa que será incompreendido pelos seus conterrâneos que o rejeitam, porque nenhum profeta é bem recebido na sua pátria [Lc 4:16-24]. O relato lucano, da rejeição de Jesus por parte dos seus compatriotas nazarenos, antecipa, profeticamente, o ministério da paixão e morte de Jesus. O evangelista João apresenta-nos Filipe que identifica o Messias, não pela sua descendência davídica, mas por ser o filho de José, de Nazaré [Jo 1:45], facto que provocará estranheza em Natanael [Jo 1:46].

Paradoxalmente, enquanto os sacerdotes, os escribas e os fariseus rejeitam um Messias nazareno, o cego de Jericó descobre, em Jesus de Nazaré, o Messias, filho de David [Mc 10:47], e as pessoas simples são as que reconhecem o Messias, filho de David naquele nazareno que entra em Jerusalém no lombo dum jumentinho [Mt 21:9-11].

Tudo isto significa que, se queremos falar de Jesus, temos de ir a Nazaré. Se a Igreja quer ser fiel a Jesus terá de ser Igreja nazarena e não davídica. E, já que o mundo dos pobres, no qual Jesus de Nazaré encarnou, possui uma especial densidade humana e teológica para compreender a Palavra de Deus, a própria teologia tem de ser nazarena.

Dito de outro modo, Nazaré constitui um lugar teológico e hermenêutico privilegiado para se compreender a história da salvação. Nazaré é includente de pobres e de diferentes, diferentes quanto à língua e quanto à mentalidade. Nazaré influencia Maria, a mulher simples de Nazaré, que conta com José, o carpinteiro e homem fiel. Nazaré pressupõe a presença salvífica e vivificadora do Espírito que actua em Maria e comanda toda a vida de Jesus. Nazaré significa a vida e o estilo de Jesus de Nazaré, aquele que morre na cruz sob a inscrição de «Nazareno» e que ressuscita convocando os seus discípulos à Galileia [Mt 28:7.16].

Os sermões de Pedro, que os Actos nos relatam, fazem contínua referência a Jesus de Nazaré, a quem os judeus dirigentes mataram, mas a quem Deus ressuscitou [Act 2:22-24]. Em nome de Jesus de Nazaré, Pedro e João põem de pé o coxo que pedia na Porta Formosa [Act 3:6]. Diante do Sinédrio confessam que Jesus de Nazaré, morto e ressuscitado, é a pedra angular, pois não existe outro Nome dado aos homens no qual se possam salvar [Act 4:10-12]. E, Pedro, em casa de Cornélio, anuncia-lhe a Boa-Nova de Jesus de Nazaré, o qual, ungido pelo Espírito, passou no mundo fazendo o bem e livrando a todos de todo o tipo de opressão maligna [Act 10:38].

Nazaré é um mistério, um sinal de contradição: para uns, é sinal de escândalo, para outros, é Boa Nova da salvação.


Víctor Codina, SJ - «Una Iglesia nazarena – teologia desde los insignificantes»,  Sal Terrae, col. Presencia Teológica nº177, 2010, p.11-16

Victor Codina [Barcelona, 1931-], teólogo jesuíta, vive, desde 1982, na Bolívia. Alterna a docência teológica universitária com o trabalho pastoral em Comunidades Eclesiais de Base, nas localidades de Oruro, Santa Cruz e Cochabamba.

20 de setembro de 2011

A IGREJA NÃO SUSCITA «SEGUIDORES» MAS «ADEPTOS»

O vigor espiritual que é preciso


Tralhariz - linha do Tua

 Os cristãos das primeiras comunidades sentiam-se, mais do que tudo, seguidores de Jesus. Para eles, acreditar em Jesus Cristo é entrar no seu «caminho» seguindo os seus passos. Um antigo escrito cristão, conhecido como a Carta aos Hebreus, diz que é um caminho «novo e vivo». Não é o caminho percorrido no passado pelo povo de Israel, mas um caminho que «Ele abriu para nós» (Hebreus 10:20).

Este caminho cristão é um itinerário que se vai fazendo, passo a passo, ao longo de toda a vida. Às vezes, parece simples e plano, outras, duro e difícil. No caminho há momentos de firmeza e de alegria, e também horas de cansaço e de desalento. [Salmo 40(39)] Seguir as pegadas de Jesus é dar passos, tomar decisões, superar obstáculos, abandonar sendas equivocadas, descobrir horizontes novos… Tudo faz parte do caminho. Os primeiros cristãos esforçam-se por percorrê-lo «tendo os olhos postos em Jesus», pois sabem que só Ele é «autor e consumador da Fé» (Hebreus 12:2).

Desgraçadamente, tal como hoje é vivido por muitos, o cristianismo não suscita «seguidores» de Jesus, mas apenas «adeptos de uma religião». Não gera discípulos que, identificados com o seu projecto, se dedicam a abrir caminhos para o Reino de Deus, mas membros duma instituição que cumprem melhor ou pior as suas obrigações religiosas. Muitos deles correm o risco de nunca conhecer a experiência cristã mais originária e apaixonante: entrar pelo caminho aberto por Jesus.

A renovação da Igreja está a exigir-nos hoje o passar de comunidades formadas maioritariamente por «adeptos» para comunidades de «discípulos» e de «seguidores» de Jesus. Temos necessidade disso para aprender a viver mais identificados com o seu projecto, menos escravos dum passado, nem sempre fiel ao Evangelho, e mais libertos de medos e de prisões que nos podem impedir de escutar o seu chamamento à conversão.

A Igreja não tem, neste momento, o vigor espiritual que precisa para enfrentar os desafios do momento actual. São, sem dúvida, muitos os factores, tanto dentro, como fora dela, que podem explicar esta mediocridade espiritual, mas, provavelmente, a causa principal está na ausência de uma adesão vital a Jesus Cristo. Muitos cristãos não conhecem a energia dinamizadora que está presente em Jesus, quando é vivido e seguido pelos seus discípulos a partir dum contacto íntimo e vital. Muitas comunidades cristãs não imaginam a transformação que, hoje mesmo, nelas se daria se a pessoa concreta de Jesus e o seu Evangelho ocupassem o centro da sua vida.

Chegou o momento de reagir.

Temos que nos esforçar por colocar o relato de Jesus no coração dos crentes e no centro das comunidades cristãs. Temos necessidade de fixar o nosso olhar no seu rosto, sintonizar com a sua vida concreta, acolher o Espírito que o anima, seguir a sua trajectória de entrega ao Reino de Deus até à morte e deixar-nos transformar pela sua ressurreição. Para tudo isso, nada nos pode ajudar mais que entrarmos no relato que nos dão os evangelistas.

Para os seguidores de Jesus, os quatro evangelhos constituem uma obra de importância única e irrepetível. Não são livros didácticos que expõem doutrina académica sobre Jesus. Também não são biografias redigidas para informar com pormenor a sua trajectória histórica. Estes relatos aproximam-nos de Jesus, tal como era recordado com fé e com amor pelas primeiras gerações cristãs. Por um lado, encontramos neles o impacto provocado por Jesus nos primeiros que se sentiram atraídos por ele e o seguiram. Por outro, foram escritos para gerar o seguimento de novos discípulos.

Os Evangelhos convidam-nos, por isso, a entrar num processo de mudança, de seguimento de Jesus e de identificação com o seu projecto. São relatos de conversão, e é nessa atitude que devem ser lidos, pregados, meditados e guardados no coração de cada crente e no seio da comunidade cristã. A experiência de escutar em conjunto os evangelhos converte-se, então, na força mais poderosa que uma comunidade tem para a sua transformação. Nesse contacto vivo com o relato de Jesus, nós, os crentes, recebemos luz e força para reproduzir hoje o seu estilo de vida e para abrir novos caminhos ao projecto do Reino de Deus.

J A PAGOLA
San Sebastian, 31 Julho 2010

19 de setembro de 2011

OS VOLUNTARISTAS NÃO ENTENDEM A REALIDADE

A complexidade da vida social
e a pressa dos discursos voluntaristas




Qual a diferença entre sistemas mecânicos de alta complexidade e sistemas sociais complexos? Esta pergunta pode causar estranheza nos leitores acostumados com artigos aqui na Adital. Afinal, o que tem a ver isso com os problemas humanos e sociais? À primeira vista uma coisa não tem nada a ver com a outra, mas espero que ao final do artigo faça sentido.

Sistemas mecânicos, por mais complexos que sejam, quando bem desenhado e executado, obedecem ao comando que coloca o sistema em movimento. Isto é, as partes que compõem o sistema, por mais relações que possam ter com outras partes, não tem capacidade de se rebelar contra a ordem ou de desejar e executar algum movimento ou ação que vá em direção diferente. É claro que, quando as peças estão gastas ou ocorre algum problema de manutenção, o sistema pode não funcionar correctamente. Mas isso ainda continua sob o controle do agente externo que pode corrigir e, em último caso, reconstruir o sistema.

Em sistemas assim, o agente externo que os controla tem um grande domínio sobre o sistema. Podemos dizer que a sua capacidade e vontade determinam em grande parte o funcionamento do sistema – não totalmente porque sempre há espaço para o acaso e também porque pode haver a falta de condições tecnológicas adequadas para a perfeita execução do planejado.

Na Idade Média e também nos tempos modernos, a sociedade humana foi entendida a partir desta imagem de sistema. Na Idade Média, pensava-se que o agente controlador externo era Deus Omnipotente. Por isso, o modo como a sociedade estava organizada e funcionava e o que acontecia na sociedade eram vistos como uma expressão da vontade de Deus. Assim, por ex., os sofrimentos humanos eram vistos como justiça, castigo, de Deus; e a autoridade deveria ser obedecia incondicionalmente.

Com a modernidade, essa idéia de Deus controlador da história entra em crise e surge a idéia de se construir uma sociedade humana baseada na "liberdade, fraternidade e igualdade”. O Capitalismo/Liberalismo vai dar mais ênfase na liberdade e riqueza, enquanto que o Socialismo/Marxismo vai privilegiar a noção de igualdade.

Mas, nos dois casos, há a ideia comum de que um bom plano racional e "sujeitos históricos” capazes poderiam construir essa nova sociedade. O sujeito teria um poder de modificar ou de impor sobre o objecto, o sistema social, à sua vontade.

Essa ideia de fundo ainda permanece em muitos grupos que lutam por uma sociedade alternativa ao capitalismo atual, sejam grupos sob a influência do marxismo, do pensamento ecológico ou do cristianismo de libertação. Isso aparece mais claramente quando se pensa que um bom "plano” racionalmente concebido e uma vontade política forte seriam suficientes para mudar o mundo.

O problema é que em sistemas sociais, que são complexos, não há agente ou sujeito externo ao objeto, o sistema social, capaz de impor a sua vontade sobre o objeto. Porque, em sistema social complexo, as partes que o compõem têm vontades próprias e interesses conflitantes. Isto é, elas não agem de acordo com o previsto ou planejado.

Além disso, não há um agente externo ao sistema (Deus ou sujeito histórico) capaz de impor sobre o sistema a sua vontade. Todos fazem parte do sistema social e as ações de cada grupo geram reações de outros, que por sua vez vão gerar mais reações... O voluntarismo não dá conta da realidade.

Quando estamos no papel de simplesmente fazer críticas radicais contra o sistema ou contra quem está dentro do sistema tentando modificá-la, podemos nos contentar com críticas abstratas que não levam em consideração essa complexidade de sistemas sociais. Mas, quando entramos dentro, por ex. no governo em alguma instituição, tentando mudar a sociedade dentro do marco democrático e lidando com pessoas e grupos que têm interesses e visões diferentes e até conflitantes, descobrimos na prática que há uma grande diferença entre sistema mecânico e sistema social complexo.

O aprendizado dessa diferença nos torna mais humilde e menos apressados na crítica às pessoas que estão lidando com realidade concreta das pessoas e instituições; e também na proposição de "nova” sociedade. Fidelidade à causa dos pobres não pode ser confundida com o voluntarismo e um radicalismo simplista.

Jung Mo Sung

Coord. Pós-Graduação em Ciências da Religião, Universidade Metodista de São Paulo

[Autor de "Sujeito e sociedades complexas”. Twitter: @jungmosung]

16.09.11 – Mundo
Adital



18 de setembro de 2011

SILÊNCIO, ISOLAMENTO E ACOLHIMENTO

−Que é feito de ti…?


em Greccio; cavernas de Francisco de Assis (na Umbria) - pintura 'Silentium' sobre estuque


«Mas a palavra silêncio é suficientemente rica para extravasar o quadro destas definições: encontramo-la no vocabulário do amor (amar emsilêncio), da dor (sofrer em…) e de diversas emoções: um silêncio pode ser, na verdade, eloquente, obstinado, marcante, sombrio, desgostoso, aprovador, contrariado, consternado, alegre, pesado, mortal - vamos ficar por aqui… A lista pode tornar-se demasiado exaustiva: existem tantos silêncios como adjectivos ou estados psicológicos.

«Também se encontram algumas expressões populares com ele relacionadas: ‘enfiar a língua no bolso’, ‘rodá-la a sete chaves na boca’, ‘calar o bico’, ‘silêncio e fecha a matraca’, ‘manter os dentes cerrados’, ‘fechar a boca’. Podemos açaimar a boca, amordaçá-la, reduzir e condenar alguém ao silêncio. Existem juke-boxes que têm discos de silêncio: basta meter um franco para o ouvir. Além disso é um gesto bonito, o do indicador sobre os lábios, usado desde a mais tenra idade, assim como um sentimento poético: «Uma noite, lembrava-se, vagueávamos em silêncio…» (Lamartine).

«Existem espaços de silêncio, um mistério de silêncio a conquistar.

«Existe, e é pungente, o silêncio de uma floresta devastada, o silêncio dos objectos que nos rodeiam, o silêncio das nossas casas e apartamentos, e o silêncio sempre rico de sentidos dos que nos são próximos. O silêncio da mãe que tricota para o bebé, o da avó que costura, o da criança que amua, o dos amantes que, de mãos dadas, se entre-olham e se inebriam um do outro.

«Existe o silêncio da doença que, sozinhos no nosso leito, enfrentamos; o silêncio da depressão, até mesmo o do suicídio: o silêncio melancólico que se faz sentir quando se regressa, só e triste, a casa. Na linha S.O.S.-Amizade, a maior parte das chamadas provêm de pessoas (duas mulheres em cada três chamadas) que finalmente desabafam ao fim do dia, depois de terem saído do trabalho, depois das vinte e duas horas, quando a noite verdadeiramente começa: em 1985 foram 573.000 aqueles que, em França, marcaram este número de sobrevivência a fim de romperem o nó do silêncio-solidão… os silêncios da miséria.

«Existe o silêncio do confessionário, para aqueles que o frequentam, o silêncio da postura da meditação para aqueles que a praticam, e o da sepultura para todos nós.

«Gravado numa pedra à entrada de uma velha igreja, está: “DEUS TERÁ EM CONTA AS VOSSAS PALAVRAS INÚTEIS”.» [‘Elogio do silêncio’, Marc de Smedt, Ed. SINAIS DE FOGO, Col. Outro Olhar, p.12-14, http://www.sinaisdefogo.pt/, ISBN 972.8541.25.2 – no total, 205 págs.]




 «Loic tem mais de quarenta anos, mas parece uma criança de quatro. Não pode andar, nem falar. As suas capacidades humanas estão muito limitadas. Vive na Comunidade L’Arche há vinte anos, no lar de La Forestière.

«Loic tem-me feito muito bem. Introduziu-me num mundo de ternura, longe do mundo da eficácia e da competitividade. Com Loic, a única coisa a fazer é brincar, amá-lo, dar-lhe banho, acolhê-lo tal como ele é, compreender as suas necessidades, essas necessidades que ele exprime sobretudo por meio da linguagem do corpo. Com ele descobri a comunhão, que é como um vaivém do amor, que é respeito e confiança mútuos. Por vezes, sobretudo nos momentos da oração da tarde, ele descansa sobre os meus joelhos. E eu, pelo meu lado, também descanso com ele.
 



«Nada de palavras, apenas um olhar tranquilo, cheio de ternura, que se cruza com o meu olhar; um sorriso, que desperta o meu sorriso. Esta comunhão é como o espaço e o lugar em que Deus habita.

«O silêncio já não é ausência de palavra e de vida; é como um cume, um lugar de paz e de descanso, um espaço onde Deus se dá a conhecer.» [por Jean Vanier, Fundador da Comunidade L’Arche]


16 de setembro de 2011

ESPIRITUALIDADE DOENTIA, OLHAR MALÉFICO

Visão doentia




Jesus afirmara aos seus discípulos com toda a clareza: «Buscai o Reino de Deus e a sua Justiça». Para Ele, isto era essencial. Seguramente que não via que, seguir a justiça de Deus, fosse cumprir as leis e as tradições de Israel tal como outros mestres o diziam. Em certa ocasião chegou, até, a endereçar-lhes uma grave advertência: «Se a vossa justiça não ultrapassar a dos escribas e fariseus, não entrareis no Reino de Deus». Para Jesus, o que significava a justiça de Deus?

A parábola que lhes contou deixou-os perplexos. O dono de uma vinha viera, repetidamente, à praça para contratar empregados. Não queria ver gente sem trabalho. O primeiro grupo trabalhou durante doze horas. Os últimos a chegar só trabalharam sessenta minutos.

Porém, no fim da jorna, o dono ordena que todos recebam um denário: assim, nenhuma família ficaria sem ceia, essa noite. A decisão surpreende a todos. Como qualificar a actuação desse senhor que oferece uma recompensa igual para trabalho tão desigual? Não é de considerar justo o protesto dos que trabalharam durante toda a jorna?

Esses empregados receberam o denário estipulado, mas ao ver um gesto tão generoso para com os últimos sentem-se com direito a exigir mais. Não aceitam a igualdade. Eis a sua queixa: «trataste-os em pé de igualdade a nós». O dono da vinha, ao porta-voz do grupo, responde com estas palavras: «Será que tens inveja por eu ser bom?» Esta frase sintetisa o essencial do ensinamento da parábola.

Segundo Jesus, há um olhar maléfico, doentio e prejudicial, que nos impede de captar a bondade de Deus e de nos alegrarmos com a sua infinita misericórdia para todos. Resistimos a acreditar que a justiça de Deus consiste, precisamente, em tratar-nos uns aos outros com um amor que está bem acima dos nossos cálculos.

Esta é a Grande Notícia revelada em Jesus, que nunca suspeitáramos, mas que tanto necessitávamos de ouvir. Que ninguém se apresente diante de Deus com méritos e direitos adquiridos. Todos somos acolhidos e salvos, não pelos nossos esforços, mas pela Sua insondável misericórdia.

Jesus preocupava-se em ver os Seus discípulos possuídos de um olhar incapaz de acreditar nessa Bondade. Certo momento, disse-lhes: «Se o teu olho está doente, tudo em ti são trevas. E se a luz que há em ti é escuridão, !que negrume não serás!» Nós, os cristãos, já o esquecemos.





!Quanta luz não penetraria na Igreja se nos atrevêssemos a crer na Bondade de Deus sem as restrições do nosso olhar doentio!

!Que alegria inundaria os corações crentes!

!Com que força seguiríamos Jesus!


José Antonio Pagola

18:IX:2011
25º Domingo Tempo Comum (A)
Mateus 20:1-16


15 de setembro de 2011

ASSEMBLEIAS DOMINICAIS SEM PADRE

a propósito da Instrução…

«ALGUMAS QUESTÕES ACERCA DA COLABORAÇÃO DOS LEIGOS NO SAGRADO MINISTÉRIO DOS SACERDOTES»
[15 Agosto 1997]




Taizé



Pedem-me que comente, brevemente, a Instrução, que, assinada por oito dicastérios romanos [entre eles: «Congregação para a Doutrina da Fé», prefeito Joseph Ratzinger e seu secretário Tarcisio Bertone], versa sobre o papel dos leigos no ministério pastoral da Igreja. Faço-o com gosto.

Não me vou dedicar a reagir ao tom do documento, seu carácter reticente, rígido e receoso, aspectos já realçados por não poucos bispos [Monsenhor Karl Lehman, presidente da Conferência Episcopal Alemã; Cardeal Pierre Eyt, arcebispo de Bordéus; Monsenhor Gabriel Matagrin, bispo emérito de Grenoble], e que tanto faz sofrer os leigos comprometidos nesses ministérios. Já o fiz numa entrevista que concedi à revista Il Regno [editada a 15 Janeiro 1998; editada, também, na revista Choisir, Fevereiro 1998, e também em castelhano, como Anexo-1, no livro: «No tengáis miedo! – los ministérios en la Iglesia hoy», col. Presencia Teológica nº 92, Sal Terrae, Santander, pp.195-205]


(Abaixo, dois sites em oposição:)




A.Ponto de partida [«premissa»]

O ponto de partida do texto é positivo e, inclusivamente, prometedor, na medida em que sublinha «a urgência e a importância apostólica dos fiéis leigos no presente e no futuro da evangelização». O mesmo diz quando afirma que «esta iniciativa abre, de par em par, horizontes imensos aos fiéis leigos, que ainda estão por explorar». Esta perspectiva de futuro escasseará no restante da Instrução, devendo-o, eu, sublinhá-lo com toda a veemência na medida em que se trata do bem e do «maior bem» da Igreja para o já tão iminente século XXI. Este ponto de partida da Instrução menciona, simultaneamente, a propósito dos fiéis leigos, os ministérios propriamente baptismais e a sua participação «nas tarefas mais intimamente vinculadas aos deveres dos pastores». Reconhece, assim, que esta participação, na Igreja, é um facto e que, inclusivamente, é um facto de Igreja.

Depois, constata com viva satisfação que «em muitas Igrejas particulares, a colaboração dos fiéis não ordenados no ministério pastoral do clero desenvolve-se de maneira muito positiva» e que se estão praticando «soluções generosas e inteligentes para fazer face às situações de falta ou escassez de ministros sagrados». Somente em «algumas regiões» aconteceram algumas «práticas» que requerem «esclarecimentos».

Já que o tom do documento se irá tornar sombrio no que diz respeito a considerações e tomadas de posição, é particularmente importante reter este tom de entrada, o qual relativiza tudo o que vier a seguir. Não se trata de uma mudança de rumo: a Igreja não pretende renunciar a tudo o que está a acontecer quanto à participação dos leigos no ministério pastoral. A sua única preocupação é velar para evitar certos «abusos».

Nada disto vai contra tudo aquilo que eu disse no livro [no: «No tengáis miedo! – los ministérios en la Iglesia hoy», col. Presencia Teológica nº 92, Sal Terrae, Santander; edição em francês: ‘N’Ayez pas peur! Regards sur l’Église et les ministères aujourd’hui’, Desclée de Brouwer, 1996, Paris] – sublinho, apenas, que se trata de um «facto de Igreja», olhando à sua extensão geográfica e à sua duração temporal (mais de trinta anos, já).

Quanto às perspectivas sobre o futuro próximo, essas sim, são bastante distintas: a Instrução espera que seja um fenómeno «transitório», com um fim, tanto quanto possível, próximo, o qual está a produzir uma «prometedora floração de vocações que deixam entrever perspectivas de futuro muito positivas». No mais profundo de mim e da minha consciência, olhando a situação na Europa Ocidental – a situação na América Latina, parece, o confirma também – não posso partilhar dum diagnóstico tão optimista assim, e pergunto-me: como lêem, em Roma, as estatísticas que lhe chegam de todos os lados? Quanto ao futuro, o documento não é realista. Conjuntamente, ao lado de muitos especialistas deste tema, também acho que não se pode prever, com a mínima razoabilidade, uma mudança substancial de modo a mudar radicalmente a situação do número de ordenações presbiterais nos próximos vinte ou trinta anos. Por outro lado, a minha preocupação é saber o que o Espírito diz às Igrejas através deste fenómeno e se esta participação (bem entendida e bem gerida) dos leigos no ministério pastoral dos presbíteros não será um bem para a Igreja e para a sua imagem neste mundo.


B.Princípios teológicos

Nesta parte da Instrução, trata-se de fazer «memória» de coisas já claramente ditas pelo concílio Vaticano II e de documentos posteriores a ele. A própria Instrução reconhece que, no plano teológico e doutrinal, não acrescenta nada de novo.

O ponto que mais preocupa os redactores e que mais extensamente é referido, com fundamentação doutrinal, é o que diz respeito à distinção e «diferença essencial» entre sacerdócio comum dos fiéis e sacerdócio ministerial. O documento repete o que o Vaticano II afirmou com toda a clareza. Tal como o concílio, o documento reafirma que o sacerdócio ministerial tem a sua raiz no envio em missão dos discípulos por Jesus, que está na origem da «sucessão apostólica», e que inclui as três tarefas principais: a proclamação da Palavra de Deus, a santificação mediante a celebração dos sacramentos e o acompanhamento pastoral dos fiéis. Por mim, comentando o Vaticano II, também eu sublinho que estas três tarefas (e não só as próprias da celebração dos sacramentos) são sacerdotais.

No entanto, devemos perguntar: porquê semelhante repetição, sendo certo que os documentos referentes a este assunto são tão numerosos quanto recentes? Até parece que os autores deste documento sentem que existe, por parte dos fiéis leigos, uma ameaça ao sacerdócio ministerial, um desejo de «promoção» dentro da Igreja e até uma pretensão, mais ou menos confessada, de «substituí-los». Parecem, também, temer que se coloque em causa o «carácter insubstituível do ministério ordenado» e que as aberturas concedidas aos fiéis «favoreçam a diminuição do número de candidatos ao sacerdócio».

Não conheço todas as situações, e não posso excluir desvios deste tipo, aqui ou ali. Mas, seria injusto fazer crer que existe, a esse respeito, um perigo dominante e real. Posso afirmar que, na realidade francesa, isso não tem qualquer fundamento. Os muitos leigos que eu encontrei nesta situação possuem um sentido de Igreja que está bem para lá deste tipo de considerações. Não têm nada contra os presbíteros, bem pelo contrário, exigem a sua presença. Aquilo que se deveria fazer era admirar a qualidade espiritual do seu compromisso ao serviço da Igreja.

Quanto à acusação de que a participação dos leigos no ministério pastoral favoreceria a diminuição do número de vocações ao sacerdócio, não se deve confundir o efeito com a causa. Essa diminuição coloca outra questão, já abordada em numerosos outros recentes documentos: porque é que a Igreja, em inúmeros países, encontra uma dificuldade nova e persistente em renovar o corpo pastoral dos presbíteros e em ampliá-lo, aí onde são necessários? A Instrução parece ignorar as numerosas análises que já se fizeram a esse respeito.

O que mais deploro, neste documento, é o facto de não dizer nada sobre a nova identidade eclesial dos leigos associados de modo espacial ao ministério presbiteral. Este silêncio exprime a recusa em mencioná-lo e dar um nome a essa identidade, como se o fazê-lo fosse já uma concessão perigosa. Já agora, o mesmo a propósito de se tratar de uma realidade puramente «transitória». Mas, mesmo no imediato, o negar-se a reconhecer claramente o que se está a realizar no terreno e o negar-se a dar-lhe um nome é prejudicial, tanto para os interessados, como para o povo cristão. Seria absolutamente necessária uma reflexão teológica positiva, nem que fosse apenas para evitar a famosa confusão entre os dois sacerdócios, que a Instrução tanto teme.

No livro [«No tengáis miedo…»] procurei dar uma interpretação teológica e teologal do ‘envio dos leigos’ a tarefas e funções propriamente pastorais que pertencem ao bispo. Em nada a Instrução me contradiz, apenas se agarra unicamente às disposições da disciplina canónica, sem dúvida necessárias, mas que não podem ocupar o lugar da perspectiva teológica. (...)

Bernard Sesboüé