teologia para leigos

10 de setembro de 2011

O 11 DE SETEMBRO, O CAPITALISMO E A IGREJA DOS POBRES

boomerang - o «11 de Setembro» dentro de portas...

 A Igreja dos pobres
hoje e amanhã


1973, Chile [gen. Pinochet, golpista, e o eleito Presidente Allende] - o «11 de Setembro» para exportação...




O dia 11 de Setembro foi um marco na história. Esse dia foi o ocaso da revolução, o ocaso dos movimentos populares de libertação, a extinção da esperança dos pobres e oprimidos, o ocaso de ‘Cristãos pelo Socialismo’ e uma advertência para a teologia da libertação que acabava de nascer e já nascia condenada.

No dia 11 de Setembro - o primeiro 11 de Setembro - muitos sentiram isso. Mas era difícil aceitar. Muitos se negaram a aceitar o que sabiam ser inelutável. Depois do 11 de Setembro, os movimentos de revolução social foram destruídos pouco a pouco. Houve uma nova esperança na década dos 80 com os acontecimentos de Nicarágua e El Salvador. Mas era apenas o canto do cisne. Também isso sabíamos, no fundo de nós mesmos, mas não queríamos aceitar.

Houve aquela triste ilusão da volta da democracia. Que democracia! A democracia com os mesmos de sempre lá em cima, doravante livres do medo sofrido na geração anterior. Foi o triunfo do capitalismo na sua forma extrema de neoliberalismo. Foi um maremoto, uma avalancha. Em poucos anos os movimentos populares foram arrasados, os sindicatos reduzidos a nada e a classe dos camponeses tradicionais expulsa para as favelas das cidades. Na década dos 90 o neoliberalismo atingiu o auge e apareceu como indestrutível, como a fase final da história, doravante sem competidor possível.

A cultura individualista do capitalismo norte-americano invadiu o mundo inteiro, inundou América latina. Nessa cultura tudo está centrado no bem-estar do indivíduo. O que triunfa são as terapias que garantem a saúde física e psíquica, as dinâmicas de auto-ajuda, de desenvolvimento harmonioso do corpo, das sensações, das emoções, dos sentimentos. Felicidade, harmonia, equilíbrio, saúde, juventude eterna, beleza, triunfo são as novas palavras de ordem.

95% das publicações referem-se ao bem estar físico e psíquico. A publicidade oferece milhares de objetos que garantem a felicidade e a plena realização de si. Os valores são: as férias, as viagens, o sexo, as comidas, o sonho das praias encantadas.

A religião ocupa um lugar importante na nova cultura. A religião também oferece receitas e modelos de bem-estar e de felicidade. Trata-se de uma religião "light" na linha do New Age, uma religião sem exigência e com puras promessas de felicidade. Não de felicidade no céu, mas de felicidade no imediato, felicidade sensível, feita de emoções agradáveis. Karl Marx foi substituído por Paulo Coelho, como símbolo da época.

Doravante a religião interessou e o socialismo aborreceu. A Igreja seguiu o movimento da sociedade.

As novas gerações, que não tinham conhecido as esperanças, os movimentos dos anos 50 que desembocaram nas revoluções dos 60, entraram na nova cultura sem complexo, porque era a cultura em que tinham nascido. O resto era história antiga, lamentação dos velhos sobre o tempo passado.

Na fase anterior muitos tinham feito opção pelos pobres por causa da sua força histórica. Uma vez desaparecida a força histórica sobraram apenas aqueles que, como João XXIII, tinham feito opção pelos pobres pela sua fraqueza, e estavam dispostos a compartilhar essa fraqueza.

Não foram muitos os candidatos, mas subsistiu uma minoria fiel que não abandonou a bandeira de Vaticano II e de João XXIII.

Mas agora os sinais mudam de novo. No limiar do novo milênio a sociedade neoliberal entra em crise, e está consciente de entrar em crise. Houve um novo 11 de Setembro que poderia permanecer também como marco histórico: o sinal do declínio da sociedade ocidental liderada pelos Estados Unidos. Há sinais de uma revolta das massas dos excluídos do Terceiro Mundo lideradas por novas elites, que se manifestam tanto dentro do próprio primeiro mundo como no terceiro mundo. Tudo indica que, entre os jovens e adolescentes que agora se manifestam contra o imperialismo dos Estados Unidos, vão aparecer novas lideranças. Que vão promover novos movimentos populares provavelmente bem diferentes dos anteriores.

A Igreja seguirá? Podemos presumir que sim. No meio dos jovens seminaristas angélicos que os actuais métodos de formação pretendem orientar para dirigir uma Igreja feliz e bem protegida, podem surgir líderes sociais com vocação revolucionária. Como sempre os formadores não sabem o que estão formando e podem descobrir que o resultado da sua ação deu exatamente o contrário daquilo que queriam.

 Quando os povos se organizarem em novas lutas, mundiais desta vez, haverá cristãos e católicos no meio deles, haverá sacerdotes e também possivelmente alguns bispos, porque os núncios também podem errar na escolha dos bispos.

Estas novidades poderiam aparecer bem antes do previsto. Poderiam questionar toda essa procura da felicidade doce e suave que se buscou na ternura de um Jesus feito à medida de um amor "light". Poderiam relegar Paulo Coelho aos fundos das bibliotecas e condenar à reciclagem do papel toda essa literatura cor-de-rosa de um amor desencarnado.


José Comblin

Adital - Notícias da América Latina e Caribe

07:VII:2011


[falecido em 27 de Março de 2011]





Confira também:

9 de setembro de 2011

«ATÉ 70 X 7?» - POR UMA IGREJA QUE ACOLHA

Viver perdoando



Por uma Igreja que não aponte o dedo... mas acolha, confessando e perdoando




Os discípulos haviam ouvido Jesus dizer coisas incríveis a respeito do amor aos inimigos, o orar ao Pai pelos que os perseguissem, o perdoar a quem lhes fizesse mal. Para eles, trata-se de uma mensagem extraordinária, porém pouco realista e muito problemática.

Pedro, então, abeira-se de Jesus com uma proposta mais prática e mais concreta que lhes permita, a eles, discípulos, resolver os seus problemas internos: receios, invejas, tensões, conflitos e desavenças. Como actuar, dentro daquela família de seguidores que caminham na sua peugada? Mais concretamente: «se o meu irmão me ofende, quantas vezes o devo perdoar»? Prévia a qualquer resposta por parte de Jesus, o impetuoso Pedro adianta a sua proposta: «Até sete vezes?»

Esta sua proposta é de uma generosidade bem acima do ambiente justiceiro que vigora na sociedade judaica. Inclusivamente, ultrapassa o que se pratica entre os rabinos e os grupos de essénios, os quais dizem: no máximo, perdoar até quatro vezes. Pedro move-se no quadro da casuística judaica, em que o perdão é prescrito como instrumento de reconciliação e factor de garantia do funcionamento das relações intra-grupais.

A resposta de Jesus exige ‘mudar de registo’. Em matéria de perdão não há limites. «Não te direi até sete, mas até setenta vezes sete». Não faz sentido contabilizar perdão… deitar contas ao perdão. Todo aquele que se deitar a fazer contas sobre quantas vezes já perdoou ao irmão, entra por um caminho absurdo que acabará por destruir o espírito que deve reinar entre os seguidores.

Entre os judeus era conhecido o «Cântico de vingança», de Lamec, herói lendário do deserto, e que rezava assim: «Caim será vingado sete vezes, mas Lamec será vingado setenta vezes sete»(*). Diante desta cultura da vingança sem limites, Jesus canta o perdão sem limites entre os seus seguidores.

Não foi preciso muito tempo para que, dentro da Igreja, o mal-estar fosse crescendo, provocando conflitos e enfrentamentos progressivamente mais lacerantes e dolorosos. A falta de respeito mútuo, os insultos e as calúnias tornam-se cada vez mais frequentes. Sem que ninguém ponha cobro a isto, sectores inteiros que se dizem cristãos servem-se da internet para semear agressividade e ódio destruindo sem piedade o bom nome e a trajectória de outros crentes.

Necessitamos urgentemente de testemunhas de Jesus que anunciem com voz firme o Evangelho de Jesus e que contagiem, com coração humilde, a Sua paz. São urgentes crentes que vivam perdoando e curando esta obsessão doentia que entrou na Sua Igreja.


José Antonio Pagola

(*) Gn 4:24
11 de Setembro de 2011
24º Tempo Comum (A)
Mateus 18:21-35
blog: BUENAS NOTICIAS


6 de setembro de 2011

AS PEQUENAS COMUNIDADES DO FUTURO, por Marcel Légaut

 «Fazei isto em memória de Mim!»

A experiência comunitária, de 50 anos, de Marcel Légaut, em 10 tópicos

[DESCARREGAR TEXTO INTEGRAL AQUI - 10 páginas]



Marcel Légaut


Renovação da CEIA e reunião de alguns discípulos em Seu nome

Papel fundamental das pequenas comunidades no cristianismo

A moldura mais favorável para o desenvolvimento das pequenas comunidades

A grande paróquia urbana não lhes é favorável

O futuro do cristianismo depende do incessante nascimento de pequenas comunidades espirituais

«Para dizer a verdade, o futuro do cristianismo depende do contínuo nascimento, no seio do povo crente, de pequenos grupos de discípulos que se reúnam em nome de Jesus. Nascidos em terras e tempos muito concretos, têm o sentido do terrunho, sabem que pertencem a um lugar e a um tempo que é «seu» e são, por isso, os que estão habilitados a responder às suas necessidades. Só eles o podem fazer sem que a mentalidade ambiente os deite a perder e sem por isso virem a ser infiéis ao espírito de Jesus, posto que mantêm todo o seu enfoque primordial na vida espiritual da qual eles surgiram. Só estas pequenas comunidades podem fazer com que os seus membros caiam na conta de tudo o que há neles e, assim, produzam frutos. Graças, pois, às comunidades [pequenas], os seus membros adquirem uma capacidade de irradiação, diante das pessoas, que prolonga e perpetua a de Jesus.»

O nascimento e o desenvolvimento destas comunidades não se ajustam a nenhuma organização pré-formatada (‘sistemática’)

«Este tipo de fraternidades são muito menos extraordinárias do que se possa, em princípio, pensar. Estão tão pouco pré-concebidas que, frequentemente, nascem e começam a desenvolver-se sem que, os próprios que lhes estão na origem, se dêem conta disso. É precisamente, então, que acontece o trabalho mais profundo e original… Estas comunidades, mesmo sem nome ou, inclusivamente, até quando caem na debilidade de o criar, sem casa nem lugar próprio específico ainda que possam dispor de algum tipo de instalação material, não gostam de publicidade, o que, aliás, é totalmente contrário ao seu espírito.

Ninguém fala delas. As estatísticas ignoram-nas. É frequente, quando começam a conhecer-se, começarem a declinar, altura em que, precisamente, começam a ser reconhecidos nos círculos próximos da autoridade… São comunidades que podem ser desejadas, mas nunca instituídas. Nenhuma autoridade é capaz de as suscitar. Quando a hierarquia, para as poder melhor controlar, as passa a coordenar, com isso não faz mais do que acelerar o seu envelhecimento. Quando estas fraternidades se organizam de modo a passar a ter estruturas duradouras, no fundo preparam a sua decadência, o que, nesses casos, é provável que já esteja em fase avançada. A filiação e a paternidade espirituais são somente aquilo que é capaz de ajudar e de proteger o delicado desenvolvimento destes aparentemente muito precários grupos, na verdade, firmes porque assentes na solidez espiritual dos seus membros.

Estas verdadeiras comunidades estão tão unidas ao ser dos seus membros que também conhecem e sofrem, com eles, seus progressos e seus retrocessos.
À medida que, com a idade, elas se transformam e já não têm as mesmas necessidades, os mesmos meios e as mesmas aspirações, também elas mudam de carácter. Deste modo, estas comunidades acompanham os seus membros ao longo da sua vida de uma forma sempre adaptada a eles e de modo espiritualmente eficaz.»

Estas comunidades são raras por serem escassas as pessoas capazes de ser a primeira pedra.

O teste mais significativo da vitalidade de uma Igreja é a maneira como os seus membros «fazem isto em Sua memória».

Esta preparação [para que o povo cristão seja capaz de ‘Renovar a Ceia’] só poderá ser feita em pequenas comunidades de cristãos.

Recolocação radical da concepção do sacerdócio.

Marcel Légaut, ‘Creer en la Iglesia del futuro’, Sal Terrae, col. Presencia Teologica-43, 1988 (a partir de: Croire à l’Église de l’avenir, Aubier, Paris, 1985), pp.140-143.146-151.153-154.160-161. ISBN 84.293.0794.X.

A IGREJA REGRESSA AO PASSADO, por Marcel Légaut

Marcel Légaut [1900-1990]
A situação da Igreja no pós-Concílio


Sob o impulso do Vaticano II, a Igreja, no seu todo, tomou consciência da considerável importância das iniciativas que tinha que desenvolver e das buscas que deveria empreender para realizar, entre os homens do seu tempo, a missão que lhe advinha de Jesus de Nazaré. (…)

Há, contudo, que dizê-lo: para que a inteligência iluminada pela Fé se desfraldasse feliz e poderosa em liberdade criadora, ao Concílio faltou-lhe, indiscutivelmente, a promoção de uma autêntica renovação da vida da Fé e da fidelidade no interior da Igreja, na linha dum aprofundamento do mistério do Homem e do mistério de Deus, servindo-se de uma compreensão mais funda daquilo por que Jesus teve de passar para chegar a ser aquilo que foi.

Não é de estranhar, então, que algumas das estruturas fundamentais da Instituição continuem, tal como ontem, ainda hoje a pesar nos destinos da Igreja. Ainda que pela rama, enumeremos algumas.

1.   A eleição do Papa apenas pelos Cardeais, cardeais que foram, na sua maioria, escolhidos pelo Papa antecessor, o qual, deste modo, forçosamente «propõe» o seu sucessor, favorecendo uma estabilidade demasiado rígida. Conhecem-se casos de prelados de peso que trocaram suas carreiras eminentes e fecundas para se proporem alargar o corpo dos eleitores.
2.   A colegialidade dos Bispos, que o Concílio felizmente revalorizou, não foi, desde os começos, atacada em seus fundamentos quando se desviou, da sua competente apreciação, questões mais importantes por dizerem respeito à vida pessoal e íntima de sacerdotes, leigos, homens e mulheres? As decisões da colegialidade não tinham que estender-se às questões do governo e do ensino das Igrejas?
3.   A eleição dos Bispos – não é criticável que tal ocorra em Roma e não ‘no local’ e que, por vezes, tal aconteça em oposição aos Bispos do lugar? Segundo referências confidenciais indiscretamente publicadas, não é verdade que se concede o mesmo valor, ou mais, à ‘doutrina’ bem aprendida e repetida e aos modos de comportamento conformes ao uso do que ao carácter e à profundidade da vida espiritual?
4.   A necessária descentralização de uma instituição que, na medida em que os meios técnicos lho permitem, acentua a sua tendência à concentração do poder directo… particularmente, o poder das finanças, cuja pressão nesse sentido centralizador se pode adivinhar…
5.   A necessária autonomia dos Bispos, cujo poder tinha que estar à altura das suas responsabilidades de apóstolos e pastores. Que apostolado cheio de iniciativas arrojadas os espera a eles, de facto, num futuro imediato, nas suas dioceses convertidas, na sua maioria, em desertos, onde a sede empurra as pessoas para miragens, miragens quer do passado, quer do futuro?

A ‘restauração’ que se anuncia já está em marcha.
O cardeal Ratzinger, homem inteligente e de valor, que sabe dizer claramente o que pensa, que quer firmemente aquilo que deseja, o atesta. Acreditem no que digo. Aliás, não está só. Uma equipa, praticamente toda-poderosa, constituiu-se paulatinamente segundo um projecto claramente concebido e tenazmente perseguido. A pouco e pouco, os postos de decisão mais importante vão-se ocupando, aproveitando a saída, por motivos de idade, dos seus titulares. E mais: nada faltará ao êxito da empresa, nem sequer um corpo bem disciplinado e «financeiramente» bem guarnecido que, à mistura com as multidões que se conseguem juntar, sabe arrancar a tempo os aplausos e orquestrar igualmente os protestos quando as palavras que se pronunciam – é preciso ter coragem e, para tal, escassas mulheres foram capazes de tal – não estão conformes com os textos que foram convenientemente revistos e corrigidos pelos servidores da Cúria.

Vejam-se alguns aspectos desta restauração, rapidamente enumerados. São eles:

1.   Os impedimentos múltiplos a uma verdadeira pedagogia catequética e bíblica e, por oposição, o regresso às formulas rígidas.
2.   A recusa de tentativas de renovação da pastoral penitencial.
3.   O bloqueio de algumas questões que certas pessoas colocadas na linha da frente em diferentes regiões do mundo colocam: inculturação do cristianismo em África, na Ásia, etc., ordenação de homens casados, ministérios femininos…
4.   O cavar, mais fundo ainda, do fosso que separa sacerdotes e leigos (os leigos para a acção no mundo e os sacerdotes para o culto).
5.   A contradição entre o discurso público a favor dos pobres e as suspeitas que se espalham acerca da teologia da libertação.
6.   O atraso táctico na nomeação episcopal para sedes vacantes para aí poder colocar um elemento predestinado vindo de fora.
7.   A fundação de novos organismos os quais duplicam os que nasceram sob o espírito do Concílio Vaticano II e que, por fim, acabam por vingar à custa de uma dotação de meios muito mais forte.

Como é possível que se tenha chegado à convicção de que o regresso aos erros e aos defeitos do passado é o único modo de remediar as deformações e os desvios do presente, sendo certo que os primeiros foram a causa principal dos segundos? (…)

Por isso, o período que vivemos [o autor escreve em 1985…], marcado por um esforço de restauração, é necessário ao futuro e à fidelidade da Igreja, da mesma maneira que ao homem verdadeiro são necessárias as crises que lhe sobrevêm quando a sua vida espiritual definha, se deteriora e ele tem, de novo, que se converter. A crise é tão mais profunda e cruel quanto o futuro desse mesmo homem é grave e exigente. O mesmo ocorre com a Igreja. A História não o mostra? É nos momentos de maior desfalecimento e esvaziamento que se erguem crentes duma envergadura capazes de se anteciparem ao seu tempo preparando o futuro.

Oxalá que ninguém desanime nesta hora da verdade que, incessantemente, toca a defunto.

São tempos em que, pouco a pouco privados das abundantes facilidades duma cristandade poderosa, ver-se-ão despojados de certezas e seguranças herdadas tranquilamente quando vieram ao mundo. Por isso, os cristãos, tal como a sua Igreja e em união com ela, têm que reconhecer que cada um necessita pessoalmente de um novo nascimento, em importância comparável ao primeiro. Cada um, segundo as etapas da sua conversão, deverá trabalhar para um novo advento da sua Igreja, sendo certo que tal obra será incessantemente questionada e recomeçada.

Assim, cada um, ao longo da sua vida e em tempo oportuno, ficará a conhecer a hora que Jesus viveu e que o acompanhou até ao fim dos seus dias. Esse ponto em que a Fé desnudada, a esperança sem esperança e o amor impotente e blasfemado mesmo assim se mantêm em pé no meio do abandono absoluto: hora e pórtico que abrem para o mistério, no qual tudo principia e encontra seu fim.


Marcel Légaut, ‘Creer en la Iglesia del futuro’, Sal Terrae, col. Presencia Teologica-43, 1988 (edição original francesa de 1985, mas Prefácio da edição em castelhano muito actualizado), in Prefácio pp.7.21-24.26. ISBN 84.293.0794.X.

ASSOCIAÇÃO MARCEL LÉGAUT

4 de setembro de 2011

OS PEQUENOS GRUPOS DE CRISTÃOS, o futuro da Igreja

Reunidos por Jesus


«na margem da miragem...» [Mia Couto]

 Tudo leva a crer que o crescimento do cristianismo dentro do império romano foi possível graças ao constante nascimento de grupos pequenos, e quase insignificantes, que se reuniam em nome de Jesus para aprender a viver animados pelo seu Espírito, seguindo seus passos.

Sem dúvida que foi importante a intervenção de Paulo, de Pedro, de Barnabé e outros missionários e profetas. Igualmente importantes foram as cartas e escritos que circulavam por diversas regiões. Mas, indiscutivelmente, o factor decisivo foi a Fé simples de crentes cujos nomes nem conhecemos: reuniam-se para fazer memória de Jesus, escutar a sua mensagem e celebrar a ceia do Senhor.

Não temos, necessariamente, de imaginar grandes comunidades, mas tão só grupos de vizinhos, familiares e amigos reunidos na casa de um deles. O evangelista Mateus tem-nos em mente quando recolhe estas palavras de Jesus: «Quando dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estarei no meio deles».

Não tão poucos teólogos assim pensam que o futuro do cristianismo no ocidente dependerá, em boa parte, do nascimento e vigor de pequenos grupos de crentes, os quais, atraídos por Jesus, se reúnam à volta do Evangelho para experimentar a força real que Cristo tem para suscitar novos seguidores.

A fé cristã não poderá apoiar-se no ambiente sociocultural. As estruturas territoriais que hoje suportam a fé dos que não abandonaram a Igreja foram ultrapassadas pelo estilo de vida da sociedade moderna, pela mobilidade das pessoas, pela penetração da cultura virtual e pelo modo como se passa o fim-de-semana.

Os sectores mais lúcidos do cristianismo concentrar-se-ão no Evangelho como um reduto ou como força decisiva para fazer crescer a fé. O próprio concílio Vaticano II fez a seguinte afirmação: «O Evangelho… é, para a Igreja, princípio de vida para todo o seu tempo». Em qualquer época, em qualquer sociedade é o Evangelho que faz crescer e fundar a Igreja - não nós.

Ninguém conhece o futuro. Ninguém tem receitas que garantam o que quer que seja. Muitas das iniciativas que hoje se promovem rapidamente passarão, pois não resistirão à força duma sociedade secular, plural e indiferente. Dentro de poucos anos ocupar-nos-emos, apenas, com o essencial.

Talvez, quem sabe, Jesus irrompa com uma força inesperada nesta sociedade descrente e satisfeita, através de pequenos grupos de cristãos despretensiosos, atraídos pela mensagem de Jesus de ‘um Deus Bom’, cristãos abertos ao sofrimento das pessoas e dispostos a trabalhar por uma vida mais humana.

Com Jesus, tudo é possível. Temos que estar muito atentos aos seus chamamentos.

J A Pagola

Blog: ‘BUENAS NOTICIAS’
04:IX:2011
23º Domingo Tempo Comum (A)
Mateus 18:15-20

A FIGURA DE JOÃO XXIII 1/2

1/2

João XXIII [1958-1963]


Papa João XXIII



Ângelo Roncalli nasceu em Sotto Monte, no Norte da Itália, numa humilde família camponesa, que permaneceu assim toda a vida. Constituiu a mais sonora antítese do culto de personalidade estabelecido durante o pontificado anterior.

No conclave participaram 55 cardeais, dos quais 24 tinham mais de 77 anos. Italianos eram 18, e não-italianos 37. A média de idade era, pois, altíssima, e pela primeira vez mais de dois terços do total não eram italianos. O novo papa contava 78 anos de idade.

Com João XXIII mudamos de registo e de atitude na história do pontificado. Na sua vida e na sua actuação manifestou um novo conceito e uma nova atitude na convivência eclesial. Outros papas foram estimados e admirados, mas este foi querido, seguido, acompanhado por toda a espécie de pessoas. Três meses depois, o Vaticano deixou de ser uma corte para se converter na «casa do pai». Não há dúvida que foi muito pouco convencional: conhecia o mundo moderno e não o temia, não escondia o seu amor à vida e esforçava-se por não perder o contacto com os homens.

Tinha nascido no dia 25 de Novembro de 1881. Foi professor de História da Igreja no seminário da sua diocese, secretário pessoal do seu bispo, e, entre 1921 e 1925, exerceu a direcção da Obra da Propaganda da Fé na Itália. O seu pontificado fica marcado pela surpreendente e decisiva convocação de um concílio. No âmbito italiano tentou libertar a Igreja dos anexos condicionantes temporais e políticos que tanto a tinham marcado. À comunidade eclesial universal ofereceu uma nova, esplêndida e luminosa imagem do pontificado.

Em 1925, Pio XI enviou-o à Bulgária, país de religião ortodoxa. Da Bulgária transferiram-no para a Turquia (1934) como delegado apostólico da Turquia e da Grécia, lugar afastado mas nem sempre à margem dos acontecimentos europeus, e, ao mesmo tempo, administrador do vicariato apostólico de Istambul. Roncalli, no entanto, acolheu a mudança, que não era uma ascensão, com a sua habitual serenidade: «Muita gente das duas costas da Europa e da Ásia tem compaixão de mim e chamam-me desafortunado. Não compreendo porquê. Cumpro a obediência que se quer de mim. Nada mais.» Não em vão o lema que tinha escolhido para o seu escudo episcopal: o do historiador Barónio, Obedientia et Pax.

Em 1942, Pio XII nomeou-o núncio em Paris. O núncio anterior teve de abandonar esta capital pressionado pelo governo do general De Gaulle, o qual além disso pretendeu a demissão de um bom número de bispos, todos acusados de terem aceitado e reconhecido o governo colaboracionista de Vichy. De Gaulle parecia inflexível a este respeito. Roncalli, por ofício e convicção, tinha de defender estes bispos. Como? Com diplomacia? Seguramente, mas também com a fé simples e sem complicações.

Pode comprovar-se que uma constante da sua vida foi a incompreensão do seu trabalho pela Cúria Romana, tanto durante as suas delegações, como durante o seu pontificado. Maritain, embaixador junto da Santa Sé, refere ao seu governo que «monsenhor Tardini (…) não escondeu a sua pouca estima pelas qualidades diplomáticas de monsenhor Roncalli». Provavelmente, uma das causas desta incompreensão deveu-se à sua maneira de ser pouco diplomática segundo os usos mais tradicionais. «Com monsenhor Roncalli, o papel religioso do núncio apostólico em França transformou-se publicamente e eclipsou o seu carácter diplomático junto do Governo», escreveu François Mejan, chefe do Gabinete de Cultos do Ministério do Interior francês.




11 Out 1962 - Abertura do Concílio Ecuménico Vaticano II



Roncalli escreveu, em 1928, estando em Sofia: «Nada há de heróico em tudo o que me aconteceu e em tudo o que julguei que tinha de fazer. Uma vez que se renunciou a tudo, exactamente a tudo, qualquer audácia resulta a coisa mais simples e natural do mundo.» Aqui encontramos o segredo da sua profunda espiritualidade e da sua liberdade interior. A sua audácia não provinha de uma ideologia, nem de um carácter determinado, mas da simplicidade de quem se entregou directa e totalmente a Deus. Por esta razão podia compatibilizar uma atitude conservadora com uma actuação inequivocamente revolucionária. É de 1932 esta anotação significativa: «Tempos novos, novas necessidades, formas novas». E a propósito da morte de Pio XII escreve no seu diário: «Estamos na Terra não para guardar um museu, mas para cultivar um jardim cheio de vida e destinado a um futuro glorioso.»

Em 1953 foi elevado a cardeal e três dias mais tarde a arcebispo e patriarca de Veneza. Nos cinco anos de estância na cidade dos canais visitou todas as paróquias da sua diocese, fundou cinquenta e nove paróquias e um seminário menor, seguindo sempre o exemplo de S. Carlos Borromeu, ao qual dedicou o seu tempo e o seu estudo.

Apoiou-o, ao longo do pontificado, o consenso da Igreja, que ir muito mais além da mera simpatia pelos seus actos: era o apoio à sua maneira de exercer o cargo e à sua visão da Igreja. É simplificadora a ideia de que este papa concitou fundamentalmente simpatia e ternura. O povo crente identificou-se sobretudo com um modo de actuar que era, também, uma forma de conceber a Igreja e uma espiritualidade.

João XXIII significou o início de uma nova era e não só em formas e fórmulas, mas, sobretudo, em atitude e concepção global. Começou restabelecendo o ritmo da Cúria, recebendo regularmente os cardeais prefeitos das congregações romanas, todos eles de muita idade e que, por serem poucos, tinham acumulado postos e presidências. Anunciou que pensava criar vinte e três novos cardeais, entre os quais o primeiro seria Montini (futuro papa Paulo VI). Ultrapassava-se, assim, o número de setenta estabelecido por Sisto V, em 1586. No próprio dia da sua eleição, João XXIII nomeou Tardini seu secretário de Estado, apesar de estar consciente de que este, que tinha sido seu superior, nunca tinha tido boa opinião a respeito das suas capacidades. Uma vez mais demonstrou que só buscava o bem da Igreja e não a satisfação da sua vaidade.




Este Papa deu com a fórmula de escapar de uma reclusão católica secular.

Abriu as portas pelas quais se precipitou uma corrente de vida que estava ali, mas detida por muitos medos, por tentativas erradas e circunstâncias adversas. No final do seu pontificado, duas semanas antes de morrer, insistiu em que tinha de servir o homem enquanto tal e não apenas os católicos, que havia que defender em toda a parte os direitos do homem e não só os da Igreja. Estava consciente que a Igreja devia preferir a medicina da misericórdia à da severidade.

Em 1911 alguns, em Roma, já suspeitaram do seu possível modernismo. Esta dolorosa experiência ajudou-o a reflectir sobre o método de funcionamento dos serviços centrais eclesiásticos. Através do seu trato e dos seus actos, das suas palavras e da sua atitude, pretendeu transformar em serviço pastoral e em obra de caridade, a dignidade papal. A Igreja convertia-se num espaço aberto a todos, e ele era o pai comum. Na Itália, com as suas palavras e actos, procurou a autonomia de uma Igreja demasiado enfeudada num partido e numa política concretos, insistindo na nítida distinção existente entre fé e política. Esta decisão de colocar o Evangelho acima dos partidos e opiniões explica o respeito com que foi acolhida a sua actuação durante a crise dos mísseis de Cuba (Outubro de 1962).


Juan María Laboa Gallego, ‘HISTÓRIA DOS PAPAS – Entre o Reino de Deus e o poder terreno’, Esfera dos Livros, Abril 2010, pp. 431-434, ISBN 978-989-626-213-6, 548 p., 35 euros.