teologia para leigos

4 de setembro de 2011

A FIGURA DE JOÃO XXIII 2/2

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João XXIII [1958-1963]


Papa Joao XXIII



Um mês depois de ser eleito, João XXIII escreveu que tinha um programa de trabalho bem decidido e, no seu diário, aponta com satisfação como ao princípio «se difundiu a convicção de que seria um papa provisório, de transição. Pelo contrário, eis-me aqui na vigília do quarto ano de pontificado e com a visão de um robusto programa que há que desenvolver diante do mundo inteiro que observa e espera». O conceito «sinais dos tempos» representou um novo enfoque: acabava-se a Igreja imóvel, conservadora por instinto, ancorada no passado e desconfiada da história, para se converter numa Igreja disposta a repensar os temas e as questões antigas, centrada no serviço ao homem no seu conjunto e na difusão do Evangelho.

João XXIII pôs o acento na sua função de Bispo de Roma. Obviamente, todos estavam conscientes de que o papa tinha esse papel, mas esta função episcopal tinha sido tradicionalmente relegada, transferida para subalternos. Ao tomar posse da sua catedral, S. João de Latrão, explicou que «já não é o príncipe que se adorna com sinais de poder exterior que agora se observa, mas o sacerdote, o pai, o pastor […], que funde na mesma pessoa duas dignidades e duas missões incomparáveis: a de bispo da diocese de Roma e a de pontífice da Igreja universal». Esta atitude sublinhava a importância da função episcopal e das Igrejas locais, dois temas essenciais na vida eclesial, que se convertiam em protagonistas teológicos por causa do concílio e que seriam causa da posterior multiplicação de sínodos diocesanos.

O sínodo de Roma manifestou que esta cidade era uma diocese e que o papa era o seu bispo. É verdade que o desenvolvimento do sínodo constituiu objectivamente um fracasso. Os padres presentes mantiveram-se passivos e aceitaram umas constituições sinodais em cuja elaboração não participaram, manifestando uma atitude tradicional e pouco de acordo com o que sentiam e viviam os romanos do momento. Apesar disso, o mero facto de ser celebrado recordou que Roma era uma diocese normal e que tinha de a dirigir e evangelizar como as outras. Mais adiante: pelo facto de ser a diocese do papa, João XXIII pensava que devia dar exemplo e converter-se em guia e espelho do mundo cristão. […]

Perante um grupo de cardeais que o consideravam um pontífice ancião, o papa anunciou, apenas três meses depois da sua eleição, a celebração de um sínodo romano, a revisão do Código de Direito Canónico e a convocação de um concílio ecuménico. O dia escolhido para o anúncio não foi casual: o dia 25 de Janeiro, festividade de S. Paulo, apóstolo que o papa quis relacionar permanentemente com S. Pedro, segundo uma antiquíssima tradição.

Parece que se pode afirmar que grande parte da Cúria era contrária à celebração deste concílio, e hoje sabemos que Roncalli estava consciente desta reacção negativa: «Humanamente podia supor-se que os cardeais, mal escutada a alocução, se congregariam à nossa volta para expressar a sua aprovação e bons votos. No entanto, produziu-se um impressionante devoto silêncio.» A preparação do concílio, por parte da Cúria, foi rejeitada em grande parte já desde as primeiras sessões. Não houve sintonia, nem podia havê-la, entre uma Cúria esclerosada e um episcopado que, em grande parte, precisava de responder às inquietações contemporâneas. Para muitos membros da Cúria, depois da definição da infalibilidade pontifícia, julgava-se que já não eram necessários concílios. No entanto, para João XXIII a amplitude e a novidade dos problemas presentes no mundo contemporâneo exigiam a colaboração e a co-responsabilidade de todos os bispos da Igreja reunidos em concílio, uma das formas mais antigas de exercer a autoridade na tradição eclesial.

Outro objectivo do concílio era evidenciar a substância do cristianismo, às vezes opaca por causa de tantos revestimentos e acrescentos acidentais. O papa estava consciente desta necessidade, não só pelos seus conhecimentos históricos, mas também pelo seu trato frequente com as Igrejas orientais. Para o papa, devia tratar-se de um novo Pentecostes, de uma efusão do Espírito Santo capaz de reanimar a riqueza interior da Igreja. Isto explica o perfil de um concílio que se apresentou como um acontecimento pastoral, centrado no anúncio da Boa Nova de Jesus Cristo.

O período de preparação deu a entender que as Igrejas cristãs, de maneira especial as ortodoxas, iam responder positivamente ao convite de enviar observadores aos trabalhos conciliares. Nem o Vaticano I, nem Trento o tinham conseguido, mas, neste caso, era o fruto do novo clima instaurado pelo papa e conseguido também graças à atitude conciliadora demonstrada pelo cardeal Bea. O ecumenismo deixava de ser uma palavra vazia para se converter num espírito e num desejo partilhado. Durante os trabalhos conciliares, mais de cem observadores de comunidades não-cristãs tomaram parte activa. As relações pessoais com o patriarca Atenágoras e o encontro com o arcebispo de Cantuária, Geofrey Francis Fisher, inauguraram uma época de diálogo e convergência entre as Igrejas cristãs.



11 Out 1962 - Abertura do Concílio Ecuménico Vaticano II


O concílio constituiu o eixo vertebral deste pontificado, tanto na sua preparação, como no seu desenvolvimento, tanto na elaboração da sua fisionomia, como na fixação dos seus objectivos. Três mil bispos reuniram-se para dialogar sobre os problemas mais urgentes do cristianismo e da humanidade. Provavelmente, João XXIII pensou que o concílio duraria só uma sessão. Com um optimismo invejável, mas que se revelaria infundado, acreditava que «o consentimento dos bispos não seria difícil e a sua aprovação seria unânime». Não era o corpo eclesial assim tão homogéneo, nem concordava em tantos temas importantes... Pelo contrário: por trás de uma fachada de calma e de conformismo existia uma forte crise interior e, sobretudo, a convicção de que tinham de mudar muitas coisas no seio da instituição. Como clamorosamente aconteceria alguns anos mais tarde na Igreja em Espanha, o concílio foi a ocasião e não tanto a causa da aparição de correntes de mal-estar, renovação, confronto e reestruturação.






Pela primeira vez, em séculos, a Igreja reunia-se, não para condenar ou atalhar uma heresia, mas para se examinar e renovar, e a realidade demonstrou que o tempo era propício. O papa animou a escolher uma atitude de misericórdia e não de condenação.

No início das sessões apareceram com clareza quais iam ser as finalidades do concílio: a participação da Igreja na busca de uma humanidade melhor, o pôr em dia as estruturas e a apresentação da mensagem da Igreja, bem como a preparação dos caminhos para a unidade entre os cristãos. É verdade que estes fins não eram privativos deste concílio, mas da Igreja de todos os tempos, mas não há dúvida que nesse momento foram enfrentados com uma nova atitude e entusiasmo. Algo parecido aconteceu com o papa: obviamente, não podia saber como é que o concílio ia desenrolar-se, mas não há dúvida que traçou as suas linhas mestras através de uma obscura intuição que não poucos definiram como profética.



No discurso inaugural sublinhou que continuava a ser Cristo o grande problema colocado diante do mundo e diante do qual os homens tinham de tomar posição. Rechaçou a atitude pessimista e as nostalgias do passado dos profetas da desgraça. Indicou que o nosso dever não se reduz unicamente a guardar este tesouro precioso, como se apenas nos preocupássemos com a antiguidade, mas devíamos dedicar-nos com vontade e sem temor à obra que o nosso tempo exige, prosseguindo assim o caminho que a Igreja percorre há vinte séculos. O papa afirmou que o objectivo do concílio não era realizar uma obra intelectual ou de técnica teológica, mas tinha de centrar a sua atenção em como anunciar o Evangelho e como estruturar a vida cristã. De facto, o concílio converteu-se no mais revolucionário acontecimento cristão desde a época da Reforma.


Com João XXIII iniciou-se um autêntico e real diálogo entre as chamadas «religiões do livro», o qual prosseguiu com altos e baixos durante os pontificados seguintes. A declaração católica de 1998, sobre a responsabilidade histórica dos católicos na posição antijudaica, vai nesta mesma direcção. Em 1960, o movimento para a independência de boa parte do continente africano obteve o apoio e simpatia da Santa Sé, que favoreceu a passagem da Igreja missionária para as Igrejas indígenas.

João XXIII escreveu oito encíclicas não só de temática religiosa, mas também social, dirigidas a todos os homens de boa vontade e que abordaram temas urgentes do momento. No dia 11 de Abril de 1963, Quinta-Feira Santa, apareceu a Pacem in Terris, uma encíclica que foi acolhida na Igreja como uma lufada de ar fresco e que, em Espanha, se tornou num autêntico marco no caminho da renovação eclesial. Abandonando a retórica anti-comunista da Guerra Fria, esta encíclica constitui uma viragem revolucionária na cosmovisão cristã dos problemas temporais. Faz da dignidade humana o centro de todo o direito, de toda a política, de toda a dinâmica social e económica. Utilizando a categoria evangélica d’o sinal dos tempos, mostra como a promoção económica e social dos operários, o ingresso da mulher na vida pública, a organização jurídica das comunidades políticas, os organismos de projecção internacional nos campos político e social, e o fenómeno da socialização são sinais que indicam modos possíveis da presença do Reino de Deus na história. Na Pacem in Terris, o papa chega a afirmar que, na era atómica, não pode dar-se a guerra justa.

A morte de João XXIII provocou uma comoção generalizada. A Praça de São Pedro converteu-se numa capela, num imenso espaço religioso no qual toda a espécie de pessoas se reunia para rezar, olhando com angústia para a janela do terceiro andar, no qual se encontrava o papa. Esta morte produziu um assombroso e vasto sentimento de aflição pessoal.

Talvez o seguinte parágrafo dos seus escritos explique, melhor do que muitos comentários, a atitude e a posição deste papa:

«Agora, mais do que nunca, certamente mais do que nos últimos séculos, devemos dedicar-nos a servir o homem enquanto tal e não só os católicos; a defender, sobretudo e em toda a parte, os direitos do homem e não somente o da Igreja católica. As circunstâncias actuais, as exigências dos últimos cinquenta anos, o aprofundamento doutrinal conduziram-nos a novas realidades, tal como afirmei no discurso de abertura do concílio. Não é o Evangelho que muda: somos nós que começamos a compreender melhor. Quem viveu mais tempo encontrou-se, no princípio do século, com tarefas novas de uma actividade social que se relaciona com todo o homem; quem viveu, como foi o meu caso, vinte anos no Oriente, oito em França e pôde confrontar culturas e tradições diversas, sabe que chegou o momento de reconhecer os sinais dos tempos, de acolher a oportunidade e olhar para longe


Juan María Laboa Gallego, ‘HISTÓRIA DOS PAPAS – Entre o Reino de Deus e o poder terreno’, Esfera dos Livros, Abril 2010, pp. 434-438, ISBN 978-989-626-213-6, 548 p., 35 euros.

2 de setembro de 2011

O PONTIFICADO DE JOÃO PAULO II 1/2

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«O apóstolo S. Pedro era casado, vivia em Cafarnaum e era pescador…


…no lago de Tiberíades, na Galileia. Num momento da sua vida encontrou-se com Cristo, ficou subjugado pela sua pessoa e pela sua doutrina, e a sua vida posterior ficou marcada por este acontecimento. Os bispos de Roma até ao actual, Bento XVI, sempre defenderam que são seus sucessores, que herdaram todas as atribuições que Cristo lhe concedeu e que mantêm a sua especial autoridade sobre a Igreja.» (…)




«As vidas dos papas não constituem a história do cristianismo, embora estejam localizadas dentro da mesma. A experiência religiosa cristã, continuamos a encontrá-la em Jerusalém, onde a maioria dos cristãos são pobres e marginais, sem poder, porque vivem em terra estranha, embora seja a sua. Ao passo que em Roma, misturada com uma história belíssima de martírio, santidade e generosidade, descobrimos a limitação das mediações, as misérias do poder e da ambição, a mesquinhez das inteligências, a força da rotina e do formalismo, a repugnância pela mudança. Às vezes pode dar a impressão de que em Jerusalém ficou a coroa de espinhos e em Roma a tiara.» (…)

«O protestante Ranke escreveu no prólogo à sua clássica História dos Papas: “Quão insignificante aparece um grande mortal perante a história universal!”» [da Introdução a “História dos Papas”, Juan María Laboa Gallego, A Esfera dos Livros, Lisboa 2010, p. 9.11]

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Juan María Laboa Gallego é licenciado em Filosofia e Teologia e doutor em História da Igreja pela Universidade Gregoriana de Roma. Foi professor durante quinze anos na faculdade de Ciências Políticas da Universidade Complutense e professor ordinário da Universidade de Comillas durante trinta anos. Foi professor convidado de diversas universidades europeias e americanas. Fundador e director da revista XX Siglos de Historia de la Iglesia, é autor de vários livros dos quais destacamos: La Larga Marcha de la Iglesia (1985), Atlas Histórico del Cristianismo (2000) e Atlas Histórico del Monacato (2003). É dele o ‘óleo’ que abaixo se emoldura do Papa João Paulo II. Cada vez mais devíamos seguir a sabedoria de G. Faus: substituir os ‘devocionários’ pela ‘liturgia das Horas’ de uma boa História da Igreja



«Novos Movimentos, Nova Evangelização

 Carol Wojtyla...

a Espiritualidade dos extremos...

 

 João Paulo II (1978-2005), o primeiro papa polaco da história depois de uma tradição de quatro séculos de papas italianos, nasceu no dia 18 de Maio em Wadowice. O seu pontificado foi complexo, exuberante, contraditório, de um protagonista que influiu na marcha da Igreja como poucos antes dele e que ocupou com frequência os espaços informativos. Foi o papa mais universal e mais conhecido de todos os tempos. Pelas suas viagens, encontros, discursos e documentos esteve presente tanto no campo eclesial como no moral, cultural, social e político. De carácter inconformista, pródigo em gestos pouco convencionais, desmitificou o pontificado, como antes o fez João XXIII, convencido de que o carisma pontifício não depende de gestos nem de ritos teatrais nem de aparências sobre-humanas e pouco convincentes.


A Igreja actual é mais aberta e mais livre do que antes, mas esta atitude complicou e ampliou os seus próprios problemas. Saiu da reclusão em que se encontrava, do estado de auto-satisfação provocado pela convicção de que só ela possuía a verdade, e pôs-se a caminho lado a lado com os demais mortais. Esta mudança é meritória, mas o que ganhou em universalidade perdeu em tranquilidade interior. Num mundo tão inter-relacionado, os problemas alheios acabam por ser também os próprios.




Em 1978, depois da morte inesperada de João Paulo I, os cardeais decidiram uma viragem histórica, um pouco por necessidade e, sobretudo, porque consideraram que os tempos estavam maduros para eleger um cardeal não-latino. Estavam convencidos que a universalidade da Igreja exigia uma inculturação maior nas diversas regiões, histórias e culturas. Mas o facto de eleger um polaco significou também uma opção por um modelo e uma atitude muito concretos. Na Polónia a secularização e a descristianização tinham sido impostas por decreto, mas quase não tinham chegado às massas católicas, ao contrário do que tinha ocorrido nos países ocidentais. A Igreja mantinha a solidez e a credibilidade da sua mensagem e a sua liderança era reconhecida inclusive entre o proletariado. Não esqueçamos o grito lançado por João Paulo II na sua primeira viagem como papa ao seu próprio país: «Ninguém tem o direito de expulsar Cristo da história.» Os cardeais consideraram que os católicos polacos tinham vencido o trauma da secularização e quiseram beneficiar desta experiência. Naturalmente, tratou-se de uma ilusão.

Frente a uma Igreja que parecia desmoronar-se optou-se por um pontificado forte, muito seguro de si mesmo, muito convencido de que a manutenção das próprias raízes cristãs fortalece a personalidade dos povos e a solidez do cristianismo. O papa polaco esteve marcado não só pelo seu carácter e a sua língua, mas sobretudo pela sua decisão de integrar o ambiente eslavo na história e na dinâmica do mundo ocidental. A sua actuação na Polónia, tão pessoal, directa e eficaz, não pode ser considerada unicamente como a tentativa de um polaco libertar a sua pátria, mas também como o desejo de um eslavo de libertar uma parte importante da Europa da sua opressão histórica, tanto ideológica como geopolítica. No seu pontificado conjugaram-se os interesses universais com os regionais do Leste Europeu. Poucos dias depois da sua eleição, recebendo bispos polacos, disse-lhes: «Considero-me um bispo da Polónia. Sou polaco: amo a Polónia.» Poucas vezes na história estas igrejas eslavas e em geral as do Leste da Europa se teriam encontrado mais integradas no tronco comum cristão.

Não sabemos se João Paulo II recebeu um mandato concreto do conclave a propósito das necessidades mais urgentes e de uma «modernização responsável» da Igreja, mas depois de mais de vinte e cinco anos de pontificado parece que podemos afirmar que Wojtyla se via a si mesmo como um novo Gregório VII, com a missão de reformar resolutamente a Igreja, considerada em situação de grande decadência. Isto levou-o a exercer o poder com vontade inflexível, actuando frequentemente com dureza, quando o considerava necessário, sem grande respeito pelas pessoas ou pelos seus itinerários eclesiais, exigindo aos teólogos uma estreita colaboração com o magistério o que, de facto, significou maior controlo da liberdade teológica da Igreja.


Caminho Neo-catecumenal




Restringiu a possibilidade de secularização dos padres, impôs um delegado pessoal aos jesuítas e interpretou a evolução do atentado que sofreu como uma intervenção especial da Virgem de Fátima. Confiou nos movimentos e em algumas instituições, como a Opus Dei ou os Legionários de Cristo, sem ter em conta o parecer dos bispos nem, evidentemente, dos fiéis, convencido de que eles são chamados a regenerar o tecido eclesial, devolvendo à Igreja segurança em si mesma e uma consciência clara da sua função religiosa. Não há dúvida que era profundamente autoritário, mas, ao mesmo tempo, o mais popular da história.

João Paulo II foi fundamentalmente um papa viajante, escreveu muito, gostava do contacto directo com as pessoas e recebeu permanentemente em audiência grupos e pessoas individuais, visitou sem descanso as paróquias romanas, uma a uma, e, com frequência, as dioceses italianas, onde falou sem papas na língua sobre os pontos débeis da complicada situação nacional. Depois do Vaticano II as dioceses adquiriram mais consciência da sua autonomia, e as conferências episcopais nacionais tiveram, ao menos em aparência, capacidade e meios suficientes para orientar a marcha das suas respectivas igrejas. Por outro lado, durante o seu pontificado, Roma passou a dirigir mais do que nunca a vida imediata das dioceses, limitando as capacidades das conferências episcopais.


Logotipo do Caminho Neo-catecumenal

O papa, ocupado nas suas viagens e preocupado com os grandes temas de carácter global, deixou nas mãos da Cúria boa parte do controlo habitual que, por exemplo, Paulo VI exercia em pessoa. Isto significa que a Cúria do papa Wojtyla se fortaleceu na sua burocracia e nos mecanismos de controlo sem que, por sua parte, tenha sido fiscalizada nem limitada. Nos últimos anos, de enfermidade e ancianidade, esta realidade foi-se agravando consideravelmente. (…)

Juan María Laboa Gallego, História dos Papas”, A Esfera dos Livros, Lisboa 2010, p. 449-452

O PONTIFICADO DE JOÃO PAULO II 2/2

2/2

«O apóstolo S. Pedro era casado, vivia em Cafarnaum e era pescador…»


Carol Wojtyla...



Carol Wojtyla: «Cultura da Morte vs. Cultura da Vida»



Em 1596 uma parte do clero e do povo ortodoxo oriental escolheu unir-se a Roma, embora mantendo o rito litúrgico bizantino. Os uniatas − do latim uno e do russo uniatviveram submetidos a russos e polacos, em situação frequentemente difícil. Em 1946 Estaline suprimiu sem mais a Igreja uniata e incorporou-a na Igreja ortodoxa. Depois da queda do regime soviético, este acontecimento continuou a ser motivo de confronto entre a Igreja ortodoxa e a católica. Aquela não queria perder os fiéis adquiridos indevidamente e esta exigia a devolução dos bens confiscados e o reconhecimento pleno de uma realidade existente apesar da perseguição e das intolerâncias: ou seja, milhões de cidadãos continuaram a considerar-se católicos apesar da perseguição. Além disso, para os católicos, o facto de os uniatas manterem a liturgia, a língua, a tradição e a ordenação canónica próprias constitui a demonstração da possibilidade de distintas tradições conviverem em comunhão numa mesma Igreja.

Para João Paulo II a Igreja uniata deveria constituir a ponte entre católicos e ortodoxos, mas na realidade, dada a intransigente posição dos ortodoxos russos, converteu-se num muro que piorou ainda mais as relações mútuas. Além disso, os uniatas ucranianos, que são a maioria e contam com dois milhões de membros nos Estados Unidos, defendem a independência da Ucrânia de toda a ingerência russa, de forma que, uma vez mais, o nacionalismo influi e conforma uma Igreja oriental. João Paulo II, ao decidir a criação do patriarcado de Kiev, deu origem a uma rejeição de consequências imprevisíveis no patriarcado de Moscovo. Esta é a razão por que o papa não pôde visitar a Rússia, como era seu mais vivo desejo, e por que as relações entre ambas as Igrejas se encontram abaixo dos níveis mínimos.
(…)

Numa das suas mais claras propostas, João Paulo II convidou todos os chefes religiosos do mundo a reunirem-se em Assis (1986) para rezarem juntos num momento em que as religiões pareciam viver um dos seus momentos mais baixos. A reunião constituiu um autêntico golpe nas consciências religiosas, embora nos ambientes mais conservadores tenha produzido o temor de um irenismo incontrolado, capaz de relativizar e igualar todas as doutrinas.


Um pontificado iminentemente peregrino

(…)
João Paulo II fez das viagens um instrumento permanente de evangelização. Dedicou-se a visitar sistematicamente as diversas Igrejas dos cinco continentes, em mais de cento e quarenta viagens a Itália e mais de cem a outros países. (…) −  corria-se o risco de que as massas se entusiasmassem com a sua pessoa mas continuassem sem ser atraídas pela mensagem cristã; [podia acontecer] que tudo se convertesse numa imensa montagem na qual a substância religiosa fosse acidental.
(…)

No entanto, estes encontros frequentes não tiveram como consequência uma maior co-responsabilidade dos bispos na caminhada da Igreja. João Paulo II manteve o controlo do episcopado próprio da época moderna, seguindo um estilo mais rígido e uniforme. Mudou hierarquias inteiras sem ter em conta o parecer do povo crente nem dos bispos do país, e nomeou bispos de uma linha, sempre a mesma, para mudar maiorias nas conferências episcopais. Em certo sentido, o papa itinerante converteu-se numa espécie de super-bispo, capaz de exercer de forma nova um primado mais sufocante. As conferências episcopais nacionais não conseguiram actuar autonomamente e aos sínodos episcopais não foi permitido que se convertessem num órgão participativo de conselho e de governo.
(…)

Matrimónio e família

Estes dois valores, fundamentais para o cristianismo, parecem encontrar-se em profunda crise na sua concepção tradicional dentro da sociedade ocidental. O tema está a provocar uma polémica generalizada e azeda em numerosos países por causa das propostas que equiparam as uniões de facto às famílias institucionais. O papa, que dedicou a este tema mais tempo do que a nenhum outro, chegou a definir a união de facto como uma desordem, embora insistindo na protecção jurídica dos mais débeis, isto é, dos filhos frutos destas uniões. A experimentação da engenharia genética aplicada ao homem constitui nestes anos um tema extraordinariamente árduo, no qual o compromisso se torna sempre mais difícil.

No mesmo âmbito da moral, uma das principais preocupações de João Paulo II foi a batalha contra a legalização do aborto nas sociedades avançadas. Na sua encíclica Evangelium vitae, na qual convidava a uma nova cultura de amor e respeito pela vida, atacava a cultura da morte, que considerava característica das sociedades materialistas, e das quais o aborto e a eutanásia constituem as principais expressões. A instrução «Sobre o respeito da vida humana nascente» (1987) anunciava que a Igreja se propunha como objectivo imediato obter dos Estados a reforma de leis civis moralmente inaceitáveis, utilizando a opinião pública mundial e qualquer outro meio de pressão legal. Nas conferências e nas instituições internacionais, os representantes da Santa Sé mantiveram uma atitude crítica neste tema, frequentemente em colaboração com alguns países islâmicos.

Beatificações e canonizações

João Paulo II quase canonizou e beatificou mais pessoas do que o resto dos papas no seu conjunto, com o consequente perigo de desvalorização e de uma certa perda de estima do tema. O papa, no entanto, estava convencido de que as jovens gerações e as sociedades em geral necessitam mais do que nunca de modelos de vida cristã. Nas suas viagens a diferentes países beatificou filhos destas comunidades, conseguindo que os povos considerem como algo próprio pessoas que de outro modo teriam ficado no anonimato. Noutras ocasiões estas cerimónias provocaram reacções negativas que transtornaram algumas Igrejas, como em Espanha, por ocasião dos mártires da Guerra Civil ou da causa de José María Escrivá de Balaguer [Opus Dei].
(…)

Provavelmente a página mais sugestiva e incisiva do jubileu do ano 2000 foi o pedido de perdão por parte do papa em nome da Igreja pelos «erros, infidelidades, incoerências e lentidões» e pelas formas de «anti-testemunho» e de «escândalos» de que se fizeram protagonistas «os seus filhos» ao longo dos últimos mil anos. (…) Numa sociedade na qual ninguém pede perdão, a actuação pontifícia representou uma interpelação, embora muitos cristãos tenham expressado que seria mais eficaz se a insistência incidisse mais nos pecados actuais. (…)


Pensamento social

(…)
João Paulo II era moderno, protegeu os «movimentos», novos grupos de leigos presentes na Igreja com um verniz exterior mais progressista do que o seu interior oculta, mas não há dúvida que a sua teologia neste campo era profundamente tradicional. O papa engrandeceu o papel da mulher na Igreja mas não lhe reconheceu o acesso ao sacerdócio, argumentando que há muitas outras funções importantes na Igreja. Embora o documento Christifideles laici disponha que as mulheres devem participar na vida da Igreja no que se refere a consultas e à elaboração de decisões, essa participação é limitada, ao menos no que toca a cargos ligados ao sacerdócio.

Nos Estados Unidos e noutros países foi mal recebida esta decisão pontifícia. Não há dúvida que se falseia o problema se se reduz tudo a um problema de feminismo ou machismo, mas o debate existe. Cada dia há mais mulheres a estudar teologia, a dirigir instituições eclesiais, exercendo o apostolado, mas a sua participação continua limitada segundo a sua condição, mesmo num tempo em que as vocações sacerdotais escasseiam e a média de idade dos sacerdotes é muito alta.

Juan María Laboa Gallego, História dos Papas”, A Esfera dos Livros, Lisboa 2010, p. 452-459



Aconselha-se vivamente a leitura desta obra, que tem 548 páginas.

1 de setembro de 2011

JORNADAS MUNDIAIS DA JUVENTUDE - OS KIKOS...


Esta es la juventud de Kiko


Kiko Argüello - Praça Cibeles, Madrid


Palabra de honor que, cuando bajaba por la atestada Gran Vía, al oír la voz por los altavoces pensé que era el padre Loring. No sé si caen. Un telepredicador ya nonagenario que aparece en algunos canales de televisión diciendo que a los niños, cuando se ponen insolentes, lo que hay que hacer es romperles la cara a guantazos. Por su verborrea le llaman (que hay que ver) el Padre sonrisas, y fue precisamente la verborrea lo que me confundió; eso y que las dos voces, cuando gritan, se parecen bastante.

Pero no, claro. Quien atronaba por los altavoces era Kiko Argüello, fundador del Camino Neocatecumenal, el grupo ultraconservador más numeroso y poderoso de la Iglesia católica. Pronto me daría cuenta de que habría sido impensable que fuese cualquier otro.

La Jornada Mundial de la Juventud, fiesta religiosa que ha atraído a Madrid no solo al Papa Benedicto XVI sino a varios cientos de miles de jóvenes de todo el mundo, concluyó el lunes con una multitudinaria concentración en la plaza de la Cibeles (Defensa negó para este acto el basural de Cuatro Vientos; el alcalde Gallardón fue más comprensivo).

El Pontífice ya se había ido, pero eso daba igual: quienes estaban allí para homenajearse a sí mismos eran los verdaderos organizadores de esta JMJ y de casi todas las anteriores; los que llenan las anuales manifestaciones “por la familia” en la plaza de Colón; los que abarrotaron una y otra vez los estadios a los que viajaba Juan Pablo II; el único grupo humano que hoy existe en el mundo capaz de poner a cientos de miles de personas en cualquier punto del planeta. Y lo hacen para vitorear al Papa, a Cristo, a la Iglesia, a la familia y a lo que haga falta. Pero sobre todo adoran a su fundador y líder absoluto (él diría, seguramente, kerigmático), el pintor y antiguo cantautor leonés Francisco José Gómez Argüello. Son los kikos.

A lo largo de mi vida he asistido a incontables ceremonias católicas, supongo que como la mayoría de ustedes. Esta es la primera vez que contemplo un acto religioso en el que lo más importante, diría que la obsesión, no es la firmeza de la fe, o la esperanza, o la voluntad de ayudar a los demás, sino el número.

Kiko, al micrófono en el escenario de Cibeles, mostraba sus problemas con el idioma y hasta con la geografía, pero con las cifras es único. Del Cánada, tantos cientos estaban allí presentes, con tales o cuales obispos o vescovos; del Kazájistan, tantos; de la Bulgaría, del Pánama, del Íraq, del Sudan, de la Albanía, tantos cientos o miles. De Croacia habían venido muchísimos croatos y de Mosca, capital de Rusia, un montón de rusos. Cada grupo de chavales gritaba, agitaba sus banderas cuando... adivinaba el nombre de su país. Las mismas banderas que hemos visto durante toda la JMJ. Y en el escenario se alborozaban todos: la orquesta sinfónica (con una sección especial de guitarras) y el coro que se había hecho colocar allí, bajo un sol terrible, y un largo centenar de obispos y cardenales de todo el mundo, que se protegían con sombrillas blancas.

Se supone que todos estaban allí para celebrar la “liturgia de la Palabra”, pero pronto quedó claro que eso era nada más que la teoría. Aquello era un espectáculo montado por, para, con, hacia y ad maiorem gloriam del propio Kiko. Aquello era, ante todo y por encima de cualquier otra cosa, una demostración de poder. Hacia la ciudad que les acogía, hacia el mundo y, desde luego, hacia la jerarquía eclesiástica.

Canciones y “sinfonías”.
Demostraciones de poder hay y ha habido siempre muchas, y las hace quien puede. La singularidad de esta radica en la personalidad de Kiko.
Yo no he visto en toda mi vida un ego como el que transporta este hombre. He hablado con él solo dos veces. En ambas la conversación fue brevísima y exactamente igual. Primero me preguntó si ya me había convertido. Después de titubear un poco, yo le dije que en qué. Le dio la risa. Luego quiso saber, terminante, cuántos hijos tenía yo. En cuanto le aclaré que ninguno, perdió todo interés en mí y se puso a hablar con otros. Quiero decir con esto que ya sabía que Kiko tiene una forma de ser... vamos a decir un tanto difícil.

Pero nunca creí que vería a un líder religioso someter a una multitud semejante a tres horas y media de exhibición desmedida de su propio yo. Las canciones que se cantaron (Yo vengo a reunir a todas las naciones, con texto del profeta Isaías, y Una gran señal, con letra del Apocalipsis) estaban escritas por él; quiero decir que Kiko puso a ambos textos, de prosa sin ritmo, la música que supo, y bastaba oírlas para explicarse -seamos cariñosos- que Argüello no llegase a despuntar como cantautor. Pero daba igual: su gente, sus miles de muchachos, las cantan de fervorosa memoria y las acompañan con bongos, panderetas y con las sempiternas guitarras.

El asunto empeoró cuando Kiko, que ignora por completo cuál es el tamaño de su talento musical, hizo interpretar ante todo el mundo una “sinfonía” (él la llama así) cuya melodía también se debe a su ingenio, porque no puedo creer que la orquestación sea suya. Así que para eso estaban allí la orquesta y el coro, abrasados por el sol que les daba de frente. No voy a ponerme quisquilloso con aquella media hora larga de sucesión de frases musicales, casi todas en modo menor y de una extraordinaria simpleza, que en ocasiones parecían sefardíes, y en otras andaluzas, y las más de las veces no se sabe qué parecían. Kiko estaba allí nerviosísimo, marcaba el compás con las manos y hasta llegó a unir su voz, desde el micrófono atronador, a las del coro.

Quién manda.
Y cuando éste atacó la frase “María, madre de Dios”, se produjo el clímax. Con un solo gesto de las manos, sin decir -por una vez- ni media palabra, Kiko mandó ponerse en pie a todos: a los miles de chavales, a los obispos y príncipes de la Iglesia; al cardenal austríaco Schönborn, que es un consumado melómano; al cardenal franciscano O’Malley, de EEUU, que también; a Rouco, desde luego, y a los demás. Todos en pie con un solo gesto, como reclutas. Quedó clarísimo quién mandaba allí. Quién arrastra multitudes. Quién tiene el poder.

Interrumpió al cansado cardenal de Madrid (y a quien se le puso por delante) cuantas veces quiso. Corrió por el escenario con la energía de Miguel Ríos. Saludó cuanto quiso, habló sin parar, dio palabras, las quitó. A su voz de mando subieron al escenario cientos de muchachos que, al menos esa tarde, querían formar parte de los 20.000 sacerdotes que Kiko exige... ¡para evangelizar China! Los obispos y cardenales le obedecían y tocaban la cabeza a los chicos.

Me fui de allí cuando Kiko, por décima vez, se arrancó a la guitarra con Una gran señal. No lo soportaba más. Me preguntaba qué habría dicho el humilde Cristo de semejante show. Prefiero no saberlo.

Jesús Bastante
01:IX:2011
baronrampante@hotmail.es


JORNADAS MUNDIAIS DA JUVENTUDE - A LITURGIA


A propósito dos "concertos" aquando das liturgias das JMJ-2011


Monumental Coro das Jornadas Mundiais da Juventude - 2011


«El Coro no está para sustituir, sino para unirse al canto del pueblo»


Probablemente Rouco Varela y demás organizadores de la JMJ Madrid 2011 habrán quedado muy satisfechos por la "altura musical" ofrecida, ante España y el mundo entero, en las distintas liturgias que han jalonado la recién terminada Jornada Mundial. Sí, satisfacción por haber conseguido formar una considerable orquesta de jóvenes músicos y un amplio coro para "amenizar" convenientemente las Celebraciones de la Semana. Así lo demostraron en la "Misa de Monseñor Rouco" en la Plaza de Cibeles.

Ellos y sólo ellos fueron entonando el Canto de entrada, el Gloria en latín, el Salmo 22, el Aleluya... todos aquellos cantos preparados con tanto esmero.

Mientras tanto, los jóvenes, situados en la Plaza y sus alrededores, escuchaban callados, sin abrir la boca; tanto, que el comentarista de Telemadrid, al final de la emisión, no pudo sino exclamar lleno de admiración: "... ¡¡Y los jóvenes han permanecido con un riguroso silencio durante toda la Misa!!”.

 Algo parecido ocurrió el día 18 en la Celebración de la Palabra, para dar la bienvenida a Benedicto XVI. El Coro y la Orquesta comenzaron a entonar el nuevo Himno de la JMJ. Una y otra vez se escuchaba la frase musical "Firmes en la fe", pero eran ellos, solamente ellos, los componentes del Coro, los que la cantaban a varias voces, impulsados por el director de orquesta que permanecía de espaldas a la Asamblea, siempre de espaldas a la gran masa de jóvenes peregrinos, que se limitaban a escuchar en silencio, un tanto ajenos a ese nuevo Himno, cuyos compositores lo habían presentado ante la prensa como la síntesis musical del mensaje de toda esta JMJ.

Se ve que los Obispos, en las Catequesis mañaneras con los diversos grupos de jóvenes, no quisieron dedicar ni un poco de su tiempo para ensayar con ellos, al menos la melodía de la frase fundamental del Himno. Probablemente ni los Obispos, ni los organizadores de la JMJ, debieron caer en la cuenta de la fuerza que hubiese tenido el que, una y otra vez, todos los jóvenes, en las Celebraciones, hubiesen cantado a una sola voz la citada frase: "Firmes en la fe".

Pero no, los peregrinos seguían en silencio, escuchando la interpretación de la Orquesta y el Coro.

Para colmo se continuó con la Proclamación del Evangelio ¡¡cantado!!... Y la Buena Noticia, siempre cercana, sonaba a algo ficticio y teatral en aquel atardecer madrileño. El Coro continuaba cantando el Aleluya. Pero la Asamblea de jóvenes, tal vez harta ya de tanto silencio, irrumpió con uno de sus gritos preferidos. Y tocando palmas, una y otra vez exclamaban: ¡¡Benedicto!!, ¡¡Benedicto!!.

Al día siguiente, durante el Vía Crucis, se siguió el mismo esquema. El Coro interpretó diversas piezas musicales, gran parte de ellas en latín. En Recoletos y en Cibeles la muchedumbre de jóvenes peregrinos continuaba en el mayor de los silencios. Ni siquiera se les dio la oportunidad de responder a la aclamación "Te adoramos Cristo y te bendecimos"... En cada una de las Estaciones el lector se adelantaba con la fórmula en latín.

En Cuatro Vientos, durante la Vigilia y la "Misa" de Clausura, continuó la misma tónica. Mayor lucimiento, si cabe, de la Orquesta y el Coro, que iba interpretando pieza tras pieza, como si de un mero concierto se tratase. Hasta el Himno de la JMJ, a pesar de haber ya transcurrido una semana, seguía siendo escuchado en silencio por la inmensa muchedumbre de peregrinos.

Muchedumbre que era invitada a hincarse de rodillas ante la aparición espectacular de la gigantesca custodia de la Catedral de Toledo.

Estos jóvenes parecían estar condenados a escuchar, en silencio y de rodillas, las interpretaciones de la Orquesta y el Coro. A pesar de todo, esos jóvenes peregrinos intentaban una y otra vez salirse del "guión litúrgico" y, sin aguantar más tanto silencio, empezaban a gritar con ganas: ¡¡Viva el Papa!!... ¡¡Benedicto!!.

Estas Celebraciones litúrgicas de la JMJ Madrid 2011 han resultado ser muy parecidas a la Celebración que tuvo lugar en Santiago de Compostela, con ocasión de la visita de Benedicto XVI. En la gran escalinata de la Puerta del Obradoiro se situaba una gran Orquesta y un Coro de muchas voces. Llenando la Plaza, una muchedumbre de fieles, que se limitaban a escuchar en el más triste de los silencios.

No ocurrió lo mismo con motivo de la Consagración del Templo de la Sagrada Familia en Barcelona. El inmenso Coro, con su propio director, estaba formado por gran parte de los Coros de las diferentes tierras catalanas. Pero abajo, con la Asamblea, a la vista de todos, se situaba otro director-animador para impulsar el canto de todo el pueblo. Esto es lo que aprendimos con el Concilio Vaticano II. El Coro, como parte integrante de la Asamblea, no está para sustituir, sino para unirse al canto del pueblo, dándole brillantez y fuerza.

Pero han pasado los años y poco a poco se ha pretendido condenar al pueblo, al Pueblo de Dios, al más lastimoso de los silencios. En estos tiempos, en los que una triste ola de involución nos amenaza (o mejor, nos atenaza, como tantos están ya padeciendo), es necesario que el Pueblo de Dios se sienta de nuevo impulsado por el Espíritu y rescate y exprese con fuerza su voz y su canción.

Juan Antonio Espinosa


26.08.11 | 22:29. Archivado en Reflexiones JMJ 2011

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