teologia para leigos

29 de agosto de 2011

JOÃO PAULO II - UM PAPA DO OPUS DEI

Um Papa da Polónia: Karol Wojtyla





Em pouco tempo, o segundo conclave depara-se com uma situação completamente nova: os cardeais italianos, novamente divididos, não conseguem pôr-se de acordo a respeito de nenhum candidato italiano que pudesse ser um candidato de compromisso. Com isso, abre-se a oportunidade histórica de que possa entrar na liça um candidato não italiano! É sobretudo o cardeal de Viena, Franz König, perito em Europa oriental, e que já no anterior conclave tinha desejado, com razão, que fosse eleito um Papa não italiano, é ele quem, juntamente com os cardeais alemães, sugere o nome do arcebispo de Cracóvia, o cardeal Karol Wojtyla, o qual é finalmente eleito após oito votações e que toma o nome de João Paulo II.

Tal como estava previsto, nessa altura, eu viajo a Nova York no dia 13 de Outubro de 1978. Anunciado como «líder tão respeitado como controverso no mundo cristão», de segunda a quinta-feira (de 16 a 19 de Outubro de 1978) profiro quatro conferências em torno da questão: «Como podemos falar, hoje, de Deus?», na Riverside Church, para cerca de mil e quinhentos ouvintes inscritos no âmbito dos «Sermões nos Estados Unidos», do Fosdick Ecumenical Convocation. No fim de cada conferência recebo inúmeras perguntas para esclarecimentos, às quais, precisamente do mesmo lugar donde tive que anunciar o assassinato, dez anos antes, de Martin Luther King, respondo àquelas que me parecem as mais importantes.

A 17 de Outubro de 1978, na escadaria da Riverside Church, mesmo antes de começar a minha conferência, recebo a notícia da eleição de Karol Wojtyla como Papa. De imediato anuncio, do púlpito, que temos um papa polaco, facto que não desperta em mim nenhum sentimento pessimista. O monopólio que os italianos exerciam, desde há séculos, tinha que ser quebrado caso se quisesse propiciar, finalmente, uma reforma a sério. Também, como suíço, tenho simpatia pelo povo polaco, pelo facto de ter sido espartilhado pela Alemanha e pela União Soviética, aquando da segunda guerra mundial.

Um dos meus melhores doutorandos era de ascendência polaca, o americano Ronald Modras (doutorado em 1972 com uma tese sobre a eclesiologia de Paul Tillich) e que obteve uma cátedra na Universidade de St. Louis, precisamente onde eu receberia o meu primeiro doutoramento honoris causa. (…)


Primaz da Polónia Stefan Wyszyński
e o padre Jerzy Popiełuszko [Karol Wojtyla ao centro]




Na verdade, na imprensa diária e nas revistas polacas apareciam, com frequência, artigos críticos contra mim, regra geral escritos por conservadores. Chegam-me, também, muitas notícias preocupantes acerca da situação ainda «pré-conciliar» em que se encontra a Igreja do novo Papa. Já em 1976, uma fonte de Varsóvia bem colocada contava-me o seguinte: «Infelizmente, temos que constatar com tristeza que na Polónia a actividade que o senhor desenvolve é pouco conhecida e isso por causa da situação interna que lembra os tempos pré-conciliares. Por medo do episcopado, nenhuma das editoras católicas que temos ente nós teria coragem suficiente para publicar algum dos seus valiosos livros. Ninguém pensaria em editar ‘Ser Cristão’(…)». Mais tarde, em plena crise, depois de me ter sido retirada a licença eclesiástica para ensinar, um amigo pessoal de Wojtyla dirá com ênfase na televisão suíça, «desculpando» o Papa polaco, que podia assegurar ao povo suíço que o pontífice «ainda não tinha lido nenhum dos livros de Hans Küng…». Mas, tal como ficará bem claro depois, já tinha as ideias muito claras a meu respeito.

Não obstante, e apesar de todos os reparos, quando recebo a notícia em Nova York, acolho com sincera satisfação a eleição de Karol Wojtyla: à luz da divisão do mundo em Leste e Ocidente ainda vigente em 1978, parece-me boa ideia eleger ao menos uma vez um homem de Leste. Não é verdade que estamos sob a «cortina de ferro»? Ao mesmo tempo, por várias vias me informam que Wojtyla é bem mais aberto que o arcebispo de Varsóvia e primaz da Polónia, Stefan Wyszynski, o qual tinha criticado com acrimónia, no semanário cracoviano «Tygodnik Powszechny» (cf. vol. 1, cap. IX, «Igreja e liberdade na Polónia», in ‘Libertad Conquistada – Memorias’, Ed. Trotta, 2007, pp.547), a minha primeira conferência nos Estados Unidos sobre ‘Igreja e Liberdade’. Sem dúvida, acerca de Wojtyla também se iria enganar o cardeal König, que tão decididamente tinha apostado na sua eleição. (…)


Papa João Paulo II e D. Álvaro del Portillo, primeiro prelado da Opus Dei





Fotografias reveladoras: um Papa da Opus Dei

As primeiras fotografias que o «Osservatore Romano», na sua edição semanal em alemão, publica, logo a seguir à eleição pública (20 de Outubro de 1978), mostram o cardeal Wojtyla, de púrpura, ao lado de cardeal Joseph Höffner e do bispo de Essen, Franz Hengsbach. São de diversas conferências e colóquios celebrados entre 1972 e 1974 no Centro de Encontro Sacerdotal (CRIS) da hedionda Opus Dei, de Roma, que, desde cedo, conta com todas as atenções de simpatia de Wojtyla… em detrimento dos jesuítas, até então dominantes. Karol Wojtyla, como se verá mais adiante, fora recusado – em virtude da estreiteza da sua teologia – como doutorando na jesuítica Universidade Gregoriana pouco antes de eu ter começado, aí, os meus estudos. Apenas se sabe que terá publicado um livro na colecção da Opus Dei e que, segundo consta na Cúria romana, a Opus Dei lhe financiou uma viagem pela América Latina.

Como Papa, Wojtyla promoverá, com todos os meios ao seu dispor, esta «obra de Deus», esta organização secreta católico-fascista com traços de sectarismo surgida na Espanha franquista e da qual procedia a maioria dos ministros do último governo de Franco. É formada por leigos (alguns deles com votos de celibato) e por sacerdotes, estendendo-se por entre os poderosos da política, pelo mundo dos bancos e dos negócios, pela imprensa e pelas universidades, inicialmente em Espanha e América Latina, mas depois também na Cúria romana.




(os 'cilícios' da Opus Dei)





Dariam tudo para que fosse esquecido o concílio Vaticano II, e comprometem-se sem reservas a favor da restauração católico-romana. Os seus membros, recrutados segundo duvidosos procedimentos, são exortados a desdenhar a sexualidade, a mortificarem-se e a menosprezar as mulheres. Ao conferir-lhe, apesar de grande resistência na própria Cúria, o estatuto de «prelatura nullius», isto é, de diocese mundial independente, João Paulo II subtrai esta rigidamente organizada Opus Dei – que persegue o poder na Igreja e que, com o tempo, contará com várias centenas de milhares de amigos, patrocinadores e simpatizantes – ao controlo dos Bispos em todo o mundo. Alguns bispos e cardeais, que repudiam a Opus, acabam por se pronunciar com benevolência a seu respeito. O despótico fundador, José María Escrivá de Balaguer, que pretende purificar a Igreja, supostamente contaminada pelo concílio e reconduzi-la à «Tradição» (falece em 1975), é declarado «beato» e inclusivamente «santo» em tempo recorde, fazendo-se omissão de testemunhos críticos e saltando por cima das normas eclesiásticas… o que se torna ridículo para muitos católicos, que rejeitam a obediência cega e o sectarismo.

Sindicato 'Solidariedade', Polónia


Ao defenestrado banqueiro do Vaticano, Marcinkussobre quem recai a suspeita de ter desviado somas milionárias para o movimento sindical polaco Solidarnosk – o novo Papa nomeia-o bispo titular. Mas este papa, que pelo mundo fora prega a justiça, nada faz para esclarecer as mortes e os escândalos. Desde cedo deixa perceber que é um Papa da Opus Dei, profundamente enraizado nos «movimenti» carismáticos conservadores e com escassa formação em teologia contemporânea. Joseph Ratzinger, que nos começos manteve reservas face à Opus Dei, aceita ser investido doutor honoris causa’ pela universidade da Obra em Espanha e, maquiavelicamente, utiliza os seus serviços.








Uma segunda fotografia faz-me pensar: é uma página inteira, a cores, da revista «Quick», famosa pelas suas fotos de nus, mostrando o rosto e as mãos dum Papa profundamente mergulhado em oração, o que, mais tarde, será profusamente reproduzido pela imprensa. O próprio fotógrafo explicará em detalhe como obteve a foto. Após ter feito vários instantâneos, o próprio insiste com o Papa para que reze diante da câmara. O Papa resiste que não o pode fazer. Mas, por fim, «pelo povo», acede a ajoelhar-se e a fingir que está a rezar. Um disparo e pronto! A bela foto dá a volta ao mundo e multiplica-se em postais sem conta.



com Ronald Reagan

Temos o Papa mediático por excelência que não desaproveita nenhuma ocasião para se apresentar a si mesmo como pessoa piedosa, semelhante em muitos aspectos a quem mais tarde será eleito Presidente dos Estados Unidos, Ronald Reagan, um actor qualificado e apaixonado assumido e, assim, um «grande comunicador», cujo carisma pessoal faz esquecer a sua política reaccionária e as suas vítimas. «Wath does the United States need?» - «de que necessita os Estados Unidos?». O destacado historiador germano-estaduniense de origem judaica Fritz Stern, professor na Universidade de Columbia, que conheço das minhas viagens a Nova York, visitando Tubinga, mostra-se disposto a publicar de imediato um artigo sobre o assunto na revista «Foreign Affairs», quando, à citada pergunta, eu respondo: «The United States need an actor – os Estados Unidos precisa de um actor», um actor igual a Wojtyla, que, graças ao carisma de grande comunicador, saiba vender ao público uma doutrina e uma política reaccionárias.



com Augusto Pinochet, Chile


«Se tivesses continuado no teatro, terias sido um grande actor», alguém o disso a João Paulo II, tal como ele mesmo revela nas suas Memórias e Pensamentos.

Assim, Wojtyla, graças a um ar mais pastoral-popular que distante-hierárquico e à custa dos meios de comunicação social, que já ultrapassam fronteiras e irradiam sobre o mundo inteiro, superará em muito PIO XII, de quem o historiador da Igreja de Tubinga, Karl August Fink, dizia ser o melhor actor de entre todos os homens de Estado de todos os tempos. As aparições públicas do Papa Wojtyla, tal como as do presidente Reagan, são minuciosamente preparadas pelos media até ao mais ínfimo detalhe, como se de um filme de Hollywood se tratassem. Os discursos são escritos por alguém, que não ele. No Vaticano, de tudo se encarrega o mui sagaz chefe de imprensa, o doutor Joaquín Navarro-Valls, um homem da Opus Dei (a quem os jornalistas chamam o «doutor spin» do Vaticano, isto é, o assessor de imprensa), que sabe muito bem como «vender» o seu chefe.

Muitos telespectadores, até hoje, desconhecem que todas as cerimónias que tenham lugar no Vaticano, desde a eleição papal até ao enterro, são transmitidas pela «Televisão Italiana», a qual as vende a todas as companhias televisivas do mundo, mas que, ao mesmo tempo, só passa o que for previamente acordado com o Vaticano: informação puramente cortesã.


Hans Küng, Verdad Controvertida – Memorias, Trotta, 2009, pp. 549-554

28 de agosto de 2011

VATICANO, OPUS DEI E MÁFIA - A RELIGIOSA LAVAGEM DE DINHEIRO

Escândalos em Roma





Morte não esclarecida

A morte inopinada do ainda jovem papa dos trinta e três dias – fora encontrado morto na cama pela manhã – não é investigada, nem através de autópsia médica, nem através de inspecção policial. Não estranha, pois, que até hoje circulem os mais incríveis rumores. Sou instado, de todo o mundo, a dar a minha opinião sobre esta repentina morte, pelo que acabo por ter que redigir um papel que envio para o mundo inteiro e que termina com esta afirmação: aos da cúria – e alguns conheço-os pessoalmente – julgo-os capazes de tudo, mas, de assassinar um papa, não.

Outros, porém, dizem-no de modo diverso, como por exemplo, David A. Yallop, autor do best-seller ?Em nome de Deus? [original e tradução castelhana de 1984]. Cita-me, como testemunha, meia dúzia de vezes, nem sempre de maneira rigorosa. Mas, ele tem razão, claro, no que diz respeito às conexões entre o Vaticano e o mundo das finanças, incluindo a Máfia, facto que ele analisa detalhadamente. É o caso, sem dúvida, do várias vezes ministro e sete vezes primeiro-ministro italiano Giulio Andreotti, tão influente quanto rodeado de escândalos, mas sempre com a melhores relações com o Vaticano; daí ser autor do livro Os meus sete papas. É a ele que se atribuem cumplicidades – inclusivamente de ter ordenado – o assassinato do jornalista de investigação Mino Peccorelli a 20 de Março de 1979, em Roma. Mas, como todas as declarações que os capos da Máfia fazem, como testemunhas principais, são classificadas como não fidedignas, G. Andreotti vai-se livrando dos processos judiciais. Nos finais de 2002 é condenado, em segunda instância, a vinte e quatro anos de cadeia por ter mandado assassinar aquele jornalista. Mas a sentença é revogada em Outubro de 2003 pelo Supremo Tribunal de Itália por falta de provas.

O Vaticano, que tanto gosta de pregar o direito e a justiça pelo mundo fora, não contribui, em absoluto, para o esclarecimento de delitos flagrantes, mesmo quando, a seguir ao inopinado óbito de João Paulo I, ocorrem, com ele relacionadas, novas mortes misteriosas, ainda por esclarecer. É o caso do suicídio (ou envenenamento?) num cárcere de Roma do ex-banqueiro e perito financeiro do Papa Paulo VI, Michele Sindona, o qual provavelmente foi aconselhado ao Papa pelo seu mentor, Andreotti: o siciliano, que já tinha sido condenado nos Estados Unidos por fraude bancária, pelos vistos também era um dos banqueiros da Máfia.



Imediatamente a seguir, vem a morte do «banqueiro de Deus», Roberto Calvi, director do Banco Ambrosiano, o maior banco privado de Itália, que, por causa do desaparecimento de mil e trezentos milhões de dólares, cai na bancarrota. Este banco, cujo nome homenageia Ambrósio, o mais importante bispo de Milão e doutor da Igreja (século IV), do qual foi sucessor o arcebispo Montini (mais tarde Papa Paulo VI), este banco goza de especial confiança por parte da Igreja, tanto da Hierarquia, como por parte dos fiéis. Calvi, tal como Sindona, é membro da tenebrosa e revolucionária loja secreta P-II, foi encontrado morto em Junho de 1982 – pouco antes de se ter tido conhecimento da falência do banco – enforcado por baixo da ponte Blackfriars, em Londres, com os bolsos cheios de pedras: suicídio ou, como não só a família de Calvi em Milão pensa, assassinado pela Máfia? Em quê, o Vaticano contribuiu para o esclarecimento destas mortes?


O banqueiro Monsenhor Marcinkus: encoberto pelo Vaticano

Colaborador activo das arriscadas operações financeiras de Calvi, envolvendo dúzias de «bancos fantasmas», é o Banco do Vaticano, o Instituto das Obras Religiosas (IOR), que também em 1982, sem reconhecer a mínima das culpas, reúne duzentos e quarenta milhões de dólares para livrar de responsabilidades, perante os tribunais, o Vaticano, enquanto accionista principal do Banco Ambrosiano, o qual administrava e malbaratava o dinheiro de inúmeros fiéis católicos. É a ruína moral do Vaticano.

O interlocutor directo de Calvi, no Vaticano, era um padre norte-americano de mais de um metro e noventa de altura, o qual, após trabalhar em primeiro lugar na Secretaria de Estado e, depois, ser o eficaz organizador das viagens e dos guarda-costas («gorilas») de Paulo VI, a quem em Manila salvou duma punhalada, foi nomeado bispo titular em 1968 e, por fim, sem ter experiência bancária alguma, conseguiu converter-se, primeiro, em secretário e, depois, em 1971, director do Banco do Vaticano e no norte-americano mais poderoso da Cúria: monsenhor Marcinkus, de Chicago, de origem lituana.



Lembro-me muito bem dele: na primeira Missa do meu amigo Robert F. Trisco, igualmente, da arquidiocese de Chicago, celebrada, durante o meu último ano de estudos em Roma, na Igreja de St. Agnese, oficia como diácono, sendo eu sub-diácono. Volto a vê-lo durante o Concílio. Uma bela tarde virá tomar um copo na nossa residência com os bispos e peritos norte-americanos. Logo este Marcinkus, um entusiasta do golfe e do ténis, é que terá, segundo contam os seus amigos, que responder por Paulo VI, quem, imprudentemente, tinha investido enormes somas de dinheiro no banco da sua antiga arquidiocese milanesa. O que é certo é que ele mesmo tinha passado cartas de recomendação ou de conformidade (letters of comfort) a favor do Banco Ambrosiano, quando a bancarrota era já previsível.

Daí que a promotoria do Ministério Público de Milão emita uma nota de ordem de prisão contra Marcinkus. Ele reside oficialmente numa casa de padres em Roma, mas ilude a detenção refugiando-se no Vaticano, onde passará a viver sob sigilo. O Vaticano nega-se a extraditá-lo! Depois de um longo braço de ferro com a Justiça italiana, uma muito controversa decisão por parte do Tribunal de Cassação italiano – apelando aos acordos de Latrão – confirma, finalmente, a imunidade aos funcionários do Vaticano, mesmo para delitos cometidos em território italiano! Em Itália, quem terá coragem para fazer frente ao poder da Igreja? Nem sequer os tribunais. No começo da década dos anos noventa, Marcinkus pôde regressar aos Estados Unidos. Como me confirmam em Novembro de 2005, em Fénix (Arizona), por ocasião duma conferência, ele vive na colónia dos jubilados Sun City, precisamente ao lado dum campo de golfe. Após três anos de investigações, a promotoria do Ministério Público de Roma torna público um relatório, em 2003, dando como previsível que comece em 2005 um julgamento pela morte de Calvi. Porém, a possível testemunha Marcinkus é encontrada morta na sua casa de Fénix, na tarde de 20 de Fevereiro de 2006, com oitenta e quatro anos de idade.

Ainda que diversos promotores do ministério público de diversos países o tenham requerido, Marcinkus nunca foi interrogado, nem no que diz respeito a lavagem de dinheiro, nem por causa da criação de empresas-fantasma, acerca da falência do Banco Ambrosiano ou acerca das relações com a morte de Calvi. O laureado jornalista britânico John Cornwell, um dos poucos jornalistas que teve largas conversas com Marcinkus e entrevistou inúmeros amigos e inimigos do prelado, disse não ter encontrado «prova alguma de que Marcinkus fora um dos assassinos de João Paulo I ou de Roberto Calvi»: «Mas, isso sim, o que é evidente é uma opinião muito amarga acerca dos «homens bem vividos», estreitamente ligada a um subtil e ‘casuístico’ critério de ética empresarial (por contraposição a um critério ‘responsável’)». [‘Marcinkus: the man I knew’: The Tablet, 25 Fev. 2006]

Marcinkus reconheceu, diante de Cornwell, ter retirado quantias da caixa de pensões do Vaticano para se livrar de responsabilidades no caso do Banco Ambrosiano. Isto faz-me recordar um comportamento financeiro parecido por parte de um magnata britano-checoslovaco das finanças (e presumível agente dos serviços secretos israelitas, a Mossad) Robert Maxwell. Levou-me a reparar nele, o director do semanário «Die Zeit», Theo Sommer, durante o Fórum Mundial de Economia de Davos: «Se quer ver um bom exemplo de homem com uma dívida de mil milhões de dólares, olhe ali: está sentado na mesa ao lado». Não muito tempo depois, em Maio de 1991, Maxwell cai do seu iate de luxo no mar Mediterrâneo, de modo misterioso (ou será empurrado borda fora pelos serviços secretos israelitas da Mossad, temendo que revele segredos?) e, curiosamente, ninguém o socorreu, nem o resgatou das águas.


o Vaticano e a lavagem de dinheiro...

Uma história interminável: a 5 de Julho de 2006, o influente e abastado financeiro Gianmario Roverado, considerado «simpatizante da Opus Dei», é sequestrado em Milão, quando se dirige para uma reunião do Opus e, duas semanas mais tarde, é encontrado morto perto de Parma. Simultaneamente, um tribunal de Roma faz avançar o processo da morte de Roberto Calvi, no qual, entre outras coisas, o presidente honorário do grupo de comunicação social «Expresso» declara que Calvi suspeitava que existia uma conjura contra ele e que inclusivamente ele, Calvi, tinha mandado colocar, nas janelas da sua casa de Roma, vidros anti-bala na hipótese de um eventual ataque de helicóptero. Principal acusado: o antigo correio (porta-mensagens) de Calvi, Flavio Carboni, a sua ex-noiva, Manuela Kleinzig, de Kärnten (Áustria), o tesoureiro da Máfia Pippo Caló e outros mafiosos.

Algum dia se esclarecerá a misteriosa nuvem que rodeia as relações entre o Vaticano, a Opus Dei e a Máfia?



João Paulo I, o Papa dos 33 dias... «o Papa sorridente»



Para mim, este escândalo sem precedentes contrasta extraordinariamente com o zelo com que seguem o meu «caso». A morte de Calvi e alguns outros acontecimentos (por exemplo, o assassinato igualmente não esclarecido do comandante da Guarda Suíça e a sua mulher por um dos guardas, que depois se suicida) levanta-me dúvidas de se não haverá gato escondido com rabo de fora na morte de João Paulo I. Seja como for, depois do seu óbito, o Vaticano põe a circular uma mentira piedosa: o Papa havia morrido com o devocionário tardo-medieval de Tomás de Kempis De Imatione Christi, a ‘Imitação de Cristo’, sobre a colcha da cama. Directamente do entourage do arcebispo de Milão, ou seja, de fontes próximas do cardeal Giovanni Colombo, o melhor amigo de Luciani no colégio cardinalício, ouço o seguinte: na tarde que antecedeu a sua morte, à última hora, João Paulo I chamou Colombo e disse-lhe: «Apertam-me por todos os lados». De facto, o Papa quando morreu tinha sobre a colcha da sua cama uma lista de nomes importantes para nomeações com as quais ele não estava de acordo. Quiçá tenham sido as decisões que deveria tomar, no que dizia respeito a pessoas em concreto (supostamente, estaria também a pensar na destituição de Marcinkus), que se tenha tornado numa carga que constrangesse o Papa, pessoa a todos os títulos sensível… Quem sabe? A morte por paragem cardíaca do cardeal Döpfner, que tinha mais ou menos a mesma idade de João Paulo I, alguns a a atribuem a uma sobrecarga psíquica.

Em qualquer caso, muitos viram em João Paulo I uma esperança de uma Igreja mais próxima dos homens na linha do espírito do Vaticano II. E eu estou convencido de que, com esse papa, dificilmente algo de mal me aconteceria a mim. Mas… há que eleger um novo Papa. E, depois das dificuldades havidas na eleição de Albino Luciani, isso será ainda mais complicado.

Hans Küng, Verdad Controvertida – Memorias, Trotta, 2009, pp. 545-549

26 de agosto de 2011

ABORTO PERDOADO... SÓ COM «CONSULTA PAPAL» MARCADA


Dois pesos e duas medidas:
o aborto perdoado em Madrid
Ivone Gebara






É com muito constrangimento que muitas mulheres católicas leram a noticia publicada em vários jornais nesse último final de semana de que a Arquidiocese de Madri com aprovação papal autorizou a concessão do perdão e indulgência plenária às mulheres que confessarem o aborto por ocasião da visita do papa. A impressão que tivemos é que o papa, o Vaticano e alguns bispos gostam de brincadeiras de mau gosto com as mulheres. Não sabemos em que mundo esses homens vivem, quem pensam que são e quem pensam que somos!

Primeiro, concedem o perdão a quem pode viajar para assistir a missa do papa e passar pelo "confessionódromo" ou pelo conjunto de duzentos confessionários brancos instalados numa grande Praça pública de Madri chamada "Parque do Retiro". O perdão deste "pecado" tem local, dia e hora marcada. Custa apenas uma viagem a Madri para estar diante do papa! Quem não faria o esforço para tão grande privilégio? Basta ter dinheiro para viajar e pagar a estadia em algum hotel de Madri que o perdão poderá ser alcançado. Por isso nos perguntamos: que alianças a prática do perdão na Igreja tem com o capitalismo atual? Como se pode viver tal reducionismo teológico e existencial? Quem está tirando benefícios com esse comportamento?



Carta de Indulgência, JMJ, Madrid 2011



Segundo, têm o desplante de afirmar que o perdão deste "crime hediondo" como eles costumam afirmar, é dado apenas por ocasião da visita do papa para que nessa mesma ocasião as fiéis pecadoras obtenham "os frutos da divina graça" confessando o seu pecado. Como entender que uma falta é perdoada apenas quando a autoridade máxima está presente? Não estariam reforçando o velho e decadente modelo imperial do papado? Quando o Imperador está presente tudo é possível até mesmo a expressão da contradição em seu sistema penal.

Não quero retomar os argumentos que muitas de nós mulheres sensíveis às nossas próprias dores temos repetido ao longo de muitos anos numa breve reflexão como esta. Mas esse acontecimento papal madrilenho, infelizmente, só mostra mais uma vez, um lado ainda bastante vivo no Vaticano, ou seja, o lado das querelas medievais em que questões absolutamente sem peso na vida humana eram discutidas. E mais, demonstra desconhecer as dores femininas, desconhecer os dramas que situações de violência provocam em nossos corpos e corações.





Ao conceder o perdão ao "crime" do aborto na linguagem que sempre usaram, de forma elitista revelam o rosto ambíguo da instituição religiosa capaz de ceder ao aparato triunfalista quando sua credibilidade está em jogo. Podem abençoar tropas para matar inocentes, enviar sacerdotes como capelães militares em guerras sempre sujas, fazer afirmações públicas em defesa da instituição condenando pobres e oprimidas, abrir exceções à regra de seus comportamentos para atrair jovens alienados dos grandes problemas do mundo ao rebanho do Papa. A lista dos usos e costumes transgressores de suas próprias leis é enorme...


Por que reduzir a vida cristã a pão e circo? Por que dar um espetáculo de magnanimidade em meio a corrupção dos costumes? Por que criar ilusões sobre o perdão quando o dia a dia das mulheres é cheio de perseguições e proibições às suas escolhas e competências?

Somos convidadas/os a pensar no aspecto nefasto da posição do papa e dos bispos que se aliaram a ele. O papa não concedeu perdão e indulgência total ou plena "urbi et orbi", isto é, para todas as mulheres que fizeram aborto, mas apenas àquelas que se confessaram naquele momento preciso e por ocasião da visita do papa à Espanha. Não é mais uma vez a utilização das consciências especialmente das mulheres para fins de expansionismo de seu modelo perverso de bondade? Não é mais uma vez abrir concessões obedecendo a uma lógica autoritária que quer restaurar os antigos privilégios da Igreja em alguns países europeus? Não é uma forma de querer comprar as mulheres confundindo-as diante da pretensa magnanimidade dos hierarcas?

Será que as autoridades constituídas na Igreja Católica e de outras Igrejas são ainda cristãs? São ainda seguidoras dos valores éticos humanistas que norteiam o respeito a todas as vidas e em especial à vida das mulheres?

Creio que mais uma vez somos convocadas/os a expressar publicamente nosso sentimento de repúdio à utilização da vida de tantas mulheres como pretexto de magnanimidade do coração papal. Somos convidadas/os a tornar pública a corrupção dos costumes em todas as nossas instituições inclusive naquelas que representam publicamente nossas crenças religiosas. Somos convidadas/os a ser o corpo visível de nossas crenças e opções.

Fazendo isso, não somos melhores do que ninguém. Somos todas pecadoras e pecadores capazes de ferir uns aos outros, capazes de hipocrisia e mentira, de crueldade e crueldade refinada.

Mas, também somos capazes de dividir nosso pão, de acolher a abandonada, de cobrir o nu, de visitar o prisioneiro, de chamar Herodes de raposa. Somos essa mistura, expressão de nosso eu, de nossos deuses, dos espinhos em nossa carne convidando-nos e convocando-nos a viver para além das fachadas atrás das quais gostamos de nos esconder.


23 de Agosto de 2011
(por ADITAL)
A teóloga Ivone Gebara é doutora em Filosofia pela Universidade Católica de São Paulo e em Ciências Religiosas pela Universidade Católica de Louvain, na Bélgica. Pelo CEBI, colaborou no livro Terra: Eco Sagrado.
Confira também

25 de agosto de 2011

ROMA - O PROTAGONISMO COMO RESPOSTA À CRISE 1/2

1/2


O Pontificado de João Paulo II
&
a Globalização




O pontificado de João Paulo II [1978-2005] marcou uma nova fase do desenvolvimento do catolicismo, no âmbito do processo actual da globalização. Não se trata apenas de uma nova época cronológica, mas de uma mudança de carácter e de orientação. Os grandes desafios e oportunidades do final da ‘guerra fria’ e o começo duma era planetária, foram assumidos por João Paulo II, aos quais procurou responder com uma renovada influência da Igreja Católica na sociedade e com uma reestruturação interna num contexto de globalização.

A análise do último pontificado ajuda a clarificar a resposta do catolicismo aos novos desafios do terceiro milénio. No que diz respeito ao papel mundial do Papado, João Paulo II foi um papa popular, convocou grandes massas e manipulou com mestria a cultura dos meios de comunicação social, através de mais de cem viagens internacionais, de mais de uma dúzia de encíclicas e inúmeros documentos. Foi um papa viajante e transbordante, com uma enorme força física e moral, capaz de tomar posições contra a corrente e com convicções claras. Daí o respeito que produziu em inúmeras pessoas, crentes ou não crentes. O papel de Roma como centro do catolicismo tinha de adquirir uma dimensão nova. O novo estilo de pontificado combina pluralidade e relativismo (próprios da pós-modernidade) com o reforço da ortodoxia e da identidade colectiva, que é o que mais preocupa às correntes tradicionalistas. Buscou uma circunscrição clara da especificidade católica, no contexto ecuménico duma sociedade planetária, de aceitação da pluralidade ao nível mundial e o fortalecimento da unidade no âmbito interno do catolicismo.


JP II na Polónia, com Lech Walesa

Internacionalmente, este pontificado desempenhou um papel importante na queda do comunismo na Europa, mediou o conflito entre a Argentina e o Chile (1978), pronunciou-se contra a Guerra do Golfo (1991), do Kosovo (1999) e do Afeganistão (2001), denunciou a invasão do Iraque (2003), defendeu o Povo Palestiniano apesar de reconhecer o Estado de Israel (1994). Daí, a sua popularidade como agente da paz, o que lhe valeu ser proposto para Prémio Nobel. Politicamente, a sua postura foi clara. Não apoiou os cristãos comprometidos com governos de esquerda ou de influência comunista, como aconteceu na Nicarágua em 1983 e foi condescendente com ditaduras de direita, como a de Pinochet (1987) ou a da Argentina, com Videla (1982), recusando condenar explicitamente estes regimes. Exerceu actividade política na Polónia e reconheceu, em seguida, o Estado croata católico (1991). A política internacional do Vaticano nunca foi neutral, tendo sido mais condescendente com a direita capitalista do que com os governos socialistas. Porém mostrou-se com autonomia própria e com capacidade crítica face às grandes potências.

Nos fora internacionais alinhou ao lado de regimes autoritários, incluindo os islâmicos e comunistas, para opor-se ao controlo da natalidade, às medidas profilácticas contra a Sida, às pretensões dos homossexuais e a mudanças no modelo tradicional da família. A sua política de alianças foi marcada por uma clara identificação com a teologia e moral católicas, contudo aliou-se a governos, os mais antagónicos entre si possível, desde que defendessem, em pontos concretos, políticas favoráveis ao Vaticano. Nos fora internacionais, sempre defendeu a moral tradicional. A sua atitude restritiva em matéria moral influenciou também as questões jurídicas. Foi durante o seu pontificado que o número de convenções das Nações Unidas que não foram ratificados pelo Vaticano mais subiu, o mesmo acontecendo com muitos acordos sobre os direitos humanos. O papel internacional do Vaticano cresceu na segunda metade do século XX e o Papado alcançou uma enorme influência internacional, conferindo ao catolicismo uma capacidade de resposta a nível mundial que faltou a outras confissões cristãs. 


Cúria romana

Contudo, criticou-se a abstracção da sua doutrina social, o tom vago das suas denúncias dos governos ocidentais e dos fora internacionais. Os escândalos financeiros, como o do Instituto das Obras Religiosas, com Marcinkus (1981) e o do Banco Ambrosiano, com Calvi (1982), fragilizaram o seu pontificado. Na Nova Constituição Política do Estado do Vaticano (2001) manteve a concentração dos poderes judicial, legislativo e executivo na mesma figura, sem separar o Pontífice do Chefe de Estado. O Vaticano, ao nível constitucional, é um dos últimos governos absolutistas do mundo, sem separação de poderes, e sem constituição democrática.





Roberto Calvi e Banco Ambrosiano

Somou muitos críticos ao seu pontificado, acusando, este, de ser uma forma de «autoritarismo democrático». Segundo a opinião de U. Beck, isso consubstancia-se numa liderança baseada na comunicação social e no apoio das maiorias; numa capacidade carismática e no controlo tecnológico das massas; numa modernização de estruturas institucionais e na diminuição da participação dos indivíduos; na exaltação da pessoa e na perda administrativa da autonomia. João Paulo II impregnou o catolicismo com a sua personalidade, mas o apoio popular à sua pessoa, que irradiou bem para lá dos católicos, não foi acompanhado de uma identificação com o seu programa religioso e moral. À luz do Vaticano, é controversa a sua actuação, sobretudo pela sua visão pessoal da Igreja. O Catecismo Universal (1992) e o novo Código do Direito Canónico (1983) sintetizam a sua concepção teológica nesta matéria.


Caminho Neo-Catecumenal

Mas, temos que analisar as linhas mestras do seu pontificado à luz da sua origem e pertença. A Igreja polaca não conheceu a pos-modernidade, nem se preparou para a globalização. A unidade era uma condição da sua sobrevivência. Ela sempre colocou o acento tónico na autoridade, na disciplina e na homogeneidade doutrinal como forma de se defender do acossar governamental. A questão foi querer transferir essas linhas de actuação para a igreja universal situada num outro contexto histórico.

A postura assumida, filha de abertura controlada e de governo autoritário, travou o diálogo com as outras confissões religiosas. Gestos ecuménicos, tais como os encontros de Assis ou o diálogo com os ortodoxos e protestantes definharam por causa de documentos muito à defensiva, por causa de atritos com o Conselho Ecuménico das Igrejas e por causa de problemas com os Patriarcados Orientais. O ecumenismo não avançou e o Papado continua a ser o grande impedimento para a união dos cristãos, como o reconheceram Paulo VI (1967) e João Paulo II (Card. J Ratzinger, 1985). (cf. Apêndice Documental)


[‘Historia del cristianismo’, Vol. IV, Trotta, pp.470-473]


Juan Antonio Estrada


Apêndice documental

«O Papa é ‘indubitavelmente o obstáculo maior no caminho do ecumenismo’» (Paulo VI, ASS 59 [1967], 497)

«Teve uma grande repercussão ecuménica a posição de Karl Rahner e H. Fries: “Para lá disso, deveria implantar-se um princípio de fé realista: nenhuma igreja particular pode decidir nem recusar como contrário à fé qualquer terminologia que outra igreja professe como dogma obrigatório. Além do mais, (…) o que numa igreja particular é confissão expressa e positiva não pode impor-se como dogma obrigatório a outra igreja particular, mas que deve relegar-se para um consenso futuro». (‘La unión de las iglesias’, Tesis II, Herder, Barcelona, 1987, p. 38)

«Dito de outro modo: Roma não deve exigir do Oriente uma doutrina do primado distinta da que foi vivida e formulada no primeiro milénio. […] Quanto a esta questão, a união poderia conseguir-se assim: por um lado, o Oriente desistindo de considerar heresia a evolução ocidental do segundo milénio e aceitando como correcta e ortodoxa a modelação que a igreja católica foi adquirindo ao longo dessa evolução. Por outro, o Ocidente deveria reconhecer como ortodoxa e correcta a igreja do Oriente, sob a forma que quis para si.» (Cardeal J. Ratzinger, ‘Teoria de los principios teológicos’, Herder, Barcelona, 1985, pp.238-239)