teologia para leigos

19 de agosto de 2011

NO DIA EM QUE O EVANGELHO FOR APENAS UM LIVRO...

 
Nesse dia…


Quando eu achar que não consigo ser quem sou se não me puder encostar aos chefes das nações, aos grandes e aos seus seguranças, e tudo não for à prova de bala.

Quando eu pensar que devo ser recebido, seja onde for, pelas entidades dignitárias do lugar por uma questão de posição, sangue ou representação.

Quando eu sentir que a minha mensagem é tão importante como a minha roupagem ou a minha roupagem dever ser a minha mensagem, e desejar que uma porção do meu sangue seja preservada, mostrada e reverenciada como uma relíquia.

Quando eu viver duma alegria forçada e duma liberdade medida ou confundir amor com altruísmo e caridade com democracia.

Quando eu só me sentir com tudo «em cima» apenas quando me chamarem «luz do mundo» e eu perceber que de facto sou a luz do mundo e o mundo ao mesmo tempo.

Quando eu não for jamais capaz de perceber que a expressão «luz do mundo» aponta, não para a luz, mas para o mundo.

Quando quiser salgar sem deixar fugir o cristal, quando quiser salgar e continuar a lucrar com o salário do sal.

Quando eu achar que sem religiões o mundo teria sido pior e, sem ideologias, melhor.

Quando quiser tudo pensar, até os intervalos disso mesmo, e ter um discurso sublime, faça eu o que fizer dentro de portas.

Quando eu não quiser distinguir entre respeito e reverência e me der jeito servir-me dessa indistinção.

Quando eu achar que tenho uma mensagem para o mundo ou quando eu me sentir «de peito cheio» por escrever ou discursar para o mundo cuidando que não faço parte dele.

Quando em mim, pé-ante-pé, a virtude se for tornando dever, questão de consciência ou missão, quando no bolso for sentindo entre os dedos o fino frio do aço da navalha.

Quando o meu viver se alimentar dum espírito diplomático, dum comportamento cavalheiresco ou duma simpatia genérica e gosmosa.

Quando a palavra profecia se misturar, confundir ou reduzir a adivinhação, brilho ou fascínio.

Quando a pele for apenas mais um dos cinco órgãos dos sentidos, o corpo uma bandeira ou um isco e as mãos a perseguição da pose exacta.

Quando der conta que as minhas unhas crescem e eu for capaz de o enxergar, medir, pesar e registar.

Quando, ainda que inconscientemente, alinhar na manipulação das plateias e delas me servir para fortalecer o meu ego ou uma ideologia qualquer.

Quando eu me convencer que, sem líderes à maneira, as coisas não avançam, quando for incapaz de distinguir Deus dum ícone e, este, dum palhaço, por mais flores brancas que leve ao redor.

Quando me tratarem por Vossa Reverência Santíssima, acenarem muitos lenços brancos e eu nem pestanejar ou por Sumo Pontífice e eu pôr-me a olhar as nuvens ou por Sua Santidade Fulano de tal, me vestirem todo de branco, me enfiarem um barrete e eu agradecer com a cabeça, quando simplesmente me citarem em público como Sua Excelência sem que eu me suje.

Quando me fardarem com roupas de bobo, albardas taurinas doiradas com lantejoulas, quando me quiserem ridicularizar com purpurinas, mitras e solidéus de arlequim e eu assentir numa anuência de égua dócil e cristã.

Quando as multidões se me tornarem imprescindíveis (seja lá para o que for - ao meu serviço ou ao serviço duma estratégia maior), quando a Fé se servir do marketing e exigir muito dinheiro para ser e aspergi-la.

Quando não for capaz de distinguir uma candeia dum holofote, a erva fresca dum resort, a água do poço dum Don Perignon, um menino duma play-station, a sombra duma carvalha da dum dossel, nem nunca ter feito a experiência do frio, da fome, do desconforto e do abandono inesperados e injustos.

Quando o Evangelho for, apenas, um Livro. De poesia e coisa e tal, e não o incrível grito de que entre vós não seja assim.

Quando, diante do sofrimento, a minha palavra for apenas ‘discernimento, meu irmão, discernimento’, quando em tudo souber guardar uma distância de mercurocromo.

Quando julgar que serei sempre capaz de separar os cabritos das ovelhas, de ser exímio o suficiente para arrancar o joio sem ferir de morte o trigo, de não precisar de me meter a calcular para saber se serei o suficientemente forte para derrotar o inimigo, quando tudo para mim for «sem espinhas».

Quando não for capaz de ir pelo mundo fora sem um guia da american-express, a palavra dum político ou a dum papa qualquer que, por mim, distinga o bem do bom e o mal do mau.

Quando, para mim, me for indiferente comer com talheres de prata, beber por cálices de oiro, limpar-me a guardanapos de linho imaculado e dar uma esmola a um pobre, como quem paga um jantar de 250 euros.

Quando fizer doações terrenas muito elevadas a pensar nos juros celestiais que possa ganhar, quando quiser bater recordes de matrimónio, de clausura, de santidade anoréctica ou outras, quando a minha mente for pequenina e viscosa como bílis, ainda que brilhe como colesterolose.

Quando um filho deixar de ser preocupação, um vizinho atenção e a verruga superprotecção, quando o meu cão viver acima de cão e a conta bancária só for cefaleia, gota de ácido úrico ou joanete.

Quando eu presumir que há sagrado e que também há profano e que o que importa é haver diálogo entre eles em territórios bem demarcados.

Quando a palavra igual-fratria-comunhão secar e optar por gravar, no betão, essa utopia.

Quando não for capaz de me calar e até o meu silêncio for veemente narração, ruído e otite.

Quando achar que o mundo está perdido e eu tenho a receita para ele, comigo ou com os da minha seita, quando a palavra proximidade não for mais do que uma placa de trânsito ou marmorite de cemitério.

Nesse dia, vistam-me as vestes, sentem-me no cadeirão, peguem-me aos ombros, venham todos ao beija-mão real, depois empalhem-me, pintem-me a oiro, exponham-me bem alto e venerem-me como se eu fosse o salvador que Deus ao mundo deitou.

15 de agosto de 2011

MATEUS 15ss - AS FRONTEIRAS DO REINO 2/2

Evangelho de Domingo
Mt 15:21-28

2/2


Jesus está fora da ... Igreja!
 

«entre a sementeira e a colheita»
[Olegário G. de Cardedal]

… a fruta «tocada»!



Por mais insignificante que seja, sempre que inauguramos um projecto de vida instilamos nele a marca duma instituição usurpadora, discriminatória, e dum poder opressivo. Por mais insignificante que seja…

Na Comunidade de Antioquia (situada ao Norte, na província da Síria, onde, após as perseguições por parte dos judeus, se refugiaram os ‘discípulos’ de Jesus, e a que se refere o relato do Evangelho Mateus 15:21-28) existia uma tensão entre os cristãos ‘helenizantes’ (não oriundos da Fé Judaica) e os cristãos ‘judeizantes’ (judeus convertidos a Jesus). Este relato deve ter sido fixado por volta do ano 80, ou seja, APENAS 50 anos depois da condenação à morte de Jesus, em Jerusalém. Era uma Igreja de «cristãos» muito jovem, mas já com uma diversidade sui generis!

Nesta Comunidade há uns quantos que irritam outros tantos: os helenizantes são ‘insuportáveis’ aos olhos dos judeizantes, por exemplo, pela sua liberdade face aos ‘mandamentos da Lei de Moisés’. Eles introduziam uma boa dose de incómodo… A partir do seu ponto de vista, ‘questionavam a liturgia, ‘criavam’ instabilidade, ‘exigiam’ novidade teológica e abertura sociológica.

Esta é «a questão central» do Evangelho que acabamos de ler!

Verdadeiramente, só existem duas questões a que deveríamos procurar responder, na Liturgia deste 20º Domingo (Tempo Comum -A), a partir da nossa experiência comunitária de hoje, ACTUAL.

1ª Quem tentou introduzir perturbação na nossa Comunidade? Que ‘questões’ foram introduzidas? Como reagimos nós?

2ª Como é que Jesus reagiria (à luz do Evangelho lido)?

A partilha da Palavra deveria andar à volta disto.
Depois, deveríamos «fazer Memória» do nosso irmão Jesus, à volta dum Pão que não é propriedade privada só de alguns… Deveríamos pedir perdão e louvar a Deus-Pai Misericordioso o ter acolhido Jesus no Seu seio, após a Sua condenação à morte.
O Domingo estaria, assim, lançado… E nós ficaríamos «curados».






Comentário pessoal a Mateus 15:21-28
(tentativa de resposta ao Guião de 14:VIII:2011)


os desprezados alargam as fronteiras do Reino


O Reino é para todos,
mas em primeiro lugar… para os ‘ímpios’!



Cenário e Exercícios


1.«Jesus partiu dali» (v.21) - Jesus ultrapassa os limites ‘permitidos’ pela condição de judeu piedoso – percorre a terra dos ‘sem religião’: Sídon e Tiro, Canã, terra de «pagãos», terra de pré-israelitas da Síria ocidental, situada na Fenícia, no norte, muito acima das fronteiras da Galileia. [Na Comunidade de Antioquia havia tensão, rotura entre ‘cristãos helénicos’ e ‘cristãos-judeus’. Cf. Act 11:19-24.]
Primeiro Exercício: tentemos fazer o levantamento de quem a nossa Comunidade está distante ou a quem a Comunidade ‘voltou as costas’ ou quem, no seu evoluir, ela deixou ‘para trás’?


2.Jesus não está só: estão, com Ele, os discípulos; uma mulher ‘cananeia’ também está com Ele (v.22 -«que viera dali»).
Segundo Exercício: tentar lembrar quem há pouco se abeirou da nossa Comunidade e qual a razão porque o fez (que o próprio o diga em voz alta à assembleia).


3.A reacção das 3 personagens deste cenário. A ‘cananeia’ implora 3 vezes. Insiste duas. Os discípulos sentem-se incomodados, mas não a rejeitam. Que pedem os discípulos? Que Jesus «despache o caso» com celeridade – que faça depressa o milagre… Que use seus poderes mágicos, ‘religiosos’, como se fosse um curandeiro auto-suficiente. Qual é a reacção dos discípulos diante de cada uma das insistências da mulher? (1º) incomodados; (2º) silêncio/impotentes… Jesus ‘responde’ à mulher: (1º) com silêncio (v.23) – Jesus lembra-se [Livro dos Juízes 4:9.14b] de que é Deus quem age, é Deus quem verdadeiramente realiza ‘milagres’ e que isso pressupõe Fé, coisa que os ‘discípulos’ parecem estar a esquecer. Por isso, Jesus faz uma pausa, faz silêncio. (2º) com o Anúncio da sua Mensagem: «o Reino é anunciado aos pobres e aos cativos de Israel (‘às ovelhas perdidas’, ou seja, aos expulsos do Templo, aos excluídos pelo ‘sistema teocrático’ da Religião Judaica). Em Mateus 10:6 diz-se: «Ide, primeiramente, às ovelhas perdidas da casa de Israel». Porquê este anúncio? Era a ‘doutrina oficial’ que qualquer judeu sabia de cor. (cf. Levítico 21:18 e 2Sm 5:8; leia Mateus 21:14 e veja quem são os que entram no Templo após a ‘razia’ que Jesus ali faz – precisamente, os ‘impuros’, os ‘excluídos’, que são «gente com defeito»). Com esta resposta, aparentemente Jesus parece fazer a ‘vontadinha’ aos Seus ‘discípulos’ (discípulos presumidos de ‘judeus de esquerda’, corajosos, diferentes dos outros judeus-não-cristãos que ficaram para trás - em Jerusalém ou 'dispersos' - agarrados à letra da Lei de Moisés). Jesus recita, mais uma vez ainda, ‘a doutrina do Catecismo’ (v.26): «Não é justo que se tome o pão dos filhos para o lançar aos cachorros». Os ‘discípulos’ devem ter-se sentido ‘confirmados’ nas suas ‘razões’ contra os ‘helenizantes’. Lá no íntimo, devem ter dito: «Aqui na Comunidade de Antioquia, nós os Filhos de Abraão, os cristãos-judeus, em primeiro lugar… Os outros, os cachorros’, depois!». E esfregavam as mãos de contentes!
Terceiro Exercício: que se diga em voz alta se alguém se acha preterido na Comunidade. E porquê? (apenas para que, colectivamente, se saiba – sem agressões…)


4.Parece mas não é verdade: Jesus não rejeita a cananeia. Em silêncio acolhe-a e, em silêncio, prepara uma segunda oportunidade. A quem, com o Seu silêncio, verdadeiramente, Jesus ‘dá uma 2ª oportunidade’? À mulher ou aos discípulos? Jesus, na verdade, aguarda pela reacção dos discípulos (v:23b). Só reage depois deles… Jesus testa os discípulos!!! Jesus serve-se da mulher para colocar uma questão aos discípulos: Jesus quer que sejam os discípulos a responder… a uma mulher que questiona. Quer que eles sejam capazes de ‘verbalizar essa experiência diferente do Reino’ que estão a fazer «em Antioquia», na Comunidade. [Aqui, uma vez mais, os cananeus vão ser instrumento para «pôr à prova» a fidelidade de judeus israelitas; agora, testados diante da Pessoa de Jesus Ressuscitado, vivo, presente na Comunidade; cf. Jz 2:22] Jesus hesita e pensa dar uma 2ª oportunidade aos discípulos. Só aos discípulos? Não: a Ele próprio, também; Jesus também cresce diante dos desafios! O «silêncio» de Jesus não reflecte «frieza» de coração, mas perfeita consciência da gravidade do que está a «exigir» à Fé daqueles cristãos (da Igreja de Antioquia).
Quarto Exercício: que se proporcione tempo de meditação pessoal sobre as chances que a Comunidade deu a cada um no seu caminhar.


5. Quem é que, usualmente, usa a expressão «cachorros»? É o judeu piedoso, o judeu escrupuloso, o fariseu, a Thora! [Salmo 26:5: «Detesto a reunião dos cachorros, dos malvados, dos malfeitores; não tomo assento com os ímpios»; Sl 141:4-5.-9-10: «que o óleo do pecador nunca me perfume a cabeça»; Sl 139:19-22: «Ó Deus, faz com que os ímpios desapareçam; Não hei-de eu, Senhor, odiar os que te odeiam?»]
Afinal de contas, neste cenário teatral, quem é que «a cananeia» representa? Ela simboliza uma facção da Comunidade de Antioquia: os «cristãos vindos do helenismo» que nunca foram circuncisados, etc. [cf. Act 11]. A mulher cananeia simboliza os odiados pela fé judaica, os não oriundos do judaismo, «gente com defeito».
Neste relato, tais expressões [«cachorros», «malvados», «ímpios»] são imputadas aos ‘discípulos’ de Jesus!!!, ou seja, à outra facção da Comunidade de Antioquia.
Quinto Exercício: que todos pensem se há «grupinhos» na Comunidade. Mais nada: fiquem uns tempos a pensar… se cada um acha que também contribui para que haja «grupinhos de preferíveis»!!! A Comunidade deverá ser «um grupo de amigos»?


6. O relato vai desvendando o desfecho final – Jesus está a «dar demasiado terreno» à facção dos de fora, dos «cristãos-helenizantes»… Face à atitude de Jesus, os ‘discípulos’ («cristãos-judeus») percebem que podem vir a perder terreno… O drama dos ‘discípulos’ é este: Jesus pode tornar-se num amargo ‘desafio’, pode pôr a nú as suas/nossas fraquezas.
Sexto Exercício: meditemos, em silêncio, sobre os «pecadilhos» da nossa Comunidade em matéria de trato com ‘os de fora’ (no sentido de tomar consciência de como somos, efectivamente).


7. O ‘tormento’, que andava às costas da mulher cananeia (por simpatia para com a ‘filha’), na verdade, era o mesmo que andava na cabeça dos discípulos! Os ‘discípulos’ judaizantes da comunidade primitiva de Antioquia andavam também, deveras, incomodados com os helenizantes: eles colocavam questões teológico-pastorais terríveis… como se fossem «gritos que os perseguiam» (será que se pode «comer de todas as carnes»? será que as liturgias não andam mais ao sabor de gostos ritualistas, sacralistas e liturgistas e longe da profecia?) Quem divide a Comunidade são ‘os de fora’: eles são identificados como ‘demónios’. O certo é que ninguém divide nada sozinho…
Sétimo Exercício: nossa Comunidade já sofreu alguma rotura? Como foi isso? Houve ‘corte de relações’, ‘ódios de morte’? etc. (que cada um pense e medite em silêncio).


8. Como explicar a exclamação ‘exagerada’ de Jesus no v. 28? - «Ó mulher!». Como ‘chave’ do drama em acto, a exclamação de Jesus simboliza o desvendar da Sua opção pessoal: Jesus coloca-se do lado d’os de fora, ali revelada pela boca de ‘uma mulher’ e, ainda por cima, como se não bastasse, mulher ‘cananeia’ [cf. Jz 1-5, Débora e o rei Sísera]. A proclamação de uma Fé incrível de que o Amor de Deus é para todos (e não só para os católicos) e de que, para sermos salvos, nos basta «uma migalhinha» desse Amor, derrota qualquer um. Quem não exclamaria!
Oitavo Exercício: meditar nesta mensagem - «a salvação (sobretudo, da Igreja) vem de fora»; Jesus coloca-se do lado de «gente com defeito».


9.Uma «fé grande», HOJE, é sinónimo de quê? De horizontes livres, largos, de capacidade de denúncia: na Comunidade, Deus não é «propriedade privada», não é só do ‘padre’ ou de alguns. O «projecto de felicidade» de Deus é para a Terra inteira – a Fé tem as medidas do Universo… Os limites da Fé são o Céu e o impossível! O Céu é o limite! O futuro do «projecto de Jesus» - por isso, Ele exclama! - tem a ver com a compreensão acerca do ‘futuro e identidade’ por parte dos discípulos: trata-se de ficarem como ‘um resto de Israel’, a «Igreja-dos-Doze» (igreja de judeo-cristãos em Jerusalém), correndo o risco de desaparecerem sob o Império Romano ou, pelo contrário, de «cortarem as amarras» do judaísmo rabínico (libertarem-se da Thora) e ousarem a “aventura Jesus”, sem Regra, sem ‘manual’ (Catecismos), sem Templo (de pedras), sem objectos sacralizados, sem casta sacerdotal, sem discriminações ou limites de qualquer espécie (temporais e outros) e viver já na(a) ressurreição. Jesus sabia bem em que consistia Jerusalém: o esgotamento duma extraordinária caminhada! [‘Vocabulário de Teologia Bíblica’, X. Léon-Dufour, p.467-475] Mas sentia que deveria iniciar-se, agora, uma outra radicalmente nova, muito arriscada, «sem rede» alguma. Ninguém tem o direito de querer ser dono do mistério que está no fim da sementeira: a colheita. Jesus viu na Fé da cananeia o rasgão mais do que necessário para projectar a Esperança. E, então, Jesus limita-se a ‘confirmar’ essa perspectiva de leitura, sob a forma de uma exclamação: «Ó!» Nem Jesus se preocupou com a colheita: apostou tudo no fruto, precisamente naquilo que «está entre a sementeira e a colheita». [Olegário G. de Cardedal] É, igualmente, curiosa esta Fé de Jesus: a fé do/no fruto, Fé no «fruto tocado» pelo grito da esperança, pela mancha também, Fé no/do incompleto, Fé comestível, Fé de Comunidade. Quantas vezes, nas nossas Comunidades, queremos a todo o transe, garantir 'os padrões' da colheita final, o 'resultado'? Neste relato, Jesus nem Deus quis ser... Recusou-se o «discurso de clausura», não quis ter «a última palavra» - ficou-se pelo espanto, pela exclamação. A «última palavra» sairia do caminhar da Comunidade (de Antioquia). Acreditamos verdadeiramente nisto?

Ter ‘Fé Grande’ é acreditar que os desprezados, os esquecidos da História, alargam as fronteiras do Reino… São eles que nos ensinam o Reino, nos «educam na Fé», vivem já a colheita da ressurreição. Afinal de contas, ‘é a Religião que interpreta a Revelação ou é a Revelação que interpela a Religião?’ [K. Rahner]


10. «a filha» «curada» - a Igreja («a filha») de Jesus «ficou curada»… Liberta do demónio do sectarismo «que a atormentava»! A Igreja ficou «curada» da mania de ser rejeitada (pelo mundo secularizado) & de ser «dona da verdade» (do Evangelho, de Jesus), etc. (vide: a nossa Comunidade, o Vaticano e a Cúria). Converteu-se à sua mais genuína missão: perdoar, curar, libertar, acolher.


11.Para ficarmos nós, também, curados, que nos falta fazer? Olhar para o umbigo (os «grupinhos» de dentro da Comunidade)? Olhar para Altares e Ícones? Organizar Procissões? Peregrinações? Que nos falta fazer?  Fazer é fazere não, apenas, ‘dizer coisas a Deus’.
Nono Exercício: dar exemplos concretos do que é urgente fazer (no Mundo, fora da nossa Comunidade) no Plano da  libertação, da cura, e do Anúncio de Boas Notícias. O Reino é para todos, mas, em primeiro lugar, para os que estão do lado de fora de tudo... É aí que iremos, a 'tocar' o Ressuscitado!, mortos de espanto. Pois «está vivo», «está no meio de nós» e deixa-se tocar. [João 20:27; Actos 2:24.32]

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14 de agosto de 2011

MATEUS 15ss - AS FRONTEIRAS DO REINO 1/2

Evangelho de Domingo
Mt 15:21-28

1/2

Jesus está do lado de fora da... Igreja!



MATEUS 15: A fé de uma cananeia (Mc 7,24-30) – 21«Jesus partiu dali e retirou-se para os lados de Tiro e de Sídon. 22Então, uma cananeia, que viera daquela região, começou a gritar: «Senhor, Filho de David, tem misericórdia de mim! Minha filha está cruelmente atormentada por um demónio.» 23Mas Ele não lhe respondeu nem uma palavra. Os discípulos aproximaram-se e pediram-lhe com insistência: «Despacha-a, porque ela persegue-nos com os seus gritos.» 24Jesus replicou: «Não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel 25Mas a mulher veio prostrar-se diante dele, dizendo: «Socorre-me, Senhor.» 26Ele respondeu-lhe: «Não é justo que se tome o pão dos filhos para o lançar aos cachorros.» 27Retorquiu ela: «É verdade, Senhor, mas até os cachorros comem as migalhas que caem da mesa de seus donos.» 28Então, Jesus respondeu-lhe: «Ó mulher, grande é a tua fé! Faça-se como desejas.» E, a partir desse instante, a filha dela achou-se curada.» [Bíblia, Difusora Bíblica]


 Prepara a tua Homilia


1.«Jesus partiu dali» (v.21) – foi a Tiro e Sídon! Como interpretar esta decisão de Jesus?

2. Jesus está só ou acompanhado? Quem está com Jesus?

3. Como reagem os ‘discípulos’? Como reage Jesus? Como se comporta a ‘cananeia’? Caracterizar e comparar.

4.«Mas Ele não lhe respondeu nem uma palavra» (v23) pode ser a atitude de alguém que hesita e pensa (ou está prestes a conceder uma segunda oportunidade). Que significa o «silêncio» de Jesus? A quem acham que Jesus pensa dar uma ‘segunda oportunidade’?

5. No v.26, quem, verdadeiramente, fala? Jesus ou os discípulos? Quem é que usualmente usa a expressão «cachorros», «malvados», «inimigos»? [Salmo 26:5; Sl 141:4-5.-9-10; Sl 139:19-22]

6. A partir do v.26 os discípulos estão calados. Por que será? Qual é o drama dos discípulos?

7. Verdadeiramente, quem é que «os gritos perseguem»? «Senhor, Filho de David, tem misericórdia de mim! Minha filha está cruelmente atormentada por um demónio.» O ‘demónio’, na verdade, atormentava quem? Neste relato, o personagem ‘demónio’, ‘diabo’, simboliza quem ou o quê?

8. Como explicar a exclamação ‘exagerada’ de Jesus no v. 28? - «Ó mulher!,…»

9. Que quer dizer, hoje, ter uma «fé grande»?

10. Interpretar a expressão: «E, a partir desse instante, a filha dela achou-se curada

11.Que consequências tem esta «cura» para a vida dos ‘discípulos’? E para nós, hoje, cristãos no Porto?

[uma hipotética resposta, amanhã]

10 de agosto de 2011

A PASTORAL DO ESPECTÁCULO EM QUESTÃO

Algo (in)Significante


Taizé- chegada


Introduzindo

As instituições da Igreja Católica, sociologicamente maioritárias, que estão no continente europeu, atravessam uma das suas maiores crises de sempre, sobretudo pelo já longo tempo que tal crise leva. Podemos dizer que essa crise tem a ver com a sua identidade intrínseca, com aquilo que ela sabe (ou não sabe) e quer (ou não quer) ser: ou seja, com a sua Identidade e com a sua Missão. Podemos dar exemplos que fizeram (e ainda fazem) açoitar a nossa crença na instituição: desde a quase esquecida ‘questão da pílula’, exemplo de usurpação papal do poder-colegial (Humanae Vitae, 1968), passando pela já quase esquecida ‘questão dos dinheiros’ (do Vaticano-Banco Ambrosiano-Máfia, dinheiro dos Santuários e bispados), até à bem recente ‘questão pedófila’ (de todo enfrentada e continuadamente encoberta), sem esquecer, de passagem, dois aspectos mais: os ataques ao espírito do Concílio Vaticano II comandados pelo próprio Papa Bento XVI (caso «Fraternidade de S. Pio X», que me parece uma ‘propositada desatenção envenenada’ por atingir precisamente o coração do «mistério da eucaristia»; cf. o ridículo em ‘A Luz do Mundo’, Ed. Lucerna, cap. 12 e as 3 primeiras perguntas, pág. 121-124); e a progressiva «desertificação católica» (cerca de 27% de ‘paróquias sem padres’ na América do Norte, tal como nalguns países da Europa).


Estes dois aspectos – identidade e missão – surgem, aos olhos dos observadores (crentes e não crentes), sob a forma de modelos sociais, os quais, evidenciando aquilo que se usa chamar ‘pastoral’, pressupõem, ao mesmo tempo que ocultam, um substrato espiritual, aquilo que se usa denominar por ‘espiritualidade’. A espiritualidade constitui a razão da fé no modelo pastoral a que está ligada.

50 anos após a abertura do Concílio Vaticano II, os tempos que actualmente correm estão marcados por alguns traços originais, que datam de há cerca de 20 anos, de entre os quais se destaca: a emergência de massas católicas empolgadas. Numa época dominada pelas tecnologias de informação, tal fenómeno tende a ocupar de tal maneira o espaço social católico, que é praticamente inglório o esforço de ‘trazer à luz’ as experiências minoritárias ou marginais. Tal como acontece com os media não confessionais, os media eclesiais e eclesiásticos tendem a ser «o braço longo» do poder e, simplesmente, as outras experiências (não mediáticas e minoritárias) deixam de o ser e de existir, trituradas que são pelo bulldozer das «massas católicas empolgadas».

Este tipo de pastoral – pastoral emocional, contagiante, espectacular, mediática, visual, sensacional –  que, depois do interregno do Concílio Vaticano II volta agora em força com João Paulo II e Bento XVI – («cristianismo de massas») – tem-se manifestado de duas formas: sob a forma de «multidões anónimas» e sob a forma de «multidões organizadas».

A primeira, assenta numa metodologia que parte dum princípio de desconfiança, o de que as multidões não são totalmente de fiar, não são credíveis, são realidade muito desejada mas indomada, ainda que em si não sejam agentes autorizados: necessitam de uma autoridade exterior que credibilize de cima para baixo e organize de fora para dentro. Plasmam-se em manifestações de religiosidade popular com forte carga afectiva e pobre carga teológica ou doutrinal. É o caso das Jornadas Mundiais da Juventude, é o caso do alemão Katholikentag, dos ‘Anos Santos’, é o caso da recepção às Visitas Papais, dos Congressos Eucarísticos e Marianos, é o caso das Peregrinações aos Grandes Santuários (Fátima, Lourdes, Santiago de Compostela, Czestochowa, Guadalupe, Saragoça, etc.).

A segunda, ousa acreditar que é possível acolher as «massas» crentes e trabalhá-las, sempre no respeito pela realidade que significam – «multidões de procuradores». É o caso, p. ex., de Taizé.

As metodologias de trabalho têm de ser, forçosamente, distintas.
E são-no em dois pontos: o ritmo e o tema.


Quanto ao ritmo

A primeira privilegia a aceleração, a velocidade, o zapping. Usa as ferramentas do ‘entretenimento’, as mesmas que o marketing usa, com acelerações descontinuadas. Pode nem chegar sequer a ser sintética. Dá uma imagem de ‘inclusiva’, ainda que não evitando o fenómeno «salada russa».
A segunda é, em sua essência, lenta e progressiva, marcada pela interrogação, travada pela tensão da dúvida. Pode ser pesada, custosa, dando a sensação de que não se sai do sítio. Numa percentagem significativa, possui traços analíticos que diferenciam, porque questionam. Pode ser apontada de excludente, quando, na realidade, o que faz é trazer à luz do dia (sem desrespeitar) as ‘escolhas’ individuais, as ‘opções’ pessoais; esta metodologia será sempre ‘apontada’, mas por pôr em evidência aquilo que cada um quer ser ou não quer deixar de ser.






Quanto ao tema

Na primeira, o tema é o ‘ego’, a estima pessoal, o coração. Transforma as pessoas em íntimos, em unidades, em mónadas: o seu eixo passa pelo centro de cada indivíduo. As questões são deste tipo: como me hei-de salvar a mim mesma? Que caminho interior? Que decisão interior? Que ferramentas espirituais me são apropriadas a mim? Qual o estado da arte do encontro? Que iniciação devo seguir? Como resolver unitariamente as contradições? A que guru me acolher? «Que morada me irá receber? Em que vale encontrarei o meu porto? Em que bosque criarei o meu lar[William Wordsworth, epígrafe in ‘O Tesouro Escondido’, JT Mendonça, Paulinas]

Na segunda, o tema é um pedido de ajuda externa: «Donde sopra o vento?» «Para que margem devo remar?» «Devo desistir ou insistir?» «Há mais mundo igual ao meu para lá do meu mundo? Onde?» «Quem me pode salvar?» «Com quem me hei-de salvar


Desenvolvendo (a partir da Bíblia e não só…)

Quanto ao ritmo, aquilo que a Bíblia me ensina é que a velocidade é incompatível com o Deus revelado na história do Povo de Deus. Porém, quem já viu o filme «Dos Homens e dos Deuses» [Realização: Xavier Beauvois, http://www.trailers.com.pt/dos-homens-e-dos-deuses/] aprendeu que a lentidão de dentro do Mosteiro não o é apenas por oposição à dinâmica, histórica ela também, do ambiente agitado fora do Mosteiro [Tibhirine, Argélia]. A mesma lentidão de dentro (do Mosteiro de Tibhirine) ocupa também o centro do relato de ‘Elias no Horeb e a brisa suave’ [1 Rs 19:11-12] e este por oposição aos acontecimentos céleres: prisão, encadeadamento e execução de João Baptista [Mc 6:27 - «sem demora»]. Ou a narrativa da cura e conversão do general sírio, Naaman [uma lentidão que ocupa todo um capítulo e que até tem como ‘catequistas’ servos não-crentes; 2Rs 5:13] por oposição ao precipitar de todo o processo contra Jesus [Mateus 26:47-75;27:1-26].

Quase que apetece concluir que a velocidade é mortal, ao passo que a lentidão é teofânica. Na Pastoral também deveria ser assim – a lentidão, como respeito pela dignidade de todos os processos de aproximação, acolhimento e conversão, é o veículo adequado para aceder a Deus [cf. o general sírio, Naaman]. Na agitação dos fenómenos, Deus nunca está [1 Rs 19:11; cf. Mc 13:21-23; espectáculo, suspense, «sinais e prodígios são só para vos enganar»; cf. Lc 17:22-26: «não sigais o brilho ofuscante dos sinais prodigiosos; primeiro vem o testemunho e a tua consequente rejeição pelo mundo»]. Cuidado com o encantatório Belo! Só se for o ‘belo do Servo de Yahvé’ [Isaías 52:15; «os reis ficarão boquiabertos ao verem coisas inenarráveis e ao contemplarem coisas inauditas»]. O tranquilizante Belo que por aí se prega é soporífero, anestésico, distracção face à realidade, ópio do povo.

Quanto à recepção das multidões e seu acolhimento condigno, há, no AT, um relato histórico que é paradigmático – Neemias 8:5-12 – e que nos versículos 7 e 8 nos dá uma lição enorme: «Jesua, Bani, Cherebias, Jamin, Acub, Chabetai, Hodaías, Massaías, Quelitá, Azarias, Jozabad, Hanan, Pelaías e os outros levitas explicavam a Lei ao povo, e cada um ficou no seu lugar. E liam, clara e distintamente, o livro da Lei de Deus e explicavam o seu sentido, de modo que se pudesse compreender a leitura.» Na Pastoral do século XXI não se pode recuar a antes da «organização» de Neemias 8… Seria uma vergonha! O mesmo acontece com o relato de Marcos 6:34-44 sobre os cinco mil que são alimentados por Jesus: «Ordenou-lhes que os mandassem sentar por grupos na erva verde. E sentaram-se, por grupos de cem e cinquenta.» - belo exemplo de como é indispensável organizar as multidões! O mesmo acontece em Taizé: é possível acolher multidões de modo personalizado! O mesmo aconteceu com sucesso a Paul Wess (1936-), vigário paroquial e professor de Teologia Pastoral na Universidade de Innsbruck,numa tentativa de reorganizar uma paróquia recém-estabelecida, em moldes diferentes: uma Igreja-Communio assente no sacerdócio comum dos fiéis e não no anonimato das multidões.



Não existem razões para desconfiar das multidões, nem muito menos pode haver espaço para a manipulação mediática das multidões crentes. Desconfiemos, isso sim, da capacidade dos que desconfiam! A sua desconfiança alicerça-se no medo…

Quanto ao tema, o ‘ego’ funciona como a cama de Procrustes, um instrumento estúpido. Entregue ao teu ‘ego’, torturas-te ou viras Narciso! Não te salvas. No entanto, a linha espiritual do projecto “Grão de Mostarda”, nomeadamente os ‘Pensamentos em Busca’, as obras mais recentes de Anselm Grün e, mais recentemente, o livro do padre JT Mendonça, ‘O Tesouro Escondido’, parecem enveredar por essa via: são incalculáveis as vezes que as palavras ‘interior’, ‘alma’, ‘coração’, ‘Deus’, ‘amor’ surgem nessa obra (ao contrário da palavra ‘Jesus de Nazaré’). O título e o sub-título ecoam duplamente esta deriva intimista da fé: ‘O tesouro escondido – Para uma arte da procura interior’. Estas iniciativas, que surgem no panorama português, dão a ideia de que é desejável uma espiritualidade baseada SOBRETUDO no evangelho de João, nas cartas de Paulo, na experiência dos monges do deserto ou no hesicasmo:


Ou, então, nos “Relatos de um peregrino russo ao seu pai espiritual” [ed. Paulinas], que nos são apresentados como «lição maravilhosa e necessária», como «trabalho da mente» sob «abstinência espiritual»:


Da mesma colecção «Poéticas do Viver Crente», Carlos Maria Antunes, monge da Ordem de Cister, Sobrado dos Monxes, com o seu testemunho intitulado «Atravessar a própria solidão» (Ed. Paulinas), [http://www.snpcultura.org/atravessar_a_propria_solidao.html], ficamos, no mínimo, confusos: «Mais do que estar só, interessa-me aqui o ser só.» «Quando nos decidimos a ir por dentro de nós…» «começamos a estar conscientes de que a vida se nos está a escapar, a passar ao lado. É então que nos aventuramos na nossa própria solidão.»…

Pergunta José Maria Mardones: «Acaso, a única solução consiste numa espécie de religiosidade escapista e compensadora da frustração e da impotência face à dureza do sistema e seu ritmo acelerado?» [‘Adonde va la religión?’, Presencia Social, 1996, p.61] E continua: [hoje] «Nada de “evangelhos sociais”, só a expansão mística da consciência. [tudo isto] Soa a evasão…». «Necessitamos de uma religião mais sensível à história concreta dos homens, atenta ao clamor dos homens, hoje, e à força do Espírito que atravessa o nosso tempo.»

Contra esta maré têm-se imposto, entre outros, Frei Bento Domingues, OP, a Fundação Bethânia [Manuela Silva], a Comunidade de Taizé,  Anselmo Borges [Colóquios de Valadares, ‘Igreja em Diálogo’], o teólogo Juan Ambrósio [UCP, Lisboa], todos eles sob o signo de «A Arte de interrogar».

Os que optarem pela «arte da busca interior» encontrarão uma bandeja securizante cheia de ‘Deus’, de êxtases e de sentimentos ‘íntimos’ presumíveis dum modelo de sobrevivência individualista de trincheira, mas num claro fechamento ilusório face à modernidade (pietismo dos novos tempos impotente diante da subida da direita católica em todos os palcos da política europeia, como o está a ser também em Portugal – vide: Assunção Cristas et al). Convém lembrar: «A trave dos nossos olhos é o nosso ego.» (…) «O nosso ego faz de todos nós uns hipócritas.» «Olhando sinceramente para nós próprios, poderemos descobrir que somos quase todos, pelo menos ligeiramente, neuróticos.» «O ego é malandro e astucioso, tenta ocultar-nos…»  «O ego é completamente incapaz de sentir gratidão.» [Albert Nolan, ‘Jesus Hoje – uma espiritualidade de liberdade radical’, Paulinas, 2009/2ª, p.150.151.152.157] Será, então, possível encetar a nova evangelização a partir de materiais tão traiçoeiros como o da «arte da busca interior» privilegiando o ego?

Os que enveredarem pela «arte da interrogação» [Êxodo 3:13 - ‘Como Te chamas?’; Génesis 4:9 - «Onde está o teu irmão?»; Lucas 10:26 & Actos 8:30b - «Como lês?»] deparar-se-ão com o terreno movediço do ‘desajustamento’ introduzido pelo Deus de Jesus de Nazaré (consequência de eventuais mudanças de paradigma), o único capaz de possibilitar uma abertura com futuro às questões decisivas do tempo presente (cf. a resposta do Senhor a Moisés – evitando a tentativa de apropriação de Deus por parte de Moisés, o Senhor auto-nomeou-se assim: ‘EU SOU o que SEMPRE estarei ao vosso lado’ [Ex 3:14]; o mesmo acontecerá mais tarde com a “ressurreição”, ao introduzir a rotura decisiva no quadro mental do pensamento judaico e helénico sobre a Morte e o para lá da morte; o mesmo se exprime, igualmente, numa insegurança sob a forma de insensatez de quem se quer manter distante, asséptico e incontaminável diante da ‘perturbação da fé’: 1 Cor 15:35ss e João 9:21: «querer saber como foi é insensatez» e «como foi não sabemos, só sabemos que aconteceu»). Só numa Comunidade que interroga [Lucas 19:3 - Zaqueu «procurava»] se adquire um coração agradecido [Lc 19:9: «hoje a salvação ‘aconteceu’ nesta ‘casa’»]. Só os pobres podem estar agradecidos, pois, não tendo nada, só podem tudo esperar de Deus [Lc 6:20; Mt 5:3]. Fora duma Comunidade, a nossa Oração pode resvalar para o consolo – cuidado com os espaços de oração seleccionados pelos nossos estreitos critérios pessoais, sem preocupação pela ‘comunhão universal’, excludentes da denúncia estrutural [cf. Lc 18:10-12; não tenho dúvidas nenhumas que o fariseu saiu de rezar “com tudo em cima”, com sua auto-estima e ego fortalecidos; porém, Deus foi perfeitamente indiferente a esses pormenores da psicologia pessoal; Deus deixou-o pura e simplesmente entregue a si próprio – o olhar de Deus acompanhou o ‘socialmente excluído’, o cobrador de impostos, o marginalizado].

Só uma postura interrogante e disruptiva evita as perguntas religiosas inúteis, tão actuais como a do apócrifo judaico 4Esdras 7,46[116]-49[119] do séc. I dC, (in Armindo dos Santos Vaz, ‘O sentido último da vida projectado nas origens’, Ed. Carmelo, 2011, p. 316):

«Teria sido melhor se a terra não tivesse produzido o ‘adam ou, então, quando o produziu, o tivesse impedido de pecar. Pois, que interesse tem para todos viver agora em penas e esperar castigo depois da morte? Ó ‘adam, que fizeste?»

Os outros, os que optarem pela «arte da busca interior», esses navegarão no pântano espiritual dum Jean-Sebastien Monzani [«Your secret», a movie about you: http://vimeo.com/12890334] sem saber bem como saltar daí para as Fontes (bíblicas, Lc 24:27]) e para a Comunidade [O Caminho de Emaús, Lc 24:33] que os salve [Lc 24:34].
Ou, pura e simplesmente, inebriados por uma busca obsessiva de Deus, fascinados pela sua Omnipotência Salvífica e sua Transcendência (esquecendo a sua Omni-Misericórdia), nunca enxergarão que a Transfiguração foi desilusão quanto a experiências místicas descarnadas das lutas sociais e políticas, a qual não é outra coisa senão um «abanão para que abram os olhos para o mistério da realidade concreta do aqui de baixo» (e não para outra qualquer) [cf. Mt 17:8 - abriram os olhos «e apenas viram Jesus e mais ninguém»]. Os que só são capazes de se encantarem pela Omnipotência Salvífica de Deus nunca tirarão as mais fundas consequências do Juízo Definitivo [Mt 25:37-46]. Enredados na cardiologia do (seu) ‘ego’ e numa espiritualidade vaga e poética tristemente inspirada num falso dilema «Deus-cebola vs. Deus-batata», «serão afastados da vida eterna»; permanecerão «no suplício eterno» [v.46] que só o (seu) ‘ego’ sabe infligir, de olho atento ao saldo das suas contas bancárias...




 
Concluindo - A arte do Encontro com a Boa-Nova de Jesus… e não com a ‘religião’

«A questão dos cristãos de hoje e, por conseguinte, da Igreja é a da transição de uma Igreja de massas, sintonizada com a sociedade e a respectiva cultura profana e homogénea envolvente [cf. a estratégia e a aposta da Hierarquia nos Partidos Democrata-Cristãos, nas Te-Vês Católicas, nas Universidades Católicas] para uma Igreja como comunidade de crentes, a qual, através duma opção pessoal e livre de fé se distancie da mentalidade e do comportamento comum da envolvente social, encontre e defina, de um modo próprio, a dimensão teológica da fé, eventualmente, através duma relação crítica face à sociedade e face aos seus poderes dominantes.» [Karl Rahner, ‘Cambio estructural de la Iglesia’, Cristiandad, Madrid, 1974, pp.30-31]

Uma das questões centrais – velhinha questão! desde Karl Barth [‘Dogmática Eclesial’] – é a seguinte: «é a religião que deve servir de critério ajuizador da revelação ou, pelo contrário, devemos interpretar a religião seja que religião for a partir da revelação?» [José María Castillo, ‘El gran viraje de las teologias protestante y católica: el Concílio Vaticano II’, in «Historia del Cristianismo», Coord. Francisco J. Carmona Fernández, Vol IV, Ed. Trotta, 2010, p.387]

«A crise é o momento privilegiado para se fazer a experiência da força salvadora de Jesus. É o tempo privilegiado para alimentar a fé, não à custa de tradições humanas, apoios sociais ou devoções piedosas, mas à custa duma adesão vital a Jesus, o Filho de Deus.» [José Antonio Pagola]


Às multidões “empolgadas e organizadas” (convém também dizê-lo: para certos camadas etárias elas desempenham um papel muito útil na descoberta progressiva da dimensão festiva, alegre e comunitária da Fé) devemos, à chegada, ‘pôr a mesa’ da «COMUNIDADE dos SEGUIDORES de JESUS» (Comunidade cristã-com–escala), porto de abrigo, «lugar de estudo», esperança centrífuga, encontro confiante,  maturação de compromissos, ombro de paciente sustentação, casa da «partilha», lugar da gratidão, ‘Mesa Comum’.

A já clássica afirmação de K. Rahner [Escritos de Teologia, Vol VII, Madrid 1967, p.25], de que «o cristão do futuro ou será um «místico», isto é, uma pessoa que «fez a experiência» de algo ou não será cristão» carece, hoje em dia, de ser re-dita – a Fé, em Jesus Cristo, ou passa pela adopção e defesa empenhada dos anseios dos frágeis, dos «pobres», do povo [na linha de Carlos Mesters, G. Faus], dos espoliados pelo ‘sistema’, ou apenas constará dos tratados de História como facto sociológico sem chama histórico-profética.

Diante da «arte da busca interior» está a «arte da interrogação e do clamor». Uma insignificância?

Em alternativa, como escreveu Thomas Merton ao seu amigo o padre Ernesto Cardenal (condenado por João Paulo II): «Será que teremos de estar num campo de concentração para que acedamos à verdade?» [Correspondencia 1959-1968, Ed. Trotta, 2003, p 109]

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