teologia para leigos

5 de agosto de 2011

CATOLICISMO TETRAPLÉGICO - SÓ A CABEÇA MEXE...

 ''Há um cisma na Igreja
entre a cúpula hierárquica e as bases''






Entrevista com Hans Küng

“Diagnóstico: doença terminal. A Igreja ainda tem salvação?” Esta é a pergunta que se coloca em seu último livro, publicado na Alemanha pela Editora Piper Verlag, o teólogo crítico e especialista em ética mundial Hans Küng. “Na situação atual não posso guardar silêncio”, disse Hans Küng. Na sua opinião, a Igreja católica se encontra imersa em uma grave crise. Crise que é necessário descrever com objetividade e sem preconceitos antes de aplicar a terapia adequada. Crise que se plasma, entre outras coisas, em censura, absolutismo e estruturas autoritárias. [A entrevista é de Ralf Caspary e está publicada no sítio espanhol Religión Digital, 30-07-2011. A tradução é do Cepat]

Ralf Caspary: Senhor Küng, me chamou a atenção que seu livro está impregnado de um certo alarmismo. Não podia mais ficar calado, devia escrever este livro neste momento concreto da história. Metáforas como “doença”, “recaída”, “aumento da febre” são abundantes no seu livro. A que se deve este alarmismo?
Hans Küng: Alarma, sim, mas não alarmismo. Se me permite, explico imediatamente. Vou lhe dizer com toda a sinceridade que nestes momentos, apenas alguns meses depois da sua publicação, vejo as coisas inclusive mais pretas  que a cor da capa do meu livro. Temos uma iniciativa de diálogo dos bispos que ficou esquecida. Creio que o sociólogo da religião Michael Ebertz (Friburgo) tem razão quando fala de uma segunda crise na Igreja católica, depois da crise dos crimes sexuais. O episcopado se mostra obviamente incapaz de nos comunicar o que realmente aconteceu, para que se possa encaminhar devidamente o diálogo. Seguimos sem saber como proceder para iniciar este diálogo, os bispos não se colocam de acordo e querem excluir determinados temas. Recentemente assistimos a uma série de acontecimentos muito desagradáveis que justificam tanto a minha análise quanto o meu alarma.

RC: Você chegou a dizer que estamos na segunda fase da crise. Falou da falta de disposição para dialogar. Esclareça-nos, por favor, este ponto.
HK: Vamos supor que os bispos tenham aprendido que não podem continuar a agir de uma forma tão autoritária como vinham fazendo até agora, que vão escutar o povo. Mas não é bem assim, nem sequer aprenderam isso. Creio que nós somos o povo! As pessoas dizem: nossa paciência está chegando ao fim, queremos participar das decisões, também em nossas paróquias. Queremos escolher os nossos bispos, queremos ver mulheres nos diferentes cargos, queremos que haja agentes de pastoral, homens e mulheres, que sejam ordenados/as sacerdotes. São slogans e demandas que refletem o descontentamento das pessoas. De fato, se produziu um cisma dentro da Igreja entre os que, lá encima, pensam que podem continuar atuando com o estilo de sempre e o povo e uma boa parte do clero liberal.

RC: Que reações seu livro produziu até agora?
HK: Eu o enviei a todos os bispos alemães e até agora as reações foram, quando menos, cordiais. Também o enviei ao Papa Bento com uma carta cortês na qual exponho como, no fundo, minha intenção é ajudar a Igreja, embora tenha uma ideia diferente de como deveríamos proceder. Ele me fez chegar seu agradecimento, o que me parece um gesto positivo. Tenho sumo cuidado em tentar conduzir o debate com objetividade, sem ultrapassar a barreira da ofensa pessoal e sem que a questão derrape para um assunto pessoal.

RC: Que reações provocou entre os leigos?
HK: Em poucas ocasiões recebi tantas cartas de agradecimento pelo livro, apesar de se tratar, de fato, de uma análise algo “deprê” que pode produzir desânimo. Me agradecem muito pelo fato de que afirme que a recuperação é possível. O livro está repleto de propostas concretas. Não posso me queixar das reações, pelo contrário, me anima muito receber quase diariamente cartas de tantas pessoas, muitas vezes de pessoas simples.

RC: Quais são, para você, os principais sintomas desta crise da Igreja católica que diagnostica no livro?
HK: Basicamente que as paróquias estão secando lentamente, em parte por causa da mensagem dogmática que vem reiteradamente prescrita de cima. Naturalmente, temos também o problema dos cargos eclesiais. No livro o ilustro com o exemplo da minha própria comunidade na Suíça. Durante muito tempo tivemos quatro sacerdotes (os “quatro cavaleiros”); hoje não resta nenhum. Continuamos a ter dois aposentados e um diácono. O diácono faz tudo de maneira fenomenal, um alemão, certamente. Não obstante, não pode presidir a eucaristia por não ter sido ordenado sacerdote. E não pode ser ordenado sacerdote porque é casado. É completamente absurdo. Temos que abordar uma série de pontos muito concretos: 1. O celibato deve ser opcional; 2. As mulheres devem ter acesso aos cargos eclesiais; 3. Deve-se permitir que os divorciados participem da eucaristia; 4. Deverão se estabelecer comunidades eucarísticas entre as diferentes confissões sem esperar outros 400 anos. Estes são alguns pontos para a terapia.




RC: Voltemos ao diagnóstico. Como você denominaria a doença que afeta o núcleo da Igreja católica?
HK: A doença é o sistema romano. Foi introduzido pelos Papas da denominada Reforma Gregoriana, em honra a Gregório VII. Foi assim que se introduziu o papismo, o absolutismo papal, segundo o qual uma só pessoa na Igreja tem a última palavra. Isto produziu a cisão da Igreja oriental que não aceitou estas modificações. Dessa época procede o predomínio do clero sobre os leigos. Padecemos um celibato para todo o clero que se introduziu no século XI. Aqui penso que está a origem da doença. Aí surgiu o germe. Tentou-se erradicá-lo com a Reforma, mas em Roma encontrou resistência. Com o Vaticano II se tentou lutar contra tudo isto. Teve um êxito parcial, embora não se permitiu debater, nem sobre o celibato, nem discutir sobre o papado. Pode-se considerar que o Concílio teve um sucesso pela metade. Neste momento a situação é calamitosa. Em Roma, em vez de ter aprendido algo, como era de se esperar, e ter empreendido o caminho da liberalização, os dois Papas restauracionistas – Wojtyla e Raztinger – fizeram o contrário. Fizeram todo o possível para que o Concílio e a Igreja retrocedam a uma fase pré-conciliar.

RC: Refere-se ao Concílio Vaticano II que tentou produzir uma certa abertura?
HK: Sim, os frutos do Concílio Vaticano II foram excelentes: integrou o paradigma da Reforma na Igreja, incorporou as línguas vernáculas na liturgia, todo o povo participa hoje ativamente da liturgia, se revalorizou o papel dos leigos e o da Igreja oriental. Inclusive houve uma integração dos paradigmas da Ilustração, da Modernidade. Desde então se reconhece a liberdade de culto e os direitos humanos; e temos uma atitude positiva em relação às religiões do mundo e em relação ao mundo secular. Mas estes são precisamente os pontos em que Roma quer retroceder. Roma está organizada para reter o poder.

RC: Se entendi corretamente, nas últimas décadas, na Igreja católica, se produziu uma recaída, um retrocesso, uma forte concentração no sistema de domínio romano. É isto que você critica?
HK: Sim. Isto fica claro nos seguintes pontos: primeiro, foram sendo publicados continuamente documentos sem perguntar ao episcopado e sem consultar ninguém previamente. Trata-se de documentos da Cúria que destacam a pretensão de estar em posse da verdade, ter o monopólio sobre a verdade da Igreja católica. Em segundo lugar, temos toda a infeliz diretriz relacionada com a moral sexual que foi sendo publicada. Esta é a linha. Em terceiro lugar, temos a política de escolha de pessoas. De forma sistemática, para os postos de bispo e outros cargos da cúria se elegem pessoais exclusivamente fiéis a essa linha. Escrevi um capítulo inteiro sobre os motivos pelos quais os bispos guardam silêncio: porque já foram selecionados, porque previamente se comprometeram, porque na ordenação prestaram juramento ao Papa, porque não podem falar livremente. Por isso escutamos de todos a mesma opinião. Os bispos se encontram em uma situação de grande pressão, por um lado a que chega de cima, por outro, a da comunidade crente.

RC: Portanto, você dirige suas críticas também contra o monopólio do poder e o monopólio da verdade do Papa?
HK:Sim, exatamente.

RC: Essa seria a principal ferida?
HK: Imagino que se tivéssemos tido outro Papa na linha de João XXIII, a instituição de Pedro seria algo magnífico. Poderia ser uma instituição de guia pastoral, que inspira, que une. O papado atual é uma instituição de domínio que divide. O Papa divide a Igreja. Esta é uma tese que não está sendo suficientemente levada a sério. Segundo as últimas pesquisas, 80% dos católicos alemães querem reformas. Os 20% que não as querem são, infelizmente, os que são levados a sério. Alguns bispos sustentam que entre os católicos há dois grupos. Não é correto, não se trata de dois grupos. A maioria quer reformas. É apenas um grupo minoritário, com forte presença na mídia, que é contra as reformas. Eles não representam a Igreja que desejamos ter. Como povo de Deus, queremos uma Igreja na qual nos sentamos na mesma roda, não queremos um pequeno grupo dominante que controle tudo.

RC: Há algo que não entendo bem. Se você critica o Papa atual e o compara com outros Papas mais liberais, então não é um problema da estrutura da Igreja, mas da personalidade do Papa.
HK: Também recai na personalidade do Papa. Joseph Ratzinger procede de um ambiente conservador. Eu também procedo de um ambiente conservador. Isto não é nenhuma vergonha, inclusive se poderia tornar uma vantagem. Mas ele interiorizou este ambiente. Ele viveu principalmente na Alemanha sem conhecer bem o mundo. Depois se mudou para Roma onde viveu em um gueto artificial no qual não se percebe o que acontece no resto do mundo. Ao ler algumas declarações suas, como o decreto que publicou sobre as outras Igrejas sendo ainda cardeal, a gente se pergunta: onde vive este homem realmente, na lua? Agora anunciou uma campanha de evangelização nada convincente. Como se quer evangelizar o mundo com um catecismo que pesa literalmente um quilo? Pretende torturar as pessoas? Além disso, há a questão do Ensino na Igreja. Ele fala expressamente do “ensino do Papa”. Isto, evidentemente, não há pessoa ilustrada que leve a sério. Quem vai admitir a estas alturas que uma pessoa sozinha reclame para si o poder legislativo, executivo e judiciário sobre uma comunidade de mais de um bilhão de pessoas? Em terceiro lugar, está se dando um impulso problemático ao tipo de religiosidade popular tradicional que se quer promover. Assim acontecem essas cenas terríveis na qual um Papa beija o sangue de seu predecessor em seu relicário de prata. Mas, bom, onde estamos? Este é o obscurantismo medieval.

RC: Aprecio o fato de que se indigne quando fala do Papa atual.
HK: Não, não se trata do Papa atual.

RC: Em seu livro o critica com dureza. Fala, por exemplo, de boato e de esbanjamento, de estruturas autoritárias. Se poderia censurar: Küng fala com certo ressentimento?
HK: Não. Creio que continuo tendo a capacidade de poder falar muito bem com o Papa pessoalmente. Continuamos mantendo correspondência e ele sabe que minha preocupação é simplesmente a Igreja; mas que tenho uma concepção diametralmente oposta à dele no que se refere ao caminho a seguir. Interessa-me ressaltar que não chegamos a esta situação pelo Papa Ratzinger, mas em decorrência de uma evolução desde o século XI. Embora Joseph Ratzinger e seu predecessor tenham feito todo o possível para voltar a um paradigma medieval da cristandade.




RC: Sr. Küng, o sistema romano não se fundamenta no Novo Testamento e na História da Igreja?
HK: Não. A própria palavra “hierarquia” não a encontrará no Novo Testamento. Aparece seis vezes a palavra “diaconia” com a famosa frase: “quem quiser ser o primeiro, seja o servo de todos”. Nessa mesma linha temos também a cena do lava-pés. Mas o Papa quer ser senhor entre os senhores. Aparece como um faraó moderno. Se observarmos as cerimônias na Praça São Pedro, uma só pessoa está no centro, ao passo que os bispos se mantêm à distância, como figurantes. Ninguém tem nada a dizer, apenas uma pessoa fala, apenas uma pessoa decide tudo. Esta não é uma Igreja de nosso tempo. E não corresponde absolutamente ao Novo Testamento nem à sua época, onde reinava a fraternidade, onde as mulheres estavam presentes e onde havia uma comunidade carismática, como se vê nas comunidades paulinas. Todo o contrário do que se pratica hoje. Atualmente, reina uma estrutura medieval que, no princípio, só se encontra nos países árabes. Recorda-nos o comunismo: baseia-se no secretário de um partido único que decide tudo. O resto foi escolhido em função de sua lealdade à linha papal. O mesmo acontece com os bispos. Embora haja cada vez menos crentes que aceitam este sistema autoritário. Nem na Arábia se aceita mais os autocratas. Eu defendo que na Igreja católica os autocratas também não tenham nenhum futuro.

RC: Você disse que a Igreja católica não está à altura da época moderna. Não obstante, se poderia objetar que essa é precisamente sua vantagem. Em que você pensa que deveria se transformar? Em uma empresa moderna em sintonia com os tempos atuais? Nesse caso, não ofereceria nenhuma alternativa.
HK: Não é que eu seja um partidário absoluto da modernização. A Igreja deveria, em primeiro lugar, voltar às suas origens. Trata-se de ver se ainda podemos apelar a Jesus de Nazaré ou não. No meu livro descrevo uma cena: é impensável que se Jesus de Nazaré aparecesse em uma cerimônia do Papa, tivesse lugar. É simplesmente uma manifestação de poder pomposa e imperial, onde todos aplaudem e os senhores deste mundo participam para serem vistos e recolher votos. Essa imagem não tem nada a ver com a Igreja que Jesus queria, ou seja, não tem nada a ver com a comunidade de discípulos de Jesus. Não se trata de modernizar a qualquer preço. Em determinadas circunstâncias, precisamente será preciso oferecer resistência à Modernidade, justamente nos aspectos nos quais é desumana. Escrevi suficientes livros críticos com a Modernidade, por exemplo: “Anständige Wirtchaften” (Uma economia honrada), que trata sobre a falta de moral da economia. O que não pode acontecer é que adotemos como solução a Idade Média, quando deveríamos dar o passo da Modernidade à Pós-modernidade.

RC: Hans Küng apela para Jesus, o Papa apela para Jesus. O que pode fazer um leigo diante destas duas tentativas de legitimação?
HK: Deveria ler a Bíblia, assim se daria conta de onde está Jesus. Quando Ratzinger, na qualidade de teólogo, também como Papa, escreve sobre Jesus – embora realmente não devesse escrever livros, mas dirigir a Igreja – o que faz sobre o Cristo dogmático que caminha sobre a terra? Não fala de que Jesus contradizia as instituições religiosas de seu tempo, de que no final foi assassinado por aqueles que se consideravam ortodoxos. Pelo contrário, sempre fala do Cristo dos dogmas, da Igreja e da administração.

RC: Voltemos aos bispos. Você mencionou que são todos muito fiéis à linha papal, e que se trata, de fato, de um grupo hermético e estanque. Como se chegou a isto?
HK: É como se o Papa pudesse nomear sozinho todos os bispos. Sobretudo, se comprometem com sua linha. Acontece literalmente como no partido comunista, onde ninguém tem nada a dizer salvo o chefe de Moscou. Por isso, todos dizem a mesma coisa. Se falas individualmente com os bispos, te dizem: “Você tem razão, evidentemente, mas...”. Se houvesse apenas um bispo na República Federal da Alemanha que, por fim, dissesse como está a situação, que assim não se pode continuar, que é preciso fazer reformas, viriam por cima dele de Roma e do Vaticano, interviriam através do núncio, etc. Também teria contra si o resto dos bispos, em especial a facção de Meisner, que procura exercer o terror psicológico na Conferência Episcopal e, naturalmente, toda a cúria romana. Teria contra si todo esse pequeno grupo de conservadores e suas agências de imprensa, as quais divulgam continuamente notícias. Teria que ser muito forte. Embora pudesse contar, ao menos, com o apoio do povo.

RC: No centro de sua crítica está o sistema romano. Esta questão já foi abordada. Na conversa prévia à entrevista você comentou que preferiria não falar dos casos de abuso sexual. Não obstante, o menciono porque há um ponto que deveríamos esclarecer: estes casos de abusos sexuais fazem, do seu ponto de vista, parte de um problema estrutural? Em sua crítica ao papado você fala justamente de problemas estruturais.
HK: Evidentemente. Sempre houve uma aversão em relação à sexualidade, não apenas na Igreja, mas também na Antiguidade. Mas temos o problema do celibato do clero, cuja origem remonta às normas impostas pelos Papas do século XI. Não quero dizer, em absoluto, que o celibato desemboque necessariamente na homossexualidade ou no abuso sexual. Em absoluto. Mas quando dezenas de milhares de padres reprimem sua sexualidade e, por mais que sejam ótimos párocos, não podem ter esposa nem família, então temos um problema estrutural. Estas condições devem ser mudadas definitivamente. Embora pareça ser um tema sobre o qual não se deve discutir. O Bispo de Rottenburg fez uma conferência fabulosa sobre o Espírito Santo, ao qual é preciso se abrir, e se manifesta a favor do diálogo; mas, no dia seguinte, leio na imprensa – para grande decepção de muitos dentro e fora da diocese – que o próprio bispo, que fala tão maravilhosamente, suspendeu uma jornada sobre a sexualidade em sua própria academia. O que nos resta?

RC: Essa jornada estava prevista para o final de Junho e o tema era a moral sexual atual.
HK: Sim, e em vez de participar e defender suas ideias nas quais está tão bem formado, se esquiva. Desautoriza a diretora da academia e todos aqueles que querem participar. Dessa forma, deixa claro que o diálogo de que fala não é mais que uma frase vazia.

RC: Como pensa que a Igreja católica está agindo em relação aos casos de abusos sexuais?
HK: Segue sem adotar uma postura clara, por exemplo, sobre se os agressores deverão responder diante de um tribunal civil ou como vai se proceder, como se deduz das últimas notícias que chegam de Roma e dos Estados Unidos. Na Alemanha, dizem que já se desculparam e se dá o caso por encerrado. Ao mesmo tempo, nenhum bispo quer falar de que sejam questões estruturais, nem de que é preciso abordar de uma vez por todas temas como o celibato dos homens ou a ordenação de mulheres. Mas, por que não? O que se esconde por trás disso, na minha opinião, é simples e chama-se covardia, o contrário dessa franqueza apostólica que caberia esperar e da qual se fala na Bíblia, da mesma forma como os apóstolos falavam com liberdade. Os bispos atuais calam. E, se há ocasião para exercer o seu poder, o exercem. É uma vergonha que se vaie o presidente da Conferência dos Bispos da Alemanha no Dia da Igreja. Por quê? Porque ele, de forma arbitrária, tomou a palavra para criticar o Manifesto dos teólogos. Quando o Manifesto dos teólogos – assinado por 300 – é redigido em termos muito educados. Assim não se pode continuar.

RC: Até aqui o diagnóstico da crise. Neste contexto você recorre continuamente à metáfora da enfermidade; passemos agora às propostas para a terapia. Você tem uma imagem concreta da reforma da Igreja. Da nossa conversa deduzo que a reforma que o Sr. Küng tem em mente passa pela eliminação total da instituição da Igreja.
HK: Não, pelo contrário. Gostaria que reconstruíssemos a instituição da Igreja a partir de baixo, evidentemente, com base no Novo Testamento e no humanitarismo.

RC: Então, é preciso se desfazer totalmente das estruturas atuais ou não?
HK: É preciso abolir, evidentemente, o absolutismo do Papa. Embora se possa manter e apoiar perfeitamente uma instituição que dirija a pastoral, presidida por um bispo em Roma, sempre que for na direção do Evangelho. Poderia ter incluído uma função ecumênica. O que critico é que uma só pessoa queira dizer tudo e, por exemplo, que destitua um bispo, como voltou a fazer o Papa Ratzinger, pela primeira vez desde o Concílio. Temos o caso do bispo Morris, da Austrália. Foi destituído porque disse que não tinha mais padres e pedia a abolição do celibato e que se admitisse mulheres ao sacerdócio. Quando se cessa uma pessoa de seu cargo desta forma só cabe concluir: esta não é a Igreja de Jesus Cristo, isto é um sistema que exige uma total identificação e nem sequer aos seus bispos é permitido a menor divergência.

RC: Não obstante, a instituição do papado lhe pareceria aceitável se o Papa fosse mais liberal, mais aberto? Ou diria que esta função do papado já não está em consonância com os tempos atuais?
HK: Não. Sempre fui a favor do equilíbrio, do check and balance. É bom que haja uma comunidade, também é bom que haja algumas autoridades. Um homem como João XXIII teve um efeito maravilhoso na Igreja. Fez mais em cinco anos que Wojtyla com suas dezenas de viagens. Mudou toda a situação. Foi uma grande oportunidade. Não obstante, Sr. Caspary, devo lhe confessar que hoje tenho mais confiança nas paróquias e não o quero privar de uma boa notícia que recebi. Duas paróquias de Bruchsal, as comunidades romano-católicas de St. Peter e a comunidade paroquial de Paul Gerhardt, evangélica, escrevem: “Damos por terminada a divisão que durante quase 500 anos a cristandade viveu em nossa zona”. E acrescentam – espero que isso se publique logo: “Reconhecemos que em todas as paróquias que assinam este comunicado se vive igualmente como seguidores de Cristo e como comunidades de Jesus Cristo. Reconhecemos que em nossas paróquias Jesus Cristo nos convida à mesa do Pai e sabemos que Ele não exclui ninguém que queira segui-lo. Pela presente, manifestamos expressamente a nossa recíproca hospitalidade”. Espero que haja muitas paróquias na Alemanha que façam o mesmo. Caso os de cima não queiram, em nível paroquial podemos dar por superada e finalizada essa cisão.

RC: Como você imagina essa Igreja construída de baixo para cima? Quais seriam seus fundamentos institucionais? Não haveria um risco de caos, de que a Igreja se dividisse ainda mais em múltiplas direções?
HK: O que acabo de ouvir de Bruchsal é justamente o contrário de uma cisão. Aproxima as paróquias. E na época do Concílio desfrutamos de grande unidade na Igreja. A divisão atual vem de cima porque se tentou invalidar o Concílio, porque alguns estão convencidos de que é preciso reintroduzir a missa em latim. Diante destes fatos é preciso protestar. É possível oferecer resistência como no caso das coroinhas. Os crentes disseram simplesmente: queremos que haja coroinhas e pronto. Agora, os de cima procuram estabelecer que, ao menos nas missas em latim, não haja mulheres. Necessitamos que haja uma resistência ativa, pelo contrário a Igreja vai a pique. Estamos em uma situação desesperada, perdemos praticamente toda a geração jovem. Esta é a diferença com relação aos países árabes onde centenas de milhares de pessoas saem às ruas. Há hoje 100.000 que saem às ruas para pedir reformas na Igreja católica? Continuamente me encontro com pais que dizem: “Você sabe, me dá tanta pena que, sendo católicos convencidos, depois de ter tido sempre um bom ambiente familiar em casa, não consigamos que nossos filhos participem da Igreja”.

RC: Falou de desobediência civil. Pode concretizar isso? O que fazem os padres nas paróquias?
HK: Os párocos, em sua maioria, praticam uma desobediência discreta. Se um pai evangélico se aproxima para receber a comunhão, não lhe perguntam se é evangélico, assim como se chegou a fazer nas jornadas de jovens de Colónia. Também não anunciam, assim como se volta a exigir que, em conformidade com o Papa, só determinadas pessoas possam participar da eucaristia. Os párocos, os bons párocos, prescindem dessas normas e se viram bastante bem. Embora eu seja a favor de que houvesse mais párocos como os de Bruchsal que trouxeram à luz sua resistência, de forma que as pessoas se deem conta de que avançamos.

RC: A Igreja católica é capaz de iniciar ela mesma a reforma a partir de dentro?
HK: Bom, conheço o sistema a partir de dentro e luto para que as reformas sejam feitas. Sei que tenho milhões de pessoas do meu lado. Neste sentido é questão de tempo. Simplesmente não podemos avançar baseando-nos em um senhor absoluto que prescreve o que deve ser feito na cama (palavra chave: a pílula...) e que estabelece todas as normas desde seu limitado campo de visão. Creio que a política papal demonstrou já ser um fiasco e não nos deveria corromper mais. A única pergunta que também se fez no partido da União Soviética, o partido comunista, é esta: há algum Gorbachov que possa nos tirar desta choça?

RC: Quer isto dizer que seria favorável a algo como uma Perestroika na Igreja?
HK: Isso requer uma personalidade muito carismática. Reclamo uma Glasnost e uma Perestroika, especialmente para as finanças da Igreja. Gostaria de saber como realmente se pagam as coisas em Roma, quem parte o bacalhau.

RC: Esse seria outro assunto. A Perestroika seria para você...
HK: ... a independência.

RC: Veremos se suas ideias e sua visão da Perestroika caem em solo fértil e o que vai acontecer nos próximos 20 anos dentro da Igreja católica. Uma vez lido o seu livro, me inclinaria por um certo ceticismo e pessimismo. Não obstante, se encontra entre as coisas boas, penso.
HK: Só posso apelar e esperar que haja suficiente gente que se ponha em pé e, por fim, se rebele.

INSTITUTO HUMANITAS UNISINOS
Para ler mais:

«NIHIL OBSTAT» - O REGRESSO AO PASSADO DO CATOLICISMO


Cerco a Pagola


J A PAGOLA


Ya había dado por finalizadas estas reflexiones hasta después del verano, pero la dirección del periódico me pide que escriba una semana más, informando de paso a los lectores sobre la suspensión, no vayan a enredarse haciendo conjeturas (por asociación). El motivo no es otro que la carga de tareas con que llega el verano. Interrumpiré, pues, estas reflexiones hasta el otoño, cuando las golondrinas se hayan ido sin necesidad alguna de “nihil obstat”.
El “nihil obstat” es una pobre hechura humana, por mucho que se la quiera revestir de autoridad divina. Para poder publicar un libro, el autor o la editorial religiosa debía primero obtener de su obispo el “nihil obstat” –en latín: “no hay nada que oponer”–, garantizando que la obra no contenía nada contrario a la doctrina o la moral de la Iglesia. Estas cosas, como otras, habían ido cayendo en desuso después del Vaticano II, pero vuelven con fuerza, y no precisamente como vuelven las golondrinas, a vivir volando, sino como vuelven las penas, a veces hasta asfixiarle a uno. 

Hace unos días supimos que la Comisión de la Doctrina de la Conferencia Episcopal Española había obligado –al fin y al cabo se trata de eso, lo cuenten como lo cuenten– al obispo de Getafe a negar el “nihil obstat” a un nuevo libro de José Antonio Pagola: “El camino abierto por Jesús. Marcos” (la editorial encargada de la publicación está ubicada en Getafe). Vuelven las penas y censuras, y es muy triste que vengan precisamente de quienes dicen representar a la Iglesia llamada a aliviar angustias penas y abrir caminos, como hizo Jesús: “Venid a mí, todos los que andáis cansados y agobiados, y yo os aliviaré”.
No han hablado así, tampoco esta vez, los obispos de la Comisión. Tampoco esta vez han representado a Jesús. En realidad, tampoco han representado a la Iglesia, pues nadie les ha elegido para hacerlo. Arrogándose un poder contrario al Evangelio, vuelven a ensañarse con Pagola, quién sabe por qué oscuros motivos. El más oscuro sería ese pernicioso afán de poseer la verdad, esa destructiva codicia de poder, esa terrible incapacidad de tolerar la diferencia, esa aversión a la libertad, esa falta de compasión, más terrible en unos hombres que se dicen religiosos, más triste y terrible si cabe en unos hombres que se dicen seguidores e incluso representantes de Jesús, lo sean o no. 


Los motivos que aducen –de acuerdo al documento filtrado a la prensa– son auténticas sinrazones, o así me lo parecen. Por ejemplo, denuncian en el teólogo guipuzcoano el “riesgo de deslizarse hacia planteamientos propios del pluralismo religioso”, como si el pluralismo religioso fuese un riesgo, no una gracia. O le imputan la “relativización de fórmulas dogmáticas en razón de la praxis”, como si las fórmulas dogmáticas no fuesen precisamente eso: relativas a la praxis, como lo fueron en su origen, y como ha enseñado siempre la mejor teología: que la fe no se refiere a la creencia o la fórmula (Santo Tomás de Aquino), que los dogmas nacen de la vida y deben llegar a la vida, y que solo en esa medida valen de algo. Si no, no valen de nada


J A PAGOLA


Y le acusan de callar sobre “verdades de fe como la existencia del demonio”… Ya es exceso de celo dogmático o de fanatismo acusarle a alguien de callar algunos dogmas, por verdaderos que fueran. Pero acusarle de silenciar simplemente –sin afirmar ni negar– la existencia del demonio, eso ya pertenece al esperpento en unos hombres que, cuando les duele la cabeza, toman aspirinas en vez de recurrir a exorcismos o conjuros. Supongo.

Censuran también a Pagola de la manera más virulenta por afirmar que la Iglesia discrimina a la mujer, y preguntan escandalizados: “¿Pretende decir que se debe admitir a las mujeres al sacerdocio ministerial oponiéndose así a una enseñanza infalible?”. Huelgan comentarios. Pero han de saber los obispos censores de la Comisión doctrinal que ningún papa ha enseñado nunca la prohibición del sacerdocio ministerial de las mujeres como “doctrina infalible”. Juan Pablo II estuvo a punto de hacerlo, pero no lo hizo, y se dijo entonces que fue el cardenal Ratzinger, Prefecto de la Sagrada Congregación para la Doctrina de la Fe y hoy papa, quien le disuadió. La praxis y la enseñanza de Jesús, el Nuevo Testamento y la historia de la Iglesia, además del sentido común, dan testimonio unánime contra esa enseñanza, y no hay que darle más vueltas.

Pero hay más. La Comisión de la Doctrina acusa a Pagola por afirmar que “la primera tarea de la Iglesia no es celebrar culto, elaborar teología, predicar moral, sino curar, liberar el mal, sacar del abatimiento, sanear la vida, ayudar a vivir de una manera saludable”, y consideran esa afirmación como incompatible con la fe católica. ¿Piensan entonces que hay algo más importante para la fe católica que curar, liberar y sacar del abatimiento? Si fuera así, deberíamos renegar de la fe católica por fidelidad a Dios y a Jesús. Pero no: el cultivo y el cuidado de la vida es lo más sacrosanto de la fe católica, por mucho que algunos obispos nos quieran enseñar lo contrario. Estos obispos, en su afán inquisidor, podrían llegar a condenar incluso a Joseph Ratzinger que en 1969, cuando aún no era cardenal ni papa, en su libro “El nuevo pueblo de Dios” escribió: “el culto divino más auténtico de la cristiandad es la caridad”. 

Señores obispos de la Comisión Doctrinal, quédense con la doctrina, pero devuélvannos el Evangelio, por amor de Dios y de todas las criaturas. ¿Les importa a Uds. el amor de Dios? ¿Les importa el Evangelio de Jesús? ¿Les importa la pobre gente? ¿Les importa el pobre Pagola, un hombre mayor y vulnerable que lo ha dado todo por la gente y por la Iglesia?


Y Ud., hermano José Ignacio Munilla, no eluda sus responsabilidades, como hizo hace poco en su evasiva respuesta al escrito de 2.700 cristianos de su diócesis en apoyo a Pagola. No basta con decir que fue Mons. Uriarte quien llevó el caso a Roma a propósito del libro sobre Jesús. El problema no está en Roma, como Ud. bien sabe, sino en la Conferencia Episcopal Española, que intervino por encima del “nihil obstat” dado al libro por Mons. Uriarte. Díganos por qué, pues Ud. lo sabe. Como sujeto activo que es en todo este asunto, asuma su responsabilidad por decoro, por justicia, por Evangelio. Y haga cuanto esté en su mano por reparar el daño, por librar a Pagola de esa lenta tortura, por sacarle de ese cerco cruel en que Uds. le han metido.


J A PAGOLA


Querido José Antonio: sé que no soy para ti el mejor abogado, pero permíteme unas palabras desde el fondo del alma. Hay tiempo de callar y tiempo de hablar. Tiempo de someterse y tiempo de rebelarse. Solo tú sabes cuál es tu tiempo, y lo que hagas estará bien, y te seguiremos admirando. Pero déjame que te diga de corazón: No pierdas tu tiempo y energías en responder a tus censores. No entres en su terreno y su juego. No te empeñes en demostrar que tu cristología es ortodoxa, pues ellos son los señores de la ortodoxia, y siempre tendrás todas las de perder. Lo suyo es la doctrina. La doctrina es suya. No se la arrebates, no sea que se queden sin nada. Todos necesitamos algún asidero. Y diles claramente: “Vuestra ortodoxia no me interesa; quedáosla. Yo me quedo con el evangelio, que es también vuestro evangelio. Seréis, si tanto os va en ello, los señores de la ortodoxia, pero no sois los dueños del Evangelio, los dueños de la libertad y del consuelo”.
Amiga, amigo: que en estos meses de verano respires en la anchura y en la paz de Dios. Algún libro de Pagola te podría ayudar. 


José Arregi

08:VII:2011

4 de agosto de 2011

BENTO XVI - TEOLOGIA ANTIGA, LATINA & MEDIEVAL 1/2

PARADIGMAS DO PAPA ACTUAL
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Joseph Ratzinger, no que a ele diz respeito, sempre negou, sempre se defendeu veementemente do reparo que lhe fazem os seus críticos, de ser um “cata-vento”, acentuando, na sua autobiografia, com força, a continuidade da sua trajectória. E eu creio que isso é, em boa parte, verdadeiro. De algum modo, deve-se dizer que o professor, tal como abandonou Tubinga em 1969, rumo a Ratisbona, do mesmo modo chegou a Ratisbona, em 2006, para dar uma ‘lição magistral’.

«Realmente, em casa», é como Joseph Ratzinger se sente desde os começos até hoje – a viagem de Bento XVI à Baviera, em 2006, provou-o a todo o mundo – “em casa”, no catolicismo tradicional bávaro, «que, de facto, está profundamente enastrado com a cultura existencial e a história desta terra». [’La sal de la tierra’, Palabra, Madrid, 2007]

Via-se e vê-se a si mesmo como um teólogo da tradição, que, no essencial, persevera dentro dos limites teológicos definidos por Santo Agostinho e São Boaventura. Para ele, a «Igreja antiga» ou a «Igreja dos Padres» [dos ‘Pais da Igreja’] é a medida de todas as coisas.

A Igreja Antiga – a medida de todas as coisas –, tal como ele a entende. Mas não Jesus de Nazaré, pois não O vê como o viram os discípulos e as primeiras comunidades cristãs, mas como O definiram, dogmaticamente, os Concílios helenísticos dos séculos IV e V, os quais, de facto, mais do que unir, dividiram o cristianismo. O Jesus da história e o pouco dogmático judeo-cristianismo dos começos, não lhe interessam. Daí que mostre pouca compreensão pelo islão, que está marcado por esse mesmo ambiente. E tão pouco se sente interessado pela plural estrutura carismática das comunidades paulinas, pela diversidade de possibilidades de um «seguimento dos apóstolos», dos «profetas» ou dos «mestres». [Efésios 4:11] Não é a Igreja do Novo Testamento que lhe interessa, mas a ‘Igreja dos Pais’ (naturalmente, sem mães).

Para Ratzinger, a Igreja Antiga é a Igreja dos ‘Padres da Igreja’, mas se olharmos com atenção veremos que não se trata tanto da Igreja dos Padres gregos, mas a Igreja dos Padres latinos. Menos lhe interessa a Igreja anterior ao concílio de Niceia (ano 325), que subordinava a Jesus, enquanto Filho, o Deus único e Pai (o que viria a ser condenado como heresia sob a designação de «subordinacionismo»), e que igualmente ignorava um «pecado original» associado à sexualidade. Ratzinger não entende a relação entre Pai, Filho e Espírito Santo a partir dum Deus e Pai uno, o que é próprio dos Padres gregos (por essa razão, nas Igrejas ortodoxas, a introdução do termo «filioquee do Filho» é, até, hoje, considerada herética). Ele prefere seguir o latino Santo Agostinho, nada valorizado pelos gregos, que, de forma pouca bíblica, parte da «natureza» divina comum às três «pessoas». Além do mais, Santo Agostinho é o responsável pela doutrina ocidental do pecado original e o que aparelha os alicerces teológicos da Idade Média da Igreja católico-romana.

Isto tudo confirma que Joseph Ratzinger é, desde os começos – e ainda hoje, como Papa, o continua a ser – um teólogo do paradigma católico latino-romano do cristianismo, o qual, apesar de se encontrar em muitos aspectos em contradição com o paradigma helenístico-veteroeclesial, atingiu seu cume cimeiro nos primeiros séculos do segundo milénio sob a vigência dos Papas romanos (…). Nos anos de Tubinga, Ratzinger leva, seguramente, a sério a causa principal da persistente divisão entre a Igreja grega do Oriente e a Igreja latina do Ocidente. Concretamente, reconhece a pretensão absolutista dos Papas da Reforma Gregoriana no século XI. Aprecia citar o papa Gregório Magno, que recusou com veemência o «orgulhoso título de Papa universal», o qual, à custa dos restantes bispos, «atribui o universal» ao Bispo de Roma. A este propósito, escreve Ratzinger: «Não deveria entrar imediatamente, e num totalmente outro estado, o diálogo com a Igreja do Oriente, se este texto… fosse considerado de novo em toda a sua seriedade e o modelo de convivência mútua se determinasse a partir dele?» [‘El nuevo pueblo de Dios: esquemas para una eclesiología’, Herder, Barcelona, 1972]





No seu derradeiro curso de eclesiologia, em Tubinga, Ratzinger defende, inclusivamente, que as Igrejas do Oriente poderiam ficar obrigadas apenas pelos concílios nos quais tivessem participado. Mais: não teriam que reconhecer o primado pontifício para lá da forma que este possuía no primeiro milénio, ou seja, desprovido do absolutismo romano do século XI, causa da divisão entre a Igreja do Oriente e a do Ocidente. Precisamente neste sentido, em 1982, afirma publicamente por escrito: «No que diz respeito à doutrina do primado, Roma não deve exigir do Oriente mais do que aquilo que se formulou e praticou no primeiro milénio». [Teoria de los princípios teológicos: materiales para una teologia fundamental, Herder, Barcelona, 1986] Ah! se ele o tivesse dito ao patriarca ecuménico Bartolomeu I durante a sua visita a Istambul, em 2006! Bem pelo contrário, volta a defender, de forma amavelmente dissimulada – obviamente, sem êxito algum – o ideal medieval de uma Igreja papal que, pelo menos intelectualmente, domina o mundo à custa do seu monopólio da verdade, o qual, à luz do Vaticano I, implica o submetimento do cristianismo oriental ao primado da potestade do Papa e ao seu magistério infalível (sempre rejeitados pelo patriarca ecuménico Bartolomeu I). Ratzinger podia ter evoluído, mas não quis. Porquê?

Hans Küng

[‘Verdad Controvertida - Memorias’, Hans Küng, Ed. Trotta, 2009, p 187-189]

BENTO XVI - TEOLOGIA ANTIGA, LATINA & MEDIEVAL

PARADIGMAS DO PAPA ACTUAL
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O que aconteceu a seguir à Idade Média interessa, a Joseph Ratzinger, não por se tratar de uma evolução frutuosa, mas enquanto período nocivo de um desenvolvimento erróneo e como etapa do declínio do Ocidente. Para ele, a Reforma protestante é o começo do distanciamento face ao «cristianismo dos Padres» [da Igreja]. Na lição Magistral de Ratisbona, em 2006, caracteriza-o de forma negativa, ainda que elegantemente, como «des-helenização», quando, em realidade, representa uma reforma da Igreja Papal medieval e decadente através dum regresso ao Evangelho.

E, o que é especialmente paradigmático da sua visão do mundo, face à Modernidade, à filosofia moderna, à concepção secular da sociedade e do Estado adopta um espírito polemizante. A seu ver, há apenas uma «ilustração» verdadeiramente aceitável: a da Grécia clássica. Aceita a apresentação da mensagem procedente do espaço semítico sob ou com uma roupagem grega como se de uma providência divina se tratasse, de modo que deixa de ser necessário ou legítimo qualquer outro tipo de roupagem ou apresentação exterior. A seu ver, a Ilustração secular dos séculos XVII e XVIII, fruto em parte de uma Igreja que se havia deixado amarrar, é inaceitável. Naquela Lição Magistral de Ratisbona, em que declara o «helenismo» norma de todo o autêntico cristão, a Ilustração é desqualificada do modo o mais claro possível com o uso da expressão «des-helenização». Para ele, mesmo já durante a sua actividade como Papa, no essencial, a Modernidade significa – após o suposto distanciamento, face à Igreja, propiciado pela Reforma – distanciamento face a Cristo, logo face a Deus e, por último, face ao ser humano, como lhe parecem ser demonstrativas as catástrofes da Idade Moderna, que este teólogo da Igreja Antiga contempla com estupefacção.

Igualmente horrorizado deve ter contemplado – como consequência, digamos, deste desenvolvimento – o que se passou em Tubinga durante as revoltas estudantis de 1968, as quais só corroboraram, a seu ver, a sua visão pessimista do mundo.

É aí que experimenta «pela primeira vez, por assim dizer, uma mudança radical na vida estatal e eclesial, a revolta estudantil e as suas ressonâncias intra-eclesiais», como ele mesmo escreve, à mão, em Fevereiro de 1977, no Livro de Honra da Faculdade de Ratisbona (pode consultar-se, pela Internet, a documentação oficial da dita faculdade de teologia católica).

Não!
Nesse sentido, Joseph Ratzinger não mudou. Nenhuma injustiça se lhe faz ao afirmar-se: ‘simplesmente, deixou-se ficar ancorado’! Quis ficar ancorado: na Igreja e na teologia latinas, antigas e medievais, tal como ele as conhecera e aprendera a amar nos seus estudos sobre S. Agostinho e São Boaventura, tal como aquando da sua ascensão pelo poder hierárquico acima.




O teólogo Joseph Ratzinger pouco contribuiu para a evolução da teologia, nem sequer com o seu livro sobre Jesus. Também não era essa a sua pretensão. Nessa medida, ele tem razão quando afirma que quem mudou não foi ele, mas eu. De facto, eu não queria deixar-me amarrar, mas avançar.

Hans Küng


[‘Verdad Controvertida - Memorias’, Hans Küng, Ed. Trotta, 2009, p 189-190]



JMJ - A «fé eufórica»: ratoeira com pele de 'pneuma'...


Vide JORNADAS MUNDIAIS DA JUVENTUDE, Madrid 2011


 A exploração da «figura mitológica»: uma espécie de Zeus desce do céu (avião) e aproxima-se dos humanos (João Paulo II beijava o solo…).

A aceitação da «figura de Estado» - recebido em 1º lugar pelos Grandes das Nações.

A conivência com a expressão «Papa do pensamento» - todo o mundo e toda a Igreja são incapazes de pensar… Toda a gente é burra! Só o Papa pensa!

A marginalização dos outros Bispos: figuras colaterais.

A pobreza de ideias e de conteúdos dos discursos de Bento XVI em contraste com o rigor do traje exigido a todas as freiras e todos os padres.

O regresso aos velhos ritos: a retoma da comunhão de joelhos e na boca, a confissão individual auricular, a exposição pública da Hóstia, a Via-Sacra nas grandes avenidas, a exploração morbidó-fetiche do símbolo da Cruz como objecto sagrado e fundamentalista, etc.





A escolha duma «espiritualidade afásica, de extremos»: ‘intimista’ & ‘eufórica’.

Regresso a Trento e a Vaticano I: 'Rezar por' em vez de 'Rezar com'...


O uso das técnicas de psicologia de massas em ordem a criar uma imagem de triunfalismo, em chave de ‘enfrentamento’ («estamos aqui para que vejam que são muitos os que crêem em Cristo»).

O uso do espaço politico-militar para reunir os cristãos e aí falar da paz e do amor.


JMJ - «envio em missão» & restauracionismo...


O não acolhimento dos que não são cristãos - «função sacerdotal», «sagrada» -, mas a paradoxal conivência com a expressão «somos a juventude do Papa» (para a fama dos deuses gregos também era importante o número de filhos que geravam no género humano…).

A insistência no celibato e na não ordenação de mulheres: (1) algo «inevitávil», «escândalo com seu lado positivo»; (2) uma «vontade do Senhor em relação a nós, à qual nos mantemos fiéis», «há em Roma, por exemplo, uma Igreja na qual não aparece nenhum homem em todas as pinturas do altar».

A insistência na ‘condenação do mundo’: «amnésia de Deus», mundo do «pragmatismo», «desagregação gradual do ocidente» etc.


JMJ - a ambivalência dos símbolos...

1 de agosto de 2011

POEMA SOBRE MORTE & RESSURREIÇÃO




Porque declinas
e no âmago te escondes,

ânfora de fogo
mundo emudecido
lugar da luz abrindo

vasta manhã dos começos…

Não temos aqui senão cinco pães e dois peixes...», Mt 14:17]

JESUS É DEUS TRANSCENDENTE?

«Deus, Cristo e os Pobres.
Libertação e salvação na fé à luz da Bíblia»


A «religião ao poder»... O regresso do poder do religioso-não-bíblico.


Como se pode perceber ao longo deste livro, o conflito na Teologia da Libertação baseia-se num pressuposto fundamental que ambas as partes reconhecem, mas do qual tiram conclusões contrárias. Se o um e o mesmo Jesus Cristo é verdadeiramente ser humano e verdadeiramente Deus, há duas possibilidades. Ou ele é visto prioritariamente como o Deus que permaneceu transcendente e que salva (Clodovis Boff), ou ele é visto como aquele ser humano em que Deus se tornou o irmão de todos, especialmente dos pobres, passou a ser igual a eles e assim os salvou (os teólogos da libertação criticados por Clodovis Boff). Wess, Paul: DEUS, Cristo e os Pobres. Libertação e Salvação na Fé à Luz da Bíblia. Apresentação: João Batista Libanio. Tradução do alemão: Monika Ottermann. São Bernardo do Campo: Nhanduti Editora, 2011. www.nhanduti.com. 23x16 cm, 208p. ISBN 978-85-60990-12-2.


Segundo uma certa doutrina tradicional, mas não bíblica, Deus tornou-se ser humano para que o ser humano se tornasse Deus. Isso impossibilita explicar a transcendência de Deus e a importância que a fé nesse Deus-maior possui para a esperança na salvação e para a moldagem de uma prática social libertadora.

A teologia pode ser substituída por uma antropologia "platonizante" idealista, na qual Deus ainda é sinônimo para o futuro do ser humano, mas já não é o fundamento maior permanente e o Senhor dele. Por isso, em sua crítica a essa "viragem antropológica" na teologia moderna (C. Boff 2007, 1009), Clodovis Boff percebe algo que é correcto, mas não vai suficientemente longe. Ele assume os mesmos pressupostos dogmáticos em vez de questioná-los e corrigi-los numa releitura da cristologia bíblica. É sintomático que ele se refira somente a uma "transcendência da fé" ou mais generalizadamente à "transcendência" que é a "parte menor e menos relevante" na Teologia da Libertação (ibidem, 1005), mas não da transcendência de Deus acima da criação e dos seres humanos.

O Deus transcendente e o ser humano a ser salvo não podem se tornar iguais, nem mesmo por graça. Isto se aplica também a Jesus Cristo. Por isso, Jon Sobrino enveredou em sua cristologia e soteriologia pelo caminho certo, na medida em que rejeitou a transferência de atributos divinos ao ser humano Jesus Cristo. Ele permaneceu contraditório, porém, na medida em que supôs, ao lado desse Cristo humano, um Cristo divino, segundo o dogma de Niceia (cf. Cap. 5). Uma reorientação do pensamento nesse ponto permitiria também uma melhor consideração das possibilidades humanas limitadas e da inevitabilidade do sofrimento numa criação que é limitada e ainda está passando pelas dores do parto.

Um regresso à visão bíblica da transcendência inabolível de Deus também acima de Jesus Cristo, bem como da salvação através da reconciliação com a finitude da existência a caminho da plenificação esperada de Deus poderia provavelmente ajudar a solucionar a "contenda entre irmãos" na Teologia da Libertação. Além disso, seria um grande desafio para o magistério que também precisaria mudar seu pensamento nessas questões. Esse regresso à fé bíblica e à sua releitura seria pelo bem da teologia e da igreja, e assim também e principalmente pelo bem das pessoas pobres. A libertação delas é a preocupa­ção compartilhada por ambas as partes do conflito e oxalá as unirá em breve.

Afinal, a opção pelos pobres não é apenas o tema de uma "teologia de segunda ordem", separada como um campo parcial secundário ou uma mera aplicação de uma "teologia de primeira ordem" que iniciaria com Deus e a partir da qual todo o resto poderia ser deduzido. Esta é a posição de Clodovis Boff criticada por Weckel e Aquino Júnior (Weckel, 13-16; Aquino Júnior, 82-104).

Deus é e permanece transcendente para o ser humano - também para Jesus Cristo - e nesse sentido precisa ser o "tema" mais importante dentro da teologia que é uma. Por isso, podemos falar dele somente quando partimos do ser humano e interpretamos, retroactivamente e no modo de busca, nossas experiências em relação a Deus como o fundamento de nossa existência. Se passarmos ao largo dos seres humanos concretos e da história da salvação, não teremos acesso a Deus.

Emprestando as palavras de Aquino Júnior: "O Deus bíblico revela-se como Deus dos pobres e dos oprimidos (embora ele seja mais do que isto)" (Aquino Júnior, 99s). Por isso não existe, no sentido bíblico-cristão, uma "teologia de primeira ordem" ou uma "teologia da fé" (cf. C. Boff 2007, 1006) antes ou acima da Teologia da Libertação como uma "teologia de segunda ordem" que tratasse dos seres humanos e preferencialmente dos pobres. Existe apenas uma única teologia, e esta sabe da transcendência de Deus e, por isso, parte do modo histórico-concreto das experiências humanas, especialmente daquelas que se tornaram possíveis graças à vida e obra de Jesus e que devem ser testemunhadas numa prática adequada - numa prática libertadora.



[in Wess, Paul: DEUS, Cristo e os Pobres. Libertação e Salvação na Fé à Luz da Bíblia. Apresentação: João Batista Libanio. Tradução do alemão: Monika Ottermann. São Bernardo do Campo: Nhanduti Editora, 2011. http://www.nhanduti.com/, p. 196-198].