teologia para leigos

6 de julho de 2011

SANGRAR, SANGRAR, SANGRAR... E PRIVATIZAR

A «Doutrina do Choque»
[vídeo]

A corrente selvagem do Capitalismo puro
O princípio do ‘Conto de Fadas’






Desregular & Privatizar:
- o saque sistemático da ‘esfera pública’






nunca a História foi uma fotocópia tão igual ao original

5 de julho de 2011

NEOLIBERALISMO POR CATÁLOGO

CATÁLOGOS




O programa do governo é um conjunto de quatro catálogos.

1.   O primeiro catálogo é para a maioria da população e promete viagens, em turística, com um único destino: a Grécia do círculo vicioso de austeridade, recessão, desemprego, nova ronda austeridade, até ao estoiro final.

2.   O segundo catálogo é para grupos económicos, sobretudo estrangeiros, em busca de rendas e promete vender, com desconto, activos estratégicos do Estado, com excepção de uma CGD diminuída.

3.   O terceiro catálogo promete dar um novo impulso ao inventivo e gradual processo de fragilização, em parceria com privados, dos serviços que constituem o núcleo central do Estado social: centros de saúde à venda, contratos de associação nas escolas, concessões, fornecimento de mão-de-obra grátis para o assistencialismo. Na segurança social pública serão feitos todos os investimentos intelectuais e políticos para a reduzir a um programa assistencial.

Haja imaginação neste parque de diversões que fará as delícias de grupos financeiros bem graúdos e de algumas instituições de caridade miúdas.

4.   O último catálogo promete criar todas as condições para que os trabalhadores vendam a sua força de trabalho por um salário directo e indirecto mais baixo e com condições de trabalho menos seguras: precariedade renovada, trabalho temporário incentivado, despedimento mais fácil e barato, horários cada vez mais baralhados. É um catálogo para patrões medíocres.

Quatro catálogos que compõem um país socialmente ainda mais injusto e uma economia ainda menos civilizada. O que fazer? Dar uma olhadela aos quatro catálogos, perceber a sua lógica global, e deitá-los fora. Na reciclagem, não se esqueçam.

João Rodrigues

blog, Ladrões de Bicicletas, 29:VI:2011

2 de julho de 2011

AUTORIDADE E IGREJA - QUEM É QUEM

Edificação da Igreja:
pedra fundamental e pedras de tropeço



Igreja da Stª Trindade - Fátima


O texto de Mateus 16,18 - "Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha igreja” - foi tirado de seu contexto para justificar uma teologia ainda não existente à época de Jesus. Não só o termo igreja foi erroneamente interpretado, como também o jogo de palavras petros e petra não costuma ser correctamente considerado. Busquemos ler o texto no seu contexto para que também não sejamos "pedra de tropeço" (Mt 16,23)


1. Sobre o sentido da palavra "Igreja" 


O termo igreja vem do grego ekklesía que, literalmente, significa assembléia. É derivado da junção entre a preposição ek (de, fora de) e o verbo kaléo (chamar, convocar). Já na tradução grega do Antigo Testamento (a chamada versão dos LXX), é usado para traduzir o hebraico kahal. Lemos, por exemplo, no Salmo 22,26: "De ti vem o meu louvor na grande assembléia; cumprirei os meus votos na presença dos que o temem". O sentido original do termo, entretanto, não é estritamente religioso e, sim, político. A ekklesía era a assembléia dos cidadãos, reunida para definir os rumos da pólis, da cidade grega. Logo, ao participar da ekklesía, os cidadãos estavam fazendo política (cuidando da pólis). Antigos escritores gregos como Heródoto, Xenofontes e o próprio Platão fazem uso do termo, bastante comum em Atenas, onde os líderes políticos (cidadãos) se reuniam em ekklesía diversas vezes ao ano.
É muito interessante que a comunidade cristã tenha escolhido esse termo para falar do projeto do Reino: foi para viver uma nova ekklesía que Jesus chamou seus discípulos e suas discípulas. De alguma forma, nem a sinagoga judaica nem a ekklesía grega eram suficientes para expressar a novidade proposta pelo movimento de Jesus. Um conteúdo novo, no entanto, deveria ser acrescentado ao termo ekklesía, que, por ser bastante conhecido no mundo político. 


2. Minha igreja é a única fundada por Jesus Cristo?


Quando restringimos o uso do termo igreja a uma instituição religiosa, por mais que isso soe comum aos nossos ouvidos, estamos empobrecendo o seu sentido. Pior ainda quando queremos aplicá-lo somente a uma das ramificações do Cristianismo, seja ela qual for. Infelizmente, é bastante comum nos dias de hoje nos depararmos com as mais variadas confissões cristãs, afirmando serem cada uma delas igreja verdadeira. Por mais que nos esforcemos por entender a conjuntura e a carga histórica por trás dessas afirmações, não deixa de ser ruim para o reconhecimento da riqueza da pluralidade na construção da unidade. Também continua sendo desagradável escutarmos frases como "minha igreja é a única fundada por Jesus Cristo". Além de ser empecilho para o diálogo, a afirmação é, acima de tudo, um erro histórico, até porque, mesmo após a morte de Jesus, os primeiros grupos de seguidores e seguidoras continuaram frequentando o Templo [de Jerusálem], sede da religião judaica (Lc 24,53; At 2,46; 3,1). Ou seja, se Jesus tivesse fundado uma outra instituição religiosa, porquê seus seguidores teriam continuado a frequentar o Templo judaico?
O surgimento de uma religião diferente, ainda que herdeira do Judaísmo, ocorreu de forma gradativa a partir dos anos 40 (At 11,25-26), consolidando-se com a ruptura entre o Judaísmo farisaico e o judeu-cristianismo, depois dos anos 80, quando o templo de Jerusalém já havia sido destruído. Bem sabemos que a Igreja, enquanto projeto de vida e proposta de vivência fraterna, foi fundada por Jesus, sob a ação do Espírito Santo (At 2,1-12). Mas apenas podemos falar em nascimento de igrejas, enquanto instituições separadas do Judaísmo a partir da primeira geração de discípulas e discípulos de Jesus. Por mais que tenham sido utilizadas no decorrer da história, não se justificam teologias que afirmam que apenas uma igreja é verdadeira. O projeto tinha elementos comuns, como a fé no Crucificado/Ressuscitado (1Cor 15,38) e o serviço aos pobres (Gl 2,10), mas as experiências de Cristianismo foram plurais desde o início. 


Como entender, então, a frase "Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha igreja" (Mt 16,18)? Trata-se, infelizmente, de um verso bíblico muito utilizado fora de seu contexto. É preciso observar o jogo de palavras em torno do termo pedra e o papel que a autoridade recebe para depois nos perguntarmos sobre o que poderia significar a edificação da igreja.


3. Pedra fundamental ou pedra de tropeço?


Era comum, na sociedade judaica, as pessoas possuírem dois nomes, muitas vezes um hebraico e outro greco-romano. Além disso, mudar o nome de uma pessoa também significa dar-lhe uma nova função. Encontramos, por exemplo, Abrão - "pai das alturas", tendo seu nome mudado para Abraão - "pai de povos" (Gn 17,5); Sarai passa a ser Sara, uma outra forma de se dizer princesa (Gn 17,15). José (Deus acrescenta, ou Deus cumula de bens), é também chamado de Barnabé, "filho do consolo" (At 4,36). Saulo (Shaul, em hebraico) prefere ser chamado de Paulo, a variante greco-romana do mesmo nome (At 8,1.3; 9,4; 13,9; Rm 1,1). E assim por diante. No caso de Pedro, seu nome hebraico é Simão (na raiz, está o verbo shemá, escutar). De acordo com o relato do Evangelho segundo João, Jesus teria lhe acrescentado o nome de Cefas: "Tu és Simão, filho de João; chamar-te-ás Cefas" (Jo 1,42). Em aramaico, Cefas significa pedra. O termo se parece com grego é cefalé, cabeça (daí, por exemplo, cefaléia, em português).


No texto de Mateus 16, Simão é chamado de Petros. O grego petros, na maioria das vezes, significa pedra ou pedregulho, algo que se pode pegar e lançar. Ao passo que petra significa a "rocha onde se assenta o edifício”. O jogo de palavras é notável: "Tu és Pétros e sobre esta petra edificarei a minha igreja". Pedro é a pedrinha, o pedregulho. Mas quem ou o que é, então, a rocha, a pedra fundamental?


É bom recuperar aqui a teologia de Isaías: "Portanto, assim diz o Senhor YHWH: "Eis que eu coloco em Sião uma pedra, pedra já provada, pedra preciosa, angular, de alicerce, bem firmada; quem nela se apoia não será abalado" (Is 28,16). Com base nesta afirmação é que a Primeira Carta de Pedro não hesita em afirmar que Cristo é a pedra: "Desejai, como crianças recém-nascidas, o leite espiritual, não adulterado, para crescerdes sadios, já que provastes como o Senhor é bom. Ele é a pedra viva, rejeitada pelos homens, mas escolhida e estimada por Deus" (1Pd 2,2-4). "A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular" (Sl 118,22), afirma ainda a Carta de Pedro (1Pd 2,7).
É evidente que a pedra é Jesus e seu projecto. É "o Cristo, o Filho do Deus vivo", fundamento a que Pedro havia se referido dois versículos antes (Mt 16,16). Pois, como Paulo, Pedro entendia que Jesus é o único fundamento da Igreja (1Cor 3,11). Mais adiante, no mesmo Evangelho segundo Mateus, o próprio Jesus faz uso do Salmo 118, quando debate com os chefes dos sacerdotes e os líderes do povo. Depois de contar a parábola dos vinhateiros homicidas, que matam o filho do proprietário da vinha, pergunta: "Nunca lestes nas Escrituras: A pedra que os construtores rejeitaram, tornou-se a pedra angular?" (Mt 21,42). Ou seja, o próprio Jesus, na descoberta da missão que o Pai lhe concedeu, tem consciência de que é ele a pedra principal.


E a nós, membros da comunidade, nos mais variados níveis de autoridade que exercemos, permanece o convite para sermos também pedras vivas desta construção colectiva. 


O livro de Isaías também já havia alertado: quem não se mantém fiel ao projeto de Deus, torna-se pedra de tropeço, pedra de escândalo (Is 8,14). Voltemos, então, ao texto de Mateus 16. Não podemos parar a leitura no versículo 20, tendo em vista que o jogo de palavras em torno da imagem da pedra continua nos versos 21-23. O texto vai dizer, a seguir, que a autoridade pode se tornar pedra de tropeço. Jesus faz uma crítica à figura de Pedro: por não pensar as coisas de Deus, mas as coisas dos homens, aquele que pouco antes havia sido chamado de bem-aventurado é, agora, pedra de tropeço (Mt 16,23). O texto grego usa a palavra skândalon, que literalmente significa obstáculo, armadilha, pedra de tropeço.


4. A liderança não deve assumir o lugar da pedra angular


Qual é, afinal, o papel da liderança na igreja? O que significa ligar e desligar? A propósito, é importante lembrar que a mesma autoridade que Pedro recebe em Mateus 16,19, toda a comunidade de discípulos e discípulas também recebe em Mateus 18,18. Qual é, portanto, a nossa missão? Qual é a missão da igreja? Com certeza, não é querer assumir o lugar da pedra fundamental. Não somos a pedra angular, como Pedro também não o foi. 


O autor da Carta aos Efésios também faz questão de explicitar: Cristo Jesus é a pedra angular (Ef 2,20). Cada vez que uma pessoa ou instituição se assume como a rocha, a pedra fundamental, o que ela se torna é pedra de tropeço (skândalon). Somos chamadas e chamados a sermos pedrinhas vivas, para em nossa humildade, colaborarmos na edificação da Igreja.


E se alguém quiser ser pedra de tropeço (skândalon) para quem é pequenino, melhor amarrar uma pedra bem grande no pescoço (a pedra do moinho) e se lançar ao mar (Mt 18,6). Em outras palavras, é melhor deixar a comunidade!


Edmilson Schinelo, 30 de Junho de 2011


EDUARDO GALEANO - CRISE E FUTURO DA ESPERANÇA



 
«Há outro mundo na barriga deste mundo»

VÍDEO: Eduardo Galeano, na Praça da Catalunha







1 de julho de 2011

JESUS DIANTE DA CATÁSTROFE DO SEU TEMPO 1/2

                            Jesus
judeu de um ‘Deus maior’



pedra de calçada - Berlim [memória das vítimas do holocausto]



1.  Jesus e o judaísmo

No Judaísmo, é claro que a redenção supõe uma transformação absoluta da realidade presente. A sua grande objecção em aceitar Jesus como Messias escatológico é que o mundo, com a chegada de Jesus, não mudara nada (…). Para os judeus, a chegada da era da redenção traria consigo o estabelecimento da justiça e o desaparecimento de todos os males. (…) A «salvação das almas» não chega para que se fale de um mundo redimido. O judaísmo não aceita confinar a redenção às almas ou aos indivíduos, vistos isoladamente. O Judaísmo exige uma mudança na dimensão social e cósmica que, obviamente, não aconteceu com a vinda de Jesus.

Um texto do judeu Gershon Sholem [Judaica I, Frankfurt 1963] explica, assim, esta resistência judaica ao tipo de redenção que muitos teólogos cristãos atribuem a Jesus:

«O conceito de redenção que caracteriza a atitude do messianismo é completamente distinto no judaísmo e no cristianismo. (…) O judaísmo sempre se ateve, segundo certas nuances no entanto, a uma noção de redenção que a concebe como um acontecimento que tem lugar no âmbito público, no meio da praça pública da história, e através da comunidade. Em resumo, é algo que surge diante de todos no mundo do visível, sendo impensável caso essa manifestação ou aparição no visível não ocorra.

«Por oposição, temos o cristianismo com uma concepção de redenção como um acontecimento que tem lugar no âmbito espiritual e no âmbito do invisível, que se desenvolve na alma, no mundo de cada indivíduo e que opera uma transformação secreta à qual não corresponde nada de semelhante no plano exterior, no mundo. A Igreja esteve convencida que assim superava uma noção de redenção exterior (‘exteriorista’) vinculada ao material, contrapondo-lhe uma noção nova de dignidade superior. A um judeu, esta concepção sempre lhe pareceu como o oposto a qualquer avanço ou progresso. Trasladar a promessa messiânica da Bíblia para o âmbito da interioridade… surge, ao pensamento judaico, como uma apropriação ilegítima de algo que, no melhor dos casos, é apenas o lado interior de um acontecimento que deve ter lugar no exterior, que deve manifestar-se».

É verdade que em certos meios cristãos, sobretudo, em meios protestantes, entendeu-se a salvação de forma intimista e individual: «Jesus, meu salvador pessoal». Mas o cristianismo é mais judeu do que Scholem possa imaginar. Para Lucas, o fruto da Páscoa é a criação de uma comunidade alternativa na qual se vivam novos valores. O ‘reino’, introduzido por Jesus, tem, já agora, uma dimensão comunitária, visível, na existência da Igreja.

É verdade que o cristianismo protela para uma segunda vinda do Messias aqueles efeitos que os judeus esperam logo na primeira e única chegada conjunta do Messias e da redenção, mas de modo nenhum renuncia a entender que a redenção só chegará ao seu cumprimento quando esteja plenamente estabelecido aquele Reino de Deus que os judeus esperam, e que nós, os cristãos, também esperamos conjuntamente com eles. A matriz judaica do cristianismo resistirá sempre a reduzir a redenção à salvação das almas sem visibilidade alguma intra-terrena e sem nenhum tipo de relevância e manifestação social.

Nós, os cristãos, também continuamos a esperar a chegada do Messias e da era nova da redenção que, todavia, não se manifestou em sua plenitude ainda. A nossa diferença principal, face aos judeus, é que quando chegar essa era nova de redenção nós, os cristãos, já conhecemos o nome e a identidade dessa pessoa que a irá consumar, porque ela já veio uma vez, ao nosso mundo, de forma escondida. Ressuscitado de entre os mortos, vive antecipadamente no eskaton, no qual, também nós, acreditamos vir a ser introduzidos, um dia.

Cristo ressuscitado penetrou já nesse eskaton e, a partir de fora do nosso espaço e tempo, envia o seu Espírito à comunidade redimida visível já neste mundo, para que se vá antecipando o reino e se torne expressão social da nova vida redimida.

As raízes judaicas do cristianismo obrigá-lo-ão a conceber a salvação como uma história que tenda à sua consumação, incluindo, nela, a dimensão social do Povo de Deus portador da aliança, no qual se vá tornando efectivo o Reino de Deus. Essas raízes impedirão qualquer recaída num platonismo que conceba um mundo de almas individuais que tenham que ser resgatadas individualmente da corrupção, e que se recuse a admitir uma história de salvação que se realize de modo visível no mundo através da comunidade, dum povo, povo eleito como ponta de lança dessa transformação social que culminará na nova era.

A existência desta comunidade, que vive essa nova vida, é também a defesa do próprio projecto de Jesus no mundo. Jesus esperou, sem esmorecimento, que Deus viesse defender a sua causa e a sua inocência. Esta defesa ocorreu, não só na fé dos seus seguidores, que depois da sua morte continuaram a acreditar nele ainda mais intensamente, mas também no juízo de Deus sobre os que o condenaram. (…)

A profecia de Jesus [sobre a ruína de Jerusalém] foi tão só a crónica de uma morte anunciada. Os profetas são os que, como Jeremias, sabem ler o sentido da história e alertam quando ainda vamos a tempo. (…)

Jesus fracassou ao tentar convencer o seu povo a acolher este reinado, e esse fracasso trouxe efectivamente um «fim do mundo» [Jesus referiu-se ao desastre de Jerusalém usando, em parte, a linguagem apocalíptica do «fim do mundo»]. É evidente que não se trata de um «fim do mundo» cosmológico, mas apenas do fim do pequeno mundo social e cultural do ‘judaísmo do segundo Templo’. Foi precisamente o fim dramático do «seu» mundo, o que Jesus tentou evitar com a sua pregação. O ‘judaísmo do segundo Templo’ terminou dramaticamente ainda no decurso da geração dos que escutaram a profecia de Jesus. (…)

A partir da própria lógica judaica [tal como fizera antes, aquando da queda da Samaria (722 aC) e da de Jerusalém (587/6 aC)], não seria previsível que Deus enviasse também um Profeta com uma missão similar, precisamente antes da mais tremenda crise por que passou o povo judeu em toda a sua milenar história?

É verdade que o judaísmo ainda sobreviveu a esse fim do mundo do ano 70 dC, como também o havia feito diante da destruição levada a cabo pelos babilónios. Mas o mundo do Templo e seus sacrifícios acabou definitivamente e o judaísmo teve que mudar para sobreviver. O judaísmo rabínico é um judaísmo mutante que acertou com uma fórmula de sobrevivência. O judaísmo reviveu à destruição do segundo Templo tal como os ossos de Ezequiel, mas reviveu em dois moldes distintos: um, no movimento que tem origem na escola rabínica de Yavne, e outro no Israel restaurado na comunidade dos doze apóstolos. Este é o cisma primordial.

O Israel dos Doze Apóstolos abriu-se aos gentios numa comunidade messiânica escatológica; mas, para se converter na casa dos gentios, teve que pagar um altíssimo preço, o de apagar totalmente a sua identidade judaica, ao ponto de hoje ser totalmente irreconhecível como Israel.
O Israel do Rabinismo, por outro lado, optou por manter a todo o custo a sua identidade judaica, mas à custa de frustrar as suas expectativas proféticas de abertura aos gentios e, assim, procrastinar indefinidamente a missão que, em última análise, dava sentido à sua eleição.

Sem dúvida, é providência divina que estas duas maneiras de entender Israel tenham coexistido lado a lado durante vinte séculos. O maior erro que cometeram foi o de pensar que não tinham nada a aprender uma com a outra e que são auto-suficientes. O cristianismo, ao largo da história, tentou aniquilar violentamente o judaísmo, já que se tratava duma testemunha incómoda da fidelidade de Deus às promessas feitas a Israel, povo, étnica e culturalmente, perfeitamente identificável.

Só quando a Igreja e o Judaísmo se virem a si mesmos como as duas partes mutiladas dum projecto global de Deus, é que terá lugar essa «ressurreição dos mortos», à qual se refere Paulo (Rm 11:15).

Reconhecer a matriz judaica com alegria e reconhecimento, sem a querer mutilar ou escamotear, é tarefa da Igreja neste novo milénio. E a maneira mais eficaz de reconhecer esta matriz é fazer o reconhecimento do judaísmo de Jesus, a quem jamais chegaremos a compreender se afastarmos os parâmetros judaicos da sua cultura e do seu século.


JM Moreno
UP Comillas

JESUS DIANTE DA CATÁSTROFE DO SEU TEMPO 2/2


Jesus
judeu de um ‘Deus maior’


Igreja da Stª Trindade - Fátima [porta principal]



2.  O Deus maior


Na hora de terminar, vou fazê-lo pedindo emprestadas as palavras, não de um exegeta, nem de um historiador, mas de um autor espiritual contemporâneo. Uma vez mais me convenço que aquelas pessoas que assimilaram espiritualmente a mensagem de Jesus e que se deixaram modelar por ele são as que possuem uma maior agudeza visual para descobrir os simplicíssimos traços do seu perfil mais característico.

Num pequeno livrinho, Éloi Leclerc descreve a itinerância de Jesus como o traço definidor da sua personalidade, aquele que (…) nos traz a resposta mais relevante às grandes questões do cristianismo de hoje [E. Leclerc, El Dios Mayor, Santander, Sal Terrae 1997].

Nesta obra, Leclerc apresenta Jesus profundamente enraizado na sua cultura e religião judaicas, precisamente, naquilo que foi o húmus nutritivo no qual nasceu, cresceu e fielmente permaneceu durante toda a sua vida. Nada nasce do zero! Os desenraizados não podem crescer! A abertura faz-se sempre a partir de um ponto de partida. Jesus amava profundamente o seu povo e, com ele, partilhava o seu amor ao Deus único, a sua paixão pelo Reino, o seu zelo pela Lei. A sua vida de oração alimentava-se do Saltério. Por isso se manteve fiel à tradição de Israel no que isso tinha de mais particular. O segredo da sua itinerância residia na sua intimidade com o Pai, um Deus que se revela como mistério de «relação».

«Indo aos homens, nesse mesmíssimo movimento ia até ao mais íntimo de si mesmo e também até ao último, ao definitivo: sumia-se na proximidade do Pai que, de luz, preenchia o centro da sua vida. Quanto mais se abeirava dos distantes, tanto mais comungava da proximidade do Pai». [ibidem, p. 70]

Ir aos outros era penetrar no mais profundo do Pai, um Deus sempre maior, maior que a Lei, maior que Israel, maior que o coração do homem, um Deus sem arribas, que não tem outro rosto se não o do «outro».

Jesus nunca se considerou um dissidente, um herege, mas o herdeiro das grandes figuras de Israel e do seu património e esperanças. «A sua consciência filial, a sua experiência única da paternidade de Deus, assim como a sua missão, longe de o afastar do judaísmo situam-no bem no coração da história do seu povo». [ibidem, p.79]

Jesus, fiel à sua missão, desenvolveu-a no sei do judaísmo e sentiu-se chamado pelo povo judeu, em especial pelas ovelhas desgarradas [Mt 15:24]. Mas, ao dirigir-se a esses israelitas marginalizados, aos pequeninos e humilhados, Jesus entrou por uma via não mapeada que lhe deu a conhecer um ‘Deus maior’ que refulge na pessoa do «outro», e que não se deixa enclausurar por culturas, tradições e leis.

Leclerc descreve-nos esse Jesus itinerante como alguém sempre em movimento, sem covis, nem ninhos. Alguém que está de passagem e, ao passar, não se detém, nem se deixa deter [Jo 20:17], porque permanece em viagem «para a outra margem» [Mc 4:35; 5:21; 8:13].

«E todo o bem que fazia era assim que o fazia, “ao passar”. Claro que, ao curar enfermos ou a alimentar a multidão faminta, estava presente, estava muito próximo aos homens e às suas necessidades materiais imediatas. Mas nunca se deixava aprisionar dentro das expectativas do povo. Partia das suas necessidades materiais para os levar mais longe, para suscitar neles outro tipo de fome. As suas acções humanitárias não eram só milagres de bondade e compaixão – eram também sinais». [ibidem, p.68]

Leclerc faz-nos compreender que alguém que esteja sempre de passagem é incómodo e acaba por tornar-se suspeito; pode chegar a ser considerado trânsfuga e traidor. Jesus tinha ido longe de mais, havia saltado fora das marcas e dos trilhos. Empreendera um êxodo segundo um percurso que conduzia àqueles que a sociedade rechaçara [Lc 9:30-31 – A Transfiguração, em que Jesus surge conversando com Moisés e Elias, profetas esquecidos pelo poder religioso]. Nunca os responsáveis oficiais do judaísmo poderiam compreender tal excesso. Viam-no como uma ameaça à sua identidade, às suas tradições, à sua autoridade. «Para eles, a Lei convertera-se numas palas de segurança, convertera-se na sua última e absoluta salvaguarda. A Lei era fronteira que dividia a humanidade em dois campos: os bons e os maus, os eleitos e os excluídos.». [ibidem, p.53]

Mas, quanto mais Jesus se vê excluído e réprobo, é quando mais se volta para Israel, a fim de encontrar aí as forças que lhe fazem falta para continuar o caminho por essa terra de ninguém.

«Quando, por um excesso de abertura, o seu caminho se desvaneceu ou desapareceu e o silêncio do abandono e da morte o envolveu por todos os lados, foram a fé e a esperança do seu povo que continuou a sustentá-lo. As suas raízes, as quais nunca renegara, protegeram-no da sua «itinerância» vadia e também do desespero. Mas nem sempre Deus nos espera ali onde estão as nossas raízes. Quanto mais nos arriscamos indo aos outros, tanto mais nos devemos aferrar às nossas raízes. No momento em que ele foi rejeitado por todos e até o próprio Pai se retirou de «por perto», Jesus encontrou o seu último apoio e a sua última esperança na fé e na esperança de Israel [Sl 22]». [ibidem, p.126]

Contudo, a distância que Jesus teve que manter face à religião institucional de Israel não procede de uma atitude negativa. «Jesus, de facto, não se apresenta como um reformador, como um contestatário, mas como o mensageiro de uma Boa Notícia. Mais do que denúncia, anúncio (…) A força silenciosa do mundo novo que chega, antes de ser uma crítica e uma contestação, é vida que transborda, se derrama e expande» (…) «Ver no evangelho um protesto é apoucá-lo, é fazer dele uma ideia muito pobre». [ibidem, p.50]

Jesus não é um contestatário rebelde. Não pretende dar lições a ninguém!

Jesus apercebeu-se como crescia, ao seu redor, a contestação a si próprio. Mas nem por isso se considerou fora da instituição. O seu distanciamento era da ordem do excesso e da abertura. O seu anúncio da Boa Nova tornou-se festa e libertação, e não apenas protesto contra a ordem estabelecida. É por isso que o seu distanciamento é profundamente criativo.

Jesus pretende ser o propulsor de uma abertura dentro do Judaísmo. Ele está convencido que há que introduzir, no sistema, uma brecha, que mais não é do que «a ferida do outro», a ferida do que é diferente. Para Jesus, a maneira de nos salvarmos não é dobrar-nos sobre nós próprios e sobre a nossa identidade, mas abrir-nos e tornarmo-nos portadores da nova proximidade de Deus.

«As raízes, por muito necessárias que sejam, não são suficientes. São mães que ‘dão à luz’, mas que também podem oprimir e asfixiar. O que elas contêm de verdade só matura quando o ser humano aceita a ferida da relação com o outro e se expõe à corrente da história, a qual, na sua diversidade, é a notícia dum Deus “maior”». [ibidem, p. 126]


JM Moreno
UP Comillas

DESMANTELAR O ESTADO SOCIAL PELO ENDIVIDAMENTO


Meia-noite na economia mundial


Jason Tester [Guerrilla Futures]


Quando a crise explodiu no fim de 2007, o prognóstico não era nada bom. Mas a gravidade do assunto foi disfarçada por uma terminologia inofensiva: falou-se de recessão, o que imediatamente convidava a examinar como seria a recuperação. O debate enquadrou-se numa discussão sobre a forma da recuperação.

Falou-se particularmente muito da possibilidade de uma recessão em forma de W, ou seja, com uma primeira queda seguida de recuperação e, posteriormente, de outra recaída. Hoje parece que esse prognóstico está prestes a cumprir-se. E é preciso não esquecer: as recaídas são piores.

Os principais pólos de crescimento da economia mundial estão em dificuldades e temos pela frente um longo processo de estagnação e de desigualdade crescente. A China está prestes a enfrentar a sua primeira crise capitalista severa. Convencionalmente foi apresentada como um modelo de sucesso, baseado num investimento pujante, mudanças tecnológicas e competitividade. Mas poucas vezes se reconhece que o seu sector bancário está a enfrentar graves problemas. O seu impressionante volume de crédito malparado é o resultado de uma política monetária e creditícia que propiciou o endividamento excessivo e a especulação imobiliária. Os empréstimos chegam quase aos 3 mil milhões de dólares e isso levou à especulação dos preços dos bens imóveis. O investimento em bens de raiz está saturado e existem apartamentos vazios com capacidade para 200 milhões de pessoas. A bolha imobiliária na China já atingiu proporções míticas e no dia que explodir os efeitos sentir-se-ão em todo o mundo. A pressão sobre os custos laborais intensifica-se, ao mesmo tempo que o sobreinvestimento gerou um excesso espantoso de capacidade instalada. Hoje, os rendimentos que serviram para justificar os investimentos de ontem não estão ao nível exigido para cobrir os custos e os encargos financeiros. As expectativas favoráveis dos investidores de anos passados podem não chegar a cumprir-se.

A China descobrirá que a essência do capitalismo tem dois pilares: por um lado o crescimento económico, impulsionado pela concorrência intercapitalista; por outro, a tendência para a instabilidade e para a estagnação. Em Pequim ficarão a saber que os motores do dinamismo e do crescimento são, ao mesmo tempo, os geradores da disfuncionalidade e da crise. Na União Europeia, a política de austeridade condena à estagnação. Não servirá para reactivar a economia através de uma hipotética redução das taxas de juro. Também não será útil para fomentar a criação de empregos. Nem sequer servirá para resgatar as finanças públicas porque a cobrança cairá e o endividamento terá de continuar.

Na sua corrida desenfreada para maximizar lucros, o capitalismo europeu pretende eliminar qualquer vislumbre de solidariedade com a classe trabalhadora, reduzindo custos laborais e suprimindo direitos nos locais de trabalho. Esse foi o sonho dos donos do capital: a submissão do Estado através do endividamento. Para desmantelar o que resta do estado social, a submissão política à esfera financeira é ideal.

Na Europa assistimos a uma obra-prima do engano e da manipulação: o colapso financeiro transformou-se em crise da dívida soberana dos países europeus, o que ameaça mesmo a sobrevivência da moeda única. A derrocada financeira que se gerou no sector privado converteu-se em crise das finanças públicas porque o custo gigantesco da crise se socializou, enquanto os lucros permaneceram na esfera privada. É um processo de uma grande violência social. Nos Estados Unidos, epicentro da crise, a política fiscal já foi dirigida para a austeridade. Dizer que os indicadores sobre emprego e evolução da indústria manufactureira são desanimadores é um eufemismo. Apesar disso, em Washington ninguém quer ouvir falar de incentivos fiscais para a economia, a começar pelo próprio Obama, demasiado ocupado com a recolha de fundos em Wall Street para a contenda eleitoral que se aproxima.

Em matéria de política monetária, o salva-vidas da flexibilidade quantitativa está prestes a desaparecer. A Reserva Federal não repetirá a injecção de liquidez adquirindo títulos do governo federal. De qualquer forma, até agora, os únicos que beneficiaram dessa política foram os bancos e as grandes corporações que viram a sua tesouraria afogada em liquidez. Há muito tempo que, nas economias capitalistas, o Estado deixou de ser uma instância para resolver os conflitos sociais (incluindo o da distribuição).

Mas agora o denominador comum é que o Estado se consolidou como agente do capital financeiro e como instrumento de dominação que rejeita as exigências da população. Cumpriram-se assim os mais caros anseios da classe capitalista e inicia-se uma nova etapa na história do capitalismo. Não será uma etapa longa e terá de ser solucionada no terreno da política.

Alejandro Nadal
La Jornada, 27:VI:2011