teologia para leigos

19 de junho de 2011

O QUE É O POPULISMO?

POPULISMO:
Resposta ilusória às ansiedades colectivas



De todas as vibrações sísmicas que abalam a democracia, o populismo é uma das mais preocupantes, porque, normalmente, anuncia uma inflexão para a ultra-direita. Como a democracia não é uma forma política imutável, antes, está exposta a contínuas torções, não podemos excluir que, presentemente, estejamos a atravessar uma dessas fases.

O facto de toda a Europa, com as únicas excepções da Espanha (enquanto dura!, a 29:IV:2011) e do Chipre [além de Portugal e da Grécia], ser dirigida por governos de direita não pode ser coincidência. A cada nova eleição é dado mais um passo: os recentes êxitos da ultra-direita na Finlândia parecem completar a série, até ver. Muitas dessas maiorias são populistas. O mais destacado é, sem dúvida, Berlusconi, em Itália, até pela interminável duração do seu mandato. Mas, no pódio, temos também Viktor Orbán, da Hungria, o Presidente francês Sarkozy e o primeiro-ministro holandês Mark Rutte.





Nos Estados Unidos, verifica-se um fenómeno semelhante: os opositores de Obama (de Sarah Palin a Michele Bachmann) são populistas “duros”, ainda que provavelmente nem conheçam o termo. Outros dirigentes latino-americanos seguem um caminho idêntico. Existem análises excelentes sobre o populismo (uma das melhores é a de Yves Mény e Yves Surel, professores de Ciência Política), mas, com os dados recentes, é necessário acrescentar alguns pontos. Vou distinguir dois ângulos de abordagem: o do poder e o do povo.

Do primeiro ponto de vista, o populismo baseia-se no «apelo» directo ao povo, sendo este entendido no sentido ‘vulgar’ de massa portadora de desejos e direitos, mas não de deveres. Daí a ideia de que o líder recebe o poder do povo de forma imediata (sem passar por entidades intermediárias de natureza abstracta, tais como o sistema representativo, as instituições, os órgãos e os poderes políticos). Também a ideia de que o líder faz parte do povo, que só presta contas ao povo e só recebe orientação política dele. (Claro que não é necessário que estas declarações reflictam uma convicção genuína: podem ser mera retórica.)



Mark Rutte, primeiro-ministro da Holanda


Há uma série de consequências que se baseiam nesta concepção. O corpo legislativo deve concentrar a produção de leis num programa supostamente desejado pelo povo. É quanto basta para fazer retirar dele tudo quanto possa ser perigoso para o líder. Na Itália, o Parlamento afadiga-se, há anos, numa reforma da justiça que é, na verdade, uma «domesticação» da magistratura e a procura de protecção dos poderosos contra o risco de serem acusados. Entretanto, negligenciam-se questões urgentes, como o conflito de interesses ou o relançamento de uma economia em risco.

Daqui resulta a impaciência contra a política e as instituições, a qual é uma das características fundamentais do populismo. As regras da política são apresentadas como resultado de «acordos desonestos»; as instituições, na qualidade de entidades que mantêm o Governo afastado do povo, são pintadas como lentas e surdas à vontade do povo; a complexidade conceptual do direito constitucional aparece como um peso inútil. É significativo que Berlusconi fale frequentemente de «comédia da política» (de que, aliás, ele próprio faz parte há 20 anos) e esteja sempre ausente das reuniões do Parlamento.





O populista sabe, também, que deve mostrar-se ao povo, replicando-lhe modos, preconceitos e lugares-comuns. Assim, o povo fica com a impressão, eficiente em termos eleitorais, de que é ele, povo, que realmente cria essas ideias, por que o que o líder faz, diz e pensa é precisamente aquilo que ele, povo, faz, diz e pensa! 




Esta permanente reprodução (sincera ou hipócrita) apresenta-se sob diferentes formas. Berlusconi explora descaradamente alguns costumes «populares» clássicos: diz imensas piadas de mau gosto, reduz questões políticas complicadas a chavões banais e até mesmo ordinários, demoniza grosseiramente os opositores, recorre descaradamente à mentira e a números inventados.



Viktor Orbán, Hungria


Na Hungria, Orbán orquestra uma campanha (denunciada pela socióloga Agnes Heller) para desacreditar os intelectuais, o que faz recordar tristemente os primórdios do nazismo… Até mesmo a linguagem do povo pode ser útil: o famoso termo «escumalha», de Sarkozy, é um exemplo; tal como o «fora di ball» (literalmente, ‘postos fora pelos tomates’), que Umberto Bossi, ministro da República Italiana, recentemente sugeriu como… solução para o problema da imigração. Desta forma, o povo fica com a impressão de que o líder é como ele, que fala como ele, que pensa como ele.

A culpa é dos «outros»

Do ponto de vista do povo, é fundamental, para o populismo, inventar um «outro», o bode expiatório que possa arcar com todos os erros. Em Itália, os «outros» são de vários tipos. Para Berlusconi, são os «comunistas» e os «juízes»; para a Liga do Norte são os habitantes do Sul, os ciganos e, pior ainda, os imigrantes (os «bongo bongo»); para a direita húngara são os ciganos e os intelectuais; para a direita francesa (na qual coloco, sem distinção, Sarkozy e Marine Le Pen) são os imigrantes e os jovens suburbanos. Esta lista é actualizada em função das necessidades.

Preservar o vínculo com o povo influencia o comportamento pessoal. Os «banhos de multidão», a que Berlusconi, numa imitação de Mussoline, se entrega com frequência, embora mais arriscados [veja-se a agressão com uma réplica da catedral de Milão em Dezembro de 2009], levam o povo a enganar-se a si mesmo e os poderosos a consolidar a sua posição. Berlusconi evoca, com frequência, o seu património.





Depois de prometer comprar uma casa em Áquila após o terramoto de 2009, repetiu a mesma promessa na ilha de Lampedusa («vou tornar-me um lampedusano») numa das suas visitas encenadas, tal como havia prometido albergar as vítimas de Áquila em três dos seus apartamentos. 





Não fez nada do que prometeu, mas a ligação com o povo saiu reforçada. As suas escabrosas aventuras sexuais parecem feitas para suscitar simpatia e inveja.


Timo Soini, d'«os verdadeiros finlandeses»


Neste contexto, a personalização mediática é decisiva: o líder tem de estar sempre sob os holofotes, a lançar mensagens, a criar um desejo de imitação, e um sentimento de afinidade. Na prática, tem de dar a impressão de estar em diálogo directo com os cidadãos (os quais não devem perceber que passaram, entretanto, a espectadores).

Resta entender o que leva as democracias à fronteira, perigosa, do populismo. Não podemos pensar que a democracia, uma vez instalada, é eterna: a sua natureza de «construção difícil» faz com que esteja sempre exposta a crises. Não podemos excluir que a modernidade, com o seu apelo insistente ao hedonismo, ao egoísmo e ao frenesim do consumo (como afirmei no meu livro Le Monstre doux: l´Occident vire-t-il à droit?, Gallimard, 2010; «O monstro tranquilo: estará o Ocidente a virar à direita?»], seja, ela própria, intrinsecamente «antidemocrática».

Neste sentido, o populismo pode ser uma manifestação de impaciência em relação à democracia, mais forte ainda porque emergem na cena política grupos portadores de poderosos interesses pessoais. E tudo piora quando se apresentam com a arrogância que é favorecida por um baixo nível cultural. Nesta interpretação, o populismo é o precursor político do fascismo, independentemente da versão e forma deste último. Elementos conjunturais acrescentam-se a esta característica estrutural: no presente momento da história da Europa, por exemplo, o populismo é a resposta, sob a forma de punição, aos fenómenos dramáticos da actualidade.

Acima de tudo, é uma resposta à imigração em massa e à sensação de que ninguém a controla; por outro lado, é uma resposta ao esbatimento das fronteiras, o que alimenta no povo o temor de que o «outro» venha a invadir a «sua» terra.



refugiados kosovares na Macedónia, 1999
 

Por outras palavras, o populismo é uma reacção a situações de «medo colectivo», genérica ou específica, como as que são características do nosso tempo. Antes que isto se volte a transformar num pesadelo, cabe às esquerdas (ainda que nem todos os seus líderes sejam imunes aos riscos do populismo), bem como às instituições europeias, tão expostas ao perigo como as instituições nacionais, assumir o desafio de lutar contra ele.

Raffaele Simone, linguista
Lemonde.fr

[in Courrier International, ed. portuguesa, nº184, Junho 2011, pp. 24-25]

18 de junho de 2011

ISLÂNDIA E DEMOCRACIA: UM EXEMPLO PARA SAIR DA CRISE


a Aula da ‘Senhora Democracia’





«Não temos de pagar
pelas loucuras dos bancos»





Ólafur Ragnar Grímsson [1943-], Presidente da Islândia há 15 anos, recusou por duas vezes promulgar uma lei que obrigaria os islandeses a compensar o Reino Unido e a Holanda pela falência de um dos seus bancos, no chamado «caso Icesave».

Numa entrevista que deu ao jornalista, do ‘El País’ (Madrid), Claudi Pérez, que o Courrier International – Maio 2011 (versão portuguesa) transcreve na página 43, respondendo à pergunta «Não parece disposto a dar o braço a torcer na questão do Icesave. Estará porventura a assumir um papel que não é o seu?», respondeu:

«Até agora, esta prerrogativa nunca tinha sido usada, mas vivemos tempos de grandes desafios. O essencial é que a Islândia é uma democracia, não um sistema financeiro, e que esta não é apenas uma crise económica: é uma crise política. Uma das razões por que a Islândia está a recuperar rapidamente reside no facto de o país estar a dar uma resposta democrática espantosa, e não apenas uma resposta financeira. (…)




«As anteriores condições de pagamento eram muito injustas: as novas são melhores, mas, se os islandeses vão ter de pagar uma dívida da sua banca, devem ter o direito de decidir




À pergunta «A Islândia deixou cair os seus bancos e processou os banqueiros. Considera isto como um modelo islandês de saída da crise?», respondeu:






«Talvez não nos restasse outra opção: os bancos eram tão grandes que não havia forma de os resgatar. Mas pouco importa se havia ou não outras opções: a Islândia não aceita a ideia de o cidadão comum ter de pagar a totalidade da factura pelas loucuras dos bancos, como aconteceu noutros países com as nacionalizações pela porta das traseiras.





«Volto ao meu argumento inicial: a solução para a crise não é meramente económica

A resposta é política - cerco do Governo pelos Islandeses até à queda

ROBERT BOYER - REGULAR O CAPITALISMO

«É preciso civilizar o capitalismo!»



Robert Boyer



Economista francês e um dos expoentes da chamada Teoria da Regulação, Robert Boyer adianta as medidas que deveriam ser implementadas já para superar a gravíssima crise em que mergulha o capitalismo ocidental e para promover uma globalização diferente.

Primeira medida. Mudança radical do modelo de governação da banca - tornar os bancos e as instituições financeiras em auxiliares dos poderes públicos. A solução não passaria pela nacionalização, mas pela inclusão de novos actores na direcção dos bancos, ficando estes sujeitos a avaliação pública permanente. Que ‘novos actores’? Representantes dos consumidores, de empresas não financeiras, de assalariados, de colectividades públicas e de cidadãos… [vide o «caso alemão» - in “O segredo do milagrão alemão”, Courrier International, ed. em português, Maio 2011, p.47-48; ou revista Sistema Digital, Madrid]

Segunda medida. Travar a tirania do valor accionista que pesa sobre a gestão quotidiana das empresas, através do reconhecimento jurídico do poder de informação e de negociação dos assalariados e de todas as partes interessadas que contribuem para o desempenho das mesmas empresas.

Terceira medida. Reforma fiscal, no sentido da progressividade dos impostos e da eliminação das isenções de que beneficiam os rendimentos do capital e as mais-valias financeiras.

Estas duas últimas medidas introduziria regulação na desregulada concorrência internacional, a qual mina e destrói os laços sociais e a solidariedade no interior das sociedades nacionais. Evitar-se-ia, assim, uma «globalização sem regras», a qual levou ao recuo da democracia e ao poder exorbitante do dinheiro sobre a política.

“Civilizar o capitalismo”, por exemplo, seria reavivar os mecanismos democráticos, quer dentro das empresas, quer na política, no sentido de «um cidadão, um voto» e não no sentido de «uma influência política proporcional à fortuna» uma «influência legislativa». Isto seria tão importante para as ‘velhas democracias’ (Europa e EUA), como para os recém-chegados à democracia (China e «emergentes»).

Quarta medida. O regresso à separação entre bancos comerciais e bancos de investimento e um novo princípio remuneratório de todos os agentes financeiros, em função do lento regresso dos lucros efectivamente realizados e não com base nos lucros previsíveis. Refrear a especulação e favorecer a distribuição menos eficaz do capital – as ‘novas regras prudenciais’ de Basileia-III. Reforço da supervisão por parte dos Bancos Centrais com definição de regras apertadas (fixação de taxas de juros; recurso à ‘taxa de reserva obrigatória’ dos bancos para travar o descontrolo do crédito e para regularizar a liquidez conjuntural e sectorial, distinguindo entre crédito à habitação, investimento produtivo, consumo e… especulação!). Uso da «Taxa Tobin» [taxação sobre todas as entradas de capital especulativo] como filtro para defesa face aos ataques especulativos (como o fazem já o Brasil, o Chile e a Suíça).

Porque será que nem no Canadá, nem na Alemanha vimos surgir a «bolha imobiliária»? Em ambos os casos, o controlo por parte do país (dos pequenos bancos estaduais e dos bancos de colectividades) permitiu evitar o descalabro.

[in COURRIER International, edição em português, Maio 2011, p.41-42]
[em quase todo o post se seguiu quase à letra o original, mas não se trata de reprodução ipsis verbi]

COMPETITIVIDADE, UM MITO

MALDITA COMPETITIVIDADE!




Juan Francisco Martín Seco
‘Público’, MADRID


Até agora chamado ‘PACTO PARA A COMPETITIVIDADE’ acaba de ser rebaptizado como ‘PACTO PARA O EURO’, mas o conteúdo é o mesmo. Não pretende tornar as economias mais produtivas mas apenas mais competitivas. Tem sempre, como referência, um outro: competir é coisa para pelo menos dois. Todos os países podem tornar-se mais produtivos (produzir mais recursos idênticos ou conseguir o mesmo com menos recursos) ao mesmo tempo, mas nem todos podem tornar-se simultaneamente mais competitivos.

Um país ganha competitividade desde que outros a percam. A competitividade não aumenta o tamanho do bolo: só tira uma fatia ao vizinho. Daí a enorme contradição de Angela Merkel. Do ponto de vista do conjunto da zona euro, a estratégia de impor a sua política anti-social aos Estados-membros – salários mais baixos, pensões de reforma menores, piores serviços públicos, etc. – dificilmente terá outro efeito que não seja redistribuir o rendimento em prejuízo dos trabalhadores e a favor do capital.





Não tornará as economias mais competitivas. Primeiro, porque não há garantia de que os custos mais baixos se reflictam nos preços e, de qualquer modo, porque, se todos os países aplicarem a mesma política, os efeitos anular-se-ão. O G-20 chegou à conclusão – com a concordância da Alemanha – de que as desvalorizações competitivas não são o mecanismo adequado para obter uma maior quota de mercado. A única coisa que se conseguiria seria o caos nos mercados de câmbios e o gerar dum clima de instabilidade monetária: todos os países iriam lançar-se numa corrida infindável para desvalorizar as respectivas moedas. Então, por que razão não se aplica o mesmo critério, quando se trata de reduzir salários, de regular o mercado de trabalho ou de baixar os impostos e as cotizações sociais?

Também, nestas matérias, os outros governos aplicariam medidas semelhantes e, no final, ficaria tudo na mesma, uma vez que a competitividade é um jogo de soma zero.




Bem, nem tudo: os trabalhadores viveriam infinitamente pior e seriam destruídos muitos elementos desse Estado social que, com tanto esforço, temos vindo a tecer ao longo dos anos.

[in COURRIER International, versão portuguesa, Maio 2011, p.48]

STRAUSS-KAHN, UMA METÁFORA DO F.M.I.


Strauss-Kahn
uma metáfora das práticas do FMI





O leitor ou leitora pensará que foi uma tragédia o fato de o Diretor-gerente do FMI, Strauss-Kahn, ter dado asas ao seu vício, a obsessiva busca por sexo perverso, nu, correndo atrás de uma camareira negra na suite 2806 do hotel Sofitel em Nova York, até agarrá-la e forçá-la a praticar sexo, com detalhes que a Promotoria de Nova York, descreve em detalhes e que, por decência, me dispenso de dizer.

Para ele não era uma tragédia. Era uma vítima a mais, entre outras, que fez pelo mundo afora. Vestiu-se e foi direto para o aeroporto. O cômico foi que, imbecil, esqueceu o celular na suite e assim pôde ser preso pela polícia ainda dentro do avião.

A tragédia ocorreu não com ele, mas com a vítima que ninguém se interessa em saber. Seu nome é Nafissatou Diallo, da Guiné, africana, muçulmana, viúva e mãe de uma filha de 15 anos.

A polícia encontrou-a escondida atrás de um armário, chorando e vomitando, traumatizada pela violência sofrida pelo hóspede da suite, cujo nome sequer conhecia.

A maior parte da imprensa francesa, com cinismo e indisfarçável machismo, procurou esconder o fato, alegando até uma possível armadilha contra o futuro candidato socialista à Presidência da República. O ex-ministro da cultura e educação, Jacques Lang, de quem se poderia esperar algum esprit de finesse, com desprezo, afirmou:"Afinal não morreu ninguém".

Que deixe uma mulher psicologicamente destruida pela brutalidade do Mr. Strauss-Kahn não conta muito. Finalmente, para essa gente, se trata apenas de uma mulher e africana. Mulher conta alguma coisa para este tipo de mentalidade atrasada, senão para ser mero "objeto de cama e mesa"?

Para sermos justos, temos que ver este fato a partir do olhar da vítima. Aí dimensionamos seu sofrimento e a humilhação de tantas mulheres no mundo que são sequestradas, violadas e vendidas como escravas do sexo. Só uma sociedade que perdeu todo o sentido de dignidade e se brutalizou pela predominância de uma concepção materialista de vida que faz tudo ser objeto e mercadoria, pode possibilitar tal prática.

Hoje, tudo virou mercadoria e ocasião de ganho desde os bens comuns da humanidade, privatizados (como água, solos, sementes), até órgãos humanos, crianças e mulheres prostituídas. Se Marx visse esta situação ficaria seguramente escandalizado, pois para ele o capital vive da exploração da força de trabalho mas não da venda de vidas.

No entanto, já em 1847, na Miséria da Filosofia, intuía: "Chegou, enfim, um tempo em que tudo o que os homens haviam considerado inalienável se tornou objeto de troca, de tráfico e podia alienar-se. O tempo em que as próprias coisas que até então eram comunicadas, mas jamais trocadas, dadas, mas jamais vendidas: adquiridas mas jamais compradas como a virtude, o amor, a opinião, a ciência e a consciência, em que tudo passou para o comércio. Reina o tempo da corrupção geral e da venalidade universal....em que tudo é levado ao mercado".

Strauss-Kahn é uma metáfora do atual sistema neoliberal.

Suga o sangue dos países em crise como a Islândia, a Irlanda, a Grécia, Portugal e agora a Espanha como fizera antes com o Brasil e os países da América Latina e da Ásia.

Para salvar os bancos e obrigar a saldar as dívidas, arrasam a sociedade, desempregam, privatizam bens públicos, diminuem salários, aumentam os anos para as aposentadorias, fazem trabalhar mais horas. Só por causa do capital. O articulador destas políticas mundiais, entre outros, é o FMI, do qual Strauss-Kahn era a figura central. O que ele fez com Nafissatou Diallo é uma metáfora daquilo que estava fazendo com os países em dificuldades financeiras.




Mereceria cadeia não só pela violência sexual contra a camareira mas muito mais pelo estupro econômico ao povo, que ele articulava a partir do FMI. Estamos desolados.
 
Leonardo Boff,  Teólogo/Filósofo
16 de Junho de 2011

O «REINO DESTE MUNDO», OS SACERDOTES E OS EMPRESÁRIOS

Deus amou tanto o mundo...






«Deus amou tanto o mundo,  que deu o seu Filho unigênito,  para que não morra todo o que nele crer,  mas tenha a vida eterna.  De fato, Deus não enviou o seu Filho ao mundo para condenar o mundo,  mas para que o mundo seja salvo por ele.  Quem nele crê, não é condenado, mas quem não crê, já está condenado, porque não acreditou no nome do Filho unigénito.» [Jo 3,16-18]


Um termo bastante interessante no evangelho de João é o conceito "mundo". Jesus amou tanto o mundo, mas ao assumir a sua realeza diante de Pilatos, teria dito: "Meu reino não é deste mundo" (Jo 19,33).

Para o Evangelho de João, o que é o mundo? É o espaço para o qual foram atiradas as comunidades cristãs, espaço infelizmente tomado pela maldade, dominado pela cobiça do Império Romano.

No intuito de justificar seu comportamento religioso teoricamente apolítico, pessoas e grupos "espiritualizam" o movimento de Jesus. Ao dizer que seu reino não é deste mundo, Jesus estaria pensando no pós-morte ou estaria se apresentando como "rei espiritual" dos judeus. Infelizmente, muitos dos que defendem essa postura, se líderes religiosos, vivem atrelamentos vergonhosos com políticos e empresários. E, se políticos ou empresários, quase sempre pedem as bênçãos de um líder religioso para suas ações e seus empreendimentos financeiros.


[NOTA DO EDITOR - vide: a entrevista do Padre Américo Aguiar, da Confraria da igreja, secretário episcopal, na RDP, acerca da Festa e do Restauro da Igreja e da Torre dos Clérigos, no Porto, para o aniversário dos 250 anos daquela igreja, em 2012; «contamos com sponsers para o restauro e obras... contamos com mais 'UMA AVENTURA' de Isabel Alçada e Ana Mª Magalhães... contamos com Germano Silva... e com o Mestre Hélio Loureiro para fazer um bolo do tamanho da Torre dos Clérigos... Também, não é justo que toda a gente 'faça dinheiro' com a imagem da Torre dos Clérigos sem que a Confraria lucre o que quer que seja...»]


Ora, ao afirmar a Pilatos que seu reino não é deste mundo, Jesus na verdade está apontando o dedo e afirmando: "Meu reino não é segundo este seu mundo". A proposta de Jesus não é de acordo com (melhor tradução do original grego) o mundo do império.

Se para o império não há espaço para misericórdia e salvação, para o Reino, conforme o Evangelho de João, sempre há espaço para o perdão: "Deus não enviou o seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por ele." A salvação do mundo, entretanto, depende de duas coisas extremamente escandalosas: a partilha (Jo 6) e o poder exercido como serviço" (Jo 13).

Amar esse mundo para transformá-lo significa ter coragem de viver o escândalo da cruz como dizia Paulo: o escândalo da partilha!

Edmilson Schinelo,
Sexta-feira, 17 de Junho de 2011
CEBI

17 de junho de 2011

VÍDEO - O QUE NOS VAI CERCANDO

e, depois de tudo, permaneçamos unidos... apesar de tudo...

 
o maior desastre é não dar conta do enorme desastre que nos vai cercando, sorrateiramente a todos